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És a nossa Fé!

Mudança de paradigma

Antes.

Clube de malucos”,

foram as palavras, que o actual presidente do Sporting não se inibiu de repetir, quando um treinador português definiu o actual estado do Sporting, abordado para subsituir o treinador Marcel Keiser.

A presidência de Frederico Varandas não desmente estas palavras.

 

Depois... 10M€, dez milhões de euros, depois.

Mudança de paradigma”,

diz o mesmo presidente.

Para que sentido?

Vamos aguardar.

 

Ruben Amorim.

O sensato:

“€10 milhões era o valor que tinha na cláusula, quando o pusemos comecei-me a rir: quem iria pagar isto por mim?”, disse, com razão.

O corajoso:

Assumir este desafio, para um treinador com o seu histórico, num clube “de malucos” é um acto de coragem… ou será antes de loucura?

Quero acreditar na coragem.

 

Quero acreditar que tudo lhe irá correr bem e desejo-lhe, obviamente: boa sorte. Toda a boa sorte do treinador do Sporting, seja ele quem for, é a boa sorte do clube.

O adepto

(Dedicado ao Pedro Azevedo)

 

«Uma vez por semana, o adepto foge de casa e vai ao estádio.

Agitam-se as bandeiras, soam as matracas, os foguetes, os tambores, chovem as serpentinas e os papelinhos: a cidade desaparece, esquece-se da rotina, só o templo existe. A única religião que não tem ateus exibe as suas divindades neste espaço sagrado. Embora o adepto possa contemplar o milagre mais comodamente no ecrã da televisão, prefere fazer a peregrinação até este lugar onde pode ver os seus anjos, em carne e osso, a bater-se em duelo contra demónios de serviço.

Aqui o adepto agita o cachecol, engole em seco, glup, bebe veneno, morde o chapéu, sussurra preces e maldições e, de súbito, rasga a garganta numa ovação e salta como uma pulga, abraçando o desconhecido que grita golo ao seu lado. Enquanto dura a missa pagã, o adepto é muitos. Partilha com milhares de devotos de certeza de que somos os melhores, de que todos os árbitros estão comprados, de que todos os rivais são trafulhas.

Raras vezes o adepto diz: «Hoje joga o meu clube.» Em vez disso, diz: «Hoje jogamos.» Este jogador número doze sabe bem que é ele que sopra os ventos do fervor que empurram a bola quando ela adormece, tal como os outros onze jogadores sabem bem que jogar sem claque é como dançar sem música.

Quando termina, o adepto, que não saiu das bancadas celebra a sua vitória, que goleada, que sova lhes demos ou chora a sua derrota, roubaram-nos outra vez, o árbitro é ladrão. E então o sol e p adepto vão-se embora. Caem as sombras sobre o estádio que se esvazia. Nas bancadas ardem, aqui e ali, algumas fogueiras de fogo fugaz, enquanto as luzes e as vozes se vão extinguindo. O estádio fica só e o adepto regressa também à sua solidão, eu fui nós: o adepto afasta-se, dispersa, desaparece, e o domingo torna-se melancólico como uma Quarta-Feira de Cinzas depois da morte do Carnaval.»

 

In.: GALEANO, Eduardo - Futebol ao sol e à sombra. 1ª ed. Lisboa : Antígona, 2019. pp. 16-17

Dignos do ‘jacó’(*)

É o que, a incompetência destes senhores como dirigentes, me leva a concluir.

 

(*) «Jacó», o mesmo que caixote do lixo.

“É a proposta [de Outubro de 1929] do Dr. João dos Santos Jacob, que criou os recipientes para o lixo, logo crismados por «jacós», nomenclatura que se mantém na cidade, e que aos estranhos a ela, causa, por incompreensão, admiração”. (in: Anais do Município de Coimbra : 1920-1939. Coimbra : Biblioteca Municipal, 1971. p. 262)

Um dos grandes golos da história do futebol

«A chilena ou pontapé de bicicleta

Ramós Unzaga inventou a jogada, no campo do porto chileno de Talchuano: com o corpo no ar, de costas para o chão as pernas disparavam a bola para trás, num vaivém repentino de lâminas de tesoura.

