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«Academia não trata só dos pés, trata também da cabeça» - Aurélio Pereira

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Fonte: Sporting Clube de Portugal, por ocasião da remodelação efectuada nas instalações da Academia Sporting, em Alcochete, nas paredes da qual Aurélio Pereira foi retratado. Na imagem, Aurélio Pereira e Paulo Gomes

 

O nome dispensa apresentações. A obra, fala por si e excede há muito as paredes de Alcochete. Dele se diz ser o grande responsável pela captação de talento para os do Leão Rampante e da listada verde e branca. Dele se diz, ainda, ser o enorme responsável pela forma de trabalhar, no seu todo, com crianças e jovens que vestem as nossas cores.

Mais do que a imagem colada na parede, cada tijolo em que assenta o às de trunfo do Sporting, a AS*, foi por si e por aqueles que escolheu, cimentado. Um dos pilares desta complexa estrutura, Nuno Mota, deixou-nos. Certamente não por sua vontade, mas no âmbito das exigências trazidas pela pandemia - e que pandemia...! -, que conduziram ao despedimento colectivo anunciado recentemente.

Na hora de render homenagem ao Homem, mais do que plasmar um rosto na parede, manter vivos os pilares que o mesmo escolheu e aprimorou, parece tarefa muito exigente. Impossível, até. Medonha pandemia...

Difícil de digerir, este Janeiro de 2021, já que ainda a 19 de Novembro de 2020 foi anunciado Carlos Tavares, vindo do Futebol Clube do Porto, como reforço para a estrutura de recrutamento da Academia de Alcochete.

Entristecida, ainda que não surpreendida, com o rumo dos acontecimentos, escolhi relembrar Aurélio Pereira e trazer os desenvolvimentos trazidos pela actual Direcção da Academia Sporting, por mais do que deferência, reverência para com Homem, Obra e obreiros.  

A frase que titula este texto é, naturalmente, de Aurélio Pereira e serviu de título para a entrevista concedida a António Pedro Pereira e Isaura Almeida (Diário de Notícias) a 25 de Outubro de 2008

Nessa altura, há 12 anos, dizia-nos Aurélio Pereira:

«[...] E que tipo de jogador formamos na Academia? Com cabeça, tronco e membros. O número de ingredientes que contribuem para o sucesso é menor dos que levam ao insucesso. Hoje temos todas as condições, com uma equipa extraordinária de pessoas e onde se respira um ambiente de sã camaradagem, e isso passa para os jogadores. [...]»

 

“No Sporting o mau aluno não tem lugar.” Este é o lema?

«Não, não é esse o lema. Criámos uma Academia essencialmente para formar jogadores, não vamos ignorar isso. A filosofia da Academia é essa. Quando escolhemos o nome de Academia Sporting em vez de centro de estágio não foi por acaso, porque a Academia não trata só dos pés, trata também da cabeça. Maus alunos, felizmente temos poucos.»

 

«É por isso que é importante ter um Gabinete Psicopedagógico?

Os clubes têm de ter capacidade para poder dialogar com os pais e eu sou normalmente a primeira cara que a família vê. Por vezes querem entrar mais na esfera desportiva do que na sua, de educadores. Isto não é uma crítica aos pais, mas é assim que funciona. Quando um jovem não joga o tempo que o paizinho quer e eles mostram descontentamento, eu digo sempre que ele devia ir a pé a Fátima agradecer ter filhos numa instituição chamada Sporting, onde estudam, são acompanhados e sabem que estão em segurança

 

Antes ainda, a 3 de Junho de 2007, em entrevista concedida ao jornal Público: 

«Não é só de futebol que estamos a falar. O acompanhamento dos jovens jogadores tem de se estender às mais diversas áreas, dos estudos à formação cívica, do ensino das regras do desporto até aos conselhos sobre nutrição, higiéne, vícios. Entre o sucesso desportivo e o insucesso às vezes vai apenas um pormenor", avisa Aurélio Pereira. E ele sabe do que fala. Ele viu crescer alguns dos melhores futebolistas mundiais das últimas décadas.»

«Hoje, com a Academia de Alcochete, o Sporting é apresentado como um exemplo de excelência na área da formação de futebolistas. "A nossa missão é produzir jogadores que possam jogar na primeira equipa. E a missão está a ser cumprida", diz o responsável pelo recrutamento (...)» [negrito meu]

 

A 9 de Julho de 2016, Tiago Palma desafiou Aurélio Pereira a falar para O Observador, sobre cada um dos jogadores do Sporting que, no dia seguinte, bom, no dia seguinte Portugal conquistaria o Campeonato da Europa com, apenas, 10 jogadores formados no Sporting Clube de Portugal. Retalhos preciosos cuja leitura recomendo, também, por permitir ver no plano concreto aquilo que acima, de forma teórica, Aurélio Pereira foi, ao longo dos anos, dizendo. E mais do que dizer, fez. E fê-lo tão bem, que chamar aos 10 jogadores da nossa formação "Os Aurélios" é da mais elementar justiça. 

