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És a nossa Fé!

Era só um e chamava-se Peyroteo (2)

«A entrevista do juvenil contentamento

 

Era uma loja de artigos desportivos na Rua Nova do Almada. Eu e mais dois confrades da equipa de futebol do liceu entrámos (estou a ver-nos) bem tímidos, o gesto mal aplicado, a palavra incerta, em missão de formidável responsabilidade: entrevistar o dono da loja, figura relevante da constelação futebolística nacional, para o nosso jornal desportivo, escrito à máquina, com seis cópias tiradas a papel químico, que depois eram vendidas ao mais alto preço possível, quase em atmosfera de pequeno leilão, a fim de obtermos finanças para amortecer as despesas do aluguer dos campos e dos equipamentos para os jogos que fazíamos aos sábados e aos domingos. A entrevista saiu, creio, no número três, o último, tinha-nos falido a paciência e o tempo, e que também incluía noticiário sobre o nosso liceal clube e «comentário técnico» ao último desafio que tínhamos efec- tuado no nosso completamente amador, nada oficial e quase ilusório campeonato de futebol. Estou a lembrar-me. E parece poeira.

O entrevistado, bastante avançado no tempo como na equipa em que jogava, tratou-nos com uma deferência e uma atenção de primeira qualidade. Quebrou gelo, naturalizou o acontecimento, facilitou a tarefa, iludiu a admiração que manifestávamos, retirou o sobressalto à carga mítica da ocasião - e acabou por perguntar mais do que respondeu; perguntou da escola, dos sonhos e das vontades, de tudo e de nada. Eufóricos, dado que o impossível estava a acontecer, registámos os passos da conversa. O jornal onde tudo ficou escrito perdeu-se no lugar dos esquecimentos e das mudanças dos esquecimentos. Se algum de nós, fora eu, ainda tem um exemplar, e está a ler, passe-o ao herdeiro mais próximo: é património caloroso.

Dou ainda, de lembrança vaga, esboço do diálogo final.

O entrevistado:

- Já têm tudo o que querem saber? Depois, tragam- -me um exemplar.

Nós (quase em uníssono):

- Trazemos. Pode ficar descansado.

O entrevistado:

- Fazem uma entrevista em cada número?

Nós:

- Queremos fazer.

O entrevistado:

- Dou-lhes um conselho. Mudem de clube. Entrevistem, depois, alguém do Benfica, do Belenenses...

Nós:

- E isso que vamos fazer.

Despedimo-nos com aperto de mão. Crescemos um palmo e subimos a Rua Nova do Almada. Com uma mina de ouro no sentimento: levávamos, no papel, as palavras limpas e a simplicidade humana do comandante legítimo dos quatro violinos que jogavam à sua direita e à sua esquerda.

O senhor Fernando Peyroteo. (Chegado aqui, sei que os mais velhos que me lêem já tinham adivinhado, porque já sabiam.)

Fecho da efeméride: um dos nossos estafetas deixou, em tempo, um exemplar na loja.

Existirá ainda?»

 

In: MACHADO, Dinis - A liberdade do drible : crónicas de futebol. 1ª ed. Lisboa : Quetzal, 2015. p. 65-67

(texto original no jornal A Bola de 28 de Março de 1995)

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