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És a nossa Fé!

Um novo treinador

«Jogador exímio de cartas, [João] Rocha sabe que precisa de um trunfo. De preferência, um ás, um treinador conceituado. Tenta por isso contratar José Maria Pedroto, o treinador nortenho mais bem-sucedido da década de 1970. Pedroto colocara no mapa as equipas do Vitória de Setúbal e do Boavista, antes de regressar ao FC Porto, em 1977, ali conquistando dois campeonatos dezanove anos depois do último triunfo. Tem aura de génio das táticas e bons amigos na imprensa. Em 1981, exilado em Guimarães, é um portista desconfiado de Américo Sá. Há várias versões sobre o desacordo entre [João] Rocha e o treinador: conforme alguns testemunhos, Pedroto exigiu um orçamento amplo para contratações e… despesas informais [*nr], para outros, o treinador apenas quis ganhar tempo (…)

(…) Entretanto, as páginas do calendário avançam sem resultado concretos. [João] Rocha aponta baterias para John Mortimore que, anos antes, brilhara ao comando do Benfica. Mortimore é polido mas categórico: a saúde da filha não lhe permite viver em Lisboa, pelo que lhe interessa mais o cargo que o Southampton lhe oferece perto de casa. Em jeito de despedida, talvez por delicadeza, o técnico sugere o nome de um amigo – Malcom Allison. Bom rapaz, assegura João Rocha. Um pouco extravagante, mas bom rapaz. (…)

(…) Por coincidência ou sugestão de Mortimore, o inglês estivera em Alvalade em observação de jogadores na última jornada da temporada. No camarote 65, estudara a equipa do Sporting e ficara desde logo impressionado com Jordão e Manuel Fernandes e Manoel (…). Percebe que o ritmo e a linguagem corporal da equipa expressam o saldo de uma temporada infeliz, mas vê qualidade em campo. Tem por isso um único pedido. Gosta de guarda-redes seguros, sempre gostou. Precisa de um nome forte para a baliza. (…)

(…) Com a mão esquerda, Malcom Allison formaliza o contrato com um ano de duração. À despedida, como se lhe anunciasse uma notícia menor, João Rocha deixa cair:

 

Preciso de si amanhã (…)”»

 

[*nr] Em artigo tardio do Diário Popular, de 16 de Maio de 1991 («José Maria Pedroto Homem Avançado no tempo»), o jornalista Neves de Sousa escreverá que Pedroto pedira a João Rocha quinze mil contos de luvas, salário para si e verba idêntica para os árbitros. «Caso contrário, o Sporting só ganha campeonatos lá para o fim do século.» (…)

 

In.: ROSA, Gonçalo Pereira - Big Mal & Companhia : a histórica época de 1981-1982, em que o Sporting de Malcolm Allison conquistou a Taça e o Campeonato. 1ª ed. Lisboa : Planeta, 2018. pp. 65-70

O futebol não é só futebol. [repetido]

A propósito da notícia da nomeação de José Tolentino de Mendonça como Cardeal na Igreja Católica, recupero este texto de sua autoria aqui divulgado:

 

«QUE VAZIO TENTA SER COMPENSADO NA PAIXÃO das multidões pelo futebol? Que ausência ela vem ocultar? O futebol é hoje vivido quase como uma religião de substituição. Um dos primeiros a colocar esta questão foi Robert W. Coles, que defendeu a existência de analogias entre a realidade social do futebol e as práticas religiosas de busca e celebração da transcendência. Aquilo a que Durkheim chama "as formas elementares" do fenómeno religioso pode encontrar-se, sem grandes contorcionismos simbólicos, no entusiasmo colectivo que o desporto-rei desperta. De facto, o modo como a paixão pelo futebol se expressa passou a ser observado etnologicamente como um ritual religioso ou para-religioso, com as suas catedrais, os seus oficiantes, a sua liturgia, as suas regras, as suas narrativas sagradas e os seus seguidores.

Os ecos de uma mentalidade religiosa persistem portanto, ainda que secularizados, reconfigurados e deslocados para outro âmbito. Muda claramente o objeto, mas não a antropológica necessidade de relação. Por isso, o futebol não é só futebol. Ele coloca em campo, além da bola, outras questões pertinentes.»

 

In.: MENDONÇA, José Tolentino, O pequeno caminho das grandes questões. Lisboa : Quetzal, 2017. p. 38

"Não é normal", diz.

«Não é normal os árbitros virem aqui e o Sporting ser sempre desfavorecido. Ao mínimo toque, para as outras equipas é falta e para nós nunca acontece nada. As equipas, supostas pequenas, queixam-se muito da arbitragem mas hoje não o podem fazer. Não falo só dos penáltis nem falo só quando perdemos. O futebol português tem uma mentalidade pequena e tem de a mudar. É por isso que na Europa não fazemos a diferença», sentenciou o capitão [Bruno Fernandes] dos leões à Sport TV.

Áustria

Como o sorteio da Liga Europa determinou que iremos jogar em Linz, na Áustria, lembrei-me disto:

«Em 2012 a pequena vila de Fucking, na Áustria, uma vila que fica a 33 quilómetros a norte de Salzburgo, junto à fronteira com a Alemanha, tentou mudar o nome por causa do constante roubo de placas, dos turistas inconvenientes e indiscretos e dos telefonemas anónimos de pessoas de todo o mundo que ligam para qualquer um dos cerca 100 residentes a perguntar: ‘Is this fucking Áustria?’»

In.: Informação Inútil, TSF

Juventude Leonina

« (…) “Alvalade sempre teve ambientes apaixonados, mas isto era outra coisa», diz Carlos Xavier (…). “A Juventude Leonina era na altura uma claque com grande influência brasileira (nr). Havia muitos batuques, um ritmo de samba. Estávamos lá em baixo a ouvir aquilo e queríamos comer o adversário. Até entravamos arrepiados.”

“Tínhamos a melhor claque da Europa, acrescenta o extremo-esquerdo Mário Jorge. “Tive momentos na minha carreira em que estava no relvado e olhava embasbacado para as bancadas a dizer para mim próprio: ‘Isto é inimaginável!’ Allison explorou esse calor do público com grande imaginação. Anos mais tarde, numa eliminatória com o Feyenord, a Juventude Leonina utilizou pela primeira vez raios laser. Os jogadores holandeses no relvado viravam-se para nós e diziam: ‘Isto nem num concerto do Bruce Springsten.’”

(nr) – Herança da escola de samba Vapores do Rego, que influenciara o modo como o público interagia com o futebol em meados da década de 1970, incutindo ritmo brasileiro ao apoio. Na sua tese de doutoramento, José Maurício Conrado Moreira da Silva [p. 308] conta que o grupo de apoio era informalmente constituído por alunos brasileiros das universidades portuguesas (…).» (*)

É a recriação deste ambiente que os sócios e adeptos pretendem da Juventude Leonina e das outras claques. Somente isso. «A Juventude Leonina tem sete mil pessoas, é muito poder. Nas assembleias-gerais ameaçam as pessoas e fizeram isso com o Acuña e a sua mulher. Há pessoas que têm medo da JuveLeo", admite o antigo médio dos leões (…).», diz Fraguito, nossa antiga glória.

Isto, não. Isto não é apoio... e isso não queremos!

 

(*) In.: ROSA, Gonçalo Pereira - Big Mal & Companhia : a histórica época de 1981-1982, em que o Sporting de Malcolm Allison conquistou a Taça e o Campeonato. 1ª ed. Lisboa : Planeta, 2018. pp. 16,17

Às avessas

Domingo, 24 de Abril de 1988, no Estádio José de Alvalade estão presentes Manuel Fernandes, Jordão, Meszaros, Eurico, Malcom Allison e Roger Spry – todos eles campeões pelo Sporting. Vão estar em campo e defrontar o Sporting… Um jogo à avessas.

Esta é crónica publicada, no dia seguinte, na Gazeta dos Desportos (n.º1118, pp. 12 e 13)

(Peço desculpa por alguma gralha de digitação)

 

«Tudo em família

Allison, antes do jogo começar, foi ao centro do terreno receber uma enorme ovação. Meszaros, quando caminhava para a baliza, escutou a mesma coisa. Manuel Fernandes e Jordão, idem. E o Sporting, que voltou a jogar bem, acabou por ganhar. Parecia um encontro de confraternização...

 

ERA um jogo especial. Disso não havia dúvidas. E mais especial se tornou, quando logo antes do início, Malcolm Allison, o treinador que deu o último título a Alvalade, se dirigiu ao meio do terreno e escutou uma estrondosa salva de palmas. O inglês foi fazer um teste à sua popularidade, e constatou que a sua cotação, ali para as bandas do Lumiar, continua alta.

Este momento, este gesto, como não poderia deixar de ser, tinha o seu sentido. Psicologicamente, era terrível para a equipa do Sporting. E assim, não foi estranho que, logo no princípio do jogo, se notasse uma enorme vontade dos sadinos em demonstrar que estavam ali para jogar ao ataque. E jogaram. Aproveitando uma certa descoordenação do meio-campo do Sporting, o Vitória começou por lançar numerosos contra-ataques, e mesmo ataques organizados, que obrigaram a defesa leonina a permanente concentração.

No entanto, e a corroborar a ideia de que as melhoras do Sporting são mesmo um facto, a equipa de Morais sacudiu bem esse ímpeto inicial dos setubalenses. Litos, em grande estilo, pegava na batuta e chamava a si a responsabilidade de orquestrar as manobras de ataque da sua equipa. Só que o Vitória, com um esquema de defesa em linha muito adiantado, fazia com que tanto Cascavel como Lima caíssem constantemente em fora de jogo. O que começava a enervar os adeptos da casa Por outro lado, esta prática também era usada por banda da defesa do Sporting. Assim, assistia-se a um jogo curioso, em que a boia andava de cá para lá de fora-de-jogo em fora-de-jogo, cada um à espera do falhanço do outro. E eles, os falhanços, existiram. O sistema não é infalível e uma bandeira não levantada ou um arranque mais tardio são meio caminho para uma jogada de muito perigo.

Sensivelmente a partir do meio da primeira parte, a equipa de Morais começou a variar o seu tipo de jogo. Tinha de ser. De outro jeito não dava, houve que alterar o estratagema. A bola, que até ali pouco tempo parava nos pés dos centro-campistas leoninos, começou a ser trocada com mais calma, numa tentativa de entrar mais pela certa. Fernando Mendes começou a dar maior apoio a Lima. João Luís fez o mesmo em relação a Sealy e os sadinos tiveram de recuar um pouco. Mas sempre que podiam, prontamente solicitavam a corrida do seu homem mais rápido a partir para a frente, Aparício.

Com esta subida dos sportinguistas, os pupilos de Allison, agora a defender bem mais perto da sua área, começaram a ceder nessa zona mais faltas. De que resultavam livres perigosos. Enquanto a equipa era apanhada mais adiantada, era Meszaros a ter de sair fora da área para resolver. E foi num desses lances que nasceu o primeiro golo do Sporting. O húngaro não teve outro jeito senão cortar com as mãos um lançamento para Sealy e na marcação, Cascavel, ontem de serviço neste tipo de lances, atirou da melhor forma. Aliás é altura para referir que a equipa do Sporting está a jogar muito mais para Cascavel. Com a posição europeia a ganhar corpo, o objectivo que a formação verde-branca agora persegue é consagrar o melhor marcador do campeonato. E Cascavel está agora outro. A motivação finalmente apareceu.

Seria então no segundo tempo, mais particularmente aí a partir dos dez minutos, que o melhor futebol do encontro apareceria. O Sporting criava sucessivas situações de apuro para Meszaros, num período brilhante e conseguiu, nessa altura, elevar para 2-0, numa jogada muito bonita. Lima, agora muito mais activo que no primeiro tempo, foi contemplado de novo por mais uma bela actuação. Um jogador em grande forma. Morais mais uma vez o premiou, tirando-o a escassos minutos do fim do jogo, para ele ter direito a ovação. Que aconteceu, naturalmente.

Depois do segundo golo do Sporting, o jogo ficou resolvido. Não se notava capacidade à equipa do Vitória de Setúbal para dar a volta ao texto. Servida de alguns jogadores já nada jovens, os setubalenses tiveram de ceder os pontos.

Ainda assim, os setubalenses poderiam ter marcado, já que num lance de ataque, Manuel Fernandes foi derrubado dentro da grande área de Damas, e Alder Dante deixou o lance seguir. Elder invocou a lei da vantagem, mas o remate de Aparício embateu no poste e a oportunidade ficou-se por isso mesmo.

E naturalmente, a vitória sportinguista aconteceu. Sem uma grande exibição, esmagadora, mas perfeitamente justa. No final, ficou a sensação de que se havia assistido a um jogo de carácter amigável, de homenagem a antigos jogadores, tal a forma carinhosa como todos os ex-sportinguistas foram recebidos pela massa associativa do Sporting. Um encontro de amigos...

Bom, mas amigos, amigos... Com esta vitória, o Sporting ganhou não dois, mas quatro pontos, já que os setubalenses estão na mesma guerra. Foram os dois da vitória e mais dois que o Setúbal deixou de ganhar.

O trabalho de Alder Dante não está isento de erros. Teve algumas indecisões provocadas por indicações duvidosas dos seus auxiliares e isso fez com que a sua actuação tivesse sido menos eficaz. Mas esta forma que as defesas encontram para anular os ataques contrários são propícios a constante polémica. Não é fácil agradar a todos e quando não eram uns a protestar, eram os outros.

- MÁRIO PEREIRA, Comentário-

 

“Esta deslocação a Setúbal foi muito difícil…”

JÁ era esperada a boa recepção que o público de Alvalade dispensou à equipa de Setúbal sobretudo porque nela trabalham pessoas que estiveram ao serviço do clube de Alvalade como são os casos de Eurico, Jordão, Manuel Fernandes ou Allison. Então estes dois últimos - o Manei e o técnico inglês - poderem ontem confirmar que por ali ainda não estão esqueci* dos.

