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És a nossa Fé!

Memórias de Peyroteo (13)

(cont.)

 

« Em quase treze anos consecutivos tomei parte em centenas de jogos e marquei muitos golos pela equipa do Sporting e pela Selecção Nacional. O leitor curioso ou admirador de estatísticas, encontrará nos mapas que elaborei, os números que atestam o resultado de tantos anos em contacto permanente com a bola. Foram tantos os jogos (os golos em maior número) que não é possível., falar de todos eles. Recordarei, apenas, os que, em meu entender, merecem referência especial, entre os quais, claro está, se encontram os jogos internacionais. Vamos, a eles, portanto.

 

Os meus apontamentos - que poderão não ser exactos, diga-se desde já - registam como primeiro encontro internacional, o desafio Espanha-Portugal disputado em Madrid a 18 de Dezembro de 1921, e que foi, também, a nossa primeira derrota (3-1). A lista fecha com o 95.° jogo - Portugal - Hungria, disputado em Lisboa, e que empatamos por 2-2. Pela análise de tais apontamentos, concluiremos, na sua frieza confrangedora, pela pouca valia do futebol português, quando em confronto com as selecções de alguns países. E se não vejamos:

Em 87 jogos sofremos 46 derrotas, obtivemos 17 empates e conseguimos ganhar 24, o que representa 28% de vitórias nos 87 encontros disputados.

Ainda que pese ao nosso orgulho, temos de concordar que é muito pouco, não me escusando sequer a esclarecer que tomei parte em 20 desses jogos internacionais, tendo sofrido 9 derrotas, 5 empates e ajudado a conquistar 6 vitórias…»

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). p. 111

Memórias de Peyroteo (12)

(cont.)

 

«SOMA E… SEGUE

 

Pode dizer-se que foi depois do primeiro jogo oficial que começou, verdadeiramente, a minha carreira futebolística como avançado-centro do Sporting Clube de Portugal. Os primeiros treinos de conjunto, os jogos preparatórios que antecedem os campeonatos são em número suficiente para darem ao estreante um conhecimento tanto quanto possível exacto das qualidades e defeitos dos seus companheiros de equipa, ao mesmo tempo que estes se identificam com as tendências, qualidades e defeitos do estreante.

Sendo eu novato, as dificuldades estavam mais do meu lado do que dos restantes elementos da equipa, que já se entendiam perfeitamente, ao passo que o “novel avançado-centro” nem a si próprio se conhecia tanto quanto seria necessário para se enquadrar no conjunto sem alterar ou prejudicar o trabalho daqueles que, anterior- mente à sua inclusão, formavam uma equipa homogénea, possuidora de um padrão de jogo valioso, baseado em esquemas de jogadas estudadas e postas em prática durante anos consecutivos, e na variedade de tácticas adoptadas consoante a maneira de jogar dos adversários, também já deles conhecidos.

Para mim tudo era novo, desde a responsabilidade inerente ao desempenho do lugar de avançado-centro numa das nossas melhores equipas de futebol, até ao cuidado de actuar de modo a não prejudicar o bom rendimento individual dos meus companheiros. A todo o custo procurei evitar que a minha inclusão na equipa fizesse baixar a eficiência e o nível técnico do conjunto, e se é certo que nem sempre consegui o meu objectivo, não posso deixar dê dizer, por ser verdade, que pouco tempo foi necessário para -desempenhar a minha tarefa a contento de todos quantos directamente estavam ligados à equipa.

Com dificuldades? Sem dúvida! Quem as não teria í Mas estudei e trabalhei muito para as vencer! A par dos ensinamentos do treinador, sempre que se deparava ocasião propícia, conversava com os meus colegas acerca dos motivos por que se adoptara este ou aquele processo táctico, trocávamos impressões sobre a maneira de jogar dos nossos próximos adversários, estudávamos a melhor forma de os “bater” ou “anular”, enfim, procurei “instruir-me”, pedindo conselhos àqueles que sabiam mais do que eu, os quais, sempre de boa vontade, me ajudaram a levar de vencida as dificuldades que experimentei.

O Soeiro, o Mourão, Pireza, João Cruz, Rui Araújo, Aníbal Paciência, Jurado e mais tarde Armando Ferreira, estes foram os companheiros que, no princípio, mais directamente me auxiliaram. Citar os seus nomes é expressar-lhes a minha gratidão e reconhecimento pela leal amizade e camaradagem de que sempre deram as melhores provas, e acredite-se que, infelizmente, não é vulgar encontrar-se, numa só equipa, tão elevado número de sinceros, leais e bons camaradas.

Um facto que considero ter influído muito no êxito da minha vida desportiva, foi o de me interessar mais pelos adversários do que, propriamente, com os problemas relacionados com os jogadores da equipa de que fazia parte. Todos nós sabemos que o valor de um “team” de futebol não é mais do que o resultado do valor individual dos jogadores que o compõem; boas equipas sem bons jogadores, parece-me que não existem. Daí a minha atenção incidir mais sobre o valor individual do jogador ou jogadores com quem teria de lutar por virtude da nossa colocação no terreno, do que sobre a força global da equipa adversária, e isto porque cada jogador tem uma tarefa a desempenhar. Ora, mercê do estudo profundo que sempre fiz dos meus mais directos adversários, procurando conhecer os seus pontos fracos, muitas vezes os contrariei de modo a não permitir que dessem às suas equipas a colaboração que eles próprios e os seus treinadores esperavam e, com isso, não só cumpri melhor a minha missão, como prejudiquei um tanto o plano táctico da defesa contrária.

Mestre Sezabo, na sua inconfundível linguagem, expressava-se assim: “cada, cada, sinhores”, o que significava “cada um ao seu adversário”.

Os treinadores competentes, conhecedores, portanto, dos segredos do futebol, ao imporem aos seus pupilos a táctica a utilizar neste ou naquele encontro, não deixam de lembrar, também, que o estudo desse processo de jogo foi baseado, claro está, na habitual maneira de agir do antagonista. Ora, no decorrer do jogo tudo se poderá passar de modo diferente, pelo que os jogadores devem estar à altura de mudar de táctica se as circunstâncias de momento o aconselharem. Assim, se os seus pupilos, por sua vez, se entregarem ao estudo das tácticas do jogo e das características dos jogadores adversários, as dificuldades serão altamente atenuadas e o trabalho do treinador completa-se. Muitas vezes, com inteligência e saber, a nossa equipa foi buscar forças às fraquezas dos adversários e, quanto a mim, temos nestas simples considerações a explicação de muitas vitórias do “team” do Sporting, quando eu jogava no eixo do seu ataque: todos nós trabalhávamos com o corpo, com o cérebro e com a alma:

Corpo: - Persistência física, adquirida nos treinos intensivos a que nos submetíamos;

Cérebro; - Ouvir, compreender, interpretar e cumprir as instruções do treinador, além do estudo que fazíamos para bem conhecermos os nossos antagonistas;

Alma: - Vontade, abnegação, espírito de luta, orgulho, amor-próprio (brio), dignidade desportiva, respeito pela camisola que vestíamos.

Voluntariamente amarrado a esses princípios, fiz todo o possível por não os esquecer até final da minha carreira de futebolista. E tê-lo-ia conseguido? Suponho que sim, descontando-se, claro está, pequenas faltas cometidas e que são, afinal, próprias dos… homens.

Mas voltemos aos meus adversários…

Ao começar um jogo contra equipa mais ou menos estranha, a minha preocupação era a de experimentar o defesa que me cabia defrontar. Seria ele dos tais que me acompanhariam até fora do rectângulo se, no decorrer do encontro, me apetecesse beber uma laranjada no “bufete” do campo? Seria rápido na antecipação? Saltaria bem na disputa da bola pelo ar? Teria dois bons pés, ou um melhor do que o outro? Seria dos que fecha os olhos quando vai à bola? Jogará em subtileza ou em força?

Lutava com ele procurando “descobri-lo”, conhecê-lo e tentava explorar as suas fraquezas possíveis, sistema este que, por não se me afigurar mau, segui enquanto joguei futebol. Foi-me útil, e não só a mim como também aos meus companheiros de equipa, que, por seu lado, procediam de igual modo.

Resumindo; eu estudava o adversário ou adversários que me “guardavam” e a táctica de jogo da equipa, observando, também, a manobra dos outros jogadores quando em luta com os meus companheiros ; estes, necessariamente, faziam o mesmo relativamente ao que se passava comigo e com os meus opositores. Deste conjunto de circunstâncias resultava um melhor entendimento entre todos os sectores da nossa equipa e uma maior possibilidade de se jogar bem. Acentue-se, no entanto, que não é fácil, em dois ou três jogos, ficarmos a conhecer bem um jogador de futebol, quando ele, claro está, possui boa classe, sendo, até, possível nunca chegarmos a entendê-lo nas suas qualidades e defeitos. Mas essa verdade não deixa, por isso, de ser arma aproveitável para o jogador que com ele tiver de lutar. É de grande classe o nosso adversário? Pior para o desempenho da nossa tarefa. Há, então, que pôr na luta todas as nossas forças, de inteligência e saber, tentando ganhar alguns lances o que, com maior ou menor dificuldade, sempre se consegue. A questão está, depois, no aproveitamento desses deslizes do antagonista, que são, muitas vezes, mais provocados do que consentidos. Não esqueçamos que um e outro podem muito bem ser jogadores de classe semelhante…

Mesmo depois da minha longa carreira futebolística, reconheço não ter conseguido aprender tudo; muito ficou por saber! Ao contrário do que muita gente possa pensar, o futebol é um jogo difícil, como difícil é, também, conhecê-lo sob o ponto de vista técnico e táctico.»

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 108- 111

Memórias de Peyroteo (11)

(cont.)

 

«MUITO OBRIGADO, “MISTER” SEZABO!

 

Para iniciar a minha carreira desportiva no Sporting Clube de Portugal, fui entregue, como já se sabe, aos cuidados do grande treinador que é José Sezabo.

Tal como acontece a todos os futebolistas no momento do primeiro contacto com o Mestre, ouvi a sua prelecção habitual:

- “O senhor, para mim, quando entra em campo a fim de jogar futebol, não é o Peyroteo mas sim o número 9. Claro está que seria despropositado chamar: ó n.º 9! Não estamos na tropa, a chamar os magalas pelo seu número, mas, quando estamos a trabalhar, não interessam os nomes mas apenas os jogadores, o que eles fazem, como treinam e como jogam. Aqui não há amizades! Que me importa que o senhor se chame Peyroteo, se não jogar nada? O nome não conta, o que conta é o jogo, o seu interesse e respeito pela camisola que veste, a amizade com os camaradas da equipa, respeito pelo público e pelo adversário. O nome de cada um não tem valor quando não há bom jogo. Será melhor não ter nome e jogar bom futebol…”

Mestre José Sezabo repetia estas suas considerações sempre que algum dos seus pupilos - geralmente o Manuel Marques, mais conhecido pelo “Manecas” - dizia prever dificuldades porque o adversário à sua guarda se chamava fulano ou beltrano.

O Mestre, servindo-se do seu mau português mas dos seus profundos conhecimentos do futebol, dizia:

- “Sinhor Monecas, não brincar. Nem quê jogue Sinhor Presidente! Sinhor Monecas tem quê ir! Não dizer um coisa dê isso. Nome dê gajo não interessar; jogar bem, sinhor Monecas, jogar bem e ver como méter advérsário na algibeira dê colete. Espérteza, sinhor Monecas, sempre espérteza!”

Ora os treinos começavam às 8 da manhã mas, às 7,45, já toda a rapaziada devia estar equipada, em condições de entrar no rectângulo e a essa hora, Mestre Sezabo, de fato de treino e de boina na cabeça, devidamente equipado enfim, chegava à nossa cabine, pegava no apito que trazia pendurado ao pescoço, suspenso por um cordel bastante sujo, aliás, dava três estridentes apitadelas e exclamava:

- “Bom dia, sinhores. Vamos trabaiar. Qui está está ; qui non está non está e dar-se dez-per-cente para ele…”

Este “dar-se dez-per-cente”, era o mesmo que dizer que quem não estivesse à hora exacta no campo seria castigado com o equivalente a 10% do seu vencimento mensal, ou melhor, aquele “dar” equivalia a “tirar”…

Necessário se tomava entendê-lo, não fosse haver má interpretação, porque se aquele “dar” equivalesse mesmo a “dar”, estou crente que a rapaziada ficaria toda na cabine I As vezes, em dias de muita chuva ou frio, não era nada mau, mesmo que o “dar” fosse “tirar”, mas o pior é que sem fôlego não podiamos jogar futebol…

Vem a propósito contar que nessas manhãs em que, precisamente à hora de entrarmos no campo para treinar, chovia a potes, a rapaziada, conhecendo muito bem o seu treinador, e para o ouvir, dizia:

- “Isto não pode ser, “Mister” Sezabo! Como se pode jogar à bola assim com tanta chuva? Não vê que o terreno está cheio de lama e vamos escorregar muito?”

Resposta pronta:

- “ Cárágo, sinhores! Bom ideia! Ficar tudos a cabine, com um condição: fazer domingo árbitro não entrar a campo se estar dê chuva. Ser ideia bêstial, sinhores! Mas se árbitro entrar a campo e sinhores não estar habituados chão molhado e jogar mal, dar para sinhores um mês de ordenado de castigo! Estar bem? Estar bem, amigos?”

Em face de tais perspectivas, com chuva e vento, com frio ou calor, lá íamos treinar, acompanhados – sempre! - de Mestre Sezabo. Sim, porque ele apanhava a mesma chuva, sofria o mesmo frio, suportava o mesmo calor e afirmava orgulhoso:

- “Véliote (o mesmo que velhote) não cortar prego!”

Não raramente, comentando o que o Mestre dizia referindo-se ao nosso.pedido brincalhão, eu dizia:

- “El-Rei manda marchar, não manda chover!…” e, certa manhã, em vez de dizer aquelas coisas todas acerca do estado do terreno e da disposição do árbitro, Mestre Sezabo voltou-se para mim e, muito sério, pediu:

- “Fernando; dizer para eles aquele coisa bonito que você saber. Dizer, sr. Férnando, se fazia favor!”

Claro que não repeti a frase porque podia apanhar com uma toalha encharcada!

Era assim. Nós gostávamos de ouvir falar Mestre Sezabo e por isso inventávamos uma série de maroteiras para o fazer falar.

Por exemplo, disse-lhe um dia:

- “Talvez fosse bom, “Mister” Sezabo, eu não treinar hoje porque sinto uma dor aqui no pé direito e posso aleijar-me mais; depois, no domingo, se isso acontecer, não posso jogar…

O Mestre, fitando-me complacente, respondeu:

- “Não fazer mal, sr. Férnando. Experimentar porque ser melhor magoar-se a “treining” que no jogo! No “treining” substi- tuir-se você mas no jogo, lei não permitir; ser um sarílio!”

A rir, disse-lhe por fim:

- “Não tenho nada “Mister”! Era só a reinar.,

Quase zangado, em tom severo mas respeitador, exclamou:

- “Férnando não brincar, não falar muito porque ficar sem fôlego e fazer falta para “treining”…

Invariavelmente, “Mister” Sezabo terminava desta forma as suas “recomendações” de fim de semana:

- “Silêncio, sinhores, ouvirem com atenção: sexta-feira banho quente e massagem; sábado dê tarde, na sede, têoria-táctica dê jogo sobre tabuleiro, com bonecas e, mais importante, sinhores, ficharem torneira dê nêmoros dê mininas. Atenção, fazer muito mal e precisar canetas para jogo.

O brincalhão do Manecas não perdia a ocasião para dizer das suas:

- “Mas, “Mister” Sezabo, não deve esquecer que um- homem é um homem, e os casados têm certos deveres a cumprir” - e logo se travava um diálogo neste género:

- “Sinhor Monecas não dizer um coisa dê isso; sempre sinhor Monecas, cárágo! Fazer este: chigar a casa quinta-feira para jantar e dizer sua mulier quê sopa estar um sucata, arranjar-se uma discussão, fazer zaragata, ir-se deitar zangado com ela, voltar-se lado contrária e só fazer-se pazes segundo-feira. Ouvir-se sr. Monecas, ouvir-se?

- Ouvi, “Mister”, mas isso é uma vergonha!…

- Sinhor Monecas, cárágo, dar-se uma cabeçada para si! Malandro dê gajo! Depois não quixar-se; adversário marcar ponto e sinhor ver ordenado fim dê mês. Sinhor Franco fazer-se a barba a sinhor Monecas!…”

O leitor pode ficar com a certeza de que, de vez em quando, sou forçado a interromper o que estou escrevendo porque río com gosto, não do que escrevi mas porque me vêm à memória os verdadeiros termos, as frazes que eles empregavam e os apartes dos outros companheiros da equipa, Imaginem o que seria o Soeiro e o Paciência, a um canto da cabine, agarradinhos, imitando um parzinho amoroso! Muito ternos - um muito escuro e o outro muito feio! O Paciência a “atacar” e o Soeiro a “defender-se” dos impulsos amorosos de matulão, até que um de nós chamou a atenção de “Mister” Sezabo, para ver os amorosos…

O treinador agarrou numa toalha, abriu a torneira da água do duche, molhou-a bem e… não chegou a atirar porque se escangalhou a rir e ficou sem forças!… Apenas disse com muita graça:

- “Cárágo, Paciência! Você ser um garoto bêstial!…

 

Chegava o domingo, jogava-se, invariavelmente ganhávamos e no fim do encontro, o Manecas perguntava a Mestre Sezabo:

- “Então, “Mister”, que tal joguei?”

- “Tá bem ; sr. Monecas bestial”.

- Pois fique sabendo que não fiz nada daquilo que o senhor me disse na quinta-feira! Foi tudo ao contrário e joguei bem! Está a ver?

- “Cuidado! Sinhor Monecas não brincar…”

- “Não estou a brincar, é a sério, “Mister”!”

- “Muito bem, sr. Monecas. Sinhor Tesoureiro falar para sinhor final dê mês”.

Ao fim e ao cabo, o Manecas não era multado porque todos sabíamos - e Mestre Sezabo também - que ele era um grande “pintor”, pois até o apelidamos de Malhoa…

 

Nos primeiros tempos de jogador de futebol, vivi em Sintra e o comboio que me trazia para Lisboa, partia daquela encantadora Vila, às 6,03 da manhã para chegar à Estação do Rossio às 6,45 aproximadamente. Nos Restauradores tomava o carro eléctrico e chegava ao velho Estádio Alvalade por volta das 7,20 e, portanto, com tempo suficiente para me equipar e treinar às 7,45.

Tudo era feito pontualmente sob as ordens de Mestre Sezabo. Cinco minutos de atraso equivaliam a 10% de multa sobre um ordenado de 700$00 mensais.

Um dia, porque o meu velho despertador, cansado de muitos anos de trabalho, não tocou às 5,15, fez-me perder o comboio das 6,03 da manhã e cheguei a Alvalade com meia hora de atraso, mesmo utilizando um táxi desde os Restauradores à porta da cabine.

Quando entrei no rectângulo já Mestre Sezabo dirigia o treino. Cumprimentei-o, apresentei desculpas e pedi licença para treinar e, por se tratar do habitual treino de conjunto, dirigi-me para o meu posto, onde outro avançado-centro se encontrava.

Mestre Sezabo exclamou:

- “ Cárágo Férnando, não fazer um coisa dê isso! Primeiro dar-se quatro voltas a corer e quatro em marcha. Indispensável “footing”; Férnando aquecer músculos!…”

Assim fiz e enquanto decorria o treino de conjunto, andava eu a dar as voltas ao rectângulo, fazendo, afinal, o mesmo que todos já haviam feito logo que entraram no campo.

Era mais fácil Mestre Sezabo dispensar um jogador do treino de conjunto do que do treino de preparação atlética.

Acabadas as voltas, entrei para o lugar de avançado-centro e, no final do treino, fiquei - como sempre - no campo, apenas com Mestre Sezabo, para fazer o treino individual de técnica de futebol. Mestre Sezabo dizia que este género de treino servia para eu aprender a fazer “fèstinhas” na bola…

Cerca das 10,30 tomámos o banho e encontrámo-nos para virmos para a Baixa.

É preciso acentuar que a equipa do Sporting treinava apenas às terças e quintas-feiras, ao passo que eu fazia dois treinos extra: às quartas e sextas-feiras, para me “especializar” no pontapé ao golo…

Logo que nos encontrámos à saída das cabines, renovei os meus pedidos de desculpas por ter chegado atrasado, etc., etc.

Mestre Sezabo interrompeu-me:

- “Férnando ter que ser multado dez-per-cente no ordenado. Férnando ter quê dar exemplo. Tudos égales, Férnando…”

- “Bem sei “Mister”, que somos todos iguais mas a verdade é que eu treino quatro vezes por semana e eles só duas vezes. Hoje chego meia hora mais tarde e o “Mister” multa-me…”

- “O. K. Férnando! Você treinar quatro vezes por sêmana mas não treinar para mim; treinar para si! Mas para a sêmana quê vem, Férnando treinar só dois vezes como outros…”

- Não é isso, “Mister”; não me importo de treinar três ou quatro vezes por semana e virei quantas vezes o senhor entender mas, parece-me que merecia ser desculpado hoje…

- “Não poder ser, Férnando. Se disculpar, outros dizerem para mim quê você ser mênino bonito. Tudos égales, Férnando! “

Nada havia a fazer e ninguém me livrava da multa de 70$00. Não é que, verdadeiramente, aquela importância me fizesse grande falta. O facto, em si, de ser multado por falta de cumprimento dos meus deveres é que me desgostava mas, na verdade, Mestre Sezabo tinha a razão pelo seu lado.

Quando, no fim do Campo Grande, me despedi de Mestre Sezabo, pois ia almoçar com minha irmã, residente, ao tempo, na Avenida 5 de Outubro, o meu treinador não me deixou sair do “eléctrico”:

- “Não; Férnando fazer favor dê vir até à Baixa…

- “Mas, Sr. Sezabo,.

- “Vir, Férnando; precisar muito falar consigo…”

Seguimos conversando acerca de futebol, dos jogos-passados e dos futuros, das tácticas, da técnica e eu sem atinar com o motivo porque me convidara a ir à Baixa mas, na Praça dos Restauradores, Mestre Sezabo mudou de assunto;

- “Férnando: eu não dar dez-per-cente, mas vamos comprar déspértador novinho em folha para tocar sempre. Custar cinquenta escudos; poupar vinte escudos, Férnando e não multar você. Foi a minha vez de dizer O. K. “Mister” Sezabo! O. K. e muito obrigado”.

E lá fomos comprar o despertador salvador da multa - dessa e de muitas outras que sofreria se não fosse ele!

Mestre Sezabo escolheu um despertador capaz de acordar um morto e, no domingo seguinte, na cabine, antes do jogo, disse à rapaziada:

- “Cárágo, sinhores! Férnando não chigar mais atrasado a “treining”. Fumos comprar déspértador, exprimentar tocar lá na loja e fazer um barulheira quê Azevedo vai ouvir no Bareiro…

E assim cortou qualquer hipótese de apadrinhamento…

 

Durante o tempo que joguei futebol e até mesmo já depois de abandonar o desporto, alguns amigos me têm dito que Mestre Sezabo é um bom treinador mas trata mal os seus pupilos, insulta e ofende os rapazes, castiga-os injustamente e, por ser assim, abre conflitos com os dirigentes dos clubes onde trabalha.

Nada há mais injusto e mais falso! Já escrevi e repito que José Sezabo - húngaro de nascimento e português por naturalização - não conhece a gramática da Pátria que adoptou. Veio para Portugal ensinar futebol e não para aprender português. Inegavelmente, atingiu o objectivo: ensinou muito e muitos - pequenos e grandes!

Nos primeiros contactos com a “rapaziada da bola” ensinaram-lhe, maldosamente, algumas frases a que davam sentido e significado diferentes. Decorou-as e repetiu-as quando lhe parecia oportuno, até que outros melhor intencionados procuraram corrigi-lo.

É certo que, por vezes, nos dirigia uma palavra um tanto ou quanto violenta e menos própria, mas todos nós sabíamos que Mestre Sezabo não nos queria ofender ou insultar deliberadamente. Pois se ele, ao referir-se ao seu filho José - que nesse tempo fazia parte dos futebolistas do Sporting - criticando-o, em presença de todos, por uma má tarde na defesa das balizas do seu grupo, disse tanta barbaridade que nos sentimos no dever moral de o chamar à razão, fazendo-lhe sentir que dizer tais “coisas” de seu filho era ofender-se a si próprio, ao que José Sezabo respondeu:

- “Sinhores, fazer favor respeitarem seu treinador. Eu falar com Zé, não chamar família que estar sossegada a casa, no trabaio. Não ter nada quê ver um coisa com outra. Não dizer um coisa dê isso… Família de tudos ser sagrada. Por favor, sinhores, não brincar!…”

A princípio, chocáva-nos a maneira de falar de Mestre Sezabo, principalmente eu, que mal o conhecia, pois quando vim para o Sporting já ele era treinador do Clube.

O melhor processo de não tomar como ofensiva a sua fraseologia era não dar às suas palavras o verdadeiro significado. Assim, se ele dizia “cárágo”, devíamos entender caramba; não dar “poráda”, seria não dar pancada…

É certo que tivemos alguns mãl-entendidos e até discussões acaloradas, mas nunca por ele me ter dirigido, conscientemente, frases ofensivas.

Não procuro defender o meu grande amigo e bom Mestre José Sezabo; sou apenas justo para com o homem cujo saber está na base do pouco ou muito que fiz como futebolista, quer na equipa do Sporting, quer na Selecção Portuguesa de Futebol.

É na linguagem geralmente empregada por ele que tentarei reproduzir proveitosos conselhos que me deu:

- “Férnando: você ter qualidades bestiais para fazer-se melhor avançado dê Mundo! Ter quê não esquecer muitos coisas. Ver, Férnando: preparação física ser fundamental; “footing”, Férnando, marchas, marchar muito ser indispensável. Primeiro arranjar canetas e dê seguida ser fácil jogar “foot-ball”, Você pensar e saber muito bem mandar Bernardo às compras (o mesmo que atirar ao golo) mas se você não ter força nas canetas não interessar saber- dê isso. Primeiro preparação física, depois “foot-ball”. Disciplina no “treining” ser indispensável, Férnando. Cuidar dê saúde. Não fumar ou fumar pouco. Não ir muitos vezes a cinema porque toda gente fumar e ar dê fumo fazer muito mal desportista. Rio Tejo ser muito bonita; ir ver gaivotas, Férnando! Você ser novo, ter tempo olhar para garotas! Fazer-se primeiro grande jogador e dêpois ser mais fácil. Deitar cedo vésperas dê “treining” e dia de “treining” deitar cedo para descansar…”

Terei motivos para receber como ofensa o facto de ser “bestial” e ter “canetas” em vez de pernas? Vaíha-nos Santo António!…

Continuemos a apreciar Mestre Sezabo, através dos seus conselhos e do seu mau português falado.

