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És a nossa Fé!

Memórias de outros Euros*

Em 1984, Portugal participou, pela primeira vez, no Campeonato da Europa de Futebol que nesse ano se realizou em França. A qualificação esteve por um fio e tudo ficou decidido num jogo épico no estádio do outro clube da segunda circular contra a temível selecção da então União Soviética.

Tenho poucas memórias do jogo propriamente dito, mas retive algumas que partilho agora aqui convosco. O que mais me impressionou na altura não foi o jogo em si, mas um grupo na assistência, portugueses, que decidiu ir ao estádio com bandeiras vermelhas com a foice e o martelo de um partido de esquerda para apoiar a selecção soviética. Gritavam, berravam, gesticulavam as bandeiras e assobiavam cada vez que algum jogador português pegava na bola.

Penso que, na altura, o que os salvou de uma boa surra foi o facto dos adeptos da selecção das quinas estarem mais preocupados com o jogo do que, propriamente, com a assistência. Ou então a circunstância de pensar que essa gente era das terras das estepes e não de um lugar recôndido de Portugal. Seja como for, eram os excessos pós-revolucionários da altura, em que o internacionalismo ideológico se sobrepunha ao patriotismo identitário. Hoje, isto seria impensável, muito à conta deste nacionalismo futeboleiro e sazonal que se vive no País de dois em dois anos.

 

De volta a 1984, para dizer-vos que a primeira parte esteve bastante equilibrada, com Portugal a suster com alguma dificuldade as velhas glórias soviéticas. O assunto ficou arrumado, obviamente, com um jogador do Sporting. O inefável Jordão, aos 42 minutos, marcou um penalty que arrumou de vez as esperanças soviéticas e colocou Portugal na fase final de competições internacionais de futebol,  18 anos depois do histórico mundial de 1966 onde os Magriços igualmente se notabilizaram.

Saímos do estádio felizes e contentes com os préstimos da nossa Selecção e com a vitória dada a Portugal e aos Portugueses graças a um golo de um jogador do Sporting. Como a vida tem destas ironias, na confusão da saída, reparámos no grupo das bandeirinhas vermelhas. Tristes e cabisbaixos, com as bandeiras enroladas.

 

*Artigo publicado na edição desta semana do jornal do Sporting

Há 56 anos era assim…

Fui sócio do Sporting uma infinidade de anos. Naquele tempo em que os sócios podiam ver os jogos sem pagar a não ser aqueles famosos “dias do clube” com o Belenenses ou o clube de Carnide, em que pagávamos uma quota extra.

Durante todo esse tempo tive um cartão e que não servia de crédito a não ser ao próprio Sporting. Porém jamais observei em algum deles aquilo que vi (e vejo!) no antigo cartão de sócio do meu pai.

Estávamos em 1956.

Na frente a sua figura jovem de militar aprumado. Por detrás, a filosofia…

Para recordar ou relembrar?

 

 

O homem mais solitário do mundo

O futebol permite imortalizar imagens que nos acompanham vida fora. Imagens de implacáveis derrotas e vitórias redentoras que nada têm a ver com a abstracta "justiça dos resultados" tantas vezes invocada em vão pelos comentadores da modalidade. Porque o que se joga num relvado, sobretudo numa competição com a amplitude de um campeonato do mundo, transcende largamente um resultado desportivo, tornando-se uma espécie de alegoria do destino humano. São momentos de glória e desespero que perpetuam famas, boas e más. Momentos como aqueles segundos finais desse fantástico jogo que foi o Gana-Uruguai, ontem disputado em Joanesburgo.

Os ganeses desejavam ser a primeira selecção africana a atingir as meias-finais de um Mundial. Os uruguaios, arredados desde 1970 de uma meia-final, ambicionavam resgatar o brilhante passado futebolístico do seu país, campeão mundial em 1930 e 1950. Motivações diferentes, mas suficientemente mobilizadoras para empolgar os atletas. Naqueles instantes, cada um deles transportava os sonhos de milhões.

Foi aí que tudo aconteceu. A pressão atacante ganesa rompeu a exausta defesa uruguaia: com o guarda-redes Muslera batido, Luis Suárez - a estrela da equipa - impediu duas vezes consecutivas a bola de entrar na baliza. Mas à segunda actuou à margem das leis futebolísticas.

