Eduardo resolveu: alegria para todos nós
Sporting, 2 - Gil Vicente, 1

Quaresma acabou de marcar o golo decisivo e inicia festejos: explosão de júbilo em Alvalade
Foto: Lusa
O futebol é assim: montanha-russa de emoções. Em menos de duas horas experimentamos todo o tipo de sensações: vamos da alegria à tristeza e regressamos ao sentimento inicial. A ansiedade domina-nos, a fúria por vezes assalta-nos, as dúvidas persistem até ao apito final.
Há os eternos optimistas, que não chegam a preocupar-se: têm a certeza antecipada de que tudo terminará bem. Confesso incluir-me nesse lote, que admito ser minoritário. A larga maioria de adeptos do Sporting é pessimista militante. Eu que o diga: enfrento-os há treze anos e meio por cá, sei bem como é muito mais difícil arrancar-lhes uma palavra de esperança do que centenas de frases a puxar para baixo.
Costumo dizer-lhes que acreditam sempre mais nas equipas adversárias do que na própria equipa que dizem apoiar. Muitos, ao cantarem «Farei tudo o que puder / pelo meu Sporting», depressa esquecem estes versos para se porem a criticar duramente os nossos jogadores enquanto o jogo decorre.
Voltou a acontecer neste Sporting-Gil Vicente, domingo à noite, faz hoje três dias: começou mal mas acabou bem. Muito bem.
Aos 26', perdíamos. No único verdadeiro remate da turma visitante à nossa baliza: de Félix Correia, convertendo um penálti totalmente desnecessário cometido por St. Juste quatro minutos antes. O jovem extremo, de apenas 24 anos, não festejou. Por respeito digno de aplauso: lembrou-se que esteve dez anos na Academia de Alcochete, onde cumpriu todos os escalões de formação.
Gostava muito de voltar a vê-lo de leão ao peito. Anda a perder os melhores anos da carreira profissional a jogar em equipas como a de Barcelos.
Falava eu da impaciência dos adeptos. Foi algo que neste jogo deu nas vistas. E nos ouvidos. Tornou-se notória a insatisfação e o nervosismo nas bancadas, ainda antes de soar o apito para o intervalo. A cada passe falhado, a cada entrega mal medida, a cada duelo perdido, a cada ofensiva abortada.
Valha a verdade: alguns jogadores pareciam fazer tudo para exasperar a massa adepta. Destacou-se Gonçalo Inácio, protagonizando um festival de passes longos para terra de ninguém. Desperdício completo: o Gil Vicente agradecia. Enquanto ia dominando Gyökeres com dois patrulheiros incansáveis: o artilheiro sueco, tolhido por esta apertada vigilância, quase não dispôs de uma oportunidade.
Reatada a partida, mais do mesmo. Gil Vicente trancado, vedando os acessos à baliza, em defesa intransigente da vantagem mínima caída quase do céu. Teríamos de fazer pela vida se quiséssemos rumar à Luz, no sábado que vem, em igualdade pontual com o Benfica mas com melhor registo de golos, o que nos confere vantagem.
Aos 64', Rui Borges fez as mudanças que se impunham. A triplicar. Entraram Morten (para o lugar de Morita), Harder (substituindo Pedro Gonçalves) e Quenda (com a saída de St. Juste). Logo se notou a diferença: equipa virada para o ataque contínuo, explorando todos os corredores, mais veloz, mais intensa, mais objectiva.
Só poderia traduzir-se em golos. E assim aconteceu. Por Maxi Araújo, num remate de primeira, sem preparação, aproveitando da melhor maneira um ressalto.
Bola no local adequado: o fundo das redes.
Terminou a sensação de intenso nervosismo que pairava nas bancadas. E despertaram os rugidos de leão, ecoando por todo o estádio, empurrando a equipa para diante. O Gil Vicente defendia-se como podia: pontapé para cima, para longe, para o lado, para fora. Nós acentuávamos a pressão, que não diminuiu com a troca de Geny por Biel aos 83'.