No final do encontro, «mister» Morais acabaria mesmo por acusar a nota e, usando da ironia que lhe é habitual, começou por referir:

«É evidente que estou multo satisfeito com o resultado que a minha equipa alcançou, tanto mais que esta deslocação a Setúbal foi uma deslocação muito difícil... Estes dois pontos foram, portanto, conquistados com todo o mérito e colocam-nos na linha dos nossos objectivos ou seja, subir cada vez mais na tabela classificativa.»

- «Mister», ciúmes da ovação dispensada a Allison?

«Ciúmes não. Aliás cada um é livre de se expressar como bem entender. Por isso mesmo é que eu, sendo sempre muito recto e muito frontal, não posso deixar de fazer uma referência ao caso. O que eu entendo é que a equipa do Sporting merecia mais apoio e é para ela que eu peço ovações porque quem não é por nós é contra nós.»

Sem permitir interrupções foi calmamente que continuou: «Espero que em Portimão os jogadores recebam outro apoio. Até porque muita da nossa motivação vai no sentido de podermos dar alegrias à massa associativa e nisto, também sei, que não fazemos mais do que a nossa obrigação.»

- E neste jogo ela foi cumprida rigorosamente...

«Sim. E o que conta é que esta vitória foi conseguida tendo por adversário uma excelente equipa. O Vitória veio a Alvalade para jogar ao ataque, pratica um futebol onde abundam cruzamentos sobre a área e o certo ó que a nossa defesa - que muitas vezes não se tem dado bem com este tipo de jogo - conseguiu, agora, anular essas características.»

- Um outro sector que esteve igualmente bem foi a ponta esquerda do ataque do Sporting Concorda?

«Esteve bem, não há dúvida. Mas, uma coisa é certa: quando se ganha tudo está bem quando se perde tudo está mal. Penso que é preciso dar lugar e

oportunidades aos novos e neste caso do Lima ele terá um futuro largo à sua frente se continuar a trabalhar com os pés assentes no chão.»

- Hoje o Sporting ganhou em vários campos. Quais as perspectivas a partir daqui?

«Isso é verdade e veio ajudar o Sporting. No entanto, continuo a dizer que até ao flnal do campeonato vamos depender, acima de tudo, de nós próprios. Quanto aos objectivos vamos tentar conseguir a melhor classificação possível, uma que esteja de harmonia com o valor e o prestígio do clube.»

Recusando-se a comentar a arbitragem de Aider Dante: «Não comento arbitragens por principio nem procuro falsos pretextos para facilitar as derrotas») Morais diria ainda que a vitória de hoje é sobretudo obra dos jogadores:

«Quem joga são os jogadores e independentemente de eu

nunca abdicar do meu papel de treinador, penso que agora e bem a propósito, se pode dizer que lhes cabe a eles a parte de leão.»

- Uma última pergunta: quando teremos os treinos do Sporting à porta aberta?

«Vão ter que esperar multo tempo. Não está em causa o respeito pela Comunicação Social. No entanto, sempre fui habituado a treinar è porta fechada. Não que o futebol seja uma ciência oculta mas há esquemas que têm de ser protegidos e que devem permanecer apenas no conhecimento de jogadores e treinador.»

 

Damas: «esta foi a vitória mais difícil»

Sem ter sofrido qualquer golo, Damas não teve, no entanto, ontem à tarde, tarefa fácil. Antes de mais, pedia-se-lhe muita atenção porque o Setúbal, no seu futebol atacante e no seu rápido contra-ataque, cria perigo de um momento para o outro.

Depois do duche e da «bica», Damas confessou então que esta «foi a vitória, nestes últimos jogos, mais difícil de conquistar». E argumentou assim:

«O Vitória de Setúbal joga um futebol muito perigoso, aposta forte no ataque e té-lo vencido constitui para nós uma grande motivação».

- Damas, o Sporting dou hoje um passo Importante...

«Penso que o campeonato, mais domingo menos domingo, acabará por ficar decidido. No entanto, o Sporting continua a lutar por uma boa posição.»

- Pelo 2.º lugar?

«O que lhe posso dizer é que se há três meses atrás disséssemos que Iríamos ficar em 2.º todos achariam ridículo e hoje já se pode pensar nisso como sendo uma coisa possível. Tanto mais que o Benfica, neste momento, deve estar a pensar 200% na Taça dos Campeões…»

- Como comenta o apoio que o público demonstrou a Manuel Fernandes e a Allison? Acha que os adeptos traíram o Sporting?

«De maneira nenhuma! O público está a apoiar a equipa. Penso que o que se passou é normal: somos latinos, somos românticos e gostamos muito dos mortos e dos ausentes. Penso que todos nós reagimos assim…»

- Sabe-se que esta vai ser a sua última época. Já tem planos para o futuro?

«Sendo um homem do futebol é nele que eu quero continuar.»

- E no Sporting, também?

«Quem não gosta de trabalhar num clube como o Sporting? Mas é evidente que, por muita vontade que eu tenha, isso não depende só de mim…»

- Alexandra Tavares-Teles -

 

Allison, confiante

“Europa ainda é possível”

FOI triunfalmente que, ontem, Allison entrou na relva de Alvalade. Foi até ao centro do terreno, e ali, levantou os braços para uma assistência que, de facto, aplaudiu calorosamente.

Noventa minutos depois, o treinador tinha um ar derrotado e triste. Sobre o jogo e laconicamente, começou por dizer:

«A minha equipa não esteve como costuma estar. Houve Jogadores de quem gostei como são os casos de Roçadas, Crisanto, Vítor Madeira ou Quim. O Manuel Fernandes, por exemplo, baixou multo na segunda parte. No entanto, tivemos três ou quatro hipóteses de golo, mas os olhos do fiscal de linha pareciam que não funcionavam multo bem para o lado do Vitória. Em contrapartida, o primeiro golo do Sporting foi consequente a uma jogada em ‘off-side’.»

- Que lhe pareceu este Sporting?

«Alguns jogadores agradaram-me. No entanto, houve alguns que me pareceram um bocadinho nervosos.»

- Acha que o Setúbal comprometeu o seu lugar na Europa?

«Não. Penso que a Europa ainda é possível.»

- Um comentário à recepção que lhe fez o público de Alvalade.

«Gostei de voltar cá e fui muito bem recebido. Foi muito bom ver uma multidão contente antes do Jogo. Isso ó a prova de que ainda se lembram de mim. Aliás, os sócios do Sporting, sempre que me encontram continuam a vir ter comigo. Têm-me demonstrado muito apreço e deve Imaginar como Isso me deixa feliz...»

 

Manuel Fernandes: »Fiquei muito feliz porque vim ver amigos»

Manuel Fernandes comentava assim o seu regresso ao Estádio de Alvalade, agora na situação de jogar contra:

«Fiquei muito feliz porque vim ver amigos e penso que outra coisa não sena de esperar.»

Sobre o jogo, o número nove quis comentar:

«Foi um jogo muito bem disputado e penso que a vitória do Sporting se tivesse sido pela marca tangencial teria sido justa. Assim é um bocado exagerada. Bastava que o árbitro tivesse marcado a flagrante falta que eu sofri dentro da área. Foi um pênalti claro e só não viu quem não quis.»

- E agora, a UEFA está mais longe, não?

«Este resultado complico* um bocado mas, se consegui mos os oito pontos em casa mais dois fora, penso que a da lá chegaremos.»

- Como comenta a sua prestação?

«Sei que, sobretudo, na s gunda parte, baixei de rendimento. Mas isso deveu-se uma alteração táctica que o treinador do Sporting imprimiu. Comecei a ser muito mais marcado e acusei essa marcação.»

- Alexandra Tavares-Teles -

 

FICHA DO JOGO

ESTÁDIO. Alvalade

RELVADO: boas condições

TEMPO: tarde de sol

ASSISTÊNCIA: boa casa, cerca de 35 mil espectadores

CANTOS: Sporting. 1 (0 + 1); V. Setúbal. 7 (6 + 1)

LIVRES A FAVOR: Sporting, 26; V. Setúbal, 29 (13 + 16)

CARTÃO AMARELO: Meszaros (41’), Flávio (80’) e Mário Jorge (83’)

CARTÃO VERMELHO: Roger Spry (adjunto de Allison)

GOLOS: Cascavel (42’) e Lima (62’)

SUBSTITUIÇÕES: no Sporting: Litos por Virgílio (80’) e Uma por Silvlnho (84 ); No Vitória: Jordão por Lazar (57’) e Maside por Miguel Ângelo (68’)

AO INTERVALO: 1 -0

ÁRBITRO: Alder Dante (Santarém), auxiliado por Manuel Bento e Fernando Vacas

SPORTING

1- Damas (3)

2- João Luís (3)

3- Fernando Mendes (3)

4- Morato (3)

5- Venâncio (3)

6- Oceano (3)

7- Litos (4)

8- Sealy (4)

9- Paulinho Cascavel (4)

10- Mário Jorge (3)

11- Lima (4)

Vital (NJ)

Virgílio (-)

Mário(NJ)

Houtman (NJ)

Silvinho (-)

 

SETÚBAL

1- Meszaros (3)

2- Crisanto (2)

3- Flávio (3)

4- Quim (3)

5- Eurico (3)

6- Maside (2)

7- Vítor Madeira (3)

8- Aparício (3)

9- Manuel Fernandes (2)

10- Roçadas (cap.) (3)

11- Jordão (2)

Neno (NJ)

Miguel Ângelo (-)

Hélio (NJ)

Lazar (-)

JuvenalNJ

 

SPORTING 2

SETÚBAL 0

FILME DO JOGO

1’ - Depois de se escapar pela direita. Maside obriga Venâncio a ceder canto. De que nada resulta. Mas o Vitória demonstrava os seus propósitos.

6’ - A dar seguimento a um cruzamento da direita, feito por Oceano. Litos efectuou um espectacular remate de cabeça, à entrada da área, mas errou o alvo.

13’ - Morato, sozinho, faz um passe para... Aparício, este isola Manuel Fernandes, mas a deslocação foi assinalada.

14’ - Damas tem de sair de entre os postes para evitar que Aparício, isolado, fizesse golo. 16* - Descida de Fernando Mendes, pelo seu flanco, junto à linha tira um bom centro, largo, e Sealy, no lado oposto, atira muito por alto. A posição era boa, mas o remate, uma miséria.

19’ - Oceano salva um golo que era certo, mesmo em cima da linha de golo. Foi depois da marcação de um pontapé de canto, cobrado por Maside em que Jordão saltou mais alto que Damas.

24’ - Cascavel ensaia a pontaria na marcação de um livre directo. Desta vez foi à figura de Meszaros.

- Depois de uma jogada de sucessivos ressaltos, Jordão isola Aparício, que remata à entrada da área, para fora.

29’ - Contra-ataque rápido do Sporting, iniciado por Cascavel, que serve Sealy no meio da grande área. e este obriga Meszaros a defesa de instinto, com uma palmada.

36’ - Lima foge a Crisanto, centra a Cascavel chega atrasado por milímetros.

38’ - Cascavel de cabeça obriga Meszaros a apertada defesa.

42’ - 1-0 por Paulinho Cascavel. Foi na marcação de um livre directo, a castigar uma saída de Meszaros que teve de defender com a mão fora da área. O brasileiro, com um remate em arco, não falhou.

51’ - Maside tem uma boa jogada pela esquerda, centra bem mas não está lá ninguém para o remate.

55’ - Aparício falha de novo, agora junto à linha de fundo. Damas saiu bem e resolveu o lance.

56’ - Aproveitando um desentendimento entre Quim e Meszaros, Cascavel ficou em boa posição, mas só conseguiu atirar à rede lateral.

60’ - Grande jogada de Sealy, a romper bem, a descair para a direita e na passada a desferir um bom remate, a rasar o poste.

61’ - No bico da grande área. Cascavel atira ao poste, com espectacular remate à meia-volta.

62’ - 2-0 por Lima. Isolado por excelente passe de Cascavel, o jovem jogador do Sporting torneou Meszaros e atirou para a baliza deserta.

66’ - Novamente Lima a fazer uma grande Jogada. Soltou Cascavel à entrada da área, e este, depois de se libertar de um setubalense. atirou a pouca distância do golo.

80’ - Flávio tem de agarrar Sealy pela camisola. Ele ia isolado...

83’ - Manuel Fernandes é derrubado dentro da grande área do Sporting. A bola no entanto segue para Aparício que atira ao poste, perdendo-se a oportunidade.»

Alvalade

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(imagem retirada daqui)

 

«(...) Embora os biólogos não o documentem, Alvalade é um ser vivo. Pode ser de pedra e cimento, mas respira como um organismo. Tem paixões e ódios. Como um amante ternurento, não recusa nada a quem tudo lhe dá. E aprendeu a estimar quem lhe oferece o dote perfeito, imemorial. (...)»

In.: ROSA, Gonçalo Pereira - Big Mal & Companhia : a histórica época de 1981-1982, em que o Sporting de Malcolm Allison conquistou a Taça e o Campeonato. 1ª ed. Lisboa : Planeta, 2018. p. 13

"Este adeus custa muito"

Bas Dost:

"Chegou o momento de dizer adeus após três anos apaixonantes ao serviço do Sporting. Sempre joguei com o coração por este clube, sempre dei tudo o que tinha por ele, e vivemos momentos maravilhosos juntos. Mas também passamos por outros muito maus, em especial após o ataque a Alcochete. Mas eu sempre senti o apoio dos sócios e adeptos no estádio e na rua. Esta foi a razão pela qual renovei o meu contrato no ano passado. Queria agradecer e retribuir a todas as pessoas que sempre me deram confiança e carinho duram esses tempos difíceis. Para ser honesto, este adeus custa muito. Mas a vida continua, e espero vir a ser igualmente muito feliz ao serviço do Eintracht Frankfurt.

Beto Acosta

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«Marquei dois golos e meio ao Benfica»

 

Como andamos a falar de avançados…

…recordo esta entrevista, de Rui Miguel Tovar a Beto Acosta, no dia do seu aniversário, um dos grandes ídolos da história recente do Sporting!

 

«Are you having a laugh? He’s having a laugh? Certamente. O homem ri-se bastante. Aliás, varia entre o riso cerrado, quase em surdina, e a gargalhada fácil, de curta duração. A ideia desta semana é falarmos da Copa América, a competição de selecções mais antiga de sempre. A primeira edição é de 1916, há mais de 100 anos.

