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És a nossa Fé!

De pedra e cal - Formação de Elite, por João Nunes

Uma época e meia da Academia de Formação Sporting – Algarve (AFS – Algarve), sob a coordenação de João Nunes: 15 jovens talentos na Academia de Alcochete mais 1 a realizar a pré-época 2020/2021.

Foram estes os números que me chamaram à atenção e despertaram curiosidade. À primeira vista, impressionam.

A formação Sporting não está em declínio? O Sporting não deixou de ser capaz de captar talento? Não é no Seixal que se formam os craques da actualidade?

Será caso raro ou, perante os números das outras AFS, absolutamente banais? Qual é a diferença entre uma EAS e uma AFS?

A equipa sénior de futebol não ganha um campeonato há 18** anos. Como é que um talento ao serviço do Sporting é adepto do nosso clube e quer jogar na equipa principal?

Estas são algumas das perguntas que fiz ao Mister João Nunes que, ao cabo de 3 anos, deixou de integrar o plantel da AFS - Algarve. Foi a 1 de julho que iniciou funções ao serviço de outro emblema (local) e divulgou publicamente – perfil Facebook – os números que apresentei. Disse-lhe que gostaria de saber mais sobre o que é a formação Sporting fora das paredes de Alcochete. Assentiu prontamente e impôs uma única condição: não falar sobre política. Sou do Sporting, não sou de Direcções - esclareci. Já somos dois - respondeu.

Para além da simpatia e disponibilidade do Mister, o Whatsapp viabilizou esta conversa à boa maneira da COVID-19. Enviei um sem número de perguntas, recebi clipes de áudio de resposta.

Esta conversa, vai ser apresentada em duas partes.

  

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João Gonçalves Nunes, n. 25 de janeiro de 1972

Jogou no Águias de Camarate e aos 18 anos treinou uma equipa de infantis do seu bairro.

Foi pai aos 19 anos.

O convite para ser professor num ginásio em Serra de Minas (Sintra) trouxe a oportunidade para aprofundar conhecimentos sobre, entre outros, fisiologia, nutrição e dinâmica, capacidades coordenativas e condicionais.

As responsabilidades familiares obrigaram à escolha de uma profissão que permitisse suprir as necessidades de sobrevivência da jovem família, foi assim que, enquanto motorista de pesados, viajou pela Europa fora. Não se pense por um momento que esqueceu a paixão pelo treino de formação. Bem pelo contrário. Extrovertido, tratou de abordar todos os treinadores que pôde, por todos os países por onde passou. Chegando mesmo a começar o dia de trabalho às 04:00 para às 14h estar disponível para assistir a treinos.

Aos 26 anos, mais autónomo (chegou a ter 15 camiões e 30 funcionários), podia decidir se saía ou não de viagem. (Re)Começa, assim, a viagem pelo futebol de formação no Barberà del Vàlles, em Barcelona. Já recebeu convites para treinar equipas séniores que declinou sempre.

Ocupou, até 30 de Junho, o cargo de Director de Recrutamento e o de Director Técnico da Academia de Formação Sporting Clube de Portugal – Algarve.

 

Mister, o que é a Academia Formação Sporting - Algarve?

JGN - A AFS – Algarve está integrada num projecto composto por cinco AFS, escolhidas estrategicamente por referência a um critério geográfico. Temos uma em Braga, uma no Porto, uma em Aveiro e uma em Coimbra.

Este projecto começou em Agosto de 2017, muito antes da sua inauguração oficial. Integrei a AFS Algarve em Outubro de 2017. Contudo, não faz sentido falar sobre a AFS – Algarve isoladamente. Este é um projecto no qual o Sporting investiu cerca de 1 milhão de euros e cujos 6 profissionais contratados inicialmente, prepararam o seu arranque nos cinco pontos do país em regime de completa exclusividade.

A 5 de Setembro de 2018*, foram inauguradas todas as AFS.

Fizemos um trabalho de bastidores exaustivo: quisemos caracterizar o jogador algarvio, reunimos com clubes locais, com membros dos núcleos, quisemos perceber onde estava o talento. A escolha do Núcleo ‘parceiro’ também obrigou à verificação de critérios bem definidos de maneira a assegurar que as nossas equipas competiriam nos locais certos. A nossa escolha recaiu sobre o Núcleo de Olhão.

Muitas reuniões para definir número de meninos a recrutar, quantos equipamentos deveriam ser comprados, noites a estampa-los – Paulo Moreira teve um papel de relevo neste campo. Há um trabalho de fundo, muito significativo, antes do momento da inauguração.

