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És a nossa Fé!

Golo de Escorpião

Por falar em "almejar", caro Pedro Oliveira.

 

«GOLO DE ZICO

 

Foi em 1993. Em Tóqui, o Kashima disputava a Taça do Imperador. Contra o Tohuku Sendai.

O brasileiro Zico, estrela do Kashima, marcou o golo da vitória, que foi o golo mais bonito da sua vida. A bola chegou num cruzamento da direita. Zico, que estava na meia-lua da área, atirou-se a ela, mas o impulso foi excessivo. Quando se apercebeu que a bola tinha ficado para trás, deu uma cambalhota no ar e, em pleno voo, com a cara para o chão, rematou-a de calcanhar. Foi um pontapé de bicicleta, mas ao contrário.

- Contem-me como foi esse golo! – pediam os cegos.»

 

In.: GALEANO, Eduardo - Futebol ao sol e à sombra. 1ª ed. Lisboa : Antígona, 2019. p. 235

João Rocha, numa entrevista ao Record…

em 15 fevereiro 2006:

 

RECORD – Está preocupado com o Sporting a cerca de quatro meses de eleições?

JOÃO ROCHA – O Sporting está a atravessar a pior crise dos seus 100 anos. Convinha, no entanto, esclarecer, até porque os mais jovens não o sabem, que quando veio a revolução, os clubes passaram por uma crise muito grande, concretamente na altura do PREC. Eram, no fundo ‘presas’ a tomar de assalto. Criaram-se decretos e portarias à luz dos quais os jogadores se transferiam livremente, bastando uma carta. O Sporting passou essa crise colaborando em algo que era necessário, ou seja, apostando na massificação do desporto em Portugal. Não havia ginásios nem pavilhões e o Sporting começou por ter logo 15 mil atletas, um recorde. Nenhum clube da Europa o conseguia, nem o próprio Barcelona.

 

RECORD – Que acções foram levadas a cabo?

JOÃO ROCHA – Fizeram-se ginásios, pavilhões e compraram-se terrenos. Dinamizámos o desporto em Portugal. A ginástica foi de Norte a Sul do País com várias equipas. Promovemos as modalidades junto de entidades como os bombeiros, diversos tipos de associações, polícia, escolas, etc. Introduzimos em Portugal as artes marciais e a dinamização junto das instituições referidas foi a mesma.

 

RECORD – Disse-me que o clube comprou terrenos. Isso quer dizer que o património também cresceu?

JOÃO ROCHA – Começámos a ter um património invejável. Pagámos as dívidas do passado e sempre com dirigentes que nunca ganharam nada. Foram centenas de pessoas a participar neste projecto de servir o Sporting gratuitamente. O clube tem de estar grato a esses dirigentes que pagavam, inclusivamente, hotéis, e passes dos jogadores das modalidades de forma desinteressada. Com tudo isto, o Sporting passou a ter a primazia do desporto em Portugal e a ser a maior força desportiva nacional.

 

RECORD – Essa força foi consubstanciada em mais títulos do que os concorrentes?

JOÃO ROCHA – De tal forma que nos primeiros 10 anos após a revolução, o Sporting tinha 22 modalidades e ganhou 1.210 títulos nacionais e 52 Taças de Portugal. Conquistámos 8 taças europeias em 7 anos, tínhamos 105 mil sócios e, no futebol, entre campeonatos, Taças e Supertaças, o Sporting conquistou 8 títulos contra 10 do Benfica, 6 do FC Porto e 3 do Boavista. Conseguimos reconquistar o estatuto vivido, por exemplo, no tempo dos cinco violinos. Finalmente, juntando provas nacionais e europeias de alta competição, ganhámos 47 títulos contra 20 do Benfica e 13 do FC Porto, ou seja, mais do que os dois rivais juntos. Acrescente-se que mandámos uma equipa de ciclismo à Volta a França. Nenhuma equipa europeia com futebol o fez por duas vezes como nós. Foi importantíssimo para o país.

 

RECORD – Hoje em dia o panorama é, de facto, diferente. Como sente o clube?

JOÃO ROCHA – Quando saí, deixei o clube sem dívidas, com passivo zero, jogadores valorizados zero, estádio valorizado zero, tudo a preço zero e nada reavaliado. Além disso, 300 mil metros quadrados de construção aprovada, o que em termos actuais e se o Sporting tivesse sido administrado como deve ser, faziam dele hoje um dos maiores clubes da Europa. Só nesses 300 mil metros quadrados tinha um valor de 120 milhões de contos.

 

RECORD – Porque é que, na sua opinião, o Sporting não seguiu esse caminho ascendente?