Mas esta acrobacia só se chamou chilena alguns anos depois, em 1927, quando o Colo-Colo foi à Europa e o avançado David Arellano a exibiu nos estádios de Espanha. Os jornalistas espanhóis festejaram o esplendor daquela cabriola desconhecida e baptizaram-na assim porque tinha vindo do Chile, como os morangos e a cuenca (n.r.: dança típica chilena).

Depois de vários golos acrobáticos, Arellano morreu nesse ano, no estádio do Valladolid, devido a um choque fatal com um defesa.»

In.: GALEANO, Eduardo - Futebol ao sol e à sombra. 1ª ed. Lisboa : Antígona, 2019. p. 70

Delírios...

Muito textos descrevem, neste espaço, a inabilidade, a incompetência, da equipa directiva do Sporting. Muitos, eu incluído, pedem um novo rumo para o nosso clube, porém esse novo rumo não pode, definitivamente, ser escrito por aqueles que escreveram a nossa página mais negra. Li, hoje, uns delírios de Bruno de Carvalho a dizer que apresenta a sua candidatura à presidência do nosso clube. Delírios...

Misoginia?...

... poderemos perguntar.

Não, não acredito que seja.

Será, tão só, um caso de falta de vergonha a ausência do benfica nas finais do campeonato nacional feminino de clubes em pista coberta.

“É uma estratégia que o Benfica usa para querer denegrir a vitória dos outros: como normalmente sabem que perdem, saem de campo e isso não é desporto”, disse à agência Lusa diretor técnico do atletismo do Sporting, Carlos Silva.

 

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(imagem Record)

 

Parabéns às nossas atletas!

A BOLA

Lendo o texto de Pedro Correia sobre o nosso último jogo (é poesia a descrição que faz dos minutos 27, 34 e 76) um pensamento me ocorre: coitada da bola, tão mal a temos tratado.

 

«Era de couro, com recheio de estopa, a bola dos chineses. Os egípcios do tempo dos faraós fizeram-na com palha ou com cascas de grãos e envolveram-na em tecidos coloridos. Os gregos e os romanos usavam uma bexiga de boi, cheia de ar e cosida. Os europeus da Idade Média e do Renascimento disputavam uma bola oval, recheada de crina. Na América, feita de cauchu, a bola conseguiu ser saltitona como em nenhum outro sítio. Contam os cronistas da corte espanhola que Hernán Cortés pôs a pular uma bola mexicana e fê-la voar a grande altura, diante dos olhos arregalados do imperador Carlos.

A câmara de borracha, insuflada por uma bomba e coberta de couro, nasceu em meados do século passado, graças ao engenheiro Charles Goodyear, um norte-americano do Connecticut. E graças ao engenho de Tossolini, Valbonesi e Polo, tês argentinos de Córdova. Nasceu muito depois a bola sem costura de atacador. Eles inventaram a câmara co válvula, que se enchia por injecção, e desde o Mundial de 1938 tornou-se possível cabecear a bola sem se magoar com o cordão de couro que anteriormente a amarrava.

Até meados deste século. A bola foi castanha. Depois branca. Nos nossos dias, apresenta-se com diversos motivos em preto sobre fundo branco. Agora tem diâmetro de setenta centímetros e é revestida de poliuretano sobre espuma de polietileno. É impermeável, pesa menos de meio quilo e viaja mais rapidamente do que a velha bola de couro, que ficava impossível nos dias chuvosos.

Chamam-lhe muitos nomes: o esférico, a redondinha, a careca, o globo, o balão, o projéctil. No Brasil, no entanto, ninguém duvida que ela é mulher. Os brasileiros chamam-lhe gorguchinha, menina, e dão-lhe nomes como Maricota, Leonor ou Margarida.

Pelé beijou-a no Maracanã, quando marcou o seu milésimo golo, e Di Stefano erigiu-lhe um monumento à entrada de casa, uma bola de bronze com uma placa que diz: ‘Obrigado, velhota.’

