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És a nossa Fé!

A ver o Mundial (17)

É a história de sempre, que faz o sortilégio e o drama do futebol: por vezes a barra de uma baliza atravessa-se na trajectória da bola e é quanto basta para reescrever toda a história de um jogo.

A verdade é que iam decorridos os primeiros 20 minutos do Portugal-Gana, dominados por completo pela selecção nacional, com duas hipóteses flagrantes de golo para o onze comandado por Paulo Bento.

A primeira, logo aos 5', resultou de uma incursão de Cristiano Ronaldo pelo lado direito: o capitão português fez um remate forte e bem colocado, sem hipóteses de defesa para o guardião ganês. A barra encarregou-se de travar a bola.

A segunda, também por Cristiano Ronaldo, ocorreu aos 18' após um grande cruzamento de João Pereira. Um tiro à baliza a que o guarda-redes correspondeu com uma excelente defesa.

 

Tudo poderia ter sido bem diferente. Até porque no Alemanha-Estados Unidos, que decorria à mesma hora, a selecção alemã cumpria o seu papel de favorita derrotando os norte-americanos, embora pela margem mínima - com mais um golo de Müller.

Precisávamos de uma goleada no estádio Mané Garrincha, em Brasília: quatro a zero ou a cinco a um.

Só marcámos dois.

E deixámos até o Gana assumir o controlo da partida nos últimos 20 minutos da primeira parte. Isto apesar de termos ido para o intervalo a vencer 1-0, graças a um brinde de um defesa africano, que viu um mau alívio transformado em autogolo.

 

Na etapa complementar, quando se impunha que tomássemos em definitivo as rédeas da partida, cedemos demasiado terreno ao Gana e sofremos alguns calafrios - desde logo o golo do empate, conseguido por espaço em excesso na lateral direita e deficiente marcação na zona da nossa defesa central.

Foi só aí que soou o alarme do tudo ou nada, tipicamente à portuguesa.

Paulo Bento - que enfim se convenceu a trocar Raul Meireles e Miguel Veloso por Rúben Amorim e William Carvalho no meio-campo - tardou demasiado em substituir o ineficiente Éder pelo acutilante Vieirinha, que ajudou a pôr os ganeses em sentido. Antes entrara Varela, que devia ter sido titular: nem sempre meia hora basta para o habitual talismã da selecção marcar o golo da praxe.

Desta vez não bastou.

 

Faltavam dez minutos quando Cristiano Ronaldo marcou finalmente o seu primeiro (e último) golo do Mundial, após excelente cruzamento de Nani. O número 7 teve a lucidez de não festejar: os minutos escoavam-se, havia mais que fazer. Tanto mais que tínhamos outro jogador lesionado, a somar-se a tantos outros: desta vez foi Beto, que teve de ser substituído na baliza in extremis pelo veterano Eduardo.

Se tivéssemos chegado aos oitavos, contaríamos com apenas um guarda-redes dos três que viajaram para o Brasil: este é, no entanto, um problema que Paulo Bento já não terá. Os "Conquistadores" regressam a casa com uma vitória tangencial, um empate esforçado e uma derrota copiosa. Quem os baptizou desta maneira revela fracos dotes proféticos: desta vez nada se conquistou.

 

Portugal, 2 - Gana, 1

 

.................................................

 

Os jogadores portugueses, um a um:

 

Beto - Seguro e concentrado, com bons reflexos e um par de defesas a merecer aplauso. Transmitiu confiança à equipa. Sem culpa no golo ganês. Lesionou-se e teve de dar lugar a Eduardo a poucos minutos do fim. Saiu lavado em lágrimas - símbolo da desilusão de todos os portugueses.

 

João Pereira - Voltou a ser irregular. Fez menos incursões pela sua ala do que Portugal precisava. Aos 18' protagonizou no entanto um dos melhores lances do encontro com um cruzamento perfeito para Cristiano Ronaldo: ia sendo golo. Depois foi-se apagando. Acabou por sair 61' por troca com Varela, passando Ruben Amorim a jogar na sua posição.

 

Pepe - Regressou ao onze titular após um jogo de castigo (contra os EUA). Esteve globalmente bem, antecipando-se quase sempre aos avançados ganeses. Mas teve uma falha de cobertura no lance em que os africanos empataram.