 

Como se pode falar em "injustiça" no futebol? Neste jogo disputado com os pés, Maradona tornou-se um deus do Olimpo ao marcar com a mão contra a Inglaterra em 1986. Thierry Henry conduziu fraudulentamente a França ao Mundial da África do Sul ao meter também a mão à bola. E foi igualmente com as mãos que Suárez alterou o curso da história, impedindo o Gana - o primeiro país da África negra a tornar-se independente no ciclo pós-colonial - de chegar ao pódio mundial do futebol.

Tudo mudou naquele fragmento final do jogo. O árbitro português, Olegário Benquerença, assinalou o inevitável penálti. E todo o peso do mundo caiu de imediato sobre os ombros do ganês Asamoah Gyan, encarregado de o marcar. O destino decide-se numa fracção de segundos, em poucos centímetros de terreno. Como às vezes numa guerra mundial. Como às vezes no mais banal acto do nosso quotidiano. Se marcasse, Gyan veria o seu nome inscrito para sempre na galeria dos heróis; se falhasse, tornar-se-ia símbolo de fracasso a perdurar por gerações. Que o diga o guarda-redes Moacir Barbosa Nascimento, o guarda-redes que deixou entrar o fatal golo uruguaio na final do Maracanã, em 1950, ditando o traumático adeus do Brasil ao título na sua própria casa.

 

Gyan tomou balanço, partiu para a bola - e rematou à barra.

Nada mais havia a fazer.

Seguiu-se a roleta das grandes penalidades que sempre ocorre quando o desafio termina empatado, como este terminou (1-1). Mas era óbvia a vantagem do Uruguai: o falhanço anterior arrasara psicologicamente os jogadores do Gana, enquanto os sul-americanos se sentiam ungidos pela graça de Deus.

Levaram a melhor, claro.

No futebol, a fraude pode compensar: ganhou quem merecia perder. Mas o estranho sortilégio deste jogo passa também por isto.

O rosto de Gyan, devassado pelos grandes planos televisivos, era uma máscara de dor: uma etapa crucial da vida dele fechou-se para sempre quando aquela bola bateu na barra. Naquele momento, não havia ser humano tão fotografado no planeta. Naquele momento, não havia ser humano tão solitário no mundo.

 

Texto publicado faz hoje dois anos aqui, durante o Mundial na África do Sul

Politicamente incorrecto*

Hoje em dia as idas aos estádios são politicamente correctas. Independentemente de algumas turbas de adeptos que, às vezes, não se controlam e dão mau nome ao desporto e a equipa que apoiam, o facto é que o futebol tornou-se, na verdadeira acepção da palavra, um desporto de massas e, mais importante que isso, de famílias.

Actualmente, é comum verem-se famílias inteiras, com filhos pequenos e mulheres,  na festa do futebol. Mas nem sempre foi assim. Nas minhas memórias de infância retenho que o deporto-rei e as idas ao estádio eram uma coisa de gajo onde, tipo clube do Bolinha, “menina não entra”. Nessa altura, ninguém se preocupava com a ASAE e fazia parte da tradição ir às roulotes para comer uma sandes de coirato ou de presunto e beber umas minis antes do jogo.

Comecei a ir ao estádio, ao velhinho Alvalade, muito cedo e sempre em família. Na altura, ainda não tinha, obviamente, idade para beber álcool e comer a sandes da roulote, mas fui acompanhando essa tradição até à altura, em que, por volta dos meus 16 anos, entrei na idade adulta. Confesso que a primeira vez foi horroroso. A cerveja soube-me mal e o coirato era duro, duro... Mas, como fazia parte  da tradição, lá aguentei estoicamente.

No estádio, ainda não havia os “stewards” e a segurança era feita por agentes da autoridade tipicamente anos 70/80: barriga proeminente, bigode farto, homens que gostavam de ir ao estádio pelas comezainas e pela bola. O povo era sereno, já dizia um político da época, e ir ao futebol era um programa de homens, para homens. Por isso, era normal entrarem garrafas de 1920 (lê-se mil nove e vinte pf...), aguardente Barrocão e, nos mais sofisticados, whisky martelado made in Odivelas.