Ela é fiel. Na final do Mundial de 1930, as duas selecções exigiram jogar com a sua própria bola. Sábio como Salomão, o árbitro decidiu que o primeiro tempo se disputaria com a bola argentina e o segundo tempo com abola uruguaia. A Argentina ganhou o primeiro tempo e o Uruguai o segundo. Mas a bola também tem as suas veleidades e às vezes não entra na rede porque muda de opinião no ar e se desvia. É que ela é muito melindrosa. Não suporta que a tratem aos pontapés, nem que lhe acertem por vingança. Exige que a acariciem, que a beijem, que adormeçam no peito ou no pé. É orgulhosa, talvez vaidosa, e não lhe faltam motivos: ela bem sabe que dá muitas alegrias a muitas almas quando se eleva com graça, e que são muitas as almas que ficam doridas quando ela cai mal.»

 

In.: GALEANO, Eduardo - Futebol ao sol e à sombra. 1ª ed. Lisboa : Antígona, 2019. pp. 32-33

"Rola, rola sem fim; não agarra nada..."

... assim tem sido o nosso futebol.

Talvez por Vila do Conde ser terra de pescadores, de onde muitos homens saíram para a «Faina Maior», a pesca ao bacalhau, este texto, de Bernardo Santareno (*), é a minha melhor análise sobre o último jogo do Sporting frente ao Rio Ave.

Desejamos que quinta-feira seja diferente.

 

«- How do you do, doctor?

Estendeu-me a mão molhada de cerveja, que eu apertei. Foi em Torrevieja num “bar”.

Não o esqueci: aquela cara congestionada pelo álcool e no entanto de traços delicados, a voz rouquenha e escarninha, o corpo onde a embriaguez não conseguia destruir uma elegância que, sendo natural, era também cuidada…

Informei-me: pertencia à tripulação do “David Melgueiro” e era um simples “verde” quer dizer principiante (os outros “maduros” e “homens de ofício”). Achei estranho.

Era, na verdade, diferente dos demais: Mais evoluído, família de classe superior? Até pela maneira de vestir…

Com certeza, no entanto, para mim, mais antipático: Aquela troça mal disfarçada, com que me tinha atirado o “how do you do?”…

Enfim, estava embriagado. E continuou a beber no navio.

Choviam as queixas: Indisciplinado, raro cumpria a sua parcela no trabalho. Mas os outros gostavam daquele “verde” e lá o iam protegendo, escondendo-o dos oficiais supervisores.

Vieram falar-me…

Era açoriano, não tinha pai nem mãe, nem ninguém.

Chegara a estudar.

- “Julga que é mentira, doutor? Pergunte lá em cima, ao piloto: cursei com ele os primeiros anos do liceu!...”

Mas desistira. Aliás, até hoje, não fizera outra coisa senão começar carreiras… Depois veio a vida militar. E agora para aqui estava…

- Agora sou um reles “verde” senhor doutor…

Ficara horas a contemplar o mar, debruçado na amurada do arrastão.

- Sai daí, vai trabalhar, deixa lá isso. Olha que o capitão castiga-te…”

- Não castiga. Tenho ali o mar pronto a receber-me!...”

E no seu olhar azul-sombrio, brilhava qualquer coisa de feroz, brasa onde se queimava um grito desesperado…

Dormia sempre com uma faca, entre a camisa e o peito…

- “Deixa cá ver a faca: Pra que precisas tu dela, aí no teu beliche?”

- “Não dou. É a minha noiva. E qualquer dia caso-me com ela…”

Procurei falar com o rapaz. Agreste e chocarreiro a princípio, foi depois cedendo… à medida que, em mim, ia aumentando a simpatia por aquele “verde”, bravio e orgulhoso, que procurava no álcool e nos fumos da morte, alívio para a chaga da derrota, rasgada em suas entranhas…

- “A minha vida, doutor, é como o mar: Rola, rola sem fim; não agarra nada, não para nunca!...”»

 

In: SANTARENO, Bernardo - Nos mares do fim do mundo: doze meses com os pescadores bacalhoeiros portugueses por bancos da Terra Nova e da Gronelândia. [1ª ed]. Lisboa : Ática, 1959. pp. 23-25

(*) «pseudónimo literário de António Martinho do Rosário (1920 - 1980), considerado o maior dramaturgo português do século XX. Licenciou-se em medicina em 1950 e entre 1957 e 1959 exerceu actividade médica junto da frota bacalhoeira portuguesa na Terra Nova».