No final dos treinos e, mesmo, no intervalo e fim dos encontros oficiais, não raramente alguns jogadores corriam para a torneira da água do lavatório a fim de fazerem um gargarejo e sempre que isto sucedia, ouvíamos logo “Mister” Sezabo a gritar:

- “Sinhores, não beberem água fria porque garganta estar quente; água fria fazer inginhas (o mesmo que anginas). Sinhor Zé trazer chá quente para sinhores jogadores”.

Note-se que este chá era composto de sumo de limão, água morna e açúcar, do que resultava uma bebida agradável.

Oiçamos o Mestre:

- “Durante desafio não ligar importância ao que adversário dizer para si, Férnando. Gajos quererem desmoralizar para você. Tapar ouvidos Férnando, porque eles não terem categoria para ofender para você. Não dar “poráda” para advérsário porque distrair com pancadaria e perder ocasião de fazer golo. Não risponder a agressão; aguentar, Férnando! Gajos quererem você sair dê jogo, complicar vida dê companheiros e dê Sporting. Mandar gajos dar passeio fundo dê mar…”

De outra vez…

Todos os jogadores se encontravam reunidos em volta da mesa sobre a qual estava o oleado verde com as linhas do rectângulo de jogo marcadas a branco e os 22 bonecos, 11 de cada cor, representando os jogadores. Para começar, o Manecas - sempre o maroto do Manecas, a quem “Mister” Sezabo, quando estava irritado, chamava sinhor Mônécas - fazia desaparecer um ou dois bonecos. Claro está que “Mister” Sezabo, ao dar pela falta, protestava com energia:

- “Sinhores, não brincarem; darem bônecas para começar trabaio…

Depois de muita insistência do nosso treinador, o Manecas entregava-os e logo “Mister” Sezabo dizia abanando a cabeça:

- “Cárágo, sinhores! Mônécas ser maniáco…”

Nós riamos, a lição começava mas se o jogo de domingo seguinte era com o Benfica ou qualquer dos clubes chamados grandes, portanto, com elevada massa associativa, havia logo (para ouvir o “Mister”, é claro) quem disparasse uma frase neste género:

- “Tudo o que o “Mister’”’ está a dizer está bem mas há uma coisa com que o senhor não contou: com os adeptos deles a gritarem. Fazem um barulho tremendo e isso influi no resultado…

Mestre Sezabo, que encarava tudo muito a sério, levantava-se e ainda mais corado do que é, exclamava:

- “Cárágo, sinhor! Dar uma cabêçada para si. Não brincar, não rir porque não têr graça nenhum! Ouvir bem sinhores tudos?!…”

Nestas graças intervinha, quase sempre o Manecas que, pegando na deixa, acrescentava:

- “Eles fazem tanto barulho “Mister” que a gente não vê a bola, só ouve gritar: Benfica! Benfica! Benfica!…”

- “Sinhor Mônécas-interrompia o nosso treinador - não. perturbar rapaziada com esses coisas. Fixar, sinhores, fixar: maior dur dê… cabeça” para gajos é mêter boia na baliza. Passar bòla bons condições e Férnando fazer calar tudos; gajos não piar mais! Ir ver, sinhores,

- “Tá bem, “Mister”, mas eu fico com a minha ideia…”

- “Mônécas ser mêluco, sinhores. Não ligar a ele. Domingo, estar em cabine um hora antes dê jogo. Falar-se mais; não fazer mal lembrar-se têoria-táctica dê hoje. Deitar cedo, sinhores e bom disposição….”

Todos amigos, conscientes das responsabilidades que nos esperavam, lá íamos a caminho de nossas casas ou do trabalho, recordando e fixando tudo quanto de verdade nos havia dito Mestre Sezabo - e era tudo verdade e acertado! - acerca do jogo seguinte.

Recordo e fixo, especialmente com vista aos novos jogadores, mais alguns judiciosos conselhos de Mestre Sezabo e para não perderem o sabor, escrevo como ele pronuncia:

- “ Assim que Férnando entrar campo dê adversário, pensar imediatamente preparar posição dê receber bola e “mandar Bernardo às compras”. Dentro dê grande área, Férnando, nem quê sinhor Prêsidente, dê joelios, pedir passe dê bola, você não dar, Férnando!. Atirar bola para baliza; só último caso dar bola companheiro bem colocado a têreno. Dentro dê grande área, se Férnando não ter companheiro nenhum e ter só sua frente dois ou três advérsários, não driblar; chutar para frente direcção dê baliza com maior força possível, Primeiro vez advérsário meter cabeça e ficar mal tratado porque arrancar cabelo dê gajo; segundo vez, Férnando, advérsário baixar cabêça, guarda-redes não esperar força dê remate e bola entrar, a baliza. Experimentar sinhor Férnando! Se advérsário dizer coisas feias para si, querer perturbar você. Não comer a isca, Férnando. Entrar duro para advérsário, não magoar ninguém mas dizer para eles: eu “estar aqui”; marcar prêsença, fazer sentir peso dê corpo. Lei permitir, sinhor Férnando! “Foot-baU” não ser jogo para meninas. Se companheiro dê equipa dar conselio para si, com bons maneiras, aceitar Férnando. Dentro dê campo não discutir. Se pensar não ser bom conselio, intervalo ou final dê jogo conversar com Sezabo. Boa harmonia indispensável para jogar-se bom “foot-ball”.

Estes conselhos, embora dados num português muito dele, foram-me extraordinariamente úteis pela vida fora enquanto joguei futebol.

Mestre Sezabo não limitava a sua acção de treinador e de orientador dos jogadores de futebol a seu cargo apenas às horas que com eles vivia em treinos e jogos; levava o seu interesse ao ponto de fiscalizar - umas vezes discretamente e outras abertas e directamente - a vida particular dos componentes da equipa. Acreditava em todos nós, ao mesmo tempo que de todos duvidava. Era o que se pode dizer, confiava desconfiando!

Em vésperas de jogos importantes, não foram raras as vezes que se apresentou em casa de alguns jogadores a certificar-se se as suas recomendações de “deitar cedo” eram cumpridas e felizmente, exceptuando um ou outro caso isolado, nunca houve motivo para desgostos e isto não só pela nítida compreensão da maioria dos componentes da equipa do Sporting mas, também e, talvez, principalmente por nenhum deles querer dar a “Mister” Sezabo o desgosto de não o encontrar em casa nessas noites.

Brincávamos com o nosso treinador mas respeitávamo-lo como ele nos respeitava. Os seus conselhos e ensinamentos eram escutados e tomados na devida consideração por todos nós. A disciplina que impunha à equipa, a par da incontestável competência do nosso Mestre, esteve na base dos seus êxitos.

 

Falei do meu grande Mestre e amigo José Sezabo.

Quero afirmar mais uma vez que, se não tudo, pelo menos uma grande parte do que fui como jogador de futebol, a Mestre José Sezabo o devo. Os seus conselhos preciosos e sábios fizeram de mim um avançado-centro de certa classe, com nome em Portugal e no estrangeiro.

Aqui lhe presto a minha modesta mas sincera homenagem.

Mestre José Sezabo não é um treinador vulgar. É um verdadeiro e competentíssimo Mestre do “foot-ball association”, a quem o futebol português já muito deve.

Termino como comecei:

Muito obrigado Mestre José Sezabo.»

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 94 - 104

Memórias de Peyroteo (10)

(cont.)

 

«“ENGRENAGEM” DO FUTEBOL…

- Às voltas com um contrato -

 

Entre os meus colegas de trabalho no Grémio das Carnes, em Lisboa, havia adeptos de todos os clubes e até um deles era dirigente do Clube União de Futebol.

Certo dia, um agremiado e particular amigo - Humberto Matias, “tifoso” do Belenenses - chamou-me de parte e disparou esta:

- Tu assinaste um contrato com o Sporting, não é verdade?

- Assinei. Porque o perguntas?

- Não tenhas pressa; ouve o que te digo e responde-me com calma. Se te disser que o contrato não- tem qualquer validade?

- Homem! não brinques; isso não pode ser. O contrato, depois de assinado por mim e, salvo erro, por duas testemunhas, foi enviado à Federação…

- Tu não sabes nada. És um “bom”… Dize-me: já recebeste a cópia que o Sporting te devia ter entregue, depois de sancionada pela Federação de Futebol?

- É verdade que não!

- Pois bem; aconselho-te a telefonar para a Federação a. saber o que se passa… Mas antes de mais nada, dize-me: se, na verdade, tiver havido tramoia, o que pensas fazer? Se quiseres “trintinhas” e mil e duzentos escudos por mês, mesmo que seja necessário estares uma época sem jogar, é só dizeres que a coisa arranja-se. O Belenenses também é um grande clube, fica sabendo.

- Ouve, Humberto. Se, na realidade, tudo for como afirmas, eu vou para o Belenenses.

Por uma questão de confiança, assinei o contrato quase sem o ter lido mas se fui enganado, podes ter a certeza de que o caso vai ser muito falado.

Imediatamente peguei no telefone e liguei para a Federação, donde me atendeu o amigo Mário Santos. Disse-lhe do motivo que me levou a telefonar-lhe e obtive uma informação pouco elucidativa e muito menos convincente:

- Parece-me que o seu contrato foi devolvido ao Sporting para rectificar qualquer coisa que eu não sei bem o que é. Quem trata de quase tudo isso é o senhor Capitão Maia Loureiro, nosso Director. Se, porém, o contrato está cá na Federação, deve estar fechado no cofre e o nosso Director é quem tem a chave.

- Mas o senhor pode fazer o obséquio de se informar melhor e depois…

- Está bem. Telefone amanhã porque só logo à noite estarei com o senhor Capitão Maia Loureiro.

- Muito bem e obrigado. Voltarei a telefonar amanhã.

Depois da conversa com aquele funcionário da Federação, fiquei com a impressão, ou, mesmo, com a certeza de que havia muito de verdadeiro nas afirmações do amigo Humberto Matias, ao mesmo tempo que pressentia que o Mário Santos sabia o que se estava passando, mas nada queria adiantar sem, primeiro, falar com o seu Director.

Entretanto, como estava ali próximo um dirigente de clube - o meu colega e amigo Cesário Pereira Salvador - pessoa conhecedora destes problemas - contei-lhe o sucedido e pedi-lhe um conselho. O Cesário disse-me:

- “Pelo que você acaba de contar, tenho a certeza absoluta de que aí há coisa. No seu lugar, eu não esperava para amanhã; hoje mesmo, à noite, ia à Federação saber o que há ao certo. Ora, se o Mário lhe disse que só à noite estaria com o senhor Capitão, você vai lá e encontra-o. Mas para não dar nas vistas, talvez seja melhor telefonar. Depois fale comigo, aqui no Grémio”.

Peguei no telefone às 21 horas…

- O senhor Capitão ainda não chegou.

As 21,30 ainda não estava e às 22, o Mário Santos informa:

- “Já falei com ò senhor Capitão e posso agora dizer-lhe que o seu contrato com o Sporting deu aqui entrada mas, há já quase dois meses, foi devolvido para rectificação. O período de validade do documento foi indicado por três anos, quando as normas aprovadas pela Federação e propostas pelo seu clube faziam referência a épocas de futebol. Melhor dizendo: o contrato será por três épocas e não por três anos; em vez de 1939/40/41 deve ser 1939/40, 1940/41 e 1941/42, salvo erro de Setembro a Junho ou Julho do ano seguinte. E já agora, deixe-me perguntar-lhe se o Sporting ainda o não chamou para fazer a rectificação?”

- Não senhor, e, portanto, não tenho nenhum contrato com o Sporting?

- Oficialmente, não!

- Obrigado, Mário Santos, pela preciosa informação que me prestou”.

Desligámos. No dia seguinte fui mais cedo para o Grémio e contei ao Cesário Salvador o que se passava.

Tão irritado como eu estava, disse:

- “Não está certo fazerem-lhe uma coisa dessas. Todos os clubes podiam errar o texto de um contrato, menos o Sporting. Habilidades, meu amigo, habilidades!

- Não acredito Cesário, que tivesse havido intenção de me prejudicarem…

- “Pois não! Quisesse o Sporting, neste momento, - por lesão grave ou outro motivo qualquer - deixar de lhe pagar e você estava comido! Para quem recorreria para fazer valer os seus direitos?

- Talvez tenha razão…

- Passe-me você uma procuração e deixe a meu cargo a regularização do assunto. Continuará no Sporting mas com um bom par de contos na algibeira. Como garantia do que lhe afirmo, fique você com o meu automóvel. Faça a procuração e deixe o resto comigo. Você não merece semelhante partida…

Não aceitei a proposta e, entretanto, apareceu o Humberto a quem contei a história. Demais sabia ele quando me falou a primeira vez.

Igualmente, rejeitei a proposta para ingressar no Belenenses.

Para mim, deixar o Sporting, representava morrer para o futebol. Mas impus a mim próprio tomar uma atitude.

Não garanto ter sido eu a procurar o senhor Francisco Franco - pessoa que me entregara, para assinar, o célebre contrato - ouse foi ele a mandar-me chamar para se fazer a rectificação. Se não me falha a memória, foi o senhor Franco que solicitou a minha comparência na sua livraria, ali à Rua Barros Queiroz. Duma maneira ou doutra, o certo é que manifestei o meu desagrado e, até, desgosto pelo acontecido.

- “Acredita que não houve a menor intenção de te prejudicar ou enganar”.

- No entanto, senhor Franco, há já quase dois meses que a Federação devolveu o contrato e só agora se faz a rectificação! Quase todos os dias, depois do almoço, aqui venho conversar consigo e o senhor nada me disse!

- Tens razão; é verdade, mas acredita que foi por esquecimento. Eu seria incapaz de te enganar, pois sabes que sou teu amigo.

Concordo. Só lhe devo atenções e finezas mas gostava de saber quando fazemos a rectificação!?

- Amanhã, depois do almoço, quando aqui vieres.

E assim foi. Voltei a não ler o novo contrato; assinei-o. Como testemunhas figurou, salvo erro, o amigo Jacinto Leal - ainda hoje funcionário do Sporting - e outro que não recordo.

Quando tudo estava pronto, o senhor Franco ofereceu-me cem escudos para eu comprar… chocolates, de que muito gostava e gosto. Claro está que não aceitei a oferta!

Pode, de tudo isto, concluir-se que troquei trinta ou quarenta mil escudos e mil e duzentos por mês, por… cem escudos que não quis receber!

Para mim valeram sempre mais os actos do que o dinheiro.

Hoje, porém, as coisas estão profundamente modificadas. As atitudes bonitas só podem ser tomadas com… dinheiro adiantado!

Se muito tens, muito vales - diz o Povo - e a voz do Povo é a voz de Deus!

Repare-se: “anos” em vez de “épocas”.

Como uma troca aparentemente insignificante, poderia ter feito com que eu, em vez de, durante quase três épocas, ter envergado uma camisola às riscas verdes e brancas, vestisse uma azul com a Cruz de Cristo, continuando, embora, a ser sportinguista, mas a dar o melhor esforço à equipa de Belém!

Preferi continuar no Sporting porque sempre fui e sou sportinguista e, também, porque não acreditei ter havido maldade. Foi um erro involuntário.

Se esta história não tiver outro mérito, que sirva de aviso e lembrança, para se não cometerem outros enganos semelhantes.

Ao contá-la, não me moveu outro propósito que não seja o de referir mais um episódio “curioso” da minha vida de futebolista. Nada mais do que isso.»

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 90 - 94

Memórias de Peyroteo (9)

(cont.)

 

«O PRIMEIRO JOGO

Foi em 12 de Outubro de 1937, no Campo das Salésias, onde joguei, pela primeira vez oficialmente, ocupando o lugar de condutor do ataque da equipa do Sporting Clube de Portugal. Para começar bem, era o “Benfica-Sporting” do Torneio Triangular.

Se no meu primeiro treino de conjunto as pernas tremiam como varas verdes, não se calcula o estado de nervos com que pisei o relvado das Salésias.

Antes do jogo, na cabine, vendo a minha atrapalhação, colegas e directores brincavam comigo…

Os companheiros da equipa, habituados já aos grandes encontros entre os velhos e gloriosos rivais, encaravam o desse dia como um treino; os directores - em especial o Sr. Tomás Pereira - receitavam chá de tília, para acalmar os nervos. Brincavam todos, é o termo!

Resta-me a consolação de que, mais tarde, eram os directores a necessitar de chá de tília…

A verdade é que estava tão perturbado que foi necessário “Mister” Sezabo ligar-me os pés - trabalho que eu fiz sempre antes dos treinos.

Todos falavam, as piadas vinham de todos os lados e só um homem se mantinha calado: o treinador.

Quando faltavam apenas dez minutos para entrarmos no campo, “Mister” Sezabo fez diversas recomendações sobre a táctica a empregar e, a seguir, disse:

- “Muito atenção, sinhores. A avançado-centro jogar Férnando. Rapaz novo, não ter experiência dê jogo. Sinhores mais vélios ajudar para ele, bem dê clube. Não fazerem malandragem! Não ter graça nenhum 1 Brincadeira custar dez-per-cente para sinhores. Atenção dê jogo, sinhores”!

Depois, chamou-me:

- “Sinhor Férnando não perturbar com jogo. Não ter importância nenhum jogar mal. Não esquecer seus dificuldades a campo para emendar no “treining”. Eu ver uns e sinhor sentir outros dificuldades. Terça-feira corrigir um, dez, cinquenta vezes e tudo ficar bem. Atenção, sinhor: gajos ir dizer para si coisas muito feias. Não engolir a isca, Férnando. Fazer dê conta ter algodon nos ouvidos. Não esquecer principal papel dê avando-centro: Carèga Maria !!… (Compreenda-se atirar ao golo).

- “Bola junto dê poste, como fazer a treining. Agora, bom sorte para tudos. Atacar botas, estar na hora, sinhores”.

E voltando-se para os restantes…

-”Vamos, sinhores. Bom sorte a tudos!,. “

Ao entrar no campo tive a impressão de que o peso de todo o público estava sobre as minhas costas!

Por recomendação do treinador, atirei algumas vezes à baliza, antes de começar o desafio, para… sossegar os nervos. Fiz dois bons remates e foi remédio santo. Senti-me imediatamente à vontade. Daí por diante, esqueci o público. Só o jogo me dominava os sentidos.

Por carecer de interesse, agora, não relatarei como decorreu o prélio. Apenas breves apontamentos.

O Benfica marcou primeiro, por intermédio de Vaiadas, havia 21 minutos. A bola foi ao centro, recomeçámos e, sete minutos depois… golo do Sporting, Estava assinalada a minha presença! Era o meu primeiro golo em jogos oficiais. Quase chorei de alegria e fiquei sem fôlego. Mas tudo passou. Minutos volvidos, o Vasco Nunes fixou o resultado da primeira parte em 2-1 a favor dos “leões”.

Durante o intervalo, na cabine, o treinador disse ter gostado do meu trabalho e que o golo tinha sido muito bem marcado.

Raciocinei: pois sim; agora dizes isso mas na próxima terça-feira terei de executar cem vezes o que hoje fizer mal…

Na segunda parte Espírito Santo estabeleceu a igualdade, mas o Aníbal Paciência fez uma gracinha e conseguiu o 3-2.

Aos 32 minutos coube-me a vez de atirar a bola para as malhas da rede: 4-2!

Confirmamos a frase “O futuro está nas Colónias…” Espírito Santo, Paciência e eu a marcar os pontos!

O Guilherme ainda fez outro golo e a um minuto do final da partida, o Mourão estabeleceu o resultado: 5-3 a favor do Sporting.

Mal soou o apito do árbitro dando por terminado o jogo, correu para mim o Aníbal Paciência. Abraçou-me, deu-me os parabéns e eu pensei:

Exactamente como no primeiro treino de conjunto - parabéns do Paciência e sarabanda do treinador!

Mas enganei-me; “Mister” Sezabo também me felicitou, sorridente e alegre, declarando que esperava exibição pior.

Na verdade, embora não tivesse feito um grande jogo - nem outra coisa era de esperar em campo relvado, que pisava pela primeira vez, botas com pitons, que nunca usara e companheiros que quase não conhecia - se não fiz um grande jogo, repito, também não fiz aquilo a que se chama “figura de urso”! Do mal o menos.

Só posso dizer bem do comportamento dos meus colegas porque todos me auxiliaram na medida do possível; não fizeram “malandragem”. Agradeci-lhes no final do encontro e, agora, ainda com um grande abraço de reconhecimento, aqui ficam os seus nomes: Azevedo, Jesus e Galvão; Rui Araújo, Paciência e Manuel Marques; Heitor, Mourão, Vasco Nunes e João Cruz.

 

Ricardo Ornelas, em “Os Sports” de 13 Setembro de 1937, escreveu:

“Peyroteo tem recursos físicos excelentes e possui pontapé fácil, tenta passar para o melhor sítio e é oportuno em carga sobre o adversário (às vezes demasiado); entre o que lhe falta para ser uma força no lugar e de que o seu treinador se ocupará, podemos assinalar o jogo de cabeça; trata-se, no entanto, de elemento com bases sólidas para ser trabalhado”.

Pois não havia eu de passar para o melhor sítio!… Se fizesse o contrário…”dar-se dez-per-cente!…”

Aquele “às vezes demasiado” é que se escusava ter escrito.

Foi por isso que muitas vezes ouvi: - “O Orneias é o que o topou logo no primeiro dia. Até lhe chamou “carro de assalto”

Outros, então, leram assim: “às vezes propositado”.

E é que garantiam, afirmavam ter lido!

Veja o amigo e senhor Ricardo Orneias, o sarilho que me arranjou logo de entrada! Felizmente, já lá vai o mau tempo…

Lança Moreira escreveu:

“Dos estreantes, três no total (bem pouco para tanta ansiedade latente…) nenhum nos impressionou decisivamente. De óptimo aspecto físico, boa corrida, com pontapé que nos parece fácil e decidido, Peyroteo foi ainda assim quem deu sensação de ter sentido menos a estreia - e dois “tentos” no activo podem atestar o facto.

A crítica foi assinada por Domingos Moreira, faltando-lhe, no meio, o Lança…

A 19 anos de distância, pergunto-te: Então fui eu, ainda assim, quem deu a sensação de ter sentido menos a estreia? Lá dentro do campo os gatos são pardos. Podes ter a certeza, meu caro Lança Moreira, que nenhum dos estreantes a sentiu tanto como eu; sabes lá como aquilo foi!

Se a “carga” de nervos se transformasse em “descarga” eléctrica, tu e todos teriam sido fulminados!

E aquela dos “dois tentos no activo” é boa!…

Regista agora que no “passivo” já cá cantam 38 anos e 693 “tentos”.

Os anos são poucos em relação aos “tentos”, mas se trocasse os algarismos que grande azelha teria sido no futebol!…»

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 86 - 90

Memórias de Peyroteo (8)

(cont.)

«AS PRIMEIRAS GRANDES DIFICULDADES

 

Pelo que atrás referi, vê-se que os treinos de preparação atlética atingiam as raias do esgotamento físico; eram quase violentos.

Mercê deles, porém, adquiri fôlego mais do que suficiente para suportar a hora e meia que durariam os próximos treinos de futebol em conjunto. Portanto, a “falta de pernas” não constituía um problema para mim. A prová-lo estava o facto de, nas últimas sessões individuais, o treinador ter “puxado” por mim de tal forma que, se não estivesse bem preparado, teria rebentado!

De resto, a minha excepcional resistência não só foi devida aos treinos normais das equipas do Sporting, como ainda ajudada pelos dois suplementares que fazia às quartas e sextas-feiras, exclusivamente com “Mister” Sezabo.

Nestas duas sessões individuais, a par dos costumados exercícios de preparação atlética, o treinador ensinava-me pormenores técnicos e tácticos do maior interesse e absolutamente necessários para o bom desempenho do lugar de avançado-centro, numa equipa com a incontestável categoria e valor da do Sporting, em 1937.

Muito aprendi nesses dois treinos* extra e afirmo, com toda a convicção, que eles estiveram na base dos meus rápidos e fulgurantes êxitos como futebolista. “Mister” Sezabo sabia que não bastava o fôlego, ou melhor, a resistência física para se ser bom jogador de futebol. Claro que sem isso não é possível entrar-se nos domínios da técnica de qualquer desporto. Antes de tudo, o poder atlético; depois a técnica do jogo; logo a seguir virá, então, o estudo das tácticas. Sem pernas resistentes não se pratica futebol, digam o que disserem.

“Mestre” Sezabo tentou - e parece que conseguiu, com esses treinos-extra às quartas e sextas-feiras - ensinar-me um mínimo indispensável de pormenores de jogo. Sem eles, a minha inclusão na esplêndida equipa do Sporting - mesmo só nos treinos! - redundaria em fracasso que, aliás, o treinador procurava evitar.

Os seus ensinamentos, nos dias em que só eu e ele estávamos no campo, ultrapassaram tudo quanto é habitual. O meu bom amigo chegava ao ponto de me informar das características e tendências de cada um dos jogadores que viriam a ser meus companheiros de equipa, mormente dos interiores e extremos. Ainda não satisfeito com tudo isso, após o duche e depois de vestidos, pegava numa caixinha de bonecos, colocava-os em cima de uma mesa e dava uma lição de táctica de futebol.

As vezes já tinha comprado bilhete para a “matinée” de cinema mas via-me forçado a ficar com ele na algibeira porque mestre Sezabo “fazia-se encontrado”, pegava num lápis e papel, marcava bolinhas e cruzinhas indicativas das posições dos meus companheiros e adversários em determinada jogada e… adeus cinema…

Muitas .vezes me disse:-”Sinhor Férnando, seu cinema ser este. Deixar garotas! Fazer-se, primeiro, grande jogador de “foot-ball” e ter, depois, tudas garotas dê Mundo… Cárágo, Férnando, ser um sarílio para atender tudas! Ir ver, Férnando!…

Sempre conversando no mesmo assunto, deixávamos a cabine do campo e viajávamos, de eléctrico, até à praça dos Restauradores. Entrávamos num café mas com pouca demora porque…

- “Vamos, Férnando. Ar viciado ser prejudicial para saúde; igual quê cinema…”

Vínhamos para a rua e, quase sempre, parávamos em frente da Companhia dos Telefones, no Rossio.

Aqui continuava a lição e os ensinamentos acerca da melhor forma de empregar o poder físico. Gostando de exemplificar, Mestre Sezabo dava-me, de quando em vez - em pleno Rossio! - um “pinhãozinho” que me fazia abanar como uma folha de palmeira ao vento!…

Mas acreditem que este homem fez tudo quanto humanamente se pode fazer por alguém que se estima e em quem se acredita.

Por minha parte nada mais fiz do que procurar corresponder a essa amizade e confiança.

Na véspera do dia do primeiro treino de conjunto em que tomei parte, Mestre Sezabo conversou, demoradamente, comigo.

Creio firmemente que se isso não tem acontecido, o Sporting não teria contado comigo durante tantos anos.

Eu lhes conto:

Só com “Mister” Sezabo fui treinar na véspera do primeiro treino de conjunto.

Os jogadores, individualmente, estavam em condições. Havia que reuni-los e afinar a turma.

Conhecedor das virtudes e defeitos de todos os jogodores do Clube, não quis o treinador lançar-me no meio deles sem me pôr de sobreaviso quanto ao que de pior me podia acontecer…

Eu já ouvira falar, muito vagamente, na possibilidade de vir a ser “queimado”. Contudo, essa Hipótese nunca me atormentou.

