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És a nossa Fé!

As palavras do presidente

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(jpt, estupefacto mas nada incrédulo)

 

Bruno, aclamado, disse-nos "querem que me cale?, querem que não escreva no FB?" - como tantos querem, mesmo seus apoiantes - então não comprem jornais, não sustentem as televisões, não colaborem no ruído cacofónico e interesseiro que tanto abunda... Eu nisso estou muito à vontade: há imenso tempo que não compro jornais desportivos (e aqui bloguei sobre a minha relação com eles); desde o execrável "A Noite da Má Língua" que abomino o modelo de televisão radiofónica (uns maduros, mais ou menos conhecidos, a dizerem piadolas, a rirem-se das piadolas que eles próprios dizem, e botando "opiniões" lite sobre tudo e todos, quantas vezes obviamente encomendadas e/ou interesseiras, sobre um cenário barato a encherem horas de transmissão dedicadas a audiências estuporadas), que há anos se exponenciou neste rol de "painéis futebolísticos", cada vez mais abjecto. Não estou, assim, nada incomodado com a troca que o Bruno nos pediu. De facto, até a acho tímida. Eu acrescentar-lhe-ia, por óbvia necessidade, "não comprem os produtos que ali publicitam". Mas isso sou eu, nada mais. A questão é outra ...

 

Com efeito, há muita gente que prefere que o Bruno não escreva no FB, e que tenha menor verborreia. Ou, por outra, que assuma um economicismo discursivo. Eu próprio já o escrevi. Pois também julgo que o homem não ganha nada em se meter a escrever, viperino e nada elegante, por exemplo, contra as descendentes de Jorge Jardim - um vulto significante da história tardo-colonial portuguesa, ainda para mais -, ou a afrontar Filipa Garnel, uma senhora de quem tenho longínqua memória, e agradável, pois era uma mulher bonita na tv. Para quê, que ganha ele com isso para além de desopilar?

 

Mas isso não esconde o meu verdadeiro desconforto: tanto na imprensa como nas redes sociais como até neste blog vejo críticas às declarações do Bruno. Que são contraproducentes, que são um atentado ao livre-arbítrio, que é o fim de uma era no clube, que é uma ofensa à liberdade de imprensa, que é uma deriva ditatorial (dizem-no salazarento, kim-il-jong, hitler, etc.). Isto vem de "sorridentes" lampiões, de sportinguistas ofendidos. Só há uma coisa que não vejo. É que não lhe trunquem as palavras proferidas. Ninguém refere o que foi declarado: eu estou longe, li aqui ... O homem disse, repito: querem que me cale? então calem-se, e não ouçam aquela tralha, não alimentem aquilo. E eu deixo de me preocupar, de me irritar. E calo-me também. É esse o sentido do que o homem disse, foi isso que ele explicitamente disse. É isso que os críticos, e os gozões, não referem.

 

A gente pode protestar com as suas perspectivas, pode delas discordar. Mas, caramba, há uma coisa que não deve fazer: é truncar o que foi dito para poder aparecer muito ofendida.

 

Finalmente: até o sindicato dos jornalistas apareceu a insurgir-se contra a falta de respeito pela liberdade de imprensa. Isto é inaceitável e é uma abjecta postura corporativa, uma manipulação torpe, nada ignorante mas torpe, dos valores democráticos. Pois apelar a que não se consuma não é afrontar a liberdade de imprensa. O que é uma afronta é apelar à não publicação ou ao controle prévio do conteúdo da publicação. Isto pode parecer um pequeno pormenor, e ainda para mais ligado "apenas" a questões da bola, mas mostra mesmo um sindicato tributário de um muito particular, e ideologicamente minoritário, entendimento do que é a democracia e do que é a liberdade de opinião e da sua expressão, na imprensa e não só. 

 

Mas há mais algo que é fundamental referir, de uma vez por todas, para desmistificar esta "liberdade de imprensa". Os jornais "desportivos" têm, há já anos, um muito peculiar vínculo com a "verdade". Se o JN/DN/CM/Público/Expresso/Visão/Sábado/et al publicassem constantemente, com grande destaque, as chamadas "inverdades" (um maldito neologismo que é todo um "programa" de perfídia social), "rumores", como, por exemplo, (e agora invento) de que o Comissário português na Comissão Europeia se prepara para sair do posto, a presidente da câmara de Almada sairá para embaixadora na UNESCO, o ministro do Ambiente transitará para o partido da oposição, ou que administradores de grandes empresas, quiçá António Mexia ou o herdeiro Azevedo, irão sair dos seus postos, etc., se isso fosse prática constante desses jornais com toda a certeza que o Sindicato dos Jornalistas, mais tarde do que mais cedo, se veria obrigado a qualquer tipo de referência deontológica. Mas para a imprensa "desportiva" o entendimento é diferente, os anos passam e os jornais "especulam" criativamente, sem que essa particular concepção da "realidade" seja confrontada pela sua corporação profissional. A questão é de simples interpretação -  os jornais "desportivos" não são entendidos como real informação, são remetidos para uma dimensão em que confluem com o "entretenimento", aquilo a que há anos se chamava "produção de conteúdos". Como tal menos vinculada à concepção de "verdade".

