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És a nossa Fé!

Como se o golo fosse só para nós

Aos olhos de um miúdo, não há melhor escola para aprender a ver futebol do que as tardes passadas nos estádios em companhia do pai. Aconteceu comigo. Ainda hoje recordo os nomes de futebolistas antigos que o meu pai ia desfiando enquanto víamos as partidas ao vivo, as histórias que me relatava a propósito dos desafios de outros tempos e as noções tácticas e técnicas do jogo que me ia passando nesses momentos irrepetíveis.

As modas mudam muito, mas certas tradições vão-se mantendo. Para um garoto destes dias, continua a ser emocionante ter a oportunidade de ver ao vivo os jogadores que figuram nas cadernetas de cromos, relíquia que persiste em acompanhar cada menino, temporada após temporada, no decurso das gerações.

 

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Já era assim no meu tempo. Já era assim no tempo daqueles que me antecederam. Ainda hoje recordo a emoção que senti ao conseguir um autógrafo do Jacinto João após um jogo da Taça UEFA contra o Arad da Roménia à saída dos balneários do estádio do Bonfim. Juntei o autógrafo ao cromo do jogador, craque do Vitória de Setúbal, juntamente com o José Maria, o José Mendes, o Guerreiro, o Octávio Machado e o José Torres. E foi com imenso orgulho que o exibi aos colegas da escola.

Além do Sporting, sempre com lugar à parte, outra equipa em destaque nessa caderneta era a da Académica – a equipa dos “estudantes”, como então se dizia. Merecia-me especial admiração, incutida pela arguta pedagogia paterna, por demonstrar que o futebol não era incompatível com os estudos. Com Rui Rodrigues, Rocha, Vítor Campos, José Belo, Gervásio, Manuel António e um tipo que dava nas vistas por ser muito louro. Chamavam-lhe ‘ruço’ e tinha o mesmo apelido que eu. O Artur Correia.

 

Ele e o Rui Rodrigues – um defesa elegante, que cultivava a arte de desarmar sem falta – viriam a decepcionar-me quando se transferiram para o Benfica. Mas fui acompanhando o percurso do ‘ruço’, um lateral de enorme mobilidade, que percorria o corredor direito num constante vaivém e sabia centrar com precisão. Eram dois jogadores que gostaria de ter visto no Sporting.

E acabei mesmo por ver um deles de verde e branco. O Artur, que em 1977 se transferiu para Alvalade. Lá permaneceu três épocas, vencendo a Taça de Portugal em 1978 e sagrando-se campeão nacional em 1980. Um ano de glória, um ano de infortúnio: quatro meses depois do título, jogando já nos Estados Unidos, sofreu um AVC que o afastou para sempre do futebol. Tinha apenas 29 anos. Começava aí uma longa via crucis só agora terminada, quando nos deixou de vez. No ano passado tinham-lhe amputado uma perna – supremo sofrimento para quem, como ele, tão bem jogou futebol.

 

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Artur Correia com a Taça de Portugal conquistada pelo Sporting (1978) 

 

Lembrei-me do meu pai quando soube da notícia da morte do Artur Correia. Porque o último jogo que vi ao vivo com ele, nas bancadas do Estádio Nacional, foi o único em que o Artur marcou com a camisola da nossa selecção. A 1 de Novembro de 1979, num desafio de qualificação para o Campeonato da Europa do ano seguinte.

Recordo-me perfeitamente. Os noruegueses marcaram primeiro, gelando o estádio. A nossa equipa acusou o golo e andou perdida em campo. Até que o Artur pega na bola lá atrás, avança com ela com uma vontade indómita de virar o resultado, ultrapassa todos os adversários e dispara uma bomba a mais de 30 metros da baliza, num remate muito bem colocado. Empatava a partida, a sorte do jogo virava. Viríamos a ganhar 3-1.

Foi um golo do outro mundo: nunca mais o esqueci. Estávamos na curva sul do estádio, um pouco acima da baliza norueguesa. Abracei-me ao meu pai como nos tempos em que ainda colava cromos na caderneta. E ele abraçou-se a mim como se eu fosse ainda o catraio que antes levava pela mão, de jogo em jogo.

Parecia que aquele golo tinha sido marcado só para nós.

 

Iria tornar-me adulto, depois rumei a outras paragens, não regressei com o meu pai ao futebol - nem em pensamento. Até agora, mal soube que o Artur perdera a  última partida no traiçoeiro campeonato da vida.

Voltei a abrir a velha caderneta, desenterrei os autógrafos do pó do arquivo, imaginei-me a falar com uma remota voz infantil. E senti que o Pai me escutava, de polegar erguido, apaziguando todos os meus receios: “Tenho a certeza de que vamos vencer.”