Custava-me a acreditar que “oficiais do mesmo ofício” e todos interessados na defesa de um ideal comum, tentassem complicar ou destruir as boas intenções daquele ou daqueles que se propunham trabalhar pelo engrandecimento, prestígio e honra da bandeira que os cobria! Todos nunca são muitos para defender um ideal.

Como seria possível, então, dificultar a tarefa daquele que, bem intencionado, oferecia o seu esforço a bem da “causa leonina”?

“Queimar”? Porquê e para quê? Quem beneficiaria com o meu afastamento? Talvez um jogador como eu? E o Clube, o amor pela bandeira gloriosa do Sporting não se sobreporia aos interesses de um só homem?

Parecia-me que o único caminho a seguir pelos representantes do Clube seria ajudar quem quisesse colaborar com eles em defesa do Sporting e não o de barrar caminho, por ciúme de glória pessoal, aos que tivessem valor…

Que os piores e mais velhos cedam o lugar aos mais novos, proventura em condições de virem a ser melhores.

A bem do Clube, seria até de esperar que os que ocupavam postos cimeiros ajudassem os que, possuidores de reconhecidas qualidades, pudessem vir a. superá-los. Assim se contribuiria, honesta e lealmente, para a continuidade e engrandecimento da colectividade.

A indispensável ajuda, o carinho, amparo e bom conselho, só dignificaria quem o desse. Morreria, talvez, é certo, mas morreria de pé, dignificado, glorificado e não diminuído. Sempre assim pensei e continuo a pensar.

Ora o treinador, sem que eu soubesse o motivo, disse-me:

- “Fernando amanhã ir fazer seu primeiro “treining” dê conjunto, Não perturbar com malandragem dê companheiros. Bons rapazes mas gostarem dê brincadeiras. Sinhor ser novato e ter dê suportas goza delas. Não engolir a isca. Não ligar. Sinhor Férnando ter-se força suficiente para impor-se a eles. Não zangar. Alêgria Férnando! Se sinhor zangar-se com malandragem dê passe, ficar lixado. Rirem-se. Se sinhor perder a cabeça ser um sarílío. Férnando ter-se que pagar-se patáu dê novato. Se eles fazerem malandragem para si, se ter-se quinta-coluna, não preocupar-se. Eu estar aqui para as curvas. Dar dez-per-cente e eles não piar mais. Fazer no “treining” dê conjunto o que ter ensinado para sinhor e ver tudo sair bem. Muito atenção dê jogo dê companheiros; olho vivo e Férnando impor-se para eles. Férnando necessitar dê eles mas eles precisar dê Férnando! Jogo dê conjunto Férnando! Não poder ser dê outro maneira!”

Ouvi tudo com a maior atenção, mas uma frase de “Mister” Sezabo ficou a martelar-me o cérebro:

“… e Férnando impor-se para eles. Férnando necessitar dê eles, mas eles précisar dê Férnando!”

Sem dúvida, teria de fazer tudo - custasse o que custasse - para me impor. Trabalharia nesse sentido e contava com o auxílio do meu treinador, que tal como prometeu, assim o cumpriu.

É da mais elementar justiça deixar bem claro que José Sezabo, como treinador de futebol, sabe'o que faz, o que promete e cumpre escrupulosamente a sua palavra.

 

Estádio Alvalade. Sete e quinze da manhã. Fui dos primeiros achegar à cabine. O saudoso Augusto entregou-me a equipa. Sentei-me a um canto.

Tirei o casaco e coloquei-o no cabide; depois as calças e quando ia pendurar a gravata, no mesmo cabide, alguém me disse:

- Tira lá tudo isso daí. Esse lugar é meu. Nada de misturas!…”

Sabem quem era? o brincalhão do Soeiro!

Sem responder, passei a roupa para o cabide do lado mas não tive melhor sorte porque o senhor Soeiro (eu tinha que os tratar por senhores…) me disse logo:

- “Esse lugar pertence ao Jurado!…”

Perante tais advertências, procurei outro poiso, bem longe dos lugares “reservados aos ases…”

Nisto ouvi a voz do Aníbal Paciência:

- “Vem para aqui; tens um cabide!”

Aceitei, Fui para junto do bom amigo e leal camarada.

Pouco tempo depois da cena que acabo de relatar, o cabide de que me havia servido e donde fui expulso, passou a ser o meu e jamais outro jogador se serviu dele enquanto joguei futebol.

Lembro-me de que foi o próprio Soeiro quem me convidou a ir para junto dos veteranos e me cedeu o cabide que lhe pertencia mas não sem me dizer:

- “Junta-te aos bons e bom serás… Mas juizinho, senão

levas corrida em pêlo! Dou-te o cabide porque és bom rapaz e porque sei que isso te agrada. Eu já passei pelo mesmo… A mim, tanto me faz pôr a roupa aqui como no cabide ao lado”.

A amabilidade do Soeiro sensibilizou-me e, sobretudo, senti grande alegria por ter sido admitido no grupo dos “ases” ao qual, mais tarde, alcunhei de “grupo da má-língua”.

Mas, voltemos ao tempo em que não se tratavam os veteranos por tu…

As oito menos um quarto entrámos no campo, demos quatro voltas a correr e outras tantas a passo, intercaladas, e começou o treino de conjunto.

A camisola que o Augusto me entregou era igual à do Soeiro, do Pireza, João Cruz e Mourão; portanto, eu devia fazer parte da

equipa dos '“Ases”.

As minhas pernas tremiam como varas verdes e a cara ardia como se estivesse perto dum brazeiro.

Que aconteceria? O que fariam os consagrados quando o treinador me mandasse ocupar o lugar de avançado-centro da equipa principal? Qual a reacção do Soeiro e como se comportariam os seus amigos?

Embaralhadas no cérebro, estas dúvidas atormentavam-me, mas consegui reagir ao pensar que o facto do treinador me escolher significava confiança nas minhas possibilidades e ele sabia muito bem o que estava a fazer.

Os vinte e dois jogadores foram distribuídos em dois grupos. De um lado, avançados e médios da primeira equipa com a defesa e guarda-redes da “reserva”; do outro, os avançados e médios da “reserva” com a defesa e guarda-redes da primeira equipa. Assim se estabeleceria certo equilíbrio de jogo.

Com as pernas a tremer, ocupei o posto de avançado-centro.

“Mister” Sezabo apitou e… começou o jogo.

Querem saber o que aconteceu? Apenas isto: todos os jogadores - incluindo o Soeiro! - se esforçaram por me ajudar a vencer as dificuldades com que lutava!

Jamais equecerei esta magnífica prova de lealdade e camaradagem!

Senti, nesse momento, uma tão grande satisfação que a minha vontade foi a de os abraçar e agradecer-lhes, de todo o coração, a generosidade com que me amparavam.

Ao entrar para o campo estava convencido de que ia ser vítima da má vontade dos companheiros e, por isso, joguei quanto podia e, na realidade, estava desempenhando, muito razoavelmente, o lugar de avançado-centro. Mas quando me certifiquei do leal procedimento dos meus camaradas, apoderou-se de mim uma tal excitação que passei a fazer só asneiras!

Felizmente que o mau tempo passou com o sinal para a troca de campo.

 “Mister” Sezabo, nem uma só vez interrompeu o treino para me dar qualquer indicação. Só no intervalo me disse;

- “Estar bem Fernando. Primeiro vez não poder exigir muito. Normal, Férnando, normal”.

Que nos trinta ou quarenta minutos da primeira parte teria feito muitas asneiras, não me restam dúvidas. O treinador, porém, deixou-me completamente à vontade.

As interrupções do jogo com o fim de me corrigir ou aconselhar (tal como várias vezes fez aos outros) exerceriam sobre mim uma influência mais desastrosa do que benéfica.

Na segunda parte do jogo-treino, mais calmo s confiante, adaptei-me quase perfeitamente ao conjunto. Lembro-me de que, em poucos minutos, marquei dois bons golos na baliza à guarda do grande Azevedo, aproveitando outros tantos magníficos passes de Pireza e do Heitor, que entrara para substituir o Soeiro, que estava magoado.

Quase no fim, bati novamente o Azevedo, concluindo um primoroso centro do João Cruz.

Findo o treino recebi um afectuoso abraço do Aníbal Paciência, na opinião do qual o treino havia corrido bem. Aconselhou-me a trabalhar com vontade, dizendo por fim:

-“Estou certo de que o lugar de avançado-centro vai pertencer-te”.

Estas palavras amigas, que muito apreciei, aliadas à minha opinião (marcara três golos ao Azevedo!) levaram-me a concluir que fizera um treino brilhante…

Julgava eu que o treino acabara mas, afinal, só terminou para os outros…

“Mister” Sezabo interrompeu a conversa com o Paciência:

- “Férnando ficar a campo mais um bocado. Deixar sair tudos porque ter trabaio para sinhor. Estar cansado, Férnando?”

- Não “Mister”, sinto-me bem…

Cárágo, Férnando, rapaziada dê África ter garra. Bravo, Férnando! Continuar assim e ir ver, fazer-se grande jogador..

Depois de ouvir isto, ainda mais me convenci de que havia feito um treino muito bom, mas tudo se desmoronou como um castelo feito de cartas de jogar, quando o treinador continuou:

- “Férnando ter muito que aprender. Estar mal dê desmar- cação; andar perdido a campo. Indispensável direcção dê passe e Férnando passar muitos vezes para advérsário. Sinhor não saber cortar jogada. Muito importante atirar a bola junto dê poste. Não furar bariga dê guarda-redes. “Treining” dê hoje não estar mal pelo primeiro vez. Não interromper para não perturbar dê sinhor. Vamos, sinhor, se fazia favor. Ir atirar bola para si, dê interior de pé, outro vez dê exterior. Dêpois à direita e esquerda. Fazia favor sinhor Férnando..

Estas e outras habilidades fizeram prolongar o treino até às 10,30 da manhã, ou seja, uma hora a juntar aos 90 minutos já feitos em conjunto, mas tiveram a virtude de me chamar à realidade! - a dura realidade!-quanto ao que supus ter sido um formidável treino!

Enfim, outros treinos se seguiram, piores ou melhores, mas o certo é que “Mister” Sezabo ensinou-me o bastante para nunca mais, em quase treze anos, deixar de ser o avançado-centro da primeira equipa do Sporting Clube de Portugal e da Selecção Portuguesa de Futebol.

Aqui tem o leitor uma pequena amostra do que foi o meu princípio de futebolista no Sporting… quanto a treinos, é claro…

Quanto aos primeiros jogos, lá chegaremos. Antes, porém, julgo oportuno e interessante conversarmos um pouco acerca do caso que nesse tempo apaixonou os adeptos do futebol: Soeiro e Peyroteo.

Já lá vão 19 anos! Como o tempo corre, Santo Deus!…

A seguir aos meus primeiros treinos surgiram duas correntes. Uma a meu favor - a mais pequena, claro - a outra, mais forte e numerosa, a favorável ao Soeiro.

 

Tenho à minha frente um recorte da Revista “Stadium” cujo título é:

“Peyroteo desbancará Soeiro? Há quem diga que Peyroteo o pode fazer e há quem ponha reservas”.

 

Este título encimava a primeira entrevista que concedi em Lisboa, a Lança Moreira, em Setembro de 1937, já depois de ter efectuado o meu primeiro jogo.

Transcrevo o que mais interessa agora:

- “Espera desbancar Soeiro?”

O novo elemento do Sporting surpreende-se com a pergunta… Acha-a forte… Mas responde:

- “Soeiro é um grande jogador. Aprecio imenso as suas qualidades. Entretanto farei os possíveis para agradar aos sócios do Sporting e se amanhã vier a ocupar o lugar no grupo de honra, decerto que será por determinação do treinador. Não quero desbancar ninguém. Gostava simplesmente de aprender - que tenho muito que aprender - e vir a ser um bom jogador”.

Acredite-se que nunca procurei desbancar fosse quem fosse, até mesmo porque o termo “desbancar” me desagrada completamente.

Se o Lança Moreira me houvesse perguntado por que razão eu treinava com tanta vontade, insistência e, até, em número maior de vezes do que qualquer outro jogador, decerto que não responderia: “é para ficar na bancada, a ver os outros..Mas afirmo que não desejava suplantar ou prejudicar, por orgulho ou vaidade, os meus companheiros.

Substituir ou não o Soeiro no eixo do ataque da turma do Sporting, não constituía a minha razão de jogar futebol. Jogava por gosto e, como não podia deixar de ser, treinava com afinco, intensivamente, respeitando e cumprindo todos os conselhos e ensinamentos do treinador. Se preciso fosse, executaria um milhar de vezes o mesmo exercício ou repetia um pormenor de execução com a bola. Além disto, interessava-me pelos problemas tácticos e técnicos e, ainda, estudava os defeitos e qualidades dos adversários - o que me permitiu, nalguns desafios, tirar deles bom partido.

Sei que assim é porque conheço bem o Soeiro Vasques e apreciei a vontade indomável com que ele defendia as cores do seu clube, honrava e respeitava a camisola do Sporting, até mesmo quando já o peso dos anos o atraiçoou!

Os portugueses que ele, briosamente, representou na Selecção Nacional; o público do peão que tanto vibrou com a sua valentia e coragem e até muitos sportinguistas, todos foram injustos para o Soeiro, porque merecia mais e melhor ao fim da sua brilhante carreira desportiva. Outros de menor valia, foram mais acarinhados e mais felizes. Paciência! A vida é assim!..

Todos sabemos que ninguém gosta de ser preterido em qualquer actividade, mòrmente quando a substituição vem rotulada de “superioridade”, embora, neste caso, momentânea, efémera…

Mas também é verdade que esse sentimento de revolta íntima poderá, em muito, ser atenuado pelo reconhecimento da igualdade ou, quiçá, de melhoria na defesa do ideal que professamos.

Felizmente o meu ingresso na primeira equipa do Sporting não afastou dela o Soeiro, o mesmo acontecendo na Selecção Nacional…

O Soeiro foi vencido pela idade e não “desbancado” por mim. Afirmo-o com alegria e já com saudade, recordando a sua leal camaradagem, não esquecendo, ao mesmo tempo, quanto fez para ajudar a oferecer ao seu clube - o Sporting - um novo avançado-centro, no preciso momento em que se sentia já não poder fazer mais…

E assim, de corpos e almas entregues à defesa da mesma camisola, na mesma equipa e como dois bons amigos, nem eu desbanquei o Soeiro nem ele me desbancou a mim.

O facto de me alongar em considerações a propósito do valor, da lealdade e camaradagem do “jogador em força” (ver capítulo das alcunhas) não significa menor admiração ou amizade pelo Azevedo, Mourão, Armando Ferreira e João Cruz. Todos eles, num molhinho com o Soeiro, eram umas “ Grandes prendas” - na classificação dada por “Mister”- Charles Canuto!

O Soeiro veio mais à superfície, neste mar encapelado das minhas memórias, por virtude daquele título na revista “Stadium”: Peyroteo desbancará Soeiro?

Já decorreram 19 anos! Como todos nós estamos velhos, “Cárágo”!…»

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 77 - 85

Tudo ao molho e FÉ em Deus - Peyroteo e os ferros

O futebol é curioso e não pára de nos surpreender: era para ser uma partida em que o cansaço se faria sentir, acabou por ser o nosso jogo mais completo da época. Uma exibição de gala de Peyroteo - ou não fosse ele o jogador com a melhor média de golos do futebol mundial (acima de 1,6 golos por jogo) - , que marcou por duas vezes, com o pé direito e de cabeça, e acertou por 4 vezes nos ferros (duas bolas na barra, uma no poste direito, outra no poste esquerdo).

 

O jogo foi marcado também por mais uma lição do apitador que a tribo leonina "consagrou", que respondeu à nossa pressão alta com uma pressão alta, embora de tempo de reacção baixo, no apito. Tomemos a (não) acção disciplinar como exemplo: logo a abrir, Marcão pisou intencionalmente o pé direito de Gelson e escapou impune à cartolina. Aos 4 minutos, Leandrinho entrou com tudo sobre Battaglia e nada. Aos 11, Yuri Ribeiro rasteirou por trás Bruno Fernandes e não foi admoestado. Aos 68, Pelé carregou por trás Bruno Fernandes e o árbitro decidiu recuperar uma falta atrás... No final, três cartões amarelos para o Sporting e um para o Rio Ave (!). Olhemos agora para o capítulo técnico: aos 13 minutos, Coates pontapeou o esférico contra Diego e ... lançamento para o Rio Ave, aos 38, não marcou "penalty" sobre Bruno Fernandes nem aparentemente consultou o VAR, aos 43, 45 e 48 minutos demorou a marcar faltas contra o Sporting - acho que lhe chamam lei da (des)vantagem e consiste em demorar quase tanto a apitar quanto o tempo necessário para cozinhar um perú no Natal... - após bolas legalmente recuperadas pela nossa equipa à saída da grande-área do Rio Ave, finalmente aos 78, Marcão baixou a cabeça e marcou jogo perigoso a Gelson. E já nem vou falar da contribuição dos auxiliares nos foras-de-jogo ... Posto isto, não sei se me inscreva já num curso de arbitragem ou se consulte um oftalmologista, pois o ex-árbitro Pedro Henriques acaba de dizer na SportTV que a arbitragem foi boa...

 

O Sporting entrou com tudo e ainda não estavam decorridos 5 minutos quando Bruno Peyroteo cruzou da direita e Nelson Monte antecipou-se por pouco a Bas Peyroteo. Bas, que pouco tempo depois, isolado permitiu a defesa a Cássio. Aos 19, Bruno e Bas voltaram a estar em evidência: o primeiro acertou na barra, na execução de um livre directo, o segundo permitiu a defesa a Cássio, na recarga. Aos 23 minutos, uma jogada à Cinco Violinos: o apanha-bolas (se soubesse o seu nome seria candidato a "man of the match") serviu vertiginosamente Cristiano Peyroteo, este lançou rapidamente para Bruno Peyroteo-que-centrou-de-imediato-para-Bas Peyroteo-que-amorteceu-para-a-entrada-de-Gelson Peyroteo-que-não-perdoou. Golo ! 

 

Aos 26 minutos, Fábio Peyroteo acertou na barra, iniciando aí um duelo emotivo com o seu colega Bruno no tiro aos ferros. A primeira parte não terminaria sem que Bruno e Rodrigo Peyroteo não testassem novamente a atenção de Cássio. Pelo meio, Rui Peyroteo, em fim-de-semana de São Patrício, mostrou a razão pela qual desejamos por todos os santinhos que nunca abandone Alvalade. A segunda parte foi mais do mesmo: Coentrão e Bruno voltaram a acertar nos ferros, mais concretamente desta vez nos postes, decidindo-se por um empate técnico (2-2). Finalmente, aos 83 minutos, Bas terminaria com o sofrimento, respondendo de cabeça a uma bela iniciativa de Gelson (2-0), marcando assim o 30º da época.

 

Gelson e Bas Dost, com participação nos 2 golos, Bruno (meu Deus, o que ele jogou...) e William foram os nossos melhores jogadores, mas todos estiveram bem. Não foi só um homem ou dois, a equipa conseguiu pressionar no campo todo, mostrando-se sempre muito equilibrada. Coincidência ou não, à nossa melhor exibição correspondeu o regresso do 4-3-3, com Batman no meio. Tempo ainda para a estreia de Marcus Peyroteo (Wendel), que começou a amortizar o pesado investimento de 8,7 milhões de euros feito na aquisição do seu passe (nada social). Duas notas finais para Piccini e para Bryan. O italiano, quando está bem fisicamente, impressiona pela sua movimentação acima/abaixo pelo corredor, mas continua a protagonizar aqueles momentos hitchcockianos de atrasos de bola que fazem com que um adepto se tenha de munir de um desfibrilhador. Quanto ao costa-riquenho, proponho à direcção que passe a jogar com o nome de Peyroteo às costas. Pode ser que assim acabe com a maldição à frente das balizas. Hoje não teve oportunidade de as visar.

 

Em noite de homenagem a Peyroteo - dada a inspiração dos jogadores, não dá para repeti-la em todos os jogos em Alvalade? - esta vitória foi para si, "signor" Fernando, como lhe chamava o húngaro Szabo, nosso (e dele) antigo treinador. Peyroteo vive!!! E o Sporting também e recomenda-se, como se pôde observar num verdadeiro Dia de Sporting (a fazer lembrar tempos idos), que começou no Pavilhão João Rocha, com hóquei e andebol e muitas familias presentes e em estreita comunhão com o clube ...

 

Tenor "Tudo ao molho...": Bruno "Peyroteo"

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Peyroteo: o melhor de sempre

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Nasceu faz hoje cem anos: Fernando Baptista de Seixas Peyroteo de Vasconcelos, o homem-golo dos "cinco violinos". O maior goleador de que há memória no futebol português.

Vencedor de cinco campeonatos nacionais, quatro Taças de Portugal e sete campeonatos de Lisboa para o Sporting. Disputou 393 jogos com a camisola leonina em 12 épocas (1937-49), tendo marcado 635 golos (média de 1,61 por jogo, imbatível até hoje). Ao longo da carreira disputou 432 jogos marcando 700 golos (1,62 por jogo). Só no campeonato nacional de 1947/48 marcou 43 - recorde que durou mais de um quarto de século, até aos 46 golos de outro sportinguista, Yazalde, no campeonato 1973/74.

 

Fernando Peyroteo jogou vinte vezes pela selecção nacional, marcando 14 golos. É, ainda hoje, o português com melhor média de golos na selecção: 0,7 por jogo.

Outros máximos:

- É o jogador português com mais golos registados na história do nosso campeonato: 331.

- Foi ele quem mais golos marcou desde sempre num só jogo do campeonato: nove contra o Leça, em Fevereiro de 1942.

- Autor de mais golos consecutivos numa só partida do campeonato: cinco ao Vitória de Guimarães, também em Fevereiro de 1942.

- Marcou quatro golos num só jogo 17 vezes.

- Marcou cinco golos num só jogo 12 vezes.

 

Foi um dos melhores do mundo da sua geração. E só não se distinguiu ainda mais no capítulo internacional devido à II Guerra Mundial (1939-45).

Merece o Panteão, ninguém duvida.

Memórias de Peyroteo (7)

(cont.)

 

Em 4 de Julho de 1937, o Sporting e o Futebol Clube do Porto disputariam, no velho campo do Arnado, em Coimbra, o jogo-final do campeonato dessa época.

A Direcção do Sporting convidou-me para assistir ao último acto da grnade prova mas, ao contrário do que esperava, não fiz a viagem na companhia dos jogadores do clube. Deram-me um bilhete de segunda classe, por casualidade na mesma carruagem em que seguia, com sua família, um grande sportinguista: Basílio de Oliveira.

A equipa dos “leões” era constituída por Azevedo, Jurado, Galvão, Rui Araújo, Paciência, Manuel Marques, Mourão, Pireza, Soeiro, Heitor e João Cruz.

Pelo Porto alinharam Soares do Reis, Ernesto, Vianinha, Pinga, Carlos Pereira, Anjos, Francisco Ferreira, Lopes Carneiro, Reboredo, António Santos e Carlos Nunes.

O jogo foi deveras emotivo, resultando uma bela jornada desportiva. Um espectáculo de arrasar os nervos aos jogadores e a mim que assistia, pela segunda vez, a jogos do campeonato metropolitano, com a preocupação de ir pensando no me esperava em futuro próximo…

O Porto conseguira um golo nos primeiros minutos mas, antes do intervalo, Heitor Pereira estabeleceu a igualdade.

Na segunda parte os nortenhos colocaram-se em vencedores com um golo obtido por Vianinha, na marcação de uma “grande penalidade”.

Tão impressionado fiquei que ainda hoje me lembro da infracção que motivou o castigo máximo.

Dentro da “grande área” do Sporting, um avançado do Porto meteu mão à bola, intencionalmente. No mesmo instante ouviu-se uma “apitadela” e Jurado agarrou a bola com ambas as mãos para a colocar no sítio onde a falta fora cometida. Nisto, ouviu-se o apito do árbitro – santos Palma – ordenando a marcação de um “penalty”!

Dera-se o caso do árbitro só ter visto a falta cometida pelo Jurado e só por ela interrompera o jogo!

Julgo que alguém, fora do rectângulo, utilizara um apito idêntico ao do Juiz da partida e dessa brincadeira resultou ao Sporting Clube de Portugal!…

E assim terminou a época de 1936/37.

Na gíria do futebol diz-se que os “jogadores arrumaram as botas”. Debandaram, cada um para seu lado em busca de sol, nas praias, ou de ar puro nos campos.

Foi na grandiosa e aprazível Vila de Sintra onde recebi o bilhete postal convocatório para o primeiro treino formal em conjunto com os excelentes futebolistas do Sporting, entre os quais figuravam alguns elementos da Selecção Nacional.

É compreensível o nervosismo que de mim se apoderou ao receber a convocação. Embora fosse notícia prometida e ansiosamente esperada e apesar da favorável opinião do treinador, subsistia meu espírito a dúvida se, na verdade, a convocação apareceria.

É que, às vezes, pessoalmente, diz-se que sim mas num bilhete postal alegam-se razões, forjam-se desculpas e diz-se “não” com toda a facilidade.

Já no caminho da realidade, numa manhã de Agosto de 1937, o treinador do Sporting, José Sezabo, apresentou-me, “oficialmente”, àqueles que viriam a ser, durante alguns anos, meus companheiros de equipa. Ali estavam Soeiro, Pireza, Azevedo, Mourão, João Cruz, Vasco Nunes, Jurado, Rui Araújo, Heitor Pereira, Paciência, Abelhinha… e quantas mais “estrelas de primeira grandeza” no “firmamento” do futebol português.

Todos sabiam já da minha chegada a Lisboa, do meu treino de experiência, da visita a Coimbra a convite da Direcção do Clube e não ignoravam a opinião formulada, a meu respeito, pelo treinador.

“Mister” Sezabo disse textualmente no seu português arrevezado:

- “Sinhores: rapaz dê África, sinhor Férnando Peyroteo, vir para Sporting, fazer hoje “treining” ofêcial. Bom rapaz, ir ver sinhores…”

- “Qui está, está; qui non está non está! Dar-se dez-per-cente para ele. Vamos ao trabaio, sinhores” (Note-se que a frase “dar-se dez-per-cente para ele” equivalia a dizer: castiga-se com dez por cento sobre o ordenado, o jogador que não estiver presente).

À saída da cabine ouvi algumas piadinhas brejeiras como esta:

“É pá! Já cá tínhamos um preto, agora vem outro um pouco mais claro!…Qualquer dia a equipa fica tão escura que só com um lampião a encontramos!”

A referência ao preto era dirigida ao Paciência: que, aliás, não é preto, mas não gostei da graça e pouco faltou para se registar uma cena desagradável. Valeu-me a. lembrança da recomendação de “Mister” Sezabo:

- Rapazes brincar muito com novos. Não ligar, Férnando. Se sinhor engolir a isca ser pior…

Não entrando no rectângulo do jogo, seguimos a caminho do Jardim do Campo Grande o que constituiu, para mim, uma surpresa! Supunha que iria praticar futebol mas enganei-me redondamente.