JOÃO ROCHA – Eu saí. Não podia ficar, porque tinha uma doença grave. Nos últimos dois anos, já assistia deitado às reuniões da direcção. Só bebia leite e um médico americano disse-me que eu tinha de decidir entre a morte e o Sporting. Eu queria viver mais alguns anos e saí. Depois, o passivo foi aumentando ao longo dos anos, até que chegou José Roquette com o seu projecto.

 

RECORD – Um projecto que encheu de esperança todos os sportinguistas...

JOÃO ROCHA – O Projecto Roquette liquidou o Sporting. Ninguém soube o que era o projecto, porque ele não dizia. Sabia-se, apenas, que era uma dezena de sociedades, dirigentes e funcionários superiores a ganhar centenas de milhares de contos. O projecto foi reduzir os sócios de mais de 100 mil para pouco mais de 30 mil, foi acabar com as modalidades amadoras, foi vender património, foram dezenas e dezenas de milhões de contos de prejuízo que não aparecem nos resultados, porque parte deles foram executados pelo Sporting. No caso da SAD deram-se informações falsas aos associados e à própria CMVM para a entrada na bolsa.

 

RECORD – Comos se explica isso?

JOÃO ROCHA – O que lhe posso dizer é que era tudo tão bom que ele próprio, José Roquette, ia subscrever capital e a primeira coisa que fez quando saiu foi vender todas as acções da SAD que tinha comprado. Isto levou os sócios a perderem quase 14 milhões de contos só na subscrição e nos resultados negativos.

 

RECORD – Você assistiu a isso sem nenhum tipo de reacção?

JOÃO ROCHA – Antes pelo contrário. Numa assembleia da SAD e para defender os interesses do Sporting, lembrei que ao abrigo do Artº 35, a Sociedade tinha de acabar, mas havia uma possibilidade que era a reavaliação dos jogadores, repondo capital necessário na SAD para esta não ser extinta.

 

RECORD – Muito objectivamente, na sua opinião, José Roquette é o responsável pelo actual passivo do Sporting?

JOÃO ROCHA – O Projecto Roquette liquidou o Sporting. Disso já não restam dúvidas. Queria gerir o clube ditatorialmente e a primeira coisa que fez foi fechar as portas aos jornalistas nas assembleias gerais. No meu tempo, havia uma bancada só para os jornalistas. Não tínhamos receio de nada.

 

RECORD – Recordo-lhe que na altura da entrada de José Roquette foi dito por muitos elementos do universo leonino que o clube se encontrava em falência técnica. Lembra-se?

JOÃO ROCHA – Quando José Roquette entrou, o clube estava numa situação caótica, mas ele aceitou um passivo de 4 milhões de contos e, actualmente, ascende a 60 milhões de contos. É uma diferença enorme. Mas esse não é o grande problema. É preciso ter em conta os prejuízos, os quais foram colmatados com a venda de património e a reavaliação de todo o activo, incluindo jogadores. Esses prejuízos não foram contabilizados.

 

RECORD – Mas o clube também se valorizou patrimonialmente. Concorda?

JOÃO ROCHA – Fez-se a Academia e o estádio, mas nada disso é do Sporting. Mesmo que se venda aquilo que se está a propor vender, ainda vamos continuar a dever o estádio, que é fruto de compromissos com a banca e do contributo de alguns sócios que ajudaram em muitos milhares de contos, comprando lugares cativos.

 

RECORD – Um projecto totalmente falhado, no seu ponto de vista. Porquê?

JOÃO ROCHA – É muito simples. José Roquette julgava que o Sporting era uma operação tão fácil com a do Totta, em que ele, numa operação ilegal, ganhou 20 milhões de contos sem pagar um tostão de impostos e, ainda por cima, acabou por comprometer aquele que foi recentemente eleito Presidente da República, Cavaco Silva.

 

RECORD – Uma forte acusação. O que sabe desse processo?

JOÃO ROCHA – Não quero falar nisso neste momento, porque me interessa mais o Sporting.

 

RECORD – Lembro-me que durante o mandato de José Roquette, você se revoltou com acordos que nunca ficaram esclarecidos, nomeadamente entre o Sporting e o FC Porto. Quer revelar pormenores em relação a isso?

JOÃO ROCHA – Havia um projecto com o FC Porto que era muito prejudicial para o Sporting. Era mesmo inqualificável. Insurgi-me num Conselho Leonino e numa assembleia geral. Era um projecto gravíssimo que só podia sair da cabeça de um indivíduo sem responsabilidades. José Roquette dizia que era um projecto válido, porque era a única maneira de Sporting e FC Porto estarem sempre representados na Liga dos Campeões.

 

RECORD – Vai concretizar ou continuar a guardar trunfos?

