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És a nossa Fé!

Frases eternas (13)

«Quem tem medo que faça chichi...»

Frase de Osvaldo Silva, o herói da noite mágica de 1964 em Alvalade, dirigida aos colegas, no túnel de acesso ao relvado.

No primeiro jogo da eliminatória fomos derrotados por 4-1, na segunda eliminatória, em casa, 5 - 0 a nosso favor, uma das maiores «viradas» (peço desculpa pelo brasileirismo) da história da UEFA. O adversário foi o Manchester United.

 

Leitura complementar:

Os melhores golos do Sporting (44), de Pedro Correia

Porque hoje é quarta-feira (5)

«Um SPORTING à europeia

Crónica de Rui Tovar

 

MINUTO 36.

Da meia-esquerda do seu ataque, Jordão e Oliveira arrancaram em excelente combinação, flectindo para o corredor central. O jogador-treinador, que é também goleador e é espectáculo, furtou-se, em intervenção de génio, à marcação de dois adversários, evitou superiormente o guarda-redes e, sempre em movimento, atirou, para as malhas. Um golo de antologia!

 

Alvalade ergueu-se em peso e milhares de bandeiras saudaram esfusiantes o «volte-face» da eliminatória. O Sporting vingava, assim, ao cabo de 27 anos, o desaire de Belgrado, quando a Taça dos Campeões dava ainda os seus primeiros passos.

 

Espectáculo de luxo

Foi, na verdade, um espectáculo de luxo aquele que o Sporting proporcionou aos cerca de 50 mil pagantes que demandaram Alvalade. Um espectáculo mesmo inesquecível.

Se, em Zagreb, os «leões» fizeram recair, muito naturalmente, as suas atenções sobre o seu sector defensivo (recorde-se a «promessa» do treinador jugoslavo, Blazevic, em decidir a questão a seu favor só num jogo), em Lisboa, os interesses de Oliveira e seus pupilos foram obviamente de todo opostos.

Na verdade, só um Sporting decididamente virado para o ataque poderia alimentar veleidades quanto à recuperação do 0-1 da primeira «mão» e, consequentemente, a continuar na prova. E foi exactamente nesse figurino que Oliveira apostou.

Recuperado Jordão e quase totalmente refeito Manuel Fernandes da operação a que foi sujeito, ainda antes do início das provas oficiais, pôde o Sporting contar, pela primeira vez, esta temporada, com a contribuição desta desconcertante dupla que, noutras alturas, permitiu já ao clube adregar muitos e inesquecíveis êxitos.

 

Um meio-campo sensacional

Se àqueles juntarmos um meio-campo verdadeiramente sensacional, onde pontifica o génio de Oliveira, teremos encontrado o porquê deste Sporting endiabrado que nem o mais pintado Liverpool conseguiria - estamos certos - evitar o descalabro.

E isto porque, além do «mestre», outros valores se levantam naquele «miolo»-ataque de Alvalade. Com efeito, Lito surge, esta época, numa forma extraordinária, num «new style» que lhe permite revelar ignoradas potencialidades. Lito actua, agora, mais colado à linha e em posição mais recuada que habitualmente. Contudo, tem a arte de saber vir de lá de trás com a propósito, cotando-se como um elemento imprescindível na manobra atacante.

A completar o «naipe», dois homens-força, Nogueira e Festas, a consolidarem ainda mais o já de si quase irredutível meio-campo «leonino».

Não terá surpreendido que, perante tamanha fogosidade, o Dínamo haja sentido tremendas dificuldades, praticamente, desde o início da partida. Logo aos 2 minutos, Jordão atira sobre a barra o que poderia ter sido o primeiro golo. De qualquer forma, o aviso estava dado: o Sporting estava mesmo embalado para uma noite de grande gala e a defesa jugoslava, mau grado ter demonstrado trata-se do melhor sector da equipa, denunciava francas dificuldades em anular os seus opositores.

E de tal sorte que, apenas com 20 minutos de jogo, dois jogadores visitantes haviam já visto o cartão amarelo, prova irrefutável da incapacidade jugoslava em se opor, dentro da legalidade, a todo aquele vendaval «leonino».

O primeiro golo seria o corolário do ascendente «verde e branco». Ademar (um defesa que também se integra no ataque) lançou Oliveira e este, num raide de categoria, tem a frieza para tudo: fugir à marcação, driblar o defesa e marcar o golo. Tudo muito simples!

 

Hesitações comprometedoras

Foi o pânico nas hostes jugoslavas de que o Sporting se aproveitaria para, num «pressing» inteligente, ampliar a marca, no tal lance de antologia já descrito. Só que, antes e depois, um «frisson» percorreria a assistência, face a duas hesitações da defesa do Sporting, em jogadas que estiveram quase a estragar a festa. Afinal, riscos que se correm quando uma defesa em linha, excessivamente animada em apoiar o ataque, é apanhada em contra-pé...

Daqui não se infira que, individualmente, o «quatro» recuado do Sporting haja desiludido ou sequer se aproximado de uma modesta bitola exibicional. Nada disso. Os laterais, Ademar e Virgílio, encheram o campo em deambulações ao bom estilo que hoje é norma. E no eixo da defesa, Venâncio e Zezinho não deram quaisquer tréguas ao incrivelmente atabalhoado e pouco ambicioso ataque de Zagreb.

Mas que aquela defesa em linha, vamos lá, na primeira meia hora de jogo, causou amargos de boca (poucos, é verdade, mas alguns. E um golo do Dínamo que fosse era muito...), disso também não restam dúvidas.

Mas foram apenas dois sobressaltos. Na metade complementar nem isso os jugoslavos conseguiriam originar, por força, então sim, de uma marcação verdadeiramente impecável a que foram sujeitos. Ataques do Dínamo, pode dizer-se, não houve na segunda parte, já que a colocação dos seus dianteiros em fora de jogo, por banda da defesa «leonina», foi, sem sombra de dúvidas, exemplar.

Multo mais perigoso e, pelos vistos, produtivo, parecia ser o ataque do Sporting. A confirmação não demoraria muito, quando Oliveira, em noite de franca inspiração, teve aquela simulação a longa distância, obrigando o guarda-redes a esboçar a defesa para um lado, ao mesmo tempo que enfiava, suave e calmamente, a bola pelo outro. Era o golo do descanso.

 

Ambição até ao fim

E se o avanço no marcador era de molde a convidar o Sporting a um abrandar de movimentos e consequente empertigar dos jugoslavos, assistir-se-ia, até final, a um recital sim, mas ainda do conjunto de Oliveira, que alardeava força, frescura e... muita ambição. A barra evitaria, a escassos cinco minutos do final, o 4-0, em excelente «cabeça» de Jordão, numa prova da muito salutar insatisfação «leonina».

O Sporting está mesmo à conquista da Europa!

 

 

Com 3-1 nos dois jogos

Eliminatória decidida em 6 minutos

Bastaram apenas seis minutos para o Sporting decidir a eliminatória a seu favor, recuperando da desvantagem de um golo que trouxera do primeiro jogo. Com efeito, o portentoso momento de forma por que passa Oliveira bastou para arrumar as pretensões jugoslavas, com dois tentos aos 30 e 36 minutos. Depois, aos 65, foi o fim de festa.

Aqui deixamos a síntese da eliminatória:

 

Em Zagreb

Árbitro: Aloyzi Jargus (Polónia)

DÍNAMO DE ZAGREB – lnkovic [sic]; Bracun; Zajec, «cap.» Bogdan e Z. Cvetkovic; Cerin, Muastedanagic e Hdzic; Deverin, Kranjcar e B Cvethovic.

SPORTING - Mészaros; Zezinho, Virgílio, Venâncio e Barão, (cap.», Ademar, Festas Bastos, 86m e Nogueira; Oliveira, Freire (Mário Jorge, 66m e Lito.

Golo; Gerin (71 m).

Cartão amarelo e, depois, vermelho para Barão.

 

Em Alvalade

Árbitro: Alain Delmer (França).

SPORTING - Mészaros; Zezinho, Ademar, Venâncio e Virgílio; Festas, Nogueira, Oliveira (Freire 89m) e Lito (Xavier 72m); Jordão e Manuel Fernandes.

DÍNAMO DE ZAGREB –Jukovic [sic]; Zajec; Bracun, Bogaan e C. Vetkovic; Haazic B. Cvetovic (Arsnalovic 43 m) Kranjacar e Cerin; Deverik e Bosniak (Dubovic 72 m).

Golos: Oliveira (30, 36 e 65m).

Cartões: Cartões amarelos para Zajec, B. Cvetkovic e Bosniak.»

 

In.: Off-side magazine: o desporto à sexta feira. prop. COOPEJOR- Cooperativa Editora de Jornais e Revistas ; dir. Alexandre Pais. n.º1, 1 de Outubro de 1982. p. 11

 

 

Leituras complementares:

Os melhores golos do Sporting (39) de Pedro Boucherie Mendes

Os melhores golos do Sporting (42) de Luciano Amaral

 

Porque hoje é quarta-feira (1), (2), (3) e (4)

Vamos imaginar que...

(peço desculpa por 'pensar em voz alta')

... alguém na sua actividade profissional comete actos, eventualmente, ilegais e a única beneficiária de tais actos é a sua entidade patronal.
Esses actos são descobertos e, obviamente, essa pessoa é detida e acusada. A entidade patronal, que foi, afinal, a única beneficiada, não é acusada e nada lhe acontece.

Isto não pode acontecer, pois não?

«Aquela tarde de glória...

...dos cinco violinos (*).

 

A mais famosa formação de todos os tempos no futebol português foi, sem dúvida, aquela que apareceu nos nossos campos na década de 40 e a que chamaram de os «cinco violinos».

Os três mosqueteiros eram... quatro. Os «violinos» eram cinco: Jesus Correia, Vasques, Peyroteo, Travassos e Albano.

António Jesus Correia, extremo-direito, nasceu em 3 de Abril de 1924. O seu primeiro clube foi o Paço de Arcos, de onde se transferiu para o Sporting na época de 1943-44. Terminou a sua carreira na CUF, onde permaneceu apenas três meses, na época de 1955-56. Envergou 13 vezes a camisola da selecção nacional de futebol, pela qual marcou três golos.

Manuel Vasques, interior-direito, nasceu a 29 de Julho de 1926. Representou o Unidos Futebol Clube, de onde se transferiu na temporada de 1944-45 para o Grupo Desportivo da CUF e, duas épocas mais tarde, para o Sporting. A sua actividade findou no Atlético Clube de Portugal, clube em que ingressou na época de 1959-60. «Rei dos marcadores» na época de 1950-51, com 29 golos marcados e 26 vezes internacional, marcou cinco golos pela selecção.

Fernando Baptista Seixas Peyroteo, o mais velho dos «cinco violinos», nasceu a 10 de Março de 1918 e era avançado-centro. Principiou no Sporting Clube de Luanda, de onde se transferiu para o Sporting Clube de Portugal, na época de 1937-38. Vinte vezes foi chamado à selecção nacional, pela qual marcou 15 golos.