Um ano antes da inauguração fizemos inúmeras actividades de recrutamento. Viajámos muito, pernoitámos em locais que não lembram a ninguém, fomos ver muitos jogos, fomos a muitos torneios – aqui no Algarve –, fizemos uma caracterização profunda do universo algarvio. Excepção feita a alguns miúdos já detectados pelo Recrutamento, não havia nada feito. Anteriormente, os colegas do Recrutamento não tinham uma "ferramenta como a AFS" onde colocar os meninos. Conseguiram segurar alguns de forma absolutamente miraculosa, porque a concorrência era feroz, já estavam muito bem preparados. Só para que se perceba, o C.F.T. – Benfica estava no Algarve há 11 anos. Punham e dispunham no Algarve. Tínhamos o F.C. Porto, que já cá estava há cinco anos. Só o Sporting não tinha aqui uma estrutura sólida. Por aqui se vê a dificuldade que era recrutar um menino para o Sporting.

Se tinham o Benfica à porta de casa, iam pôr o menino em Alcochete/Pólo EUL, a 300 km?

Ora, AFS é, por definição, um projecto de detecção e recrutamento de talentos. Os meninos são selecionados pelas suas características diferenciadoras e passam a ser um investimento total do Sporting Clube de Portugal. Não há, portanto, qualquer tipo de pagamento efectuado pelos encarregados de educação. O trabalho realizado numa AFS acontece de acordo com linhas orientadoras desenvolvidas em Alcochete.

A estrutura de uma AFS é composta por um coordenador de zona, no caso do Algarve o talentoso Paulo Moreira que, não me canso de sublinhá-lo, é um talento do Recrutamento. É preciso não perder de vista que não há só talentos nos jogadores. Também os há no recrutamento, no treino, … Paulo Moreira, cobria a região algarvia e a região alentejana. Posteriormente, passou a haver um coordenador local, que articula com o coordenador de zona e a própria Academia (estive inúmeras vezes na Academia, ia lá beber o que depois reproduzi aqui), um coordenador técnico, uma psicóloga, um fisioterapeuta, um secretário técnico e treinadores (certificados pela Federação). O número de atletas que temos, define o número de escalões que temos. No nosso caso, iniciámos com cinco elementos. A AFS - Algarve tem uma equipa de recrutamento que evoluiu de uma única pessoa para toda a região algarvia (Edgar Jaques) para três pessoas: 1 coordenador para Vila do Bispo, Aljezur, Monchique, Lagos, Portimão, Lagoa e Silves, 1 coordenador Albufeira, Loulé e Faro e 1 coordenador para S. Brás de Alportel, Olhão, Tavira, Alcoutim, Castro Marim e Vila Real de Santo António. Cada um deles, tem uma equipa de observadores e informadores (passamos a ter uma estrutura muito idêntica à de Lisboa e Setúbal). Poucos foram os jogadores que iniciaram a sua actividade desportiva sem que eu soubesse primeiro do que os nossos adversários (esta evolução, alcançámo-la do primeiro para o segundo ano da AFS - Algarve).

Só para que se perceba, da geração de 2007 no ano de arranque, a AFS – Algarve pôs cinco meninos em Alcochete e ainda pusemos mais um de fora da AFS, da geração de 2006. A C.F.T. (o equivalente benfiquista à AFS), pôs zero no Seixal. Secámos o Benfica logo no primeiro ano.

Inicialmente, partilhávamos os espaços do Guia FC, actualmente, temos a sede operacional em Paderne graças a um acordo firmado com o Padernense FC (Albufeira).

 

Explique-me os números que divulgou. São… normais? Há mais talento futebolístico na região algarvia do que no resto do país?

JGN - Ora, realmente os números não são normais… mas acabam por ser normais. Não são fruto da sorte, são fruto de muito, muito trabalho. Posso dizer que nestes últimos três anos trabalhei 24h por dia para o Sporting Clube de Portugal. Achei que era altura de provar que não faz sentido olhar para um jogador só a partir dos 16 anos para cima. Os meninos não começam a jogar futebol aos 16 anos. Hoje em dia, começam a jogar futebol aos 5 anos de idade. Há uma coordenação entre projecto ‘criança’, projecto ‘atleta’ e projecto ‘jogador’, porque na AFS, só queremos elite.

Talento, há por todo o país. Temos é de detectá-lo e criar as sinergias com a área técnica que permitam a sua expressão e materialização.