JOÃO ROCHA – Não digo mais nada sobre isso. Foi falado no Conselho Leonino e eu disse ao líder da AG para mandar calar sobre essa informação, que foi longe demais. Disse-lhe ainda que o resumo do acordo com o FC Porto devia ser gravado de tão grave que era, porque talvez fosse necessário que essa gravação viesse a ser pública na defesa dos interesses do Sporting e dos seus sócios. Não vejo o desporto assim.

Imagine-se...

... cada um de vós, presidente do Sporting.

Constatam que há um ou dois, ou quiçá mais, jogadores em que se projecta um enorme potencial. Porém o Sporting não é dono de 100% do seu passe.

Como presidente do Sporting como havemos de proceder?

 

1 – Não fazer muito alarido e tentar comprar o que resta do ‘passe’ deste jogador, pela melhor verba possível, junto do clube que detém o remanescente desse ‘passe’?

 

ou

 

2 – Anunciar a ‘sete ventos’ que esse jogador é um craque, é uma maravilha, que o Sporting irá fazer fortunas com a futura venda do seu ‘passe’ e depois ir negociar a compra do que resta do ‘passe’, junto do clube que detém o remanescente desse ‘passe’?

Como é que diz?

Diz o Sr. Presidente do nosso clube, Dr. Frederico Varandas, a propósito do nosso treinador:

«...o atual treinador do Sporting [Rúben Amorim] muito dificilmente não estará num dos grandes clubes europeus dentro de três ou quatro anos.»

 

Repito:

«muito dificilmente não estará num dos grandes clubes europeus dentro de três ou quatro anos.»

 

Pergunto-me:

Que clube pensa ele que preside?

Vandalismo, onde?

(foto CM)

Leio esta notícia, num qualquer site de jornal (sem registo Nónio, que melga!) «adeptos do Benfica respondem a vandalização de mural com novas pinturas de glórias do clube» e, confesso, fico com uma grande dúvida:

Esta pintura mural não representa, ela própria, um acto de vandalismo?

Reparo que se trata de um espaço público e não acredito que nenhum poder público tenha dado qualquer autorização para ela existir.

Assim sendo onde está o acto de vandalismo?

Pintar aqueles retratos ou colocar, sobre eles, umas boas bigodaças.

“Elogio da estupidez”…

… é o título de uma canção de uma banda de música, ‘Os Pinto Ferreira’:

Lembrei-me esta música a propósito do regresso da 1ª Liga, uma perfeita estupidez, uma vez que:

 

Jogos Olímpicos – Tóquio 2020: suspensos

Campeonato Europeu de Futebol 2020: suspenso

Campeonato Belga: terminado

Campeonato Francês: terminado (Jesé - esse craque - sagrou-se campeão pelo PSG)

Todos os campeonatos nacionais das modalidades extra futebol: terminados

Campeonatos não-profissionais de futebol: terminados

2ª Liga de Futebol: terminada

 Liga: jogue-se!

 

Simplesmente…

A quem interessará esta irresponsabilidade?

Ocorre-me então o que recentemente foi publicado no New York Times (“Um clube de futebol como um estado soberano”) e fico esclarecido!

Leituras

A propósito do Dia Mundial do Livro - que se celebra amanhã -, da Liberdade - que se comemora no próximo sábado - e do antigamente...

 

«Caxias, início dos anos 60

Passara seis anos a dactilografar adendas a processos. Raramente fora autorizada a subir aos andares superiores da sede na Rua António Maria Cardoso, mas isso não a impedia de conhecer o que ali se fazia aos presos. À primeira vista, parecia uma dactilógrafa como as outras: dizia piadas agradáveis e bem aceites, sorria com generosidade às colegas e aos agentes e não se poupava nas discussões sobre o seu Benfica. Esforçava-se por criar laços de cumplicidade, era enorme o esforço investido para que os agentes não ocultassem na sua presença as histórias sobre os detidos. Essas eram as conversas que verdadeiramente lhe interessavam, como se todos os outros assuntos fossem um recurso para desvendar o que se passava nos andares de cima. Também nessa rotina diária, aparentemente ligeira e risonha, lia com redobrada atenção os processos que passava à máquina, tomando consciência das técnicas de interrogatório usadas para que os presos progredissem de informações triviais - nome, profissão, nome dos pais - para outras decisivas e comprometedoras. Percebia-se que, durante aquelas noites sem dormir, os detidos deslizavam para dentro de um nevoeiro denso, faziam conjecturas, alternavam o maior dos pessimismos com a incerteza de poderem escapar, e o normal era saírem condenados e quase sem saber quem eram.