O interior-esquerdo era José António Barreto Travassos. Nasceu a 22 de Fevereiro de 1926 e começou a sua carreira no Unidos Futebol Clube, de onde transitou para a CUF em 1944-45. Viria a ingressar no Sporting na época de 1946-47. Autor de seis golos nas suas internacionalizações, foi o primeiro futebolista português a ter a honra de envergar a camisola da U. E. F. A., em jogo realizado em Belfast, a 13 de Agosto de 1955. Daí que se tenha popularizado como o «Zé da Europa».

Finalmente, o extremo-esquerdo: Albano Narciso Pereira. Nasceu em 22 de Dezembro de 1922. Começou no Barreirense, transferindo-se para o Seixal na temporada de 1939-40 e para o Sporting em 1943-44. No declínio da sua carreira, voltou ao Seixal, em 1957-58, para, finalmente, acabá-la no Mangualde, para onde transitou na temporada de 1963-64.

Dotados todos de grande tecnicismo, constituíam um ataque temível. Desde a fogosidade — e habilidade — de Jesus Correia e Albano ao virtuosismo de Vasques e Travassos, este o «cérebro» da equipa. Menos tecnicista embora que os seus companheiros, Fernando Peyroteo era o terror dos guarda-redes. Dotado de magnífica compleição física, aguentava o embate com os defesas contrários, travando sempre luta rija mas dentro das normas da maior correcçao. Temível goleador, o que lhe valeu, por cinco vezes, o título de «rei dos marcadores», obteve o record de 43 golos marcados num só campeonato, record que se manteve até à época de 1973-74,ano em que Yazalde alcançou 46 golos.

Curiosamente, em encontros da selecção nacional, os «cinco violinos» só se encontraram todos juntos duas vezes : no III Portugal-Irlanda, em 23 de Maio de 1948, com a vitória dos portugueses por 2-0, golos de Peyroteo e Albano, e no XXI Portugal-Espanha, em 20 de Março de 1949, que terminou empatado 1-1, com um golo de Peyroteo.

Mas entre os «cinco violinos», um caso particularmente curioso é o de Jesus Correia. Jogador internacional de futebol e de hóquei em patins, foi multicampeão em qualquer deles. Especialmente no hóquei patinado, em que conheceu todos os títulos possíveis: desde campeão regional a nacional, de campeão europeu a mundial. Quanto a internacionalizações, teve «só»... 149.

Nem sempre foi fácil harmonizar a prática das duas modalidades, já que ocasiões houve em que saía do rinque para ir a correr para o aeroporto juntar-se aos outros «violinos» e vice-versa.

Muitos foram os títulos e triunfos alcançados. Muitas foram as tardes de glória. Estamo-nos a recordar, por exemplo, daquele jogo realizado em Lisboa, onde o Vasco da Gama, aureolado então de grande fama e prestígio, perdeu por 2-3.

Cândido de Oliveira, por exemplo, recordava, assim, dois jogos em que jogaram os «cinco violinos»:

Temos sempre presentes dois jogos em Madrid, realizados por Jesus Correia pelo Sporting! Um, contra o Atlético, em que ele marcou todos os seis golos da equipa; outro, na Taça Latina, no jogo com o Torino, no qual Peyroteo marcou três golos que pareciam copiados a... papel químico!

Passagem em profundidade de Vasques, para a linha de cabeceira; partida em velocidade de Jesus Correia, a recolher a bola quase no limite do campo e entrega, com a bola rasa, a Peyroteo, para o limiar da grande área e remate seco e raso do avançado-centro. Três golos iguaizinhos uns aos outros; no esquema e desenvolvimento, e, os três, tendo na base a utilização da excepcional velocidade de Jesus Correia e, depois, a sua entrega para o sítio e no momento óptimo.

Esta última lembrança não pode desligar-se desta observação: primeiro Peyroteo e, depois, Jesus Correiadesapareceram prematuramente do futebol! Foi pena. Porque, ainda hoje, estou certo disso, podíamos ver nos nossos campos em plena acção, os célebres «cinco violinos»! E se isso sucedesse, talvez eles já não tocassem com a mesma desenvoltura... Decerto. Mas, quem sabe se não tocariam, agora, passados alguns anos, outra espécie de música, menos viva, de ritmo mais lento, mas porventura mais bela: sugerida pela longa experiência e determinada pelo refinamento do saber e da inteligência prática?!

Mas a melhor recordação dos «cinco violinos» data de 17 de Novembro de 1946. Última jornada do Campeonato de Lisboa. Frente a frente iriam estar os dois eternos rivais: Benfica e Sporting. Jogo decisivo para a conquista do título.

Com arbitragem de Carlos Canuto, as equipas alinharam assim:

BENFICA: Pinto Machado; Teixeira e Félix; Jacinto, Moreira e Francisco Ferreira; Espírito Santo, Arsénio, Júlio, Baptista e Rogério.

SPORTING: Azevedo; Cardoso e Manuel Marques; Canário, Barrosa e Veríssimo; Jesus Correia, Vasques, Peyroteo, Travassos e Albano.

Mal soara o apito para o pontapé de saída, o Sporting lançou-se deliberadamente ao ataque, em busca da vitória, único resultado que lhe convinha. E perante a pressão inicial dos «leões» a defesa benfiquista mostrava alguma desorientação jogando atabalhoadamente.

Passado, porém, o primeiro quarto de hora, o Benfica sacudiu a pressão contrária, lançando-se também ao ataque. O estado enlameado do terreno, porém, a prender a bola, não facilitava o seu processo de jogo, feito de passes rasos. Por outro lado, a precipitação do seu ataque prejudicou a precisão dos lances.

Coube, por fim, ao Sporting abrir o activo. Eram decorridos 41 minutos de jogo. Lance criado por Peyroteo em posição de fora-de-jogo. O árbitro, porém, deixou seguir, e Jesus Correia, apoderando-se do esférico, atirou um petardo com o pé esquerdo. O guarda-redes dos «encarnados» ainda meteu as mãos à bola, mas esta ressaltou para o poste, bateu-lhe no corpo e entrou na baliza.

O ataque do Sporting continuou a ser o mais certo até ao intervalo. Porém, pouco antes de atingidos os 45 minutos, os «leões» sofreram um percalço.

Ataque do Benfica. Remate à baliza. Tentativa de defesa por parte de Azevedo, que se magoa seriamente num braço e é forçado a abandonar a baliza leonina. E lá foi Jesus Correia ocupar o lugar de guarda-redes. Aqueles dois ou três minutos que faltavam para o intervalo pareceram-lhe horas. Jesus Correia tremia como «varas verdes». Mas o intervalo chegou com o Sporting a vencer por 1-0.

Nos balneários, perante o medo alucinante que Jesus Correia manifestava, ficou decidido que outro jogador ocupasse o lugar entre os postes. Foi Veríssimo o escolhido. Entretanto, por força das circunstâncias, houve necessidade de mais algumas mexidas na equipa. Assim, Travassos recuou para médio, enquanto Jesus Correia passou a ocupar o posto de interior-esquerdo.

Sem o concurso de Azevedo e com as modificações impostas pela sua ausência, parecia que tudo se iria alterar.

Com efeito, mal se reatara a partida, logo se viu a disposição dos «encarnados» em se lançarem deliberadamente ao ataque, procurando o golo com sofreguidão. Só que a precipitação com que atacavam não proporcionava o golo. Por outro lado, e ante a pressão insistente do adversário, os «leões» aglomeravam-se defronte da sua baliza, formando um bloco intransponível. Os jogadores leoninos defendiam-se como autênticos leões, afastando o perigo de qualquer maneira e procurando barrar de todas as formas o caminho para as redes.

Perante a surpresa geral, Azevedo regressou ao terreno 12 minutos após o reatamento. Alegria transbordante entre o público afecto aos «leões». O seu regresso, embora com uma luxação no cotovelo esquerdo, aumentou o moral do grupo, dando-lhe uma alma nova. E o Sporting, que até aí se engarrafara na defesa, passou de imediato ao ataque, jogando com decisão e discernimento.

Sentindo o perigo, Francisco Ferreira, o capitão benfiquista, passa a ocupar o posto de interior-esquerdo, fazendo recuar Baptista. Minutos depois, os «encarnados» conseguem restabelecer a igualdade. No seguimento de uma descida pelo lado esquerdo, Arsénio recolhe a bola, na posição de interior-esquerdo, e remata com um pontapé raso que Azevedo não consegue defender, até porque o remate foi disparado para o lado do braço esquerdo, que se encontrava magoado.

Esperava-se, nessa altura, que o Benfica acautelasse o resultado, já que o empate lhe bastava. Mas não sucedeu isso. Pelo contrário, os «encarnados» decidiram-se pelo ataque, em que se lançaram abertamente. Só que a sofreguidão e precipitação com que o fizeram não permitiram o resultado por eles desejado. Os remates foram poucos e mesmo esses feitos, precisamente, para o lado que mais convinha a Azevedo: o direito.

Mesmo assim, o Benfica esteve prestes a conseguir o 2-1. Aos 20 minutos, Espírito Santo foge pela direita, interna-se e remata forte a um canto.

Estirada de Azevedo que desvia a bola para canto só com um punho, na mais espectacular jogada de todo o encontro. Depois, caiu no chão, de novo magoado.

Uma ovação estrondosa sublinhou a beleza do lance.

Evitando esse golo que colocaria o resultado em 2-1, numa altura em que o Benfica estava a ganhar claro ascendente, Azevedo ditou a sorte do jogo.

O Benfica ainda insistiu e, no minuto seguinte, na sequência da melhor jogada que o seu ataque logrou em toda a partida, esteve à beira de marcar, mas o golo fugiu por um tris.

Perto da meia hora, Arsénio ainda conseguiria bater Azevedo, mas estava em posição de fora-de-jogo e o tento acabou por ser anulado.

Faltando pouco para acabar o jogo, esperava-se que o Benfica procurasse segurar o resultado. Mas não. Os seus jogadores continuaram apostados em bater Azevedo, o que não voltaria a acontecer.

A cinco minutos do fim, o resultado parecia feito e o título parecia nas mãos dos «encarnados».

Num minuto, porém, tudo se alterou. Aos 40 minutos, Albano, de posse do esférico, apoderou-se da bola e atirou a meia altura. A bola fez tabela no poste e foi aninhar-se no fundo das redes.

Ainda não se haviam extinguido os últimos aplausos do público afecto aos leões quando, no minuto seguinte, Jesus Correia fugiu pela direita. Centro raso, e Peyroteo, que vinha lançado em corrida, rematou, imparavelmente, o terceiro tento da sua equipa.

Como referia Ribeiro dos Reis, no seu comentário ao jogo, «a cinco minutos do fim, o Benfica, com o resultado em 1-1, tinha ainda o título à vista, mas não acautelou suficientemente a sua baliza, não obstante os ‘avisos’ dados por algumas incursões perigosas do Sporting, e quando o remate bem colocado de Albano fez tabela no poste e levou a bola ao fundo das redes, logo se reconheceu que estava ditado o vencedor.

O Sporting ‘cresceu’ a olhos vistos nesses cinco minutos finais, consolidou a vitória com um terceiro golo, feito a seguir, e o Benfica não teve ensejo para qualquer reacção, aceitando a derrota, nessa altura inevitável».

Na apreciação aos jogadores, Ribeiro dos Reis, comentava, assim, a actuação dos «cinco violinos»:

«Na linha da frente, Vasques foi o melhor a ligar jogo e o que mais insistentemente visou a baliza. Nesse capítulo, desta vez levou vantagem sobre Travassos, que só teve uns dois remates perigosos.