Tínhamos sempre uma sorte bestial (ironia, claro) e apanhávamos estas personagens que, entre o final da primeira parte e o início da segunda já insultavam estoicamente a mãe do árbitro, gritavam Sporting com uma voz muito arrastada e ficavam cheio de calores, mesmo que estivéssemos em pleno Janeiro. Foi no Estádio que aprendi as minhas primeiras asneiras e onde perguntei ao meu pai o que queria mesmo dizer a palavra começada por “p”...

Um dia, um destes grupos que bebia mil nove e vinte pela tampa da garrafa, que era passada de mão em mão, virou-se para trás e ofereceu-nos um trago. Entre as desculpas das crianças e o não bebo álcool, o meu pai lá se safou ao suplício desta partilha pouco higiénica.

No resto, os jogos passavam-se dentro da normalidade possível. Havia uns que ganhávamos, outros que não. Mas todas estas experiências, boas ou nem tão boas quanto isso, serviram para que, cada vez que ia ao Estádio, me sentisse em família. Mesmo quando tínhamos à nossa frente aqueles “familiares” de que temos vergonha. No final do jogo, vencedores ou derrotados, sóbrios ou ébrios, éramos todos Sporting.

 

*Artigo publicado hoje no jornal do Sporting

Um assunto pessoal com a Selecção

Dentro de semanas, passam 8 anos de uma dívida que ficou por saldar entre mim e a selecção nacional, com prejuízo para o primeiro e com danos colaterais para o segundo. Falo da final do Europeu de 2004, sim, aquela em que vimos os gregos levantarem o caneco em nossa casa. Dirão agora que então a dívida é para com todos os portugueses e que não percebem as motivações deste tipo que se considera a última coca-cola no deserto. Pois bem, tal seria verdade se naquele fatídico 4 de Julho de 2004, eu não celebrasse os meus 12 anos. Na altura, não queria melhor presente: o primeiro título europeu ganho por Portugal aconteceria no meu dia de anos. Ora, no fim, acabei o dia a lacrimejar, enquanto via o Estádio da Luz pintalgado de azul (que combinação hedionda!). Isto marca qualquer um. Isto não se faz a uma pobre criança de 12 anos. O resto da minha infância não foi a mesma, garanto-vos. É este o assunto pessoal que tenho a tratar com a selecção. Não lhes perdoo aquela desfeita.

 

A dívida ficará por pagar até ao dia em que vençam um Europeu e, como sou exigente, o ideal seria numa final jogada a 4 de Julho. Seria ouro sobre azul. Este ano, mesmo que consigamos chegar tão longe, a final joga-se a 1 de Julho. É por três dias, mas também vale! Vou abrir uma excepção. Passados 8 anos, acredito que existe uma hipótese disso acontecer. A esta hora, estão a pensar que o dia dos 12 anos também me deixou sequelas psicológicas para afirmar tal coisa. Mas acredito honestamente e não apenas para inglês ver que temos hipóteses de ir à final de 1 de Julho. A selecção não tem, na minha opinião, a qualidade do Euro 2004 ou do Mundial 2006, mas é uma das mais fortes em competição. Temos de ter isto em conta, pois apesar dos dois jogos particulares que deixaram o país boquiaberto, não somos a Estónia ou o Liechtenstein. Voltando à vaca fria, em 2008, não me pagaram a dívida. Portanto, ficou para 2012. Espero que comece hoje, no jogo com a Alemanha, o início da cobrança. E apesar de estar contra-corrente, eu não peço juros. Vamos lá Portugal!

18 Maio 1996

Depois de uma ida mítica às Antas nas meias-finais - perda de travões na A1; chegada tardia às Antas; golo imediato de Barbosa - e de ganharmos ao Porto na segunda mão em Alvalade, a final perfeita só podia ser com o benfica. Lembro-me como se fosse hoje.  Confusão, enchente, as cenas habituais nos arredores do estádio. Lá dentro, bancadas cheias: metade verde, metade aquela cor. O primeiro disparo foi para a mata do Jamor, perto da praça da maratona. O segundo acertou no meio do topo norte onde milhares gritavam bem alto o nome do grande Sporting. Segui com os olhos toda a trajectória do very light de um topo ao outro, empoleirado no clássico muro de pedra exactamente atrás da baliza de Costinha. O jogo tinha terminado ali. Houve tentativa de invasão ao campo, faixas roubadas, vedações partidas, muita raiva. Não vi mais nenhum dos golos. Mas vi um homem a passar à minha frente, carregado por outros, com um enorme buraco no peito a deitar fumo. Essa imagem nunca saiu da minha cabeça. Depois foi o que se sabe pelas ruas de Lisboa. Toda a gente sabia ao intervalo o que tinha acontecido e ninguém foi capaz de interromper o jogo. Lembro-me mais tarde de ver dois golos de João Pinto. Estas coisas não se esquecem. Também por isto nunca festejei nenhum dos que marcou de leão ao peito. E também me lembro de ver na televisão o Paulo Bento festejar em frente ao topo sul. O mesmo topo de onde tinha, pouco antes, saído um disparo em direcção a nós. Podia ter sido eu. Tive sorte. Estas coisas não se esquecem.

