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És a nossa Fé!

Devoção...

... uma palavra do universo sportinguista, vista por Louise Glück, Prémio Nobel de Literatura 2020.

 

«UM MITO DE DEVOÇÃO

 

Decidido a amar aquela rapariga,

Hades construiu-lhe um duplicado da terra,

tudo igual, até o prado,

mas com uma cama no meio.

 

Tudo igual, incluindo a luz do sol,

pois não seria fácil a uma rapariga nova

passar tão bruscamente da luz intensa à completa escuridão.

 

Aos poucos, pensou ele, faço entrar a noite,

primeiro as sombras das folhas agitadas.

Depois a lua, depois as estrelas. Depois sem lua, sem estrelas.

Que Perséfone se habitue lentamente ao escuro.

No fim, pensou ele, ser-lhe-á reconfortante.

 

Uma réplica da terra,

mas com uma excepção: amor.

Não é amor o que toda a gente deseja?

 

Ele esperou muitos anos,

construiu um mundo, observou

Perséfone no prado.

Perséfone, que amava os cheiros, os sabores.

Quem tem um apetite, pensou ele,

tem todos.

 

Não é o que toda a gente deseja sentir à noite —

o corpo amado, bússola, estrela polar,

ouvir a respiração tranquila, que significa

estou vivo, que significa ainda

estás vivo, porque me escutas,

porque estás aqui comigo. E quando um se volta,

volta-se o outro também —

 

Era o que ele pensava, o senhor das trevas,

ao contemplar o mundo que

construíra para Perséfone. Nunca lhe ocorreu

que já nada haveria ali para cheirar,

muito menos para comer.

 

Culpa? Terror? Medo de amar?

Nada disto podia ele conceber;

nenhum amante o concebe.

 

Ele sonha, pergunta-se que nome há-de pôr àquele lugar.

Primeiro pensa: O Novo Inferno. Depois: O Jardim.

Finalmente decide chamar-lhe

A Mocidade de Perséfone.

 

Uma luz ténue ergue-se acima do prado liso,

por detrás da cama. Ele toma-a nos braços.

Deseja dizer-lhe amo-te, nada te ferirá

 

mas compreende

que é mentira, e acaba por dizer

estás morta, nada te ferirá

o que lhe parece

um começo mais auspicioso, mais verdadeiro.»

 

Poemas de Louise Glück traduzidos por Rui Pires Cabral

In: Telhados de vidro, n. 12, maio 2009. Lisboa: Averno, 2009. pp. 79 - 81. ISSN: 1646-334-X

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