A asa esquerda Albano-Travassos ligou bem e perturbou a habitual regularidade de Jacinto. Jesus Correia só nos agradou na ponta final do desafio em que teve iniciativa, jogando na toada que lhe era habitual na época passada.

Peyroteo, que reaparecia após um interregno de várias semanas, apagou-se muito, renunciando a iniciativas e não mostrando o engodo habitual pela baliza. Só na fase final assinalou a presença com um golo da sua marca.»

Contudo, as melhores «palmas» da crítica foram dirigidas a Azevedo, «cujo nome deve ficar intimamente ligado a esta vitória do Sporting, não pela quantidade de trabalho produzido —os adversários não o obrigaram a entrar em acção repetidamente— mas pela ‘qualidade’ do que foi obrigado a executar, sobretudo depois de se ter magoado».

De acordo com a crítica, fácil é concluir que os «cinco violinos» não estiveram tão afinados nessa tarde como noutras oportunidades. Mesmo assim, porém, obter três golos frente ao Benfica, na própria casa deste, constituiu sem dúvida proeza que não se pode subestimar. Só um grande ataque como aquele conseguiria, por certo, desfeitear o Benfica naquelas circunstâncias.

Daí que essa tarde vivida no velho Campo Grande esteja na memória de todos a que ela assistiram e, particularmente, dos «cinco violinos» para quem constituiu, na verdade, uma tarde inesquecível.»

 

In.: BORGAL, Clément; GARCIA, Fernando - 15 histórias de futebol. Lisboa : Verbo, 1980. pp. 137-147

 

(*) ... para o Pedro Azevedo.

«Azevedo

a sua carreira e as suas preferências

João Azevedo é o guarda-redes mais categorizado. O seu nome pronuncia-se com simpatia e admiração por todos quantos, de uma ponta à outra do país, se interessem pelo futebol. E mais ainda: - a personalidade do guarda-redes nacional goza no estrangeiro do justo prestígio que conquistou pelas suas brilhantes e famosas defesas.
O futebol português, que tem tido algumas boas figuras, na baliza, encontrou em Azevedo um estilo próprio, subindo gradualmente em perfeição, oferecendo-nos rasgos de bela energia a um sentido admirável de visão, ao concluírem-se à boca das redes as mais perigosas jogadas.
O nosso “keeper” está na ordem do dia, É o n.º 1 do nosso futebol.
Fomos conversar com o famoso Azevedo do Barreiro. Encontrá-lo, não é coisa fácil, mas ao fim e ao cabo, Azevedo, bom rapaz, não deixou de cavaquear um pouco connosco. Ei-lo na nossa frente, recordando os seus bons tempos de garoto, datas, e revivendo os mais variados casos.
Azevedo tem 30 anos de idade e 14 de jogador de futebol – sempre em guarda-redes. Porquê? Ele nos conta…
- Nunca joguei em outro lugar senão nas redes. Mesmo em miúdo era só este posto que ocupava. E revelo-lhe os porquês. Por ser o lugar de mais descanso… Jogávamos na praia, cá no Barreiro, desafios que ocupavam toda a manhã. Tanta hora a jogar na areia era de arrasar! Assim, eu na baliza, descansava. Interessei-me depois por este lugar e continuei. Quando enverguei pela primeira vez uma camisola de clube desportivo foi para ocupar a defesa das redes do grupo infantil do Barreirense. Tinha talvez menos de 16 anos e lá me conservei três épocas. Depois fui para o Luso, só um ano e na época de 1935-36 ingressei no Sporting.
- Cuja carreira tem sido vitoriosa, atalhamos.
- Sim. Reconheço que valho alguma coisa no futebol, por intuição, por habilidade, mas também porque tenho procurado rodear a minha vida de jogador da bola de cuidada preparação, técnica e física.
- Pensa ainda jogar muito tempo?
- A não ser alguma infelicidade ou qualquer imprevisto, pretendo estar na primeira categoria do Sporting até aos 35 anos. Até quando puder! Por enquanto sinto-me em boa forma..
- Quando aparecer o substituto para o “team” nacional, o Azevedo continuará…
- Quanto a mim – um facto não prejudica o outro. Admito que surja em qualquer altura um elemento capaz de me substituir. O mesmo sucedeu quando eu subi. Continuarei a jogar. Que tem isso?
- Qual o jogador que actualmente revela mais qualidades para o substituir?
Azevedo já deve ter pensado neste caso, pois nos responde com prontidão.
- Martins, Valongo e Capela, este mais jovem… São por enquanto os três valores que vejo no nosso futebol com mais possibilidade de me substituírem em lugar tão ingrato e difícil.
Azevedo deve ser um dos nossos jogadores o que melhor visão tem do jogo. No seu posto, observa com inteligência, a jogada… Sabe recolher impressões.
- Qual o avançado português que mais o perturba?
- Espírito Santo. Quando se acerca das minhas balizas com a bola nos pés, sinto perigo. E saio para a defesa com o dobro da atenção e do cuidado. Veloz, salta bem, sabe evitar de forma especial a defesa, e é magnífico a desmarcar-se. Este atrativos acompanham o seu bom chute.
Continuamos a falar de jogadores.
- Depois, aprecio Moreira, Arsénio, Francisco Ferreira, Quaresma, e dos jogadores novos, uma que me impressiona muito bem, o belenense Andrade. Dos da minha idade considero-os todos bons. Lá nos “leões” é tudo fixe. Dos antigos recordo, entre outros, Mourão e Pinga. E, agora que falamos de gente da bola não posso esquecer o elemento, precioso para a minha vida de jogador – o massagista Manuel Marques. Além de ser de uma competência na sua profissão, tem tido especiais cuidados comigo. Conhece-me dos pés à cabeça. Sabe como funciona o meu corpo melhor que eu, como funciona e reage. Assistido pelo massagista Manuel Marques tenho uma fé enorme na minha actividade…
- Que lhe parece o comportamento do Sporting?
- Boa equipa, e podemos ainda ganhar o campeonato. Questão de força e vontade.
- Com uma carreira já longa e recheada de jogos perigosos, qual terá sido a defesa mais difícil de Azevedo?
- Talvez pareça estranho, mas a melhor defesa, quanto a mim, que fiz no decorrer destes 14 anos, foi um mergulho formidável, aos pés de um avançado portuense, Já não me recordo do nome do avançado, pois isto aconteceu há uns anos. De resto, não tenho recordações especiais. Tardes boas e má, vitórias, derrotas, o jogo com a Alemanha, no empate a 2 bolas, e agora o jogo com os ingleses.
Aproveitamos para falar do estrangeiro. Azevedo já alinhou em 14 jogos internacionais e visitou a Espanha, Alemanha, Itália, Suíça e França.
- Em todos estes desafios encontrou grandes jogadores?
Azevedo pensa um pouco, revê a série de encontros, e diz-nos:
- É inegável que, de todos, os que mais me impressionaram foram os dois extremos ingleses da R.A.F.
- Que resultado prevê no próximo Portugal – Espanha?
- É possível ganharmos. Se o grupo entrar em campo com a vontade com que pisou a relva do Estádio Nacional no jogo com a R.A.F., não será extremamente difícil vencer os espanhóis. Temos categoria.
Abordámos aina um assunto que constitui uma passagem importante na vida de Azevedo. A sua projectada viagem ao Brasil. O “Keeper” nacional não se surpreendeu com a nossa curiosidade.
- Todos os assuntos que a ele se referem estão adormecidos. Talvez um dia…
- Durante a sua carreira de jogador tem recebido convites para alinhar por outros clubes?
- Nunca recebi dessas propostas. Já agora – “leão” até ao fim.
Terminámos a conversa. Chegara a vez de oferecermos aos nossos leitores a página dedicada a João Azevedo – que ela merece logo que publicámos a primeira. Quando abandonámos o Barreiro trazíamos connosco, além destas palavras, a certeza de que teremos Azevedo para muito tempo.»

Entrevista de Fernando Sá publicada na revista STADIUM, n.º 171, de 13 de Março de 1946. pp. 4, 15

Os nossos ídolos (37): Azevedo

Falar de ídolos, para mim, é simples: é falar de Manuel Fernandes.

Porém, nas “futeboladas” da minha infância, não era ele quem eu encarnava. Como a minha habilidade para 'jogar à bola' era pouca, não havia outra alternativa senão ser... guarda-redes.

Duas pedras, a três passos de distância, era a minha baliza, colocadas na estrada ou no recreio da escola, umas luvas “mal amanhadas” e aí estava eu.

Imaginava-me então uma outra figura do Sporting, aquele que o meu pai dizia ter sido o maior guarda-redes de todos os tempos: Azevedo! “Até de braço partido defendeu a baliza do Sporting”, dizia. Um Benfica - Sporting disputado a 17 de Novembro de 1946, soube mais tarde.

Procurei a crónica desse jogo, escrita por Tavares da Silva na revista Stadium. Este é o texto:

 

«(…) A partida emocionante de Lisboa!

As forças alinharam no Campo Grande da maneira que seguidamente indicamos, sob arbitragem de Carlos Canuto.

Benfica – P. Machado, Teixeira, Félix, Jacinto, Moreira, F. Ferreira, E. Santo, Arsénio, Júlio, V. Baptista e Rogério.

Sporting – Azevedo, Cardoso, Manuel Marques, Canário, Veríssimo, Barrosa, J. Correia, Vasques, Peyroteo, Travassos e Albano.

A pugna ofereceu variados matizes: domínio de um, e logo de outro grupo; vitória a sorrir a um dos teams, para depressa se voltar para o outro. Ainda uma lesão de capital importância, levando Jesus Correia e Veríssimo para dentro das balizas.

Quando Canuto apitou para o começo – os leões desencadearam sem perda de tempo as suas ofensivas. Tal orientação denunciava o seu estado de espírito. Na realidade era ao Sporting, lògicamente [sic], que competia o assalto, devendo o Benfica, a coberto da sua vantagem, aguardar com serenidade o desenvolvimento do jogo. Mas, caso estranho!, os benfiquenses [sic] mostravam-se mais impacientes e sob mais viva influência nervosa, do que o seu adversário. Este jámais [sic] perdeu a cabeça, conservando sempre o cérebro a trabalhar. Mesmo nos momentos angustiosos, vide a fase de Veríssimo nas redes, os seus elementos souberam vigiar e coligar-se na defesa comum das redes.

Já o seu adversário não teve tacto para explorar a inferioridade numérica do antagonista, visto os seus elementos de ataque se embrulharem em frente das redes, traçando um futebol confuso em vez de espalhar o jogo pelas asas. Deste modo, os bons rematadores da linha atacante do Benfica não puderam aplicar com êxito os chamados golpes mortais. A bola encontrava sempre na sua trajectória o corpo de um jogador, ou num pé salvador de defesas.

Quando Azevedo reentrou incapaz de mover o braço esquerdo caído e inerte ao longo do corpo, o Benfica ainda fez o empate pelo lado desse braço, mas em seguida desistiu para mudar de rumo ao remate, proporcionando a Azevedo mais algumas defesas com a sua inconfundível rubrica.

Quando o empate parecia ser o resultado definitivo, o Sporting deu o golpe de teatro. Um remate de Albano, seguido de outro, também mortal, de Peyroteo, decidiram sem apelação o pleito.