14 de Dezembro de 1986 *

Este dia é recordado pelas hostes sportinguistas como um dia épico. Os mais distraídos podem nem sequer se lembrar da data. Os mais novos não tiveram o privilégio de assistir a este grande desafio de futebol. Mas todos, sem excepção, se lembram. Neste dia, 40 anos depois do igualmente histórico 6-1, o Sporting deu uma goleada das antigas ao SLB. O 7-1 diz-vos alguma coisa?

A tarde de chuva em Lisboa e nos primeiros 45 minutos de jogo nada parecia indicar que o Sporting iria fazer História. As duas equipas vão para o intervalo com os leões a vencerem as águias por um “mísero” 1-0 de vantagem, com um golo de Mário Jorge marcado ao minuto 15.

Nos 45 minutos seguintes tudo mudou.

Manuel Fernandes, autor de quatro tentos do Sporting, abriu a segunda parte aos 50 minutos. O SLB fez o seu golo solitário, nove minutos depois, por Wando. Depois, foi um festival de golos: Meade aos 65, Mário Jorge bisa aos 68 e Manuel Fernandes fecha o marcador com três golos de rajada: aos 71, aos 82 e aos 86.

Este jogo extraordinário, que tive a oportunidade de ver ao vivo (e que posso sempre recordar graças a uma gravação VHS que terei um dia de passar para DVD antes que a imagem se estrague de vez), foi também marcado por episódios tristes dos adeptos do Benfica que dizem muito da massa associativa dos nossos eternos rivais: bandeiras e cachecóis do clube da Luz queimadas, cartões de sócio e almofadas rasgadas. Nos 18 anos em que o Sporting esteve sem vencer o campeonato de futebol, nunca se ouviu que um ou outro adepto mais irado ou desiludido fez semelhante coisa…

Diga-se em abono da verdade que, apesar desta goleada, o SLB ganhou o campeonato desse ano, ficando o Sporting num mísero quarto lugar. Tudo isso é verdade, mas a honra e a glória de ter ganho esse jogo, o prazer de o ter visto ao vivo no velhinho Alvalade e saber que este foi um feito irrepetível – como eu costumo dizer 6 a 3 não substituem nunca um 7 a 1 – tornaram este jogo algo de grandioso que é recordado, naturalmente de forma diferente, pelos adeptos dos dois clubes. Razão mais do que suficiente para o evocar neste espaço.

 

Resta lembrar a composição da equipa dos heróis e das vítimas:

SPORTING - Damas, Gabriel, Virgílio, Venâncio, Fernando Mendes, Oceano, Litos, Zinho, Mário Jorge, Manuel Fernandes e Meade. Substituições: Duílio e Silvinho.
BENFICA - Silvino, Veloso, Dito, Oliveira, Álvaro, Shéu, Carlos Manuel, Chiquinho, Wando, Diamantino e Rui Águas. Substituições: Nunes e César Brito.

 

*Artigo publicado hoje no jornal do Sporting

Esclarecimento

Na segunda-feira o Sporting não vai entrar em campo disposto a estragar a festa a ninguém, porque o nosso clube só vai a festas para as quais é convidado. O Sporting irá fazer o que costuma fazer contra todos os adversários, em todos os palcos: jogar para ganhar. E se possível ganhar bem, jogando bonito e com vários golos na baliza dos nossos rivais. Foi isso que fizemos em 1986.

Agora, se nos perguntarem se temos favorito para a conquista de um título que devia ser nosso? Claro que temos e não deve ser difícil adivinhar qual é o candidato que não queremos ver a celebrar. Só para animar as hostes e sem qualquer animosidade, aqui fica o vídeo de um dos episódios mais bonitos e singelos da nossa História. Um jogo simples, normal e de boa memória. Só isso.

