Beşiktaş, n’O museu da inocência...
... naquele que terá sido um dos melhores livros que porventura terei lido, O museu da inocência do Nobel da Literatura Orhan Pamuk. Este livro conta, não só aquilo que é mais antigo na humanidade, uma história de amor entre um homem e uma mulher (neste sentido, pois o narrador é masculino), como conta igualmente - de uma forma brilhante - uma história de amor por uma cidade: Istambul.
Recomendo a leitura.
Hoje, que o Sporting jogou em Beşiktaş, um bairro de Istambul, extraí este pequeno trecho deste livro:
«De súbito, uma expressão estranha e embaraçada assomou-lhe ao rosto, e ele começou a falar com impaciência, como se algo o tivesse irritado. - Lembras-te daquela rapariga muito bela?... Sabes, aquela que vimos os dois quando fomos a Beşiktaş? Quando a viste, o que pensaste?
- Qual rapariga?
O meu pai ficou ainda mais impaciente.
- Oh, pára com isso, estou a falar daquela rapariga muito bonita que vimos os dois no Parque de Barbaros, há dez anos, quando fomos a Beşiktaş.
- Pai, não tenho qualquer lembrança disso.
- Filho, como podes não te recordar? Eu e tu olhámo-nos nos olhos. Ao meu lado estava sentada uma rapariga muito bonita.
- O que aconteceu depois?
- Não quiseste embaraçar o teu pai, e por isso desviaste educadamente o olhar. Já te lembras?
- Não, não me lembro.
- Mentira, tu viste-nos!
Sinceramente não me recordava daquele episódio, mas não havia forma de convencer o meu pai. Depois de uma demorada e desajeitada discussão, concordámos que provavelmente eu quisera esquecer o sucedido, e conseguira. Ou talvez ele e a rapariga tivessem simplesmente entrado em pânico, julgando que eu os vira. E foi assim que chegámos ao verdadeiro assunto.
- Aquela rapariga foi minha amante durante onze anos, e era muito bela - revelou o meu pai, combinando orgulhosamente os dois factos mais importantes numa única frase.
Era óbvio que o meu pai sonhava há muito falar-me a respeito da beleza daquela mulher, e a ideia de eu poder não ter visto tal coisa com os meus próprios olhos - ou, pior ainda, que eu pudesse tê-la visto e esquecido quão bela era - desanimou-o um pouco. Tirou uma pequena fotografia a preto e branco do bolso. Mostrava uma rapariga - muito jovem - de tez escura e ar desolado, apoiada no convés traseiro de um dos ferry-boats do Bósforo, em Karaköy.
- Esta é ela - esclareceu o meu pai. - Esta fotografia foi tirada no ano em que nos conhecemos. E uma pena que ela aqui esteja tão triste; não dá para ver como era bela. E linda, não é? Já te lembras?
Não respondi. Incomodava-me ouvir o meu pai falar sobre uma relação amorosa, ainda que esta tivesse terminado há muito tempo. Mas naquele momento não percebi exactamente o que me estava a incomodar.
- Ouve-me com atenção, não quero que repitas nada do que aqui te vou dizer ao teu irmão - avisou o meu pai, tornando a guardar a fotografia na carteira. - Ele é demasiado austero, não iria entender. Tu estiveste na América, e nada do que eu contar te vai chocar. De acordo?
- Claro, pai querido.
- Então ouve - disse ele, começando a contar a sua história ao mesmo tempo que beberricava o rakı.
Fora há «dezassete anos e meio, num nevoso dia de Janeiro de 1958», que ele conhecera aquela rapariga, ficando imediatamente enamorado da sua beleza pura e inocente. A rapariga trabalhava na Satsat, que o meu pai acabara de fundar. A princípio era apenas uma relação profissional, mas, apesar da diferença de vinte e sete anos entre os dois, acabara por se tornar algo mais «sério e emocional». Um ano depois de a rapariga ter iniciado uma relação amorosa com o seu bem-parecido patrão (o meu pai, calculei rapidamente, teria quarenta e sete anos na altura), ele forçou-a a deixar a Satsat. Por ordem do meu pai, ela não procurou outro emprego; em vez disso, passou a levar uma vida discreta num apartamento em Beşiktaş, que o meu pai lhe arranjara, sonhando que um dia se casariam.
- Ela era muito bondosa, muito sensível e inteligente; uma pessoa muito especial - contou o meu pai. - Não era de forma nenhuma igual às outras mulheres. Tive algumas escapadelas na minha vida, mas nunca me apaixonei por ninguém como me apaixonei por ela. Pensei muito em casar com ela, meu filho... Mas, o que teria sido da tua mãe? O que teria sido de ti e do teu irmão?
Ficámos em silêncio por algum tempo.
- Não me interpretes mal, filho; não estou a dizer que me sacrifiquei para que vocês pudessem ser felizes. Na verdade era ela que queria mesmo casar-se, claro. Mantive-a na expectativa durante anos. Simplesmente não podia imaginar a minha vida sem ela, e quando era impedido de a ver sofria muito. Mas não tinha ninguém com quem partilhar a minha dor. E então um dia ela disse-me: «Resolve-te!» Ou eu deixava a tua mãe e me casava com ela, ou ela deixava-me. Serve-te de rakı.
Fez-se silêncio.
- Quando recusei abandonar a minha mulher e os meus dois filhos, ela deixou-me - contou o meu pai. Admitir tudo aquilo deixou-o exausto, mas também descontraído. Quando olhou para mim e viu que podia continuar a desabafar comigo, descontraiu-se mais ainda.
«Eu estava em sofrimento, num enorme sofrimento. O teu irmão tinha-se casado e tu estavas na América. Mas claro que tentei ocultar a minha angústia à tua mãe. Esconder-me pelos cantos como um ladrão e sofrer em segredo era outra agonia. A tua mãe apercebera-se da existência desta amante, tal como acontecera com as anteriores; ao compreender que algo sério se passava, guardou silêncio. A tua mãe, a Bekri e a Fatma Hanım; vivíamos os quatro juntos como personagens a imitar uma família feliz num quarto de hotel. Eu bem via que não conseguiria encontrar alívio, que se as coisas continuassem como estavam eu enlouqueceria, mas não era capaz de fazer o que era preciso. Ao mesmo tempo, ela - (o meu pai nunca mencionou o seu nome) - estava a sofrer tanto quanto eu. Anunciou-me que um engenheiro a pedira em casamento e que, se eu não me resolvesse depressa, ela aceitaria o pedido. Mas eu não a levei a sério... Fui o primeiro homem com quem ela esteve. Achava que era impossível ela desejar outro, que aquilo só podia ser bluff. Mesmo quando duvidei do meu raciocínio e comecei a entrar em pânico, continuei paralisado. E então tentei não pensar no assunto. Lembras-te do Verão em que o Çetin nos levou a todos à feira de Izmir? Quando regressámos ouvi dizer que ela se tinha casado, mas não consegui acreditar. Estava convencido que ela apenas anunciara aquilo para chamar a minha atenção e fazer-me sofrer. Recusou todas as minhas tentativas para a ver, ou sequer para falar com ela; não atendia o telefone. Chegou mesmo a vender a casa que eu lhe comprara e mudou-se para um lugar onde eu não a pudesse encontrar. Teria ela realmente casado? Quem era o seu marido engenheiro? Teria tido filhos? O que andaria a fazer?»
Pamuk, Orhan - O museu da inocência. Lisboa: Presença, 2010. pp. 120 - 123