O que é ser Vitória?

Não sei, mas espero que não seja nada disto:

- pioneiros a expulsar uma rádio que fazia um relato desportivo no seu estádio (ver aqui);

- pioneiros a invadir o centro de treinos do clube e agredir jogadores (ver aqui);

- ter um presidente da Assembleia Geral que recomenda uma ida ao psiquiatra ao jogador que, com “tomates de betão”, fez frente a insultos racistas proferidos por alguns energúmenos da claque deste clube!

 

Por se ter passado no Estádio D. Afonso Henriques, nome – obviamente - alheio a tudo isto, deixo um conto de Alexandre Herculano para esta gente ler: O Bispo Negro.

 

Ao jogador, todo o nosso apoio!

OS NEGROS

«Em 1916, na primeira Copa América, o Uruguai goleou o Chile por 4 a 0. No dia seguinte, a delegação chilena exigiu a anulação do jogo, «porque pelo Uruguai tinham alinhado dois africanos». Eram os jogadores Isabelino Gradín e Juan Delgado. Gradín tinha marcado dois dos quatro golos.

Bisneto de escravos, Gradín tinha nascido em Montevideu. As pessoas levantavam-se nas bancadas quando ele se lançava numa velocidade espantosa, dominando a bola como que caminha e, sem se deter se esquivava dos adversários e rematava em plena corrida. Tinha cara de menino de coro e era daqueles que quando fazem maldades, ninguém acredita.

Juan Delgado, também bisneto de escravos, tinha nascido em Florida, no interior do Uruguai. Delgado brilhava a dançar com uma vassoura no Carnaval e com uma bola no campo. Enquanto jogava, conversava e gozava com os adversários:

- Vem buscá-la, se fores capaz – dizia, elevando a bola. E ao lançá-la dizia:

- Atira-te para o chão, que é areia.

O Uruguai era, naquela época, o único país do mundo que tinha jogadores negros na selecção nacional.»

 

In.: GALEANO, Eduardo - Futebol ao sol e à sombra. 1ª ed. Lisboa : Antígona, 2019. p. 54

Sporting: ingénuo e romântico

«Carácter e Cromos

O pior que pode acontecer a uma equipa é perder o seu carácter. Não me refiro ao «espírito ganhador ou perdedor», porque no fundo todas têm o primeiro, mais ou menos desenvolvido. Trata-se do carácter do qual se projecta esse espírito, do estilo e do ânimo com que se aspira ao triunfo, que em cada caso são diferentes. Perder esse carácter é, por outro lado, muito difícil em clubes que têm cerca de um século de vida. É preciso que decorram muitos anos em que o torpedeiam sistematicamente para que aconteça esse disparate, na realidade é uma tarefa pouco menos que impossível e disso se queixam frequentemente os treinadores e os presidentes, que queriam equipas mais aguerridas, ou mais «assassinas», ou mais broncas, ou mais ufanas, ou mesmo mais clementinas. Assim o carácter do Barcelona foi sempre artístico e frágil (…). O Valência é simultaneamente fanfarrão e inibido, isto é, inibe-se demasiado quando a fanfarra emudece (e não há nenhuma que dure um campeonato inteiro). O Athetic de Bilbao é temerário e obstinado e um pouquinho atormentado, como se jogasse a sua própria Liga contra o passado; a Real Sociedad é nobre e ingénua, parece surpreender-se sempre com as suas vitórias. A Juventus é muito fina e julga-se aristocrática, o Bayern de Munique é arrogante e pretensioso, o Ajax optimista e confiado e por isso improvisa, o Liverpool é voraz e impiedoso.

O [Real] Madrid é heroico e altaneiro e também artístico (…).» (*)

 

Como se extrapola esta caracterização para a realidade portuguesa?

A minha leitura é esta:

O Sporting é ingénuo e romântico.

O Benfica é batoteiro, quando ganha, e choramingas, quando perde.

O Porto é arruaceiro e colérico.

 

E vocês, como olham para os três principais clubes do futebol português?

 

 

(*) In.: MARÍAS, Javier - Selvagens e sentimentais : histórias do futebol. 1ª ed. Lisboa : Dom Quixote, 2002. pp. 77-78

"Devo tudo o que sei sobre moral ao futebol", diz o escritor Albert Camus

Olhando para o nosso lado...

