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És a nossa Fé!

Hoje giro eu - Cultura/Ser Sporting

Quando falamos em cultura corporativa, referimo-nos a um conjunto de princípios, atitudes e comportamentos existentes numa Organização que criam um elo identificador entre sócios e/ou accionistas, administração e colaboradores. Quando a cultura é forte, todas as pessoas directa ou indirectamente relacionadas adoptam uma postura diferente daquela que têm lá fora, absorvendo assim os valores da Organização. Quando a cultura é fraca, tudo o que de negativo vem de fora é trazido para o dia-a-dia da Organização.

 

Os acontecimentos recentes demonstram que é urgente produzir um reforço da nossa cultura corporativa. O que é ser do Sporting e o que é hoje um Ser do Sporting? Na procura desse padrão de identidade único, a pior coisa que se pode fazer é multiplicar essa identidade. Os “sportingados”, os “croquettes”, os "melancias", os “verdadeiros sportinguistas” significam, no caso concreto, uma dispersão de conceitos perfeitamente evitável e que, para além de causar confusão na mente das pessoas, não apela à união. O marketing criou o “Feito de Sporting”, o que me pareceu bem, mas depois falta uma narrativa por detrás da expressão, algo que arregimente à volta do clube. Mais do que “o que” fazemos ou “como" fazemos, o que cria laços com as pessoas é o “porquê”. Vejam os exemplos da Apple, de Martin Luther King e dos irmãos Wright. A Apple não vende um produto, cria um novo conceito, um nova modo de utilização, revolucionando paralelamente o mundo dos computadores, da música, dos telemóveis, etc. O Dr King teve muito mais sucesso que os pregadores do seu tempo. Enquanto outros bebiam do ódio racial, Martin disse “I have a dream”, sonhando que brancos e pretos um dia seriam iguais. Os irmãos Wright tinham uma pequena loja de bicicletas e uma paixão genuína por voar. Paralelamente, Samuel Pierpont Langley era rico, tinha um financiamento de 50.000 usd (na época) do departamento de Guerra americano e acompanhamento do NY Times. A verdade é que os irmãos Wright foram os primeiros a voar. Langley desistiu por não ter sido o primeiro. A sua motivação não era voar, mas sim a vaidade, o reconhecimento de ter sido o primeiro, uma motivação errada. Não somos o “glorioso”, nem temos a "causa do Norte" e da descentralização, pelo que temos de descobrir a nossa própria cultura, o que é “Ser Sporting”, a razão de aqui estarmos. E depois, partilhar o nosso sonho com o nosso mercado-alvo. William Bruce Cameron um dia disse que “nem tudo o que pode ser contado conta, nem tudo o que conta pode ser contado”. Atendendo a que somos um clube com menos títulos que os outros dois, mas que sempre (espero que as notícias recentes não tenham delapidado essa noção) pugnou por um comportamento desportivo exemplar, julgo que estas frases se aplicariam como uma luva à nossa narrativa. Para além de que deveríamos reflectir na razão pela qual ganhando muito pouco (no futebol) conseguimos manter, passando sportinguismo de geração em geração, um número de simpatizantes que representa cerca de 3,5 milhões de portugueses.

 

Nesse sentido, urge encontrar factores de diferenciação face à concorrência. Oiço, recorrentemente, críticas à aposta nas modalidades e fico atónito. Na verdade, uma constante narrativa pós-moderna, emanada do início do milénio, produziu em sócios e adeptos a ideia que as modalidades impediam a canalização de maior investimento para o futebol. Nada mais errado, o desinvestimento que fizemos nesses tempos nas modalidades acabou foi por retirar identidade ao clube, o qual sempre se afirmou pelo ecletismo. O efeito prático disto foi o fecho de uma série de modalidades, seguido de enormes gastos na construção de um novo estádio, o qual teve um orçamento que resvalou em dezenas de milhões de euros e, ainda por cima, apresentou durante anos um relvado que mais parecia um batatal. É o que se chama confundir cultura com agricultura... Convém não nos esquecermos que a história do Sporting é feita do Professor Mário Moniz Pereira, de Carlos Lopes - primeiro campeão olímpico português -, de Fernando Mamede - antigo recordista do mundo dos 10.000 metros -, de Joaquim Agostinho, 3 vezes seguidas vencedor da Volta a Portugal (2 pódios na Volta a França, 1 pódio na Volta à Espanha) e melhor ciclista português de todos os tempos e de Chana e Livramento, os melhores hóquistas que o mundo viu.