O Sporting produziu excelente trabalho: equipa de ciência e de boa condição física. Sabendo como se realiza e tendo forças para realizar. A sua mecânica raramente foi destruída: na defesa, colocação de Barrosa no centro do terreno (3 backs); médio de ataque, e uma dianteira, rápida e precisa, forte e eficaz.

O Benfica encontrava-se num dia de má inspiração, dando alguns dos seus elementos a ideia de uma perturbação que não lhes deixava ver a sangue-frio as jogadas, por vezes fáceis, ou as manobras a fazer. A ligação ou colaboração, da defesa para a média, tornou-se deficiente pela necessidade da linha medular acorrer à frente, ao verificar a ineficácia da dianteira. Os interiores, perdidos no meio da confusão, também se esqueceram de dar à célula medular o auxílio indispensável, e dessa falha geraram-se fortes ataques sportinguistas.

Mas demos um golpes de vista à actividade dos jogadores, que é uma forma de fazer luz sobre o que se passou em campo. Comecemos pela equipa vencedora.

João Azevedo destacou-se como a figura central da partida. Meteu o público no bolso: primeiro com um punhado de defesas incomparáveis; segundo, pelo seu espírito de sacrifício. O seu regresso às redes, cheio de dores, justifica-se, pelo lado clubista, como chicotada moral no conjunto. E logo se viu o influxo.

Cardoso comportou-se como mestre que é, visão do lance antecipações magníficas. Manuel Marques, elástico, vivo, outro estilo, mas igualmente um valor. Barrosa, na feição de defesa, a que melhor se coaduna com as suas faculdades, transformou-se num elemento precioso. Importa aguardar o futuro. Canário construiu muito jogo, passando modelarmente. Veríssimo, quanto a nós, rendeu mais do que a sua média. Com espantosa energia nunca se considerou batido, e ao defender não se esqueceu de atacar.

Jesus Correia talvez mereça a classificação de elemento mais perigoso: jogada sóbria, mas invulgarmente rápida, e uma bola que merecia ser inscrita nos Tratado de técnica. Vasques, um dominador da bola, cumpriu a sua tarefa. Peyroteo, talvez com menos mobilidade, foi a ameaça de sempre; o seu alinhamento fortaleceu a equipa. Travassos evolucionou no campo com donaire, e sabendo o que fazia. Albano, mais sóbrio que de outra vezes, teve jogadas de excelente marca.

No Benfica, julgamos que P. Machado não teve culpas nos golos. Talvez no terceiro… Mas a verdade é que os remates rápidos e potentes surpreendem e batem qualquer guarda-redes. Teixeira jogou francamente bem, de bom despacho de bola, sentindo e antecipação, com a desvantagem do seu companheiro (que talvez não seja defesa mas continue a ser médio!) se mostrar pouco certo e seguro, Jacinto apagou-se um pouco: sem iniciativa e menos feliz nas respostas que ordinàriamente [sic].

Moreira desenvolveu extraordinária actividade em certo período, mas em toada de defesa.

Francisco Ferreira despendeu energia a rodos: quando viu a altura a altura de atacar, lançou-se abertamente nesse caminho mas não teve acompanhantes. Espírito Santo não progrediu no terreno. Arsénio produziu lances de grande vivacidade, mas acabou, arrasado, físicamente [sic]. Júlio perdeu-se no meio da confusão geral. Vítor Baptista, rematou com oportunidade, colocação e força (o melhor dos rematadores!), a par de deficiências de posição. Rogério, de bons pormenores, decaiu um pouco, e raramente pôde perfurar a barreira adversária.

Carlos Canoto arbitrou com mão de mestre, consentindo o jogo forte e ousado, mas sem violências. Nem um só momento deixou de ter os jogadores na mão e manteve intacta a sua serenidade e a boa disposição que caracterizam as suas arbitragens. (…)» [*]

 

Curiosamente, mais tarde, na escola quando andava no 8.º ano, numa dessas futeboladas de recreio parti o meu braço direito, porém, ao contrário de Azevedo, não regressei à baliza… Nesse ano o meu ídolo, Manuel Fernandes, marcou 4 dos 7 golos ao Benfica.

 

[*] In. STADIUM, n.º 207, 20 de Novembro de 1946. p. 3

Os melhores golos do Sporting (29) - A

Alda Teles na sua escolha sobre os melhores golos do Sporting, refere aqueles que Peyroteo marcou contra o Leça num jogo ocorrido a 22 de Fevereiro de 1942.

Lamenta-se o Pedro Correia, no comentário que deixou, «não haver registo filmado desses golos».

Numa ida a uma biblioteca pública lembrei-me de solicitar a leitura de um jornal da época para ver o que sobre esse jogo foi escrito. Deixo aqui a transcrição.

 

Para a Alda e para o Pedro.

 

"No Lumiar

Os «Leões» esmagaram o adversário e fizeram goals para todos os paladares: Sporting, 14 – Leça, 0.

 

O sacrifício dos clubes de menos valor, ante o Sporting, continuou ontem com o Leça… 14 goals sem resposta – e é tudo quanto haveria a dizer do desnível entre algumas equipas que concorrem à prova e, mais concretamente, da diferença entre o Sporting e os de Leça da Palmeira.

Peyroteo o magnífico avançado-centro da equipa nacional, fêz só por si nove «goals» - para todos os gostos. Refastelou-se com o 2.º, 3.º, 4.º, 6.º, 7.º, 8.º, 9.º, 12.º e 14.º ou seja, quatro no primeiro tempo e cinco no segundo.

Que dizer, repetimos, desta avalanche de «goals»?

É na verdade difícil segurar os avançados leoninos, a jogar em campo largo, com os recursos técnicos de que dispõem e poder de remate que supera de longe os de qualquer outra equipa. É difícil, na verdade. Mas é incontroverso que o volume dos resultados conseguidos pelo Sporting ante certas equipas só é possível porque êsses mesmos adversários estão longíssimo de poderem corresponder ao esfôrço que lhes exige um prova dura como é o Campeonato Nacional, e longíssimo, também, do valor necessário a tal emprêsa.

O Leça e está precisamente nestes casos. É possível que a equipa valha alguma coisa no pequeno campo que possue na linda vila que lhe dá o nome e que suba mais ainda quando o grupo dos seus adeptos a acarinhe e ampare. Mas – só isso. A jogar fora de casa, contra as equipas mais qualificadas, há-de sofrer resultados esmagadores ou, quando não os sofra, terá que levantar as mãos aos Céus…

Equipa atlèticamente bem constituída – talvez a mais forte depois da dos campeões – joga, contudo, o futebol embrionário que fêz as delícias da nossa gente há uns bons vinte anos.

Em tôda a tarde, a equipa não desenhou um ataque em forma, qure [sic] dizer, nem uma única vez conseguiu fazer perigar as rêdes de Azevedo. Pode até dizer-se, sem faltar à verdae, que o resultado seria igual se Azevedo lá não estivesse.

Claro – desta forma o Sporting não teve a mais ligeira preocupação. Para tudo ainda ser mais fácil, fêz o seu primeiro «goal» ao primeiro minuto e levou a mesma vida descansada e a fazer «goals» até ao último minuto de jôgo. Peyroteo, como dissemos, fêz nove dos catorze tentos. Soeiro, fêz dois (o 1.º e o 5.º); Daniel, de recarga, também molhou a sôpa (10.º); Canário, fêz outro o (11.º) e, finalmente o defesa Cardoso, à falta de outro trabalho que lhe exigisse, fêz o penúltimo da série.

O ataque sportinguista foi, como não podia deixar de ser, a formação mais em evidência no terreno. Ante um adversário temeroso do seu grande nome, os dianteiros leoninos embrulharam constantemente a defesa dos visitantes sem que fôsse necessário grandes pressas e grande esfôrço. Jogaram com tôda a naturalidade – e bem. Mourão e Cruz foram, a nosso ver, os melhores, logo seguidos de Canário. Peyroteo fêz nove «goals» - muito mais, portanto, do que era sua obrigação.

Os médios acompanharam de perto o ataque e deram jôgo jogável, constantemente. Daniel vai-se afirmando dia a dia o jogador que a equipa precisava. Paciência e Marques, bem.

Os defesas e Azevedo – descansaram.

O Leça foi inferior – talvez, mesmo inferior a si próprio. Jaguaré, na balisa [sic], foi impontente para evitar a mais severa derrota que o grupo terá obtido até hoje.

Os restantes nada fizeram que mereça referência.

 

Os «teams» alinharam:

Sporting: Azevedo; Rui e Cardoso; Paciência, Daniel e Marques; Mourão, Soeiro, Peyroteo, Canário e Cruz.

Leça: Jaguaré; Godinho e Waldemar; Juca, Elísio e Rocha Lino; Chelas, Nini, Lúcio, Quecas e Joaquim.

Arbitrou o sr. Palma Soeiro – com pouca felicidade.”

 

In. STADIUM, n.º 513, 23 de Fevereiro de 1942. p. 5.

 

--

 

Ilustra esta peça jornalística uma fotografia com a seguinte legenda: “SPORTING – LEÇA – Mais um «goal» do Sporting, o 6.º, obtido por Peyroteo sôbre passe de Cruz…”

Nesta foto podemos observar um jogador do Leça em plano de fundo vestido «à Sporting» enquanto Peyroteo, sendo a foto - naturalmente - a preto e branco, aparece com um camisola em tons de cinza - presumo verde, calções e meias pretas.

Os mais desatentos…

… que por aí andam, por certo com uma medíocre cultura futebolística, propalam a sete ventos que a escolha, interina, do novo treinador do Sporting é uma imitação de um qualquer outro clube português.

Esquecem-se dos vários exemplos que houve no Sporting de técnicos que fizeram este trajecto, ao contrário desse qualquer outro clube que, tanto quanto me recordo, creio ter sido a primeira vez. Sim, não me recordo de nenhum, pelo menos nestes últimos anos!

Se a propalação desta ignorância por anónimos nas caixas de comentários poderá ser considerada normal, pois aí prolifera muita mentira – “fake news” ou “alterative facts”, como agora se diz -, é triste quando é proferida por alguém que deveria saber um pouco mais a história do desporto português pois este é, afinal de contas, o seu ganha-pão!