 

Como se isso fosse pouco, é de uma competitividade feroz. Dos dez países sul-americanos, só dois ainda sonham com a primeira alegria (Equador e Venezuela). De resto, é um ver-se-te-avias. Só para se entender a dimensão do cosmos, o Chile é o bicampeão em título. E o Uruguai é o rei do pagode, com 15 eeep eeep uraaaayyyyyy.

Segue-se Argentina (14). Alto e pára o baile, porque a Argentina perde as últimas quatro finais. Noooooooo. Sim senhor, um desastre completo. A última final ganha pela Argentina é a de 1993, no Equador, 2-1 ao México. Há já mais de 25 anos. No ataque, um senhor alto de cabelo comprido chamado Batistuta e outro mais baixo de cabelo curto, conhecido simplesmente por Beto.

 

Eis Alberto Acosta, um dos heróis dessa Argentina 1993 e, depois, uma lenda no Sporting.

 

Beto, que tal tudo por aí?

Tudo bem.

Pronto para a Copa América?

Prontíssimo.

Vais ver onde?

Por la tele, aqui, em Buenos Aires.

O negócio da televisão é um fenómeno recente. Como é que fazias quando eras miúdo?

Usava a imaginação.

Porquê?

Nasci num pueblo muy pequeno chamado Arocena [só para entenderem a dimensão do ‘pueblo’, nem sequer tem página no wikipedia]. A minha vida era tranquila, na casa dos meus pais. Como não havia televisão e como também não havia acesso a grandes estádios ou coisa que se parecesse, o futebol, como fenómeno desportivo, era vivido de...

De forma apaixonada?

Isso mesmo. Também é isso. Ia dizer futebol de rua. Cresci na rua, cresci a jogar sozinho contra uma parede e também em grupo, com amigos, amigos de amigos a fazer torneios, aquela calle contra a outra, aquele barrio contra o outro e por aí fora. Cresci a coleccionar revistas para colar os posters e admirar os ídolos naquele cubículo que era o meu quarto.

Quem eram os ídolos?

Kempes, sobretudo Kempes. Também Fillol, el arquero. Era uma febre, quase, je je je je [os argentinos riem-se assim, não me perguntem porquê]. Admirava o Kempes pela imponência do seu físico, pela quantidade de golos e pela qualidade do seu jogo. Era um 9 móvel, que estava sempre no sítio certo mas que também saía a driblar dentro da área. Além do mais, ele transferiu-se para o Valencia e ganhou fama internacional. Isso, naquela altura, causava outro impacto em todos nós. É preciso ver que o futebol não dava na televisão e, por isso, havia menos pressão. Agora vês um jogo em directo a toda a hora e sabes em cima da hora qualquer resultado, seja aqui ou na Ásia. É incrível. Antes, não. Nada disso. Lá ias vendo os golos dos jogos mais importantes e, claro, a selecção.

Onde estavas quando a Argentina foi campeã mundial em 1978?

No meu pueblo.

Lembras-te da festa?

Claaaaro. Tinha 11 anos e saímos todos à rua. Lá está, Fillol na baliza e Kempes a 9. Foram tempos desportivos fascinantes. O ganhar um Mundial era como se fosse um sonho, agora concretizado, ainda por cima em casa. A adesão popular foi maciça.

E em 1986, onde estavas?

O México-86 é diferente. Já tenho 19 anos, já jogo futebol profissional, já tenho consciência, por assim dizer. Je je je je. É verdade, já analisava tudo e mais alguma coisa. É normal. E havia Maradona. O que ele fez no México é algo que me ultrapassa. A mim e à maioria, creio. Que génio. Ele partiu toda a gente: Coreia, Bulgária, Itália, Uruguai, Inglaterra, Bélgica e Alemanha. Ninguém escapou. Também saí à rua, claro. Foi outra fiesta bonita, até às tantas. A selecção mexe sempre connosco.

Diz-se que os argentinos vibram mais com a selecção do que com os clubes. É verdade?

Talvez seja assim, talvez. A verdade é que apanhas a geração Kempes e és campeão mundial em 1978. E depois apanhas a geração Maradona e sais campeão em 1986, sem esquecer a final em 1990. Agora é a geração Messi. São muitas coisas boas a acontecer num curto período de tempo. E quem as vive não as esquecerá. Nunca. Por isso, é válido pensar assim, que os argentinos unem-se e ouvem-se mais durante os jogos da selecção.

Falaste nas gerações Kempes, Maradona e Messi. E a tua?

A minha é a do Maradona, je je je je.

Jogaste com ele?

Sim, um par de vezes.

E então?

Há a realidade, há o sonho e há o Diego. É qualquer coisa de especial, acima de qualquer sonho. O que ele fazia com a bola nos treinos e também nos jogos, não há explicação. Era grande, grande, grande. Génio.

Como é que apareces na selecção?

A minha primeira convocatória é para um jogo particular no Centenário, em Montevideo: Uruguai-Argentina.

Uauuuu, clássico.

Je je je je. Verdade, só que este acabou 0-0.

E és convocado porquê?

Comecei a carreira aos 19 anos no Unión Santa Fé. Dois anos depois, já estou no San Lorenzo. Depois, aventuro-me pela Europa, ao serviço do Toulouse, e volto ao San Lorenzo. É aí que começo a marcar golos e a ser notado. Lembro-me perfeitamente dessa convocatória, porque ligaram-me para casa ao domingo à noite, depois de um jogo. Telefonaram-me a dizer para estar em Buenos Aires na sede da Associação Argentina de Futebol às tantas horas. Lá fui.

Lindo. E quem lá estava?

Craques de todo o tamanho. Batistuta, seria ele a maior referência. Depois, Simeone, Redondo e outros. Só que, ao contrário de hoje, todos nós jogávamos na Argentina. Não havia esse fenómeno da emigração. Conhecíamo-nos todos do campeonato nacional. Acompanhávamos as nossas virtudes de semana a semana, ou ao vivo ou pela televisão.

Tu entras para a selecção e?

Foi um período sem Maradona. Já não me lembro porquê, deveria estar sancionado pelo caso de doping. Bom, a verdade é que entro na selecção e apanho aquela fase em que não perdemos durante 31 jogos. Foi mágico, ganhámos duas Copas América. Uma em 1991, no Chile, outra em 1993, no Equador.

Jogaste as duas?

Sim, sim. Quer dizer, mais a segunda edição, em 1993. Na primeira, a dupla era Batistuta e Caniggia.

Uauuuu.

Je je je je, é ieso mesmo. Dois craques que se contemplavam muito bem.

E em 1993?

O Batistuta e eu. Às vezes, o Medina Bello.

Quem é o seleccionador?

Tanto o que me convocou pela primeira vez como o das duas Copas América, é o Alfio Basile. Mais conhecido por Coco. Era um treinador de uma outra escola. Sempre bem-disposto, sempre correcto e muito frontal. Só coisas boas sobre ele, um homem muito profissional e extremamente prático. Para ele, tudo era simples. E assim o era, de facto. Não joga este, joga aquele. Não fazemos isto bem, vamos tentar fazer aquilo. Aprendi muito com ele. Mais: todas as minhas 19 internacionalizações são com ele e sabes uma coisa?

Nem ideia.

Nunca perdi um jogo, je je je.

Espectáculo, maravilha.

Podes crer, grandes tempos. A Argentina estava fortíssima, cheia de confiança. Eram os tempos dos dois nueves. Nós jogávamos com Batistuta e Caniggia, depois Batistuta e eu, que éramos fisicamente muito fortes. O Brasil do Mundial-94 tinha Bebeto e Romário.

Verdade, nunca tinha pensado.

Outros tempos, agora até é moda jogar sem um 9 fixo, de área.

Dos fixos, de quem é que gosta mais?

Assim para o combate físico, é o Lewandowski. O homem é brutal, derruba qualquer muralha. Também há Agüero, muito fino e perspicaz. Agora se falarmos em goleadores, sem serem realmente 9, temos de nos render à eficácia de Ronaldo e Messi. O que eles fazem, je je je je. Trituram os guarda-redes dias sim, dia sim. É incrível.

Batigol era assim, não?

Batigol era um deus para a Argentina e para a Fiorentina. Quando ele pegava bem na bola, nem valia a pena.

Dizias tu, Batistuta e Acosta na Copa América 1993.

Je je je. Começámos bem e passámos a fase de grupos em segundo lugar, atrás do México, o que implicou que apanhássemos o Brasil nos quartos-de-final. Acabou dois-dois e tivemos de ir a penáltis.

Marcaste algum?

Nesse dia, fui suplente. Entrei a meio da segunda parte para o lugar do Batistuta. E marquei o quarto penálti, logo a seguir ao Roberto Carlos.

E então?

Golo, je je je je.

Como é que o Coco definia os batedores de penáltis?

À base da conversa. Perguntava-nos se nos sentíamos confiantes, se queríamos patear.

Nas meias-finais?

Outro desempate por penáltis, com a Colômbia. Aí marquei o quinto penálti, depois do Valderrama. Mais uma vez, o Goycoechea deu-nos a vitória. Ele era um guarda-redes impressionante em tudo, ainda mais nos penáltis. Agarrava sempre um ou outro. Ou mais. No Mundial Itália-90 foi colossal. Nessa Copa América também.

E a final?

Dois-um ao México, bis do Batistuta. Campeões.

Bicampeões.

Je je je, pois é.

Entre essas duas Copas América, ainda ganhas a Taça das Confederações em 1992?

Baaaaaahhhh, ainda era uma Taça das Confederações muito primitiva. Só quatro selecções. Ganhámos 4-0 à Costa do Marfim, campeã africana. Marquei o 4-0. E depois, na final, 3-1 à anfitriã Árabia Saudita. Foi bom, claro. A rotina de vitória sabe sempre bem, mas era um torneio pequeno, sem a importância da Taça das Confederações dos tempos de hoje.

Muy bien. Andaste pelas Américas de 1993 até 1999. De repente, Portugal.

Je je je je. Que aventura. Queria esquecer a aventura no Toulouse, em França, e sair-me bem na Europa. O Sporting abriu-me as portas.

Quem, concretamente?

Mirko Jozic. Ele treinava o Colo Colo [aliás, sentem-se: Jozic é o único europeu a conquistar a Libertadores] e eu jogava na Universidade Católica. Conhecemo-nos aí e, passado um tempo, o Jozic foi contratado pelo Sporting. Passado mais um tempo, ele recomendou-me. O Sporting foi lá e já está. Je je je.

Conhecias o quê do Sporting?

Pouco, a verdade é essa. Sabia que era de Portugal, claro. E, óbvio, era pelouro Jazalde [eles, argentinos, dizem J em vez do Y]. O Jazalde era muito falado na Argentina, marcou golos em Mundiais e tudo. Era uma referência pela capacidade goleadora, ainda por cima foi Bota de Ouro como melhor marcador na Europa.

E tu não foste Bota de Ouro como melhor marcador da América do Sul?

Estava a ver que não dizias, je je je. Fui, sim [em 1994, com 33 golos].

Chegaste a Lisboa e?

Nem me fales. Os primeiros seis meses passei-os em Cascais. Quando acabou essa época 1998-99, pedi para mudar e meteram-me perto do estádio, na Avenida de Roma. Nem imaginas o tempo que passava no trânsito. Aquela marginal je je je. Lindíssima, mas caótica. Na Avenida de Roma, era bem melhor.

E o clube propriamente dito?

Uma estrutura de grande, com adeptos formidáveis e uma equipa fantástica. O capitão Pedro Barbosa foi o primeiro a receber-me. Havia outros pesos pesados, como Beto e Rui Jorge. Os argentinos Duscher, Quiroga, Hanuch e Kmet. O André Cruz, que profissional. E um líder nato. Tal como o Schmeichel. Difícil marcar-lhe golos nos treinos, hein?! Que muralha. E um tipo cinco estrelas, cheio de boas intenções e constantemente bem-disposto.

Mesmo nos jogos? Via-o nervoso, de vez em quando.

Je je je je. Isso já não sei. Sou avançado e não o ouvia. Escapei de boa. Je je je je. Uma animação pegada era o Nuno Santos, que figura. Era o terceiro guarda-redes e estava sempre, sempre mas sempre mesmo a gozar com o resto da malta.

Mais alguém?

É um poço sem fundo, acredita. Olha, o César Prates.

O que tem?

Inesquecível, estava sempre a rir-se. A sério, ele simplesmente passava a vida a rir-se. Até nos treinos. Até nos jogos. Às vezes, lembro-me como se fosse agora, ele falhava um cruzamento e eu olhava zangado na sua direcção. Para quê? Ele já estava a recuar para o seu lugar com uma cara de menino traquinas, que sabia que tinha feito uma asneira mas que não queria que lhe chamassem à atenção. Que figura. E, claro, havia o maior de todos.

Quem?

Paulinho.

Pois ééééé, o Paulinho.

Um personagem da cabeça aos pés, muito profissional e divertido até dizer chega. Um bom balneário não é só feito de jogadores, também tem de incluir médicos, roupeiros e por aí fora. A verdade é que esse Sporting era especial do ponto de vista humano. Havia figuras incontáveis. E havia rituais que nos transmitam união e nos davam mais força ainda.

Tais como?

As chamuças. No fim dos treinos, às quintas ou sextas-feiras, havia sempre massagens e, depois, pedimos chamuças. Comíamos no balneário, era divinal. Partilhávamos um tempo de qualidade na véspera dos jogos.

Quais os jogos mais importantes?

Todos. Para se ser campeão, é preciso reagir bem às vitórias, aos empates e às derrotas.

Aquela do livre do Sabry fez mossa?

Claro que sim. Foi um dia mau. Estávamos tão perto do título e queríamos dar o título aos nossos adeptos em Alvalade. Só que o nosso jogo não apareceu e o Sabry marcou aquele livre directo a poucos minutos do fim. Aquilo derruba-te. Mas só nesse dia. No dia seguinte, acordas com outra disposição. Sobretudo quando te reúnes com o resto dos jogadores no balneário e chegas à conclusão que o sonho ainda está ao nosso alcance. Bastava-nos ganhar ao Salgueiros, no Porto. E goleámos 4-0.

Foi uma tarde de glória.