 

O Sporting deve afirmar-se como um clube do Renascimento, com uma capacidade criadora, reformadora, de mudança de paradigma (o status-quo) e que valorize os seus sócios e as suas opiniões (não podemos querer discutir tudo externamente e internamente reduzir a discussão), com respeito pela integridade das competições, o objectivo de promover um desporto melhor, mais justo, equilibrado e íntegro, tudo assente numa cultura de excelência, compromisso e superação. Nunca, em circunstância alguma, deveremos importar modelos que funcionem com outros, mas que não respeitem a nossa idiossincrasia e/ou os nossos valores e que criem um choque com o que são os valores tradicionais sportinguistas. A cultura de uma organização não pode estar nos antípodas do que é a personalidade e o carácter dos seus colaboradores e accionistas/sócios.

 

Há algumas coisas que me fazem alguma confusão quando olho para a nossa secção de futebol profissional. Os jogadores de futebol não são prestadores de serviços, mas sim quadros do clube. No futebol, a cultura corporativa é designada por mística (um jargão do mundo do ludopédio) e refere-se à união de todo um grupo de trabalho, de forma a que o todo se sobreponha sempre à soma das partes. Uma equipa de futebol não pode ser uma ilha e ela necessita dos sócios, adeptos e simpatizantes para que se possa sentir defendida, acarinhada e apoiada. Por isso, urge retirá-la um pouco do isolamento de Alcochete e aproximá-la do coração do clube (Alvalade), dos seus adeptos (não confundir com hooligans) e de atletas de outras modalidades, numa convivência de leoninidade que se pretende salutar.  Marcar-se um treino matinal semanal em Alvalade (às quartas-feiras?) seguido de um "day-out", à tarde, com os sócios e atletas das modalidades, seja através de actividades de team-building, seja através de apoio ao merchandising (com sessões de autógrafos) na Loja Verde, seja através de seminários organizados pelo Sporting que visem acautelar o futuro profissional dos jogadores (criando aquele factor diferenciador que os jogadores reconhecerão), pós cessação da sua carreira desportiva, em matérias como gestão de empresas, liderança, literacia financeira, etc.

 

Gostaria também de ver um ex-jogador, campeão pelo Sporting, como Director para o Futebol, que fosse capaz de ser um fio condutor entre a história centenária do clube e o balneário, com o objectivo de se conseguir uma cultura de exigência, a todos mobilizando no sentido da atitude e compromisso necessários para lá chegar. Em traços mais gerais, e visando todo o clube, criaria um Comité de Inovação, forum onde todo o tipo de colaboradores do clube estaria representado. O clube podia promover um concurso de ideias para funcionários/sócios, oferecendo um prémio simbólico como forma de motivar as pessoas a apresentarem-nas. Lembro-me sempre daquele episódio académico, salvo erro na Colgate, onde foi aberto um concurso interno em que se pediam ideias a todos os funcionários sobre como aumentar as vendas. O vencedor foi o motorista da empresa, que preconizou que se aumentasse o bocal das bisnagas de dentífrico...

 

A ideia de exigência no plantel profissional de futebol é algo que me agrada e que penso necessita de ser reforçada, mas isso não pode ser imposto de uma forma autoritária, repressiva e, perdoem-me, imatura. Deve, isso sim, ser obtida com inteligência através de um conjunto de práticas, procedimentos e atitudes, em que o exemplo deve sempre vir de cima. Para tal, o papel do líder é fundamental, pois dele deve vir sempre o exemplo, para lá de ter de saber criar as condições para a implementação dessa cultura. Hoje em dia, as maiores empresas mundiais recorrem a gurus de atitudes comportamentais com resultados rápidos e bem visíveis, pelo que o Sporting deve sempre seguir os melhores exemplos e ser capaz de exibir as melhores práticas.