 

Publicado originalmente aqui

O espírito de Vidal Pinheiro

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Qualquer sportinguista sabe que hoje é um dia especial. Há 15 anos fomos campeões num jogo memorável, deitámos 18 anos de angústias cá para fora, invadimos as ruas de todo o país, enchemos praças, subimos a estátuas, corremos na berma da autoestrada, celebrámos no nosso estádio, entrámos relvado dentro, abraçámos os nossos jogadores. Um por um, gritando sempre e bem alto o nome do nosso Sporting. Tenho para mim que a minha geração se divide entre quem esteve e não esteve em Vidal Pinheiro. Desculpem a arrogância da memória, mas eu estive lá. Confesso que nunca me passou pela cabeça só festejar mais um título depois disso, mais uma razão para lembrar o espírito dessa equipa: raçuda, com ganas de ficar na história, espírito de entreajuda, a procurar a sorte quando lhe faltava o engenho, motivadora da curva sul e em comunhão com esta. É isto que nos tem faltado: substituir a ingenuidade dos "talentos" de Alcochete por gente combativa, mostrar raça onde ela parece não existir, jogar todos os domingos como se fosse o último, respeitar os sócios e entrar em cada pardieiro desta liga com eles em campo. Temos infantis a mais em lugar de seniores, temos mimados a mais em lugar de homens, temos tenrinhos a mais em lugar de raçudos. Importa por isso lembrar essa equipa que nos pôs a chorar de alegria faz hoje 15 anos: Schmeichel, Saber, André Cruz, Quiroga e Rui Jorge, Aldo Pedro Duscher, Vidigal, Pedro Barbosa, Ivone de Franceschi, Ayew e Alberto Federico Acosta. E como são 15 anos pensei que a imprensa recordasse isso, tão ciosa que é de efemérides com números redondos. Mas não. Houve quem preferisse lembrar os 21 anos de uma tragédia, menosprezando a nossa data. 

Vinte anos já #DiadoLeão

Era dia de Sporting - Porto e o título podia ser ali decidido. E foi. 

Lembro-me que tinha havido um acidente enorme na noite anterior, na Bafureira, no qual morreram quatro miúdas da minha zona, e eu ainda estava meio atordoada com essa notícia. Falámos nisso a caminho do jogo, ninguém acreditava ainda.

Havia muita gente nas imediações do estádio, havia bastante gente já dentro do estádio. Havia gente por todo o lado. O nosso grupo separou-se, fiquei com o G e outros mais perto da nave, não viamos a 10a de onde estávamos. Demos pelo autocarro do Porto chegar pelo barulho, e no momento seguinte o F estava ao pé de mim, em estado de choque, quase sem voz: "cairam! cairam todos!"

Na altura não nos apercebemos da gravidade, achámos que tinha caído gente mas tudo ía ficar bem. Entrámos e durante o jogo foi-se sabendo mais qualquer coisa. Não havia telemóveis, não nos ocorreu sequer ligar para casa de cada um a dizer que connosco estava tudo bem, também me lembro disso.

Não ficou tudo bem, é sabido. É esta a minha memória desse dia. Esta, e o resultado de 0-1 que deu o campeonato ao Porto, celebrado em campo (dedicado a Rui Filipe, também me lembro). Não é um rancor, é uma memória que não se apaga. 

Alkmaar

Ao contrário do Edmundo, eu vi o jogo. Quer dizer, eu vi o jogo quase todo. Porque na altura dos descontos, retirei-me da sala de televisão. A eliminatória estava perdida. Ingloriamente.

Fechado no quarto, eis senão quando oiço gritos. Berros de euforia. Mais rápido do que o Usain Bolt, regresso à sala de televisão para, como o S. Tomé, ver para crer. Sim, o Sporting tinha marcado e acabado de carimbar a sua presença na final que se iria disputar na sua própria casa. Como tinha sido possível tamanho volte-face? Assim parecido, lembro-me apenas da extraordinária final da Champions, entre Manchester United e Bayern, em Barcelona. Fantástico!

Foi um golo épico, a prenunciar uma série de conquistas épicas nessa temporada. Infelizmente, nada disso aconteceu.

Por isso, e com franqueza, não consigo evocar sem tristeza o golo do Miguel Garcia. Lembrar Alkmaar faz lembrar, dolorosamente, a final perdida em casa, a bola no poste do Rogério e o 3-1 do CSKA logo a seguir. 

Não sabia que Alkmaar ia fazer 10 anos hoje. Mas ontem, curiosamente, enquanto lia as declarações de Mourinho sobre Luís Filipe Vieira, que contra tudo e todos, manteve o perdedor Jesus, para este nas duas épocas seguintes ganhar o campeonato, lembrei-me e muito de Peseiro, o outro treinador que numa semana perdeu campeonato e final europeia. Que teria sido do Sporting se tivesse mantido o seu treinador? É certo que Peseiro ainda iniciou a época seguinte, mas já muito condicionado e foi arrumado ao fim de pouco tempo.

Dez anos depois de Alkmaar, voltam a existir muitas reservas sobre a continuidade do treinador (ainda ontem, no programa Grandes Adeptos, Jaime Mourão-Ferreira dizia que se Marco Silva perder a taça não tem condições para continuar como treinador do Sporting). Será que aprendemos alguma coisa com a nossa própria história?