 

Bruno Alves - A melhor partida do defesa central neste Campeonato do Mundo, embora tenha revelado alguma descoordenação com Miguel Veloso na ala esquerda, que voltou a ser o nosso ponto mais fraco.

 

Miguel Veloso - Está sem ritmo competitivo, como ficou evidente no Mundial. Paulo Bento, no entanto, teimou em apostar nele - desta vez como lateral esquerdo titular. A posição não é estranha ao médio formado no Sporting mas exige-lhe uma mobilidade que de momento não tem. De qualquer modo, o lance do nosso primeiro golo nasce de um cruzamento da sua autoria. Deu também o habitual contributo nos lances de bola parada ofensivos, embora sem grande resultado.

 

William Carvalho - Demorou mas conseguiu: ao terceiro jogo do Mundial, o seleccionador finalmente colocou-o a titular. A presença do médio defensivo do Sporting foi um dos factores que levaram a que este desafio fosse, de longe, o melhor dos três que disputámos no Brasil. De uma das muitas recuperações de bola que concretizou no seu sector começou a jogada que terminaria no golo da vitória portuguesa.

 

Rúben Amorim - Começou discreto, revelando alguns problemas de articulação com Miguel Veloso por aparente falta de treino da solução táctica que o fez actuar na posição habitualmente destinada a Raul Meireles. Mas não comprometeu. E melhorou o rendimento na última meia hora, quando Paulo Bento o fez jogar a lateral direito após a saída de João Pereira.

 

João Moutinho - Um dos desempenhos que fizeram a diferença - para bastante melhor. Se Portugal tivesse jogado nas duas partidas anteriores com o Moutinho que esta tarde actuou em Brasília, certamente teríamos carimbado a nossa passagem aos oitavos-de-final. Hoje o médio do Mónaco voltou a ser influente e combativo, criando linhas de passe em mobilidade contínua. E teve um excelente apontamento técnico no lance que precedeu o primeiro golo. Soube a pouco, esta boa exibição quase ao cair do pano.

 

Nani - É daqueles jogadores que, mesmo com exibições medianas (como foi o caso), conseguem estabelecer sempre a diferença. Fez uma assistência impecável para o golo de Ronaldo e já no período complementar da segunda parte voltou a servi-lo da melhor maneira, com o capitão a desperdiçar o brinde.

 

Cristiano Ronaldo - A meio da semana fez declarações públicas dando já por terminada a participação portuguesa no Mundial quando ainda tínhamos este jogo por disputar. Falou cedo de mais, tal como antes tinha falado no tempo errado ao profetizar que este seria "o ano de Portugal". Nunca esteve - nem de perto - ao seu melhor nível no Brasil. O que ficou bem evidente neste jogo: marcou um golo (o 50º ao serviço da selecção), que nem festejou, mas podia ter marcado dois ou três. Pouca coisa lhe saiu bem. Às vezes o melhor é não falar tanto.

 

Éder - Já lá vão dez jogos na selecção e nem um golo para amostra - o que, convenhamos, é algo estranho para um avançado. Paulo Bento insistiu em tê-lo como titular. Mas a aposta saiu-lhe furada, uma vez mais. O bracarense foi o elo mais fraco do onze português: quase nada lhe saiu bem. Substituído aos 66' por Vieirinha. Já saiu tarde.

 

Varela - Entrou aos 61'. Três minutos depois estava já a fazer um cruzamento muito bom, servindo Ronaldo na área. Trouxe mais dinamismo e ousadia ao ataque português. Ficou a sensação de que devia ter entrado muito mais cedo num jogo em que precisávamos não só de ganhar mas de marcar vários golos.

 

Vieirinha - Porque permaneceu tanto tempo no banco? Entrou aos 66', para o lugar de Éder, e deu mais profundidade do ataque português, embora nem sempre da forma mais esclarecida.

 

Eduardo - O nosso guarda-redes titular do Mundial de 2010 jogou hoje alguns minutos, rendendo Beto, lesionado à beira do fim. Não chegou a fazer qualquer defesa.

 

Cristiano Ronaldo: adeus, Mundial

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