Ao cabo de 30 anos, sei o que é preciso fazer, sei que sou bom naquilo que faço, estive constantemente no terreno de jogo, quando falo em 24h por dia, foram mesmo 24 horas por dia. Deu muito trabalho, foi muito desgastante, mas os números estão aí e falam por si. Não sou um falso humilde, sei neste momento muito sobre detecção, contratação e fidelização de um atleta.

 

Em termos de número de crianças, como estamos face à oferta na região? Os pais procuram-nos ou temos de ser nós a procurá-los?

JGN - Estes meninos são detectados através dos nossos observadores que fazem um relatório sobre um jogo onde viram um atleta, relatório este que vai ser lido pelo coordenador de zona. Se for um menino que é um talento daqueles que salta à vista, telefonam-me e eu rapidamente largo tudo o que estou a fazer e vou lá ver o menino. Se realmente o menino for top dos tops, já não entra no processo normal e eu posso decidir logo ali que quero o menino na AFS. Não sendo um menino top dos tops mas sendo um menino a quem chamamos um ‘projecto’, dentro de um processo chamado normal, após o relatório ser lido pelo responsável técnico, há lugar à emissão de um parecer. Quando existem 3 pareceres técnicos positivos, o do coordenador de zona, o do director técnico – que era eu – e um dos elementos da equipa selecção (Lisboa), um jogador pode entrar na nossa Academia (AFS). 99,9% dos meninos que estão na AFS - Algarve, passaram pelo processo ‘normal’: observação e relatório que carece de 3 pareceres positivos.

Não são os pais que trazem os meninos, somos nós que os escolhemos. Nenhum menino entra no Sporting Clube de Portugal sem ter um relatório feito.

Para se ter ideia, o Rafael Leão, aos 8 anos, quando estava no Amora, era um menino diferenciado mas não era um talento. Era um ‘projecto’. No entanto é um dos jogadores mais valiosos de Portugal, da geração de 99. É apenas um exemplo de um menino que aos 8 anos de idade, não era um talento. Teve que ser farejado, por um observador também ele talentoso que conseguiu olhar para ele e projectá-lo para o futebol profissional do futuro.

Há pessoas super talentosas no Recrutamento. Conseguem olhar para um menino de 6 anos de idade e projectá-lo para o futebol profissional: estamos a falar do Paulo Moreira. Arrisco dizer que o Paulo Moreira, é o Senhor Aurélio Pereira dos tempos modernos. Quando põe o olho num menino e diz, aquele menino vai lá chegar, eu acredito piamente. Porque há provas disso. Para além do Rafael Leão, estou a falar de um Rúben Vinagre, estamos a falar de muitos jogadores que eu e ele detectámos muito antes dos outros e projectámos para o futebol profissional.

Assim como, atletas de 16/17/18 anos que se desenvolveram e foram detectados logo. Por exemplo, o Demiral… o Paulo Moreira atravessou-se completamente pelo Demiral. E hoje, o Demiral, é o jogador que é, está onde está. É um jogador da elite mundial.

 

Quando uma criança chega à AFS – Algarve, o que é que a espera? Que tipo de avaliação é feita?

JGN - O primeiro passo é a análise de conteúdo do relatório, ver quais são as características diferenciadoras. Pessoalmente, gosto de ver o menino a interagir desde o primeiro momento, perceber se está à vontade. Quero vê-lo logo com os outros atletas. Há meninos que são talentosos e chegam para treinar no Sporting Clube de Portugal e retraem-se. É preciso pô-lo à vontade e dar-lhe tempo. Muito cuidado com este aspecto.

Depois fazemos comparações com os atletas que já lá estão, que já são atletas de elite. Como é que no confronto directo esse menino (candidato) se comporta.

Depois, o tempo de prática desse menino. As características que procurámos em miúdos com diferentes tempos de práticas, são diferentes. Há um menino que pode ter muito sucesso porque tem muito tempo de prática e esse menino tem uma margem de progressão mais pequena do que um menino que tem menos tempo de prática, mas tem características diferenciadas. É fundamental fazer esta diferença. Depois, perceber a sua criatividade, imprevisibilidade, a sua reacção rápida à perda de bola, ou seja, o seu carácter. Eu gosto de chamar a isto, competitividade. Depois, temos as acções técnicas: se o menino tem aquele pé que nós dizemos que tem o pé com polegar, aquele menino que agarra a bola, ela vem como vier, ela vem enrolada, ela vem aos saltos, e ele consegue sempre dominar a bola, as suas recepções sempre orientadas para a frente, se ele percebe o espaço. Se ele revela ter um entendimento das trajectórias da bola, se este entendimento decorre das experiências que já teve ou se é inato nele, há pessoas que antecipam naturalmente as coisas, têm uma facilidade enorme.