Depois de ler tantos processos, não havia ninguém mais preparado do que Maria Helena para interrogar novos suspeitos. Por estranho que possa parecer, sempre acalentara expectativas em relação à possibilidade de uma carreira na PIDE. Aliás, aos seus olhos, o conjunto da sua vida futura dependia do êxito ou fracasso dessa obstinada esperança. A ocasião surgiu ao fim de seis anos, quando foi necessário enviar agentes e inspectores para o Ultramar e os serviços se viram forçados a abrir concursos para agentes femininas.

Foi chamada para a entrevista numa terça-feira de manhã, no gabinete de Óscar Cardoso. O inspector pediu que se sentasse enquanto folheava um dossier. Mantiveram o silêncio por largos minutos. Para Maria Helena, aquele inspector era um cavalheiro. Estudou a sua figura com interesse, e até com agrado, sem desviar os olhos. Cheirava a água-de-colónia e a cigarros Ritz; a voz era límpida como uma música; tinha as unhas bem cuidadas. Óscar Cardoso puxou de um cigarro, acendeu e apagou o isqueiro como se estivesse absorto, e finalmente acendeu-o, ganhando impulso para falar. Mais do que polícias, eram caçadores, tinham a caça no sangue, disse-lhe. Um bom agente, acrescentou, era aquele que era capaz de causar receio - neste ponto fez um gesto com a mão aberta para assinalar uma evidência. Referia-se ao medo físico, claro, e às consequências psicológicas que esse terror exercia no suspeito. Tudo dependia das técnicas de interrogatório e da capacidade em usá-las, desde as mais excessivas às que sugeriam apaziguamento e consolo. A paciência também era uma virtude. Quando se tinha paciência acontecia sempre qualquer coisa, o criminoso cometia um deslize ou a sorte pregava-lhe uma partida e acabava por confessar. Na PIDE, estava-se disposto a todo o tipo de jogadas que se podiam conceber. Não existia nenhuma possibilidade durante o interrogatório que fosse excluída de antemão. E quanto mais traiçoeira esta fosse melhor. Mentiras ao preso, falsos testemunhos de outros detidos, intrigas, difamações, ameaças de morte. Valia tudo, desde que servisse para acelerar a confissão. Se Maria Helena quisesse seguir a carreira de agente era necessário que tomasse consciência destes procedimentos. «Se tem o mais ínfimo escrúpulo em relação àquilo que aqui lhe vai ser exigido, deve dizê-lo agora», advertiu-a.

Maria Helena não fingiu que tudo aquilo a apanhava de surpresa, no fim de contas, passava processos à máquina e já ouvira muitas conversas. Afirmou-se conhecedora das práticas dos interrogatórios e, mais do que isso, com vontade de colaborar. Afinal estavam em causa os superiores interesses da Pátria. Fez um esforço para não se gabar a um homem de modos tão delicados, mas sabia, por puro instinto, o que fazer para abrir a boca àqueles comunistas. Sobretudo quando se tratava de operários e camponeses. Marchas por jornadas de trabalho de oito horas? Operários que trabalhavam de manhã à noite e quase não tinham de comer? Patranhas! Lérias para dourar a pílula de que eram todos uns comunistas!

Durante uns segundos, o inspector ficou a observá-la. Era como se aqueles olhos rasgados a estivessem a avaliar. Em nenhum momento, Maria Helena perdeu de vista a possibilidade de ser rejeitada, pelo que aprimorou com redobrados cuidados o seu discurso sobre a defesa da Pátria. Não precisava de se ter alongado, a intuição de Óscar Cardoso era infalível a identificar os melhores agentes e aquela mulher nascera para aquele serviço. Dando a entrevista por terminada, o inspector avisou-a de que teria de se abster de falar do trabalho que ali fizesse a qualquer pessoa alheia à PIDE, incluindo familiares. Este último alerta transmitiu-lhe a convicção de que seria admitida.

As suas esperanças não foram defraudadas: Maria Helena ficou em primeiro lugar no concurso para agente de segunda classe. O que mais gostou depois de entrar para os quadros da polícia política foi o treino com armas. Sentiu-se verdadeiramente satisfeita quando lhe entregaram um pequeno revólver para trazer sempre consigo. Muitas vezes, durante o dia, mesmo naqueles momentos em que não estava de serviço, punha a mão dentro da mala e deixava os dedos deslizarem pela coronha. Um prazer visível estampava-se-lhe no rosto. A arma estava carregada, com a patilha de segurança colocada. Não chegava a tirá-la; silenciosamente fechava de novo o fecho-éclair, mas o facto de a saber em sua posse fazia-a sentir-se poderosa.