«VALE TUDO

 

Em 1988, jornalista mexicano Miguel Ángel Ramirez denunciou uma fonte de juventude. Alguns jogadores da selecção juvenil do México, que tinham ultrapassado a idade permitida em dois, três e mesmo seis anos, tinham sido banhados nessas águas mágicas: os dirigentes tinham falsificado as suas certidões de nascimento e arranjado passaportes falsos. Submetido a esse tratamento prodigioso, um dos jogadores tinha conseguido ser dois anos mais novo do que o seu irmão gémeo.

Então, o vice-presidente do Guadalajara declarou:

- Não digo que seja uma coisa boa, mas sempre se fez.

E Rafael del Castillo, que era o manda-chuva do futebol juvenil, perguntou:

Porque é que o México não pode ser intrujão, quando por norma, outros países o são?

Pouco depois do Mundial de 1966, o inspector da Associação de Futebol Argentino, Valentín Suarez, declarou:

- Stanley Rous é um homem desonesto. Organizou o Mundial para que a Inglaterra ganhasse. Eu faria o mesmo se disputasse na Argentina.

A moral do mercado, que no nosso tempo é a moral do mundo, autoriza todas as chaves para a obtenção do sucesso, mesmo que sejam gazuas. O futebol profissional não tem escrúpulos, porque integra um sistema inescrupuloso que compra eficácia a qualquer preço. E ao fim e ao cabo, o escrúpulo nunca foi grande coisa. Escrúpulo era a menor medida de peso, a mais insignificante, na Itália do Renascimento: Cinco séculos depois, Paul Steiner, jogador alemão do Colónia, explicava:

- Jogo por dinheiro e por pontos. O rival quer tirar-me o dinheiro e os pontos. Por isso tenho de lutar contra ele recorrendo a todos os meios.

E o jogador holandês Ronald Koeman justificava assim o pontapé do seu compatriota Gillhaus , que deu cabo do francês Tigana, em 1988:

- Foi um gesto de grande classe. Tigana era o mais perigoso e era preciso neutraliza-lo a todo o custo.

O fim justifica os meios, e qualquer rasteira é aceitável, embora convenha passa-la dissimuladamente. Basile Boli, Olympique de Marselha, um defesa acusado de maltratar tornozelos alheios, contou o seu baptismo de fogo: em 1983, estatelou com uma cabeçada Roger Milla, porque este estava a enlouquecê-lo com as suas cotoveladas. E Boli revelou a experiência:

- Eis a lição iniciática: bate antes que batam, mas bate discretamente.

 É preciso bater longe da bola. O árbitro, como as câmara de televisão, tem os olhos postos na bola. No Mundial de 1970, Pelé sofreu com a marcação do italiano Bertini. Depois elogiou-o assim:

- Bertini era um artista a cometer faltas sem ser visto. Esmurrava-me as costelas ou o estomago, dava-me pontapés no tornozelo… Um artista.

Entre os jornalistas argentinos são frequentes os aplausos às trapaças atribuídas a Carlos Bilardo, por ter sabido executá-las com habilidade e com bons resultados. Segundo dizem, quando era jogador, picava os adversários com uma agulha e fazia cara de santo. E quando foi director técnico da selecção argentina, conseguiu enviar um cantil cheio de água com vomitivo a Branco, um jogador brasileiro sedento, durante o jogo mais difícil do Mundial de 1990.

Os jornalistas uruguaios costumam chamar jogo de perna forte à falta traiçoeira, e não foi só um que celebrou a eficácia do pontapé de abrandamento para intimidar os rivais nos jogos internacionais. O tal pontapé deve ser dado nos primeiros minutos de jogo. Mais tarde corre-se o risco de expulsão. No futebol uruguaio, a violência foi filha da decadência. Anteriormente, garra charrúa (nr: Charrúas = uruguaios) era o nome da valentia, e não dos pontapés.

