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És a nossa Fé!

Memórias a propósito do Braga-Porto

Não tenho acompanhado os jogos portugueses, literalmente perdi a paciência. Não é a primeira vez que isto me acontece. A primeira vez, assim tão radical, foi no início dos anos 1990s. Tinha por costume ir ver os jogos em casa, antes na superior, depois na "bancada nova". Num Sporting-Porto, que terminou 0-0 (1990?, 1991?, por aí ...), saí tão irritado com o árbitro - um mariola muito sabido, que controlou o jogo com "faltas" e "desfaltas" a meio-campo, assim sem ter que recorrer aos "roubos de catedral" - que jurei não voltar aos estádios. Com efeito, para quê gastar dinheiro e, fundamentalmente, tempo, em algo que se sabe estar viciado? Só regressei a Alvalade para ver o Real Madrid (1994/1995), numa eliminatória que o Sporting ingloriamente perdeu por défice de guarda-redes.* Já emigrado, durante umas férias no país em 2002, ali voltaria ainda para me despedir do estádio antes da sua patética demolição - a estupidez de construir um estádio novo em vez de um municipal é uma coisa tão vergonhosa que os adeptos continuam a falar de outras coisas -, numa derrota caseira contra o Porto, mas tendo tido o prazer de ver o recém-titular Quaresma, então em puro estado mustang, e também um jovenzito ex-júnior (como se dizia antes desta patetice de chamar "academia" às escolas de jogadores), um tal de Cristiano.

Depois, neste novo Alvalade - um estádio feio, piroso mesmo, mal-construído, como se percebeu pela rábula do relvado, e desconfortável, de tão empinado que é - estreei-me, também quando em férias, para ver o Inter ainda com Figo. Percebi que estava velho para este desporto de bancada. Ainda via bem, só usei óculos para ler passados uns anos, e levei cerca de 10 minutos para reconhecer o Figo, lá em baixo no relvado. Pagara 13 ou 14 contos pelo bilhete (65-70 euros, qualquer coisa assim) e estava tão acima que nem percebia em quem eram os jogadores! Após regressar a Portugal fui para aí 10 vezes ao estádio: levei a minha filha a estrear-se, a seu pedido; levei os meus sobrinhos-netos; um afilhado de casamento moçambicano (benfiquista); velhos amigos que nunca lá tinham ido, pretexto para patuscadas; a convite de um amigo com quem venho ombreando desde os tempos da primária (e da superior do velho estádio); a convite de afilhado. Sempre coisas assim, sempre com algum motivo para além do jogo ou do clube.

Enfim, dito isto não serei um adepto exemplar, principalmente para gente que se orgulha de "não perder um jogo", como se disso retirassem um qualquer mérito. Estar no estádio é bonito, dá azo a sensações extra-ordinárias, fora do quotidiano? Sim, tal como os jovens adoram discotecas, são modalidades ruidosas e colectivas de atingir formas de êxtase, episódico. Para esses "meritocratas" um tipo opor que essa coisa do "êxtase", um lampejo de suprema alegria que os pobres de espírito confundem com felicidade, pode ser encontrado num registo privado (ou mesmo solitário) - num trecho de um livro, numa música, num vinho especial, numa desgarrada de gargalhadas, num estremecer feminino (ou masculino, para não me acusarem de homofóbico), num cena bíblica exposta numa penumbra eclesiástica, num belo debate - é sempre apupado como dado à "intelectualice", quando não à mera "cagança" - e isto mesmo se o exemplo for o tal erótico, pois nesse eixo de entendimento, o da idolatria do adeptismo, o importante é o "golo", um gajo vem-se, limpa-se às cortinas, e abala. Enfim, há gente que para prescindir do hamburguer só se for para se dedicar ao bitoque. Ou à bifana. Por mim gosto de bifanas e de bitoques, da festa do "golo!!!!". Mas, e repito-me, esta coisa do jogo estar mafiado cansou-me. Enjoei hamburgueres. Sim, tem piada (tem "mérito", para os meritocratas do "não falho um jogo", "amo o clube" - meu Deus clamo, ateu que sou, sempre que ouço estes "amores" a um mero clube da bola) que os "nossos" rapazes ganhem, jogando limpo, com um bocado da malandragem (o "pisão" do bom do Jorge Andrade) necessária à vida. Agora assim, no meio do mais puro aldrabismo? Passei. 

Tudo isto me veio à memória ao ver imagens do resumo do jogo Braga-Porto para o campeonato. Lembrou-me um Braga-Porto de início de 1990, não posso precisar o ano. Mesmo no final do jogo, com o resultado a 0-0, o árbitro (que julgo ter sido um tipo chamado Fernando Correia) marcou um penálti escandaloso contra o Braga, inventando uma mão na bola mesmo à sua frente. Uma óbvia encomenda. Acho que o Porto, para cúmulo do ridículo, falhou o penálti (Kostadinov?), mas isso pouco importa. Passaram quase trinta anos. Ao fim de anos a fio a pedir-se a introdução das "novas tecnologias", como se estas viessem dar "novas oportunidades" a um negócio desacreditado, em plena era do VAR o Porto vai a Braga e a equipa de arbitragem rouba descaradamente o clube da casa. Tal e qual os maus velhos tempos.

E lembrado disso fui googlar imagens ou informações desse velho jogo. Não encontrei mas os algoritmos conduziram-me a uma bela entrevista de Manuel José, publicada em Agosto de 2018. Muito  interessante, é uma "história de vida", cheia de episódios sumarentos, tanto sobre o mundo do futebol desde a sua juventude até ao seu apogeu como técnico em Portugal, com referências a inúmeros agentes conhecidos. E também sobre as suas presenças no estrangeiro. Mais interessante ainda pois  Manuel José aborda os contextos laborais e sociais das épocas passadas, constituindo um lampejo da história social do país através do futebol. Tudo isso narra, com interesse, humor, sageza, e uma apreciável franqueza, até com episódios algo pícaros. A primeira parte dessa belíssima entrevista está aqui, e a segunda aqui.

Ora é nessa segunda parte que ele diz, sem complexos, que "naquela época" [a década de 1990] "compravam-se equipas de arbitragens como se fossem tremoços". E que ele próprio aconselhou determinado presidente do clube no qual estava a comprar árbitros para ser campeão. O futebol era assim, como havia sido em décadas passadas.

E assim continua a ser. Mostra-o o jogo de Braga. Aliás, mostra-o os jogos de Braga. O da roubalheira do jogo da Liga, a cargo de um tal de Xistra, ao que julgo lembrar (vai sem google). E o da meia-final da Taça, importante jogo apitado por aquele Mota, assim recompensado da inacreditável expulsão de Ristovski no jogo anterior.

Honestamente, o que me custa a entender é o masoquismo generalizado (e também o meu), décadas passadas de "paixão" (e alguns, coitados, até de "amor") por um jogo que é esta javardice. Não está uma javardice. É esta javardice.

 

*Para confirmar a data pesquisei o jogo. Encontrei a ficha do jogo. O Sporting alinhou com Lemajic, Nelson, Marco Aurélio, Valckx, Paulo Torres, Oceano, Figo, Peixe, Sá Pinto, Juskowiak, Balakov. Ontem o Pedro Correia fez um postal interrogando os leitores sobre que jogadores deveriam sair. Um tipo vê a qualidade individual de uma equipa de há 25 anos e constata que tirando o guarda-redes, que destoava, todos entravam sem qualquer hesitação na equipa actual. E nisso se percebe o quanto decaíu o clube neste quarto de século.

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