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És a nossa Fé!

«Aquela tarde de glória...

...dos cinco violinos (*).

 

A mais famosa formação de todos os tempos no futebol português foi, sem dúvida, aquela que apareceu nos nossos campos na década de 40 e a que chamaram de os «cinco violinos».

Os três mosqueteiros eram... quatro. Os «violinos» eram cinco: Jesus Correia, Vasques, Peyroteo, Travassos e Albano.

António Jesus Correia, extremo-direito, nasceu em 3 de Abril de 1924. O seu primeiro clube foi o Paço de Arcos, de onde se transferiu para o Sporting na época de 1943-44. Terminou a sua carreira na CUF, onde permaneceu apenas três meses, na época de 1955-56. Envergou 13 vezes a camisola da selecção nacional de futebol, pela qual marcou três golos.

Manuel Vasques, interior-direito, nasceu a 29 de Julho de 1926. Representou o Unidos Futebol Clube, de onde se transferiu na temporada de 1944-45 para o Grupo Desportivo da CUF e, duas épocas mais tarde, para o Sporting. A sua actividade findou no Atlético Clube de Portugal, clube em que ingressou na época de 1959-60. «Rei dos marcadores» na época de 1950-51, com 29 golos marcados e 26 vezes internacional, marcou cinco golos pela selecção.

Fernando Baptista Seixas Peyroteo, o mais velho dos «cinco violinos», nasceu a 10 de Março de 1918 e era avançado-centro. Principiou no Sporting Clube de Luanda, de onde se transferiu para o Sporting Clube de Portugal, na época de 1937-38. Vinte vezes foi chamado à selecção nacional, pela qual marcou 15 golos.

O interior-esquerdo era José António Barreto Travassos. Nasceu a 22 de Fevereiro de 1926 e começou a sua carreira no Unidos Futebol Clube, de onde transitou para a CUF em 1944-45. Viria a ingressar no Sporting na época de 1946-47. Autor de seis golos nas suas internacionalizações, foi o primeiro futebolista português a ter a honra de envergar a camisola da U. E. F. A., em jogo realizado em Belfast, a 13 de Agosto de 1955. Daí que se tenha popularizado como o «Zé da Europa».

Finalmente, o extremo-esquerdo: Albano Narciso Pereira. Nasceu em 22 de Dezembro de 1922. Começou no Barreirense, transferindo-se para o Seixal na temporada de 1939-40 e para o Sporting em 1943-44. No declínio da sua carreira, voltou ao Seixal, em 1957-58, para, finalmente, acabá-la no Mangualde, para onde transitou na temporada de 1963-64.

Dotados todos de grande tecnicismo, constituíam um ataque temível. Desde a fogosidade — e habilidade — de Jesus Correia e Albano ao virtuosismo de Vasques e Travassos, este o «cérebro» da equipa. Menos tecnicista embora que os seus companheiros, Fernando Peyroteo era o terror dos guarda-redes. Dotado de magnífica compleição física, aguentava o embate com os defesas contrários, travando sempre luta rija mas dentro das normas da maior correcçao. Temível goleador, o que lhe valeu, por cinco vezes, o título de «rei dos marcadores», obteve o record de 43 golos marcados num só campeonato, record que se manteve até à época de 1973-74,ano em que Yazalde alcançou 46 golos.

Curiosamente, em encontros da selecção nacional, os «cinco violinos» só se encontraram todos juntos duas vezes : no III Portugal-Irlanda, em 23 de Maio de 1948, com a vitória dos portugueses por 2-0, golos de Peyroteo e Albano, e no XXI Portugal-Espanha, em 20 de Março de 1949, que terminou empatado 1-1, com um golo de Peyroteo.

Mas entre os «cinco violinos», um caso particularmente curioso é o de Jesus Correia. Jogador internacional de futebol e de hóquei em patins, foi multicampeão em qualquer deles. Especialmente no hóquei patinado, em que conheceu todos os títulos possíveis: desde campeão regional a nacional, de campeão europeu a mundial. Quanto a internacionalizações, teve «só»... 149.

Nem sempre foi fácil harmonizar a prática das duas modalidades, já que ocasiões houve em que saía do rinque para ir a correr para o aeroporto juntar-se aos outros «violinos» e vice-versa.

Muitos foram os títulos e triunfos alcançados. Muitas foram as tardes de glória. Estamo-nos a recordar, por exemplo, daquele jogo realizado em Lisboa, onde o Vasco da Gama, aureolado então de grande fama e prestígio, perdeu por 2-3.

Cândido de Oliveira, por exemplo, recordava, assim, dois jogos em que jogaram os «cinco violinos»:

Temos sempre presentes dois jogos em Madrid, realizados por Jesus Correia pelo Sporting! Um, contra o Atlético, em que ele marcou todos os seis golos da equipa; outro, na Taça Latina, no jogo com o Torino, no qual Peyroteo marcou três golos que pareciam copiados a... papel químico!