No Mundial de 1950, sem ir mais longe, aquando da célebre final do Maracanã, o Brasil perpetrou o dobro das faltas que o Uruguai cometeu. No Mundial de 1990, quando o técnico Óscar Tabárez consguiu que a selecção uruguaia voltasse ao jogo limpo, alguns comentadores locais tiveram o prazer de confirmar que isso não dava bons resultados. E são numerosos os adeptos, e também os dirigentes, que preferem ganhar sem honra a perder com nobreza.

Pepe Sasía, avançado uruguaio, dizia:

- Atirar areia para os olhos do guarda-redes? Os dirigentes acham mal, quando se nota.

Os adeptos argentinos disseram maravilhas do golo que Maradona marcou com a mão, no Mundial de 1986, porque o árbitro não viu. Nas eliminatórias do Mundial de 1990, o guarda-redes do Chile, roberto Rojas, simulou uma ferida, cortando a testa, e foi apanhado. Os adeptos chilenos, que o adoravam e o chamavam de Condor, transformaram-no de repente no mau da fita porque o truque não resultou.

No futebol profissional, como em tudo o resto, o delito não tem importância se o álibi for bom. Cultura significa cultivo. O que cultiva em nós a cultura de poder? Quais serão as tristes colheitas de um poder que dá impunidade aos crimes dos militares e ao saque dos políticos, e os transforma em façanhas?

O escritor Albert Camus, que foi guarda-redes na Argélia, não se referia ao futebol profissional quando dizia:

- Devo tudo o que sei sobre moral ao futebol.»

 

In.: GALEANO, Eduardo - Futebol ao sol e à sombra. 1ª ed. Lisboa : Antígona, 2019. pp. 221-224

O ídolo

Agora que Bruno Fernandes se foi embora, faço esta pergunta:

Qual o jogador do nosso plantel que se aproxima desta descrição de Eduardo Galeano?

 

 

«O ÍDOLO

 

E um belo dia a deusa do vento beija o pé do homem, o pé maltratado, desprezado, e desse beijo nasce o ídolo do futebol. Nasce em berço de palha e em barraca de lata e vem ao mundo abraçado a uma bola.

Desde que aprende a andar, sabe jogar. Nos seus verdes anos alegra os baldios, farta-se de jogar nos descampados dos subúrbios até que a noite cai e já não vê a bola, e em jovem voa e faz voar nos estádios. As suas artes malabares congregam multidões, domingos após domingo, de vitória em vitória, de ovação em ovação.

A bola segue-o, reconhece-o, exige-o. No peito do seu pé, ela descansa e baloiça-se. Ele chuta-a e fá-la falar, e nesse diálogo conversam milhões de mundos. Os zés-ninguém, os condenados a serem zés-ninguém para sempre, podem sentir-se alguém durante um pouco, por obra e graça desses passes devolvidos ao toque, desses fintas que desenham zês no relvado, desses golaços de calcanhar ou de bicicleta: quando ele joga, a equipa tem doze jogadores.

- Doze! Tem quinze! Vinte!

A bola ri-se, radiante, no ar. Ele fá-la descer, consegue adormece-la, corteja-a, fá-la dançar, e vendo essas coisas nunca vistas os seus adoradores sentem pena dos seus netos ainda não nascidos, que nunca os poderão ver.

Mas o ídolo só é ídolo por algum tempo, humana eternidade, coisa de nada; e quando a sorte madrasta atinge esse pé de ouro, a estrela conclui a sua viagem do fulgor ao apagão. Esse corpo fica com mais remendos do que um fato de palhaço, o acrobata passa a ser paralítico, o artista uma besta:

- Com pitões não!

A fonte da felicidade pública transforma-se no para-raios do rancor público:

- Múmia!

Às vezes o ídolo não cai inteiro. E às vezes, quando se quebra, as pessoas devoram os pedaços.»

 

In.: GALEANO, Eduardo - Futebol ao sol e à sombra. 1ª ed. Lisboa : Antígona, 2019. pp. 14-15

Sporting: o meu «Bolero de Ravel»

«Amor é exclusividade

 

Conheço uma moça que, em matéria de football, é de uma ingenuidade enciclopédica. Não sabe o que é um «chute» e ignora se a bola é quadrada ou redonda. Outro dia, ela vai à Tijuca. E, de repente, vê, mais adiante, uma coisa grande, uma coisa imensa. No seu pânico, aponta e pergunta: «O que é aquilo? Tiveram que explicar que «aquilo» era o Maracanã, o maior estádio do mundo etc., etc.