Numa AFS, uma criança pode contar com uma observação gradual, com oportunidades para que se sintam completamente à vontade para expor todas as suas qualidades.

 

O que é que nos pode dizer sobre os meninos que saíram da AFS – Algarve, para Alcochete? Posso sonhar com um futuro campeão europeu, orgulhoso de ser produto da nossa formação?

JGN - São meninos extraordinários. Muito bem-educados e muito bem formados. Todos eles sob a alçada de encarregados de educação exemplares. Posso dizer que na AFS – Algarve, demos formação aos Encarregados de Educação, explicámos muito bem todo o processo.

O que eu e os técnicos procurámos fazer foi dar muita confiança a estes meninos. O que lhes dissemos foi: o erro, faz parte do futebol. Erra-se muito mais do que se acerta e nós estamos cá para te ajudar a perceber o erro, a ultrapassá-lo e a teres a coragem para nunca receá-lo. Nunca deixes de arriscar por medo de errar. Chegados a Alcochete, o que se ouve é, ‘o menino do Algarve’ é diferente do do resto do país. Isto, é fruto de muito trabalho.

Os nossos meninos são muito, muito competitivos. São alegres, são divertidos, dão espectáculo, gostam de dar espectáculo, são super competentes. Estou certo de que vão ter sucesso na Academia de Alcochete. São líderes. Muito corajosos, foram estimulados de forma fundamentada – ciências sociais e cognitivas – para a tomada de decisão. Demos-lhe muito espaço para que pudessem experimentar, para que pudessem errar e assim construírem-se. Para além disto, são imprevisíveis, criativos. Estes meninos, são o futuro do Sporting Clube de Portugal. Sinto um orgulho enorme no trabalho realizado pela estrutura da AFS – Algarve.

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(Imagem: Pedro Gerardo e Gonçalo Dias, acervo João Nunes)

Podemos sonhar que vão ser craques e dar muitos milhões ao Sporting Clube de Portugal:

Afonso Cunha, central, pé direito, posição 3 (resgatado numa captação do FCPorto)

João Simões, 8, que pode ser um médio de cobertura também

Gabi, na minha opinião um 9,5 que tem uma relação espantosa com a baliza

Afonso Santos um craque criativo, inteligente; jogador de muita elegância que recupera e faz jogar; é um médio ofensivo e muito criativo

Clodualdo Cofite, jogador muito alto e rápido pode jogar a 9

Wilson Furtado, médio defensivo ou médio e cobertura

Alexandre, guarda-redes de milhões 

Cristiano, defesa central

Simão Sobreira, defesa central

Gonçalo Dias, central de 2006 de grande classe jogador de enorme qualidade técnica e dimensão física

Afonso Luís, um lateral direito ou ala direito

Lawrence Smith, extremo esquerdo muito criativo

Manuel Lamúria, a qualidade é tanta que não sei se é um 9 de top ou um médio de top ou um seis de top ou um defesa central de top (só sei que vai jogar no corredor central e vai valer muito ao SCP)

Pedro Gerardo, (2006) avançado, esquerdino e que gosta de jogar entre linhas

Alexis Jesus, um ala esquerdo ou lateral com o melhor drible em progressão que já vi

Se juntarmos a estes jogadores os que estão ainda na AFS e se mantiverem o mesmo nível de treino, o Sporting está servido de craques para muitas gerações.

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[Nas imagens Bernardo Busatori, geração 2011, a jogar contra jogadores dois anos mais velhos. Este jovem atleta, já foi alvo de destaque num comentário, aqui, no És a Nossa Fé (Torneio dos Templários, eleito melhor jogador)]

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(Ambas as imagens foram cedidas por João Nunes)

JGN: Basta dizer que 2013 já temos alguns craques; 2012 muito boa geração; 2011 um fenómeno e outros projetos; 2010 muitos craques e projectos; 2009 não em tanta quantidade nas em qualidade temos super craques, guarda-redes, extremos, laterais, avançados...

 

Qual é o aspecto mais importante na formação de um jovem jogador? O que é que quer de um escalão treinado por si? 