Sem sumo

 

Tenho uma vaga memória do Argentina'78: talvez dos confetis e do cabelo do Kempes. Lembro-me perfeitamente do Espanha'82: da mascote, uma laranja gordinha, do Itália-Camarões e do Itália-Brasil, das pernas longas do Doutor Sócrates e da classe do Zico. Gostava de esquecer o México'86. Lembro-me das tardes de calor, de ter sempre uma selecção favorita diferente, das edições especiais do France Football, das colecções de cromos e da edição especial da TV Guia com todas as equipas. Eram tempos de frenesim no meu bairro. Jogávamos com os nomes dos jogadores favoritos e sabíamos literalmente tudo o que havia para saber sobre cada um dos jogadores. Chegámos a jogar com uma bola Tango novíssima que acabou ingloriamente dentro do cemitério de Benfica. Ontem, dei por mim a pensar o quanto me divertia a ver os mundiais quando Portugal não estava lá.

Bartali e o Paraíso

 

Inspirado por mais algumas discussões sobre a legitimidade de sepultar no Panteão Nacional este ou aquele cidadão, fui, à semelhança do que tem acontecido com tantos e tantos militantes de tais escolhas, seus opositores ou simplesmente curiosos, consultar a lei que disciplina a matéria. Dispõe o artº 2º da Lei nº28/2000, de 29 de Novembro, que

 

       1 — As honras do Panteão destinam-se a homenagear e a perpetuar a memória dos cidadãos portugueses que se distinguiram por serviços prestados ao País, no exercício de altos cargos públicos, altos serviços militares, na expansão da cultura portuguesa, na criação literária, científica e artística ou na defesa dos valores da civilização, em prol da dignificação da pessoa humana e da causa da liberdade.
          2 — As honras do Panteão podem consistir:
              a) Na deposição no Panteão Nacional dos restos mortais dos cidadãos distinguidos;
              b) Na afixação no Panteão Nacional da lápide alusiva à sua vida e à sua obra.

 

Quem quiser realmente ler o que a lei determina e não se dispuser a ser enganado pela confusão induzida por mais um exemplo de pontuação desleixada, verificará facilmente que os restos mortais de um desportista profissional só poderão ser depostos no Panteão se, não tendo ele exercido altos cargos públicos, não tendo prestado altos serviços militares, não se tendo distinguido na expansão da cultura portuguesa ou na criação literária, científica ou artística, se, não se tendo notabilizado em nenhum destes domínios, tiver marcado a defesa dos valores da civilização, em prol da dignificação da pessoa humana e da causa da liberdade. Como é claro, nada disto tem remotamente que ver com a importância popular de quem lá repousar, com a sua resistência na memória colectiva ou com a projecção de Portugal no mundo. Estes factores assumirão, quando muito, alguma relevância se a personalidade de que falarmos puder ser incluída numa das categorias previstas na lei. 

 

Tal regime fez-me procurar desportistas susceptíveis de preencherem os critérios enunciados e, naturalmente para mim - peço desculpa pela insistência num nome provavelmente desconhecido da maioria dos leitores - o pensamento dirigiu-se, de imediato, para Gino Bartali, não que este grande campeão pudesse figurar no Panteão, já que, entre outros motivos menos óbvios, não era cidadão português, mas porque me veio à memória o que sobre ele, para além do que já sabia e me fora transmitido pelo meu pai, seu grande admirador, li no Malomil, num post a que já me referi em texto anterior

 

Bartali morreu em 2000, com 86 anos. Mas deixava também uma história só muito tarde revelada. Durante a guerra, sem Giro para correr, treinava-se na estrada, passando com facilidade as patrulhas alemãs. Mas o treino era muitas vezes ficção. Fazia parte de uma organização de apoio aos judeus. Transportava, escondidos na bicicleta, documentos para fazer passaportes falsos. Terá contribuído para salvar 800 judeus. Tem um lugar na Álea dos Justos, em Jerusalém.

       Jorge Almeida Fernandes
 
Gino Bartali ganhou por várias vezes o Giro e o Tour, entre muitos outros troféus, e a sua rivalidade com o também extraordinário Fausto Coppi tornou-se lendária. Mas não foram os pedais, foi o modo como, chegada uma hora decisiva, escolheu usá-los, foi o seu contributo para a defesa dos valores da civilização, em prol da dignificação da pessoa humana e da causa da liberdade, que lhe permitiram uma ascensão muito mais gloriosa do que as das duríssimas montanhas da sua velha Itália. 

O terceiro mais comentado do ano

Acabo de saber: este foi o terceiro postal mais comentado do ano que agora acaba, em todos os blogues inseridos na plataforma Sapo. Versando não um tema do presente mas um assunto pertencente a um passado já remoto, quando a televisão era a preto e branco e o detentor máximo do poder político se envolvia sem pudor nas questões do futebol, vetando transferências de jogadores para o estrangeiro.

Confirma-se, de algum modo, que somos um povo com irreprimível tendência para a nostalgia.

Tinha esta memória adormecida, lembrei-me dela hoje

Só para nos situarmos, não que gostemos de nos lembrar, foi no Benfica - Sporting de 2005. O da semana que não aconteceu. Do Luisão e do Ricardo, esse. Estamos situados, adiante.