Mais que isso, foi o concretizar de um sonho. Para os adeptos, à espera dessa alegria há 18 anos. Para os dirigentes, que apostaram naquele plantel. Para os jogadores portugueses, já enraizados no Sporting, e para os jogadores estrangeiros, que trocaram as voltas à família e foram viver para Lisboa à procura de um sonho. Concretizável. Foi inesquecível. Até porque o sonho de ir para a Europa também era o de jogar na Liga dos Campeões. Objectivo cumprido.

É no ano em que o Sporting rouba a liderança ao Porto num clássico em Alvalade.

Grande jogo, 2-0 para nós.

Marcaste o 2-0, de fora da área.

Mal recolhi a bola, imaginei um exército de camisolas azuis e brancas atrás de mim. Decidi-me por um pontapé forte e colocado. A verdade é que a bola entrou colada ao poste. O Baía esticou-se, mas não chegou. Foi um momento daqueles inesquecíveis. Trabalhas para eles durante toda uma carreira e, finalmente, ei-lo ali à tua frente. Foi mágico.

E os dois golos ao Benfica na Luz, para a Taça?

Dois?

Não foram dois?

Dois e meio. Dois e meio [insiste] je je je. Ganhámos 3-1. Há um golo em que o André Cruz faz a emenda a um cabeceamento meu. Baaaaahhh.

Agora é a minha vez, je je je je.

Je je je je.

E aquela final da Taça de Portugal?

O que tem?

A cotovelada na cara do Paulinho Santos?

São coisas que acontecem no futebol e que não deviam acontecer. De todo. Aquilo é uma fracção de segundos, a gente passa-se num clique. Arrependeste-te no instante seguinte. Não me orgulho, claro que não.

O último título é a Supertaça ao Porto. E com um golo teu.

Já foi um Sporting diferente do da época anterior. Vieram João Pinto, Paulo Bento e Sá Pinto, por exemplo. O Inácio também saiu e entrou o Manuel Fernandes. Aliás, ganhámos essa Supertaça com o Manuel Fernandes. Foi um jogo engraçado. O Schmeichel defendeu um penálti do Deco e depois eu marquei o 1-0, também de penálti. Sempre tive queda para bater penáltis. Era assim nos clubes argentinos, era assim na selecção durante a Copa América e foi também assim no Sporting. Vive-se para esses momentos de enorme responsabilidade. A adrenalina sobe e um golo nessas circunstâncias de maior aperto é a realização de um sonho e o sentido do dever cumprido. Tanto em relação aos colegas de equipa como em relação aos adeptos, que pagam para viajar e puxam constantemente por nós em campo.

E amigos no Benfica, tinhas?

Assim de repente, lembro-me do Bossio.

Claro, argentino.

E o Chano, espanhol. Eram simpáticos. E levavam-me a almoçar.

Onde?

Ao Barbas, acreditas? Je je je je. Fui sempre bem recebido por lá. Mesmo junto à praia, maravilha.

Quando voltaste à Argentina, ainda jogaste uns anos?

San Lorenzo. Siempre. Joguei quatro vezes no San Lorenzo, je je je je. É um amor grande. Como o do Sporting

Obrigado Beto, grande abraço.

Obrigado eu. Envia-me depois o link da reportagem, por favor.

Tranquilo, claro que sim.»

( In.: https://tvi24.iol.pt/load-enter/load/marquei-dois-golos-e-meio-ao-benfica )

 

Espectáculos

A enorme massa adepta do Sporting está sedenta de bons espectáculos de futebol, dentro e fora das quatro linhas. O que se assiste neste início de época é triste e inenarrável.

Não queremos folhetins, não queremos novelas, não queremos justificações. Queremos bons espectáculos, queremos alegrias!

Queremos, tal como na música, «uma equipa fantástica» de jogadores, técnicos e dirigentes, porque este clube «é(s) a nossa fé». A “fé” que alimenta uma enorme massa adepta.

Queremos competência para que possamos todos em uníssono gritar:

 

«Força Sporting allez!!»

“benfiquismo ingénuo mas nefasto”…

Texto de Eduardo Lourenço:

 

«A consciencialização necessária de um povo amorfo e «desinteressado» politicamente como foi o nosso durante décadas operou-se apenas, e com que superficialidade, no chamado plano «ideológico», mas num confusionismo fatal como era de esperar num contexto de carências sócio-culturais tão denso como o nosso. Tudo parecia dispor-se para enfim, após um longo período de convívio hipertrofiado e mistificado connosco mesmos, surgisse uma época de implacável e viril confronto com a nossa realidade nacional de povo empobrecido, atrasado social e economicamente, com uma percentagem de analfabetismo única na Europa, com quase um terço da sua população obrigada a emigrar, imagem capaz de suscitar um sobressalto colectivo para lhe atenuar os traços mais intoleráveis. Mas o que sucedeu, o que tem tendência a acentuar-se é a reconstituição em moldes análogos da imagem «camoniana» de nós mesmos, do benfiquismo ingénuo mas nefasto com que nos contemplamos e nos descrevemos nos indestrutíveis discursos oficiais e, quando não basta, com a promoção eufórica e cara da nossa imagem exterior que em seguida reimportamos como se fosse de facto a dos outros sobre nós. O estatuto democrático da imprensa portuguesa não alterou hábitos de cinquenta e mais anos [1]. Multiplicou apenas os seus pontos de aplicação. Em vez do encarecimento do tirano omnisciente, reina a bajulação avulsa dos caciques [2] que entre si jogam aos dados nas costas do povo português os poderes e as benesses de que se instituíram herdeiros. A regra do jogo, talvez até mais eficaz que no antigo regime, é a da desdramatização de todos os problemas nacionais. Uma democracia não tem problemas e nós somos uma democracia [3]... Desapareceu mesmo do horizonte o sujeito de qualquer responsabilização séria [4] pelo estado inalterável e, em vários aspectos, piorado [5], de um país que de uma vez por todos nós decidimos subtrair, pelos seus méritos gloriosos de um dia, ao pouco exaltante ofício de o conhecer, descrever e julgar como ele é. De uma maneira mais insidiosa, mas acaso mais corruptora [6] do senso das realidades e da consciência do lugar que ocupamos no mundo (ou que não ocupamos [7]) Portugal tornou-se de novo impensável e invisível a si mesmo. Só de uma maneira exterior, forçados por imperativos brutais de ordem catastrófica, consentimos, mas sempre sob a mais antiga maneira de ser nacional, a de «não cair de cu», consentimos em nos olharmos tais como somos realmente.»

 

In.: LOURENÇO, Eduardo - O labirinto da saudade : psicanálise mítica do destino português. 9ª ed. Lisboa : Gradiva, 2013. pp. 52-53

 

 

Algumas associações que fiz quando li este texto:

1 – Da recolha que Pedro Correia tem feito sobre «As gloriosas capas do jornal "A Bola"».

2Deste editorial d’A Bola, assinado por Vítor Serpa que, neste espaço, dei a conhecer.

3 – Destes textos de José Cruz e Edmundo Gonçalves.

4 – Deste texto de Edmundo Gonçalves.

5 – Deste texto de Pedro Bello Moraes.

6 – Das palavras do cardeal D. António Marto, Bispo de Leiria – Fátima, que eu aqui transcrevi.

7 – Desta observação de Rui Rocha.

 

Oceano, em entrevista.

Cruzei-me com esta deliciosa entrevista que Oceano deu a Rui Miguel Tovar n’O Observador, publicada a 10 Fevereiro 2018 e, não resisti, copiei-a para a partilhar convosco. Peço desculpa pela extensão da mesma.

 

A entrevista, texto d’O Observador :

A entrevista entrelaça os pontos de referência Tróia, Cuba, Monaco, San Sebastian, Barcelona e Erevan com nomes próprios de elevada distinção como Maradona, Klinsmann, Gullit, Figo, Futre e Batta

 

Imagine-se perto do Natal 2017, ali no dia 20 Dezembro. Agora imagine-se a comer um boca negra no Rabo d’Pêxe, ali no Saldanha. E agora imagine-se a falar de bola com o Oceano, ali na mesa encostada à janela. Oceano, o maior. Pacífico, sempre. Entre a história engatilhada na ponta da língua e as gargalhadas espontâneas, há um mar de histórias. EI-lo, o capitão do Sporting, o terceiro estrangeiro de sempre da Real Sociedad, o melhor marcador do Toulouse, o adjunto de Queiroz no Irão.

oceano-neno[1].jpg

 

Abro as hostilidades com esta foto.

Ahahahahahahah. Que maravilha. Eu ali em baixo e o Neno de pé. Conheço-o desde os 12/13 anos. Ele jogava no Santo Antoniense e eu no Almada, era uma brincadeira pegada.

Isto era o quê?

Um torneio em Tróia, com a primeira seleção de iniciados da Associação de Futebol de Setúbal. O que é engraçado é que ele era um caga-tacos e eu também era um caga-tacos, éramos os dois mais pequeninos do grupo.

A sério?

Se calhar foi por isso que ficámos juntos desde então, naquela coisa da proteção, sabes?

Estou a ver.

O Neno sempre foi um palhaço, já desde esta idade. Ele dizia que eu era mais palhaço naquele naquele tempo, mas não, ele é que era. Sempre foi. E o grupo estava sempre à nossa volta, nós é que animávamos aquilo tudo. Ahahahah. Aquilo para nós era a Walt Disney. O guarda-redes mais alto era o Castelão ou Casarão, um bicho do caraças. Claro que o Neno era suplente, ahahahah. Escreve isso, escreve isso, pica o gajo. Ahahahahah.

Ele falou-me num penálti em Alvalade?

Estávamos a perder por 1-0 e demos a volta para 3-1. Faço dois golos, um deles de penálti. Antes da marcação, o Neno vem ter comigo e diz que me conhece de Tróia. Depois, arrisca: ‘tu, com esse pé de pato, vais marcar a bola aqui para este lado, não vais mudar, pois não?’

E tu?

‘Se já me conheces, sabes que não vou mudar’. Quando cheguei ao ponto do penálti, não mudei mesmo. Só que o Neno foi para o outro lado, ahahahahah. A meio caminho, já ele me dizia ‘sacana’ O Neno é giro, tenho uma grande relação com ele desde esses tempos de caga-tacos.

Jogavas no Almada, isso era que divisão?

Os seniores jogavam na 2.ª, depois foram para a 3.ª. Eu ainda estava nos juvenis, depois juniores. Aqui, chegámos a jogar na 1.ª divisão.

O quê, com Benfica, Sporting, Estoril, Belenenses?

Todos esses mais o Vitória. Foooogo, o Vitória, lá em Setúbal, tinha uma belíssima equipa. Havia um gajo fabuloso chamado Fernando Cruz. Era aquele ponta-de-lança que não existia em Portugal, todos o queriam.

Eras tu e mais quem no Almada?

Dos que jogaram na 1.ª divisão, eu, o Galo e o Horácio.

Imagino a vossa impaciência em chegar aos seniores?

Ahahahahah, a piada é essa.

Então?

Não queríamos nada disso.

Baaaah.

Batia-se tanto nos jogos do Almada da 3.ª divisão que nem queríamos chegar aos seniores. Só queríamos continuar nos juniores.

Ahahahahah.

Só que o campeonato de juniores acabou mais cedo que o esperado e o treinador dos seniores chamou-nos logo para a equipa no último mês e meio de competição, na 3.ª divisão.

Começa aí a tua aventura.

A minha e a do Galo mais a do Horácio. Subimos os três ao mesmo tempo e fomos logo titulares.

Ainda te lembras disso?

Tenho cada história desses tempos, há coisas que um gajo não esquece. No meu primeiro jogo, fomos jogar a Cuba, no Alentejo. Estavam 40-e-tal graus e fiz o golo da vitória.

É beeeem.

O remate é do Horácio, a bola bate na barra e até entra, só que o árbitro não o valida. Como estava a seguir a jogada, entrei em voo para dentro da baliza, foi bola, foi tudo. Agora sim, é golo sem margem para dúvida, ahahahah. Levanto-me todo contente, para o abraço com o Horácio, e um central deles vem direito a mim.

E?

Dá-me um pontapé nos testículos. Apaguei. Apaguei mesmo. E apaguei mal. Só acordei no balneário cheio de gelo aqui [Oceano afasta a cadeira e aponta para baixo], com o massagista a trabalhar esta zona. Ahahahahah.

Ahahahahah.

Ri-te ri-te, se soubesses o que sofri. Tive de fazer uma porrada de exames, porque o massagista estava preocupado. Dizia que os testículos tinham ficado assim e tal, dizia que eu até podia ficar ??. Agora imagina a minha reação, não é? Ouvir aquilo tudo e ainda era um miúdo.

E o agressor? E o árbitro?

Nada, nada. O árbitro disse que não viu nada porque “estava a olhar para o meio-campo”.

E tu, depois?

Só queria sair dali.

De onde?

Da 3.ª divisão. Disse a mim mesmo “não quero jogar mais a este nível”. Por isso, quando apareceu o Odivelas, da 2.ª divisão, nem pensei duas vezes. Além disso, ofereciam-me quatro vezes mais que o Almada. Tinha de dar esse passo.

Conhecias alguém no Odivelas?

Os treinadores eram o Lourenço e o Carvalho, duas figuras do Sporting e jogadores de Portugal no Mundial-66. Eram pessoas que já conhecia de nome e isso dava-te necessariamente outra força. O Odivelas foi melhor para mim, claro. Se bem que ir todos os dias de Almada para Odivelas era um martírio.

Viagens e isso?

Tudo. Ia de autocarro Odivelas-Entrecampos e, depois, apanhava o metro para o outro lado de Lisboa. Claro, era atacado, assaltado, roubado e sei lá o que mais. Ahahahah, que histórias. No metro, em Entrecampos, estava tipo sardinha em lata, nem metia os pés no chão. São experiências engraçadas, fortalecem-te o espírito.

E para voltar a Almada?

Uyyyy, nem me digas nada, ahahahah. Havia barco, mas só até a uma determinada hora. Se falhasse o último, já só apannhava o das seis da manhã.

E como é que fazias?

Ficava com o Mafra.

Mafra?