JGN - Não existe um aspecto mais importante do que outro, existe, sim, uma janela de oportunidade certa. O aspecto mais importante nesta formação global é saber quando, como e porquê. É fundamental intervir no momento certo, para não perdermos a oportunidade "óptima". Eu não idealizo um jogador de futebol sem idealizar o ser-humano. Dou mais importância a esta dimensão global, "o ser-humano" mas é óbvio que tem de ter características diferenciadas porque estou a formar jogadores de futebol. Depois, a competitividade é uma dimensão que deve ser muito estimulada. Competitividade saudável, não no sentido bélico, bem pelo contrário. Aquilo a que chamo, uma competitividade agregadora.

 

Nestas idades, os jogadores já são fãs de equipas estrangeiras ou só de portuguesas?

JGN - Portuguesas e estrangeiras. Mundo global, redes sociais, os meninos vêem jogos e têm preferências, mesmo de equipas estrangeiras. Estão a par do que se passa nas outras ligas.

 

Há miúdos (AFS – Algarve) que são benfiquistas, que até já estiveram em treinos de captação no Seixal… sente algum impacto negativo do que refiro no comportamento dos miúdos? O que é que o Sporting, o símbolo que têm ao peito quando treinam e jogam, significa para um miúdo de outras cores?

JGN - Acima de tudo, as crianças querem jogar futebol. Até aos 9/10 anos de idade, querem é divertir-se. Ganham carinho, quando vestem a camisola pela primeira vez. Alguns, mudam para o Sporting. Outros dizem que nas equipas dos adultos, são do Benfica/Porto, mas que nas equipas das crianças, são do Sporting. Outros dizem que quando estão a jogar são do Sporting, mas que quando despem a camisola e saem das instalações, voltam a ser do clube de que sempre gostaram.

As crianças, gostam das equipas que ganham. Não gostam de chegar à escola e ouvir críticas dos colegas cujas equipas ganharam. Um miúdo que é do Sporting responde que perdeu, mas que o seu clube é o melhor do mundo. Agora, quando começam a jogar com a camisola, quando têm referências sólidas do Clube com quem lidam diariamente, que se focam nos aspectos muito positivos do que é ser Sporting Clube de Portugal, sem dizer mal dos outros clubes, sem menorizar os outros clubes, valorizando o que é nosso, começam a perceber a responsabilidade que têm, no seu mundo, por vestir aquela camisola. Passam a ser um exemplo para os colegas. Quando estão com aquele equipamento vestido, estão a representar um dos melhores clubes do mundo, estão a ter acesso a uma das melhores formações do mundo, a da única academia que formou dois 'Bola de Ouro'. Quando expostos a este tipo de modelo, os miúdos crescem num contexto de integridade, honestidade, de resiliência e de vontade e de respeito por eles, pela nossa instituição e pela dos adversários.

Estes miúdos, e mesmo as suas famílias, sentem-se muito orgulhosos por terem sido escolhidos pelo Sporting Clube de Portugal. Ficam com expectativas elevadas e com razão porque sabem que escolhemos os melhores. Um menino ‘nível A’ vai ser um jovem ‘nível A’ no futuro se tudo correr bem. Por isso, há sempre um carinho muito especial pelo Sporting.

A presença deste projecto do Sporting na região, até para o Universo Sportinguista, é muito bom, não só para tirar dividendos futuros (jogadores) mas também pelo aprofundamento do conhecimento do que é o Sporting Clube de Portugal. Pela presença em si. Põe-nos no dia-a-dia destas pessoas, nesta região.

 

A equipa sénior de futebol não ganha um campeonato há 18** anos. Como é que um talento ao serviço do Sporting é adepto do nosso clube e quer jogar na equipa principal?

JGN - Nós temos de ganhar um campeonato em breve mas o não ganhar também nos torna muito resilientes. Os jogadores que jogam pelo Sporting também ficam muito resilientes. Eu quero ganhar, eu quero fazer parte da mudança. Têm essa sede, essa vontade, dá-lhes uma garra diferente. Mas é algo que a estrutura directiva tem de acompanhar, tem de criar condições para apostar na formação. Não pode ser um treinador de séniores a estruturar ou reestruturar a formação do Sporting Clube de Portugal. É um erro – e muito grande – se assim for. Um erro, pela lógica. Um treinador de sénior depende de resultados. Se não os alcança, cai. Se cai, toda a estrutura vai por aí abaixo porque está tudo sustentado na equipa sénior. A base tem de ser a formação e o treinador tem de ser escolhido em função daquilo que é o Sporting Clube de Portugal. Também não podemos estar a mudar a formação de cada vez que muda uma Direcção. Uma formação é, no mínimo, a 10 anos. Se mudam de Direcção muitas vezes e de cada vez que mudam, lá vêm os amigos e as pessoas que conhecem na formação, voltam os processos (quase) à estaca zero. Isto, é dar tiros nos pés. Para não dizer, dar tiros na cabeça.