(…)

Nas longas noites de Caxias, nunca as detidas viram um sorriso no rosto de Maria Helena. No entanto, todos os colegas a consideravam uma mulher bem-disposta, de gargalhada fácil. Fazia caricaturas animadas dos presos com os outros agentes, não deixando, no entanto, de reportar com seriedade aos inspectores os incidentes do seu turno. Mas eram as conversas sobre futebol e o seu amor ao Benfica que permitiram que fosse incluída no grupo dos agentes masculinos. Às segundas-feiras, descrevia com frases tensas o jogo do Benfica na véspera, abordava as tácticas do treinador Bella Guttmann, narrava com exaltação as jogadas vitoriosas de José Águas e de Eusébio, numa conversa agitada e cheia de entusiasmo. Começaram a tratá-la por Leninha, um nome carinhoso que reflectia o contraste entre as ameaças sinistras com que confrontava os presos e a alegria quase frívola com que desfrutava da vida.

(…)

António [o filho] era uma fonte de preocupações para Maria Helena. Num dia em que o foi buscar à escola, perguntou-lhe se não era vergonhoso para uma mulher ter um filho sem ser casada. Não imaginava por que fazia o rapaz essa pergunta e defendeu-se dizendo que tinha sido casada com o seu pai. Mas não lhe contava a história verdadeira e também não lhe queria explicar por que o pai nunca o contactara. Na escola, as crianças mais velhas provocavam-no com perguntas. Seguindo as instruções da mãe, ele respondia que o pai tinha morrido, virando as costas perante a expressão de crueldade dos seus rostos, saindo dali desesperado. Maria Helena dizia-lhe para nunca fugir dos colegas, para se virar a eles se lhe batessem, mas António não conseguia deixar de correr a esconder-se nas traseiras da escola, onde podia chorar à vontade.

Era um rapazinho cobarde e essa era uma das facetas que Maria Helena mais detestava no filho. Se lhe gritava, se levantava a voz, dando-lhe uma ordem - «senta-te imediatamente»; «come tudo, se faz favor» era como se as palavras lhe imobilizassem o corpo. Ficava imóvel, como se só a paralisação absoluta lhe permitisse sobreviver à fúria da mãe. Além disso, não era uma criança inteligente. Demorara a aprender a ler e só passara para a segunda classe porque a professora sabia que a mãe pertencia à PIDE. Maria Helena, que não tinha medo de nada, receava as apreciações da professora sobre o filho, temia que confirmasse que o miúdo não era inteligente.

Pelo menos numa coisa António não a desiludira: era adepto do Benfica como a mãe. Foi o amante que conseguiu uma ida aos treinos da equipa para Maria Helena e para o filho. Nesse dia, António faltou à escola e Maria Helena conseguiu trocar para o turno da noite. Agostinho - era assim que ela passara a tratá-lo nos seus pensamentos mais íntimos, um pensamento fixo e cada vez mais determinado - foi buscá-los a casa para os levar ao Estádio da Luz. «António, vem conhecer o meu novo amigo», gritou Maria Helena quando tocaram à porta. O rapaz nunca tinha visto a mãe tão radiante, mas pensou que fosse por causa do treino.

Maria Helena agarrava a mão de António e puxava-o. Ele sentia-se especial por ser a única criança da escola a assistir a um treino do Benfica. Já no estádio, subiram as escadas e seguiram apressados por um longo corredor até à bancada. Ele observava de olhos fixos, ficando excitado com as fintas dos jogadores e Maria Helena gritava o nome deles. No fim do treino, puderam descer ao relvado e Coluna assinou a bola do menino. Nesse dia, quando a mãe o levou a casa da avó para passar a noite, António despediu-se com um abraço e, por uma vez, Maria Helena não o repeliu.

Por essa altura, Maria Helena e Agostinho Ribeiro já eram um casal com hábitos adquiridos. Tinham-se instalado nas suas rotinas e era muito difícil afastarem-se. Ela já não era capaz de renunciar ao amante - não que o amasse, mas substituíra os laços de amor pela vertigem do domínio. O nó entre eles era esse. A sua relação não era bordada a versos, mas pela cumplicidade do poder. Uma vez por semana iam a um restaurante e ele propunha-lhe que fossem para a cama. Invariavelmente, a conversa durante o jantar discorria sobre os casos que tinham em mãos ou sobre outros do passado («lembras-te daquela prisioneira que cantava durante a tortura do sono?»). Às vezes iam ao cinema, outras deslocavam-se ao Estádio da Luz para ver um jogo. Falavam dos problemas do filho de Maria Helena ou da débil saúde da mãe de Agostinho Ribeiro, mas o que lhes interessava verdadeiramente eram as histórias que contavam um ou outro sobre os detidos. A partir dessas narrativas desenvolviam as suas próprias fantasias e entregavam-se um ao outro como amantes.»