Combinei com um amigo, o João, ir ver o jogo ao Alvalaxia e assim foi. No meio de muita gente à espera de boas noticias que nunca chegaram, procurámos um lugar sentados. Vagou mais um lugar e sentou-se um senhor ao meu lado. Assim estivemos a ver a primeira parte.
Não sei precisar o momento, talvez tenha sido no intervalo, altura em que ainda deu para conversar um pouco. O meu vizinho do lado começou a falar connosco. Se eramos sócios, se tinhamos lugar e onde. Disse-lhe que sim e na sul. Respondeu-me que pagava três lugares, o dele e os dos dois filhos. Que tinha continuado a pagar o do mais velho apesar de tudo. Não olhava para nós enquanto falava pausadamente, frase a frase, como se se voltasse a convencer, a reconstituir tudo. O filho tinha morrido num desastre não há muito tempo. Continuou a pagar o lugar, "o Sporting era tudo para ele". Não me lembro de mais detalhes do que me disse. Ainda falou do filho um bocado, mas eu sentia-me minúscula perante este horror, ouvi-o e talvez tenha balbuciado uma ou outra palavra de conforto mas apagou-se-me quase tudo da memória. Ficou-me que continuava a pagar o lugar. Como se deixar de o fazer fosse o perder definitivamente a memória do filho, como se fosse a ultima coisa que como pai podia fazer.

Este fim-de-semana há derby!

 

Foi, provavelmente, o mais impressionante jogo a que assisti na vida. Sofremos, e muito, durante quase todo o jogo. Durante a maior parte do tempo pareceu que estávamos à beira do precipício. A lampionagem avançou no marcador e por volta da meia hora de jogo o estádio parecia que vinha abaixo.

De repente uma bola do Moutinho na barra! Tudo mudou a partir daí! Uma cavalgada impressionante, através de um ritmo avassalador onde todas as jogadas pareciam poder dar golo! Nem todas as bolas entraram mas a verdade é que marcámos cinco golos! Foram vinte cinco minutos inacreditáveis de raça, de entrega, de dedicação! Esta emoção inigualável faz de um Sporting versus benfica o maior jogo de futebol do mundo!

Padre Alberto Neto

 

Hoje, em conversa com um amigo, lembrei-me do Padre Alberto Neto. Não, em primeiro lugar, a propósito do Sporting, antes dos nossos tempos do Pedro Nunes. Foi aí que o conheci, como professor de Religião e Moral, naquela época disciplina obrigatória e, diga-se em abono da verdade, bastante menos nociva e maleficente do que, já então, mas, principalmente, alguns anos mais tarde, muitos viriam a acusá-la. Nalguns casos, admito que poucos, de que fui testemunha, a matéria era, pelo contrário, pretexto para debates, reflexões e tomadas de consciência que propiciavam uma abertura de espírito e um conhecimento do mundo muito mais vastos do que superiormente  se pretenderia.

 

O Padre Alberto Neto foi um bom exemplo da capacidade para  despertar em adolescentes o gosto pela interrogação, pelo hábito de questionar, pela dúvida salutar e construtiva e pela curiosidade de saber. Não só nas aulas, mas também numa série de actividades paralelas que  promovia e dirigia com grande habilidade e tacto, o Padre Alberto, ao leccionar uma disciplina aparentemente pouco propícia a grandes cometimentos pedagógicos, até porque não atribuia nota relevante para a média,  conseguiu exercer uma influência mais duradoura e sólida do que alguns professores encarregados de disciplinas com outro peso curricular. 

 

A história da intervenção cívica do Padre Alberto Neto, a nível, pelo menos, de um conhecimento público mais alargado, ficou essencialmente marcada pela sua participação nos acontecimentos da Capela do Rato, de que era capelão, ocorridos na passagem de 1972 para 1973 e que desempenharam um importante papel na luta dos católicos nesse tempo conhecidos como progressistas contra a guerra colonial.

 

O Padre Alberto estendeu entusiasticamente a sua actividade ao desporto e ao Sporting, pelo qual tinha uma enorme paixão. Embora não possa dizer que ele tenha tido algum relevo no nascimento do meu sportinguismo, já que este me tinha sido incutido pelo meu pai e constituía, como continua a constituir, uma espécie de herança e marca familiar, o arrebatamento leonino do Padre Alberto, lembro-me bem, era um orgulho para mim e para muitos colegas, a quem, na figura de um professor tão ou mais ferrenho do que nós, se revelava uma personagem modelar e inspiradora. Depois de sair do Pedro Nunes encontrei-o poucas vezes. Continuava a lembrar-se de mim, como, de resto, de um grande número de alunos, e nessas ocasiões falámos sempre do Sporting, com a habitual exaltação.

 

No princípio dos anos 70, o Padre Alberto Neto foi dirigente do Sporting, tendo sido responsável pelo futebol juvenil, pela formação, como hoje se diria e, no seu caso, seria particularmente adequado, e, também, tanto quanto me lembro, pelo futebol profissional, no tempo de João Rocha.

 

O Padre Alberto foi assassinado, com um tiro, em 1987, na zona de Setúbal. A sua morte permanece, passado tanto tempo, um enigma, mas o exemplo que nos deixou de cidadão, pedagogo e dirigente desportivo é um legado que não será fácil esquecer.

 

 

Memórias de Alvalade

 

O primeiro derby que vi em Alvalade remonta à época de 1994/1995. A minha memória diz-me que foi um grande jogo. Ganhámos 1-0 com um golo do nigeriano Emmanuel Amunike (melhor jogador africano de 1994), atleta que teve uma passagem curta por Alvalade e uma carreira repleta de lesões.