 

Já a 12 de Setembro de 2019, neste blogue, Pedro Correia partilhou alguns trechos de uma entrevista que Aurélio Pereira concedeu nesse mesmo dia ao jornal A Bola, de entre os quais destacaria, para já, apenas um:

«O foco é no jogador e nos seus comportamentos; o acompanhamento, quer social, quer escolar, somos nós que fazemos. Isso é um trabalho altamente complexo. Tomar conta dos filhos dos outros é muito pior do que os nossos. Temos de estar preparados para isso.» [verdito meu]

 

Mais recentemente, nas páginas 16 a 19 da edição 3780 do Jornal Sporting (9 de Julho de 2020) encontramos uma entrevista a Tomás Morais, director de futebol de formação e liderança, a partir da qual é possível obter os seguintes esclarecimentos quanto ao inovador trabalho que está a ser feito na Academia Sporting:

 

«O que é o modelo centralizado no jogador que tem sido trabalhado e implementado no Sporting CP?

Consideramos que o modelo centralizado no jogador é a capacidade que toda uma equipa multidisciplinar formativa tem para colocar o foco no jogador e não apenas num sentido colectivo. Nesta perspectiva, o atleta é o principal interveniente no processo. Tencionamos, acima de tudo, formar jogadores completos, que se tornem autónomos, resilientes e que sejam física e cognitivamente superiores. Desta forma, acreditamos estar a valorizar e a maximizar o talento individual de cada um sem retirar a capacidade criativa que mais tarde irão fazer toda a diferença.
Acreditamos que com esta visão estratégica podemos dar cumprimento aos princípios gerais e específicos de um modelo formativo que vise essencialmente o desenvolvimento e potencialização do jovem jogador enquanto pessoa e atleta, estamos em simultâneo a formar equipas no expoente máximo das suas plenitudes. Para que tal aconteça e para que estejamos mais perto do sucesso, é fundamental a existência de um ambiente positivo entre todas as áreas suportado por bom senso, comunicação permanente, capacidade crítica construtiva e a vivência diária de valores comuns.

 

Quais são as suas características mais importantes?
Numa fase inicial procurámos definir um propósito sustentado na nossa visão, missão e valores. Numa segunda fase definimos uma estratégia para estarmos efectivamente capacitados para potenciar não só o talento existente, mas igualmente preparados para o que nos vai chegando através da nossa área de recrutamento e identificação de talento. Numa terceira fase apostámos na nossa estrutura de forma a maximizar a competência interna e criar padrões de coerência. Por último, contruímos um processo multidisciplinar para a essência: o futebol. Só com um ambiente positivo de aprendizagem conseguimos que todos os jovens evoluam diariamente com o processo de treino e retirem o maior número de ferramentas que lhes garanta a revelação de todas as suas capacidades, em qualquer que seja o contexto competititvo onde joguem. Este modelo acaba por valorizar, envolver, motivar e mobilizar a excelência profissional existente em todos os colaboradores da Academia nas suas diferentes áreas. [negritos e sublinhados meus]

 

O longo e reconhecido passado no râguebi infuenciou, de alguma forma, o modelo centralizado no jogador que implementou no Sporting CP?

Não especificamente porque a norma deste modelo holístico é a sua implementação pelas direcções técnicas, por todo o quadro de treinadores e técnicos desportivos que, desde a base até ao longo da pirâmide da formação desportiva, diariamente trabalham com os jogadores. Compete-me, enquanto director, proporcionar reflexões, discussões, a revisão do pensamento e caminho estratégico, bem como a criação de um ambiente propício a que tudo se desenvolva. Como acreditamos que este é o modelo certo, gostaríamos que ficasse e fosse implementado independentemente de quem estiver na liderança directiva ou técnica do futebol de formação. Temos a responsabilidade de melhorar o legado que nos foi deixado! O maior exemplo passa por dar expressão a tudo o que o senhor "formação" Aurélio Pereira continuamente nos ensina e transmite. Na formação estamos sempre a aprender... [verdito e sublinhados meus]

 

Qual é o objectivo primordial do modelo centralizado no jogador?

É potenciar todas as qualidades futebolísticas que o jogador tem individual e colectivamente. Suportado por um trabalho orientado nas áreas mental, física e estrutural. Sabemos que todas a funcionar numa dinâmica perfeita resultam naquilo que se pretende: um atleta integral, dentro e fora do campo. O foco no jogador permite a conciliação perfeita entre a sua vida futebolística e as vertentes familiar, social e escolar, dado que neste processo participam diferentes agentes desportivos para que em sintonia ponham em prática todos os detalhes tanto educativos como formativos. Deste modo, podemos atingir aquele que é o grande propósito da Academia Sporting: formar jogadores capazes de chegar e afirmarem-se na equipa principal do Sporting Clube de Portugal. Para que isso aconteça, as nossas acções diárias têm de ser boas e detalhadas, mas também de grande consistência entre toda uma vasta equipa que tem por único objectivo pensar que a razão da sua existência é a construção do jogador e do homem na vida e no campo.

 

O que foi necessário alterar para implementar este modelo?