Em Luanda os treinos limitavam-se a uma ou duas voltas ao campo, para aquecer os músculos, e depois um treino de futebol com onze homens de cada lado.

Sob as ordens de “Mister” Sezabo, a preparação dos futebolistas é muito diferente.

Para começar, todos demos, em marcha forçada, três voltas ao Jardim do Campo Grande e na ponta final desde o lago até à cabine, o trajecto foi feito em corrida lenta.

Os meus camaradas suportaram o treino com a maior das naturalidade porque já estavam habituados. Quanto a mim, só posso dizer que ao sentir no corpo as primeiras gotas de água do chuveiro, tive a sensação de ser agredido à pedrada. Se não fosse a vergonha e ensejo que daria para gargalhadas e gracinhas, tinha-me sentado no chão e deixado correr a água do duche até morrer afogado. Com os meus 19 anos, cheio de orgulho e vaidade, não gostava de servir de bobo; reagi e deixei perceber que estava pronto para fazer outro “passeio” igual, mas, na realidade, preferia atirar-me para o chão e ficar ali algumas horas a descansar. Sentia tantas dores nos músculos das pernas que mal podia com o peso dos pés e estes, por sua vez, causavam um mal estar insuportável.

“Mister” Sezabo, profundo conhecedor e sempre atento a estes pormenores, viu que o seu novo pupilo se encontrava em dificuldade. Discretamente, para evitar o gáudio da rapaziada, disse-me:

- “Depois dê banho sinhor Fernando esperar por mim; não vestir-se, por favor…”

Frescos, alegres e folgazões, os meus companheiros de equipa saíram a caminho dos seus afazeres. Eu deixei-me ficar sentado num banco chegando a pensar que não teria forças para dali sair.

Quando estava só, na cabine, entrou “Mister” Sezabo:

- “Estar cansado, Férnando? Natural, primeiro “treining”. Esfregar pernas com álcool e ficar bom. Insistir, Férnando, insistir!…”

Na verdade, após a massagem aplicada pelo treinador, fiquei um tanto melhor mas ainda tinha alguma dificuldade em andar.

Fui para Sintra, almocei pouco e logo a seguir fui para a cama só dela saindo no outro dia às 10 da manhã, contra o meu velho hábito de levantar cedo.

Mesmo assim, antes do almoço, dei o costumado passeio no jardim do “Chalé do Parque” onde residia meu primo, Guilherme de Vasconcelos Corrêa e família.

Quem me visse a passear, naquele dia, chamava-me com certeza pisa-flores.

O pior de tudo é que no dia seguinte teria outra estafa de nove quilómetros em marcha forçada. Só a ideia me apavorava e pensava já na linda figura que ia fazer se tivesse de desistir a meio do percurso. Lembrava-me da frase de “Mister” Sezabo: - “Insistir, Férnando, insistir…”

Que remédio tinha eu se não insistir!…

No primeiro treino, a que me estou referindo, nada sucedeu de especial, à parte umas tantas piadas no género das que já contei. Na cabine reparei que alguns camaradas procuravam adivinhar, olhando-me de soslaio, qual o efeito da estupada. Creio, no entanto, que nenhum deles chegou a fazer uma ideia exacta do meu sofrimento.

Fiz das fraquezas forças e parece que disfarcei bem…

Decorreu assim o meu primeiro treino oficial em grupo com grandes “ases” do futebol nacional.

Outros treinos se seguiram no mesmo jeito durante duas semanas. Ora, se cada volta ao jardim do Campo Grande representa três quilómetros mais ou menos e fizemos três treinos iguais por semana, o meu “conta-quilómetros” acusou, ao fim de duas semanas, 54 quilómetros andados… Para começar não foi nada mau!…

No fim das semanas todos íamos tomar um riquíssimo banho de imersão, nos balneários do Poço do Borratém ; água a 30 graus, e, depois, com uma massagem aplicada pelo treinador, os músculos recompunham-se.

Ora, se nos dois primeiros treinos nada houve de extraordinário, já o mesmo se não pode dizer nos restantes.

Ao contrário do que poderia supor-se, o Pedro Pireza era um dos jogadores que marchava mais depressa. Posso mesmo dizer que nenhum de nós o acompanhava sem fazer sacrifício.

A jogar futebol era lento mas a marchar era tão veloz que afligia. Tirava disso a vantagem que lhe permitia fazer a batota que mais tarde vim a descobrir.

Iniciada a marcha, o camarada Pireza, com mais dois outros companheiros, logo se adiantavam. Na primeira volta tudo ia mais ou menos bem mas, daí para a frente, o Pedro mais se distanciava do resto do pelotão, conseguindo mais de meia volta de adiantamento - o suficiente para o perdermos de vista.

Então, o espertalhão, encurtava o caminho pois quando chegava a meio do jardim metia-se por entre as árvores e canteiros, indo sair ao outro lado… Assim não só reduzia o percurso como ganhava tempo para, com todo o ripanço, fumar o seu cigarrinho!

De início duas coisas me faziam certa confusão.

Primeira: notava que, na cabine, ao equipar-se, o Pireza metia na algibeira do fato de treino, um cigarro, dois fósforos e um pedaço de lixa que arrancava da caixa. Para que serviria aquilo? Não admitia a hipótese de ele fumar durante a marcha, tanto mais que o treinador nos acompanhava;

Segunda: Porque razão o Pedro tinha tanta pressa em se afastar de nós, logo na primeira volta que “Mister” Sezabo dizia ter de se fazer em marcha lenta, para aquecer os músculos; as restantes voltas, sim, eram feitas a puxar, como se costuma dizer.

Compreendi a marosca no dia em que vi o amigo Pedro aproveitar a distância que nos separava para atalhar caminho e, regaladamente, fumar um cigarro!

O engraçado é que “Mister” Sezabo acompanhava a rapaziada mas ia sempre ao lado dos que faziam parte do pelotão mais atrasado.

Dizia ele que nós, os atrasados, éramos os que melhor podíamos fazer “malandragem”.

Afinal, lá à frente é que estava o gato e dos bons!…

Contarei ainda outra peripécia ocorrida, salvo erro, no último treino de marcha em volta do jardim do Campo Grande.

Nessa manhã, “Mister” Sezabo resolveu ficar num dos topos do jardim, com o relógio na mão, a fim de controlar o tempo que levaríamos a dar as três voltas. Pretendia ele que fizéssemos a última em menos cinco minutos do que a primeira.

Os veteranos concordaram achando excelente a ideia do treinador, mas eu notei, entre eles, trocas de olhar muito significativas; logo desconfiei que haveria tramóia e não me enganei.

Começou a marcha e, contrariamente ao que era habitual, um grande grupo encostou-se, o mais possível, aos canteiros. Até à terça parte do trajecto, nada se passou de extraordinário mas, a certa altura, meia dúzia de “veteranos” invadiu os canteiros e atravessou para o outro lado do jardim. Depois, sentaram-se - uns nos bancos, outros sobre os próprios canteiros - e esperaram que o grosso da coluna, que marchava a bom marchar,- desse a volta completa e chegasse junto deles. Quando estávamos próximo, os camaradas levantaram-se tomando a dianteira e cortaram a meta muito antes de nós…

“Mister” Sezabo disse-lhes: - “Muito bem sinhores; assim a mesma (entenda-se “é assim mesmo”). Bêstial, rapazes! Bom tempo, O. K.”

Depois, logo a seguir, para nós, os atrasados:

- “Cárágo, sinhores. Véliotes bestiais e sinhores o que são? Pilecas? Puxar-se rapaziada. Não deixar-se outros fugir-se..

Pois, pois, disse eu para mim. Mal sabes que estás a ser levado.

Na segunda volta, o grupo da vanguarda aumentou com a incorporação de alguns “veliotes” do pelotão atrasado e, chegados ao local propício, repetiram a façanha.

O Pireza apagou o cigarro, guardou a “beata”, tomou o comando das operações e ao passarem junto do treinador, ouviram mais felicitações, em especial os novos componentes do grupo. Nós continuávamos a ser os “pilecas”.

Pensei: ah! ele é isso? Então também eu vou fazer “malandragem”. Estuguei o passo, apanhei os marotos e, um pouco antes do sítio da fuga, avisei os veteranos de que iria com eles.

- “Não vai nada! O menino é ainda muito novo para se meter nestas coisas. Vá; toca a marchar, que bem precisa de arranjar canetas. E caluda, ouviu? Se “miar” leva um “chuto” no sítio onde se tiram as radiografias. Se não sabe onde é, espere que o tempo o ensinará!…”

Nada havia a fazer; eu era menino e eles… ratas sábias!

E foi assim o meu último treino de marcha no início da época futebolística de 1937-38.

Estou crente que “Mister” Sezabo vai ter pena de só agora saber disto. Se naquela altura o soubesse, ninguém os livrava…”dar-se cinquenta-per-cente para eles…”

No entanto, mesmo agora - decorridos quase 19 anos - quando o meu querido amigo José Sezabo souber da “malandragem” de que foi vítima, não deixará de me castigar, condenando-me, talvez, ao pagamento de um charuto de 17$50, castigo que aceitarei com o maior prazer porque, assim, terei ocasião de o abraçar.

 

Na maioria dos casos, quem assiste aos desafios de futebol não faz a mínima ideia do trabalho e do esforço dispendidos durante a semana por aqueles 22 rapazes.

No meu tempo, o programa dos treinos era, mais ou menos, o seguinte:

Antes de começar a época, 1.a e 2s.a semanas - Marchas 3 vezes por semana;

3.ª semana - à terça-feira - No campo de futebol, uma volta a passo e outra a correr, alternando sempre até completar 8 voltas ao rectângulo. Depois, 45 minutos de ginástica adequada, seguindo-se uns 10 minutos de brincadeira com a bola e, por fim, uns 200 saltos à corda. Por último, o duche.

“Mister” Sezabo recomendava sempre:

- “Não chutar com força, sinhores; não arranjar distensão”;

Quinta-feira - As mesmas voltas ao rectângulo seguidas de meia hora de ginástica, uns “sprints”, paragens e viragens rápidas e saltos de barreiras. Uns ligeiros toques na bola, ora com os pés, ora com a cabeça, jogando-a de uns para os outros, formando pares, mas. sempre de modo a dominar a bola, sem a deixar fugir, tudo feito suavemente, muito jeito e pouca força.

Para terminar a sessão, 150 a 200 saltos à corda e o indispensável duche.

Domingo - Oito voltas ao campo, ginástica, “sprints”, enfim, o necessário para obtermos agilidade, rapidez, destreza. A seguir, seis a oito paus espetados verticalmente no terreno, a um metro de distância entre si. Com a bola, procurávamos passar entre os paus, rapidamente, sem a deixar fugir. O exercício era repetido cinco ou seis vezes. Após estas voltinhas, aliás muito difíceis quando bem executadas, brincávamos com o esférico, tentando bater-lhe e dominá-lo de todas as maneiras.

Mais uma centena de saltos à corda e, pronto, estava acabada a sessão.

Era caso para dizermos: “Cárágo “Mister”! Sinhor matar-se a rapaziada!?…”

Seria enfadonho descrever em pormenor tudo quanto éramos obrigados a fazer. O que disse é um paninho de amostra, mas chega para se avaliar das obrigações impostas, ainda antes da abertura da época.

Durante os campeonatos, treinávamos às terças e quintas-feiras. Cuidava-se da preparação física e técnica de futebol, variando os exercícios conforme as necessidades de cada um e os lugares que ocupávamos na equipa.

Os avançados, depois da preparação atlética, dos pormenores de técnica de futebol e correcção de erros e dificuldades de execução verificados no jogo do domingo anterior, iam “atirar ao golo”; avançado-centro e interiores recebendo a bola vinda dos extremos e médios de ataque.

Depois, os interiores passavam a bola aos extremos para estes também se habituarem a fazer golos …

Não poucas vezes, porém, o próprio “Mister” Sezabo atirava a bola pelo ar em direcção ao avançado-centro para que este de cabeça, a colocasse ao alcance ora de um, ora de outro dos interiores.

Em resumo: colaborávamos uns com os outros, nos treinos e… nos jogos. Esta é a verdade incontestável!

Receio que “Mister” Sezabo venha a exigir “direitos de autor”, se continuar a descrever tudo quanto ele nos ensinou - e que constituiria um completo tratado de futebol.

A terminar, direi que era assim que se treinava quando ele orientava e dirigia o futebol no Sporting Clube de Portugal.

Não se poderá afirmar que os jogadores do Sporting não tinham fôlego para aguentar os noventa minutos de cada desafio. Os imponderáveis do jogo poderiam levar a equipa à derrota, mas nunca a falta de preparação física. Havia fôlego para dar e vender mas, para isso, muito se trabalhava e com vontade.

O leitor faz já uma ideia de como se preparavam os futebolistas naquele tempo e lembra-se, decerto, que se chegou a dizer que os jogadores procuravam “queimar” o novo elemento do Sporting.

Eu conto:

Referi já que nos treinos de pormenores de técnica de futebol, se formavam grupos de dois jogadores. Pois bem; a minha preocupação era, evidentemente, atirar a bola sempre na direcção do companheiro que estava à minha frente, não falhando o passe, o que nem sempre acontecia.

Na minha vida de futebolista nunca treinara e o que fizera de nada me servia agora. Daí as dificuldades.

A verdade é que eu tinha a preocupação de atirar a bola para o meu parceiro mas ele, em geral, de cada quatro vezes que o fazia, três passava com muita força e distante de mim. Isto era simples brincadeira. Ele queria obrigar-me a correr, indo buscar a bola a seis ou sete metros de distância, enquanto a “malta” ria e troçava do menino…

De princípio admitia o erro de pontaria mas, pelo tempo adiante, comecei a perceber que o “falhanço” era propositado!

Ora se o meu companheiro, mais habituado, falhava duas em cada quatro vezes, com maior razão eu devia fazer pior. Passei a errar três em cada quatro toques de bola e logo o camarada refilava… Entraram a compreender que o novato era espertinho e a coisa melhorou.

Além destas tropelias a que o nosso treinador, sempre atento, chamava “fazer malandragem”, outras semelhantes me tocaram pela porta. No entanto, entre mim e qualquer companheiro de equipa, nunca houve, felizmente, o mais pequeno incidente desagradável. Às vezes, como não pedia deixar de ser, refilava, dizia coisas, mas cedo compreendi que seria preferível não reagir e utilizar, na defesa, as mesmas armas com que era atacado. E foi o melhor que fiz…

Estão por terra os boatos!…»

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 70 - 77

Memórias de Peyroteo (6)

(cont.)

 

« LISBOA À VISTA

26 de Junho de 1937

 

No alvorecer de dia 26 de Junho de 1937, o paquete “Niassa” entrava na barra de Lisboa.

Beijando, suavemente, as águas do Tejo, os pulmões de aço da nossa casa flutuante resfolegavam, agora, compassadamente.

Em roda viva, os passageiros corriam de um lado para o outro, procurando o melhor local para assestarem os binóculos. Trocavam-se abraços; havia lágrimas de contentamento, enfim, reinava a confusão.

Todos procuravam descobrir, no cais, seus parentes e amigos…

A um canto do convés, não sabendo se com vontade de rir ou de chorar, uma “criança grande” admirava, em silêncio, a majestade e imponência de Lisboa, ainda adormecida.

Passaram os minutos. O navio atracou e, dessa hora em diante, a criança grande que eu era - com 19 anos - começou a viver a vida que o leitor conhecerá, se não lhe faltar a paciência para ler, até ao fim, as páginas do meu livro, ou melhor, a história da vida daquele que foi, durante uma dúzia de anos, o avançado-centro da primeira equipa de futebol do Sporting Clube de Portugal e, também, da Selecção Nacional Portuguesa (1937-1949).

 

CHEGUEI, VI E…

Cumpridas as formalidades legais, autorizada a saída dos passageiros do “Niassa” e visitas a bordo, logo fui abraçado por meus irmãos, parentes e amigos.

Nesse momento não foi difícil descobrir, entre a multidão - pelo arcaboiço e pela cor - um grande amigo e, por vezes temível adversário (ténis de mesa): o Aníbal Paciência. Fazia-se acompanhar pelos senhores Francisco Franco e Filipe Conrado, ambos da Direcção do Sporting, aos quais, desde logo, o Aníbal me apresentou.

Após uma breve troca de palavras, fui convidado a visitar a Sede do Clube, na Praça dos Restauradores, o que aceitei, verdadeiramente emocionado. Cumprindo a promessa feita aos dirigentes do Sporting de Luanda dava, agora, os primeiros passos numa vida que nem sempre foi um mar de rosas, acredite-se!

Às 10 horas da manhã, desembarcávamos. Meus irmãos tinham os seus afazeres e. por isso, seguiram a sua vida. O Ricardo, funcionário do Banco Nacional Ultramarino, levou-me até à Rua Augusta e mandou que o esperasse à saída, ao meio dia. Para ali fiquei a ver o movimento e, como não podia deixar de ser, estando tão perto, fui ver… o cavalo de D. José!

Para quem, como eu, não estava habituado à vida da Capital, duas horas a passear na Rua Augusta e na Praça do Comércio, passam rapidamente.

Assim foi: soou o meio dia no velho relógio da Rua Augusta e meu irmão apareceu. Depois, veio o Américo, acompanhado do nosso bom amigo Dr. Carlos Viegas, ao tempo professor de matemática no Liceu de Passos Manuel - se não estou em erro.

O Dr. Viegas ofereceu-me um opíparo almoço no Negresco e, ao fim da tarde, embarcámos no comboio para Sintra, onde íamos residir temporariamente.

Não me lembro do dia exacto em que entrei, pela primeira vez, na Sede do Sporting. Recordo-me, porém, que se festejavam os Santos Populares e havia baile.

Fui recebido por alguns directores, entre os quais os senhores Dr. Oliveira Duarte - ao tempo Presidente da Direcção - Filipe Conrado, Francisco Franco e Queiroga Tavares.

Feitas as apresentações e trocados cumprimentos, conversámos alguns minutos acerca do desporto angolano e, por fim, combinou-se que em dia próximo iria ao parque de jogos, no Campo Grande, fazer uma ligeira sessão de treino, após o que se trataria da assinatura da ficha, inspecção médica e, naturalmente, do contrato.

Compreendi, desde logo, que três poderosos factores concorriam para se não dar ao “meu caso” um carácter de urgência:

1.° - Porque o Sporting só necessitava do meu provável concurso na época próxima;

2.°- Porque de Luanda não viera, ainda, documento desobrigando-me dos compromissos desportivos ali assumidos;

3.° - Porque seria imprudente fixar condições, verbas e prazos num contrato, sem saberem, previamente, se o novo pseudo-jogador de futebol possuía as qualidades enaltecidas e apregoados em telegrama de Luanda.

Aceito por bem que à Direcção do Sporting assistia o direito de cautela e reserva. Mas não compreendia que espécie de documento era indispensável vir de Luanda, uma vez que ali envergara a camisola do Sporting e me propunha fazer o mesmo em Lisboa: Não era o Sporting Clube de Luanda filial do Sporting Clube de Portugal?

Delicadamente, não fiz qualquer alusão ao facto.

Despedimo-nos e Queiroga Tavares - bom amigo e a quem devo muitas finezas - quis ter a gentileza de servir de cicerone na minha primeira visita ao “Solar dos Leões”, na Praça dos Restauradores.

Muita luz, muita alegria e muita música. Ressoavam gargalhadas femininas. Respirava-se uma atmosfera pesada, que me impressionou desagradavelmente.

Queiroga Tavares, sempre amável, procurou lançar-me no meio das “feras” mas não pensou, decerto, que se os africanos não temem, na selva, as leoas, muito menos se atrapalham vendo-as rodopiar ao som de valsas de Strauss e tangos de Canaro, nos salões do Palácio Foz!…

Como bom desportista, sempre evitei permanecer em salões onde há perfumes ricos, raparigas interessantes, fumo de tabaco e sons!… Não querendo, também, abusar da amabilidade e paciência de Queiroga Tavares, saí e fiquei aguardando a convocação para o treino aprazado.

Entretanto, ia disputar-se mais um sensacional Sporting-Benfíca, no Campo Grande, e a direcção ofereceu-me um lugar no seu camarote.

Acredite-se que senti calafrios ao ver entrar em campo os jogadores. Do lado do Sporting vinham Azevedo, Mourão, João Cruz, Soeiro, Pireza, o saudoso Heitor Pereira, Rui Araújo… e pelo Benfica alinhavam Espírito Santo, Albino, Vaiadas, Xavier… etc.

Enquanto assistia ao prélio, a consciência dizia-me:

- “Vê bem o jogo e os jogadores. Repara no que eles fazem e avalia se os podes igualar. Se não tens confiança em ti próprio, se não acreditas nas tuas possibilidades ou, se te falta a coragem para lutar, então desiste agora, antes de fazeres figuras tristes…”

Este exame de consciência era interrompido, de quando em vez, pelos directores do Sporting, interrogando:

- “Então que tal acha os rapazes? Pensa que…

- “Talvez; não sei ainda… Já vê: eles estão habituados…

- “Que me diz do Soeiro?…

- “Sem dúvida, um bom jogador, mas o Pireza é extraordinário!…

- “Mas não é a avançado-centro que você quer jogar?…

Percebi que se procurava conhecer a minha opinião acerca do Soeiro, uma vez que até os directores do Sporting estavam convencidos que pretendia “tomar” o eixo do ataque na equipa dos “leões”.

Desconheciam, totalmente, quais eram as minhas intenções e pensamentos naquela altura e, muito menos, qual o lugar que, na verdade, desejava ocupar.

O intervalo foi aproveitado para continuarem o interrogatório, procurando adivinhar, pelas respostas, se me sentia capaz de fazer parte da equipa.

Às perguntas respondi invariavelmente:

- “Não sei, amigos; nada posso dizer. Agora todos são melhores do que eu. Depois se verá…

O Sporting acabou em vencedor e, à saída, os poucos adeptos que me conheciam, quiseram, também, ouvir-me, mas nada adiantei.

Limitei-me a dizer:

- “Todos quantos vi jogar, sabem muito mais de futebol do que eu. Mas como todos somos feitos de carne e osso, espero conseguir fazer alguma coisa parecida com o que vi..

Horas depois, longe da multidão que tanto me impressionou, já calmo, analisando pormenores do desafio e avaliando a incontestável categoria dos “leões” e “águias” que durante 90 minutos haviam procurado, com denodo, conseguir mais um triunfo para o seu clube, senti-me deveras impressionado.

Contar apenas com a robustez física e desejo de acertar, não chega para ser bom jogador de futebol. E indispensável ter intuição, possuir tendência especial, numa palavra, é preciso ter nascido para o futebol. Vontade sem jeito, nada feito!

O Pedro Pireza afirmava:

- “… o futebol não se aprende; nasce com as pessoas”.

Dou-lhe razão e vejamos porquê.

Tal como um gato brinca com um novelo de lã, o Pireza parecia ter o condão de atrair a bola de futebol; tanto a afastava de si, como a “chamava”, fazendo-a “morrer” a seus pés. Mas, decerto, nunca atingiria a craveira de Benjamino Gigli, por muito boa vontade que tivesse em ser cantor.

Outro exemplo:

Tenho uma guitarra, uma viola e um bandolim. Agora já não tanto mas em tempos, logo que chegava a casa, pegava num dos instrumentos e… fazia barulho, horas seguidas. Tinha a mania de vir a ser um “ás” a tocar instrumentos de corda. Um tango, dedilhado por mim na guitarra ou na viola, mais parecia uma marcha fúnebre do que música para dançar. No bandolim “arranhava” melhor mas nunca toquei mais do que a “Maria Cachucha” e “ó Rosa, arredonda a saía”!

Tem razão o Pireza; não nasci para ofuscar “Armandinho”, Martinho da Assunção, e outros grandes violistas e guitarristas que me delicio a ouvir sempre que posso. De resto, também eles não foram “talhados” para jogar como um Pireza, um Mourão ou um Espírito Santo.

Nas cabines dos campos de futebol muitas vezes ouvia dizer:

- “Cada um é para o que nasce, e o resto… é paisagem…”

 

A PONTA DO VÉU…

O tempo passava sem que fosse marcado o dia do primeiro treino.

Entretanto, meu irmão Ricardo, pediu-me para atender um cavalheiro que viera do Norte e desejava falar-me acerca de futebol.

Supondo tratar-se de um jornalista procurei esquivar-me à entrevista mas, sem saber como, o cavalheiro - aliás muito amável e correcto - encontrou-me na Estação do Rossio, quando esperava a saída do comboio para Sintra.

Sem rodeios, com a característica sinceridade e franqueza dos portuenses, ofereceu-me um emprego no Porto, ordenado por jogar no Futebol Clube do Porto e um prémio de alguns milhares de escudos pela assinatura do contrato.

Não fixei o nome deste senhor, nem sei se agia com autorização do clube para onde queria levar-me, mas o certo é que ainda hoje acredito na boa intenção e honestidade da sua proposta.

Respondi-lhe, lealmente, que não podia aceitar o convite porque já me obrigara a jogar pelo Sporting, estando tudo definitivamente combinado. Isto não correspondia à realidade da situação, mas julguei preferível não alimentar esperanças ao amável nortenho, embora soubesse que perdia uma óptima ocasião para me fazer valer…

Na noite imediata fui à Sede do Sporting e perguntei ao amigo Queiroga Tavares em que pé estavam as coisas.

Travou-se, entre nós, um diálogo mais ou menos nestes termos:

- “Estamos de mãos atadas; não podemos fazer o contrato porque de Luanda ainda não nos mandaram a carta de desobrigação.

- “Se eles sabiam que era indispensável, porque motivo não ma entregaram?

- “É natural que não tivessem tido tempo. Virá, decerto, no próximo navio…

- “Não! Aí há qualquer coisa pouco clara e que me desagrada. Peço-lhe que seja franco…

Vendo-me aborrecido e pouco disposto a continuar naquela situação, Queiroga Tavares foi ao gabinete da Direcção, voltando uns segundos depois para dizer:

- “Já se pediu ao Sporting de Luanda, creio que por telegrama, para nos enviar a carta…

- “Não compreendo a razão por que a carta vem para o Sporting e não para mim. E por que não teria sido eu o portador desse documento?

- “Bem vê: o Peyroteo conhece toda a gente em Luanda mas desconhece o meio desportivo metropolitano. Podia ser “torpedeado” e levado para outro clube!…

Claro que isto deu barulho. Irritei-me e não me contive:

- “Nunca pensei que o Sporting de Luanda duvidasse de mim e aceitasse a recomendação da Sede para vos remeter - e não a mim - a carta de desobrigação! Que pensam que eu sou? Que confiança mereço a uns e outros? A minha palavra é só uma! Prometi e cumprirei! Quando quiserem assinarei o contrato, sem me importar com as condições. Como sempre, confio na dignidade dos homens que dirigem um clube com as responsabilidades e tradições do Sporting”.

O amigo Queiroga, seriamente. embaraçado, procurou tranquilizar-me. Compreendi que não seria ele, “exclusivamente”, o responsável pelo que se fizera, mas a verdade é que o meu estado de espírito os levou a pensar a sério no caso e, tanto assim que, nessa mesma noite, ficou assente a realização do primeiro treino.