 

Recordo-me bem que o Sporting, naquela altura, contava com uma grande equipa: Carlos Xavier, Oceano, Krassimir Balakov, Luís Figo, Peixe, Emmanuel Amunike, Iordanov, Sá Pinto. O jogo foi um massacre que não resultou numa goleada das antigas porque na equipa adversária jogava um dos melhores guarda-redes que vi até hoje, o belga Michel Preud'homme que fez uma exibição notável.

 

Desde esse jogo assisti a muitos derbys em Alvalade, uns com melhores recordações outros com péssimas memórias mas a verdade é que nunca esquecerei o primeiro!

Homo lagartus (Lineu)

 

 

Tendo eu, por motivos que não vêm ao caso, feito e concluído os meus estudos universitários em Coimbra, não posso deixar de sentir orgulho com a classificação de património mundial agora atribuída pela Unesco à sua universidade. Um orgulho pessoal que não tenho a veleidade de querer ver imposto a nenhum português nem, sequer, a nenhum conimbricense. Como escrevi já a outro propósito, fico tomado de paranóia litigante quando vejo alguém a sentir-se no direito de nos constranger à aceitação indiscriminada de parolices pseudo-patrióticas do género temos que ser todos pela selecção, que é a equipa de todos nós, temos que ser pelas equipas portuguesas no confronto com estrangeiros, temos todos que gostar muito do Saramago e que exultar com o êxito internacional do fado e outras inanidades que tais.

 

Fico, de qualquer maneira, desculpem-me que o repita, muito orgulhoso,acompanhado certamente por muitos e muitos portugueses, conimbricenses ou não, actuais ou ex-alunos ou, possivelmente, nem uma coisa nem outra, perante um reconhecimento com o peso do que acaba de ser conferido à Universidade de Coimbra. Vivi nesta cidade cinco anos inesquecíveis, que deixaram uma marca indelével na minha personalidade, no meu carácter, nas minhas perspectivas culturais e na minha visão do mundo, foi lá que conheci a minha mulher, também estudante, foi lá que casei, na capela da universidade, a Capela de S. Miguel, foi lá que fiz alguns dos amigos para a vida, foi lá que dei muitos dos passos que, mais para o bem do que para o mal, tenho o atrevimento de o presumir, me tornaram no homem que hoje sou. Razões que me parecem mais do que suficientes para dar testemunho público do meu enorme contentamento com a classificação da Unesco.

 

Perguntarão, muito provavelmente, alguns leitores, o que tem isto que ver com o Sporting, ainda se fosse, vá lá, um blogue dedicado à Académica? Bom, forçado que sou a procurar um nexo com o clube, a encontrar uma justificação para a inclusão deste texto num blogue determinado pela fervorosa fé clubística verde e branca, sempre posso dizer que esses cinco anos em Coimbra foram pródigos em oportunidades, que não malbaratei, para exercer um entusiasmado apostolado sportinguista. Ainda hoje encontro pessoas que, ao verem-me, se recordam de mim, desses tempos gloriosos, mais como sportinguista do que qualquer outra coisa. O meu quarto, na residência universitária onde permaneci durante tão significativo período da minha vida, ostentou em cima da porta, quase desde a minha chegada, o gracejo rebuscado e pintado a verde Homo lagartus (Lineu). Bem sei que seria melhor uma referência taxonómica ao estatuto leonino, mas, enfim, tudo aquilo era uma brincadeira e sempre considerei, bem-humorado, a classificação como um motivo de prazer clubístico e não como uma desconsideração biológica. Esta pintura, ao que me contaram, perdurou muito tempo na parede do edifício, só tendo desaparecido com a demolição da ala em que se situavam os quartos dos estudantes universitários.

 

A minha permanência em Coimbra e o, digamos assim, ligeiro desregramento financeiro em que, às vezes, era fácil cair, especialmente quando se estava afastado da família, levaram a que, em algumas ocasiões, só recorrendo à  boleia, de polegar firmemente espetado, tivesse podido estar presente no Estádio de Alvalade, para um ou outro jogo mais apetecível. Lembro-me, em particular, de um jogo com o Sutherland, em que o Sporting, depois de perder por 2-1 em Inglaterra, ganhou em Lisboa por 2-0, com golos de, se não estou em erro, Marinho e Yazalde. Eu e um amigo de Aveiro, estudante de engenharia, levantámo-nos cedo e, empunhando um cartaz em que anunciávamos o nosso propósito, tomámos  a EN1, onde rapidamente, depois de cinco minutos, se tanto, apanhámos boleia de outro distinto sportinguista, até então absolutamente desconhecido, que vinha para Lisboa com o mesmo fim. A noite é que foi pior, acabámos a dormir, primeiro, em Santa Apolónia e, depois, no aeroporto, já que, por motivos alheios ao tema desta prosa, não me convinha que os meus pais viessem a tomar conhecimento da deslocação.