 

Jaime Graça


Jaime Graça é dos poucos sobre quem se pode dizer que, mais do que um enorme futebolista, foi um herói, pois foi ele quem salvou a equipa do benfica de morrer electrocutada numa banheira, num acidente que só malogrou o infeliz Luciano.

Os pêsames para a família e para o Vitória de Setúbal, onde ele nasceu e se formou, a grande cantera do futebol dos anos 60 e 70, donde além de Jaime Graça e Vítor Batista para o benfica, saíram para o Sporting Casaca, Pedras, José Mendes, Tomé, Vagner e mais tarde Chiquinho Conde. Treinado, primeiro pelo "nosso" Fernando Vaz e depois por Pedroto, o Vitória teve uma equipa sensacional onde além dos referidos, brilharam os formidáveis Conceição, José Maria e Jacinto João. 

Uma estória

Mesa do 'jornaleiro' Bar Snob, em Lisboa, uns bons anos atrás, após um Domingo Desportivo da RTP. E após uns copos de uísque, como é de regra (não muitos, esclareço, para que se não crie a ideia de que...). Numa mesa, lá no cantinho da segunda sala, dois jornalistas do canal público, Miguel Barroso e Manuel da Costa, e alguns convidados do Domingo Desportivo daquela noite: Humberto Coelho, o árbitro Carlos Calheiros e... eu. Conversa fluente, cada vez mais fluente e íntima. Calheiros iria ser, esperava ele e mais gente no país do futebol, o próximo presidente da Comissão de Arbitragem. Arbitragem para aqui, arbitragem para ali, e eis senão quando o dito árbitro confessa a sua (e de alguns colegas seus) incomodidade com o Sporting, «sempre queixando-se dos árbitros, sempre chateando, eles que falam muito mas não riscam nada». Ah é isso? É isso é!, e «enquanto eu for presidente da Comissão de Arbitragem, três anos de mandato, o Sporting não será campeão». Isso mesmo, «não será»!

Pasmo na mesa, mas o homem estava imparável. E, estimulado por Miguel Barroso, que com um sorriso de simulada cumplicidade lhe arrancava dizeres espantosos, o dito árbitro-que-ia-ser-presidente-dos árbitros explicava como os túneis da Luz e das Antas eram difíceis para os rapazes do apito. E o do Sporting?, «ah esse não mete medo a ninguém». E o amarelo ao Vitor Baía, naquele jogo em que ele saiu da área para impedir golo do adversário (e quase matar o adversário) e apenas viu um amarelo-que-deveria-ter-sido-vermelho (do Calheiros)? «Olhem, sabem vocês?, o Baía veio ao meu encontro e disse-me 'só o amarelo, senhor árbitro, só o amarelo' e, olhem, joguei a mão ao bolso e... saiu-me o amarelo!». O Miguel Barroso, imparável: ó Humberto Coelho, e quando eras capitão do Benfica e dizias ao juiz de linha do teu meio campo «ouve lá meu filho da p..., quando eu levantar o braço marcas fora de jogo!». Sorriso do Humberto.

Puxa, mas porque é que me lembrei desta estória agora? Isto já foi há um bom par de anos, os juizes de linha já nem inventam nem esquecem foras de jogo, os túneis de hoje não são perigosos e o Calheiros não foi presidente dos árbitros - o sol do Brasil lixou-lhe a carreira de dirigente. Por que raio me lembrei disto eu agora, ah por que raio? Alguem me ajuda a encontrar um nexo para esta estória?

Regresso ao passado em Alvalade

 

Passei alguns anos sem ver um jogo ao vivo, nem sequer no estádio do meu clube. Quebrei  o jejum -- em Alvalade, como não podia deixar de ser -- a 2 de Março de 2008, num Sporting-Benfica. O desafio até foi fraquito -- saldou-se num empate 1-1, com o árbitro a tornar-se a figura do jogo ao perdoar escandalosamente um penálti cometido pelo Benfica que todos no estádio viram menos ele.