Não tenho a certeza se, naquele momento, a carta de desobrigação já estaria em poder do Sporting mas, com carta ou sem ela, tudo deixava compreender não desejarem fazer um contrato sem me verem treinar…

Não posso jurar que a sequência dos factos tenha sido exactamente esta, mas na sua essência - e é o que interessa - a verdade não foi desvirtuada. De resto, não prevendo o futuro, nada me aconselhava a escrever um diário que, diga-se de passagem, agora seria muito útil. Mesmo assim, a: memória não é das mais fracas e, recorrendo a ela, consegui… levantar a ponta do véu!

 

O PRIMEIRO TREINO

JOSEPH SZABO - húngaro de nascimento e português por naturalização - não carece de apresentação e o seu nome, citado a propósito de futebol, dispensa toda a classe de adjectivos.

Foi ele, com o seu trabalho e competência, quem ofereceu à Selecção Portuguesa de futebol um avançado-centro que a serviu (bem ou mal) durante mais de uma década. Foi ele, também, o principal obreiro do período áureo que o Sporting Clube de Portugal conheceu durante muitas épocas de futebol. Os dedos das mãos não chegam para contar as vitórias que, à custa do seu esforço, dedicação e muito saber, o Sporting averbou durante o tempo em que o português José Sezabo foi treinador das suas equipas de futebol.

Seria desmedida injustiça se neste livro faltasse mais amplo espaço para falar de “Mister” Sezabo.

Por agora direi apenas que foi com este grande mestre de futebol - e mau propagandista da língua portuguesa - que em Lisboa dei os primeiros pontapés na bola.

O meu treino de experiência realizou-se à tarde no antigo campo do Sporting e que hoje pertence, ainda, ao Benfica.

No parque de jogos conhecido por “Campo Grande”, estava “Mister” Sezabo, o falecido Augusto - encarregado das cabines - e eu.

O Augusto entregou-me o equipamento e quando já estava pronto para entrar no campo, apareceu “Mister” Sezabo:

- “Sinhor, vamos fazer “treining” pêquinína; dois voltas a corer, dois voltas a passe e vir centro dê terêno”.

Assim fiz. O vento soprava rijo.

Quando menos esperava, o treinador atira-me a bola e diz:

- “Parar a bola, sinhor!” Parei-a o melhor que sabia. Depois…

- “Sinhor, sinhor, como chamar-se sinhor?”

- “Peyroteo”

- “Peyroteo mais quê, sinhor?”

- “Fernando Peyroteo”

- “Disculpar. Eu chamar sinhor Fernando; ser mais fácil”.

Concordei e o treino continuou.

Passes de cabeça e com o interior do pé esquerdo, depois com o direito. Creio que chutei em todos estilos, à inglesa, à chinesa e isto com a bola vinda de todas as direcções, rapidamente, Durante mau hora fui obrigado a mostrar quanto valia e quanto sabia dos pormenores da técnica futebolística.

Depois, não achando suficiente a estafa que já me tinha pregado, “Mister” Sezabo armou em guarda-redes e, colocado entre os postes da baliza, atirava a bola e mandava que chutasse ao golo. Eu procurava fazer o “tiro ao boneco”, ou seja, apontava para o meio da baliza porque, se o pontapé saísse torto, havia muito espaço até aos postes… Assim, a bola não ia para fora.

Mas o treinador, conhecendo as manhas e talvez até porque, noutros tempos, teria feito o mesmo, gritou:

- “Sinhor Fémando: assim ser canja! Querer furar bariga dê guarda-redes? Atirar para junto dê postes! Ir ver que dificuldade ter guarda-redes. Experimentar se fazia favor!”

Procurei cumprir as suas instruções mas em cada dez remates, seis iam para fora! Sabem o que o treinador fez para eu ter mais cuidado? Simplesmente isto: todas as vezes que o remate saia torto, obrigava-me a ir buscar a bola, a correr!…

Duas horas depois “largou-me” e disse:

- “Sr. Férndo ter jeiteira mas precisar trabaiar muito. Bom pontapé, bom côrida. Precisar muito “treining” dê técnica de “foot-ball”.

- “Aqui estarei quando quiser e quantas vezes entender necessárias.

- “Africanos ter garganta ou cumprir palavra?”

- “Cumprir palavra”, senhor Sezabo!!!

- “Muito bem. Se sr. cumprir palavra, ir ver, mais tarde tocar a música, afinado. Dizer para si, Férnando: ter cuidado malandragem dê outros. Falar-se pouco e trabaiar-se muito. Ir ver qui bem ficar-se, Férnando…”

E assim acabou o treino, ou melhor, a experiência…

Sei que nesse mesmo dia “Mister” Sezabo informou a Direcção do Sporting de que eu interessava ao Clube e sei, também - lem- bro-me perfeitamente - que depois do treino até me faltou a coragem de ir para Sintra. Fui para casa de minha irmã, na Avenida 5 de Outubro, jantei, deitei-me e só me levantei no outro dia às 12 horas.

Que dores sentia nas pernas e em todo o corpo 1… Estava positivamente arrazado!

Depois do almoço recostei-me num divã, a ler. Tal era o cansaço que adormeci mas, pouco depois, chegavam a nossa casa os senhores Francisco Franco e Filipe Conrado, da Direcção do Sporting.

Vinham pedir-me para comparecer, nessa mesma noite, na Associação de Futebol…

Nessa altura já sabiam duas coisas importantes:

1.º - Que já me haviam oferecido condições para jogar pelo Futebol Clube do Porto;

2.ºQue “Mister Sezabo dissera: - “temos homem!”

Coube-me a vez de lhes fazer sentir que não tinha pressa nenhuma mas, de qualquer modo, estaria na Associação à hora indicada.

Quando ali cheguei tive o prazer de encontrar o meu prezado amigo e senhor Paulo Vieira. Poucos minutos depois, foi-me presente, para assinar, o contrato que me obrigava a jogar pelo Sporting Clube de Portugal.

Sem o ler, sem fazer perguntas - tal como prometera a Queiroga Tavares – assinei o documento.

Elaborado como estava, o contrato só dava garantias a uma das partes – ao Sporting! – embora, na aparência me fossem conferidos direitos. Conhecia já os termos do documento.

Era um “contrato leonino” como escreveu, algures o grande romancista Eça de Queiroz!

Por ficar “preso” para a época de 1936/1937, 1938/38 e 1938/39, recebi de prémio a quantia de… quinhentos escudos, verba que indico por extenso para não se supor que houve erro de imprensa…

Fixou-se um ordenado mensal de 700$00 mas, segundo creio, o contrato incluía uma clausula que permitia ao Sporting baixar aquela verba no caso de eu me empregar.

Esta faceta não interessa grandemente porque o senhor Francisco franco administrava um fundo especial denominado, se não estou em erro, “caixa dos leões” (cotização dos carolas) e dela saiam quantias destinadas a reforçar os ordenados de alguns jogadores, não sendo, portanto o Sporting a pagar ordenados diferentes a este ou àquele… Aos que mereciam, o senhor Francisco Franco, dava, por fora, 200$00 ou 300$00 mensais. Felizmente, nunca me faltou com o subsídio extraordinário…»

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 58-69

 

(Repito: peço desculpa pela extensão destes textos, assim como para a eventualidade da existência de alguma gralha. Se existir, culpa minha na revisão da digitalização e/ou digitação.)

Memórias de Peyroteo (5)

(cont.)

 

« Terminado o ano lectivo, voltei para casa de minha saudosa Mãe.

Ali estive algum tempo até que, sem saber como nem porquê, voltei a Sá da Bandeira mas, desta vez, para a companhia de meu irmão Jorge, Inspector dos Caminhos de Ferro.

Por sina), foi esta a última visita que fiz à minha linda e saudosa cidade de Sá da Bandeira.

Meu irmão Álvaro fora, novamente, transferido, desta vez para a Agência do Banco de Angola em Nova Lisboa.

Sabendo disto, o amigo Acácio, que ia, na sua camioneta, levar carga a Nova Lisboa, convidou-me a acompanhá-lo.

Com aquele espírito de aventura aliado ao gosto de viajar, que sempre tive, aproveitei, com alvoroço, a oportunidade que se me deparava. E lá fui dar um abraço ao “Alvarinho” (o “barbaças” já conhecido do leitor).

De Sá da Bandeira a Nova Lisboa são, talvez, 400 quilómetros através do mato. Esta distância, percorrida em automóvel ligeiro, é agradável, rápida, não chegando a maçar. Mas a viagem feita em camionetas de carga, rodando vagarosa e pesadamente, torna-se monótona e estafante, tanto mais que, geralmente, se faz de noite, pela fresca.

Vencemos o sono com a esperança sempre enervante, perigosa mas agradável, de encontrarmos, pelo caminho, alguma fera ou simples animal corpulento, selvagem, sim, mas assustadiço e quase inofensivo.

Na realidade, andar centenas de quilómetros, à noite, em estradas serpenteando por entre mato cerrado, é de respeito e faz medo; sim, medo!…

Quando tínhamos andado uns cem quilómetros, os potentes faróis da camioneta incidiram sobre uma linda e corpulenta onça.

A meio da estrada, estático e imponente, o animai, olhava-nos bem de frente.

O Acácio segurou melhor o volante e disse-me:

- “Fecha os vidros da cabine que vou tentar atropelar o bicho”…

Carregou no acelerador e a pesada camioneta avançou para a fera que, talvez encadeada pela luz brilhante dos faróis, continuava imóvel. Em breves segundos tivemos a nítida impressão de que o rodado atingira a onça, esmagando-a, tanto mais que sentimos um ligeiro solavanco.

Andámos mais uns trinta metros para reduzir a velocidade e parámos o tempo indispensável para o carro fazer marcha atrás.

Vidros fechados, eu de pistola em punho, recuámos até um pouco mais além do sítio onde calculávamos ter atropelado a fera. Assestámos os faróis para o local e… não a vimos!

Ficámos convencidos de que a onça foi duramente atingida mas, assim mesmo, dotada de resistência inacreditável, teve ainda forças para dar um pulo e esconder-se no mato, ali próximo.

Ferida mas ainda com energia para atacar, esperava, traiçoeiramente, que saíssemos da camioneta…

Habituado a estas peripécias e, portanto, cauteloso e prudente, o amigo Acácio, preferiu seguir viagem sem mais delongas.

Porém, o leitor - homem destemido, capaz de enfrentar uma onça no maravilhoso Parque das laranjeiras - perguntará com altivez:

- “… Se estavam armados porque não dispararam, em vez de procurarem atropelar a fera?”

Eu respondo:

De dia, é extremamente perigoso falhar um tiro a uma onça; de noite, então, constitui temeridade.

No nosso caso, sairmos da camioneta representava o suicídio.

A onça, ferida de morte, encoberta com os arbustos, esperava o momento da vingança. Quantas mortes têm provocado em circunstâncias idênticas…

O caçador atira e, vendo a onça caída por terra, avança despreocupado. Nisto, a fera levanta-se e… era uma vez um caçador imprevidente…

É por isso que, em plena selva, muitas vezes deparamos com uma cruz sobre um monte de pedras - sinal indicativo de que ali perdeu a vida um homem que se embrenhou no mato, sem saber ao que ia…

A mania de ser valente tem custado a vida a muitos que, sabendo, embora, manejar uma espingarda, desconhecem a selva e o comportamento das feras, sobretudo, quando feridas.

Para a viagem a que me refiro, saímos de Sá da Bandeira ao fim da tarde e chegámos a Nova Lisboa no dia seguinte perto da hora do almoço.

No caminho, altas horas da noite, parámos para “ouvir” o silêncio da selva.

O estalar de folhas secas sob as patas de animais selvagens; o piar das corujas e o rugido, longínquo, do “Kurica” (leão, na língua indígena) obriga-nos a reconhecer a pequenês do homem perante a Natureza.

O leão estava bastante longe mas, mesmo assim, resolvemos seguir… É que este bicho, quando quer, caminha depressa e uma sua possível visita não nos agradaria muito… Toca a andar, enquanto é tempo…

Para mim, salvo o devido respeito pelos zoólogos, o leão não é, na realidade, o “Rei da Selva”.

Pelo que me foi dado conhecer da fauna angolana e pelo contacto pessoal que tive com Teodósio Cabral e Dr. Abel Pratas - o primeiro como caçador profissional de elefantes e o segundo na sua qualidade de médico veterinário, Director da Estação Zootécnica da Humpata e, também, óptimo atirador e caçador de feras - tudo me leva a não dar ao leão a glória da supremacia na selva. O elefante ocupa, sem dúvida, o primeiro lugar!

Para não me afastar dos motivos que me levam a escrever este livro, aconselho os leitores que porventura se interessem por estas coisas do mato, a lerem os quatro volumes intitulados “Da Vida e da Morte dos Bichos”, da autoria de Teodósio Cabral, Abel Pratas e Henrique Galvão.

São quatro livros de extraordinário interesse, obra séria que todos os estudiosos deviam conhecer.

Será bem empregado o dinheiro gasto e melhor aproveitado o tempo que dedicarem à sua leitura.

Não se trata de uma obra de ficção mas sim de um trabalho sério e verdadeiro.

Os autores dispensam adjectivos que os enalteçam e a obra não carece do meu pobre elogio.

 

Ao ver-me em Nova Lisboa, o Álvaro não se mostrou surpreendido.

Se, no rosto e um tanto fisicamente, somos parecidíssimos, também há, entre nós, uns pontos de contacto quanto ao génio, espírito de aventura e decisão.

Devo-lhe tanto que não sei se lhe dedico mais amizade do que respeito!

Feliz e contente, com a alegria estampada no rosto, abraçou-me e fomos almoçar.

Eu já conhecia Nova Lisboa, pois ali havia ido, em ano anterior, integrado numa companhia de artistas-amadores de Teatro que fez subir à cena a revista “Vidairada”, escrita e ensaiada por meu irmão Álvaro.

Com esta revista fizemos espectáculos em Sá da Bandeira (estreia), Moçâmedes e, a seguir, em Nova Lisboa. Foi um êxito!

Álém de três ou quatro “números” acompanhei à viola - com o Branco Lima à guitarra - uma garota de 10 ou 12 anos, cantando o fado. E que bem que ela cantava! Se a nossa grande artista Amália Rodrigues tivesse aparecido antes, dir-se-ia que a miúda procurava imitá-la.

E esta? O “arraza montanhas” do futebol, também foi “artista” do teatro e violista!

No dia imediato, já em Nova Lisboa se sabia da minha chegada e logo se organizou um desafio de futebol, contando-se comigo para fazer parte de uma das equipas.

No domingo, vinte e dois rapazes estavam no campo para… jogar à bola com o Fernando Peyroteo.

Por sorte, estive em tarde feliz!

Em abono da verdade diga-se que havia ali tão bons ou melhores jogadores do que eu mas, de qualquer modo, os dirigentes do Sporting local tentaram convencer-me a ficar em Nova Lisboa.

Depois, apelaram para a influência de meu irmão Álvaro e, dois ou três dias mais tarde, ofereceram-me um emprego na Secretaria da Administração Política e Civil.

Quando tudo estava preparado para tomar posse do lugar, meu irmão recebe uma carta do nosso amigo Norberto Santos, informando ter arranjado, em Luanda, uma boa colocação para mim.

Foi uma bomba! Os sportinguistas ficaram desolados e furiosos; jogaram todos os trunfos ao seu alcance para ganhar a partida.

Mas a resolução final pertencia à nossa boa Mãe.

Posta ao corrente das ofertas, escreveu-nos dizendo que julgava melhor aceitar a proposta do Norberto.

Luanda, sendo a Capital de Angola, oferecia maiores possibilidades de arranjar outro emprego, no caso do primeiro não agradai ou não servir para futuro. Além disso, estava já ali meu irmão Júlio (dois anos mais velho) ao qual me podia juntar…

Sendo esta a opinião, sempre acertada, da nossa Mãe, nada mais havia a fazer. Aceitei o oferecimento do Norberto, preparei as malas e o comboio levou-me até ao Lobito, onde tive a satisfação de abraçar o Albano de Abreu.

O navio “Lourenço Marques” transportou-me a Luanda. Não pensava em que jamais voltaria ao Lobito, a Nova Lisboa, Sá da Bandeira e a Moçâmedes.

Já lá vão 19 anos e confesso que tenho muitas saudades da terra angolana!..

 

No dia da chegada a Luanda houve uma corrida de “dongos” - embarcações feitas de troncos de árvores - cujos remadores eram negros.

O “Lourenço Marques” fundeou por volta das 11 horas da manhã.

No cais estava meu irmão Júlio e, com ele, o Norberto Santos, Romeu Galeano, Guilherme Carvalho (director do Sporting) Vitória Pereira, José Fernandes, Mário Dias e Telmo Vaz Pereira- o melhor avançado-centro angolano de todos tempos.

Tantos, tantos amigos que não é possível citar todos.

Após a costumada troca de abraços, aliás afectuosos e sinceros, fomos almoçar ao Hotel Luanda.

Reinava a boa disposição, a conversa era animada e os projectos sem conta de futuros cometimentos, no respeitante a futebol!…

O Sporting de Luanda usurpava os “direitos” do Benfica metropolitano, julgando-se…”o melhor do Mundo”!…

Tudo era risonho.

 

Sim; tudo era risonho, simples e fácil para os amigos, mas no que me di2ia respeito, a vida mudara completamente.

Entregue a mim próprio, tinha de pensar a sério no futuro. Jamais acreditei que o futebol, só por si, constituísse meio de vida para quem pense na velhice. Por isso tratei de começar a trabalhar.

Esperava-me o lugar de escriturário na Repartição de Contabilidade da Fazenda Pública, onde estive até ao dia do meu embarque para Lisboa, servindo sob as ordens de um bom Chefe de Secção e amigo, o senhor Carlos Morais Sarmento Amorim Cordeiro.

Ao leitor não interessa, certamente, saber quantos desafios de futebol joguei em Luanda, se ganhámos ou perdemos os encontros em que tomei parte e se, na realidade, com a minha ajuda, o Sporting Club de Luanda passou a ser “o melhor do Mundo”.

O público adepto do futebol justifica as derrotas do seu clube favorito com esta frase: … a bola é redonda!… e alguns jornalistas por sua vez utilizam outra, porventura de maior efeito - “a gloriosa incerteza do desporto

Em Luanda, a bola era redonda e sempre se manteve a gloriosa incerteza do desporto, a justificar a razão por que o futebol é sempre igual mas sempre emotivo, levando atrás de si a infância, a juventude e até a velhice.

Sem que a minha equipa pudesse fugir ao capricho da sorte do jogo e a todas as circunstâncias fortuitas que ditam os resultados, fiz muitos jogos e o Sporting Club de Luanda, mesmo com o melhor esforço do seu nóvel elemento, continuou a ser igual a si próprio, ganhando e perdendo campeonatos.

Uma vez na Capital da Província, voltei a praticar outras modalidades desportivas, especialmente o ténis e o “ping-pong”.

Sempre que era possível, ia aos “courts” do Banco de Angola e entretinha-me a jogar com outros amigos. Isto aconteceu poucas vezes, é certo, porque das 9 às 12 e das 14,30 às 17,30 estava na Repartição a trabalhar.

Não dispunha de muito tempo para me dedicar ao ténis mas, com boa vontade, fiz alguma coisa de jeito, embora não tivesse passado de um péssimo ténista. De resto, não jogava para regalo da assistência (?) e nunca pretendi entrar em competições. Era o “vício” dos desportos e nada mais.

Em “ping-pong” sim, fui mais além.

Eu conto: - em Luanda fazia muito calor e, por isso, os desportos a praticar dentro de casa não me atraíam, com excepção do ténis de mesa. Ainda hoje, sempre que posso e o jogo é susceptível de interessar, não deixo de assistir.

Por vezes, ia à Sede do Sporting, pegava na raqueta mas nunca fazia mais de três ou quatro jogos porque a transpiração me afligia sobremaneira.

Como é natural, havia verdadeiros furiosos pela modalidade e mais furiosos ficavam pelo facto de não conseguirem bater-me.

Não me considerava bom jogador e, como já disse, só acidentalmente pegava na raqueta, ao passo que os meus adversários passavam horas a treinar. Invariavelmente, eu ganhava os jogos, facto que os atormentava.

Um dia os furiosos lembraram-se de organizar um torneio inter-sóciós.

Os marotos prepararam-se com treinos diários e só na véspera ou ante-véspera do início da prova me convidaram a tomar parte nela.

De princípio, não aceitei o convite, pensado no sacrifício de ter de suportar duas ou três horas de calor.

Os camaradas insistiram, não me restando, por fim, outra solução que não fosse a de anuir. Fi-lo, porém, com uma condição: não mais de duas partidas em cada noite.

Para isso, dividiram-se os jogadores em dois grupos e os campeões de cada grupo defrontar-se-iam numa final.

Após três noites de sacrifício, vencendo todos os adversários ao segundo jogo, salvo erro, chegámos ao grande dia da final.

Na outra série ficou em primeiro lugar o Aníbal Paciência.

Lembram-se dele, certamente.

Saibam agora que jogou comigo no Sporting de Luanda, foi meu colega de trabalho e, mais tarde, meu camarada na equipa do Sporting Clube de Portugal. Hoje, somos bons amigos.

Pois foi o amigo Paciência quem se encontrou comigo na final do torneio de “ping-pong”.

Curioso é notar que o Aníbal se incluía no número dos furiosos que treinavam quase todos os dias e nunca jogava comigo, nem sequer a brincar. Este facto redobrava o interesse pela final do torneio.

Jogámos e o amigo Paciência teve que ter paciência; foi derrotado.

O Aníbal era, na verdade, melhor jogador mas convenceu-se de que eu era “galinha” e ele - comilão como sempre foi - contava “papar-me de churrasco” …

Enganou-se. O excesso de confiança foi-lhe fatal. Perdeu - t bem! - um torneio que só ele merecia ganhar.

Palmas, abraços e foi-me entregue a medalha de Campeão d- “ping-pong” do Sporting Clube de Luanda.

No fim de tudo, o Paciência, não se dando por convencido propôs-me jogar mais uma partida de desforra. - “Livra, que está muito calor. Amanhã na Repartição combinaremos isso; hoje… ou amanhã!”

Despedi-me, saí e fui à Ilha gozar o fresco da noite.

Mais tarde, voltámos a jogar e lembro-me perfeitamente de que só no terceiro encontro conseguiu vencer-me.

Enfim, perdi, ganhei, mas ficou a grande amizade que sempre existiu entre mim e o Aníbal-comilão.

Chamo-lhe assim porque - depois do Faquinhas - não conheci homem capaz de comer tanto! Na verdade, era preciso paciência para ver o Paciência comer.

Ao almoço, por exemplo, tragava dois pratos de sopa bem cheios! - uma cabeça de pescada à João do Grão, um bife de 750 gramas e respectivas batatas fritas, cinco ou seis pãezinhos, duas laranjas e, para finalizar, meia dúzia de bananas!

Isto, claro, em 1938/39 porque hoje, com a carestia da vida, faltava-me a coragem para o convidar, outra vez, para almoçar em minha casa… Nem ele, talvez, come agora tanto. Está mais velho e…”Deus dá o frio conforme a roupa”!…

Não é verdade, meu velho e bom amigo Aníbal Paciência?

Bons tempos!

 

O «DEUS ÁRVORE»

O Clube de Futebol “Marítimo» do Funchal (Madeira), foi em digressão a Angola e logo após o seu regresso tive o prazer de receber, enviado por pessoa amiga, um jornal do Funchal no qual se publicava uma crónica onde se relatava o que havia sido a viagem daquele grande Clube por terras africanas.

Impressionou-me agradavelmente a maneira amável como os madeirenses se referiam às gentes da minha querida Angola e à forma hospitaleira e amiga como todos os africanos ali receberam os componentes da caravana funchalense. Gente humilde e despretenciosa, encontrou em Angola povo igualmente humilde e despretencioso, que os recebeu com abraços de verdadeiros desportistas, cumprimento a que os madeirenses corresponderam, também, com a sinceridade dos seus abraços e manifestações de carinho e muito apreço.

Modesto e educado deve ser todo o bom desportista. O jogador de futebol de boa classe, o campeão de atletismo, enfim, o atleta que atingiu em qualquer modalidade os pináculos da fama e da glória desportiva, não deve, nunca, supor-se superior aos seus semelhantes, unicamente porque é… campeão. Se assim proceder será triplamente campeão: no desporto, na idiotice e na pobreza de espírito.

Ora, entre os muitos atletas (não os funchalenses, entenda-se desde já), que têm visitado as encantadoras terras de Angola e Moçambique, alguns deles - poucos, é certo - deram, infelizmente, sobejas provas da sua má formação desportiva. A fama e a glória que alcançaram no desporto perturbou-os ao ponto de se suporem algo superiores àqueles humildes mas verdadeiros desportistas africanos que os abraçavam, vitoriavam e recebiam com a hospitalidade e amizade sinceras que é apanágio das gentes africanas.

 

“ - Abraças-me, gritas pelo meu nome porque eu te sou superior, porque valho mais do que tu, porque sou um campeão. Por isso devo tratar-te como mereces, cá do alto da minha cátedra de atleta valoroso. Arreda que quero passar sem ser incomodado…-”

 

“ - Não, camarada, tu estás enganado. Não somos quem julgas, Modestos desportistas, é certo, apaixonados do desporto, mas sumamente mais educados e, afinal, até mais desportistas do que tu! Entendes? Recebemos-te bem, com abraços; vitoriamos-te mas não te somos inferiores. Não vejas na forma carinhosa como te recebemos qualquer sintoma de subserviência. Nada disso! Gostamos muito de te ver, de te acarinhar; admiramos-te pelas tuas proezas no desporto, mas não nos julgues uns pobrezinhos de espírito. Estás enganado, percebeste? Esta é gente bem formada e educada. Vai-te embora, desaparece da nossa vista e se alguma vez mais por cá vieres, modifica-te antes de pisares terra africana. Não sejas idiota! Sê modesto, correcto, educado e compreensivo. Se assim acontecer, então, beneficiarás da nossa hospitalidade, terás os abraços, os carinhos desta gente que sabe e gosta de receber bem. Pelo contrário, se mantiveres a mesma forma de proceder e pensar sobre a tua superioridade no teu débil entender, está claro -, então ignorar-te-emos, andarás de terra, em terra votado ao desprezo que merece a tua ignorância dos mais elementares deveres da boa educação e desportivismo”-.

Assim são e assim pensam todos os bons desportistas africanos. Sei que assim é porque nasci lá, em Angola, e conheço bem a mentalidade da gentes das terras de além Atlântico. E se não fora eu a dizê-lo, os exemplos de modéstia e compreensão e de correcção desportiva, estão bem à vista; palpam-se através do comportamento daqueles muitos rapazes africanos que pisam - e pisaram - campos de desporto na grande Metrópole.