 

Tal como estes "painéis" televisivos, compostos por aqueles a quem Pinto da Costa um dia chamou, sarcástico e eficiente como é, "paineleiros". Programas que não são noticiosos, não são analíticos, não são jornalísticos. Não são informação. São também, por paupérrimos que os possamos considerar, "entretenimento". Até porque feitos por gente que não é jornalista, e mesmo aqueles que lá aparecem por vezes surgem sob um estatuto algo "cinzento", dado  que oficiais de comunicação das empresas envolvidas. Não haveria aqui alguma incompatibilidade deontológica se aquilo fosse "informação"? Não sou especialista na matéria mas julgo que sim. Mas essa condição dos participantes não é o fundamental, esse está mesmo no verdadeiro estatuto dos programas. Insisto, não é de informação de que se está a tratar, na tv isso é óbvio, é totalmente "entretenimento". Nos jornais "desportivos" acontece um passo intermédio, pois ao terem, tanto atribuída pela sua corporação profissional como pelo público, uma muito ampla latitude na sua relação com a verdade factual (por muito subjectiva que esta possa ser concebida) transitam de estatuto. Estão assim, também eles, e lamentavelmente, "com um pé" no tal "entretenimento". Pois todos sabemos que criam, que especulam, que servem empresas (clubes, anunciantes, empresários, etc.). Ou seja, têm um estatuto muito particular, para além do tradicional "órgão de comunicação social" ao qual exigimos uma maior objectividade, esta sempre relativa mas muito menos "criativa".

 

Ora é perfeitamente legítimo que os cidadãos, e por maioria de razão aqueles que têm responsabilidades institucionais, apelem aos seus concidadãos para que não consumam determinados tipos de entretenimento: a aversão a filmes de terror (por exemplo, o canal cinema 4 da NOS, nisso muito especializado); a aversão à pornografia; a recente campanha contra o programa Supernanny; as campanhas contra as touradas na televisão; a aversão a programas de determinadas seitas religiosas; etc. As pessoas podem dizer que são coisas diferentes. Mas estão enganadas, dizem-no por desatenção sociológica. Com efeito, tratam-se de factos diferentes do mesmo fenómeno social: a produção de conteúdos destinados ao entretenimento. E nada disto radica na liberdade de imprensa. Implica-a, mas nela não radica. Ou seja, se eu blogar apelando a que não se veja o canal da IURD não estou a violar a liberdade de imprensa. Mas se eu apelar a que se proíba o canal da IURD estou a atentar contra esse princípio democrático. Em suma, o que o sindicato dos jornalistas veio fazer foi apenas defender o emprego dos jornalistas, o consumo dos produtos das empresas que os empregam. É uma medida corporativa legítima, mas sem fundamento intelectual ou pertinência política.

 

Por último, e decerto que em modo nada popular num blog sportinguista, tornou-se generalizada a referência aos "emails" do Benfica. Surgem nos jornais desportivos, surgem nos canais televisivos, e abundam nos programas de "comentário" futebolístico (é num deles que são divulgados). A gente está contra o aldrabar dos jogos, está contra as perfídas da arbitragem (se eu encontrasse o João Capela na estrada com um furo, sem macaco, à chuva, garanto-vos que não lhe emprestava o meu, ele que se lixasse ...). Mas há uma coisa fundamental, bem para além da taça da liga, da taça de Portugal, da Supertaça, da Taça de Honra, até do Campeonato. Os emails estão a ser divulgados devido à devassa da correspondência pessoal. E isso é inadmissível (mesmo que seja a correspondência de um ogre como o Pedro Guerra é). Diante de uma violação dessas, que é uma violação dos princípios básicos, fundamentais, da vida em sociedade, em democracia, é caso para dizer "que se lixe a Taça" mas isso não, que é coisa com a qual não se pode pactuar. No entanto, diante dessa devassa, diante da utilização por parte de jornais e televisões (quais receptores de objectos roubados, algo ilegal por lei e imoral por mera decência) dessas mensagens privadas, que diz o Sindicato dos Jornalistas? Nada. Isso já não ofende a liberdade, a democracia. Já não o convoca a exprimir o seu desacordo, inquietação, preocupação. PQPs.

 

Já é madrugada, vou ali beber mais um barril de hidromel. 

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