Minuto 90 esgotado: cinco minutos de tempo extra.
Estava escrito nos astros que o desafio não terminaria sem conquistarmos os três pontos.
Aconteceu aos 90'+3, na conversão de um canto por Debast. Bola rechaçada de qualquer maneira pelos defensores gilistas. Sobrou para Eduardo Quaresma, que resolveu o problema de fora da área: pontapé fortíssimo, a redondinha ainda resvalou num adversário e foi aninhar-se, cheia de efeitos, no ângulo mais longínquo para o incrédulo guarda-redes Andrew.
Cumpria-se o destino do Leão: comparecer na Luz em vantagem.
Queremos muito o bicampeonato que nos foge há 74 anos. E merecemos muito essa conquista.
Eduardo Quaresma chorou de emoção: tinha sido protagonista, pelo melhor motivo, naquele que até agora foi o desafio da sua vida. Lágrimas de alegria compartilhadas por imensos adeptos. Milhares, talvez milhões.
Breve análise dos jogadores:
Rui Silva (6) - Sofreu o penálti: ainda adivinhou para onde a bola iria, mas sem hipóteses. Seguro, atento e concentrado no resto do jogo.
Eduardo Quaresma (9). Competente trabalho defensivo, nas recuperações e no passe. Coroa de glória: o golaço da vitória, aos 90'+3. Melhor em campo.
Sr. Juste (3) - Substituiu Diomande, ausente por castigo. Sem cumprir como central do meio. Cometeu penálti aos 22'. Sem necessidade.
Gonçalo Inácio (4) - Capitão inicial, com Morten ausente do onze. Nervoso, protagonizou um festival de passes falhados. Arriscou amarelo aos 90'+1.
Geny (5) - É capaz de bem melhor. Foi dele a primeira tentativa de rematar ao alvo (33'), acertando na malha lateral. Pouco mais fez, pouco mais tentou.
Debast (7) - Destacou-se nas recuperações (34', 75'). Grande passe para Harder aos 80'. Tentou marcar de longe (90'+2). Bateu o canto de que nasceu o golo decisivo.
Morita (5) - Regressou a titular mês e meio depois. Ainda longe da melhor forma física, faltou-lhe o suplemento de qualidade que bem lhe conhecemos.
Maxi Araújo (7) - Travou duelos com Félix Correia na ala esquerda, nem sempre levando a melhor. Crucial ao marcar o primeiro, de ressalto, aos 81'.
Trincão (6) - Assinalou o primeiro sinal de perigo, aos 2'. Quase marcou aos 14': grande defesa de Andrew. Atirou ao ferro na marcação de um livre (87').
Pedro Gonçalves (5) - Ainda preso de movimentos: nota-se que esteve cinco meses parado. Grande lance aos 53': recebeu, rodou e rematou fazendo-a roçar o poste.
Gyökeres (4) - Irreconhecível. Muito marcado. Só uma vez a bola lhe chegou em condições (aos 59', por Trincão) mas decidiu mal. E falhou vários passes.
Morten (7) - Substituiu Morita aos 64'. Em benefício da equipa: arrumou o meio-campo, impôs ali a sua autoridade. Interveio no primeiro golo.
Harder (6) - Substituiu Pedro Gonçalves aos 64'. Dinâmico, com vontade de facturar. Fez remate inicial no primeiro golo leonino. Cabeceou com perigo aos 88'.
Quenda (5) - Entrou aos 64', rendendo St. Juste (Debast recuou para central, Geny foi para ala esquerdo). Ficou aquém das expectativas.
Biel (4) - Entrou aos 83', substituindo Geny. Tentou integrar-se bem no ataque, nem sempre com sucesso.
Matheus Reis (-) - Entrou aos 90+7', rendendo Trincão. Só para podermos queimar uns segundos e amarrar o triunfo.