Pois bem, amigos. Tudo isto veio a propósito duma crónica publicada no jornal do Funchal a que já me referi e na qual, entre muitas outras coisas interessantes, se dizia “ter eu nascido debaixo de uma árvore!!!”, ali muito perto da linda Vila de Humpata. Assim mesmo: que tive por tecto, no dia 10 de Março de 1918, a folhagem encantadora de uma árvore de grande porte! O que se afirmava nesse Jornal era o produto de uma informação colhida, creio, mesmo na Humpata, por alguns dos componentes da embaixada madeirense!

A notícia foi para mim uma autêntica revelação, que me fez rir a bom rir. Nascer debaixo de uma frondosa árvore não deixava de ter a sua graça, não acham? Por que embaraços teria passado minha querida e saudosa Mãe!!! Estaria habituada ao “acto” por ter já trazido a este Mundo de Deus uma razoável quantidade de raparigas e rapazes, pois eu fui o undécimo na escala dos nascimentos, mas assim, tendo como leito o chão duro duma estrada e por tecto a ramagem de uma árvore, não haja dúvida de que o caso deveria ter preocupado minha adorada Mãe! É caso para perguntar: e quem teria sido a parteira que lhe deu assistência?… Ah, já sei. Talvez um lindo exemplar de “leão”… E daí, até, a minha tendência para os…”lagartos” …

A primeira atitude que tomei logo após a leitura do jornal que publicou a célebre notícia, foi a de escrever ao amigo que teve a gentileza de mo enviar, dizendo-lhe que o facto de se afirmar lá pelo Sul de Angola que eu nascera em sítio tão impróprio e incómodo para minha Mãe, em nada me desgostou e que nem sequer poderia desmentir a afirmação Por mim, estava absolutamente convencido de que tinha vindo a este Mundo dentro de casa, num quarto modesto, é certo, tendo por tecto muito boa telha, que não deixava passar a chuva diluviana que, de vez em quando, caía na risonha Vila de Humpata. Sempre ouvi dizer aos meus que nasci na casa da Escola daquela Vila. E, agora, uma coisa destas, hein!!! Quem me havia de dizer!!! O mais engraçado de tudo é que, já com 12 ou 13 anos, visitei a Humpata e meu irmão Jorge - segundo na escala dos Peyroteos -, me levou a ver a casa e o quarto onde nasci. Estaria ele a enganar-me para não me desgostar, o que supunha suceder se me informasse do sítio onde agora se diz ter eu nascido? Não, não podia ser! Nesse tempo ninguém se atreveria a levantar semelhante boato; agora é que qualquer alma penada se lembrou de fazer “blague” com uma brincadeira sem pés nem cabeça.

Mas se eu achei graça ao disparate, meus irmãos mais velhos é que não gostaram nada da “blague”., E tanto assim é que, um deles, o Ricardo, que nunca estivera em África - foi dos que nasceu em Lisboa-, resolveu ir a Angola conhecer a numerosíssima família que ali vive. E rio seu regresso - que se verificou há bem pouco tempo -, trouxe-me uma fotografia tirada por meu irmão Jorge, na qual se vê a janela do quarto onde este vosso amigo nasceu. Daqui se pode concluir que, afinal de contas, tudo o que se afirmou sobre o meu nascimento não passa de um incompreensível boato. E é pena, pois eu achava um piadão ao facto de ter nascido “debaixo de uma árvore”, em pleno mato, ali à fresquinha, com o Sol tropical por testemunha e um “KURICA” (leão) a assistir! Rias não; meus irmãos mais velhos não querem assim, pelo que nada mais há a fazer do que acreditar na verdade das coisas. Paciência. Ficará para a outra vez…

O certo é que os pretos lá do sítio me consideram e tratam por o “Deus Arvore”…

 

A CAMINHO DE LISBOA

Em Abril de 1936, recebi, em Luanda, uma carta de minha Mãe na qual me informava de que os médicos impunham a sua vinda a Lisboa, para se tratar.

Como funcionária do Estado - professora oficial em Moçâmedes - tinha direito a gozar licença graciosa na metrópole.

Porque o seu estado de saúde não permitia que viajasse sozinha, convidava-me a vir com ela.

Embora a possibilidade de conhecer Lisboa me desse grande satisfação, contrariava-me o facto de ser forçado a abandonar o emprego. Por outro lado, não podia nem devia negar-me.

Quando, em Luanda, se soube da minha projectada viagem, agitou-se o meio desportivo. A novidade era comentada em toda a Cidade, Assediavam-me com perguntas, davam-me conselhos e faziam-me recomendações. Até o meu Chefe de Repartição, senhor Vasconcelos, me recomendou não deixasse de ir ao “Terreiro do Paço” cumprimentar o cavalo de D. José e ver bem qual era a “pata direita”.

Com o ar mais grave e sisudo que lhe conheci, dizia ser praxe a cumprir pelos africanos, na sua primeira visita a Lisboa!…

Claro que a gracinha não pegou porque eu sabia bem que a pata que está direita é a esquerda. Ou não fossem meus pais naturais da Metrópole, para nos falarem, com saudade, destes trocadilhos.

Por feliz coincidência, o senhor Vasconcelos foi meu companheiro de viagem, embarcando comigo, em Luanda, nos primeiros dias de Junho de 1937. A bordo, muito rimos a propósito da sua recomendação!

Estando resolvido, em definitivo, acompanhar minha Mãe, o plano estabelecido era oferecer os meus fracos préstimos à “briosa”, continuar os estudos e formar-me em medicina veterinária.

Entretanto, a Direcção do Sporting Clube de Luanda, por intermédio dos seus representantes e delegados, procurou convencer-me a ficar em Lisboa e jogar no Sporting.

Trindade Fernandes, meu particular amigo e distinto jornalista, teve acção preponderante na mudança da minha resolução. Aceitando os seus conselhos, alterei os planos.

Se fiz bem ou mal, o leitor ajuizará, quando voltar a última página deste livro.

Nas vésperas do embarque, o Sporting ofereceu-me um beberete na sede. Cumprimentos, discursos repassados de amor “leonino” e, por fim, o pedido formal e directo: que à chegada a Lisboa e antes de tomar qualquer compromisso desportivo, visitasse a casa-mãe, ou seja, a sede do Sporting.

Abro aqui um parêntesis para deixar bem explícito que prometi e cumpri. Mais adiante se verá a razão desta referência especial à promessa que fiz em Luanda.

Por agora, retomemos o fio da meada, para a história não perder o sabor.

No dia do meu embarque, Fernando Sá - ao tempo director do Sporting de Luanda - entregou-me 1.500 angolares, para despesas de viagem, importância esta que, segundo creio, foi restituída, mais tarde, pela Sede.

A bordo do “Niassa” começaram as andanças. O barbeiro do navio era benfiquista ferrenho e fez tudo quanto podia para me fazer vestir uma camisola “encarnada”; em contrapartida o amigo Fonseca - trompetista da orquestra -. era “leão” dos quatro costados.

Ali, em pleno Atlântico, travou-se, por minha causa, a primeira luta entre “águias” e “leões”!…

Amigo de ambos, ouvia-os, sorrindo, e aguardava a chegada a Lisboa…»

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 45-57

Esclarecimento

Subscrevendo todos os textos aqui publicados, permitam-me um esclarecimento, para os desmemoriados, sobre o significado da palavra «Império» no universo sportinguista.

«Império» refere-se unicamente à Taça que o Sporting ganhou ao Benfica na inauguração do Estádio Nacional, marcando Peyroteo o primeiro golo neste estádio.

 

 

Memórias de Peyroteo (4)

(cont.)

 

«Gorada a primeira oportunidade, fiquei em Moçâmedes defendendo as cores do Atlético e fazendo parte da Selecção, sempre que esta disputou jogos.

Meu irmão Álvaro, funcionário do Banco de Angola em Moçâmedes e actual gerente do mesmo Banco, na Gabela, fora transferido para Sá da Bandeira.

Ali fundou, com o auxílio de outros carolas, o “Desportivo da Huila”.

Porque eu, em Moçâmedes, frequentava a Escola Primária Superior e em Sá da Bandeira havia um Liceu, o Álvaro convidou-me a mudar para aquela linda Cidade do planalto, que dista cerca de duas centenas de quilómetros de Moçâmedes.

Demorou tempo até que aceitasse o convite e me instalasse em sua casa.

Entretanto, aproveitando as férias escolares, de três em três meses, ia até Sá da Bandeira e, como não podia deixar de ser, dava uns pontapés na bola, equipando-me com a camisola do clube que meu irmão fundara. Ele comparecia aos treinos e, equipando-se também, ainda fazia ver aos novos como se jogava a defesa central. Acentue-se que, nos seus tempos, o “Alvarinho” teria, sem dúvida, o seu lugar na nossa Selecção Nacional.

Aliás, o mesmo teria acontecido, com toda a naturalidade, a meus irmãos mais velhos - José, Jorge, Mário, Américo e Júlio. Qualquer deles teria feito tanto ou mais do que eu se, na devida altura, tivesse vindo para a Metrópole.

Mas nesse tempo não se pensava - ou não se acreditava - que Angola e Moçambique eram óptimo “viveiro” de esplêndidos desportistas, em especial no respeitante a futebol, ténis e natação…

Removidas as dificuldades, abalei para Sá da Bandeira, matriculando-me no Liceu Diogo Cão.

O que foi e é Angola, a sua história, as suas possibilidades económicas, o nível de vida, educação e cultura das suas gentes, tudo ou quase tudo é, ainda, infelizmente, desconhecido de uma parte do povo metropolitano.

Só por si, o facto de se ter nascido em Angola, liga-nos à fatalidade de descendência negra e, consequentemente, dotados de inferior mentalidade, sem princípios de cultura e educação e, porventura, marcados com o estigma do canibalismo primitivo… No entanto, quantos grandes médicos, verdadeiras sumidades nos sectores da medicina humana ou veterinária, quantos competentíssimos engenheiros, arquitectos e licenciados nas mais variadas faculdades, quer em Portugal, quer no estrangeiro, são angolanos?

Sou natural de Angola, filho de pais europeus mas ainda que assim não fosse, jamais negaria a paternidade e o torrão africano que foi meu berço. E se algo de fama e de glória conquistei no campo desportivo, em prestígio e honra da bandeira de Portugal, aos meus conterrâneos e patrícios as ofereço, arrogando-me o direito e o dever de os representar.

Quanto aos ignorantes, a quem tudo serve para amesquinhar e ferir, daqui os convido a passarem os olhos sobre as páginas da história da nossa grande Província de Angola e, sobretudo, a visitá-la, na certeza antecipada de que muito terão de aprender com os angolanos!

Aberto este parêntesis, voltemos à história da minha vida desportiva.

O Liceu Diogo Cão tinha uma equipa de futebol: “O Académico”.

Fiz parte da turma dos estudantes e o mais curioso é que, quando vim para a Metrópole, pensei em ir para Coimbra… continuar os estudos e formar-me em medicina veterinária. Claro que, sendo assim, a minha ideia era a do “jogar na Académica de Coimbra.

Não sabiam? Pois esta é a verdade. Direi mesmo que, poucos dias antes de embarcar, em Luanda, os planos eram esses!…

Mais adiante veremos o que motivou a alteração dos meus intentos.

Por natural imperativo, a equipa do liceu era formada por estudantes, rapaziada nova, com sangue na guelra. Quantas vezes a comparo em vontade, em orgulho, em espírito de equipa, em sacrifício, em camaradagem, enfim, com o “elan” da velha e sempre moça e irreverente mas simpática “briosa”!

Também a mocidade escolar do Liceu Diogo Cão, voluntariosa e arrebatada, não admitia, sem luta ardente e vigorosa, que alguma equipa lhe batesse o pé.

Vem a propósito contar um episódio ocorrido durante um jogo disputado entre o “Académico” e uma equipa da qual faziam parte veteranos, alguns dos quais já haviam abandonado a prática do futebol. Servirá para demonstrar o verdadeiro espírito desportivo, a compreensão nítida do respeito que, nas pugnas, em qualquer emergência, sempre nos deve merecer o adversário, seja ele qual for.

Eu alinhava a avançado-centro da equipa dos estudantes e, meu irmão Álvaro ocupou o lugar de defesa central do grupo contrário.

Por capricho, promessa amorosa (?) ou simples brincadeira, o Álvaro deixara crescer a barba, usando uma fortíssima pêra, que lhe dava um ar de austeridade capaz de nos amedrontar e convencer que, ele só, chegava para meia dúzia de rapazolas como eu!

Pelos lugares que ocupávamos nas equipas, o “barbaças” era a minha sombra negra.

Em determinado lance, meu irmão tentou cabecear a bola que vinha muito baixa, ao mesmo tempo que eu lhe metia o pé! Deu-se o inevitável: a bola tomou rumo diferente e o meu pé atingiu, em cheio, a cara do “barbaças”. Olhei para ele, vi o sangue a escorrer do nariz e… esperei uma grande bofetada…

O árbitro interrompeu o desafio.

A sangrar, de mãos na cara, o Álvaro ouviu as embaraçadas e confundidas desculpas que lhe apresentei e disse:

- “Vamos ao jogo e nada de conversas. Aqui sou o defesa central do meu grupo e não o teu irmão mais velho. Mesmo que tivesses culpa, isto não passava de um incidente do jogo. Vá! toca a andar para o teu lugar”!

Bom desportista e bom irmão!

No fim do jogo fomos juntos para casa. Nem uma palavra de recriminação ou advertência. E só o facto de chegar a casa com o “barbaças”, me livrou de um tremendo puxão de orelhas, a receber de minha cunhada “ Mariazinha”, por eu ter amachucado o nariz do seu querido maridinho!

Recordando este incidente, que julguei digno de registo, não só pelo exemplo de desportivismo que nos dá, como ainda pela nobreza de carácter que encerra, seria monótono e sem interesse enumerar quantos jogos fiz pelo Académico ou dizer se fui bom estudante.

Foram muitos os desafios e aprendi, no Liceu, o que aprende, normalmente, um estudante mais ou menos aplicado.

 

Prepara-se a realização do encontro entre as selecções das duas cidades.

Fernando Peyroteo seria seleccionado pela Huila, uma vez que, no jogo anterior havia defendido a cidade de Moçâmedes?

Um jornalista de nome Oliveira, se não me engano, ventilou o caso no “Notícias da Huila” e, veladamente, chamava a atenção do seleccionador, mostrando-lhe os perigos que corria chamando-me a fazer parte da equipa.

Isso de nada valeu. Fui escolhido e joguei. Qual o comportamento? Direi apenas o que de memória ficou desse jogo e me parece deveras interessante citar.

O resultado foi, creio eu, de 7 a 2 a favor de Moçâmedes.

Comecei o desafio jogando a interior direito e acabei-o, em glória, no lugar de defesa central, por lesão do titular, que abandonara o terreno. Fiz o que vulgarmente se chama um jogo em cheio! Tudo me saiu bem. Dir-se-ia que o meu lugar sempre fora aquele!

No final do prélio, a crítica foi unânime em afirmar que a selec- ção da Huila perdera só por 7-2 devido ao meu esforço, à minha vontade, ao meu denodado espírito de luta e sacrifício.

E o jornalista Sr. Oliveira, reconhecendo, porventura, a veleidade das suas premissas, escreveu mais ou menos isto:

- “Peyroteo foi o melhor dos 22 jogadores em campo, chegou e sobrou para anular a eficiência dos avançados contrários. É certo que eles marcaram 7 golos, mas se Peyroteo não tem vindo para a defesa, a derrota seria muito mais volumosa”.

É possível que o jornalista rectificasse a sua opinião ao assistir à fase que descrevo tão fielmente quanto o permite a memória, decorrida há mais de uma dúzia de anos.

Foi assim: o árbitro assinalou uma “grande penalidade” contra Moçâmedes. Todos se esquivaram a, marcá-la e por fim, o capitão da equipa ordenou que fosse eu…

Fez-se silêncio em redor do campo. Emoção; espectativa! O árbitro apita, o “tiro” parte e… golo da Huila!

Palmas, gritos, o delírio já muito nosso conhecido. Se até ali havia quem admitisse que eu era da “quinta coluna”, enganou-se e rectifícou a opinião.

Terminado o jogo, fui ter com meu irmão Júlio - extremo esquerdo da Selecção de Moçâmedes - e, acompanhados por outros seus companheiros de equipa, seguimos, de autocarro, até ao Hotel onde se hospedara a turma representativa do Sul.

Joguei, pois, contra Moçâmedes, com o mesmo interesse, a mesma vontade, o mesmo fervor que empregara quando defendi as suas cores.

Para mim, isto significa, simplesmente, respeito pela camisola que se veste, dignidade e brio pessoal.

Outro factor concorreu e teve preponderante influência no meu comportamento; é que a 10 de Março de 1918, na pequenina Vila de Humpata, distrito da Huila, distando vinte e poucos quilómetros de Sá da Bandeira, nascera o “presumível quinta coluna”…

Fui para Moçâmedes com ano e meio de idade, ali me criei e me fíz desportista. Mas isto não quer dizer que se três selecções se formassem e me fosse dado escolher, a preferência não recaísse na minha terra natal.

Contudo, se por motivos de filiação das equipas ou quaisquer outros, fosse obrigado a jogar contra a Humpata, empregar-me-ia com o mesmo ardor e apego à luta, a mesma vontade e o mesmo sentimento de respeito pela camisola que envergasse. Acima de tudo estaria o dever de corresponder, honesta e lealmente, à distinção recebida.

O desporto tem de ser uma escola de virtudes e não um meio bom para atingir um fim óptimo.

Assim o entendi sempre e deste modo ainda penso hoje.

 

A minha actividade desportiva estava limitada quase exclusivamente ao futebol. De vez em quando ia até ao barracão-ginásio do Liceu, onde havia um grupo de três espaldares, um plinto e poucos maís aparelhos destinados à ginástica.

Para não esquecer o que aprendera com o professor Angelo de Mendonça, fazia alguns exercícios.

Um dia, porém, o meu ilustre amigo, Tenente Osório - hoje Major em serviço em Évora - entendeu, e muito bem, que os alunos do Liceu podiam e deviam fazer, em desporto, mais do que futebol. Assim, formou uma equipa de esgrima de baioneta!

Com desvelado carinho, incontestável competência e muito trabalho, conseguiu preparar um grupo de jovens. Dava gosto ver a rapaziada evolucionando. Por isso mesmo, não só naquela modalidade como, também, no tocante a outros exercícios militares, não havia segredos para nós.

Mais tarde, quando cumpri o serviço militar em Cascais, de muito me serviu o que aprendi, em garoto, com aquele bom amigo e distinto oficial do nosso exército. O facto de saber muitas coisas, valeu para a concessão de umas dispensas extraordinárias, enquanto os outros camaradas ficavam no quartel, aprendendo o manejo de armas…

Diz o Povo - e tem razão: “O saber não ocupa lugar!..

 

Ir de Sá da Bandeira ao Lobito não é, positivamente, o mesmo que viajar entre Lisboa e Porto.

São nada menos do que uns mil quilómetros bem contados, fazendo-se a caminhada sob um sol abrasador e com alguns troços de estrada pouco recomendáveis para passeios.

Mesmo assim, para jogar futebol, Fiz esse trajecto duas vezes utilizando uma camioneta de carga!

O itinerário foi: Sá da Bandeira - Nova Lisboa - Benguela e, daqui, 20 minutos de comboio até ao Lobito.

Hoje Angola está ligada, em todas as direcções, por carreiras de avião, o que demonstra o formidável incremento dos transportes aéreos naquela Província do Ultramar.

Alguém perguntou certa vez, a um preto gentio, o que pensava ele acerca do avião. A resposta é muito curiosa:

- “O avião é uma coisa que anda devagar mas chega depressa!”

Mas porque no meu tempo, em Angola, não era, como agora, fácil e simples voar, fui de camioneta de carga!

O meu grande amigo Albano de Abreu, actual despachante oficial na Alfândega do Lobito, convidou-me a ir jogar, reforçando a equipa do Sporting Clube do Lobito nos jogos que realizaria para disputa de uma taça denominada “Mácára”.

Mesmo considerando que me encontrava a mil quilómetros de distância e lutando com falta de transportes, aceitei o convite.

Tive conhecimento da próxima saída de um caminhão de carga com destino a Benguela; procurei o motorista-proprietário do veiculo e, a troco de uma lata com 20 litros de gasolina, tudo se resolveu.

Partimos de madrugada. Na cabine, à frente, eu e ele; atrás, sobre a carga, dois serviçais pretos.

A viagem foi esplêndida.

No Lobito, festiva recepção, divertidíssimos “simpósios”. Do vermouth - aperitivo - ao caril de galinha e aos picantíssimos churrascos, nada faltava.

Como preparação atlética para jogos de responsabilidade, temos de convir que não se poderia arranjar melhor!…

O Albano de Abreu procurava evitar os excessos mas os seus amigos julgavam cumprir um dever de cortesia, rodeando-me de gentilezas culminadas com opíparos almoços e jantares.

E foi observando tais regras de alimentação que, dois ou três dias após a minha chegada ao Lobito, vesti a camisola do Sporting e “reforcei” a sua equipa de futebol.

Abstraindo o resultado final, interessa fixar que a minha actuação foi de molde a ficar desde logo convidado a jogar no segundo desafio para disputa da “Taça Mácára”!

Como estas viagens só podiam ser feitas aproveitando as férias de período no Liceu, voltei para Sá da Bandeira e, na data oportuna, tornei ao Lobito para disputar o segundo encontro.

Quer dizer; duas vezes mil quilómetros (ida e regresso totalizaram quatro mil quilómetros) vencidos em caminhão de carga, sem o mínimo conforto, para jogar futebol e sem a menor recompensa financeira!

Puro amadorismo e grande amor ao futebol! Nada mais!

Entretanto, integrado na equipa do Liceu, fui a Moçàmedes jogar alguns desafios.

A digressão do Académico não foi feliz pois creio termos perdido todos os jogos realizados.

Sem dúvida, jogava-se melhor futebol em Moçàmedes do que em Sá da Bandeira. A prová-lo estão os resultados obtidos não só pelas equipas de clube como pelas selecções locais. Em desporto, o Litoral manteve sempre marcada ascendência sobre o Planalto.»

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 38-45

Memórias de Peyroteo (3)

(cont.)

 

«BOX

A “Nobre Arte”, quer como desporto, quer como meio de ganhar a vida, não criara ainda raízes em Angola, principalmente no Sul da nossa Província Ultramarina.

Porém, de um instante para outro, apareceram em Moçâmedes vários “boxeurs” profissionais, facto que agitou o meio desportivo local.

Joaquim Pereira Goes, Adolfo Lebre e um rapaz de cor, cujo nome não recordo agora, formavam o trio mais em evidência.

Pereira Goes chamou o Professor Angelo de Mendonça para seu orientador técnico. Logo, onde estava Angelo de Mendonça, estava eu, que o seguia como a sua sombra. Assistia aos treinos e, de vez em quando, calçava as luvas e aplicava alguns murros no saco de areia.

No fim do treino gostava imenso de beber o que tomava Pereira Goes: uma mistura de água com um pouco de vinagre e açúcar. Não garanto, mas creio que era isto.

O pupilo de Ângelo de Mendonça era um especialista nos saltos à corda.

Sempre atento, seguia com vivo interesse todos os movimentos dos braços e pernas e, assim que o pugilista deixava a corda para treinar com o saco de areia ou esgrimir com a sombra, eu pegava nela e tentava imitá-lo. Tantas vezes o fiz que algo consegui. A prová-lo está o facto de os programas das primeiras sessões de box abrirem com: “Fernando Peyroteo em exibição de saltos à corda”.

Mestre Ângelo delirava com o aprumo do “seu” miúdo e quero crer que tinha razão para isso.

Daqui lhe pergunto: não será assim, querido Mestre?

O hábito de aparecer em público antecedendo os combates e a convivência com os profissionais, criou em mim o gosto e o desejo de lutar também.

Treinei, aprendi e consegui subir ao “ring” para fazer exibições da “Nobre Arte” com outro rapaz da minha idade. Dois assaltos apenas, durante os quais trocávamos umas dúzias de socos e fazíamos o possível por demonstrar ao público como se “esquiva”, como se faz “jogo de pernas” e… como se fica com um olho “à Belenenses”!

Os árbitros não nos deixavam aquecer e os resultados foram sempre “match”-nulo, por ordem de Ângelo de Mendonça, que detestava meninos vaidosos.

Subi ao “ring” várias vezes para fazer exibições de saltos à corda. O meu nome figurava nos cartazes de sessões de pugilismo entre profissionais mas, felizmente, nunca fiz mais do que exibições.

Vem a propósito contar um incidente com muita graça, ocorrido num combate entre o Pereira Goes e um rapagão africano, de nome Faquinhas.

Pereira Goes era um pugilista profissional, profundo conhecedor dos segredos do “ring”, de soco potente e esquiva rápida, a um tempo estilista e rude, novo e valente. Devia pesar cerca de 78 quilogramas.

O Faquinhas, marítimo de profissão, era um homem de envergadura invulgar. Com 1,90 de altura, pesava uns 100 quilogramas, sendo possuidor de força extraordinária.

Para se avaliar bem, bastará dizer que, com a maior facilidade, pegava num barril com 100 litros de vinho e colocava-o em cima do balcão da mercearia. Empurrava para o mar, sozinho, uma canoa com os apetrechos da pesca.

Mas, coitado, tinha tanto de força como de bondade. Era um simples, um bonacheirão.

Dizia ele gostar de mim por eu ser malandro…

Quando, a bordo do seu barco, cozinhava daquelas apetitosas caldeiradas, que só os marítimos sabem fazer, convidava sempre o “ Fernandito”.

Nesses almoços, enquanto eu comia uns quinhentos gramas do apetitoso petisco, o Faquinhas tragava uns cinco quilos, ajudados por dois ou três pães grandes, regando tudo com os seus dois litros de vinho.

A pinceladas largas aqui temos o retrato do Faquinhas. Só faltou dizer que sofria de gaguês.

Pereira Goes vencera todos os seus adversários, pondo “K. O.” a maior parte deles. Era um ídolo!

Um dia, lança um repto. Desafiava qualquer homem a bater-se com ele.

…Há para aí algum valente?…

Alguém convenceu o amigo Faquinhas a aceitar. Ele jamais calçara umas luvas de box mas, em questão de força, não restavam dúvidas a ninguém que o Pereira Goes ficaria a dormir, no tapete, ao receber um murro do moçamedense. Mas, uma coisa é ter força e outra é saber box!…

Rapidamente se esgotou a lotação da sala.

Começa o combate.

Pereira Goes, saltitando, aplicava uma série de socos e consome, no mesmo ritmo, o tempo dos dois primeiros assaltos. Faquinhas, movendo-se pesadamente, oscilando o braço direito e com o esquerdo traçado sobre o peito, parecia não sentir o efeito dos ataques do adversário.

Ao terceiro assalto já o amigo Faquinhas procurava a posição de bater mas, felizmente para Goes, os socos perdiam-se no ar. Se assim não fosse, logo ao primeiro murro que apanhasse, ó Pereira Goes teria muito que contar, talvez no… caixão!

No 4.º ou 5.° assalto, o profissional Goes acertou um directo daqueles que até conseguem abalar um Faquinhas… Nem queiram saber o que se passou depois!