 

Emparedado em Lisboa pelo Benfica e no Norte pelo Porto, o Sporting necessita de ser um “first mover”. Como tal, tem de ser inovador, ter uma orientação para o crescimento e estar disposto a correr alguns riscos. 

 

Em resumo, e de forma a afirmarmos a cultura Sporting, temos de perseguir os seguintes factores de diferenciação (isso sim justificará a expressão "somos diferentes"):

  • Boas práticas de gestão
  • Respeito pela integridade de todas as competições
  • Ausência de conflito de interesses
  • Transparência
  • Limitação dos mandatos de um presidente (2 mandatos)
  • Compliance
  • Clube renascentista, com ideias e sempre virado para os seus sócios
  • Inovação constante
  • Research&Development: scouting de jovens valores/desenvolvimento na Formação
  • Sustentabilidade assente na Formação
  • Dois Bolas-de-Ouro e 1 Bola-de-Prata formados no nosso clube
  • Sustentabilidade assente em défice de exploração ZERO
  • Gerador das grandes transformações do futebol português
  • Orgulho no nosso ecletismo
  • Clube do primeiro campeão olímpico português
  • 29 Títulos europeus em Atletismo, Andebol, Hóquei em Patins, Futebol e Goalball
  • Excelência, compromisso e superação

 

Amanhã voltarei com o segmento "Princípios/Ética". Então, até amanhã! Viva o SPORTING!!!

2 comentários

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    Pedro Azevedo 23.07.2018

    Bom dia caro Sporting Sempre,

    vou tentar comentar ponto por ponto:

    1) percebo a ironia, mas temos de ver mais para a frente. Nos últimos 36 anos, ganhamos duas vezes. Não creio que se possa imputar isso a alterações no lema. Aliás, o nosso problema, por vezes, é confundir tudo. Os últimos meses de Bruno de Carvalho foram intoleráveis e jamais voltarei a votar nele, mas houve diversas coisas bem feitas para trás. Eu vejo o lema como um ponto de partida. Não se deve confundir a necessária cultura de exigência que um clube grande deve ter com a desastrosa aplicação prática sob forma de gestão de recursos humanos recentemente observada. Se quer que lhe diga, até acho que esforço, para um profissional, parece-me pouco. O mínimo que se deve exigir a um profissional é que seja digno da sua profissão. Mas, um lema não basta. É necessário saber expressá-lo no dia-a-dia e isso é bem mais difícil. Daí as sugestões que faço em si, da forma como penso que se deveria implementar;

    2) Pois, essas coisas devem ter um outro escrutínio. Não conheço dados sobre a derrapagem do pavilhão, pois não tenho acesso ao contrato com a construtora e não vi nada no R&C que indique isso. Em todo o caso, julgo que a existência de um Manual de Procedimentos transversal a todo o clube, que contivesse também regras claras sobre contratos e sua adjudicação, ajudaria a mitigar este tipo de ocorrências. De acordo com o resto do que diz: um estádio que fica aquém, um pavilhão bonito;

    3) Não conheço em detalhe o deve/haver entre clube e SAD. Sei, e vou verificar melhor isso, que houve uma dívida importante da SAD ao clube. Adicionalmente, durante anos, parte ou a totalidade (não tenho presente) das quotas dos associados do clube iam para a SAD, o que também não me parece bem. Eu sou sócio do Sporting clube de Portugal e não de uma SAD, que aliás é uma sociedade anónima, onde não há sócios mas sim accionistas.

    Em relação às glórias das modalidades como não recordar Ramalhete, Rendeiro, Sobrinho (estamos de luto), Chana e Livramento, mas também Carmelindo, Garrido, Jorge e Carlos Alberto seus suplentes? Lopes, Agostinho, Mário Albuquerque ou Rui Pinheiro, pois claro, todos parte da história do Sporting. Quanto a ser diferente agora, enfim, os tempos são diferentes. Mas, Portela (que saiu agora), Frankis e Edmilson Araújo, por exemplo, jogam há muitos anos por nós, no andebol; Girão já cá está há uns anos, no hóquei; Miguel Maia foi um regresso que se saúda e como não falar de João Matos ou Cary (e antes Benedito). Vejo-os a todos como leões!

    Saudações Leoninas
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