Cantámos vitória onde o Benfica perdeu
Boavista, 0 - Sporting, 2
Pedro Gonçalves, melhor em campo no Bessa: golo de calcanhar valeu-lhe nota artísrica
Foto: José Coelho / Lusa
Contraste enorme entre esta época e a anterior, bem reflectida na nossa posição à nona jornada: vamos agora no comando do campeonato, com mais nove pontos do que há um ano na mesma fase da prova. Na comparação, ganhamos um ponto por jornada. É obra.
Talvez a nossa mais saborosa vitória até ao momento, na Liga 2023/2024, tenha sido este Boavista-Sporting, disputado anteontem num relvado muito maltratado em estádio sempre difícil. Há poucas semanas a equipa comandada por Petit derrotou ali o Benfica, por 3-2.
Rúben Amorim surpreendeu o técnico rival, apresentando o seu onze titular disposto de maneira inabitual no terreno, numa espécie de 4-3-3 em que o lateral esquerdo formava muitas vezes linha defensiva enquanto Diomande encostava ao lado oposto, compensando o adiantamento de Geny, muito mais extremo do que ala, sobretudo na primeira parte.
Esta alteração táctica funcionou. O Sporting teve quase sempre superioridade nas diversas fases do encontro. Fomos para o intervalo a vencer 1-0 e podíamos ter marcado mais dois ou três, enquanto Adán não fez uma defesa digna desse nome nos primeiros 45'.
Não fomos apenas eficazes: também soubemos dar espectáculo. Como comprovou precisamente esse lance do nosso golo inaugural, primor de futebol colectivo construído com 46 segundos ininterruptos de posse de bola: 17 passes que envolveram oito jogadores. Culminando num magnífico centro de Matheus Reis que Geny aproveitou da melhor maneira estreando-se como artilheiro leonino em desafios do campeonato.
No segundo tempo agigantou-se Pedro Gonçalves, que já estivera envolvido no primeiro golo. Foi ele a fixar o resultado aos 85', em lance de insistência iniciado numa oportuna recuperação de Morten que levou o n.º 8 a rematar ao poste, sentado no relvado. No ressalto retomámos a posse de bola e aí destacou-se Esgaio a assistir. Pedro Gonçalves estava no sítio certo, embora de costas para a baliza. Num toque de génio, à Madjer, marcou de calcanhar.
Valeu-lhe nota artística. E justa menção como melhor em campo.
Não nos limitámos a vencer: também convencemos.
Pela primeira vez, neste campeonato, não sofremos golos fora de casa. Impusemos ao Boavista a primeira derrota no Bessa. Reforçámos a liderança da prova, ainda mais isolados - com mais três pontos do que Benfica e FC Porto, também com mais três pontos do que na nossa inesquecível campanha de 2020/2021 que culminou no título.
Motivos mais do que suficientes para a equipa estar de parabéns.
A verdade é que o Sporting não perde um jogo em provas nacionais desde Abril - facto relevante.
Entretanto, com este triunfo no Bessa, Rúben Amorim tornou-se o treinador português com mais vitórias em toda a história do nosso clube: já são 118. Acabou de ultrapassar Paulo Bento, precisando de menos jogos para esse efeito.
Agora, acima dele, apenas se destaca o húngaro Joseph Szabo, treinador que passou onze épocas no Sporting - a última das quais em 1954/1955, ainda jogavam alguns dos Cinco Violinos.
Breve análise dos jogadores:
Adán - Só aos 83' fez uma defesa apertada. Exibiu segurança neste regresso à titularidade após duas partidas em que viu Israel assumir protagonismo entre os postes.
Diomande - Impecável nas dobras a Geny, que tinha ordens para actuar como extremo, sem recuar. Pilar na organização defensiva. Passou a central ao meio com a saída de Coates.
Coates - Exibição um pouco mais apagada do que o habitual do capitão uruguaio. Cedeu a braçadeira a Adán ao sair (69'), por precaução, queixando-se de uma dor na perna.
Gonçalo Inácio - Iniciou construção do primeiro golo com um passe de ruptura que originou soberba jogada colectiva. Sabe usar cada vez melhor o seu pé esquerdo para queimar linhas.
Geny - Titular por mérito neste jogo que lhe correu muito bem. Aos 8' ameaçou marcar num forte disparo à malha lateral. Aos 37' passou da ameaça ao acto: foi o seu golo de estreia na Liga.
Morten - Exibição segura do internacional dinamarquês, que protagonizou sete recuperações. Vital no lance do segundo golo, que ajudou a construir com boa visão de jogo e precisão de passe.
Morita - Organizador do meio-campo, esteve em nível muito elevado até as forças lhe começarem a faltar, por volta dos 70'. De uma tabelinha entre ele e Matheus Reis nasceu o primeiro golo.
Matheus Reis - Primou pela disciplina táctica, compensando em consistência defensiva o adiantamento de Geny na ala oposta. Mas brilhou na frente ao assistir o moçambicano no golo.
Edwards - Criou desequilíbrios no reduto adversário. Soberba execução técnica ao picar a bola aos 31', fazendo-a sobrevoar a defesa. Mas desperdiçou um golo cantado aos 53'. Intermitente.
Pedro Gonçalves - Metade dos nossos quatro remates enquadrados foram dele. Aos 31', isolado, chutou para a bancada. Redimiu-se num excepcional golo de calcanhar que fixou o resultado.
Gyökeres - A partida menos conseguida do craque sueco desde que chegou ao Sporting. Muito marcado, desperdiçou duas ocasiões de golo (11' e 61'). Mas foi lutando sempre.
St. Juste - Substituiu Coates aos 69', tomando conta do lado direito da defesa. Desta vez sem brilhantismo. Após longa lesão, parece estar ainda algo preso de movimentos.
Esgaio - Rendeu Edwards (74'). Não falhou um passe e brilhou ao assistir Pedro Gonçalves no golo. Já fez mais assistências nesta Liga do que os laterais do SLB e do FCP somados.
Nuno Santos - Entrou aos 75', substituindo Matheus Reis. Teve logo um lapso defensivo que nos poderia ter saído caro. Mas redimiu-se com um par de centros bem medidos.
Paulinho - Substituiu Gyökeres aos 86'. Pressionou, movimentou-se bem na área, rematou com convicção aos 87'. Mas, servido por Nuno Santos, falhou emenda aos 90'+2: bastaria encostar.
Trincão - Entrou ao minuto 86', ocupando o lugar de Geny. Protagonizou dois lances que nada renderam pelo seu defeito do costume: perde-se em fintas e acaba por ficar sem bola.