O Faquinhas avança como um toiro; coloca o adversário no canto e procurou aplicar-lhe um murro com toda a intenção de o matar! Mas Pereira Goes, sereno e ágil, conseguiu esquivar-se e apareceu, saltitando, no meio do “ring”.

Faquinhas, ainda mais gago pelo estado de irritação em que se encontrava, volta-se para o público e grita; “-Como é que… que… que… vocês querem que eu bá…ta ne… nes…te gajo, se ele anda sempre a fugir?”

Claro que o público se manifestou ruidosamente, como é hábito nas sessões de box, mas o Faquinhas, completamente desvairado, deitou os dentes ao cordão de uma das luvas, rebentou-o, puxa por ela, descalça a outra e, com as lágrimas nos olhos, tremendo de raiva, gritou ainda maís gago:

“Se hou…ver aí al…al., ,guém que se quei..-quei… queira ba… bater comigo mas à por… por… portuguesa que venha!…”

Ninguém se resolveu a subir ao “ring” porque nenhum espectador estava disposto a assinar a sua condenação à morte!

 

De propósito não me referi ao “ping-pong” - modalidade em que fui campeão - porque isso aconteceu quando já me encontrava em Luanda, pouco tempo antes de vir para a capital do Império. Mais adiante contarei o que se passou.

Entretanto, continuemos a conversar sobre o futebol, esse mágico desporto que, como nenhum outro, tem o condão de atrair a si a infância, a adolescência e até a velhice.

Vejamos se há exagero:

Se atirarmos uma bola para os pés de uma criança de três ou quatro anos, ela tenta, imediatamente, tocar-lhe com o pézinho. Mas se lhe dermos um raqueta, não sabe o que fazer dela.

A criança tem medo do mar, receia o cavalo e não gosta de apanhar murros no nariz, ainda que se lhe jure tratar-se de…”Nobre Arte”.

Visitemos os bairros excêntricos e mais populosos das grandes cidades e em cada rua veremos grupos de crianças e adolescentes a jogar à bola. À entrada dos estádios ou simples campos de futebol onde se disputa um jogo com entrada pagas, logo nos aparecem rapazolas dos 10 aos 15 anos, com a mágoa estampada no rosto, por não poderem comprar o bilhete, a puxarem-nos pelo casaco e a dizerem: “Deixe-me entrar consigo.

Depois, lá dentro, na bancada ou no peão, quantos avozinhos seguem o jogo com o mais vivo interesse, levantando-se com agilidade invulgar, braços erguidos, aplaudindo um golo do seu clube favorito!

Se o futebol é assim, não admira que, gostando e praticando outras modalidades, eu viesse a optar pelo chamado desporto-rei.

Caso curioso: para a ginástica, para o ténis, o hipismo e até para a natação, nós dispúnhamos de instalações razoáveis (ginásio, cabines, picadeiro, barracas, etc.) e, além de tudo isto, havia competentes professores, mestres e orientadores técnicos. Para o futebol, existiam apenas os rectângulos do jogo e as balizas 1 Os jogadores equipavam-se em suas casas, onde, igualmente, tomavam os seus banhos após os jogos. Só muito mais tarde isto passou a ser feito nas sedes dos clubes, donde saíamos e para onde voltávamos de automóvel, por vezes de bicicleta e, também, a pé…

Uma ou duas vezes por semana, depois da hora de trabalho ou, no meu caso especial, acabadas as aulas na “Escola Primária Superior Barão de Moçâmedes”, fazíamos treinos de conjunto. Consistiam eles na formação de duas equipas, geralmente a “primeira categoria” contra a “reserva”, jogando-se mais ou menos o tempo regulamentar. Mas os treinos que realizávamos com maior frequência consistiam no pontapé ao golo com uns tantos a chutar e um só a defender… O capitão da primeira categoria era o treinador… Bem vistas as coisas, os treinos serviam apenas para manter a resistência física necessária aos 60 minutos de uma partida e não perdermos o “contacto” com o esférico.

De resto, não se estabeleciam planos tácticos de ataque e defesa; quanto à técnicaquem sabe, sabe!

Aos domingos lá estávamos plenos de energia, vontade e amor à camisola que vestíamos. Não ganhávamos dinheiro por jogar futebol, antes pelo contrário, pagávamos cotas e comparticipávamos em subscrições, sempre que o nosso clube necessitava de auxílio.

Chorávamos quando perdíamos um jogo que, normalmente, devíamos ganhar! Há quem chame a isto “carolice”; para mim significa puro amadorismo.

Valha a verdade que entre dirigentes e dirigidos reinava a camaradagem, a lealdade, a franqueza e o respeito mútuo. Isto, repare-se, na ponta Sul da nossa Província de Angola, no ano da graça de 1932.

Na Metrópole, em 1937, as coisas apresentavam aspectos bem diferentes, como teremos ocasião de apreciar.

Porém, não se julgue que pela carência de treinadores de reputação mundial, massagistas de valor incontestável e de óptimas cabines junto dos recintos de jogos, o futebol praticado em Moçâmedes era de inferior qualidade e sem merecimento. A provar o contrário das falsas ilações que se poderiam tirar das circunstâncias apontadas, citarei um caso passado comigo e que bem atesta a valia de alguns elementos componentes das turmas moçamedenses.

Era domingo. Um navio entrara em Moçâmedes, com destino à Costa Oriental Portuguesa.

Alguns passageiros visitaram a cidade e - sempre a magia do futebol! - aproveitando o tempo, assistiram a um jogo do campeonato local.

Terminado o encontro e quando me dispunha a seguir para casa, a fim de tomar banho, apareceu, para falar-me, um cavalheiro vestindo com esmerada elegância, “fluente na palavra e no gesto”, agradável e simpático. Assistira ao jogo e gostara da minha actuação na equipa do Atlético.

Sem mais preâmbulos ofereceu-me boa colocação em Lourenço Marques, ordenado suplementar e “alguma coisa” pela assinatura de um contrato para jogar, se bem me recordo, pelo Sporting daquela Cidade. Diga-se de passagem que na África Oriental Portuguesa o futebol contava já com elementos de real valor e, nos parques de jogos, quase nada faltava do que fosse indispensável à sua expansão e desenvolvimento.

O convite agradou-me mas nada podia resolver. Teria, de antes de mais nada, falar com minha Mãe, que não consentiu que aceitasse a proposta.

Saí de minha casa e já na rua, o homem quis convencer-me a ir para bordo do navio e… fugir!

Interessado como estava na “passeata” voltei a casa e contei tudo à Mãe.

Ela, coitada, vendo-me tão influído e até disposto a cometer a imprudência de tentar o embarque Clandestino, na companhia de um desconhecido, mandou chamar meu irmão Mário e contou-lhe o que se passava.

Eu, que, num compartimento contíguo, ouvira a conversa e ponderando o que poderia acontecer, corri a prevenir o “meu amigo” o qual, sem perda de tempo, se escapou para bordo.

Claro que o Mário não o encontrou…

Ao cair da noite, triste e pesaroso, vi o navio, todo iluminado, desaparecer no horizonte estrelado…

Era mais uma ilusão desfeita…

Para consolação, restava-me a certeza de que um desconhecido, vendo-me jogar uma só vez, pretendera levar-me para o Sporting de Lourenço Marques!

Dias depois, contei o caso ao meu grande amigo e Professor Ângelo de Mendonça.

Sempre bom conselheiro, ponderado e sincero, colocou a mão sobre o meu ombro e disse paternalmente:

- “És bom jogador de futebol e bom rapaz mas ainda muito novo para saberes governar-te sozinho. A vida é cheia de surpresas e quem sabe o que te aconteceria se fosses entregue a um estranho. Tua Mãe, como sempre, teve razão. Toma cuidado, Fernando. Evita aventuras que podem perder-te!…”»

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 33-38

Memórias de Peyroteo (2)

«Como já disse, a minha actividade desportiva não se resumia a jogar futebol. Os campeonatos eram muito curtos e, daí, a necessidade de praticar outras modalidades.

 

BASQUETEBOL

Por ser uma modalidade ainda mal conhecida, pouco se jogava basquetebol em Moçâmedes.

O meu clube, o Atlético, formara duas equipas e eu fazia parte de uma delas, por sinal a mais fraca.

Interessado, como estava, na modalidade e, sobretudo, porque os treinos eram orientados por Mestre Ângelo - sempre ele! - dediquei-me ao estudo das Regras e, em pouco tempo, conheci-as perfeitamente, de modo que o facto constituía vantagem sobre companheiros e adversários.

Conhecer e saber interpretar as leis do jogo que praticamos, permite-nos resolver, momentaneamente, qualquer problema que surja e tirar partido das situações difíceis.

Convém acentuar que o desporto em nada prejudicava as minhas horas de estudo. Por isso, lia e compreendia as regras das modalidades a que me dedicava.

Em. Sá da Bandeira havia, também, várias equipas de basquetebol, de modo que, certo dia, aprazou-se um encontro inter-cidades.

Como termo do comparação, direi que a rivalidade desportiva entre Moçâmedes e Sá da Bandeira, é idêntica à de Lisboa-Porto.

A escolha do árbitro para dirigir o encontro recaiu sobre mim. Tinha 14 anos e confesso que a resolução me desagradou e amedrontou!

Não aceitei o encargo sem autorização de minha Mãe que, por sua vez, consultou meus irmãos mais velhos. O caso não era para brincadeiras porque uma má arbitragem poderia valer-me… alguns dias de cama!!!

Meus irmãos concordaram. Deram-me conselhos e a garantia da sua presença ao jogo…

Senti alívio! Fora do rectângulo, para me defender, estariam três homens de maior envergadura da que tenho hoje…

Não havia dúvidas que estaria bem amparado, mas também sabia que nada me livrava de alguns tabefes, em casa, se fizesse asneira.

E foi assim, pensando no que me poderia acontecer, que reuni os capitães das duas equipas para a escolha do campo.

Principiou o jogo; mais apitadela, menos apitadela e os ânimos começaram a excitar-se. Moçâmedes ganhava. O Abel Vaz Pereira, - um autêntico matulão! - marcava pontos e o Marinho de Sousa discutia (?) a sua validade.

Castigo! Três lançamentos livres, três cestos e assim por diante.

A certa altura houve sarilho e ameaças de bofetadas! Eu estava, na verdade, assustado como um passarinho, com tais promessas, mas fiz “ouvidos de mercador”, mostrando sempre a maior indiferença e calma em face dos prometimentos.

Mas o “grande” Abel ouviu e disse-me pouco depois:

- “Se houver barulho, vem para junto de mim, que ninguém te fará mal”!

Foi o suficiente porque o homem das ameaças ouviu e quedou-se silencioso!

Terminado o jogo fui felicitado por jogadores e público. A arbitragem, se não foi isenta de erros, teve o mérito de ser imparcial.

Meus irmãos estavam radiantes por dois motivos: primeiro, porque o “miúdo” cumprira; segundo, porque não foram obrigados a fazer uso do físico… E que físico, Santo Deus!!!

Mal sabiam todos que, se não fora o Abel Vaz Pereira, eu teria largado o apito e desatado a fugir!…

Pobre Abel, que já não pertences a este Mundo! Paz à tua alma!

Quem havia de supor que fui praticante e árbitro de basquetebol!?…

 

NATAÇÃO

A linda e magnífica baía de Moçâmedes presta-se admiravelmente para a prática dos desportos náuticos.

Contudo, no meu tempo e a despeito das excepcionais possibilidades que a baía oferece, o desporto da vela limitava-se a espaçadas passeatas em canoas. Estes barcos, construídos para a pesca no alto-mar, serviam, também, para recreio domingueiro dos seus proprietários e amigos.

Não me recordo de ter visto ali qualquer barco de construção apropriada a este desporto, mas sei que, actualmente, ele é uma realidade em Moçâmedes.

As águas tranquilas e límpidas do Atlântico proporcionavam à juventude riquíssimos banhos. Passávamos horas dentro da água. Em dias de menos obrigações ou deveres de estudo, íamos para a praia às 8 horas da manhã para só de lá sairmos às 12 horas. Com seis anos de idade já eu sabia nadar. Aprendi rapidamente e foi assim:

Uma dezena de rapazes tomava banho. Eu olhava-os embevecido mas triste por ficar brincando com a espuma branca das ondas, sem poder acompanhá-los.

De súbito, senti-me agarrado!

Jaime Sampaio Nunes, grande nadador, despiu-me e, pegando em mim, completamente nu, atirou-me ao mar, como se fora um objecto inútil.

É fácil calcular o susto que apanhei! Isto passou-se na ponte-cais, que fica a uns três metros acima do nível das águas.

Ainda eu ia no ar quando Jaime Sampaio, no seu estilo impecável, mergulhou a meu lado.

Vendo-me em aflições, ajudou-me a chegar à praia. Depois, durante cerca meia hora, ensinou-me o que devia fazer para nadar. E pronto! Largou-me.

Perdido o medo mas ainda receoso, continuei na água, esbracejei, movi as pernas como ele ensinara e comecei a flutuar.

Decorridas, talvez, duas horas, já nadava uns metros e dois ou três dias depois, entrei a fazer habilidades, lançando-me de três ou quatro metros de altura.

Não há exagero. Ângelo Mendonça pode comprovar o que afirmo.

De resto, em Moçâmedes, ainda hoje, é raro encontrar um garoto de 6 ou 7 anos que não saiba nadar, embora sem estilo…

Não terão aprendido como eu mas, daquele ou de outro modo, o certo é que todos nadam mais ou menos bem.

Um dia organizaram-se provas de Natação. Entre outras, a de 100 metros livres.

Dos concorrentes recordo Marinho de Sousa - amigo que muito estimo e admiro - actual Inspector do Porto de Luanda, a quem já me referi no capítulo de basquetebol, e o Aníbal Russo, cujo paradeiro ignoro.

A partida foi feita de bordo de um barco estacionado perto da ponte-cais e a chegada era na jangada que se encontrava em frente da praia de banhos.

Aníbal Russo era um nadador vigoroso, de braçada firme, possante.

Marinho de Sousa, um magnífico estilista, nadava “crawl” com razoável velocidade. Quanto a mim, não sei em que “estilo” nadava. O que sei é que cheguei à jangada em primeiro lugar, bastante distanciado dos dois mais próximos concorrentes!

Não cabia em mim de contente, mas o Aníbal Russo e Marinho de Sousa não gostaram da proeza. Em especial, o Marinho de Sousa, que não gostava de perder, mesmo que fosse a feijões!…

Não restam dúvidas de que qualquer deles nadava melhor do que eu. Mas era mais jovem e supria as faltas de técnica com a força de braços e pernas… Contava apenas 14 anos!…

Fui, portanto, Campeão de Moçâmedes em natação: 100 metros livres.

 

REMO

Por carência de barcos apropriados, a organização de competições náuticas, com regularidade, era praticamente impossível.

Mas tal como várias vezes aconteceu no respeitante a provas de natação, também se realizavam, de quando em vez, regatas em barcos a remos.

Eu fazia parte de uma das equipas do Atlético mas só uma vez remei em competição formal.

O barco não obedecia a quaisquer características técnicas especiais mas, pela sua configuração esguia e sendo leve, deslizava bem sobre a água.

A minha boa estrela mais uma vez me acompanhou.

Alcançámos o primeiro lugar da classificação geral, cujo prémio foi um espelho. Objecto de pouco valor, que se poderia comprar com uma centena de angolares, teve, para nós e especialmente para mim, valor incalculável, porque representava… mais uma vitória no desporto!

…Também remei, meus amigos!

De tudo um pouco, para… não morrer ignorante!

 

EQUITAÇÃO

O Atlético mantinha em actividade uma Escola de Equitação dirigida por um sargento do exército, de apelido Portilheiro.

Se não estou em erro, o Sr. Doutor Torres Garcia (bom amigo, falecido há anos em Coimbra), era o Presidente da Direcção do clube e, também, Director de uma importante Companhia possuidora de bons cavalos, os quais eram utilizados na nossa Escola.

Duas vezes por semana lá estava eu e outros rapazes, devida- mente equipados, para a prendermos a “Arte de bem cavalgar toda a cela”.

Aprendi a montar mas nunca entrei em competições. Em hipismo não passei das aulas de aprendizagem e alguns passeios.

De sorte que, neste capítulo, recordarei apenas alguns sustos que apanhei.

Os professores de equitação gostam de fazer, uma vez por outra, partidinhas aos seus alunos: mestre Portilheiro não fugia à regra… O picadeiro era um recinto de chão duro, rodeado de paredes ; um quintal adaptado para o efeito e a que, pomposamente, chamávamos picadeiro. Certo dia montava eu uma égua amarelo-branca. O professor, ao meio do recinto, levantou o chicote, ouviu-se o estalido e o animal começou a andar…

Primeiro a passo, depois a trote e, por fim, a galope. Nisto, a ponta do chicote começou a estalar em frente do focinho da égua a fim de a fazer dar uma volta rápida sobre as patas trazeiras e caminhar em sentido contrário.

O pior foi que o animal se assustou - e eu também - e a coisa esteve séria!

Não havia forma de a fazer parar: saltava, empinava-se como costumam fazer os potros nos “rodeos” e nós estamos habituados a ver nos filmes de aventuras. O mal estava no facto de o cavaleiro não ser, nem por sombras, um daqueles rapazes das pampas… Resultado: tanta força fiz para me segurar que se partiu a correia do estribo e fui de encontro à parede. Estendi o braço para evitar uma tremenda cabeçada na parede, mas sofri um profundo golpe na mão direita e fui parar ao chão! Enfim, do mal o menos. No entanto, dez minutos depois do incidente, com a mão desinfectada e ligada, já eu montava um cavalo e a lição continuava.

Mestre Portilheiro fez a partidinha mas estou convencido de que, se advinhasse o resultado, não a teria feito. Também apanhou um bom susto e suou para fazer parar o animal.

Ficámos pagos!…

Tempo depois, já eu montava razoavelmente, ou, pelo menos, estava convencido disso, pedi ao Sr. Dr. Torres Garcia para me emprestar um cavalo.

Muito novo, um tanto vaidoso, queria botar figura passeando, ao domingo, pelas ruas da cidade. Porém, antes de mim, já o Mário Miranda fizera igual pedido.

Na cavalariça estava a égua protagonista da cena do picadeiro, e um cavalo, ainda novo, pouco montado. Um lindo exemplar mas ainda bravo como um toiro. O Mário escolheu a égua, por ser animal dócil, dando boa montada… quando não assustada, é claro! Não restava outra solução. Tinha de levar o tal cavalo género toiro. Mal parecia chegar ali, equipado, todo flamante e voltar para casa, por ter medo do cavalo. Que pensaria o preto que tratava dos animais?

E assim foi; cavalo na rua e… fomos passear.

Trote suave e cuidadoso, falinhas meigas, festas no pescoço e o cavalo, garboso, obedecia ao mais leve toque de rédeas. A minha exibição foi perfeita até aparecer o Mário Miranda, cavaleiro experiente, que logo pensou em fazer uma partida.

Colocou-se a meu lado e seguimos a caminho da Torre do Tombo, no alto da Cidade.

Chegados a uma recta que tem cerca de dois quilómetros de comprimento, reparei que o Mário, adiantando, fazia passar a égua pela frente do meu cavalo. Inocente, não fazia a mínima ideia da finalidade a atingir… No entanto, comecei a notar que o cavalo se mostrava inquieto e menos dócil… As festinhas e palmadas já não resultavam;- o animal, excitado e nervoso, relinchava levantando o focinho. De súbito, o Mário adianta a égua, coloca-a bem à frente do cavalo e rompe em forçado galope! Não queiram saber! O “Toirão” dá uma sacudidela na cabeça, toma o freio nos dentes e vai, em correria louca, atrás da égua. Puxei as rédeas, dei-lhe folga e, rapidamente, tornei a puxá-las com força, mas. nada consegui! O animal parecia doido!

Chamei, gritei, fiz gestos… O Mário olhava para trás e ria-se. Ria-se do que, para mim, não tinha graça nenhuma…

Quase no fim da recta, foi reduzindo a marcha até que o alcancei. Assim que parámos, o cavalo empinou-se e o Mário Miranda teria ficado com as costelas amolgadas se não tivesse feito a égua avançar rapidamente… Estão a ver a coisa, não é verdade?… Por pouco que o feitiço não se voltou contra o feiticeiro!

No regresso trocámos as montadas: vim eu na égua e ele no cavalo que, sem eu dar por isso, saíra da cavalariça sem bridão.

O Mário nunca deixou que lhe passasse à frente. Bem me esforcei por isso mas ele, bom cavaleiro, conhecia as manhas e as tendências… dos jovens cavalos…

Aconteceu-me o que sempre acontece aos ingénuos pretenciosos: julgava-me um bom cavaleiro e, afinal, desconhecia os truques…

 

TÉNIS

Antes de ocorrido o incidente que me levou ao Atlético, jogava ténis no “court” do Sporting, aproveitando o tempo em que o rectângulo estava livre de tenistas consagrados. Isto só se verificava ou muito cedo - mal despontava a manhã - ou à hora do almoço: Tinha de comer à pressa para aproveitar a oportunidade.

Esta hora é, de todo, condenável para a prática de qualquer desporto, sobretudo sob um sol escaldante como o africano.

Só havia dois campos de ténis em Moçâmedes: o do Sporting, destinado aos seus sócios, adultos, que pagavam cotas. O outro, pertencia à companhia inglesa exploradora do Cabo Submarino, sendo utilizado pelos seus empregados e por uns quantos amigos destes. Os miúdos não tinham ali entrada mas eu, que era bom rapaz, estimado por todos (passe o auto-elogio!) ainda lá joguei algumas vezes. De modo que, no campo do Sporting, ou entre as 12 e as 14 horas, ou nada.

O meu parceiro favorito era o Rogério Trindade. Os seus irmãos mais velhos - Artur e Raul - eram grandes jogadores. O Artur chegou a ser campeão de Angola, salvo erro, e creia-se que havia, por lá, tenistas de muito valor, aos quais os próprios ingleses rendiam homenagens.

Com um mano Campeão de Angola, ao Rogério não faltavam raquetas e bolas. Está bem de ver que eu beneficiava da fartura!

Considerando a nossa idade, não se pode dizer que jogávamos ténis, no verdadeiro sentido do termo.

De raqueta na mão, passávamos a bola um para o outro, teimando em não a deixar bater na rede.

O Rogério era muito mais habilidoso do que eu, podendo afirmar tratar-se de um verdadeiro prodígio. E tanto assim que, alguns anos depois, embora muito novo ainda, foi, como seu irmão Artur, campeão de Angola.

Dois anos fomos companheiros inseparáveis no ténis.

Entretanto, deu-se a minha “fuga” para o Atlético e o ténis acabou-se - não logo a seguir porque talvez se acreditasse no meu regresso ao Sporting. Mas assim que comecei a representar o Atlético em várias modalidades, as coisas tomaram aspecto diferente.

Repare-se neste facto curioso, que ilustra bem até que ponto os homens se esquecem, por vezes, do respeito que devem a si próprios, assumindo atitudes que nada os elevam, antes os diminuem até perante as crianças. Mas diga-se de passagem: “lá como cá, tais fadas há”. Eu o provarei nas páginas deste livro.

Agora contarei o episódio do ténis, em Moçâmedes.

Certo dia, eu e o Rogério, decidimos faltar às aulas, para dedicarmos ao ténis a parte da tarde.

Por volta das 14 horas lá estavamos a fazer passar a bola por cima da rede e… a marcar pontos. Decidia-se uma questão de supremacia mas a partida não chegou ao fim.

Emelino Abano, director do Sporting, capitão da 1.* equipa de futebol dos “leões”, apareceu de surpresa e fez acabar o jogo! Como ele soube da nossa combinação, constitui, ainda hoje, mistério para mim. O certo é que apareceu montado numa bicicleta, chamou o contínuo e mandou retirar a rede do campo. Depois deu, ao preto, ordens terminantes para nunca mais consentir que eu ali jogasse ténis. Que fosse jogar para o campo do Atlético!

Ora, Emelino Abano, sabia tão bem como eu que o meu clube não tinha recinto apropriado.

O Rogério, sportinguista, continuou a servir-se do “court” mas eu, coitado, sem parceiro, sem raqueta e sem bolas, só de longe em longe pegava numa raqueta para “brincar” no rectângulo do Cabo Submarino.

Volvidos muitos anos, ou melhor, ainda há bem pouco tempo, aqui em Lisboa, conversando com o Emelino Bonito Abano, recordámos o incidente e ele disse-me:

“Tu gostavas de jogar o ténis e uma vez que só sendo sportinguista poderias utilizar o nosso campo, pensei que seria a maneira de voltares ao Sporting…”.

Nada ganhou com isso o camarada “carequinha”! Abandonei o ténis quase para sempre e continuei a pertencer ao Atlético Club de Moçâmedes!

Sempre ouvi dizer que não é com fel que apanhamos moscas.

Mas, a terminar este episódio, repito:

“Lá, como cá, tais fadas há”.

Adiante veremos.»

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 25-32

Memórias de Peyroteo (1)

«Assim se faz desporto em África e assim são os filhos da minha querida Angola…

 

            Vai decorrido mais de meio século.

            A bordo de um velho navio que largara de Lisboa para vencer o Atlântico com rumo à misteriosa África de há cinquenta anos, seguiu um casal de portugueses metropolitanos, acompanhado de dois filhos pequeninos.

            O chefe da família, natural de Torres Novas, ia tomar posse de um lugar superior no estudo e traçado dos caminhos de ferro que hoje ligam a cidade de Moçâmedes ao planalto da Huila.

            Sua esposa, natural de Lisboa, pensava em servir-se do seu curso de professora para leccionar e, trabalhando, auxiliar seu marido.

            Seus nomes: José de Vasconcelos Peyroteo e Maria da Conceição de Seixas Peyroteo.

            Dezoito anos depois, o casal contava doze filhos - nove rapazes e três raparigas - sendo três naturais da metrópole e nove de Angola.

            O autor destas memórias é o décimo primeiro. Nasceu na vila de Humpata, distrito de Huila, a 10 de Março de 1918.

            O caminho de ferro atingira a Umbia, no sopé da Serra da Chéla.

            Vencida esta, o comboio chegaria ao Lubango - hoje Sá da Bandeira - terminando a primeira fase dos trabalhos.

            Envelhecido e cansado, vítima do trabalho e do clima, meu Pai teve de regressar a Moçâmedes, onde uma violenta crise cardíaca o vitimou.

            Com doze filhos, o mais velho de 18 anos e a mais nova com sete meses, minha Mãe, teve, então, de fazer uso, por necessidade, do seu curso. Até então leccionara pelo gosto e prazer que sentia no ensino e convívio com as crianças, sem que os proventos que auferia fossem indispensáveis à economia do lar.

            Agora, quando apenas os dois filhos mais velhos estavam empregados e mal ganhavam para si, a falta de meu Pai assumia aspectos de tragédia em nossa casa.

            Dotada de coragem invulgar, de uma força de vontade indomável, consciente do seu dever, minha Mãe decidiu-se a lutar.

            Lutou e venceu!

            Conseguida a nomeação para professora oficial em Moçâmedes, começou a trabalhar como funcionária do Estado.

            Nas horas vagas e à noite, dava lições particulares.