 

Poderia contar muitas histórias desses tempos, histórias sobre o Sporting e a sua rivalidade com o Benfica e o Porto, histórias sobre a Académica e a sua extraordinária relação com os estudantes e com a cidade, referir-me às amizades com colegas adeptos destes clubes, às eternas discussões, às piadas e aos gozos infindáveis dirigidos, como é de bom tom, aos perdedores em cada momento. Poderia fazê-lo, é certo, mas penso já ter atingido o objectivo que, como avisei, me propus desde o começo:criar uma ligação com a Universidade de Coimbra, por forma a poder, ufano, dar conta, no És a Nossa Fé, da minha satisfação por mais uma marca de alguma importância na vida desta minha escola.

Naquela noite...

 

Era uma quarta-feira, tal e qual como hoje. O apito inicial soou à hora a que publico este post. O meu pai alimentava esperanças de que, passados dez anos, o seu clube repetisse a proeza: ganhar a Taça das Taças. Mas a primeira mão das meias-finais, em Alvalade, não correra bem: empate 1-1 com o Magdeburgo, da República Democrática Alemã, um dos regimes de proa da Europa de Leste.

 

O Sporting partiu desfalcado para o encontro, não contava com dois dos seus melhores jogadores, Dinis e Yazalde, ambos lesionados. Mal sabia a equipa que partia do Portugal da ditadura para regressar ao Portugal dos cravos. E não deixa de ser interessante que fosse derrotada, nessa noite de todas as noites, por um clube de um país comunista, uma ideologia que tanto agitaria o Portugal saído da revolução. Também o imperialismo soviético esteve perto de derrotar a nossa jovem e ainda frágil democracia.

 

 

Os minutos finais do encontro deram cabo dos nervos. Ao fim de 75 minutos, perdíamos por 2-0. Já nos conformávamos com a derrota, quando Marinho, a 12 minutos do fim, reduziu a desvantagem para 2-1. Renasciam as esperanças. Marcando mais um golo, o Sporting passaria à final!

Sofríamos em frente da televisão, quando Tomé, entrado perto do fim do encontro, falhou um golo que parecia certo. Ao apito final, instalou-se o desespero.

 

 

Eu tinha oito anos. E não sabia o que mais me oprimia: se a minha própria desilusão, se a do meu pai. Fomo-nos deitar com um imenso nó na garganta, sem sonhar que acordaríamos num outro país.

À equipa do Sporting, acompanhada pelo saudoso João Rocha, estava reservada uma autêntica odisseia. Deixaram a malfadada Magdeburgo de autocarro, logo aguentando os incómodos ligados à passagem da fronteira entre as duas Alemanhas. Controlos obsoletos, de quem insistia na cortina de ferro, esse muro invisível, concretizado fisicamente em Berlim. Mal sabia o plantel do clube que, no seu país, se tentavam destruir outro tipo de muros.

 

Chegados a Frankfurt, atingiu-os a perplexidade: o aeroporto de Lisboa estava cercado e fechado ao tráfego! Acabaram por arranjar um voo para Madrid, de onde partiram, de autocarro, em direção à fronteira do Caia. Mas esta revelou ser mais uma barreira intransponível, o MFA fechara todas as fronteiras. Tiveram de pernoitar em Badajoz, alguns, no autocarro, por não terem encontrado lugares nos hotéis.

 

Só a 26 de Abril a situação se desbloquearia.

E nós?

Em nós, renascera a esperança, no deslumbre da liberdade.

 

 


 

Nota: O bilhete representado está ou esteve à venda neste site. Embora não o consiga visualizar, foi para lá que o link da imagem me enviou.

Campeonatos de matraquilhos*

Recentemente, num almoço de domingo na nossa casa de família, demos por nós a evocar memórias antigas de sportinguistas. Mais interessante do que a tertúlia em si – que irei retomar num próximo artigo – foi a (re)descoberta da mesa de matraquilhos da minha infância. Tapada, ignorada e esquecida durante anos foi, naquela tarde, a felicidade das gerações mais novas da família (e, confesso-vos, das restantes).

A ideia de um campeonato de matraquilhos, a efectivar-se logo de seguida, foi imediata. Durante algumas horas, voltámos todos a ser crianças e a disputar, de forma aguerrida, as bolas em “campo”. Mas giro, giro foi ver os meus sobrinhos e os meus filhos em disputa acesa sobre quem é que iria jogar pelo Sporting. Porque, como todos sabem, qualquer mesa de matraquilhos que se preze (excepção talvez às que sejam vendidas no norte de Portugal) têm os eternos rivais a jogar entre si.

A contenda lá se resolveu, com as equipas formadas pelos mais pequenos a jogarem à vez pelo nosso Clube. E, claro está, o Sporting ganhou porque quem estava a jogar pelo slb deixava, misteriosamente, os golos entrarem quando havia a ameaça do benfica ganhar o jogo... Quando o campeonato acabou, fiquei para trás a observar aquele que foi um dos brinquedos mais emblemáticos da minha infância. O tempo tinha passado por esse enorme tabuleiro, mas ainda havia algo que me transportava para o passado: a mesa tinha as marcas de cigarros do meu pai, um dos avançados estava pintado de negro com um enorme J, de Jordão, na camisola, ladeado, obviamente, por um MF (não é Mota Ferreira, mas o incontornável Manuel Fernandes). Os bonecos do slb estavam maltratados como o meu irmão e eu os tínhamos deixado há 30 anos e, no relvado, junto à baliza do nosso adversário, tinha escrito “goloooo”, como se, por escrevermos a palavra mágica, tívessemos por garantida uma vitória do nosso Sporting.