 

SILVA, Ana Cristina – As longas noites de Caxias. 1ª ed. Lisboa : Planeta, 2019. pp. 121 - 123, 127, 159 - 161

Um dia de Páscoa feliz

Uma das memórias da minha infância são as palavras do ti' Manuel Couceiro, o senhor da Irmandade que acompanhava o padre na visita pascal, dizia: "Boas Festas Espirituais; aleluia, aleluia! Cristo ressuscitou nesta cada e em todos que nela habitam. Aleluia, aleluia!"

Depois o padre aspergia água-benta, fazendo pontaria nos mais novos da sala, dizia uma oração e o ti' Manel dava depois a cruz a beijar aos presentes (aos donos da casa e respectiva família e amigos aí reunidos.

Recolhiam a côngrua, uma laranja, bebericavam um copo de vinho do porto, ou outro vinho doce, comiam uma fatia de folar, ou outro bolo e depois passavam à casa seguinte.

Era assim, muito resumidamente, a Páscoa na minha terra, um pouco semelhante a muitas aldeias deste país.

Hoje é diferente.

 

Um dia Páscoa feliz, para todos!

O jogo…

que no passado sábado fez trinta e oito anos.

(Sporting: 3 - Benfica: 1,  época 1981/1982)

No youtube pode encontrar um resumo deste jogo. (Ver aqui)

 

«Marques Pires apita para o jogo mais terrível da sua carreira. Os jogadores irrompem como feras acossadas e os primeiros dois minutos são disputados a alta velocidade como se a maratona se transformasse numa prova ao Sprint. Baroti e Allison, cada um em seu banco, permanecem silenciosos, como generais observando o movimento das tropas no campo de batalha. O ruído fica por conta das restantes quarenta mil gargantas.

Aos 12 minutos, numa bola junto da área do Sporting, Jordão toca para lá da linha de fundo. É pontapé de canto. Carlos Manuel marca com um pontapé sinuoso, que descreve uma curva larga, antes de se precipitar para a baliza. A bola sobrevoa Meszaros. Na linha de golo, Marinho cabeceia-a para longe, enquanto Humberto Coelho levanta os braços em festejo precoce. A trinta metros de distância, o fiscal de linha Rui Santiago levanta a bandeira e assinala ao chefe de equipa que a bola transpôs por completo a linha. Golo do Benfica.

«Garanto-lhe que a bola não entrou», exclama, ainda hoje, Marinho com indignação. «As minhas pernas estão dentro de campo e o corpo está alinhado na direcção do poste. Para mim, a validação do golo teve uma única explicação: o fiscal de linha tinha todos os adeptos do Benfica atrás de si, na bancada lateral. Assustou-se com os gritos e achou que foi golo.» A mesma percepção têm Meszaros, Lito e Eurico, jogadores próximos da jogada. Só Carlos Xavier intui que a bola terá cruzado a linha: «Em campo, fiquei com a ideia de que tinha entrado. E isso criou um ligeiro desnorte. Não é fácil entrar num jogo daqueles logo a perder na primeira ocasião do adversário.»

No Diário de Lisboa, Neves de Sousa sintetiza o sentimento geral de um derby que começa de forma tão peculiar, com um «tento que poucos viram [...], cortado de cabeça por Marinho, sem que alguém, em mundo terrestre, possa jurar pela saúde da mãezinha e com mão sobre a Bíblia, que o ex-futuro-próximo bracarense estava com a tolinha para além do risco de cal».

Eurico mora então em Ponte de Frielas e o árbitro Marques Pires gere uma pequena boutique, a Túlipa Negra, em Loures. Por acidente, encontram-se nos dias subsequentes ao jogo. «O próprio árbitro não sabia se a bola tinha entrado, mas o sinal do fiscal de linha fora categórico», lembra Eurico. «E o Marques Pires disse-me: “Por culpa desse lance, da dúvida se teria ajuizado bem, não andei seguro no resto da partida.” Julgo que esse lance interferiu com as restantes decisões porque o árbitro passou toda a primeira parte a remoer se teria validado um golo sem razão.»

Sete minutos mais tarde, com o Sporting a pressionar a equipa rival em busca da igualdade, dá-se novo lance controverso na área adversária. «O Frederico entrou de “carrinho” e derrubou-me», conta Lito. «A bola seguiu para o Manuel Fernandes que foi igualmente derrubado pelo Humberto. À segunda, o árbitro marcou mesmo penalty.»

