Dez notas sobre a entrevista
A entrevista de Frederico Varandas à Sporting TV, que acompanhei com atenção, suscitou-me algumas reflexões, resumidas em dez pontos.
1. Bruno Fernandes
O presidente do Sporting explicou, com mais detalhe do que muitos previam, os bastidores deste mercado de Verão, centrados no que viria a revelar-se um equívoco: o maior trunfo, para gerar receita, seria a transferência do melhor médio português para um grande emblema do futebol europeu. A inépcia dos intermediários neste negócio e a tardia entrada em cena de Jorge Mendes alteraram por completo os planos iniciais da SAD, forçando-a ao improviso. Saíram Dost, Raphinha e Thierry (detectando-se em duas destas transferências já o dedo de Mendes) e afinal foi Bruno quem ficou. Subsistem incógnitas quanto ao destino do jogador, mas fica a garantia do líder leonino de que o capitão cumprirá a época em Alvalade.
2. Bas Dost
Foi o caso que mais agitou a pré-temporada leonina e suscitou as primeiras dúvidas quanto à falta de sintonia entre os administradores e o técnico Marcel Keizer, com o holandês a dizer que contava com o seu compatriota e a manifestar surpresa pelas notícias sobre a sua iminente transferência. Varandas esteve bem ao especificar quanto custava o ponta-de-lança, que consumia quase 10% das despesas alocadas ao futebol profissional. Faltou-lhe ponderar, nestas contas, a componente de receitas que Dost proporcionava ao Sporting em forma de golos. E que já começou a pôr ao serviço do Eintracht, no jogo de estreia: bastaram-lhe 12 minutos em campo.
3. Ponta-de-lança
É possível uma equipa de futebol obter êxitos desportivos sem um ponta-de-lança alternativo no plantel? É. Para isso, porém, precisa de rezar muito para que o artilheiro solitário não faça greve aos golos nem sofra qualquer lesão. A verdade é que, à quarta jornada, o Sporting conta apenas com Luiz Phellype como potencial homem-golo na linha mais avançada. Nenhum dos reforços entretanto desembarcados em Alvalade reúne estas características. E só por deficiente informação Jesé pode ser apresentado como "avançado-centro", como Varandas fez nesta entrevista. Seria aliás motivo para duvidar logo à partida da competência deste jogador: um "avançado-centro" que nas últimas três temporadas só marcou oito golos?
4. Keizer
Esta foi talvez a parte em que o discurso do presidente do Sporting se tornou mais contraditório e menos fluente. Começou por fazer uma apologia da estabilidade, sem a qual não é possível conseguir bons resultados. Chegou até a dizer: «Nenhum treinador quer vir para um clube se não sentir estabilidade». Acontece que a instabilidade foi causada por ele próprio ao apontar a porta de saída a José Peseiro menos de dois meses após ter iniciado funções e ao contratar um técnico que não reunia condições para conduzir a nossa equipa, como o recente despedimento do holandês comprovou. Com Varandas, o Sporting voltou a ser um cemitério de treinadores. A estabilidade não passou ainda da palavra à prática.
5. Preocupação
No rescaldo imediato da goleada sofrida na Supertaça, o presidente apressou-se a procurar os jornalistas, dizendo-lhes uma frase de que certamente logo se arrependeu: «Estou chateado mas não preocupado.» Estava preocupado, sim. De tal maneira que, como ontem finalmente confessou, essa vergonhosa e humilhante goleada - a segunda que sofremos, frente ao mesmo rival, em apenas seis meses - acabou por ditar a guia de marcha ao técnico holandês. Fica a lição para momentos futuros igualmente difíceis: convém pensar sempre muito bem no que se diz. E convém evitar o verbo "chatear", que teve a patente registada por outra pessoa no Sporting.
6. Leonel Pontes
Uma das frases mais conseguidas da entrevista relacionou-se com o treinador da nossa equipa sub-23, agora promovido a técnico principal: «Leonel Pontes não tem prazo: tem uma tarefa.» No fundo, a confissão de que no futebol tudo depende dos resultados. Fica implícito um possível cenário inspirado no exemplo do Benfica da época anterior. Varandas recusou elaborar cenários, o que está correcto: assim evita ficar prisioneiro das palavras, fossem elas quais fossem. Subsiste, portanto, alguma ambiguidade: Pontes será ou não interino? Tudo dependerá do que a equipa mostrar em campo.
7. Reforços
Talvez mais para se convencer a si próprio do que para persuadir os adeptos, o presidente do Sporting declarou, com aparente convicção: «Este grupo é mais competitivo, tem mais soluções e tem mais qualidade do que o plantel do ano passado.» Poucos pensarão como ele. Perdemos três titulares - e não um, como disse na entrevista - e sobretudo ficámos sem dois dos nossos cinco melhores jogadores, Dost e Raphinha. Não é líquido, de forma alguma, que os recém-chegados - o espanhol Jesé, o brasileiro Fernando e o congolês Bolasie, três alas - possam compensar as saídas e dar mais consistência e equilíbrio ao plantel.
8. Emprestados
A vinda destes três jogadores por empréstimo - e um deles, Jesé, com dois terços do salário asegurados pelo clube titular do seu passe, o PSG - poderá tornar-se num dos maiores equívocos da actual gestão leonina. Salvo casos excepcionais, os jogadores emprestados revelam tendência a encarar os clubes de ocasião como meros apeadeiros numa carreira profissional, diminuindo o seu grau de compromisso com os novos emblemas. Na melhor das hipóteses, poderão valorizar-se - mas os beneficiários dessa valorização, em termos financeiros, são os clubes de origem. O caso mais intrigante, neste trio, é o de Fernando: tem 20 anos, era suplente de Luís Castro no Shakhtar, ocupará uma posição onde já temos Jovane, Camacho e Plata. E o Sporting recebe-o por uma época, sem cláusula de compra. Faltou explicar porquê.
9. Formação
Foi muito positivo ouvir o presidente renovar a intenção de privilegiar a formação - em particular quando garantiu que «três ou quatro» dos actuais jogadores da nossa equipa sub-23 «farão parte do plantel no próximo ano». Convém lembrar, no entanto, que uma promessa similar já havia sido feita no momento da apresentação de Keizer aos adeptos, em Novembro passado, e nada foi cumprido. O Sporting chegou até a entrar em campo, pela primeira vez em onze anos, sem nenhum jogador oriundo da formação. Pior: hoje temos apenas um português no onze titular. Que foi formado no Boavista.
10. Finanças
Mesmo com deficiências ao nível da comunicação, a SAD leonina tem conseguido impor a sua narrativa em matéria financeira. Esta foi uma parte muito convincente da entrevista, valorizada por exemplos concretos - nomeadamente as escandalosas remunerações atribuídas a jogadores que não contavam para a equipa técnica e os cerca de 15 milhões de euros por ano pagos a excedentários de que o Sporting finalmente se libertou (o caso Viviano está em vias de resolução e Mattheus Oliveira, espantosamente, prefere receber sem jogar). Varandas fez bem em omitir o nome do seu antecessor, agora às voltas com um complexo processo judicial, mas era indispensável esclarecer - como fez - que ao chegar encontrou uma «necessidade de tesouraria de 100 milhões de euros». Uma face oculta do Sporting finalmente iluminada.