Posteriormente, tenho sabido de coisas singulares a respeito da minha conhecida. Por exemplo: não lhe falem em «tabuleiro da Baiana», porque ela cairá na mais atra e torva perplexidade. Em suma: uma flor de moça. Pois bem. Um dia desses, ocorre na vida de minha amiga (se assim posso chamá-la) uma experiência curiosa: ela encontra em cima da mesa um exemplar do Jornal dos Sports. Balbucia, com a sua inocência maravilhada: «Cor-de-rosa!»

Graças à cor, e só à cor, dispôs-se à leitura. E acaba descobrindo, num canto da página, esta coluna. Viu a minha assinatura e seu interesse aumentou. É doce ler um conhecido! Foi até o fim de minha crônica e, como falava em football, não entendeu patavina. Dois ou três dias depois, ela encontra em cima da mesma mesa o mesmo Jornal dos Sports. Nova leitura. Mais tarde ela bate o telefone para mim. Pergunta: «Você só escreve sobre o Fluminense?»

Eis o que acontecera: ela só conhecia, deste colunista, duas crônicas. E, por coincidência fatal, em ambas o tema principal, ou melhor o tema único era o Tricolor. E a moça não entendia que pudesse existir jornalista de um assunto só. Com o maior descaro, e não sem doçura, respondi-lhe: «Eu só escrevo sobre o Fluminense!»

Amigos, o que a amiga não aceita, e ninguém aceita, é esta verdade eterna: cada escritor, cada cronista, cada poeta tem o seu «Bolero de Ravel», ou seja: o assunto obsessivo e triturante, em torno do qual ele gravita, obtusa e teimosamente. Ai daquele que é incapaz de uma fixação! Coitados dos que pulam de um assunto a outro, com uma frivolidade irresponsável. «É preciso variar», dizem. Mentira. É preciso, inversamente, não variar. Nada é mais estúpido e vazio do que a variedade. Assim, no jornalismo como na literatura, na literatura como no amor.

No amor, o grande sujeito é o camarada de uma só mulher. Ele agarra a sua e não a larga mais. Repito: o verdadeiro Don Juan é o sedutor de uma conquista única, para sempre. No football, é preciso gostar, obviamente, do mesmo clube. E assim por diante. Nada mais justo, pois, do que o jornalista especializado que também só escreve sobre um único clube, eternamente único. Essa fidelidade exasperada é de uma beleza completa.

Jornal dos Sports, 22/9/1961»

In. .RODRIGUES, Nelson- Brasil em campo : crónicas. 1ª ed. Lisboa : Tinta da China, 2018. pp. 187-188.

 

Através da leitura do texto «A censura nas escolas do Brasil», do colega de blog “jpt”, podemos chegar a esta «Relação dos livros a serem recolhidos», uma directiva da Secretaria de Estado da Educação de um estado brasileiro com títulos «para serem recolhidos das escolas por conterem o que foi definido como "conteúdos inadequados" a crianças e adolescente.». Nela consta o nome deste autor: Nélson Rodrigues, com outros títulos («Beijo no asfalto» e «A vida como ela é».

 

Não vou fazer qualquer consideração sobre isto – este não é o espaço. Deixo somente esta crónica, deliciosa.

A trampa “estalinista” de ontem…

que voltou a escrever mais uma página negra no nosso clube, não vencerá!

Os tristes acontecimentos que ontem ocorreram, lembraram-me o amor que esta imensa massa adepta, independentemente da inabilidade e incompetência da Direcção e dos grupos terroristas - travestidos de claques - que querem aprisionar o Sporting, continua a ter por este clube.

Shostakovich, Concerto para Piano n.º 2, Segundo Andamento

 

«Em 1957 o colosso da música russa, Dmitri Shostakovich, compôs o seu segundo concerto para piano para comemorar o aniversário do filho. Talvez por causa da pessoa para que foi escrito, revelou-se uma pausa no seu habitual estilo sardónico, abespinhado e opressivo (ouça a sua quinta e maior sinfonia para um exemplo inequívoco do que acabei de dizer). Ao contrário de quase todos os seus contemporâneos, Shostakovich permaneceu toda a sua vida na Rússia, apesar da agitação e da loucura estalinista que forçaram a saída de Prokofiev, Rachmaninov e outros. Shostakivich ficou e lutou através da música, utilizando ocasionalmente as suas composições para retratar paródias musicais de um país depauperado.