Dei por mim a sonhar acordado e, por breves momentos, regressei a recordações que me são queridas. Com a vantagem de, agora, a juntar às minhas memórias passadas, outras, de um passado mais recente, em que os nossos descendentes mostram que quem sai aos seus não degenera.

 

*Artigo desta semana no jornal do Sporting

A Visita do Videira

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Quando eu tinha quinze anos, a minha família, por razões  da vida profissional do meu pai, foi viver para Luanda. Para os meus três irmãos e para mim, foi uma época extraordinária. Oriundos de Lisboa, a experiência de um modelo de organização social que, em muitos aspectos, nos pareceu excitantemente novo teve um impacto inapagável nas nossas vidas. Em virtude de ter escolhido um curso universitário que então não existia na Universidade de Luanda, eu acabei por lá ficar apenas, se exceptuarmos alguns períodos de férias, pouco mais de dois anos, os do 6º e 7º anos do ensino secundário, equivalentes, hoje, na medida em que eram os últimos, aos 11º e 12º. Tal não impediu, no entanto,  que a cidade me tivesse marcado para sempre. Quando digo a cidade, devo referir-me, sobretudo, embora sem esquecer muitos outros aspectos marcantes da vida naquela comunidade, ao extraordinário liceu que tive a sorte e a honra de frequentar, o Liceu Nacional Salvador Correia. 

 

Era uma escola magnífica. Os meus irmãos e eu, habituados que estávamos a um excelente e exigentíssimo liceu, embora muito elitista, o Pedro Nunes, em Lisboa, adaptámo-nos, de modo fulminante, a um padrão de funcionamento e a valores muito diferentes daqueles que constituiam, no âmbito do ensino, os nossos principais pontos de referência. Muito mais liberdade, muito mais abertura de espírito, o exercício de uma autoridade  muito menos constrangedora e um clima de incomparavelmente mais compreensão e tolerância nas relações entre professores, pessoal administrativo e alunos  fizeram com que rapidamente nos  tivéssemos sentido em casa, como se aquela tivesse sido, desde sempre, a nossa escola, como se a ela estivéssemos unidos por alguma ligação desconhecida. E vivíamos mesmo o  liceu, este não era apenas um edifício onde fôssemos ter as nossas aulas ou cumprir, enfastiados, enfadonhas tarefas rotineiras. Para mim e para muitos amigos e colegas,  aquela soberba casa amarela era, de facto, uma segunda casa. Quantas vezes, mesmo em férias ou, por qualquer motivo, não tendo aulas, nos encontrávamos lá com os amigos e colegas, para conversar, para puro e simples convívio ou  para praticar desporto, no meu caso, normalmente, futebol ou basquetebol, dos desportos mais praticados, naquele tempo,  pela juventude luandense. O Salvador Correia era fantástico, era o centro da vida de muitos de nós, veja-se, nos  dias de hoje, o movimento de autêntica irmandade que foi criado por muitos dos antigos alunos em volta das recordações do seu velho liceu. Tenho sempre uma enorme satisfação em dizê-lo, as minhas amigas e amigos mais antigos, quase irmãs e irmãos, se isso é possível, datam dos nossos quinze anos, dos tempos gloriosos do 6º e 7º no Salvador Correia.

 

O desporto desempenhava um papel importantíssimo na juventude de Luanda, muito mais do que aquilo a que eu estava habituado em Lisboa. Não era, pois, de admirar que as paixões clubistas aí se manifestassem com, pelo menos, tanta intensidade como na então metrópole. O Sporting, o Benfica, o Porto, o Belenenses, o Braga e mais uns tantos tinham em Luanda e noutras cidades de Angola as suas filiais, acompanhadas pelos respectivos prosélitos como se das casas-mãe se tratasse. Eu já quase não fazia a distinção e lembro-me bem de seguir a equipa de hóquei em patins do Sporting de Luanda, naquele tempo uma das melhores, com o mesmo fervor com que mais tarde acompanhei, já em Lisboa, o Sporting de Ramalhete, Rendeiro, Sobrinho, Chana e Livramento. Neste domínio, o liceu era, também, palco de muito grandes e amigáveis discussões. Recordo-me, em especial, dos debates arrebatados, às segundas-feiras, com um adepto benfiquista e um portista, sobre todas as incidências, reais ou ingenuamente imaginadas, da jornada de Domingo do campeonato nacional de futebol. Os meus opositores, nessa discussões semanais bem humoradas, cujas fontes de informação se limitavam, na falta de televisão, à incipiência dos jornais e relatos radiofónicos, eram o professor Ramalho, de ginástica, entusiasta do Porto, que aceitava, com boa disposição e prazenteira benevolência, colaborar naquele ritual juvenil, e um colega de quem só me lembro chamar-se Velhinho,  representante do Benfica na tertúlia. Essas discussões, inflamadas mas polidas, eram abundantemente  fundamentadas com  informação detalhada e, a nosso ver, rigorosíssima, recolhida com toda a seriedade naqueles órgãos de comunicação social - eu não lia a  Bola, eu estudava-a, com mais afinco, de certeza, do que a maior parte das disciplinas curriculares - e tinham sempre lugar, durante o maior intervalo da manhã, debaixo do majestoso pórtico do liceu, perante uma assistência de, pelo menos, uns vinte e tal ou trinta colegas, ou, às vezes, mesmo mais, que se divertiam  com tudo aquilo tanto como os próprios participantes residentes nesse  Dia Seguinte avant la lettre.