Acima de tudo, a construção de um plano estratégico que envolveu na sua liderança e administração, o director técnico, o director da formação, o director  da Academia e os coordenadores de cada área multidisciplinar. Conscientemente no nosso modelo operacional motivámos todos os colaboradores da Academia a revelarem as suas competências num único propósito. Encontramos em todos aqueles que estão de corpo e alma no Clube uma vontade férrea de continuar a colocar a Academia Sporting como uma referência mundial em termos formativos. Os que entraram, depressa se enquadraram neste estímulo e nesta enorme vontade organizacional de fazer mais e melhor pelo Sporting Clube de Portugal. [negrito e sublinhados meus]

 

Fora de campo, a nível cívico, social e educacional, o que tem sido feito?

Devemos sempre associar a vertente desportiva à vertente humana. Um atleta é tão ou mais capaz de revelar as suas competências e qualidades quanto melhor pessoa for. Tentamos a todos os níveis incutir uma liderança ética e construtiva baseada no exemplo, com responsabilidades partilhadas, princípios de proximidade e acompanhamento. Queremos, na Academia, criar um conjunto de estímulos com origens muito diferenciadas para os sensibilizar que a vida passa por momentos contínuos de sucesso e frustração e a forma como sabemos estar e reagir perante os obstáculos vai fazer toda a diferença. O valor do jogador não está apenas na paixão que coloca no treino e no jogo, mas também na sua capacidade de se sacrificar para aquilo que é a missão do Clube. Só assim poderá dar corpo aos seus sonhos. [verdito, meu]

 

Qual era a urgência de mudar o paradigma quando chegou ao Sporting CP?

Um paradigma nunca é nem pode ser mudado por uma pessoa apenas. Venho de uma essência colectiva e acredito que o somatório de um conjunto de valências de vários especialistas é sempre superior a um pensamento egocêntrico. Como tal, havendo uma nova visão suportada por um propósito muito claro que a administração nos passou desde o príncipio, sentimos que era preciso aprender com o passado e reter todo o triunfalismo histórico que o Sporting CP tem na formação, mas também incutir novas reformas organizacionais e funcionais. Daí que a transparência entre todos e a capacidade de dar voz a todos os envolvidos, desde as escolas Academia, Academias Formação Sporting, Pólo EUL até à Academia, teriam de ser o lema de suporte para todas as transformações a efectuar. [sublinhados e negritos, meus]

 

O que falta fazer em relação ao modelo centralizado no jogador?

Continuarmos a aplicar o nosso esforço e conhecimento naquilo que é realmente importante: o jogador. Não perdermos energias e tempo com os factores que não levam o Sporting CP a caminho algum e focarmo-nos naquilo que importa e interessa. Temos, cada vez mais, de ser credíveis, coerentes e justos. Temos de deixar a cultura de depressão nas pequenas derrotas e a euforia nas vitórias, porque o objectivo é a criação de uma estabilidade que permita tornar estes momentos efectivamente naturais, como parte fundamental do processo de crescimento desportivo. [negrito e verdito meus]

 

Quais são os objectivos a curto e a longo prazo?

O grande objectivo, seja a curto ou a longo prazo, é formar e preparar jogadores para a equipa principal. A formação nunca está completa, é altamente dinâmica e aberta, sendo um somatório de todas as mais-valias daqueles que em dado momento contribuíram para as aprendizagens dos jogadores. Um projecto formativo deve ser silencioso e virado essencialmente para dentro. Só assim geramos a tão necessária confiança e a mobilização do contributo de todos os envolvidos.» [verdito, meu]

A entrevista de Tomás Morais prolonga-se para além dos trechos aqui partilhados, mas no essencial, esta foi a mensagem que quis transmitir aos leitores do Jornal Sporting.

 

Aurélio Pereira é unanimemente considerado "O Senhor Formação" (confira, por favor, a fotografia acima), foi o responsável pela criação do Departamento de Recrutamento do Sporting Clube de Portugal em 1987/1988** e disse-nos ainda em 2019:

«Há duas coisas que têm de caminhar lado a lado: o recrutamento e a área técnica. São dois pilares de uma academia, sem esses pilares conscientes não há trabalho de nível tão elevado. Temos nesta altura essa simbiose, está a crescer dia a dia. Falamos a mesma linguagem. O novo director técnico, o Miguel Quaresma, tem sido um homem certo no lugar certo.»

Infelizmente, também Miguel Quaresma e Raul José já nos deixaram (em Maio de 2020). 

 

Ao Mestre Aurélio Pereira e ao Nuno Mota, a este último pelos 16 anos de Esforço, Dedicação e Devoção à formação leonina, a minha vénia. A Glória, está em muito mais do que é visível aos nossos olhos, é verdade. Está na acção da verdadeira estrutura invisível que sempre foram. A Glória, estará sempre no pioneirismo e carácter que revelaram continuamente e na magia que os vossos diamantes espalham no relvado, cá e pelo mundo.

Obrigada, é pouco. É muito pouco. 

*Academia Sporting, actualmente conhecida por Academia Cristiano Ronaldo.

**Em entrevista ao jornal Público é dito 1987, na entrevista ao jornal Diário de Notícias, 1988. 

{ Blog fundado em 2012. }

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