No Sporting Clube de Portugal a única coisa que se tem mais ou menos mantido, é a equipa de recrutamento e ainda bem. Mas a área técnica, os directores, esses caem sempre e vêm pessoas novas. Isto não permite ter a máquina oleada.

Se olharmos para os nossos rivais, têm a mesma estrutura directiva há muitos anos. Não quer dizer que a formação deles seja melhor do que a nossa, mas têm mais estabilidade. Se a formação se faz a 10 ou mais anos, com a estabilidade deles, levam alguma vantagem sobre nós.

O que tem permitido ao Sporting Clube de Portugal sobreviver, é o talento de algumas das pessoas que tem conseguido reter. Mas o Sporting precisa de valorizar essas pessoas. Os amigos trazidos pelas Direcções, não podem sobrepor-se às pessoas que já lá estão e que tem muito know how. Este tipo de comportamento, torna tudo muito mais difícil. A estrutura do Sporting Clube de Portugal é muito grande, é muito complexa. É preciso experiência para estar no Sporting Clube de Portugal. É preciso saber muito para estar no Sporting Clube de Portugal. Às vezes, vêm pessoas novas que não tem experiência e pisam minas, rebentam um (bom) trabalho feito e que estava oleado.

Os atletas que fazem a sua formação no Sporting, gostam do Sporting Clube de Portugal mas precisam de ter uma Direcção forte que lhes dê confiança para eles quererem continuar no Sporting. Seja lá qual for a Direcção.

 

Mister, trago-lhe aqui o meu filho – um Messi completo – que apesar dos 7 anos acabados de completar, já tem empresário. Só lho trago para entretê-lo até aos 18 anos que este empresário já me disse que vai conseguir pô-lo no Barcelona. Sabe qual é a posição do Messi? Então já sabe, ponha-me a criança a jogar aí e ninguém se chateia.” Este pai, existe?

JGN - Felizmente, não existe. Pelo menos eu, nunca apanhei este tipo de encarregado de educação. O que acontece é que à medida que o menino entra na AFS e se vai desenvolvendo, as expectativas do encarregado de educação vão aumentando. Mas somos nós – técnicos – que temos de gerir essas expectativas. Este tipo de pai, mesmo que venha com esta atitude, ao ser integrado num contexto que é de elite, percebe que o seu filho não é o único ‘Messi’ e há ali muitos outros ‘Messi’. Há muitos talentos em Portugal e muitos deles são super talentos. Uns precisam de mais ajuda num aspecto, outros noutros, mas também os há, super talentos, que o que é preciso é ter cuidado para não estragar, é só dar as oportunidades certas, no momento certo.

 

Alguma situação caricata que queira/possa partilhar?

JGN - Uma sobre um profissional que hoje é profissional num clube nosso rival (não vou dizer o nome, mas digo-te que é de 2001). Fomos de viagem para o Norte e ficámos hospedados num hotel. Normalmente, ficamos com um piso por nossa conta, controlo os corredores. Eu e os meus adjuntos num quarto, os miúdos nos seus (vão para os jogos sem os pais). Eis senão quando, este agora profissional, bate-me à porta. Este miúdo, tinha sete anos na altura e estava habituado a ficar com os avós, era com eles que residia.

O menino bate-me à porta: ‘Olá Mister’

Mister: Olá, então, XX, saíste do quarto?

Menino: Ah, sim, saí porque não consigo dormir.

Mister: Ok, então queres que o Mister vá lá à tua cama, até tu adormeceres?

Menino: Ah, não, quero dormir com os Misteres. Posso ficar na tua cama, Mister?

Como era um miúdo muito pequenino, disse-lhe:

Mister: Então, olha, vais ficar aqui no quarto, ali naquela cama, sozinho, mas ficas aqui connosco.

Menino: Não, não, Mister… eu tenho de me deitar contigo e ficar a mexer no teu cabelo porque eu fico a fazer caracóis à minha avó e só assim é que consigo adormecer.

Ahahahahah

Bom, foi uma carga de trabalhos, viro-me para o meu adjunto: então e agora? Eu, tenho o cabelo curto, tu, tens o cabelo curto. Como é que vamos conseguir adormecer o menino!? Nós a rirmo-nos e o menino a olhar, muito espantado. Gostámos muito desse menino, hoje é um profissional de excelência e joga num clube de elite em Portugal. Gosto muito dessa criança.