Um novo treinador

«Jogador exímio de cartas, [João] Rocha sabe que precisa de um trunfo. De preferência, um ás, um treinador conceituado. Tenta por isso contratar José Maria Pedroto, o treinador nortenho mais bem-sucedido da década de 1970. Pedroto colocara no mapa as equipas do Vitória de Setúbal e do Boavista, antes de regressar ao FC Porto, em 1977, ali conquistando dois campeonatos dezanove anos depois do último triunfo. Tem aura de génio das táticas e bons amigos na imprensa. Em 1981, exilado em Guimarães, é um portista desconfiado de Américo Sá. Há várias versões sobre o desacordo entre [João] Rocha e o treinador: conforme alguns testemunhos, Pedroto exigiu um orçamento amplo para contratações e… despesas informais [*nr], para outros, o treinador apenas quis ganhar tempo (…)

(…) Entretanto, as páginas do calendário avançam sem resultado concretos. [João] Rocha aponta baterias para John Mortimore que, anos antes, brilhara ao comando do Benfica. Mortimore é polido mas categórico: a saúde da filha não lhe permite viver em Lisboa, pelo que lhe interessa mais o cargo que o Southampton lhe oferece perto de casa. Em jeito de despedida, talvez por delicadeza, o técnico sugere o nome de um amigo – Malcom Allison. Bom rapaz, assegura João Rocha. Um pouco extravagante, mas bom rapaz. (…)

(…) Por coincidência ou sugestão de Mortimore, o inglês estivera em Alvalade em observação de jogadores na última jornada da temporada. No camarote 65, estudara a equipa do Sporting e ficara desde logo impressionado com Jordão e Manuel Fernandes e Manoel (…). Percebe que o ritmo e a linguagem corporal da equipa expressam o saldo de uma temporada infeliz, mas vê qualidade em campo. Tem por isso um único pedido. Gosta de guarda-redes seguros, sempre gostou. Precisa de um nome forte para a baliza. (…)

(…) Com a mão esquerda, Malcom Allison formaliza o contrato com um ano de duração. À despedida, como se lhe anunciasse uma notícia menor, João Rocha deixa cair:

 

Preciso de si amanhã (…)”»

 

[*nr] Em artigo tardio do Diário Popular, de 16 de Maio de 1991 («José Maria Pedroto Homem Avançado no tempo»), o jornalista Neves de Sousa escreverá que Pedroto pedira a João Rocha quinze mil contos de luvas, salário para si e verba idêntica para os árbitros. «Caso contrário, o Sporting só ganha campeonatos lá para o fim do século.» (…)

 

In.: ROSA, Gonçalo Pereira - Big Mal & Companhia : a histórica época de 1981-1982, em que o Sporting de Malcolm Allison conquistou a Taça e o Campeonato. 1ª ed. Lisboa : Planeta, 2018. pp. 65-70

O futebol não é só futebol. [repetido]

A propósito da notícia da nomeação de José Tolentino de Mendonça como Cardeal na Igreja Católica, recupero este texto de sua autoria aqui divulgado:

 

«QUE VAZIO TENTA SER COMPENSADO NA PAIXÃO das multidões pelo futebol? Que ausência ela vem ocultar? O futebol é hoje vivido quase como uma religião de substituição. Um dos primeiros a colocar esta questão foi Robert W. Coles, que defendeu a existência de analogias entre a realidade social do futebol e as práticas religiosas de busca e celebração da transcendência. Aquilo a que Durkheim chama "as formas elementares" do fenómeno religioso pode encontrar-se, sem grandes contorcionismos simbólicos, no entusiasmo colectivo que o desporto-rei desperta. De facto, o modo como a paixão pelo futebol se expressa passou a ser observado etnologicamente como um ritual religioso ou para-religioso, com as suas catedrais, os seus oficiantes, a sua liturgia, as suas regras, as suas narrativas sagradas e os seus seguidores.

Os ecos de uma mentalidade religiosa persistem portanto, ainda que secularizados, reconfigurados e deslocados para outro âmbito. Muda claramente o objeto, mas não a antropológica necessidade de relação. Por isso, o futebol não é só futebol. Ele coloca em campo, além da bola, outras questões pertinentes.»

 

In.: MENDONÇA, José Tolentino, O pequeno caminho das grandes questões. Lisboa : Quetzal, 2017. p. 38

"Não é normal", diz.

«Não é normal os árbitros virem aqui e o Sporting ser sempre desfavorecido. Ao mínimo toque, para as outras equipas é falta e para nós nunca acontece nada. As equipas, supostas pequenas, queixam-se muito da arbitragem mas hoje não o podem fazer. Não falo só dos penáltis nem falo só quando perdemos. O futebol português tem uma mentalidade pequena e tem de a mudar. É por isso que na Europa não fazemos a diferença», sentenciou o capitão [Bruno Fernandes] dos leões à Sport TV.

Áustria

Como o sorteio da Liga Europa determinou que iremos jogar em Linz, na Áustria, lembrei-me disto:

«Em 2012 a pequena vila de Fucking, na Áustria, uma vila que fica a 33 quilómetros a norte de Salzburgo, junto à fronteira com a Alemanha, tentou mudar o nome por causa do constante roubo de placas, dos turistas inconvenientes e indiscretos e dos telefonemas anónimos de pessoas de todo o mundo que ligam para qualquer um dos cerca 100 residentes a perguntar: ‘Is this fucking Áustria?’»

In.: Informação Inútil, TSF

Juventude Leonina

« (…) “Alvalade sempre teve ambientes apaixonados, mas isto era outra coisa», diz Carlos Xavier (…). “A Juventude Leonina era na altura uma claque com grande influência brasileira (nr). Havia muitos batuques, um ritmo de samba. Estávamos lá em baixo a ouvir aquilo e queríamos comer o adversário. Até entravamos arrepiados.”

“Tínhamos a melhor claque da Europa, acrescenta o extremo-esquerdo Mário Jorge. “Tive momentos na minha carreira em que estava no relvado e olhava embasbacado para as bancadas a dizer para mim próprio: ‘Isto é inimaginável!’ Allison explorou esse calor do público com grande imaginação. Anos mais tarde, numa eliminatória com o Feyenord, a Juventude Leonina utilizou pela primeira vez raios laser. Os jogadores holandeses no relvado viravam-se para nós e diziam: ‘Isto nem num concerto do Bruce Springsten.’”

(nr) – Herança da escola de samba Vapores do Rego, que influenciara o modo como o público interagia com o futebol em meados da década de 1970, incutindo ritmo brasileiro ao apoio. Na sua tese de doutoramento, José Maurício Conrado Moreira da Silva [p. 308] conta que o grupo de apoio era informalmente constituído por alunos brasileiros das universidades portuguesas (…).» (*)

É a recriação deste ambiente que os sócios e adeptos pretendem da Juventude Leonina e das outras claques. Somente isso. «A Juventude Leonina tem sete mil pessoas, é muito poder. Nas assembleias-gerais ameaçam as pessoas e fizeram isso com o Acuña e a sua mulher. Há pessoas que têm medo da JuveLeo", admite o antigo médio dos leões (…).», diz Fraguito, nossa antiga glória.

Isto, não. Isto não é apoio... e isso não queremos!

 

(*) In.: ROSA, Gonçalo Pereira - Big Mal & Companhia : a histórica época de 1981-1982, em que o Sporting de Malcolm Allison conquistou a Taça e o Campeonato. 1ª ed. Lisboa : Planeta, 2018. pp. 16,17

Às avessas

Domingo, 24 de Abril de 1988, no Estádio José de Alvalade estão presentes Manuel Fernandes, Jordão, Meszaros, Eurico, Malcom Allison e Roger Spry – todos eles campeões pelo Sporting. Vão estar em campo e defrontar o Sporting… Um jogo à avessas.

Esta é crónica publicada, no dia seguinte, na Gazeta dos Desportos (n.º1118, pp. 12 e 13)

(Peço desculpa por alguma gralha de digitação)

 

«Tudo em família

Allison, antes do jogo começar, foi ao centro do terreno receber uma enorme ovação. Meszaros, quando caminhava para a baliza, escutou a mesma coisa. Manuel Fernandes e Jordão, idem. E o Sporting, que voltou a jogar bem, acabou por ganhar. Parecia um encontro de confraternização...

 

ERA um jogo especial. Disso não havia dúvidas. E mais especial se tornou, quando logo antes do início, Malcolm Allison, o treinador que deu o último título a Alvalade, se dirigiu ao meio do terreno e escutou uma estrondosa salva de palmas. O inglês foi fazer um teste à sua popularidade, e constatou que a sua cotação, ali para as bandas do Lumiar, continua alta.

Este momento, este gesto, como não poderia deixar de ser, tinha o seu sentido. Psicologicamente, era terrível para a equipa do Sporting. E assim, não foi estranho que, logo no princípio do jogo, se notasse uma enorme vontade dos sadinos em demonstrar que estavam ali para jogar ao ataque. E jogaram. Aproveitando uma certa descoordenação do meio-campo do Sporting, o Vitória começou por lançar numerosos contra-ataques, e mesmo ataques organizados, que obrigaram a defesa leonina a permanente concentração.

No entanto, e a corroborar a ideia de que as melhoras do Sporting são mesmo um facto, a equipa de Morais sacudiu bem esse ímpeto inicial dos setubalenses. Litos, em grande estilo, pegava na batuta e chamava a si a responsabilidade de orquestrar as manobras de ataque da sua equipa. Só que o Vitória, com um esquema de defesa em linha muito adiantado, fazia com que tanto Cascavel como Lima caíssem constantemente em fora de jogo. O que começava a enervar os adeptos da casa Por outro lado, esta prática também era usada por banda da defesa do Sporting. Assim, assistia-se a um jogo curioso, em que a boia andava de cá para lá de fora-de-jogo em fora-de-jogo, cada um à espera do falhanço do outro. E eles, os falhanços, existiram. O sistema não é infalível e uma bandeira não levantada ou um arranque mais tardio são meio caminho para uma jogada de muito perigo.

Sensivelmente a partir do meio da primeira parte, a equipa de Morais começou a variar o seu tipo de jogo. Tinha de ser. De outro jeito não dava, houve que alterar o estratagema. A bola, que até ali pouco tempo parava nos pés dos centro-campistas leoninos, começou a ser trocada com mais calma, numa tentativa de entrar mais pela certa. Fernando Mendes começou a dar maior apoio a Lima. João Luís fez o mesmo em relação a Sealy e os sadinos tiveram de recuar um pouco. Mas sempre que podiam, prontamente solicitavam a corrida do seu homem mais rápido a partir para a frente, Aparício.

Com esta subida dos sportinguistas, os pupilos de Allison, agora a defender bem mais perto da sua área, começaram a ceder nessa zona mais faltas. De que resultavam livres perigosos. Enquanto a equipa era apanhada mais adiantada, era Meszaros a ter de sair fora da área para resolver. E foi num desses lances que nasceu o primeiro golo do Sporting. O húngaro não teve outro jeito senão cortar com as mãos um lançamento para Sealy e na marcação, Cascavel, ontem de serviço neste tipo de lances, atirou da melhor forma. Aliás é altura para referir que a equipa do Sporting está a jogar muito mais para Cascavel. Com a posição europeia a ganhar corpo, o objectivo que a formação verde-branca agora persegue é consagrar o melhor marcador do campeonato. E Cascavel está agora outro. A motivação finalmente apareceu.

Seria então no segundo tempo, mais particularmente aí a partir dos dez minutos, que o melhor futebol do encontro apareceria. O Sporting criava sucessivas situações de apuro para Meszaros, num período brilhante e conseguiu, nessa altura, elevar para 2-0, numa jogada muito bonita. Lima, agora muito mais activo que no primeiro tempo, foi contemplado de novo por mais uma bela actuação. Um jogador em grande forma. Morais mais uma vez o premiou, tirando-o a escassos minutos do fim do jogo, para ele ter direito a ovação. Que aconteceu, naturalmente.

Depois do segundo golo do Sporting, o jogo ficou resolvido. Não se notava capacidade à equipa do Vitória de Setúbal para dar a volta ao texto. Servida de alguns jogadores já nada jovens, os setubalenses tiveram de ceder os pontos.