Jordão tem agora a prova de fogo, o teste aos nervos. Pouco importam as grandes-penalidades falhadas no Inverno. Este é um dos penalties mais importantes da sua vida. E o avançado marca-o com muita calma, enganando Bento, o guarda-redes benfiquista. «Senti uma força enorme quando o Jordão empatou», acrescenta Carlos Xavier. «Acreditámos todos que éramos melhores e que ganharíamos o jogo.»

Com os nervos à flor da pele, as duas equipas precipitam-se para os balneários no intervalo. Da tribuna de honra, João Rocha despede-se por momentos dos convidados e desce à cabine. «O presidente chegou até nós, disse algumas palavras de circunstância e aumentou o prémio de jogo. Ali, naquela hora, no calor do momento», conta Nogueira.

Na segunda parte, o Sporting começa a assenhorear-se do jogo. Vem à superfície a superior preparação física dos jogadores e a capacidade de Virgílio, Ademar e Nogueira para controlar todo o meio-campo. Lito é, na opinião do Record, a «gazua que tudo abriu». O jogo fica mais partido. Menos jogadores recuperam quando as respectivas equipas perdem a posse de bola. Num contra-ataque rápido, Manuel Fernandes é lançado em profundidade. O capitão acelera até à bola ao mesmo tempo que o guarda-redes do Benfica desliza na sua direcção. O embate é inevitável. Bento chega uma fracção de segundo mais cedo e agarra a bola. O jogador do Sporting choca com o guarda-redes e toca-lhe com a bota na nuca. Segue-se uma cena que entra de rompante para a galeria do derby inesquecível da capital.

«O Bento sai desenfreado, como se estivesse louco, na direcção do Manuel Fernandes», conta Lito, o jogador mais próximo do lance. «Julgo que nem se lembrou que o jogo não fora interrompido. Ainda ouço o Manei a gritar-lhe: “Tem calma, tem calma!"» O guarda-redes do Benfica agride com um sopapo o avançado do Sporting dentro da área e depois cai em si, pontapeando a bola para fora e agarrando-se à cabeça. Muitos anos mais tarde, em 2003, Manuel Fernandes recapitulou o lance ao jornalista Luís Miguel Pereira: «Ele estava cego. Só me disse: “És sempre a mesma merda!” e bate-me na cara. Quando senti o toque, atirei-me para trás. Hoje posso confirmar que simulei um bocadinho. Percebi que aquela atitude podia “entregar-nos” um bocadinho o jogo.»

Como João Alves lembrará no próprio dia do jogo, Bento passara pelo mesmo num jogo traumático em Famalicão três anos antes, sofrendo então um pontapé que lhe rompera o couro cabeludo e o levara a desmaiar no aeroporto de Pedras Rubras. A recordação desse incidente terá sido mais forte. E é provável também que o guarda-redes internacional tenha ficado então convencido de que o árbitro assinalara grande penalidade pelo contacto original. Semanas mais tarde, ainda a quente, o capitão do Sporting reconhecerá: «Tive de me conter e lembrar-me que estava muito em jogo para não responder e não prejudicar a minha equipa.»

No final, Bento acusa de Manuel Fernandes de repetir golpe idêntico já tentado pela CUF em jogo contra o Barreirense: «Já estou farto de levar pontapés na cabeça. Ele fez um teatro dos diabos. No cinema, os actores também não se agridem e toda a gente fica com a sensação de que eles se agridem violentamente.» Marques Pires lamenta não ter tido opção e lembra para quem o quer ouvir que até é barreirense como o jogador expulso, mas não pode socorrer-se do bairrismo para salvar os compadres da terra. Nos dias seguintes, notícias fantasiosas sugerirão que a expulsão fora a estratégia do árbitro para eliminar a concorrência comercial da boutique de Bento à sua loja de decoração!

No outro extremo do campo, Eurico goza a performance. «Conheci bem os dois e garanto que não foi intencional o Manei deixar o pé para magoar o Bento, mas foi intencional ficar quietinho à espera do embate. Até parece que o estou a ouvir, com aquele grito muito dele: “Aiiiii!” Caiu «desmaiado» e depois, no solo, abria um olho para ver o que estava a acontecer e que sanção estava o Marques Pires a assinalar. É daquelas histórias que ficam para sempre. Ainda perguntou do chão para grande irritação dos adversários: “O gajo já expulsou o Bento?” E nós: “Já, já está. Podes levantar-te!”»

Também a Luís Miguel Pereira, Manuel Bento recordará, já sem amargura, a noite mais difícil da sua carreira - na sua versão, a avaliação do lance é afectada por um factor que não controlava: «Só me esqueci de uma coisa: o Marques Pires é sportinguista. Devia ter pensado nisso antes de me encostar ao Manei. Apesar de tudo, no dia seguinte, fui almoçar com o Manuel Fernandes e continuámos amigos como sempre fomos.»