O nosso capitão de equipa. Um bandido de primeira e muito boa gente. Pagava mais do bolso dele do que o próprio Odivelas.

A sério?

Ya, o gajo era sensacional. Entrava no balneário e dizia-nos ‘o clube oferece mil escudos, eu dou 1200 a cada um se a gente ganhar este jogo’.

Craque, estou a ver.

Ele tinha aqueles cartões da lotaria dos bairros de Lisboa que se chamavam mafras e a alcunha ficou. O Mafra ganhava dinheiro com isso e, na altura, tinha três Mercedes, um deles era o SL descapotável.

Isso devia ser uma novidade.

Era uma coisa do outro mundo. De vez em quando, convidava-me ‘miúdo, queres ir jantar?’.

E tu?

‘Não, sr. Mafra, a minha mãe disse que eu tinha horas para estar em casa.’

E o Mafra?

‘Não, não, miúdo, anda lá jantar e depois deixo-te em casa’.

E?

Chegava a casa às cinco/seis da manhã. Um dia, disse-lhe ‘oh sr. Mafra, gosto muito de si, mas não dá para continuar’. É que aquilo era quase todos os dias, ahahahahah.

O que feito dele?

Está bem, tem um stand de automóveis no outro lado do rio e ainda me dou com ele. O Mafra desenrasca-se, tem olho para o negócio. Ainda nem se falava de Valverde, na Verdizela, e ele já tinha comprado duas vivendas. Depois vendeu-as e comprou outra. É assim, o Mafra. Grande, grande homem.

O campo do Odivelas era pelado ou…?

Pelado, pelado à séria. Ahahahah. Na 2.ª divisão, zona sul, só Marítimo, Belenenses, Farense e mais um ou outro é que tinham relvado. De resto, pelados. E o nosso era cá um quintal, ahahahah. Que tempos. Tínhamos uma jogada ensaiada, nos pontapés de baliza: o guarda-redes chutava lá para a frente, nós íamos em bando para o meio-campo contrário e a ideia era passar a bola ao Sebastião, que tinha cá um pontapé. Ainda fizemos um golinho ou outro assim.

Também só jogaste um ano no Odivelas, não foi?

Fui logo para o Nacional.

Porquê a Madeira?

O treinador era o Pedro Gomes e ele viu-me a jogar pelo Odivelas. Quis contratar-me e fui.

Que tal?

Vê bem, às vezes era extremo-esquerdo.

Maravilha.

Fisicamente, estava mais forte que nunca. No primeiro estágio de pré-época do Nacional, o Pedro Gomes puxou tanto por nós que lhe cheguei a dizer ‘mister, com estes treinos posso estar sem fazer nada nos próximos dez anos’.

Era duro?

Foi o mais duro que apanhei. Aquilo era uma coisa. Nós tínhamos crosses nos Barreiros e havia um exercício do caraças.

Então?

Estávamos todos a correr na pista de tartan à volta do relvado dos Barreiros e ele, de repente, dizia Oceano.

Sim?

Tinha de correr mais depressa que todos os outros e dar-lhes uma volta de avanço.

Quêêêê?

Era o melhor gajo a fazer aquilo, só que demorava três voltas a apanhá-los.

Só três? Porra.

Pois, eles continuavam a correr, a puxar uns pelos outros, e eu, sozinho, tinha de apanhá-los. Era tramado. Agora imagina a quantidade de voltas que dávamos àquela pista.

Não imagino, impossível, ahahahah.

Os gajos do União e do Marítimo treinavam nos Barreiros, como nós. Aquilo era uma confusão do caraças, eles chegavam depois e saíam antes. Às vezes, iam para a bancada e gozavam connosco. Ahahahah. Mas digo-te, os primeiros jogos até correram bem e houve um que acabou 8-1 para nós [ao Esperança de Lagos]. Nesse dia, choveu até dizer chega. Os gajos do União e do Marítimo, os que gozavam connosco, é que ficaram impressionados. ‘Fogo, já viram como vocês voam?”. E realmente voávamos, só que depois tivemos uma quebra.

Ya, é sempre assim.

Espalhámo-nos ao comprido a partir de Janeiro. Foi aí que o Pedro Gomes decidiu jogar.

Quando dizes jogar, estás a dizer jogar mesmo?

Ya, eu joguei com o Pedro Gomes. A primeira vez que ele decide entrar no 11 é em Lagos. Havia lá no Esperança um defesa-esquerdo muita velho, com 39 ou 40 anos, mas, pá, o Pedro Gomes já tinha 46 ou 47 ou 48. Epá, vamos para Lagos, dentro da cabina, e começamos a ouvir a equipa: ‘número 1 não sei quem, número 2 disto, número 3 disto, número 4 nanana, número 5 não sei o quê, número 6 Oceano, número 7 eu, número 8 não sei quê”. Aquele ‘eu’ passou despercebido, como se ele estivesse a dizer o Miguel.

E depois?

Ele acaba de dizer o onze e nós todos ‘eu’? Ahahahahah. Isto é mesmo só rir.

E o Pedro Gomes?

‘Sim, isto pode ser uma surpresa para vocês, mas estou inscrito como jogador e hoje vou jogar. Considerem-me como um companheiro vosso mais velho.’

Que tal correu?

Perdemos, 2-1. Só que há coisas engraçadas para contar. Quer dizer, não são bonitas, mas são engraçadas.

É contar e pronto.

Havia gajos da equipa que não gostavam dele e avisaram-no. ‘Ò mister, a gente enerva-se lá dentro e chamamos nomes’.

E o Pedro Gomes?

‘Vocês podem mandar-me para todo o lado, podem chamar-me cabeçudo e isso tudo.’

Imagino a farra.

O que é que os gajos fizeram? Chamaram-lhe tudo. Ainda por cima, o primeiro golo do Esperança foi culpa dele, ahahahah.

E de resto, o jogo dele?

Queria marcar tudo; cantos, livres, lançamentos. Ahahahah. Na jornada seguinte, jogámos em casa e aí levei uma entrada duríssima na canela. Levei para aí uns 15 pontos na perna e a sorte foi que o piton parou no osso, senão partia-me a perna. Coseram-me aquilo e fiquei de molho. Só que era o campeonato, não é?

Non-stop.

Pois. No jogo da semana seguinte, íamos ao Restelo e eles insistiram para que eu jogasse. Era um jogo importante para a subida e tal.

E tu?

Fui a jogo, com reticências. O médico disse-me ‘vais jogar, mas, se alguém te tocar, vai haver sangue como nunca’. A uns 15 minutos do fim, há um gajo que me entra à perna, toca na ferida e era sangue comò caraças. Tive de sair e quem é que entra?

Nããããão.

Pedro Gomes, ahahahah. Com o número 16. Então, o Jimmy Melia, treinador inglês do Belenenses, diz isto no final do jogo. ‘O número 16 mais parecia um camião do leite.’

Ai é aí que começa a expressão, não fazia a mínima ideia.

Estás a ver, o Pedro Gomes já fortinho, com 40-e-muitos-anos. Foi o seu último jogo da carreira. Ele que ganhou a Taça das Taças pelo Sporting em 1964 e estava ali a jogar comigo em 1984. Ahahahah. Quando digo que joguei com o Pedro Gomes, as pessoas todas riem-se e dizem ‘és um mentiroso do caraças’. Nada disso e marco sempre uma aposta, ahahahah.

Grande história. E o Nacional, sobe nesse ano?

Ficámos em quarto ou assim e não subimos.

Como é que aparece o Sporting nessa história?

O Pedro Gomes disse-me ‘epá, deixa o Sr. Rocha ganhar as eleições e ir buscar o John Toshack; provavelmente, vou para adjunto e gostava que fosses para o Sporting’.

E tu?

Pensei ‘agora vou para o Sporting ’tá bem ’tá’.

E não é que foste?

Há toda uma história.

Booooa.

O Nacional estava há três meses sem pagar o ordenado e insistiam na minha renovação. Só lhes disse ‘okay, só renovo com a condição de que paguem tudo o que me devem por inteiro’. E os gajos pagaram. Beeem, nessa altura, senti-me multimilionário. Quer dizer, não era nada de especial, o salário em si, mas três de uma vez era uma sensação libertadora. Ainda por cima, vivia sozinho e não tinha vícios nenhuns. Não fumava nem bebia: o dinheiro chegava e sobrava. Agora, havia jogadores titulares que não era assim. O que fazíamos, então? Comíamos no restaurante do nosso apart-hotel e dizíamos ‘mandem a conta para o Nacional’. E também havia um restaurante no centro do Funchal em que fazíamos o mesmo. O que interessa é que a situação se resolveu para o meu lado e aquando da minha renovação, inclui uma cláusula no contrato a advertir os gajos do Nacional que tinham de me deixar sair se houvesse interesse de um grande,

Veio o Sporting.

Ainda começo a época com o Rui Mâncio e, às tantas, recebo um telefonema do Pedro Gomes “É pá, o Toshack queria que viesses aqui este fim-de-semana para treinares com ele à sexta, sábado e domingo. Já falei com a direção do Nacional’.

Foste.

Disse que não.

Hein?

Já viste a minha idade? Só tinha 21 anos. E já tinha tido uma experiência um bocadinho traumatizante no Sporting, aos 16.

Porquê?

Cheguei lá e estavam cinquenta mil miúdos. Cinquenta mil, não estou a exagerar. Quando chegou a minha vez de ir jogar, só foi um minuto ou dois. Logicamente, não dá para ver nada, fui-me embora e disse a mim mesmo ‘nunca mais vou passar por isto; se o Sporting quiser, que me venha buscar, agora à experiência é que não’.

Mai’nada. E agora, como se resolve o impasse?

A minha mãe falou comigo.

Olha que bem.

‘Filho, não perdes nada, porque sabes batalhar como ninguém e ainda tens contrato com o Nacional’. Ah é verdade, faltava dizer que fui jogar para o Nacional em vez de ir para a universidade.

Ias seguir o quê?

Engenharia. Quando era mais miúdo, nos tempos de Almada e Odivelas, tinha de ter boas notas para jogar futebol. Era a condição dos meus pais, senão os gajos tiravam-me do futebol. Tiravam mesmo. E mesmo nesta época do Nacional, em que já sou maior de idade e tenho um ordenado à minha disposição, os meus pais insistiam; ‘vais para lá, tudo bem, é um ano à experiência; se não correr bem, entras na universidade’. A minha mãe estava sempre a dizer-me ‘não te esqueças da universidade, está sempre pendente’.

Engraçado. Então e o Sporting?

Pronto é isso, a minha mãe disse-me ‘ò filho, se tens contrato com o Nacional, qual é a pior coisa que te pode acontecer no Sporting? É não ficares? Não, o pior é ficares a pensar no que teria acontecido se não fosses’. Pronto, liguei ao Pedro Gomes e lá fui fazer os treinos. No primeiro de todos, dei uma porrada no Jordão ahahahahah e eu só dizia ‘desculpe Sr. Jordão, desculpe”. Hoje, o Jordão é o padrinho da minha filha mais velha. Ahahahah. Ele protegeu-me no Sporting e disse-lhe “sr. Jordão, ainda não sou casado nem tenho filhos, mas você vai ser o padrinho da minha filha’.

E foi mesmo.

Uns anos depois, nasceu a Carina e o Jordão foi o padrinho, ahahahah.

Que espetáculo.

Bom, aquele fim-de-semana no Sporting passou e o Toshack disse-me ‘epá, já não vais mais para a Madeira’. Assinei três anos pelo Sporting.

Um contrato melhor ainda?

Na altura, ganhava 65 ou 69 contos por mês no Nacional e o Sporting ofereceu-me 100 contos no primeiro ano, 150 no segundo e 200 no terceiro.

Era bom?

Cem contos era dinheeeeeeeiro.

Vivias onde?

Miraflores. Quem levava aos treinos era o Gabriel, que tinha um dois cavalos que eu adorava. Depois passei a viver na Quinta do Lambert, perto do estádio. Numa terceira fase, o Rosário, que é hoje adjunto do Fernando Santos na seleção, sugeriu-me ir viver para Caneças, um sítio tranquilo e perto de Lisboa. Foi quando comprei casa, por dois mil e duzentos contos.

Entraste logo na equipa do Sporting?

Fui suplente no primeiro e depois fiquei a titular. Fiz uns 29 jogos nessa época.

É a época europeia do Auxerre e Dínamo Minsk?

Exacto. Com o Auxerre, fui central e marquei o meu primeiro golo pelo Sporting. Ganhámos cá 2-0 e estávamos a perder lá por 2-0. No prolongamento, faço o 2-1.

Como?

É um dos maiores golos da minha vida, porque estávamos ali no prolongamento a aguentar o 2-0 e o Toshack diz-me para subir na altura de um canto. Quando chego à área, a bola vem ter comigo e atiro de primeira. Foi um g’anda golo pá. Ainda me lembro da página d’A Bola: ‘Oceano congelou os franceses’.

Com o Dínamo Minsk, a mesma coisa: 2-0 em Alvalade, 2-0 em Minsk.

Perdemos nos penáltis, nem me fales. Estava um gelo, -14 graus. E tivemos um azar tremendo com a lesão do Lito. Ele entrou a meio da segunda parte e, na primeira jogada, sofreu uma rotura muscular. Jogámos com dez e foi aguentar até chegar aos penáltis. Aí deu para o outro lado.

Quem era o guarda-redes do Sporting, Damas?

Damas, o jovem Damas.

Jovem?

Só tinha 42 anos. Se apanhei o Pedro Gomes, não ia estranhar o Damas ahahahahah.

Que balneário esse, com Jordão, Manuel Fernandes.

Oliveira, Jordão e Manuel Fernandes, que trio de luxo. Só que o Toshack começou a encostar o Oliveira. Mas havia mais: Jaime Pacheco, Sousa, Gabriel.

Xiiii, o Gabriel. É agora taxista no Porto.

É? Nem sabia.

Já o apanhei uma vez, da Foz até à Campanhã.

Epá tenho que estar com ele, foi a pessoa com quem me dei melhor.

Pois, o homem do dois cavalos.

Ahahahah. Vivíamos no mesmo prédio. Não é Gabriel, é sr. Gabriel. Eu só perdia a vergonha durante o treino, mas depois também dizia ‘epá, isto foi demais, tem que me desculpar Sr. Jordão’ ahahahahaha.