Ainda assim, os setubalenses poderiam ter marcado, já que num lance de ataque, Manuel Fernandes foi derrubado dentro da grande área de Damas, e Alder Dante deixou o lance seguir. Elder invocou a lei da vantagem, mas o remate de Aparício embateu no poste e a oportunidade ficou-se por isso mesmo.

E naturalmente, a vitória sportinguista aconteceu. Sem uma grande exibição, esmagadora, mas perfeitamente justa. No final, ficou a sensação de que se havia assistido a um jogo de carácter amigável, de homenagem a antigos jogadores, tal a forma carinhosa como todos os ex-sportinguistas foram recebidos pela massa associativa do Sporting. Um encontro de amigos...

Bom, mas amigos, amigos... Com esta vitória, o Sporting ganhou não dois, mas quatro pontos, já que os setubalenses estão na mesma guerra. Foram os dois da vitória e mais dois que o Setúbal deixou de ganhar.

O trabalho de Alder Dante não está isento de erros. Teve algumas indecisões provocadas por indicações duvidosas dos seus auxiliares e isso fez com que a sua actuação tivesse sido menos eficaz. Mas esta forma que as defesas encontram para anular os ataques contrários são propícios a constante polémica. Não é fácil agradar a todos e quando não eram uns a protestar, eram os outros.

- MÁRIO PEREIRA, Comentário-

 

“Esta deslocação a Setúbal foi muito difícil…”

JÁ era esperada a boa recepção que o público de Alvalade dispensou à equipa de Setúbal sobretudo porque nela trabalham pessoas que estiveram ao serviço do clube de Alvalade como são os casos de Eurico, Jordão, Manuel Fernandes ou Allison. Então estes dois últimos - o Manei e o técnico inglês - poderem ontem confirmar que por ali ainda não estão esqueci* dos.

No final do encontro, «mister» Morais acabaria mesmo por acusar a nota e, usando da ironia que lhe é habitual, começou por referir:

«É evidente que estou multo satisfeito com o resultado que a minha equipa alcançou, tanto mais que esta deslocação a Setúbal foi uma deslocação muito difícil... Estes dois pontos foram, portanto, conquistados com todo o mérito e colocam-nos na linha dos nossos objectivos ou seja, subir cada vez mais na tabela classificativa.»

- «Mister», ciúmes da ovação dispensada a Allison?

«Ciúmes não. Aliás cada um é livre de se expressar como bem entender. Por isso mesmo é que eu, sendo sempre muito recto e muito frontal, não posso deixar de fazer uma referência ao caso. O que eu entendo é que a equipa do Sporting merecia mais apoio e é para ela que eu peço ovações porque quem não é por nós é contra nós.»

Sem permitir interrupções foi calmamente que continuou: «Espero que em Portimão os jogadores recebam outro apoio. Até porque muita da nossa motivação vai no sentido de podermos dar alegrias à massa associativa e nisto, também sei, que não fazemos mais do que a nossa obrigação.»

- E neste jogo ela foi cumprida rigorosamente...

«Sim. E o que conta é que esta vitória foi conseguida tendo por adversário uma excelente equipa. O Vitória veio a Alvalade para jogar ao ataque, pratica um futebol onde abundam cruzamentos sobre a área e o certo ó que a nossa defesa - que muitas vezes não se tem dado bem com este tipo de jogo - conseguiu, agora, anular essas características.»

- Um outro sector que esteve igualmente bem foi a ponta esquerda do ataque do Sporting Concorda?

«Esteve bem, não há dúvida. Mas, uma coisa é certa: quando se ganha tudo está bem quando se perde tudo está mal. Penso que é preciso dar lugar e

oportunidades aos novos e neste caso do Lima ele terá um futuro largo à sua frente se continuar a trabalhar com os pés assentes no chão.»

- Hoje o Sporting ganhou em vários campos. Quais as perspectivas a partir daqui?

«Isso é verdade e veio ajudar o Sporting. No entanto, continuo a dizer que até ao flnal do campeonato vamos depender, acima de tudo, de nós próprios. Quanto aos objectivos vamos tentar conseguir a melhor classificação possível, uma que esteja de harmonia com o valor e o prestígio do clube.»

Recusando-se a comentar a arbitragem de Aider Dante: «Não comento arbitragens por principio nem procuro falsos pretextos para facilitar as derrotas») Morais diria ainda que a vitória de hoje é sobretudo obra dos jogadores:

«Quem joga são os jogadores e independentemente de eu

nunca abdicar do meu papel de treinador, penso que agora e bem a propósito, se pode dizer que lhes cabe a eles a parte de leão.»

- Uma última pergunta: quando teremos os treinos do Sporting à porta aberta?

«Vão ter que esperar multo tempo. Não está em causa o respeito pela Comunicação Social. No entanto, sempre fui habituado a treinar è porta fechada. Não que o futebol seja uma ciência oculta mas há esquemas que têm de ser protegidos e que devem permanecer apenas no conhecimento de jogadores e treinador.»

 

Damas: «esta foi a vitória mais difícil»

Sem ter sofrido qualquer golo, Damas não teve, no entanto, ontem à tarde, tarefa fácil. Antes de mais, pedia-se-lhe muita atenção porque o Setúbal, no seu futebol atacante e no seu rápido contra-ataque, cria perigo de um momento para o outro.

Depois do duche e da «bica», Damas confessou então que esta «foi a vitória, nestes últimos jogos, mais difícil de conquistar». E argumentou assim:

«O Vitória de Setúbal joga um futebol muito perigoso, aposta forte no ataque e té-lo vencido constitui para nós uma grande motivação».

- Damas, o Sporting dou hoje um passo Importante...

«Penso que o campeonato, mais domingo menos domingo, acabará por ficar decidido. No entanto, o Sporting continua a lutar por uma boa posição.»

- Pelo 2.º lugar?

«O que lhe posso dizer é que se há três meses atrás disséssemos que Iríamos ficar em 2.º todos achariam ridículo e hoje já se pode pensar nisso como sendo uma coisa possível. Tanto mais que o Benfica, neste momento, deve estar a pensar 200% na Taça dos Campeões…»

- Como comenta o apoio que o público demonstrou a Manuel Fernandes e a Allison? Acha que os adeptos traíram o Sporting?

«De maneira nenhuma! O público está a apoiar a equipa. Penso que o que se passou é normal: somos latinos, somos românticos e gostamos muito dos mortos e dos ausentes. Penso que todos nós reagimos assim…»

- Sabe-se que esta vai ser a sua última época. Já tem planos para o futuro?

«Sendo um homem do futebol é nele que eu quero continuar.»

- E no Sporting, também?

«Quem não gosta de trabalhar num clube como o Sporting? Mas é evidente que, por muita vontade que eu tenha, isso não depende só de mim…»

- Alexandra Tavares-Teles -

 

Allison, confiante

“Europa ainda é possível”

FOI triunfalmente que, ontem, Allison entrou na relva de Alvalade. Foi até ao centro do terreno, e ali, levantou os braços para uma assistência que, de facto, aplaudiu calorosamente.

Noventa minutos depois, o treinador tinha um ar derrotado e triste. Sobre o jogo e laconicamente, começou por dizer:

«A minha equipa não esteve como costuma estar. Houve Jogadores de quem gostei como são os casos de Roçadas, Crisanto, Vítor Madeira ou Quim. O Manuel Fernandes, por exemplo, baixou multo na segunda parte. No entanto, tivemos três ou quatro hipóteses de golo, mas os olhos do fiscal de linha pareciam que não funcionavam multo bem para o lado do Vitória. Em contrapartida, o primeiro golo do Sporting foi consequente a uma jogada em ‘off-side’.»

- Que lhe pareceu este Sporting?

«Alguns jogadores agradaram-me. No entanto, houve alguns que me pareceram um bocadinho nervosos.»

- Acha que o Setúbal comprometeu o seu lugar na Europa?

«Não. Penso que a Europa ainda é possível.»

- Um comentário à recepção que lhe fez o público de Alvalade.

«Gostei de voltar cá e fui muito bem recebido. Foi muito bom ver uma multidão contente antes do Jogo. Isso ó a prova de que ainda se lembram de mim. Aliás, os sócios do Sporting, sempre que me encontram continuam a vir ter comigo. Têm-me demonstrado muito apreço e deve Imaginar como Isso me deixa feliz...»

 

Manuel Fernandes: »Fiquei muito feliz porque vim ver amigos»

Manuel Fernandes comentava assim o seu regresso ao Estádio de Alvalade, agora na situação de jogar contra:

«Fiquei muito feliz porque vim ver amigos e penso que outra coisa não sena de esperar.»

Sobre o jogo, o número nove quis comentar:

«Foi um jogo muito bem disputado e penso que a vitória do Sporting se tivesse sido pela marca tangencial teria sido justa. Assim é um bocado exagerada. Bastava que o árbitro tivesse marcado a flagrante falta que eu sofri dentro da área. Foi um pênalti claro e só não viu quem não quis.»

- E agora, a UEFA está mais longe, não?

«Este resultado complico* um bocado mas, se consegui mos os oito pontos em casa mais dois fora, penso que a da lá chegaremos.»

- Como comenta a sua prestação?

«Sei que, sobretudo, na s gunda parte, baixei de rendimento. Mas isso deveu-se uma alteração táctica que o treinador do Sporting imprimiu. Comecei a ser muito mais marcado e acusei essa marcação.»

- Alexandra Tavares-Teles -

 

FICHA DO JOGO

ESTÁDIO. Alvalade

RELVADO: boas condições

TEMPO: tarde de sol

ASSISTÊNCIA: boa casa, cerca de 35 mil espectadores

CANTOS: Sporting. 1 (0 + 1); V. Setúbal. 7 (6 + 1)

LIVRES A FAVOR: Sporting, 26; V. Setúbal, 29 (13 + 16)

CARTÃO AMARELO: Meszaros (41’), Flávio (80’) e Mário Jorge (83’)

CARTÃO VERMELHO: Roger Spry (adjunto de Allison)

GOLOS: Cascavel (42’) e Lima (62’)

SUBSTITUIÇÕES: no Sporting: Litos por Virgílio (80’) e Uma por Silvlnho (84 ); No Vitória: Jordão por Lazar (57’) e Maside por Miguel Ângelo (68’)

AO INTERVALO: 1 -0

ÁRBITRO: Alder Dante (Santarém), auxiliado por Manuel Bento e Fernando Vacas

SPORTING

1- Damas (3)

2- João Luís (3)

3- Fernando Mendes (3)

4- Morato (3)

5- Venâncio (3)

6- Oceano (3)

7- Litos (4)

8- Sealy (4)

9- Paulinho Cascavel (4)

10- Mário Jorge (3)

11- Lima (4)

Vital (NJ)

Virgílio (-)

Mário(NJ)

Houtman (NJ)

Silvinho (-)

 

SETÚBAL

1- Meszaros (3)

2- Crisanto (2)

3- Flávio (3)

4- Quim (3)

5- Eurico (3)

6- Maside (2)

7- Vítor Madeira (3)

8- Aparício (3)

9- Manuel Fernandes (2)

10- Roçadas (cap.) (3)

11- Jordão (2)

Neno (NJ)

Miguel Ângelo (-)

Hélio (NJ)

Lazar (-)

JuvenalNJ

 

SPORTING 2

SETÚBAL 0

FILME DO JOGO

1’ - Depois de se escapar pela direita. Maside obriga Venâncio a ceder canto. De que nada resulta. Mas o Vitória demonstrava os seus propósitos.