Passagem em profundidade de Vasques, para a linha de cabeceira; partida em velocidade de Jesus Correia, a recolher a bola quase no limite do campo e entrega, com a bola rasa, a Peyroteo, para o limiar da grande área e remate seco e raso do avançado-centro. Três golos iguaizinhos uns aos outros; no esquema e desenvolvimento, e, os três, tendo na base a utilização da excepcional velocidade de Jesus Correia e, depois, a sua entrega para o sítio e no momento óptimo.

Esta última lembrança não pode desligar-se desta observação: primeiro Peyroteo e, depois, Jesus Correiadesapareceram prematuramente do futebol! Foi pena. Porque, ainda hoje, estou certo disso, podíamos ver nos nossos campos em plena acção, os célebres «cinco violinos»! E se isso sucedesse, talvez eles já não tocassem com a mesma desenvoltura... Decerto. Mas, quem sabe se não tocariam, agora, passados alguns anos, outra espécie de música, menos viva, de ritmo mais lento, mas porventura mais bela: sugerida pela longa experiência e determinada pelo refinamento do saber e da inteligência prática?!

Mas a melhor recordação dos «cinco violinos» data de 17 de Novembro de 1946. Última jornada do Campeonato de Lisboa. Frente a frente iriam estar os dois eternos rivais: Benfica e Sporting. Jogo decisivo para a conquista do título.

Com arbitragem de Carlos Canuto, as equipas alinharam assim:

BENFICA: Pinto Machado; Teixeira e Félix; Jacinto, Moreira e Francisco Ferreira; Espírito Santo, Arsénio, Júlio, Baptista e Rogério.

SPORTING: Azevedo; Cardoso e Manuel Marques; Canário, Barrosa e Veríssimo; Jesus Correia, Vasques, Peyroteo, Travassos e Albano.

Mal soara o apito para o pontapé de saída, o Sporting lançou-se deliberadamente ao ataque, em busca da vitória, único resultado que lhe convinha. E perante a pressão inicial dos «leões» a defesa benfiquista mostrava alguma desorientação jogando atabalhoadamente.

Passado, porém, o primeiro quarto de hora, o Benfica sacudiu a pressão contrária, lançando-se também ao ataque. O estado enlameado do terreno, porém, a prender a bola, não facilitava o seu processo de jogo, feito de passes rasos. Por outro lado, a precipitação do seu ataque prejudicou a precisão dos lances.

Coube, por fim, ao Sporting abrir o activo. Eram decorridos 41 minutos de jogo. Lance criado por Peyroteo em posição de fora-de-jogo. O árbitro, porém, deixou seguir, e Jesus Correia, apoderando-se do esférico, atirou um petardo com o pé esquerdo. O guarda-redes dos «encarnados» ainda meteu as mãos à bola, mas esta ressaltou para o poste, bateu-lhe no corpo e entrou na baliza.

O ataque do Sporting continuou a ser o mais certo até ao intervalo. Porém, pouco antes de atingidos os 45 minutos, os «leões» sofreram um percalço.

Ataque do Benfica. Remate à baliza. Tentativa de defesa por parte de Azevedo, que se magoa seriamente num braço e é forçado a abandonar a baliza leonina. E lá foi Jesus Correia ocupar o lugar de guarda-redes. Aqueles dois ou três minutos que faltavam para o intervalo pareceram-lhe horas. Jesus Correia tremia como «varas verdes». Mas o intervalo chegou com o Sporting a vencer por 1-0.

Nos balneários, perante o medo alucinante que Jesus Correia manifestava, ficou decidido que outro jogador ocupasse o lugar entre os postes. Foi Veríssimo o escolhido. Entretanto, por força das circunstâncias, houve necessidade de mais algumas mexidas na equipa. Assim, Travassos recuou para médio, enquanto Jesus Correia passou a ocupar o posto de interior-esquerdo.

Sem o concurso de Azevedo e com as modificações impostas pela sua ausência, parecia que tudo se iria alterar.

Com efeito, mal se reatara a partida, logo se viu a disposição dos «encarnados» em se lançarem deliberadamente ao ataque, procurando o golo com sofreguidão. Só que a precipitação com que atacavam não proporcionava o golo. Por outro lado, e ante a pressão insistente do adversário, os «leões» aglomeravam-se defronte da sua baliza, formando um bloco intransponível. Os jogadores leoninos defendiam-se como autênticos leões, afastando o perigo de qualquer maneira e procurando barrar de todas as formas o caminho para as redes.

Perante a surpresa geral, Azevedo regressou ao terreno 12 minutos após o reatamento. Alegria transbordante entre o público afecto aos «leões». O seu regresso, embora com uma luxação no cotovelo esquerdo, aumentou o moral do grupo, dando-lhe uma alma nova. E o Sporting, que até aí se engarrafara na defesa, passou de imediato ao ataque, jogando com decisão e discernimento.

Sentindo o perigo, Francisco Ferreira, o capitão benfiquista, passa a ocupar o posto de interior-esquerdo, fazendo recuar Baptista. Minutos depois, os «encarnados» conseguem restabelecer a igualdade. No seguimento de uma descida pelo lado esquerdo, Arsénio recolhe a bola, na posição de interior-esquerdo, e remata com um pontapé raso que Azevedo não consegue defender, até porque o remate foi disparado para o lado do braço esquerdo, que se encontrava magoado.