Falaste no Toshack, era porreiro?

O Toshack adorava-me. Foi o treinador com quem tive mais discussões mas era o gajo de quem mais gostava. Tive mesmo discussões de nos agarrarmos um ao outro, era para bater. Lembro-me de um episódio no meu segundo ano da Real Sociedad em que cheguei a acordo com o Barcelona.

Uyyyyyyyy.

Só que a Real não me deixou sair. Primeiro porque me faltava um ano de contrato, depois abriram a boca e pediram o preço do Pelé ao Barcelona.

E o Barcelona?

O presidente Núñez disse-me ‘ò Oceano, gostava muito que viesses para aqui, mas não posso pagar este valor por um jogador com 31 anos; se conseguires convencê-los a baixar esse valor’.

Barça de Cruijff, certo?

Reuni-me com ele e tudo.

Com o Cruijff?

Foi o Bakero, que era basco, ex-Real Sociedad e capitão do Barça. Ele disse-me ‘ficas aqui depois do jogo porque o Cruijff vem falar contigo’. Assim foi, Cruijff e Núñez no Hotel Princesa Sofia, mesmo ao lado do Camp Nou, no dia em que o Barça foi campeão espanhol. Eles hospederam-me numa suite e tivemos uma reunião de um minuto.

Só?

O acordo era fácil. Quer dizer, limitei-me a dizer sim ao Barça. Fácil. E eles do Barça estavam animados com a perspetiva de negócio porque havia um histórico de boas relações com a Real Sociedad.

E porque é que não foste para o Barça?

Apanhei a Real Sociedad numa altura complicada. Tínhamos acabado a época em 13.º lugar, fora da UEFA, e o Toshack disse-me ‘não posso vender o meu melhor ativo, a não ser por muito dinheiro’, porque os sócios isto, o clube aquilo.

E a tua reação?

‘És um cabrão, hijo de puta’. O engraçado era que eu insultava-o em castelhano e ele insultava-me em inglês. Não brinques, estivemos mesmo em vias de facto. Eu puxei-lhe a camisola, ele a minha e embrulhámo-nos à grande. Eu só desabafava ‘para o ano não tens jogador; vou lesionar-me no primeiro jogo da época e não tens mais jogador’. Ele conhecia-me bem e sabia que não era disso.

Bem, grande mágoa, não?

Claro, era a minha última oportunidade de ir para o Barça. Mas, tudo bem, depois voltei para o Sporting.

E o Toshack?

Uns anos mais tarde, em 1999, voltou ao Real Madrid. Ainda pensei ‘queres ver que me leva para o Real Madrid’, mas nada. Ahahahahahaha. Só que o gajo picava-me.

Então?

Contratou o Géremi, lembras-te?

O dos Camarões?

Esse. E disse à imprensa que tinha ido buscá-lo porque fazia-o lembrar o Oceano.

No Sporting, o Toshack fez a época toda?

Saiu a quatro jornadas do fim e ficou o adjunto Pedro Gomes à frente da equipa.

Olha que bem, o reencontro.

Ahahahahah. Avisei os jogadores: ‘malta, hoje jantem às sete e trinta, façam um passeio digestivo e deitem-se às dez da noite para acordarem fresquinhos porque amanhã vocês vão treinar como nunca treinaram na vida’. E eles sem me ligar nenhuma, tipo ‘faltam quatro jogos para acabar o campeonato e era agora que íamos ganhar forma?” E eu insisti: “epá, vocês não conhecem o mister como eu’.

E que tal o dia seguinte?

Havia uns dois mil sócios a ver o treino e o Pedro Gomes até meteu corridas a subir as bancadas. E as bancadas em Alvalade não eram fáceis.

Pois não.

Aquilo era jogadores a vomitar, ahahahahah, e os sócios na bancada a dar mais alfinetadas. Já sabes como é: ‘é isso mesmo Pedro Gomes, tudo a trabalhar’. Quando chegámos ao balneário, eu só dizia ‘bem avisei’ aos gajos. O que aquela malta trabalhou nas últimas semanas, ahahahahah.

Depois chegou o Manuel José, não foi?

Ya, roubámos o campeonato ao Benfica em vésperas de Saltillo.

Associas as duas, porquê?

Estreei-me na seleção portuguesa em 1985, com a Roménia, em Alvalade. Perdemos 3-2. Depois deixei de ir, quem ia era o meu suplente no Sporting. Quando o Carlos Manuel marca aquele golo em Estugarda, o Torres convida-me para almoçar e diz-me “tu és o jogador a quem eu cometi a maior injustiça; a partir de agora, se continuares a ser titular no Sporting, és tu e mais dez no Campeonato do Mundo’. Curiosamente, não só fui titular os jogos todos até ao final da época como ganhámos os jogos quase todos, nomeadamente esse da Luz, em que demos o campeonato ao Porto, e acabei por não ir ao México. Foi o Venâncio, que teve de ser operado ao joelho e saltou da lista. Aí, ele disse ‘há males que vêm por bem, porque tu és o gajo que mais merece estar no Mundial’. Sabes quem é que ele convocou?

Nem ideia

O Sobrinho, do Belenenses. E o Lito, aquele do Sporting, sabes? A gente chamava-o de Doutor porque o Lito andava sempre pipi e tinha uma Volkswagem Scirocco, que era uma granda pinta, uma máquina do caraças. Então, o Doutor passa por mim enquanto estou a falar com os jornalistas e diz-me ao ouvido para todos ouvirem: “tens que dizer que isto é a maior vergonha que eu já vi’. Realmente foi uma tristeza muito grande, porque estava completamente convencido de que ia ao Mundial. Titular nos jogos todos do Sporting e depois aquela conversa com o selecionador.

Mas e o Torres, nada?

Só falámos no ano seguinte, quando ele já estava no Estrela.

Amadora?

Ele foi de Saltillo para o Estrela. Nós fomos lá ganhar e encontrei-o na sala de conferência de imprensa. Ele viu-me e ‘aqui está o meu jogador preferido’. Chamei-o à parte e disse-lhe tudo o que havia para dizer, ahahahahah. Desabafei um bocadinho, coitado do Torres, ouviu das boas.

Mundial nada, Barça nada. A vida, às vezes, tem destas coisas.

Claro que sim, temos de olhar em frente e seguir o nosso caminho. Agora falaste do Barça e lembrei-me daquela eliminatória europeia que perdemos em Alvalade: 1-0 lá, 2-1 cá.

Golo do Roberto?

Lembro-me bem desse golo, o 2-1. E lembro-me de ter saído do estádio ao mesmo tempo que os adeptos.

Então?

Cheguei ao balneário e, taaaau, saí do estádio. Foi um jogo pá, podíamos ter feito o 3-0. O Fernando Mendes fez um jogo incrível. Era o dia de anos dele ou véspera, já nem sei. Só sei que ele fez as assistências para os dois golos e ainda teve duas ou três hipóteses para marcar ou dar a marcar. E nada.

Grande noite.

Grande noite foi aquela do 7-0 ao Timisoara. Eles tinham eliminado o Atlético Madrid do Futre na eliminatória anterior e eu, como capitão, fui falar com o presidente Sousa Cintra. ‘Você tem de dar um prémio do caraças’. E ofereceu.

Quanto?

Não sei quanto, só sei que era um balúrdio. O Sousa Cintra ficou com uma azia, ahahahahahah. Outra história de prémios, ainda na era João Rocha. Fomos jogar com o Colónia, para os quartos-de-final da Taça UEFA, e o João Rocha fez uma aposta com os jogadores. ‘Se vocês ganharem, dou dois mil contos de prémio; se vocês perderem, cada um dá-me cento e cinquenta contos’. Ora bem, eu ganhava precisamente 150 contos. Se perdêssemos, lá ia o meu ordenado. E ele ‘ò miúdo, aguenta’. E fomos eliminados, ahahahahah. Era o Colónia, uma equipa do caraças com Schumacher, Littbarski, Bein, Allofs. Jogar na Europa era um sonho de infância.

Vias muito na televisão?

Como vivia em Almada, o meu mundo dos jogos ao vivo era basicamente Almada. Lembro-me de um Almada-Porto para a Taça de Portugal, por exemplo. E lembro-me de ir uma vez à Luz e outra a Alvalade. Agora, Europa, Europa, só na televisão. Lembro-me de um Torpedo Moscovo-Benfica em que o Vítor Baptista apareceu em mangas de camisa no estágio e nem seguiu com a equipa. Que se qualificou para a fase seguinte, com um penálti do Bento, no desempate. Seguia assim, estás a ver?

Pois, claro. Como o comum dos mortais.

Exactamente. Via os jogos com o meu pai.

De que clube era ele?

Porto. Ele até jogou numa equipa em Cabo Verde chamada Derby, que era a filial do Porto e jogava de azul e branco.

Lembro-me de ti em Alvalade, sobretudo da tua evolução. No início, eras assobiado.

Verdade, isso só deu ainda mais motivação para me superar.

E superaste-te.

Tenho de agradecer ao Roger Spry. Ele ficava sempre comigo. Os outros iam-se todos embora e nós treinávamos exercícios específicos. O gajo dizia “tu precisas de ser mais forte, precisas de ter mais elasticidade, precisas de ter mais impulsão e precisas de trabalhar a tua força para a saberes direcionar’. Com essa aprendizagem, melhorei muito. De repente, comecei a ganhar bolas pelo ar. Quer dizer, tenho 1,75 metros de altura, como o João Vieira Pinto, e comecei a marcar os mais altos das outras equipas, como o Magnusson do Benfica. E ganhava esses lances. O Roger preparou-me para melhorar a capacidade de reação, o tempo de salto e, sobretudo, a antecipação dos lances. Fiquei muito melhor jogador, sem dúvida. Depois, em Espanha, já fui recebido como uma vedeta e não podia desiludi-los.

Tu e o Carlos Xavier?

Isso, só que o Carlos faz-me uma rotura de ligamentos cruzados no primeiro jogo e eu fico sozinho, num sítio onde os estrangeiros não eram bem vistos. Ao lado, em Bilbau, tinhas o Athletic, que não aceita estrangeiros nem espanhóis, à exceção de bascos. Ali, em San Sebastian, tinhas a Real Sociedad que tinha aberto as portas aos estrangeiros dois anos antes de nós, com aquele avançado irlandês, o Aldridge. Quando o Carlos se lesiona, o meu pensamento é o de trabalhar mais e jogar mais que todos aqueles gajos juntos.

E?

Missão cumprida, ahahahah. Marquei sete golos na primeira época.

Acabaram em que posição?

Quarto ou quinto lugar. À quinta jornada, estávamos em último com zero pontos e zero golos marcados. À sexta jornada, jogámos com o Sevilha de Maradona e Simeone.

Maravilha.

Esse jogo tem uma história engraçada, porque fui à seleção nessa semana. Acho que jogámos com a Bulgária, em França [2-1 com golos de Figo, Balakov e Oceano], sem Futre nem Rui Barros. Eles estavam lá mas não jogaram o particular e o Futre disse-me ‘vamos sair à noite’, só que estava vidrado no Sevilha e segui viagem para Espanha.

E então?

Ganhámos 3-1 ao Sevilha, marquei dois golos, um deles de penálti, e fiquei com a camisola do Maradona. Por acaso, foi engraçado porque chateei o Maradona o tempo inteiro a dizer-lhe ‘pá, ’tás velho’ e ele, a rir-se, ‘tienes razón, tienes razón’. Naquela altura, o Maradona tinha sido apanhado a conduzir a 160 km/hora no centro de Sevilha e houve uma confusão dos diabos. Claro que aproveitei para picá-lo constantemente.

Como?

Virava-me para o Simeone, que era mais fresco que o Maradona, e dizia-lhe ‘esse tu amigo no puede conducir’.

E o Simeone?

Fitava-me com o olhar. Com o Maradona a ver tudo. Quando o Simeone não dizia nada, mandava-lhe mais uma acha para a fogueira ‘tu eres um cabrón, no estas defendiendo tu amigo’. Ahahahahahah. Aí, o Simeone resmungava qualquer coisa.

Imagino, o Simeone era um tratado.

O gajo era um refilão do caraças, ‘Cabrón, hijo de puta’ dizia-lhe a torto e a direito. E ele a mim. Quando acabou o jogo, o Simeone é que ia trocar de camisola comigo quando apareceu o Maradona. Ahahaha, o Simeone só abanava a cabeça como quem diz ‘este Maradona, tsss tsss’.

Era difícil jogar no Atocha?

Ninguém passava lá, nem Real Madrid nem Barça.

Tu marcaste o último golo do estádio, não foi?

Os dois últimos, com o Tenerife. E também marquei na estreia do Anoeta [atual estádio da Real Sociedad]. Empatámos 2-2 com o Real Madrid e fiz um chapéu ao Buyo. Que golaço, nem te conto.

Conta lá.

Já sabia que aquele central do Real Madrid gostava de driblar na cabeça da área e roubei-lhe a bola. Quando vi o guarda-redes a sair, piquei-lhe a bola. Granda golo, tens de ver.

 

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E esta foto aqui?

Xiiiiii, a seleção nacional. Áustria, 1-0 em Alvalade.

Isso.

Qualificação para o Euro-96, golo do Figo. Ora bem, Baía, Hélder, Paulo Madeira, eu, Rui Costa, João Pinto, João Vieira Pinto, Paulinho Santos, Figo, Sá e Paulo Sousa. E eu falhei um penálti, ahahahahah. Ainda bem que ganhámos, senão g’anda barraca.

Por falar nisso, falhaste um penálti na Arménia.

No último minuto, zero-zero lá. Atirei ao poste, primeiro jogo de qualificação para o Mundial-98. E depois perdemos na Ucrânia, no início da fase das jornadas duplas de qualificação. Na altura, esse penálti nem parecia ter importância mas acabou por ter. E muita.

Imagino a tua cabeça no final do jogo com a Arménia.

Mau, muito mau. Quem falha acaba por sofrer mais que os outros, é um desgosto incrível. Porque acabas por ser o culpado e sofres o dobro. Falhei esse com a Arménia e o da Áustria.