Mas o que menos me interessou foi a exibição das duas equipas ou mesmo o resultado. Aquilo de que mais gostei foi do momento em que vi passar por mim, na bancada VIP do estádio, quatro grandes ídolos da minha infância: Alexandre Baptista, Carvalho, Hilário e Pedro Gomes. Coleccionei os cromos com imagens de todos na idade em que comecei a apaixonar-me pela bola, ouvi as melhores referências à participação de três deles na grande campanha do Mundial-66, em Inglaterra. E por momentos senti quase o impulso de estender uma folha de papel a pedir-lhes as assinaturas para a minha colecção de autógrafos. Revivendo a emoções que tive quando era um miúdo de seis ou sete anos.

Não há comida como aquela a que nos habituámos na infância. Nem ídolos do futebol como os primeiros que contribuiram para nos tornarmos adeptos de um determinado clube. Foi o que nesse dia senti na bancada de Alvalade durante aquele jogo que um senhor chamado Paulo Paraty fez tudo para estragar.

Imagem: Alexandre Baptista, Hilário e Carvalho (ao alto) na selecção nacional de 1966

O Ernesto vai para o Sporting

 

 

Quando eu era aluno do Instituto Vaz Serra, em Cernache do Bonjardim, a equipa de futebol local era reforçada com jogadores de primeira água que frequentavam o colégio, nomeadamente o Parente, o Duarte, o Paes e o Ernesto. Todos estes haveriam de ir parar à Primeira Divisão. Mas o Ernesto era um fora-de-série. Num jogo contra o Lamego em que o Cernache venceu por 13-1, o Ernesto marcou 7. Um belo dia, cheguei ao recreio e gritei: "Ei, malta! O Ernesto vai para o Sporting!". A minha alegria era imensa por se tratar do clube do coração. Entretanto, a nova temporada iniciou-se e aos domingos à tarde não largávamos o aparelho de rádio para acompanhar os relatos dos jogos. Um domingo, nada de Ernesto no Sporting. Outro domingo e nada. Ao terceiro domingo desesperei. Na aula de ginástica seguinte perguntei ao professor, também ele um sportinguista doente, por que razão não jogava o Ernesto no Sporting. A resposta foi surpreendente, com um toque de mágica: "Ó rapaz, o que dizes tu? Está a jogar e já marcou golos!" O Ernesto no Sporting era afinal conhecido por outro nome. No Sporting ele era o Figueiredo, o grande Figueiredo...

Morais. Os minutos de silêncio. E assim.

A propósito deste post do João E. Severino, lembrei-me de um outro que escrevi em tempos num blog pessoal. Copio parte para aqui agora porque é este o lugar dele.

 

"Domingo fui ao estádio. Era o último jogo do Sporting em Alvalade no campeonato deste ano. E que lástima de campeonato… quarto lugar conseguido – digo bem, conseguido – sem esforço nenhum. Mais por trapalhice dos que se seguem que propriamente mérito do meu clube. Mas adiante que de clube não se muda e lá estarei para o ano, sempre muito crente e cheia de esprança.

Voltando ao jogo. Não me apetecia ir. Tenho andado moody – ou em português, armada em parva – e tinha pouca vontade. Mas tinha bilhetes, sempre era um programa, e gosto sempre de ir ao último jogo da época. Antes que me arrependesse lá fui. Dormi a viagem toda o que em mim já é sintomático uma vez que não moro em Bragança e o caminho até Alvalade é no máximo meia hora havendo algum trânsito.

Abra-se aqui parentesis para falar de João Morais. O Morais, como sempre ficou conhecido, fez parte da equipa do Sporting que em 64 ganhou a taça das taças. Esta taça é o único troféu europeu do Sporting e a única taça das taças em Portugal. Por um motivo e outro, é uma data reconhecida e acarinhada pela maior parte dos sportinguistas. Mesmo os que como eu nasceram anos mais tarde. Nessa final, o golo foi marcado pelo Morais, de canto. Mais até que a taça, o canto de Morais é mítico no Sporting. Há uma música, e conheço pelo menos um café que se chama “o cantinho do Morais”, mas as alusões a este golo de canto, em ambiente verde e branco são inúmeras, todos conhecemos o canto do Morais. A semana passada, com 75 anos, morreu Morais. Fecha parentesis, de volta ao estádio.