6’ - A dar seguimento a um cruzamento da direita, feito por Oceano. Litos efectuou um espectacular remate de cabeça, à entrada da área, mas errou o alvo.

13’ - Morato, sozinho, faz um passe para... Aparício, este isola Manuel Fernandes, mas a deslocação foi assinalada.

14’ - Damas tem de sair de entre os postes para evitar que Aparício, isolado, fizesse golo. 16* - Descida de Fernando Mendes, pelo seu flanco, junto à linha tira um bom centro, largo, e Sealy, no lado oposto, atira muito por alto. A posição era boa, mas o remate, uma miséria.

19’ - Oceano salva um golo que era certo, mesmo em cima da linha de golo. Foi depois da marcação de um pontapé de canto, cobrado por Maside em que Jordão saltou mais alto que Damas.

24’ - Cascavel ensaia a pontaria na marcação de um livre directo. Desta vez foi à figura de Meszaros.

- Depois de uma jogada de sucessivos ressaltos, Jordão isola Aparício, que remata à entrada da área, para fora.

29’ - Contra-ataque rápido do Sporting, iniciado por Cascavel, que serve Sealy no meio da grande área. e este obriga Meszaros a defesa de instinto, com uma palmada.

36’ - Lima foge a Crisanto, centra a Cascavel chega atrasado por milímetros.

38’ - Cascavel de cabeça obriga Meszaros a apertada defesa.

42’ - 1-0 por Paulinho Cascavel. Foi na marcação de um livre directo, a castigar uma saída de Meszaros que teve de defender com a mão fora da área. O brasileiro, com um remate em arco, não falhou.

51’ - Maside tem uma boa jogada pela esquerda, centra bem mas não está lá ninguém para o remate.

55’ - Aparício falha de novo, agora junto à linha de fundo. Damas saiu bem e resolveu o lance.

56’ - Aproveitando um desentendimento entre Quim e Meszaros, Cascavel ficou em boa posição, mas só conseguiu atirar à rede lateral.

60’ - Grande jogada de Sealy, a romper bem, a descair para a direita e na passada a desferir um bom remate, a rasar o poste.

61’ - No bico da grande área. Cascavel atira ao poste, com espectacular remate à meia-volta.

62’ - 2-0 por Lima. Isolado por excelente passe de Cascavel, o jovem jogador do Sporting torneou Meszaros e atirou para a baliza deserta.

66’ - Novamente Lima a fazer uma grande Jogada. Soltou Cascavel à entrada da área, e este, depois de se libertar de um setubalense. atirou a pouca distância do golo.

80’ - Flávio tem de agarrar Sealy pela camisola. Ele ia isolado...

83’ - Manuel Fernandes é derrubado dentro da grande área do Sporting. A bola no entanto segue para Aparício que atira ao poste, perdendo-se a oportunidade.»

Alvalade

P8IO3ENY.jpg

(imagem retirada daqui)

 

«(...) Embora os biólogos não o documentem, Alvalade é um ser vivo. Pode ser de pedra e cimento, mas respira como um organismo. Tem paixões e ódios. Como um amante ternurento, não recusa nada a quem tudo lhe dá. E aprendeu a estimar quem lhe oferece o dote perfeito, imemorial. (...)»

In.: ROSA, Gonçalo Pereira - Big Mal & Companhia : a histórica época de 1981-1982, em que o Sporting de Malcolm Allison conquistou a Taça e o Campeonato. 1ª ed. Lisboa : Planeta, 2018. p. 13

"Este adeus custa muito"

Bas Dost:

"Chegou o momento de dizer adeus após três anos apaixonantes ao serviço do Sporting. Sempre joguei com o coração por este clube, sempre dei tudo o que tinha por ele, e vivemos momentos maravilhosos juntos. Mas também passamos por outros muito maus, em especial após o ataque a Alcochete. Mas eu sempre senti o apoio dos sócios e adeptos no estádio e na rua. Esta foi a razão pela qual renovei o meu contrato no ano passado. Queria agradecer e retribuir a todas as pessoas que sempre me deram confiança e carinho duram esses tempos difíceis. Para ser honesto, este adeus custa muito. Mas a vida continua, e espero vir a ser igualmente muito feliz ao serviço do Eintracht Frankfurt.

Beto Acosta

K13HM5BU.jpg

 

«Marquei dois golos e meio ao Benfica»

 

Como andamos a falar de avançados…

…recordo esta entrevista, de Rui Miguel Tovar a Beto Acosta, no dia do seu aniversário, um dos grandes ídolos da história recente do Sporting!

 

«Are you having a laugh? He’s having a laugh? Certamente. O homem ri-se bastante. Aliás, varia entre o riso cerrado, quase em surdina, e a gargalhada fácil, de curta duração. A ideia desta semana é falarmos da Copa América, a competição de selecções mais antiga de sempre. A primeira edição é de 1916, há mais de 100 anos.

 

Como se isso fosse pouco, é de uma competitividade feroz. Dos dez países sul-americanos, só dois ainda sonham com a primeira alegria (Equador e Venezuela). De resto, é um ver-se-te-avias. Só para se entender a dimensão do cosmos, o Chile é o bicampeão em título. E o Uruguai é o rei do pagode, com 15 eeep eeep uraaaayyyyyy.

Segue-se Argentina (14). Alto e pára o baile, porque a Argentina perde as últimas quatro finais. Noooooooo. Sim senhor, um desastre completo. A última final ganha pela Argentina é a de 1993, no Equador, 2-1 ao México. Há já mais de 25 anos. No ataque, um senhor alto de cabelo comprido chamado Batistuta e outro mais baixo de cabelo curto, conhecido simplesmente por Beto.

 

Eis Alberto Acosta, um dos heróis dessa Argentina 1993 e, depois, uma lenda no Sporting.

 

Beto, que tal tudo por aí?

Tudo bem.

Pronto para a Copa América?

Prontíssimo.

Vais ver onde?

Por la tele, aqui, em Buenos Aires.

O negócio da televisão é um fenómeno recente. Como é que fazias quando eras miúdo?

Usava a imaginação.

Porquê?

Nasci num pueblo muy pequeno chamado Arocena [só para entenderem a dimensão do ‘pueblo’, nem sequer tem página no wikipedia]. A minha vida era tranquila, na casa dos meus pais. Como não havia televisão e como também não havia acesso a grandes estádios ou coisa que se parecesse, o futebol, como fenómeno desportivo, era vivido de...

De forma apaixonada?

Isso mesmo. Também é isso. Ia dizer futebol de rua. Cresci na rua, cresci a jogar sozinho contra uma parede e também em grupo, com amigos, amigos de amigos a fazer torneios, aquela calle contra a outra, aquele barrio contra o outro e por aí fora. Cresci a coleccionar revistas para colar os posters e admirar os ídolos naquele cubículo que era o meu quarto.

Quem eram os ídolos?

Kempes, sobretudo Kempes. Também Fillol, el arquero. Era uma febre, quase, je je je je [os argentinos riem-se assim, não me perguntem porquê]. Admirava o Kempes pela imponência do seu físico, pela quantidade de golos e pela qualidade do seu jogo. Era um 9 móvel, que estava sempre no sítio certo mas que também saía a driblar dentro da área. Além do mais, ele transferiu-se para o Valencia e ganhou fama internacional. Isso, naquela altura, causava outro impacto em todos nós. É preciso ver que o futebol não dava na televisão e, por isso, havia menos pressão. Agora vês um jogo em directo a toda a hora e sabes em cima da hora qualquer resultado, seja aqui ou na Ásia. É incrível. Antes, não. Nada disso. Lá ias vendo os golos dos jogos mais importantes e, claro, a selecção.

Onde estavas quando a Argentina foi campeã mundial em 1978?

No meu pueblo.

Lembras-te da festa?

Claaaaro. Tinha 11 anos e saímos todos à rua. Lá está, Fillol na baliza e Kempes a 9. Foram tempos desportivos fascinantes. O ganhar um Mundial era como se fosse um sonho, agora concretizado, ainda por cima em casa. A adesão popular foi maciça.

E em 1986, onde estavas?

O México-86 é diferente. Já tenho 19 anos, já jogo futebol profissional, já tenho consciência, por assim dizer. Je je je je. É verdade, já analisava tudo e mais alguma coisa. É normal. E havia Maradona. O que ele fez no México é algo que me ultrapassa. A mim e à maioria, creio. Que génio. Ele partiu toda a gente: Coreia, Bulgária, Itália, Uruguai, Inglaterra, Bélgica e Alemanha. Ninguém escapou. Também saí à rua, claro. Foi outra fiesta bonita, até às tantas. A selecção mexe sempre connosco.

Diz-se que os argentinos vibram mais com a selecção do que com os clubes. É verdade?

Talvez seja assim, talvez. A verdade é que apanhas a geração Kempes e és campeão mundial em 1978. E depois apanhas a geração Maradona e sais campeão em 1986, sem esquecer a final em 1990. Agora é a geração Messi. São muitas coisas boas a acontecer num curto período de tempo. E quem as vive não as esquecerá. Nunca. Por isso, é válido pensar assim, que os argentinos unem-se e ouvem-se mais durante os jogos da selecção.

Falaste nas gerações Kempes, Maradona e Messi. E a tua?

A minha é a do Maradona, je je je je.

Jogaste com ele?

Sim, um par de vezes.

E então?

Há a realidade, há o sonho e há o Diego. É qualquer coisa de especial, acima de qualquer sonho. O que ele fazia com a bola nos treinos e também nos jogos, não há explicação. Era grande, grande, grande. Génio.

Como é que apareces na selecção?

A minha primeira convocatória é para um jogo particular no Centenário, em Montevideo: Uruguai-Argentina.

Uauuuu, clássico.

Je je je je. Verdade, só que este acabou 0-0.

E és convocado porquê?

Comecei a carreira aos 19 anos no Unión Santa Fé. Dois anos depois, já estou no San Lorenzo. Depois, aventuro-me pela Europa, ao serviço do Toulouse, e volto ao San Lorenzo. É aí que começo a marcar golos e a ser notado. Lembro-me perfeitamente dessa convocatória, porque ligaram-me para casa ao domingo à noite, depois de um jogo. Telefonaram-me a dizer para estar em Buenos Aires na sede da Associação Argentina de Futebol às tantas horas. Lá fui.

Lindo. E quem lá estava?

Craques de todo o tamanho. Batistuta, seria ele a maior referência. Depois, Simeone, Redondo e outros. Só que, ao contrário de hoje, todos nós jogávamos na Argentina. Não havia esse fenómeno da emigração. Conhecíamo-nos todos do campeonato nacional. Acompanhávamos as nossas virtudes de semana a semana, ou ao vivo ou pela televisão.

Tu entras para a selecção e?

Foi um período sem Maradona. Já não me lembro porquê, deveria estar sancionado pelo caso de doping. Bom, a verdade é que entro na selecção e apanho aquela fase em que não perdemos durante 31 jogos. Foi mágico, ganhámos duas Copas América. Uma em 1991, no Chile, outra em 1993, no Equador.

Jogaste as duas?