 

Outra situação caricata de um menino que tem uma cláusula de rescisão de muitos, muitos milhões: esse menino, era um bebé pequenino e fez cocó nas cuecas e eu tive de o limpar com uma esfregona – ahahah – encostá-lo à parede e limpá-lo com uma esfregona porque não tinha mais nada com que o limpar. Ele hoje está num clube de elite e tem uma cláusula de muitos milhões, mas já o limpei com uma esfregona. Ahahahah

Outro episódio de quando ainda estava n’ Os Belenenses e vi o Rafael Leão na comitiva do Sporting: como sou muito brincalhão, estava sempre na brincadeira com os meus atletas. O Rafael Leão passava a vida a olhar para trás porque queria vir para a coboiada e estava ali, na comitiva do Sporting, onde não havia ainda uma abertura assim tão grande. Lembro-me dos olhinhos dele, a olhar por cima do banco e a dizer: eu quero é ir para ali, ali é que está divertido. Ahahahahah

 

Quando na época 2011/2012 assumiu funções de ‘Prospector Residente’ no Sporting Clube de Portugal, acumulava longa experiência de treinador de formação em Portugal (vasta, por ex., n’ Os Belenenses) e Espanha, e alguma como prospector (Belenenses – futebol juvenil e sénior). Como é que se chega a ‘Prospector Residente’ no Sporting Clube de Portugal? É cargo que permita autonomia financeira, que se desempenhe a tempo inteiro?

JGN - O prospector residente está responsável pela prospecção numa área geográfica pré-determinada. Esta actividade não permite autonomia financeira. Recebe-se uma pequena avença. No meu caso, a zona era a de Almada e Costa da Caparica (residia na Costa da Caparica) tinha vários informadores, ia ver vários jogos. Foi desta zona que saiu, posso dizer-vos, o Matheus Pereira. Num torneio quando ele ainda não estava inscrito para fazer o torneio pelo Trafaria, e foi fazer o torneio em Vale Milhaços, onde eu estava e comuniquei logo com pessoas do Sporting que foram rapidamente ver o menino. Isto, como digo, antes ainda de ser residente. Já dava algumas informações ao Sporting Clube de Portugal na qulidade de ‘informador’. Saíram destas minhas informações meninos como o Paulinho, Júnior, Muanza, Simão, Henrique Abrantes (SLB/VFC), todos estes talentos saíram da minha zona de residência, foram observados pelos meus informadores.

Não dá autonomia, dá uma avençazinha. Tinha de acumular muitas coisas: professor no Trafaria, professor no Guadalupe, tinha que fazer muitas coisas e aquela avença ajudava-me também a ter um ordenado. Posso vos dizer que estamos a falar de sensivelmente 200€. Se colocasse um jogador da minha escola de futebol, aí sim, recebia mais as ajudas, mas tudo muito inexpressivo.

Mesmo isto, posso dizer que houve uma altura que o Sporting passou muito mal e nem isto, estes valores, praticava. Houve muitos cortes orçamentais. Esses cortes, levaram-me até a deixar esta parte e a ir para uma Escola Sporting (EAS) e deixar o Trafaria. Já recebia muito pouco, como Observador do Sporting Clube de Portugal, e então fui para a CIF – que até pagava bem – e que é uma das escolas referência em Portugal devido ao seu contexto. A escola tinha muitos alunos, e de um estracto social alto, por isso a Escola conseguia pagar-me. Ficava ao lado de vários colégios, estava num contexto muito privilegiado.

(João Nunes ao centro, de preto, ao lado de Aurélio Pereira)

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Teve contacto com Aurélio Pereira?

JGN - Sim. Tive e tenho o gosto de conhecer e ser amigo do Senhor Aurélio Pereira ainda que não seja amigo de casa, como alguns colegas. Nomeadamente o Nuno Mota, o Paulo Moreira, que convivem há muitos anos com o Senhor Aurélio Pereira. O Paulo Moreira foi recrutado pelo Senhor Aurélio Pereira e o Nuno Mota, também.