Esperava-se, nessa altura, que o Benfica acautelasse o resultado, já que o empate lhe bastava. Mas não sucedeu isso. Pelo contrário, os «encarnados» decidiram-se pelo ataque, em que se lançaram abertamente. Só que a sofreguidão e precipitação com que o fizeram não permitiram o resultado por eles desejado. Os remates foram poucos e mesmo esses feitos, precisamente, para o lado que mais convinha a Azevedo: o direito.

Mesmo assim, o Benfica esteve prestes a conseguir o 2-1. Aos 20 minutos, Espírito Santo foge pela direita, interna-se e remata forte a um canto.

Estirada de Azevedo que desvia a bola para canto só com um punho, na mais espectacular jogada de todo o encontro. Depois, caiu no chão, de novo magoado.

Uma ovação estrondosa sublinhou a beleza do lance.

Evitando esse golo que colocaria o resultado em 2-1, numa altura em que o Benfica estava a ganhar claro ascendente, Azevedo ditou a sorte do jogo.

O Benfica ainda insistiu e, no minuto seguinte, na sequência da melhor jogada que o seu ataque logrou em toda a partida, esteve à beira de marcar, mas o golo fugiu por um tris.

Perto da meia hora, Arsénio ainda conseguiria bater Azevedo, mas estava em posição de fora-de-jogo e o tento acabou por ser anulado.

Faltando pouco para acabar o jogo, esperava-se que o Benfica procurasse segurar o resultado. Mas não. Os seus jogadores continuaram apostados em bater Azevedo, o que não voltaria a acontecer.

A cinco minutos do fim, o resultado parecia feito e o título parecia nas mãos dos «encarnados».

Num minuto, porém, tudo se alterou. Aos 40 minutos, Albano, de posse do esférico, apoderou-se da bola e atirou a meia altura. A bola fez tabela no poste e foi aninhar-se no fundo das redes.

Ainda não se haviam extinguido os últimos aplausos do público afecto aos leões quando, no minuto seguinte, Jesus Correia fugiu pela direita. Centro raso, e Peyroteo, que vinha lançado em corrida, rematou, imparavelmente, o terceiro tento da sua equipa.

Como referia Ribeiro dos Reis, no seu comentário ao jogo, «a cinco minutos do fim, o Benfica, com o resultado em 1-1, tinha ainda o título à vista, mas não acautelou suficientemente a sua baliza, não obstante os ‘avisos’ dados por algumas incursões perigosas do Sporting, e quando o remate bem colocado de Albano fez tabela no poste e levou a bola ao fundo das redes, logo se reconheceu que estava ditado o vencedor.

O Sporting ‘cresceu’ a olhos vistos nesses cinco minutos finais, consolidou a vitória com um terceiro golo, feito a seguir, e o Benfica não teve ensejo para qualquer reacção, aceitando a derrota, nessa altura inevitável».

Na apreciação aos jogadores, Ribeiro dos Reis, comentava, assim, a actuação dos «cinco violinos»:

«Na linha da frente, Vasques foi o melhor a ligar jogo e o que mais insistentemente visou a baliza. Nesse capítulo, desta vez levou vantagem sobre Travassos, que só teve uns dois remates perigosos.

A asa esquerda Albano-Travassos ligou bem e perturbou a habitual regularidade de Jacinto. Jesus Correia só nos agradou na ponta final do desafio em que teve iniciativa, jogando na toada que lhe era habitual na época passada.

Peyroteo, que reaparecia após um interregno de várias semanas, apagou-se muito, renunciando a iniciativas e não mostrando o engodo habitual pela baliza. Só na fase final assinalou a presença com um golo da sua marca.»

Contudo, as melhores «palmas» da crítica foram dirigidas a Azevedo, «cujo nome deve ficar intimamente ligado a esta vitória do Sporting, não pela quantidade de trabalho produzido —os adversários não o obrigaram a entrar em acção repetidamente— mas pela ‘qualidade’ do que foi obrigado a executar, sobretudo depois de se ter magoado».

De acordo com a crítica, fácil é concluir que os «cinco violinos» não estiveram tão afinados nessa tarde como noutras oportunidades. Mesmo assim, porém, obter três golos frente ao Benfica, na própria casa deste, constituiu sem dúvida proeza que não se pode subestimar. Só um grande ataque como aquele conseguiria, por certo, desfeitear o Benfica naquelas circunstâncias.

Daí que essa tarde vivida no velho Campo Grande esteja na memória de todos a que ela assistiram e, particularmente, dos «cinco violinos» para quem constituiu, na verdade, uma tarde inesquecível.»

 

In.: BORGAL, Clément; GARCIA, Fernando - 15 histórias de futebol. Lisboa : Verbo, 1980. pp. 137-147

 

(*) ... para o Pedro Azevedo.

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