O jogo define-se neste instante. Com menos um, forçado a gastar uma substituição para colocar o guarda-redes Jorge Martins em campo e ainda perante uma grande penalidade a desfavor, o Benfica cede. Com a mesma calma impassível, como se tivesse gelo a correr-lhe nas veias, Jordão bate o penalty para o lado esquerdo de Jorge, enquanto Bento percorre todo o relvado, na companhia de Júlio Borges, chefe do Departamento de Futebol do Benfica, vaiado como nunca fora na sua vida. Em A Bola, Carlos Pinhão sintetiza a estupefacção geral: «Um “Hara- -Kiri” de Bento Fez de um OK... um KO!»

Dezasseis minutos mais tarde, aos 78, Manuel Fernandes faz um passe maravilhoso para a direita, solicitando novo Sprint de Jordão. O avançado remata, Jorge defende sem nexo, mas atrapalha-se com Bastos Lopes. Sem nunca deixar de acelerar, Jordão continua a corrida e toca a bola para a baliza deserta. Está feito o resultado (3-1) no derby do «chá, porrada e alguma simpatia».

Festeja-se como nunca nos bastidores de Alvalade. Exausto pela montanha-russa de emoções, como se ele próprio tivesse devorado quilómetros sobre a relva, João Rocha segreda a Neves de Sousa: «Eu estava a precisar de uma coisa destas.» Em contrapartida, Jordão, o homem do jogo, escapa-se sem uma palavra, sem uma entrevista, enquanto os colegas celebram uma vitória épica. Do outro lado da barricada, Bento e o avançado brasileiro Jorge Gomes quase que se pegam nos corredores e a condenação do acto irreflectido é generalizada. Como grande senhor do desporto, Baroti cumprimenta todo o banco de suplentes do Sporting e reconhece o mérito da vitória - é, naquele momento, a transmissão da coroa do rei para o sucessor, mostrada por cinco câmaras de televisão.

Nos dias seguintes, o Benfica refugia-se numa fuga em frente. O derby dará que falar e antecipa uma era mais feia, de contestação aberta à arbitragem e incapacidade de isenção no comentário desportivo. O clube encarnado prepara um protesto, alegando que o árbitro, durante a refrega na área do Benfica, mostrara ao mesmo tempo o cartão vermelho a Nogueira, recuando de seguida na intenção. Marques Pires é chamado a explicar-se e lembra que, com o suor, os dois cartões - amarelo e vermelho - saíram de facto do bolso. Jorge Gomes chega a acusar o árbitro de «parecer esgazeado», sugerindo que «se Marques Pires tivesse ido a um controlo antidoping, teria dado positivo». A televisão chama Júlio Borges para uma longa exposição em directo sobre os casos do jogo - hoje, os especialistas em comunicação chamar-lhe-iam o spin da mensagem dominante. Rocha protesta e solicita idêntico tempo de antena.

No Atlântico Sul, inicia-se a Guerra das Malvinas, mas, em Portugal, nada mais importa para lá do jogo. Quando um navio de guerra britânico a caminho da Argentina se detém por algumas horas em Lisboa, os marinheiros pedem para conhecer Malcolm Allison. «Ficaram lá só um dia, mas fizeram questão de ir a Alvalade cumprimentar-me. Que emoção!», lembrou Allison a André Pipa. Uma vez mais, ao cumprimentar esses homens que em breve entrarão em combate, o treinador inglês reconhece que a vida tem problemas bem mais complexos do que um mero jogo de futebol.

Entretanto, mais de uma semana depois do derby, o Benfica organiza ainda uma conferência de imprensa inédita no Hotel Altis: pede a irradiação de Marques Pires e procura projectar num ecrã gigante os lances controversos do encontro. É a primeira aplicação genuína da imagem televisiva ao debate futebolístico, mas a exposição não corre bem. «A montagem dava-nos jogadores e bola bastante desfocados! Uma certa frustração percorre a sala», regista o repórter do Diário Popular.

Com sete pontos de avanço sobre a concorrência, o título de campeão nacional parece garantido, mas Alvalade está ainda para conhecer a última faceta de Malcolm Allison, o irreflectido.[*]»

 

[*]: Foram eliminadas as notas de rodapé que acompanham este texto.

In: ROSA, Gonçalo Pereira, 1975 - Big Mal & Companhia : a histórica época de 1981-1982, em que o Sporting de Malcolm Allison conquistou a Taça e o Campeonato. 1ª ed. Lisboa : Planeta, 2018. p.238-244

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