Sim, sim. Quer dizer, mais a segunda edição, em 1993. Na primeira, a dupla era Batistuta e Caniggia.

Uauuuu.

Je je je je, é ieso mesmo. Dois craques que se contemplavam muito bem.

E em 1993?

O Batistuta e eu. Às vezes, o Medina Bello.

Quem é o seleccionador?

Tanto o que me convocou pela primeira vez como o das duas Copas América, é o Alfio Basile. Mais conhecido por Coco. Era um treinador de uma outra escola. Sempre bem-disposto, sempre correcto e muito frontal. Só coisas boas sobre ele, um homem muito profissional e extremamente prático. Para ele, tudo era simples. E assim o era, de facto. Não joga este, joga aquele. Não fazemos isto bem, vamos tentar fazer aquilo. Aprendi muito com ele. Mais: todas as minhas 19 internacionalizações são com ele e sabes uma coisa?

Nem ideia.

Nunca perdi um jogo, je je je.

Espectáculo, maravilha.

Podes crer, grandes tempos. A Argentina estava fortíssima, cheia de confiança. Eram os tempos dos dois nueves. Nós jogávamos com Batistuta e Caniggia, depois Batistuta e eu, que éramos fisicamente muito fortes. O Brasil do Mundial-94 tinha Bebeto e Romário.

Verdade, nunca tinha pensado.

Outros tempos, agora até é moda jogar sem um 9 fixo, de área.

Dos fixos, de quem é que gosta mais?

Assim para o combate físico, é o Lewandowski. O homem é brutal, derruba qualquer muralha. Também há Agüero, muito fino e perspicaz. Agora se falarmos em goleadores, sem serem realmente 9, temos de nos render à eficácia de Ronaldo e Messi. O que eles fazem, je je je je. Trituram os guarda-redes dias sim, dia sim. É incrível.

Batigol era assim, não?

Batigol era um deus para a Argentina e para a Fiorentina. Quando ele pegava bem na bola, nem valia a pena.

Dizias tu, Batistuta e Acosta na Copa América 1993.

Je je je. Começámos bem e passámos a fase de grupos em segundo lugar, atrás do México, o que implicou que apanhássemos o Brasil nos quartos-de-final. Acabou dois-dois e tivemos de ir a penáltis.

Marcaste algum?

Nesse dia, fui suplente. Entrei a meio da segunda parte para o lugar do Batistuta. E marquei o quarto penálti, logo a seguir ao Roberto Carlos.

E então?

Golo, je je je je.

Como é que o Coco definia os batedores de penáltis?

À base da conversa. Perguntava-nos se nos sentíamos confiantes, se queríamos patear.

Nas meias-finais?

Outro desempate por penáltis, com a Colômbia. Aí marquei o quinto penálti, depois do Valderrama. Mais uma vez, o Goycoechea deu-nos a vitória. Ele era um guarda-redes impressionante em tudo, ainda mais nos penáltis. Agarrava sempre um ou outro. Ou mais. No Mundial Itália-90 foi colossal. Nessa Copa América também.

E a final?

Dois-um ao México, bis do Batistuta. Campeões.

Bicampeões.

Je je je, pois é.

Entre essas duas Copas América, ainda ganhas a Taça das Confederações em 1992?

Baaaaaahhhh, ainda era uma Taça das Confederações muito primitiva. Só quatro selecções. Ganhámos 4-0 à Costa do Marfim, campeã africana. Marquei o 4-0. E depois, na final, 3-1 à anfitriã Árabia Saudita. Foi bom, claro. A rotina de vitória sabe sempre bem, mas era um torneio pequeno, sem a importância da Taça das Confederações dos tempos de hoje.

Muy bien. Andaste pelas Américas de 1993 até 1999. De repente, Portugal.

Je je je je. Que aventura. Queria esquecer a aventura no Toulouse, em França, e sair-me bem na Europa. O Sporting abriu-me as portas.

Quem, concretamente?

Mirko Jozic. Ele treinava o Colo Colo [aliás, sentem-se: Jozic é o único europeu a conquistar a Libertadores] e eu jogava na Universidade Católica. Conhecemo-nos aí e, passado um tempo, o Jozic foi contratado pelo Sporting. Passado mais um tempo, ele recomendou-me. O Sporting foi lá e já está. Je je je.

Conhecias o quê do Sporting?

Pouco, a verdade é essa. Sabia que era de Portugal, claro. E, óbvio, era pelouro Jazalde [eles, argentinos, dizem J em vez do Y]. O Jazalde era muito falado na Argentina, marcou golos em Mundiais e tudo. Era uma referência pela capacidade goleadora, ainda por cima foi Bota de Ouro como melhor marcador na Europa.

E tu não foste Bota de Ouro como melhor marcador da América do Sul?

Estava a ver que não dizias, je je je. Fui, sim [em 1994, com 33 golos].

Chegaste a Lisboa e?

Nem me fales. Os primeiros seis meses passei-os em Cascais. Quando acabou essa época 1998-99, pedi para mudar e meteram-me perto do estádio, na Avenida de Roma. Nem imaginas o tempo que passava no trânsito. Aquela marginal je je je. Lindíssima, mas caótica. Na Avenida de Roma, era bem melhor.

E o clube propriamente dito?

Uma estrutura de grande, com adeptos formidáveis e uma equipa fantástica. O capitão Pedro Barbosa foi o primeiro a receber-me. Havia outros pesos pesados, como Beto e Rui Jorge. Os argentinos Duscher, Quiroga, Hanuch e Kmet. O André Cruz, que profissional. E um líder nato. Tal como o Schmeichel. Difícil marcar-lhe golos nos treinos, hein?! Que muralha. E um tipo cinco estrelas, cheio de boas intenções e constantemente bem-disposto.

Mesmo nos jogos? Via-o nervoso, de vez em quando.

Je je je je. Isso já não sei. Sou avançado e não o ouvia. Escapei de boa. Je je je je. Uma animação pegada era o Nuno Santos, que figura. Era o terceiro guarda-redes e estava sempre, sempre mas sempre mesmo a gozar com o resto da malta.

Mais alguém?

É um poço sem fundo, acredita. Olha, o César Prates.

O que tem?

Inesquecível, estava sempre a rir-se. A sério, ele simplesmente passava a vida a rir-se. Até nos treinos. Até nos jogos. Às vezes, lembro-me como se fosse agora, ele falhava um cruzamento e eu olhava zangado na sua direcção. Para quê? Ele já estava a recuar para o seu lugar com uma cara de menino traquinas, que sabia que tinha feito uma asneira mas que não queria que lhe chamassem à atenção. Que figura. E, claro, havia o maior de todos.

Quem?

Paulinho.

Pois ééééé, o Paulinho.

Um personagem da cabeça aos pés, muito profissional e divertido até dizer chega. Um bom balneário não é só feito de jogadores, também tem de incluir médicos, roupeiros e por aí fora. A verdade é que esse Sporting era especial do ponto de vista humano. Havia figuras incontáveis. E havia rituais que nos transmitam união e nos davam mais força ainda.

Tais como?

As chamuças. No fim dos treinos, às quintas ou sextas-feiras, havia sempre massagens e, depois, pedimos chamuças. Comíamos no balneário, era divinal. Partilhávamos um tempo de qualidade na véspera dos jogos.

Quais os jogos mais importantes?

Todos. Para se ser campeão, é preciso reagir bem às vitórias, aos empates e às derrotas.

Aquela do livre do Sabry fez mossa?

Claro que sim. Foi um dia mau. Estávamos tão perto do título e queríamos dar o título aos nossos adeptos em Alvalade. Só que o nosso jogo não apareceu e o Sabry marcou aquele livre directo a poucos minutos do fim. Aquilo derruba-te. Mas só nesse dia. No dia seguinte, acordas com outra disposição. Sobretudo quando te reúnes com o resto dos jogadores no balneário e chegas à conclusão que o sonho ainda está ao nosso alcance. Bastava-nos ganhar ao Salgueiros, no Porto. E goleámos 4-0.

Foi uma tarde de glória.

Mais que isso, foi o concretizar de um sonho. Para os adeptos, à espera dessa alegria há 18 anos. Para os dirigentes, que apostaram naquele plantel. Para os jogadores portugueses, já enraizados no Sporting, e para os jogadores estrangeiros, que trocaram as voltas à família e foram viver para Lisboa à procura de um sonho. Concretizável. Foi inesquecível. Até porque o sonho de ir para a Europa também era o de jogar na Liga dos Campeões. Objectivo cumprido.

É no ano em que o Sporting rouba a liderança ao Porto num clássico em Alvalade.

Grande jogo, 2-0 para nós.

Marcaste o 2-0, de fora da área.

Mal recolhi a bola, imaginei um exército de camisolas azuis e brancas atrás de mim. Decidi-me por um pontapé forte e colocado. A verdade é que a bola entrou colada ao poste. O Baía esticou-se, mas não chegou. Foi um momento daqueles inesquecíveis. Trabalhas para eles durante toda uma carreira e, finalmente, ei-lo ali à tua frente. Foi mágico.

E os dois golos ao Benfica na Luz, para a Taça?

Dois?

Não foram dois?

Dois e meio. Dois e meio [insiste] je je je. Ganhámos 3-1. Há um golo em que o André Cruz faz a emenda a um cabeceamento meu. Baaaaahhh.

Agora é a minha vez, je je je je.

Je je je je.

E aquela final da Taça de Portugal?

O que tem?

A cotovelada na cara do Paulinho Santos?

São coisas que acontecem no futebol e que não deviam acontecer. De todo. Aquilo é uma fracção de segundos, a gente passa-se num clique. Arrependeste-te no instante seguinte. Não me orgulho, claro que não.

O último título é a Supertaça ao Porto. E com um golo teu.

Já foi um Sporting diferente do da época anterior. Vieram João Pinto, Paulo Bento e Sá Pinto, por exemplo. O Inácio também saiu e entrou o Manuel Fernandes. Aliás, ganhámos essa Supertaça com o Manuel Fernandes. Foi um jogo engraçado. O Schmeichel defendeu um penálti do Deco e depois eu marquei o 1-0, também de penálti. Sempre tive queda para bater penáltis. Era assim nos clubes argentinos, era assim na selecção durante a Copa América e foi também assim no Sporting. Vive-se para esses momentos de enorme responsabilidade. A adrenalina sobe e um golo nessas circunstâncias de maior aperto é a realização de um sonho e o sentido do dever cumprido. Tanto em relação aos colegas de equipa como em relação aos adeptos, que pagam para viajar e puxam constantemente por nós em campo.

E amigos no Benfica, tinhas?

Assim de repente, lembro-me do Bossio.

Claro, argentino.

E o Chano, espanhol. Eram simpáticos. E levavam-me a almoçar.

Onde?

Ao Barbas, acreditas? Je je je je. Fui sempre bem recebido por lá. Mesmo junto à praia, maravilha.

Quando voltaste à Argentina, ainda jogaste uns anos?

San Lorenzo. Siempre. Joguei quatro vezes no San Lorenzo, je je je je. É um amor grande. Como o do Sporting

Obrigado Beto, grande abraço.

Obrigado eu. Envia-me depois o link da reportagem, por favor.

Tranquilo, claro que sim.»

( In.: https://tvi24.iol.pt/load-enter/load/marquei-dois-golos-e-meio-ao-benfica )

 

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