 

Na cantina do liceu pontificava um contínuo, o Videira, de seu verdadeiro nome João Augusto, personagem extremamente popular, que suportava com estoicismo e paciência, muita mas, reconheçamo-lo, não infinita, as arremetidas constantes de massas desordenadas de alunos sequiosos e esfomeados, ansiosos pela sua vez de chegar, nem sempre pelo preço estabelecido, diga-se de passagem, às proverbiais coca-colas e bolas de Berlim. Era um homem muito modesto, simples, jovial e que mantinha com todos os mininos uma excelente relação, qualidades que lhe valeram transformar-se num símbolo do Salvador Correia. Este estatuto, com o decorrer dos anos e com o crescimento de naturais sentimentos de nostalgia por parte de muitos dos antigos alunos, veio a sedimentar-se, a ponto de, hoje, o Videira me parecer constituir, junto de alguns círculos, uma figura quase venerada.

 

Perto de meia-dúzia de anos atrás, recebi um telefonema inesperado de um colega desses tempos, o João Moedas, que eu não via e com quem já não falava há cerca de três décadas, a perguntar-me, lembrando-se de algumas  ligações, minhas e da minha família, ao Sporting, se não seria possível interceder junto de alguém que, no clube, pudesse organizar, em benefício do Videira, uma visita ao estádio. É verdade, o Videira nunca tinha vindo a Portugal, nunca tinha saído de Angola, mas, nesse ano, a comissão responsável pela organização do encontro anual de antigos alunos do liceu tinha decidido promover a sua presença neste evento. E, auscultado o bom do Videira sobre os locais do nosso país que ele gostaria especialmente de  conhecer, qual foi a resposta? Adivinharam, pelo menos quanto a um deles, o Estádio José de Alvalade. Os outros foram Fátima e Guimarães, o berço da nacionalidade, nas suas palavras vibrantes, durante o almoço depois realizado e em que  ocupou o lugar de honra.

 

Prontifiquei-me imediatamente a procurar  satisfazer o desejo do Videira e, uma vez que um dos meus irmãos pertencia na altura aos órgãos sociais do clube, foi fácil estabelecer os contactos necessários para a organização da visita. No dia aprazado, lá apareceu ele, acompanhado pelo colega de que falei e por um outro antigo aluno do liceu, conhecido como Maravilhas. Foi muito bem recebido, além do meu irmão e de mim próprio, por Margarida Caldeira da Silva, que, à época, era responsável pela área das relações públicas e lhe ofereceu, em nome do Sporting, uma série de presentes, entre eles a camisola verde e branca, que, pouco depois, vestiu e exibiu orgulhosamente até ao momento da despedida. Andou pelos balneários, onde fez questão de ser fotografado em frente ao cacifo do Pedro Barbosa, pelo relvado, quis ser também fotografado ao pé de uma das balizas, foi ao camarote da direcção, a mais alguns sítios de que já não me lembro e, sempre emocionado, acabou, a convite do meu irmão, por almoçar connosco e com os antigos alunos que o acompanhavam no restaurante panorâmico do estádio. Foi um momento enternecedor e divertidíssimo. Afável e loquaz, generoso e fraterno nas suas memórias e nos seus juízos sobre Portugal e os portugueses, sempre com a camisola às riscas verdes e brancas vestida, contou, numa linguagem sugestiva e rica, insuspeitada num homem tão modesto e simples, histórias do liceu e de Luanda de que ou já não nos lembrávamos ou, na maior parte, nem sequer conhecíamos. O Sporting e a sua história estiveram sempre presentes e, à medida que íamos conversando sobre o clube, exaltando as suas glórias, o Videira olhava em volta, abanava a cabeça como se não acreditasse na experiência  que estava a viver e dizia profundamente comovido: Isto é o céu, isto é o céu!

 

E ele era sincero, via-se bem o que  estava a sentir. Independentemente dos sentimentos de afecto decorrentes da ligação ao Liceu Salvador Correia, também eu senti orgulho, enquanto sportinguista, por ver a emoção de um homem de perto de 70 anos que, nunca tendo vindo antes a Portugal, vivia tão intensamente o clube. Desportivamente falando, tal como para tantos de nós, esta, embora vivida de tão longe, também era e é a sua fé.

 

O Videira acabou por ir a Fátima e, na altura, não foi possível, não sei porquê, levá-lo a Guimarães. Mas esta não foi a sua última presença em Portugal. Três ou quatro anos depois, por ocasião do lançamento de um livro dedicado à história do Liceu Nacional  Salvador Correia, de título Viva a Malta do Liceu, o Videira foi, mais uma vez, convidado a deslocar-se ao nosso país e pôde, finalmente, visitar a cidade que tanto ambicionara conhecer.

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