Aquecem equipas, descem e sobem já para o jogo. O speaker anuncia “antes da partida vai fazer-se um minuto de silêncio” aqui estremeci e lembrei-me “ui, o Morais”. Ultimamente, nos minutos de silêncio quando se trata de um jogador, há palmas. O minuto passa a dois: um em silêncio, outro de palmas. Só palmas. É arrepiante já que num estádio normalmente há toda uma esquizofrenia de sons. Alguns silêncios mas muito breves e que normalmente não são bom sinal. As palmas aconteceram por exemplo com Damas, Jesus Correia e Feher. Este último não foi atleta do clube como sabemos, mas evidentemente o choque foi geral e não olha a cores. Tétrico, eu sei. Mas são homenagens e só as faz quem lá está naquele dia.

Continuando no jogo de Domingo então. Estão ambas as equipas no meio campo imóveis e o público, todo de pé, divide-se entre os que aplaudem e os que prestam a última homenagem a Morais em silêncio. Nos ecrans, as imagens do famoso e significativo canto. Eu soluço. Sim. Vamos adiar comentários para o fim do post. O speaker tinha dito também que dois elementos mais jovens da academia prestariam uma homenagem simbólica e aquilo fez-me confusão “que homenagem farão dois miudos se se está a fazer o minuto de silêncio? mais invenções...”. Ai senhores… de ramo de flores, os dois pequenos dirigiram-se à marca de canto para lá as deixarem. Foi o fim. Se eu fosse um dvd com legendas em inglês hearing-impaired diria nesse momento “sobbing”. Os minutos de silencio são arrepiantes e eu pelo-me – sinistramente, admito – por momentos destes. Emociono-me, mas não costumo chorar. Não ando decididamente muito bem, mas também não vejo com muita surpresa o facto de ter chorado ali. That’s me alright.

 

5 de Maio de 2010"

A futebolização do desporto

O desporto futebolizou-se em Portugal. É um fenómeno recente. Não é preciso recuar muitos anos para lembrar que já houve um tempo em que nem só o pontapé-na-bola mobilizava as atenções de quem se interessava pela prática desportiva. Tornei-me sportinguista em miúdo, por exemplo, pelo grande cartaz multidesportivo que o clube de Alvalade então ostentava. Vibrei com os golos de Yazalde em vários estádios, é certo. Mas também com as proezas de Livramento no hóquei em patins, de Joaquim Agostinho no ciclismo, de Brito no andebol ou de Carlos Lopes no atletismo. Este foi um património que se perdeu. É um património que também tem vindo a perder-se no Sporting. O futebol tomou conta de tudo, em regime de monopólio. Noutros países europeus não é assim. Mas em Portugal é. O que constitui uma prova adicional do nosso atraso.



Só eu sei

 

 

Só Deus sabe como ainda me chateio quando falo disto. Tínhamos perdido 1 a 0 em Barcelona com um dos golos mais desgraçados que vi o Damas sofrer no Sporting. Não importa agora, eu sei, mas quando o árbitro apitou para a marcação da falta a bola já ia a caminho da baliza. Certo é que antes o Sporting tinha falhado uma ocasião única para marcar em Camp Nou: Rui Tovar explicou-nos pela televisão que Negrete (lembram-se?) passou com um toque de cabeça a bola por cima do Zubizarreta, mas depois falhou um golo que já estávamos todos a gritar lá em casa. Perder assim em Barcelona só podia querer dizer isto: que venceríamos em Alvalade. Nunca duvidei disto. Fui para o estádio no autocarro 33 até ao Campo Grande e lembro-me da multidão que formigava em redor do velho Alvalade. Lembro-me do frisson diante da 10 A, à medida que os jogadores iam entrando com Manuel José: Damas, Virgílio, Venâncio, Duílio, Fernando Mendes, Zinho, Oceano, Mário Jorge, Manuel Fernandes, Negrete, Meade, Gabriel Mendes, McDonald, Houtman. Deus sabe que vencemos o Barcelona com enorme estilo nessa noite, mas vencemos 2-1. Sim, fomos traídos por um golo que Deus poderia ter evitado. No dia 5 de Novembro de 1986, Negrete começou por marcar o golo que me tinha ficado a dever em Barcelona e Mead marcou o segundo. Já só faltava meia hora para o jogo acabar. O Sporting estava na eliminatória seguinte. Deixou de estar quando um senhor chamado Roberto marcou um golo esquisito a 10 minutos do fim. Ninguém devia sofrer golos com o Barcelona a 10 minutos do fim. Eu sei disso. Deus sabe disso e por isso continuo chateado.

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