 

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E aqui, tu mais o Nené e o Damas, duas instituições.

O Nené era engraçado, porque começava o jogo a dizer para o seu marcador directo ‘então a família, está tudo bem?’ Ahahahahah. Começava logo a preparar o terreno, só que eu já o conhecia dos meus colegas mais velhos e dizia-lhe ‘ò Nené, isto hoje não há aqui conversa, nem chegues aqui perto’. Ahahahahah. E sabes o que fazia o Nené a essa boca? Respondia-me com ‘está tudo bem, gosto muito de te ver’. Ahahahah. De repente, o gajo já estava lá à frente a marcar um golo. Depois, vinha para o meio-campo e dizia ‘epá, desculpa lá, estavas distraído’. Quem me contava isso era o Paris, central do Estoril.

E era comum marcares o Nené?

Sim, no ano em que o Toshack inventou os três centrais.

Quem eram?

Titulares absolutos, Venâncio e eu. Depois, o terceiro elemento era o Zezinho ou o Virgílio. Nas alas, Carlos Xavier à direita e Mário Jorge à esquerda. Lembro-me de darmos 8-1 ao Braga, por exemplo. Agora este aqui [Oceano aponta para Damas], era o maior. Foi o jogador com mais estilo que vi no futebol. Além da sua qualidade dentro de campo, ele preparava-se para ir à baliza, metia o gel e depois dizia ‘elas vão ficar doidas na bancada’. Foi ele um dos que começaram a levar-me para os almoços do plantel do Sporting.

Ai não ias antes?

Era miúdo, ainda não ia. O Jordão protegia-me nos estágios e nos treinos. Fora disso, ele tinha a sua vida e eu a minha. Depois, aos poucos, comecei a integrar-me. Havia dois restaurantes muito frequentados: “A Nau”, em que almoçávamos cabeças de peixe até à hora do jantar, e “A Paz”, ali na Ajuda, onde comia o Eusébio.

Havia muito respeito pelos mais velhos, não era?

Como te digo, era o Sr. Jordão, o Sr. Damas, o Sr. Zezinho, o Sr. Manuel Fernandes. É verdade que havia coisas que eram demais, mas agora, bem vistas as coisas, já não acho que fossem demais. Venho de uma cultura africana, diferente da europeia. O africano respeita o mais velho e nós vemos isso na tratamento aos nossos avós. Em África, o velho é sabedoria. Na Europa, o velho é entrave. Como quem diz ‘temos que arranjar um sítio para os meter, porque já não há paciência para os aturar’. No meu caso, como jogador do Almada, percebi isso do respeito aos mais velhos bem cedo. Quando subi aos juniores para o seniores e marquei aquele golo da vitória em Cuba, queria entrar no balneário e estavam lá três veteranos a falar entre si. Viram-me e disseram ‘ò miúdo, não vês que estamos aqui a conversar; quando acabarmos, a gente chama-te’. E eu lá fora, ao frio. Logicamente, quando chego ao Sporting, venho dessa formação. Agora esta malta nova já não é assim e qualquer miúdo de 16, 17 ou 18 anos chega ao balneário e nem diz nada.

Imagino-te então com Danis, Porfírios, Nunos Valentes?

Tinham muito respeitinho. Não só eles, também Figo, Capucho. Nunca lhes fiz aquela do ‘miúdo, espera lá fora’, mas alertava-os para muitas complicações futuras, que já adivinham.

Crises e tal?

Por aí, sim.

Também havia o Nelson, com quem o Figo fazia uma dupla imparável na ala direita.

O Nelson era um paz de alma. Nunca vi ninguém como o Nelson, ele não tem nada de maldade naquele corpo. O Nelson é demasiado puro para existir neste mundo, nem sei como é que está hoje em dia.

Na mesma, com cabelo branco.

Ahahahahah, já quando tinha 20 anos era uma espécie de avô. Eu dizia ao Nelson ‘imagino como é que tu fazes amor com a tua mulher: metes uma porta no meio dos dois e está lá um buraquinho só para coiso’. Ahahahah. Era impressionante, um gajo organizava almoços e ele nada, tinha de ir para casa. Depois, quando o apanhávamos, ele não bebia álcool. Nem uma cerveja. Dizia logo ‘eiii não posso beber’. É dos mais puros que há, a pureza em pessoa.

No outro lado, o Paulo Torres.

‘Tás mazé maluco, o PT tem histórias do caraças. Chamava-me capitas a torto e a direito. E aquilo colou, comecei a ser o capitas para toda a gente.

E agora?

Sou o velhote. O Figo chama-me velhote, o Dimas também, o Rui Costa também.

E agrada-te?

Antes, era engraçado porque jogava; era velhote mas jogava; agora que estou a ficar mesmo velhote, deixou de ter piada’. Ahahahahah.

 

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Toma lá disto.

Olhò sr. Futre. Este é o primeiro dérbi dele em Alvalade pelo Porto. Meti-o na pista de atletismo, ahahahah. Fui mauzinho.

E o pessoal do Porto, nada?

Era em Alvalade, sabes? Travavam-se grandes guerras no meio-campo e o André era giro. O André era mauzinho, só que não reclamava. Comia e calava.

E o Futre?

Um jogador do caraças. E marcar o menino? Já não sei se foi neste jogo ou no seguinte, fiz para aí uns 50 metros sempre atrás dele e o gajo com a bola dominada à minha frente. Não o consegui apanhar e ele entrou na área para dar ao Gomes ou assim. Nunca vi ninguém assim: é que não é chutar a bola para a frente, é dominá-la em corrida. Talvez o Messi, mas nem o Messi tinha tanta velocidade como o Futre com a bola nos pés. O Futre era empolgação.

E o Chalana?

Era inteligente. O Chalana adiantava bolas uns três metros e depois ia driblar com o corpo, lixado também. Fazia assim [Oceano abana o corpo] sem tocar na bola e os defesas começavam a cair para um lado e para o outro.

Apanhaste os dois, então?

Apanhei-os e não me lembro de apanhar ninguém mais forte pela esquerda do que eles os dois.

 

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E este golo?

Isto é o Mónaco, é o meu primeiro golo da Liga dos Campeões. Livre do Lang e dou de cabeça ao primeiro poste. Na baliza, Barthez. Ganhámos 3-0, num relvado inexistente. Sinceramente, o relvado desapareceu e era para não haver jogo de todo. Só que depois lá se jogou.

E o Costinha?

Pois éééééé, o Costinha a marcar-me. O Costinha tem uma admiração por mim do caraças e tinha dois posters no quarto, um deles era o meu. Ainda hoje ele diz isso. E acho que esse golo foi um bocado fruto da sua admiração por mim, Ahahahah, devo ter-me metido com ele antes da marcação do livre e ele ficou preso à conversa. Com o Mónaco, marcou um em Alvalade e outro lá.

Um 3-2 para o Mónaco com 2-0 ao intervalo para o Sporting?

Fui substituído e saí com uma azia, porque estou a andar para o banco de suplentes e a ver os golos do Trézéguet. Nessa noite, marco o 1-0 e faço a assistência para o 2-0 do Luís Miguel.

Tu eras fera a marcar na Europa, lembro-me de um golo ao Real Madrid.

Sim, ganhámos 2-1 em casa. Ainda hoje passam esse golo meu no Irão. Meti o pé de pato e marquei um g’anda golo, mas essa eliminatória foi muito mal perdida.

Só bolas ao poste, não foi?

Lá em Madrid, acertei uma bola no poste, o Figo outra e o Sá mais uma. Cá, tivemos mais que oportunidades para seguir em frente e o Michael Laudrup faz-me um golo de cabeça, um chapéu ao Lemajic.

E aquela eliminatória com o Inter, na meia-final da Taça UEFA?

Esse Inter tinha Brehme, Matthäus, Klinsmann, Bergomi. Era do caraças, mas aqui, em Alvalade, fiz o melhor jogo de sempre e falhei dois golos.

Falhaste porquê?

Num dos falhanços, a culpa nem foi minha, o mérito é do Zenga [guarda-redes]. O outro foi culpa minha, bati mal na bola. É daquelas bolas em que tu vais encostar e, por qualquer razão, não olhaste bem para ela. Se tivesse calhado olhar só um bocadinho, metia-a onde queria. Só que.

Só mais uma eliminatória europeia, aquela de Nápoles.

Perdemos nos penáltis porque não me deixaram marcar no desempate. Era eu o marcador oficial e o treinador decidiu ‘quem decide os penáltis sou eu’. Deviam ter-me posto lá.

 

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[Oceano e Klinsmann]

 

Não me digas que este é o fatídico jogo, o do Batta.

É mesmo.

Neste jogo, também falhei um golo de cabeça que não podia ter falhado. Seria o 2-0, num lance que só eu e o Pedro Barbosa é que sabemos, num canto. Se fosse golo, ganhávamos e passávamos ao Mundial-98. Mas aqui o árbitro entalou-nos. Aqui viu-se que Portugal não tinha peso internacional, porque fomos completamente postos de fora.

Dá para descrever o balneário?

Epá, um sentimento de revolta muito grande. Quer dizer, tens o jogo controlado, eles sem hipótese nenhuma e, de repente, ficas a jogar com dez quando estás a fazer uma substituição. Continuo a achar que o árbitro dá o segundo amarelo ao Rui Costa sem saber que ele já tem o primeiro. Continuo a achar que não foi maldade do árbitro, acredito na boa-fé das pessoas. Só que, de repente, ele dá o amarelo, percebe que é o segundo e fica comprometido porque é sua obrigação mostrar-lhe o vermelho. Tipo ‘oh boy, meti-me numa alhada do caraças’.

Viste o Batta depois disso?

Chamei-o de tudo na primeira vez que o encontrei.

E ele, na boa ou…?

Nãããã, comprometido, comprometido. Ele sabe que fez merda, eu tenho a certeza que ele sabe que fez merda. E depois volto a explorar este ponto e digo-o com toda a sinceridade: ele fez merda sem querer e há muita gente que pensa que ele fez merda de propósito.

Diz-se que o Klinsmann foi ao balneário de Portugal dar uma força.

Disseram-me isso mas não vi nada, tanta era a azia. Ahahahah. Estava na azia, mas o Klinsmann era um cavalheiro.

Porquê?

Por ações dentro do campo. Dou-te um exemplo: uma vez, jogámos com a Holanda nas Antas e a dupla de centrais foi, vê lá bem tu, o Veloso e eu. E ganhámos 1-0, golo do Rui Águas. Nessa noite, a Holanda jogou com Van Basten e Gullit. O Van Basten era um nariz empinado, era mesmo aquele gajo ‘eu sou o maior’, enquanto o Gullit era um cavalheiro. Há detalhes em campo que percebemos logo quem é quem e, por isso, o Klinsmann era um gentleman. Como o Gullit. Ao contrário do Van Basten.

Dois anos antes, o Euro-96. O que é que isso representou para ti?

Divertimo-nos muito. Empatámos os campeões europeus [Dinamarca] e ganhámos sem sofrer golos à Turquia e, depois, Croácia. Nos quartos, tivemos azar naquele jogo com a República Checa.

Poborsky.

Eu e o Paulo Sousa fomos à bola, ele ganhou o ressalto e fez o chapéu à saída do Vítor. O Vítor também sai e, se calhar, não devia ter saído porque estávamos a controlar o lance. A verdade é que o Vítor também pensou que chegava à bola e esta não adiantou o suficiente. O resultado é aquela colherada. Até final, ainda tivemos hipóteses de marcar e foi a vez em que estivemos mais perto de ganhar um Europeu. À exceção de 2004, claro. Tínhamos uma senhora equipa e havia muita competência. Neste tipo de competições, Europeus e Mundiais, o insucesso de Portugal passa por não ir mais além da fase de grupos. Uma vez ultrapassado essa barreira, tudo é possível. Isso viu-se em 2010, por exemplo. A Espanha perde o primeiro jogo com a Suíça e depois é levada ao colo. Levada ao colo, não; é levada no andor. A Espanha foi levada no andor no segundo jogo da fase de grupos, com o Chile. Expulsaram um chileno e tudo. Nos oitavos, Portugal e Espanha decidido por um golo em fora-de-jogo. Se o árbitro apitasse falta, que jogo teríamos? Imagina que Portugal eliminava a Espanha, podia ser campeão do mundo.

São coisas, detalhes.

Como o Euro-2016. Passámos do insucesso para os quartos-de-final num abrir e fechar de olhos, em terceiro lugar do grupo. De repente, vamos à final. E, verdade seja dita, há uma sensação de alguma injustiça com a derrota da França. Quer dizer, o Rui Patrício faz um jogo do outro mundo e ninguém fala no Rui Patrício.

Para mim, é o melhor de Portugal.

Mas é que nem há a mínima dúvida, o Rui Patrício foi o nosso Pelé. Fez tudo, ou quase; só não fez golos. E não os fez porque não foi preciso, senão teria ido à outra área e marcava. Tenho a certeza que sim. Em 2016, o Rui Patrício confirma-se como melhor guarda-redes do mundo. Não há Neuer nem Buffon, é o Rui Patrício. E não digo por ser português ou isso, é porque vi-o fazer coisas que nunca o tinha visto fazer. Ele esteve num nível acima da média, acima do normal. Craque, estrela. O Rui Patrício faz os jogos todos, os minutos todos, defende o penálti com a Polónia no desempate e faz duas defesas na final, de ir buscar a bola lá ao canto superior, de ficar de boca aberta. Aquelas bolas eram golo.

Falas de guarda-redes e lembro-me de te ver com luvas nas Antas, para a Supertaça.

O Costinha foi expulso e lá fui à baliza. Ou era eu ou o Carlos Xavier, só que eu era o capitão e assumi.

Estavas nervoso?

Nãããã, tranquilo. Até porque os gajos do Porto começaram a rematar de longe a achar que era fácil. Ahahahah. Depois, perceberam e começaram a aproximar-se da área com cruzamentos, só que eu esbarrava num portista e gritava aaaaaaahhhh. Resulta sempre, é falta. Ahahahahahah. Acaba 2-2 e não sofro golos. Ainda hoje, quando me vê, o Pinto da Costa diz-me ‘és dos poucos guarda-redes do mundo que se pode gabar de não ter sofrido qualquer golo nas Antas’. O engraçado é que estive quase para jogar pelo Porto.