Eu, fui contactado pelo Senhor Aurélio Pereira, houve logo uma empatia muito grande, vimos alguns jogos juntos, analisámos alguns jogadores juntos. É uma pessoa extraordinária. É um talento (do Recrutamento) nato. Tem também uma afectividade tremenda. Tanto nós, como as crianças, como os encarregados de educação, sentimo-la e… ficamos colados ao Senhor Aurélio Pereira. A forma como ele diz as palavras, a forma como ele está, a forma como ele entoa no momento certo, é uma pessoa muito agregadora. Um poço de conhecimento sobre o que é talento. Tem uma experiência enorme de ver meninos e uma experiência de vida igualmente grande. Os seus valores, como ser-humano, são extraordinários. Transmite-os de uma forma intrincada e é algo de muito natural e espontâneo. Gosta de ensinar, gosta de dialogar e eu sinto-me privilegiado por ter tido o gosto e o prazer de privar com o Senhor Aurélio Pereira. Acho que todos os dirigentes, directores, devem ouvir o Senhor Aurélio Pereira. A idade, não perdoa… mas devem todos ouvir o Senhor Aurélio Pereira. O ADN Sporting é o que ele é. Marcou todo o Departamento de Recrutamento, a forma de trabalhar é desenvolvida por ele. A forma como ele olha o jogador, como acarinha e de quase apadrinhar, é uma coisa única. Basta o senhor Aurélio Pereira andar nos corredores e tudo ganha sentido. Trabalhamos com uma outra motivação, com um outro querer, com outra vontade, com uma linha certa e ele não precisa de dizer uma palavra. Basta aquele olhar e aquele bigode e está tudo dito. Sou um fã do Senhor Aurélio Pereira, admiro-o muitíssimo.

Temos uma pessoa com as mesmas características, que é o Paulo Moreira. Chamo-lhe o Senhor Aurélio dos tempos modernos. O Sporting Clube de Portugal não pode perder o Paulo Moreira, se quiser continuar na elite da formação e do recrutamento de talento. É um farejador de talentos, tal e qual como o Senhor Aurélio Pereira. As pessoas quase trabalham de graça para o Paulo Moreira tal como quase trabalhavam de graça para o Senhor Aurélio Pereira. São pessoas inspiradoras, têm uma aura à volta delas que é muito inspiradora. Não me canso de sublinhar a importância do Paulo.

 

Na época seguinte, foi treinador numa EAS e ‘Prospector’. Qual é a diferença entre uma EAS e uma AFS?

JGN - A EAS onde estive (CIF) é uma das melhor sucedidas em Portugal.

A EAS, é um franchising. Qualquer pessoa pode abrir, paga e compra o ‘modelo Sporting de formação’, é um modelo comercial, bem elaborado, mas nós não temos controlo sobre esses atletas.

Tenho uma ideia muito própria das EAS. Acho que não deviam ter competição. A competição deveria ser assegurada por um clube à parte, com o seu próprio equipamento. Para treinarem, poderiam usar o equipamento Sporting, mas para competir, o de um outro clube.

A EAS Lagoa (Algarve), é um exemplo disso mesmo. Na competição utilizam outro equipamento, precisamente para que não se pense que são jogadores do Sporting. Eles não são jogadores do Sporting, são jogadores que pagam para ter formação de acordo com o modelo Sporting.

Quanto às AFS, creio que está tudo dito na primeira pergunta: não é para todos, só atletas selecionados, não pagam e são jogadores do Sporting.

Dou-vos um exemplo, um dos nossos meninos de 2007, fui buscá-lo a uma captação do Porto. Vim ao Algarve, não por acaso, por ser essa a minha profissão, e quando estou a assistir à captação do F.C.Porto, dizem-me que aquele menino é aluno de uma EAS e que foi o próprio dono da EAS que o levou à captação do F.C.Porto! Intervim e felizmente fui a tempo de contractar esse menino para a AFS. Ao fim de um ano, esse menino entrou em Alcochete. Hoje é um dos nossos craques de 2007 e futuramente vai valer muitos, muitos e muitos milhões ao Sporting Clube de Portugal (se tudo correr bem, sem azares pelo meio).

Isto tudo para dizer que o modelo EAS, é um modelo pouco controlado. Não podemos controlar aspectos como este que salientei: não podemos dizer que temos primazia sobre esses atletas… é um franchising. O dono pode ser de qualquer clube e pode levar os meninos onde quiser…

 

[continua]

Amanhã:

Os cinco anos na China, ao serviço da Winning League de Luís Figo, das equipas Z-Team e GDFC de Guangzhou, a saída do Sporting Clube de Portugal e o futuro da formação em Portugal e no Sporting.

*Edição: correcção da data de inauguração

**Edição: Correcção do número de anos sem ganhar o campeonato

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