Era voluntarioso, político, destemido e revolucionário, tendo proferido as belíssimas palavras: «Um artista criativo trabalha na sua próxima composição porque não está satisfeito com a anterior.»

Este lento andamento, com reminiscências do Concerto do Imperador de Beethoven, surge como uma das mais românticas e belas composições, principalmente se pensarmos nos horrores que estavam a acontecer à sua volta quando a compôs.»

 

In. RHODES, James - Instrumental. 1ª ed. [S.l.] : Alfaguara, 2017. p. 119

Jorge Sousa…

… a poesia!

 

«???, c***!

Estás a falar para quem, c***?

P’rà baliza.

Mas que brincadeira?

Eu não brinco com ninguém, c***.

Põe-te na p** da baliza!

Que é isto?

Quem é que está a brincar, c***!

Ele é que está a brincar.

Eu não brinco com ninguém!» (n)

 

Já tivemos oportunidade de a ouvir aqui declamada – pelo próprio. Fica agora aqui em registo escrito para poder ser apreciada por todos!

 

P.S.: Procurei que os links fossem didáticos.

Sim, continuam.

É a minha resposta à pergunta colocada pela “Juventude Leonina 1976 - JUVE LEO”: «Continuamos a ser nós, que vamos a todo o lado, o problema?», colocada no seu último comunicado.

Não só, mas também, respondo eu.

 

Gostávamos de ver uma Juventude Leonina no genuíno apoio às equipas das várias modalidades do clube, tal como o fez no passado. Temos saudades disso. Gostávamos que os nossos atletas, os nossos futebolistas, olhassem para vocês e dissessem, com orgulho, aquilo que outros disseram no passado: Temos a melhor claque da Europa

Esta Juventude Leonina não o é assim. Tem uma agenda e "nas assembleias-gerais ameaçam as pessoas e fizeram isso com o Acuña e a sua mulher. Há pessoas que têm medo da JuveLeo" (…).», disse Fraguitonossa antiga glória.

Esta Juventude Leonina está relacionada com a página mais negra da história do clube. E disso os sócios, os adeptos, jamais se esquecem.

 

O Sporting não precisa de vós!

Quando já pensávamos ter visto tudo…

«"Fui repreendido por suturar Bas Dost",

recorda enfermeiro do Sporting.

 

Carlos Mota, enfermeiro do Sporting, marcou presença esta quarta-feira no Tribunal de Monsanto, onde testemunhou no julgamento do processo do ataque à Academia de Alcochete, a 15 de maio de 2018.

Mota recorda ter suturado Bas Dost depois das agressões ao avançado holandês, medida que conduziu a uma repreensão, revelou: "Não vi a agressão ao Bas Dost. Fui eu que o suturei, fui repreendido porque achavam que tinha de esperar que chegasse o médico que vinha de Lisboa para suturá-lo. (...) Frederico Varandas estava lá. Só sei que o homem estava a sangrar, a chorar deitado, e eu propus-me a suturá-lo. Fui repreendido, dizendo eles que era um ato médico. Fiquei surpreendido, porque se tinha de chamar um médico que estava em Lisboa e ia demorar a chegar a Alcochete", relatou o enfermeiro, que garante não ter sentido medo.

"Andei em enfermagem para servir quem necessita. Não tive medo, fui agredido, mas não tive medo", acrescentou Carlos Mota, recordando também a chegada de Bruno de Carvalho à Academia após a invasão:

"Chegou de semblante triste, naturalmente. Acho que foi uma vergonha para o Sporting. Recordo [o ataque] com tristeza, porque sou enfermeiro e sportinguista desde que nasci. É triste que se aproveitem estas situações para denegrir e dar cabo do Sporting. Ele era presidente na altura, bem ou mal, era o presidente, eu respeitava-o por isso", rematou Carlos Mota.»

 

In: Jornal «O Jogo» acedido em 29/01/2020

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