Quando?

Na era Jorge Gonçalves, quando estivemos sete meses sem receber ordenados. Havia gente a sair para todo o lado e, um dia, o Pinto da Costa reuniu-se comigo para oferecer-me contrato. Ele sabia de tudo ‘tu ganhas isto e isto, eu vou-te oferecer isto, vou dar-te dois anos de contrato e uma coisa que te garanto: ainda vais ser campeão nacional esta época’. Ahahahah. Curiosamente, o Porto foi mesmo campeão.

E tu, o que lhe disseste?

Fiz questão de ir lá acima falar pessoalmente para agradecer o convite e dizer-lhe ‘obrigado, mas não obrigado’. É daquelas coisas, tu és capitão do Sporting, tens de ficar. É que o Sporting estava a passar por um processo complicado e eu sabia que o Jorge Gonçalves estava a fazer tudo para nos pagar, só que não havia dinheiro.

Saíste duas vezes do Sporting, uma para a Real, outra para o Toulouse.

Fizemos o último jogo da época nos Açores, um amigável com o Santa Clara, e lembro-me que o presidente, o Doutor Roquette, deu uma entrevista no avião a dizer ‘o Oceano vai assinar mais um ano por tudo o que tem feito, coiso e tal’. Só que houve confusão com o Carlos Manuel e senti que estava a ser um instrumentalizado pelo próprio Sporting.

De que maneira?

O Sporting queria um treinador estrangeiro, mas ainda não tinha nenhum. Então o que é que me prometeu? Um contrato de cinco anos em que seria o adjunto do próximo treinador [Mirko Jozic].

E?

Queria jogar mais um ano, pensava lá em seguir a carreira de treinador. E depois não aceitei porque sabia que havia uma lista de dispensas e os nomes eram os de Pedro Martins, Pedro Barbosa, Paulo Alves, eram uns 11 e eu disse ‘fogo, isto é um presente envenenado: estes gajos foram companheiros durante estes anos todos e vou pôr a minha assinatura debaixo destas dispensas? não, nem pensar’ E fui de férias. Quando voltei, estava desmotivado para jogar em Portugal e apareceu o Toulouse. Sabes o que fazia se fosse hoje?

Diz.

Aceitava os cinco anos de contrato do Sporting e depois dizia que não concordava com aquela lista de dispensas. Era o que eu devia ter feito, mas, naquela altura, não queres assinar esta merda. Não são só amigos, são jogadores da seleção, que têm condições mais que suficientes para jogar no Sporting. Havia realmente jogadores que tinham que ser dispensados, mas não estes. A meio dessa época que tinha acabado, o Carlos Manuel trouxe uns 15 jogadores e ficámos com um plantel de quase 40, a maioria deles eram miúdos. Geri aquilo emocionalmente e o que devia ter feito era dizer ao presidente ‘então acabou de dizer ontem que ia assinar comigo por mais um ano e agora está a dar o dito por não dito, só porque está com o cuzinho apertado; não vou facilitar a vida, não vou aceitar isso.’

E lá em Toulouse?

Foi bom conhecer mais um país, mais um campeonato. Mudámos de treinador a meio: saiu o Guy Lacombe, o do bigode, entrou o Giresse. E o Giresse dizia-me ‘com a tua idade e com a tua experiência, podes treinar quando quiseres; se não te apetecer vir treinar, mandas-me uma mensagem e eu envio o médico a tua casa só para justificar a tua ausência; não te preocupes, só preciso de ti nos jogos.’ E aquilo até era tentador, porque, às vezes, acordava e estavam -13 graus, fosgasssss, ahahahahahah. Só que depois não estava a ser honesto. Nem com ele nem comigo. Quando já não te sentes motivado para treinar, é o fim. E então cheguei a acordo para sair, a um mês do fim do campeonato.

Mesmo assim, marcaste em quatro jornadas seguidas.

Estive bem e, embora não tenha feito a época até ao fim, fui o melhor marcador da equipa, com seis golos. Marquei ao Mónaco e ao Marselha. Foi só para convencer os gajos de que era mesmo bom, ahahahahahah.

Deu tempo para fazeres amigos por lá?

Fiquei muito amigo de um jogador que era meio francês, meio espanhol, o José Cobos. E fiquei amigo de um guarda-redes, o Teddy [Richert]. Nem imaginas o que lhe aconteceu: a meio de um Marselha-Toulouse, lá no Velódrome, o Dugarry, avançado do Marselha, foi à bola e chocou com ele.

Grave?

Grave? Nunca vi nada disso. Já vi pernas partidas, pés ao contrário, agora aquilo.

Desembucha.

O Dugarry cravou-lhe o piton na glande do pénis e aquilo rasgou-se tudo até cá abaixo, até aos testículos. Nunca vi nada assim, arrepiante. Era ver toda a gente com as mãos na cabeça, tudo em pânico e só sangue a esguichar por todo o lado. Aquilo nem era esguicho, era mesmo jorrar. Jorrava sangue por todo o lado. Primeiro no relvado, depois no balneário. O Dugarry ficou tão impressionado que até pediu para ser substituído e nós começámos a jogar outra coisa que não futebol. Cada vez que alguém tocava em alguém, era excuse-moi para ali, excuse-moi para aqui. Tudo cagado, ahahahah. Também foi o momento em que os jogadores começaram a usar aquela proteção dos gajos da esgrima, ahahahahah.

E o Teddy, como é que ficou?

Teve de ser operado durante 36 horas, voltaram a juntar-lhe tudo entre veias e tendões. Era ainda um puto novo, de 20/21 anos. Que ultrapassou o drama, com o tempo e muita psicologia, porque aquilo mexe com tudo, virilidade e tal, e chegou a ser convocado para a seleção francesa. Só lhe dizia isto ‘tu liga para mim quando deres a primeira queca’. E ele ligou. Respondi-lhe c’est magnifique. Também me ligou quando soube que ia ser pai. Acho que agora já tem dois ou três filhos.

Que susto do caraças.

Só de pensar, fico arrepiado.

Há situações beras no futebol. Conheces mais?

Iordanov, por exemplo.

Xiiiiiii, pois.

Curiosamente, sou eu o primeiro a saber que ele tinha esclerose múltipla. O doutor veio falar comigo. E, nessa altura, há um vice-presidente do Sporting que faz uma declaração estúpida sobre o fim do futebol para o Iordanov. Sabes o que fiz?

Quero saber, acompanhei esse processo de perto.

Como aquela declaração do vice saiu numa revista, recortei a página e entreguei-a ao Iordanov: ‘ò, vais pôr isto aqui no teu cacifo e um dia, depois de fazeres um grande jogo, ele vai entrar no balneário e mostras-lhe isto’. Assim foi. Ele voltou ao futebol e até marcou. Mas, claro, nesse processo, há momentos em que te vais abaixo. Aí, apoiava-o sempre. O doutor Fernando Ferreira também o ajudou. Eu dizia-lhe: ‘tiveste um acidente em que partiste a coluna, em que a tua medula começou a sair, em que qualquer um fica paraplégico ou tetraplégico, e o que é que os gajos te fizeram? Agarraram-te no meio do acidente, meteram-te na parte de trás de um carro e foram a conduzir uma hora e meia até ao hospital, contigo ao telefone com o doutor? Portanto, se tu não ficaste tetraplégico e se tu não morreste, é porque não vais morrer. O que é esta merda? Esta merda não é nada, isto não é nada e vais continuar a fazer a tua vida’. E ele, que era um mouro de trabalho, continuo a sua vida. Até hoje.

Estás a falar do Iorda e lembrei-me do Cherba.

Aí estava ainda em Espanha, na Real. Conhecia-o só de ver jogar e achava-o fabuloso. Curiosamente, estive assim [Oceano aproxima o polegar e o indicador] de jogar com ele no Sporting.

Ai sim?

O Robson queria-me no Sporting. À sua maneira, disse-me ‘tu experience, great player, attitude, we need this, i need you’.

E tu?

Já estava naquele fase torta com a Real Sociedad e não ia renovar contrato, só que depois dá-se o adeus do Robson, o acidente do Cherba. Nem joguei com o Cherba ao meu lado, nem fui treinado pelo Robson.

Mas voltaste ao Sporting.

Porque o Queiroz disse-me ‘gostava muito de te ter aqui’. E fui, claro. Agora o Robson, ele falava dos miúdos com um entusiasmo. Nunca vi um velho tão animado. A sério, notava-se que aquela equipa era a dele. Ou melhor, ele sentia que podia fazer uma coisa fora de série com aqueles miúdos nos próximos dez anos. E, afinal, não. Saiu e foi campeão no Porto. Curiosamente em Alvalade, há ironias do destino, mesmo. Mais uma vez, o Pinto da Costa foi inteligente.

Essa do Sporting cheio de miúdos lembra-me os anos 80.

Mário Jorge, Litos, Futre, Venâncio, Morato, Fernando Mendes, tão bom.

E o dia dos 7-1?

Ninguém esperava aquilo, nem o Manuel Fernandes. O Manel marcou um golo e, durante os festejos, sentiu uma coisinha ali. Queria sair e nós ‘fica mais um bocadinho’. Depois ele marcou outro golo, mais um e tal, acabou nos quatro, ahahahahah. Ao intervalo, o jogo estava completamente aberto, 1-0. Na segunda parte, saiu-nos tudo bem. Se o jogo demora mais cinco ou dez minutos, era 10-1 porque a gente não pensava as jogadas, simplesmente executava-as. Foi um dia fabuloso, inesquecível. E depois do jogo?

Isso é uma pergunta?

Ah poizeeeeee [Oceano contorce-se todo a rir]. Fomos jogar bingo e fizemos todos bingo.

Nããããããã.

Digo-te, a sério: fomos jantar, entrámos no bingo e fizemos todos bingo.

Bar aberto.

Grande grande noite, um ambiente do caraças.

Grunhos…

…ou, recordando Sophia, os novos abutres!

«O velho abutre

 

O velho abutre é sábio e alisa as suas penas

A podridão lhe agrada e seus discursos

Têm o dom de tornar as almas mais pequenas»

Sophia de Mello Breyner Andresen | "Livro Sexto", 1962

 

Todos nós, sportinguistas, estamos desgostosos com este início de época - não faltam exemplos neste espaço -, mas não se pode pactuar com isto.

Isto não representa o adepto do Sporting!

Hilário, por António Simões

«Grande defesa, bom jogador, menção incontornável, excelente amigo, homem grande. Hilário é uma figura emblemática do futebol luso, mítica no Sporting Clube de Portugal. Importância maior, um ser humano cativante pela sua bonomia, pela sua sinceridade.
Para um defensor, mais do que qualquer outra coisa, a retaguarda é o começo de tudo. O meio e o fim? Logo se vê. O pensamento está sempre orientado para o preceito de proteger o setor mais recuado. Hilário era uma excelente sentinela, não queria que lhe penetrassem o castelo. Tinha o sentido de entreajuda, não há solidez possível sem cooperação. Atacar a fortaleza do adversário? Isso era o passo seguinte, caso a traseira estivesse intacta e firme.
Eu estava sempre (exceção feita aos jogos da Seleção) no outro lado da trincheira. Na zona do Hilário, era difícil acampar, passar, circular, jogar. Ele não se distraía, lesto para impedir que o adversário brilhasse. Não permitia que o seu corredor fosse responsável pela perda da batalha. Se a derrota acontecesse, era no limite da sua entrega.
Defendia com simplicidade, dava o que sabia, dava tudo. Tornou-se um dos melhores laterais canhotos de sempre. Com processos básicos, sem inventar, alardeava seriedade, dedicação e entrega permanentes. Para o Magriço, meu companheiro na defesa das cores nacionais, o lema era treinar bem para responder melhor. Aproveitava os ensaios, encarados com responsabilidade, como de jogos se tratassem, para aprimorar os seus recursos.
Na turma portuguesa, tê-lo nas costas era um sossego. «Vai, que eu fico», ouvi tantas vezes. A sua mensagem era também atestado de garantia. A minha liberdade era tanto maior quanto a vigilância apertada do Hilário à asa esquerda da nossa equipa. Inteligente, servia bem, tinha uma visão de jogo de imensa qualidade. Não enjeitava responsabilidades, assumia-as. Dava tudo o que tinha, provando que uma individualidade, no cume do esforço, contagia o coletivo.
Em termos humanos, Hilário foi simplesmente do melhor que encontrei ao cabo de tantos anos de futebol e de convívio com pessoas de outras sensibilidades dominantes. Humilde, modesto, bem formado, entendeu como poucos os valores da amizade e da solidariedade. Leal aos amigos, sempre disponível e prestável para qualquer intervenção. Ainda divertido, excelente contador de histórias, mais entusiasmo e muito carinho. Foi e é ótimo estar na sua companhia. Tem graça, congrega, suscita gargalhadas em profusão.
Hilário jogou muitos anos com e contra vários jogadores. Defrontou adversários de enorme calibre, intérprete de duelos rijos, em especial com o brasileiro Garrincha, que considero o melhor extremo-direito de todos os tempos. Mesmo em ambientes escaldantes, Hilário nunca se deu por vencido. Lutou até à exaustão. Todos os seus oponentes diretos lhe dedicaram o maior respeito. Que maior elogio poderia ter?»

Simões, António - António Simões : Personalidade e reflexões... Matosinhos : Cardume Editores, 2017. pp. 69-70

«113 anos de História, 13 nomes»

O Sporting lançou uma campanha para que se escolham 13 nomes para serem imortalizados no Pavilhão João Rocha.

 

Reduzir a história do nosso clube a 13 nomes é, por certo, redutora e injusta. Porém, aceitando o desafio, e fugindo um pouco aos critérios definidos, aqui fica a minha escolha:

 

  1. José de Alvalade

 

  1. Francisco Stromp
  2. Fernando Peyroteo
  3. Vítor Damas
  4. Manuel Fernandes

 

  1. António Livramento

 

  1. Carlos Lopes
  2. Fernando Mamede

 

  1. Joaquim Agostinho

 

  1. João Benedito

 

  1. Mário Moniz Pereira
  2. Aurélio Pereira

 

  1. Manuel Marques

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