            Não encontrarei palavras para descrever o que foi a sua vida de trabalho, de sacrifício e até de heroísmo, para criar e manter, decente e honestamente, todos os filhos.

            Que o leitor, Chefe de Família, se detenha um pouco e avalie por si próprio.

            Quando meu Pai faleceu, contava eu pouco mais de dois anos. Quis Deus dar-me por Mãe não apenas uma mulher, mas uma heroína e uma Santa.

            À sua memória dedico as páginas deste livro.

 

            Meu Pai casou duas vezes e do seu primeiro matrimónio com Leonor Micaela de Bívar Moreira de Brito Peyroteo - de quem enviuvou - nasceram três filhos: Maria Amélia, Henrique e Berta de Bívar Vasconcelos Peyroteo.

            Do segundo matrimónio, com Maria da Conceição de Seixas Peyroteo, nasceram, como já referi, doze filhos.

 

            OS PRIMEIROS PASSOS DE UMA LONGA CAMINHADA.

            Seria fastidioso descrever minuciosamente como iniciei a minha vida de futebolista, em Moçâmedes.

            Tal como a maioria dos mais famosos jogadores portugueses de todos os tempos, comecei por dar pontapés em bolas de trapos, depois nas de borracha, e, por fim, em bolas com o peso e dimensões regulamentares para a prática do “foot-ball association”.

            Lembro-me de que o primeiro grupo de que fiz parte só conseguiu comprar uma dessas bolas, destinada exclusivamente aos jogos de competição, mercê de subscrição aberta entre os próprios jogadores - rapazes cujas idades oscilavam entre os 8 e 9 anos.

            A formação das equipas constituía sério problema porquê nem sempre compareciam 22 jogadores. Daí a necessidade de escolher entre os “ases” presentes.

            Dois dos mais categorizados saíam do grupo, afastavam-se alguns metros e caminhavam na mesma direcção, colocando um pé em frente do outro, até se encontrarem. Aquele cujo pé, no momento do encontro, sobrepuzesse o do antagonista, ficava com o direito de iniciar a escolha, que se fazia alternadamente.

            E travava-se o diálogo:

            - O “Zé” é meu…

            - O Fernando é meu…

            - O António é meu…

            e assim se constituíam os dois grupos.

[p. 18]

            Moçâmedes é uma cidade do litoral de Angola, a última da ponta Sul, e a que um poeta chamou a “Sintra de África”.

            Só havia um campo destinado à prática do futebol, reservado aos adultos. De sorte que nós, os miúdos, disputávamos os jogos num parque conhecido pela “Avenida dos Eucaliptos”.

            Contra a inegável vantagem de jogarmos sob a sombra acolhedora dos gigantescos eucaliptos, que nos resguardavam dos efeitos perniciosos do sol tropical, lutávamos com a dificuldade de ter de conduzir a bola por entre as árvores e a necessidade de fugirmos ao adversário que surgia por detrás delas.

            As balizas eram constituídas por dois troncos das árvores que, embora plantadas mais ou menos simetricamente, não estavam, -de um lado e do outro, às mesmas distâncias. Mas isso não nos preocupava porque, decorrido metade do tempo, mudávamos de posições, ficando, desse modo, estabelecida a igualdade.

            Ora, em frente do saudoso “Campo dos Eucaliptos”, existia a Farmácia Correia Mendes, pertencente a um simpático velhinho que sempre me estimou e eu jamais deixei de respeitar.

            Recordo o bom velhinho, não só porque escrevia com uma letra muito miudinha, muito certinha e bonita - que não me cansava de admirar - mas porque era dentro da sua farmácia que estava o relógio que indicava o momento de “mudar de campo”. Isto porque a segunda parte do jogo durava, invariavelmente, enquanto se visse a bola.

            O cronometrista das partidas era um garoto, mais ou menos da minha idade, que me lembro chamar-se Bacalhau. Por ser enteado do simpático farmacêutico Correia Mendes, era o único a quem não faltava a coragem para, de vez em quando, ir ver as horas, entrando e saindo da farmácia em correria louca. Outro que fosse e o nosso Correia Mendes logo se enfurecia.

            E assim principiei a jogar futebol. Tudo se passou como é natural acontecer entre crianças.

            Não fui menino prodígio.

            Só aos 12 anos comecei a mostrar verdadeiras qualidades para a prática do futebol.

            Convêm acentuar que, já nesse tempo, na pequena e linda cidade de Moçâmedes, situada, embora, no extremo Sul de Angola, a mocidade praticava desporto, fazendo alguma coisa mais do que dar pontapés nas bolas.

            Fazíamos ginástica sueca; praticávamos a natação, o remo, o ténis, a equitação e atletismo, este em menor escala por carência de mestres possuidores dos indispensáveis conhecimentos para bem ensinar.

            Na cidade havia, nesse tempo, quatro clubes desportivos; o Sporting, o Royal, o Ginásio e o Atlético. Tal como quase no Mundo inteiro, o futebol é o desporto que mais adeptos conquista. Nunca faltaram jovens com vontade e jeito, nem jamais se disputou um prélio sem entusiásticos e numerosos espectadores.

            Seis dos meus irmãos mais velhos foram muito bons praticantes da modalidade e creio que quatro deles jogaram, ao mesmo tempo, na primeira categoria do Sporting Clube de Moçâmedes que, ao tempo, já possuía uma equipa composta de elementos . cuja classe ainda hoje teria aceitação nos quadros de futebol dos principais clubes metropolitanos.

            Entretanto, com os meus 8 ou 9 anos, continuava a jogar renhidos desafios que, de quando em vez, eram patrocinados e orientados pelos clubes grandes que levavam o seu interesse e carinho pela petizada, ao ponto de nomearem um árbitro “oficial” para dirigir esses jogos.

            Mas nos dias em que disputavam jogos oficiais, meus irmãos encarregavam-me de levar gasosas e limonadas, que bebiam nos intervalos e no fim dos encontros.

            E, se meus irmãos defendiam as cores do Sporting, eu era, também, sportinguista…

            Por motivos que não posso recordar nem interessam agora, dois dos meus irmãos tiveram uma desavença com os dirigentes do Sporting e isso deu lugar a que resolvessem mudar de clube, indo para o Royal.

            Eu, que nada tinha que ver com o caso, continuei a frequentar a sede do meu Sporting, todas as tardes, ao regressar da escola.

            Um dia estava entretido a ver jogar o bilhar quando surge o “Director de Semana”, Pedro Parente, mas que todos conhecíamos pela alcunha de “Piló”, e mandou-me sair, dizendo:

            - Vai-te embora daqui. Vai para onde foram teus irmãos!

            Tive ganas de lhe aplicar duas caneladas, mas eu era miúdo, ele um homem e, para mais, Director do Sporting!

            De nada me valeu barafustar. Fui posto na rua!

            Lembro-me perfeitamente que, já no passeio, lhe disse:

            -”O senhor, hoje, manda-me embora mas lá virá o tempo em que me pedirá para voltar. Chegará o momento de lhe dizer que nunca mais volto ao Sporting. Sou garoto, mas serei homem…

            Não acabei a frase porque as lágrimas corriam pela cara…

            Pedro Parente achou graça, riu abertamente e julgou que o azedume dá criança passaria em breve.

            Lá fui, passeio fora, choroso, humilde e triste, jurando a mim próprio que teria de me fazer um homem.

            Os meses passaram e, certa tarde, quando passeava no jardim público, alguém chamou por mim.

            Olhei e reconheci o senhor Ângelo de Mendonça, que me disse:

            - Senta-te aqui a meu lado e dize-me se queres fazer ginástica comigo.

            - Pois claro, senhor Ângelo; gostava tanto de aprender…

            - Ainda bem. Aparece amanhã, às 7 da manhã no Atlético; lá conversaremos. Agora, vai passear…

            Eu era um rapazola fisicamente bem constituído, forte, sadio e desempenado.

            Mas o leitor perguntará: - “quem é Ângelo de Mendonça”?

            Antes de mais posso garantir, sem receio de desmentido, que a mocidade do meu tempo, em Moçâmedes, muito lhe ficou devendo e não o esquecerá. No meu caso pessoal, as páginas que se seguem darão ao leitor uma pálida ideia do que, ainda hoje, representa para mim, em gratidão e respeito, o nome desse grande ginasta e meu primeiro Mestre.

            Ângelo Furtado de Mendonça, foi um dos nossos maiores ginastas-voadores, sendo, igualmente, estrela de primeira grandeza nos trabalhos em paralelas, barra fixa, argolas, etc.

            Aluno, mestre e, mais tarde, dirigente do Ginásio Clube Português, ainda há bem pouco tempo foi alvo de significativa homenagem, levada a efeito no Pavilhão dos Desportos em Lisboa.

            Pois foi Ângelo de Mendonça, levando-me para o Atlético Clube de Moçâmedes, onde mantinha, graciosamente, várias classes de ginástica, que fez de mim um homem para o desporto. De mim e de muitos rapazes, entre os quais destaco .Fausto Corte Real e Jorge Radich.

            Estes dois pupilos de Mestre Ângelo, atingiram classe aparte, e, se tivessem vindo para a Metrópole, seriam, certamente, classificados entre os melhores daquele tempo.

            Mas é melhor contar como ele fez de mim um razoável ginasta, um campeão de natação (100 metros livres), um remador aceitável em. qualquer equipa desse tempo, um basquetista de apreciáveis recursos, um jogador de futebol com lugar na Selecção Nacional Portuguesa e, até, um razoável jogador de “sueca” e “solo”!

            Eu estava na flor da idade e Mestre Ângelo dizia que, enquanto estivesse entretido a jogar às cartas, como seu parceiro, ali sentado, não andaria lá por fora a fumar e a fazer “exercícios físicos” e “manuais” (sic) que só arruinavam a mocidade…

            Quanta razão tinha e como ainda hoje lhe agradeço, meu bom Mestre Ângelo de Mendonça!

            Muito custou a passar aquela noite. Quase não dormi. Às 7 horas da manhã, lá estava.

            Principiou a aula e, desde então, Ângelo de Mendonça dedicou-me sempre, mas sempre, cuidados especiais.

            Obedecia-lhe cegamente; recebia como ordens todas as suas indicações e conselhos.

            Disse-me certa vez: - “Se quiseres vir a ser um bom jogador de futebol, tens de começar pela preparação física. Não basta correr, saltar e dar pontapés na bola. É indispensável, primeiro, saber correr e saltar. Durante uns tempos nada mais farás do que ginástica. O resto, depois, não é difícil porque tu tens jeito!

            E assim aconteceu. Durante dois anos só fiz ginástica sueca e depois comecei a tomar contacto com os aparelhos.

            Mas, nessa altura, já era eu quem ficava à frente da minha classe de ginástica sueca. Para os outros verem, fazia eu, primeiro, os exercícios, conforme as vozes de comando de Mestre Ângelo. Depois, acompanhava a classe, em repetição.

            Muito me sacrifiquei e muito sofri, para conseguir passar dois longos anos sem jogar futebol a sério. Nadava e jogava basquetebol

            com frequência, mas não perdia as aulas de ginástica, três vezes por semana.

            Sempre quê dispunha de um bocadinho de tempo, assistia aos treinos de box, ministrados pelo boxeur profissional, Joaquim Pereira Gois, sob orientação de Mestre Ângelo.

            A verdade é que, após aqueles dois anos de intensiva preparação, sentia-me mais leve, mais ágil, para correr e saltar e, portanto, com capacidade física para tentar, com relativa possibilidade de êxito, 0 meu desporto favorito: o futebol.

            Autorizado pelo meu professor, comecei, então, a jogar futebol.

            O Atlético dispunha de poucos jogadores com valor e, por isso, apenas inscrevera uma equipa na categoria “reservas” do campeonato moçamedense e da qual fiz parte.

            Nesses anos realizou-se o encontro entre as selecçÕes de Moçâmedes e Sá da Bandeira. Era o “Portugal - Espanha” angolano.

            Aos 14 anos, jogando numa equipa que disputava o campeonato de “reservas” fui convocado para a selecção.

            Não cabia em mim de contente!

            E o miúdo - era assim que me tratava Ângelo de Mendonça - lá foi integrado na Selecção de Moçâmedes, com o lugar de interior direito.

            Joguei e não me saí mal. Ganhámos!

            No ano seguinte, o meu clube formou a sua equipa “Honra” e inscreveu-a. Era composta, com poucas alterações, pelos elementos do ano anterior. Chegámos ao fim do campeonato conquistando o título máximo!

            Mas voltemos, agora, um pouco atrás.

            O tempo decorrido fizera esquecer o azedume suscitado entre meus irmãos e o Sporting.

            Um deles, o Mário, que fora um dos melhores extremos direitos da Colónia, abandonara o futebol e aceitou, até, um cargo na direcção daquele clube.

            Coincidira isto com o meu aparecimento na equipa de “reservas” do Atlético e, também, na Selecção de Moçâmedes.

            Instado pelos seus colegas da direcção do Sporting, o Mário tentou levar-me para lá. Tantas vezes me falou que, um dia, respondi-lhe:

            - “És mais velho do que eu. Se é uma ordem, obedeço-te. Se é um pedido recuso-me”.

            Porque era um pedido, nada conseguiu.

            Chegou a vez de Pedro Parente me procurar.

            Argumentou que não fazia sentido jogar contra meu irmão Júlio e, como bom rapaz, devia esquecer o passado, etc.

            Deixei-o falar, antegozando o momento de lhe responder como devia. A certa altura interrompi o discurso para lhe dizer:

            - Já basta, senhor Pedro Parente! Não esqueci o que me fez. Nem as minhas lágrimas o comoveram. O miúdo de há anos continua a ser o mesmo e a ter palavra. Jurei e cumpro: não voltarei ao Sporting Club de Moçâmedes!

            Ainda hoje vibro ao recordar, sentindo íntima satisfação e orgulho pela maneira correcta mas altiva como recusei o convite e as mal disfarçadas desculpas de Pedro Parente.

            Na realidade, sempre me desagradou e foi penoso ser adversário de meu irmão Júlio, que era extremo-esquerdo de invulgares recursos.

            Descreverei uma jogada, para ilustrar a sua categoria de futebolista.

            Quando a Académica de Coimbra foi a Angola, era seu guarda-redes o grande Cipriano dos Santos, mais tarde Campeão do Mundo em hóquei em patins. Tão popular e simpático que o seu nome ainda hoje é recordado, especialmente quando se fala no hóquei.

            Num jogo disputado em Luanda, o Júlio fintou dois adversários em curtos metros de terreno, surgiu, isolado, em frente da baliza à guarda do Cipriano e o “tiro” partiu, batendo, irremediavelmente, aquele que, ao tempo, era um dos melhores guarda-redes das equipas metropolitanas.

            Terminado e encontro, Cipriano dos Santos declarou que considerava Júlio Peyroteo, tão bom ou melhor extremo-esquerdo que João Cruz.

            Não é isto verdade amigo Cipriano? Viste por onde entrou a bola? Recordemos, com saudade, os bons tempos da nossa vida desportiva…

            Aberto este parêntesis, voltemos à minha história.

            Continuei a fazer parte da primeira equipa do Atlético e da Selecção de Moçâmedes, sempre que esta realizou jogos.

            Na ginástica, Angelo de Mendonça dizia:

            - “Vês com que facilidade sobressais dos outros? Mais ágil, mais forte, com mais fôlego! Continua, Fernando; eu te garanto que o teu nome será falado!”

            Mestre Ângelo, com o seu saber, fez um atleta. O resto foi simples e fácil para mim.

            Se não fosse ele, o nome de Fernando Peyroteo seria ignorado no meio desportivo nacional e, portanto, nunca este livro seria escrito.»

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 15 - 25

Memórias de Peyroteo

 

«Leitor amigo (*):

 

            Realizei o meu jogo de estreia a 12 de Setembro de 1937, no antigo Estádio das Salésias. Por adversaria tive a sempre gloriosa equipa do Sport Lisboa e Benfica.

            Não foi má estreia. Ganhamos por 5-3 e eu marquei - integrado no “team” do Sporting - dois golos!

            O último jogo oficial foi contra o Oriental, em 11 de Setembro de 1949, no Estádio Alvalade. Vitória por 8-0; marquei 3 golos.

            Depois, a 5 de Outubro desse mesmo ano (1949) despedi-me, voluntariamente, do futebol em competição e a sério. Portanto, desde que cheguei a Lisboa, joguei futebol doze anos menos um dia.

            O que foi a minha vida desportiva vai o leitor saber, se tiver paciência de ler as páginas que se seguem. Vou contá-la com toda a verdade e franqueza, mas sem pretender ferir ou molestar seja quem for. Por educação e temperamento não sou vingativo nem guardo rancores. Mas se ao escrever o meu livro de memórias escondesse ou deturpasse a verdade, contando aos leitores apenas o que me conviesse, deixaria de ser franco, leal, sincero, verdadeiro e até honesto para com a minha própria consciência. Da rectidão de carácter à maldade, vai um abismo!…

            O verdadeiro desportista é correcto, leal e franco, embora, por vezes, tenha de ser um tanto… duro - como é próprio do futebol… Negar essas qualidades ao escrever o meu livro de memórias, seria deitar por terra tudo quanto em doze anos me esforcei por demonstrar, dentro dos rectângulos de futebol e na minha vida particular.

            Mas repito: não há azedume nem maldade.

            Ficarei satisfeito se os novos tirarem alguma lição proveitosa da leitura das páginas deste livro, e, também, se elas contribuírem, de algum modo, para que os mais velhos ponderem nas resoluções a tomar, evitem erros, dominem paixões, os nervos e os excessos que, embora involuntários, prejudicam terceiros, sem dignificar quem os comete…

            Ao escrever o meu livro de memórias não me preocupei com “estilos”; não procurei palavras bonitas ou frases de efeito. Além de me faltar competência - e porque a finalidade é contar alguns episódios da minha vida desportiva - tudo veio ao correr da pena. Tudo simples - como quem conversa! E digo “alguns episódios” porque - Santo Deus! -onde chegaria eu se enveredasse pelo caminho de contar a par-e-passo o muito que vivi, o muito que se passou de bom e mau enquanto dei pontapés na bola! O leitor pode acreditar que tudo quanto fica por dizer, chegaria para outro livro…

            Que me desculpem os gramáticos, aos quais, evidentemente, não me atreverei a remeter um exemplar destinado a crítica… Então, sim, iria tudo por água abaixo…

            Seja, portanto, o que Deus quiser.

 

O AUTOR»

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito).

 

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(*) No ano em que se assinala o centésimo aniversário (10 de Março) de nascimento desta figura maior do desporto mundial, vou (essa é a minha intenção) publicar neste espaço alguns episódios da vida de Fernando Peyroteo, retirados da sua autobiografia, publicada em 1957.

Recentemente, em 2013, houve uma reedição deste título, numa versão comentada da autoria de João Nuno Coelho e Francisco Pinheiro.

Peço antecipadamente desculpa por alguma gralha que eventualmente se possa encontrar, se acontecer deve-se a desatenção minha com a digitalização/digitação, assim como ao português dos anos ’50 em que foi escrito.

Era só um e chamava-se Peyroteo (4)

«Entrar com o pé direito, rapazes!...

 

Jogo no Estádio Alvalade contra equipa de alto valor, muito capaz de criar amargos de boca ao Sporting; o grupo adversário era tão bom como o nosso.

Na cabine, como habitualmente, muitas recomendações do treinador, dos técnicos da respectiva secção e, também, alguns conselhos, à meia voz, dados, gratuitamente, pelos “amigos” que (não se percebe como!) sempre conseguem entrar nas cabines, antes de começarem os jogos.

Aproxima-se a hora e alguém recomenda: -“Entrem com o pé direito, rapazes! Não esqueçam isto; pé direito!...”

A mim particularmente, também me fizeram a recomendação mas como até aquele momento sempre achei graça às superstições, pensei logo em fazer o contrário, mas nada disse.

Saímos da cabine e, junto à linha lateral, ouvia-se a mesma voz: “Entrem com o pé direito!...”

Eu, como pensara, disposto a brincar com o supersticioso, entrei no rectângulo com o pé esquerdo.

O desafio começou mal para o Sporting e para mim. Havia dez minutos de jogo e já perdíamos por 1-0. Eu não dava, na bola, um pontapé com jeito. Todos os sportinguistas desejavam o golo do empate e, possivelmente, outro a mais; porém, o avançado-centro nada conseguia.

O tempo ia passando até que a bola saiu pela linha lateral precisamente no sítio onde entráramos, e tal era o desejo de não perder tempo que fui fazer o lançamento da bola. Não sei porquê lembrei-me da recomendação… “entrar com o pé direito…” e da maroteira que fizera.

Quando o meu pé esquerdo ia a pisar o risco, num trocar rápido de passo, entrei com o pé direito!

Sabem o que aconteceu? Apenas isto: duas vezes a bola veio ao meu pé direito e foram dois golos seguidos!...

Resumo: O Sporting ganhou o desafio e eu – desde o lançamento da bola – fiz um bom jogo!

Não sei se a pessoa que, insistentemente, nos fez a recomendação, reparou no que fiz, mas certo é que nunca me falou nisso, talvez porque a superstição deixa de ter valor quando divulgada!»

 

Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 303-304

Hoje giro eu - 20 factos que precisa saber sobre Peyroteo

1 - Nasceu em Angola, mais concretamente em Humpata (Huíla);

2 - Aníbal Paciência, também nascido em Angola. amigo e médio do Sporting, foi quem lhe formulou o convite para viajar e ouvir a proposta dos dirigentes leoninos;

3 - Embora ainda sem assinar contrato, tendo dado a palavra de honra aos dirigentes leoninos, viria a recusar uma proposta bem mais vantajosa do FC Porto;

4 -  Estreou-se em 12 de Setembro de 1937, num jogo com o Benfica em que os leões venceram por 5-3, com 2 golos de Peyroteo;

5 - A  sua estreia em jogos oficiais ocorreu em 17 de Outubro de 1937, num triunfo por 7-0 sobre o Casa Pia, em que apontou 2 golos;

6 - Foi o melhor marcador do campeonato nacional por 6 ocasiões;

7 - Num jogo, em 1943, contra o Leça, apontou 9(!) golos;

8 - Em 1947/48, precisando o Sporting de vencer o rival Benfica, fora, por 3 golos de diferença para ser campeão, Peyroteo marcou todos os 4 golos da vitória leonina (4-1), isto depois de não ter dormido a noite anterior devido ao estado febril;

9 - Terminou a sua carreira de jogador em 5 de Outubro de 1949. Por dificuldades financeiras inerentes à má situação da sua loja de desporto, pediu ao Sporting para terminar a carreira, de forma que, através das receitas de uma festa de homenagem, pudesse honradamente pagar as dívidas contraídas naquele negócio;

10 - Em 1949, foi eleito pelo jornal "O Século", o desportista mais popular de Portugal;

11 - Em 55 jogos contra o Benfica, apontou 64 golos;

12 - Foi 6 vezes Campeão Nacional, 4 vezes vencedor da Taça de Portugal, 7 vezes Campeão de Lisboa;

13 - Em 197 jogos para o Campeonato Nacional, marcou 331 golos, uma média de 1,68 golos por jogo;

14- Realizou 20 jogos pela Selecção Nacional e apontou 13 golos;

15 - Integrou 2 linhas avançadas magníficas desses tempos do Sporting. Uma primeira constituida por Adolfo Mourão, Manuel Soeiro, Peyroteo, Pedro Pireza e João Cruz, a segunda formada por Jesus Correia, Vasques, Peyroteo, Travassos e Albano - os "5 violinos";

16 - De excelente educação (um "gentleman") foi expulso apenas 1 vez, por ter respondido a uma agressão e, principalmente, a insultos dirigidos à sua mãe pelo benfiquista Gaspar Pinto;

17 - Totalizadas as diferentes competições, em 432 jogos efectuados marcou 694 golos;

18 - Os espanhóis, grandes admiradores do seu futebol, criaram a expressão "peyrotear", em homenagem ao seu remate forte e colocado, extasiados que ficaram com o seu futebol após uma partida realizada entre o Sporting e o Atlético Aviacion (actual Atlético de Madrid);

19 - Enquanto seleccionador nacional, foi Peyroteo quem deu a primeira internacionalização a um jovem moçambicano chamado...Eusébio;

20 - Faleceu em 28 de Novembro de 1978, após um final de vida triste, marcado pela amputação de uma perna, irónicamente consequência de uma lesão sofrida numa partida de veteranos disputada em Espanha.

 

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No próximo ano, mais concretamente no dia 10 de Março de 2018, comemorar-se-á o centenário do nascimento de Fernando Peyroteo. Por ter sido um fantástico goleador, por ainda ter a melhor média de golos de sempre dos campeonatos europeus, por ter sido um exemplo de "fair-play" enquanto jogador, por sempre ter sido um modelo de integridade e civilidade como homem, espera-se que a Federação Portuguesa de Futebol e o Governo Português prestem, finalmente, a devida homenagem a este homem que foi o melhor goleador mundial de sempre - digno merecedor desse reconhecimento por parte da FPF - , e deveria, como GRANDE português, estar sepultado no Panteão Nacional, decisão que se aguarda com justeza por parte do Estado.

 

Quem não ouviu uma história sobre ele, contada pela boca do pai, do tio, do avô ou bisavô? Se considera justa esta(s) homenagem(ns), transmita-o através da nossa caixa de comentários. Vamos criar uma corrente de apoio que permita mitigar este esquecimento. É que mesmo, infelizmente, já não estando entre nós, parece que a sorte continua de costas voltadas para esta insigne figura do Sporting e do desporto português...

Era só um e chamava-se Peyroteo (3)

Caréga Maria

 

«A 12 de Outubro de 1937, nas Salésias, a estreia oficial de Fernando Peyroteo. Contra o... Benfica. Nem chá de tília que tinha [sido] aconselhado lhe amansar os nervos. “Estava tão perturbado que foi necessário ‘mister’ Szabo ligar-me os pés - trabalho que eu fiz sempre antes dos treinos! Todos falavam, as piadas vinham de todos e só um homem se mantinha calado: o treinador. Quando faltavam apenas 10 minutos para entrarmos em campo, Szabo fez diversas recomendações sobre a táctica a empregar e disse:

"Muita atenção, sinhores. A avançado-centro jogar Férnando. Rapaz novo não ter experiência dê jogo. Sinhores mais velhos ajudar para ele, bem dê clube! Não fazerem malandragem! Não ter graça nenhum! Brincadeira custar 10 por cente para sinhores’. [sic]”.Depois chamou Peyroteo e, murmúrio aventou: “Sinhor Férnando não perturbar com jogo. Não ter importância nenhum jogar mal. Gajos ir dizer para si coisas feias. Não engolir a isca, Férnando. Fazer dê conta ter algodon nos ouvidos. Não esquecer principal papel dê avançado centro: caréga Maria!!! [sic]”

Caréga Maria” era, na gíria de Szabo, atirar ao golo. Sem complacência. Em instinto mortal. Que era coisa que Peyroteo tinha havia muito. E que se apercebeu logo contra o Benfica: marcou dois dos cinco golos com que o Sporting ganhou - 5-3. Estava lançado. Definitivamente.»

 

In: Glória e vida de três grandes. A Bola, 1995, p. 105

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