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És a nossa Fé!

Do tiki-taka à willi-tá-tika

O tiki-taka, sabemo-lo, assenta em transições prolongadas, passes curtos e posse constante de bola. No fundo, trata-se de lateralizar aqui, triangular acolá, adiantar linhas, até o rival se aborrecer de andar atrás da bola e desistir dela. Se for bem feito, esse momento de desistência ocorre já dentro da grande-área, circunstância em que qualquer um pode marcar sem se despentear. O tiki-taka é, como se sabe, uma filosofia futebolística que promove a desigualdade. A bola é um bem escasso numa partida de futebol. E o tiki-taka assenta em percentagens de posse de bola absolutamente especulativas. Sessenta, setenta, setenta e cinco por cento para um lado e o resto, quase nada, para o outro. Acumulação desmesurada para uns, pobreza para os demais. Pois bem. O sistema de jogo do Sporting representa a democratização do tiki-taka. Baseia-se, também ele, numa sucessão de passes. Mas, ao contrário do tiki-taka, em que o segredo consiste em excluir o adversário da posse de bola, no sistema do Sporting este é chamado a participar. O princípio de jogo estruturante é o passe errado. O jogador do Sporting, quando ultrapassa o meio-campo, lateraliza ou ensaia a triangulação mas, se tudo correr bem, perde a bola. A equipa contrária, por sua vez, tenta pôr em prática o seu plano de jogo, qualquer que ele seja. Mas, tarde ou cedo, chega perto de William Carvalho que fica com a bola. A progressão no terreno do Sporting faz-se assim de forma lenta mas consistente, iniciando-se invariavelmente numa perda de bola de Carrillo ou num passe errado de André Martins e na recuperação subsequente de William Carvalho. Com este eterno retorno da bola ao médio sportinguista, a equipa adversária vai desmoralizando. No mundo ideal, ao lado de André Martins e de Carrillo deve alinhar Gerson Magrão. O entusiasmo de matar uma jogada de Magrão, uma probabilidade estatística incontornável, esmorece sistematicamente com o embate posterior na muralha de William Carvalho. Esta sucessão de estados de entusiasmo e frustração rebenta completamente com a condição anímica e física do opositor. Ao fim de vinte a trinta minutos de perdas de bola e transições falhadas pelo Sporting, tentativas de lançar o ataque pelo adversário e recuperações de bola por William Carvalho, o jogo está, sem se dar por isso, nas imediações da área do opositor, com todas as condições para que que alguém possa fazer golo. Esta verdadeira guerra psicológica é mais eficaz se for permitido ao adversário adiantar-se no marcador. Os seus níveis de confiança subirão, o que tornará a queda mais dolorosa e a prostração subsequente irremediável. Ali onde o Barcelona é uma equipa especialista em açambarcar posse de bola, o Sporting leva a níveis nunca vistos a sua partilha com a equipa contrária. Entrega-a para logo de seguida a recuperar. O Barcelona pratica o monólogo, o Sporting aposta na progressão dialéctica. No Barcelona, a circulação de bola é continuada. No Sporting, o fim último da circulação é esta ser interrompida. Ali, temos o tiki-taka. Aqui, uma filosofia de jogo inovadora, democrática e inclusiva a que, à falta de melhor, chamaremos willi-tá-tika.

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