Alfredo di Stéfano e a estátua de Pushkin
Ontem, a falta de sentido do ridículo abateu-se de forma estrondosa, em simultâneo, sobre dois jornais, o Record e a Bola. A propósito da morte de Alfredo di Stéfano, o primeiro põs em título, na capa, Di Stéfano, Morreu o ídolo de Eusébio, e o segundo, também na capa, Morreu Don Alfredo, O Ídolo de Eusébio. A Marca disse, enaltecendo com comparativa modéstia a figura de Di Stéfano, que Su muerte supone el adiós al jugador más importante de la historia del conjunto blanco y a uno de los grandes de la historia del fútbol mundial. Estivesse este jornal mais bem informado e tivesse, portanto, conhecimento das preferências de Eusébio e o título da notícia seria, por certo, semelhante aos do Record e da Bola. Tal carência informativa é partilhada com todos os jornais cujos títulos li, já que, em nenhum deles, o futebolista único ou quase único que di Stéfano foi é relacionado com o moçambicano. Falta de cuidado, é claro. Em lugar de irem ao que interessa, põem-se a divagar sobre a importância do homem para o futebol, para o Real Madrid, para Espanha, para o River Plate e para a Argentina e para toda uma série de minudências da mais absoluta irrelevância.
A ideia extravagante de, com a distinção de primeiras páginas, atribuir o prestígio e a importância de alguém como o fenomenal jogador hispano-argentino à conta em que era tido pelo simpático Pantera Negra, que, como é óbvio, não tem nenhuma culpa nesta tolice, só pode ocorrer a espíritos seriamente embotados por uma dose reforçada de fanatismo. A cegueira nacionalista, clubística ou uma mistura de ambas tão frondosamente exibida, nesta ocasião, pelas duas gazetas faz-me lembrar uma história que se contava nos tempos da guerra fria sobre a maneira como Estaline preparou as cerimónias do centenário da morte de Alexander Pushkin. Tendo sido decidido edificar um monumento que prestasse devida e grandiosa homenagem ao genial poeta russo, permanecia a indecisão sobre as particularidades da estátua que aí tomaria o lugar de maior relevo. Até que o Secretário-Geral do PCUS proferiu, com o desembaraço que lhe era tão peculiar, uma sentença definitiva:a estátua representá-lo-ia a ele mesmo, Estaline, lendo um exemplar de Eugene Onegin.

