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És a nossa Fé!

Este fim-de-semana há derby!

 

Foi, provavelmente, o mais impressionante jogo a que assisti na vida. Sofremos, e muito, durante quase todo o jogo. Durante a maior parte do tempo pareceu que estávamos à beira do precipício. A lampionagem avançou no marcador e por volta da meia hora de jogo o estádio parecia que vinha abaixo.

De repente uma bola do Moutinho na barra! Tudo mudou a partir daí! Uma cavalgada impressionante, através de um ritmo avassalador onde todas as jogadas pareciam poder dar golo! Nem todas as bolas entraram mas a verdade é que marcámos cinco golos! Foram vinte cinco minutos inacreditáveis de raça, de entrega, de dedicação! Esta emoção inigualável faz de um Sporting versus benfica o maior jogo de futebol do mundo!

Padre Alberto Neto

 

Hoje, em conversa com um amigo, lembrei-me do Padre Alberto Neto. Não, em primeiro lugar, a propósito do Sporting, antes dos nossos tempos do Pedro Nunes. Foi aí que o conheci, como professor de Religião e Moral, naquela época disciplina obrigatória e, diga-se em abono da verdade, bastante menos nociva e maleficente do que, já então, mas, principalmente, alguns anos mais tarde, muitos viriam a acusá-la. Nalguns casos, admito que poucos, de que fui testemunha, a matéria era, pelo contrário, pretexto para debates, reflexões e tomadas de consciência que propiciavam uma abertura de espírito e um conhecimento do mundo muito mais vastos do que superiormente  se pretenderia.

 

O Padre Alberto Neto foi um bom exemplo da capacidade para  despertar em adolescentes o gosto pela interrogação, pelo hábito de questionar, pela dúvida salutar e construtiva e pela curiosidade de saber. Não só nas aulas, mas também numa série de actividades paralelas que  promovia e dirigia com grande habilidade e tacto, o Padre Alberto, ao leccionar uma disciplina aparentemente pouco propícia a grandes cometimentos pedagógicos, até porque não atribuia nota relevante para a média,  conseguiu exercer uma influência mais duradoura e sólida do que alguns professores encarregados de disciplinas com outro peso curricular. 

 

A história da intervenção cívica do Padre Alberto Neto, a nível, pelo menos, de um conhecimento público mais alargado, ficou essencialmente marcada pela sua participação nos acontecimentos da Capela do Rato, de que era capelão, ocorridos na passagem de 1972 para 1973 e que desempenharam um importante papel na luta dos católicos nesse tempo conhecidos como progressistas contra a guerra colonial.

 

O Padre Alberto estendeu entusiasticamente a sua actividade ao desporto e ao Sporting, pelo qual tinha uma enorme paixão. Embora não possa dizer que ele tenha tido algum relevo no nascimento do meu sportinguismo, já que este me tinha sido incutido pelo meu pai e constituía, como continua a constituir, uma espécie de herança e marca familiar, o arrebatamento leonino do Padre Alberto, lembro-me bem, era um orgulho para mim e para muitos colegas, a quem, na figura de um professor tão ou mais ferrenho do que nós, se revelava uma personagem modelar e inspiradora. Depois de sair do Pedro Nunes encontrei-o poucas vezes. Continuava a lembrar-se de mim, como, de resto, de um grande número de alunos, e nessas ocasiões falámos sempre do Sporting, com a habitual exaltação.

 

No princípio dos anos 70, o Padre Alberto Neto foi dirigente do Sporting, tendo sido responsável pelo futebol juvenil, pela formação, como hoje se diria e, no seu caso, seria particularmente adequado, e, também, tanto quanto me lembro, pelo futebol profissional, no tempo de João Rocha.

 

O Padre Alberto foi assassinado, com um tiro, em 1987, na zona de Setúbal. A sua morte permanece, passado tanto tempo, um enigma, mas o exemplo que nos deixou de cidadão, pedagogo e dirigente desportivo é um legado que não será fácil esquecer.

 

 

Memórias de Alvalade

 

O primeiro derby que vi em Alvalade remonta à época de 1994/1995. A minha memória diz-me que foi um grande jogo. Ganhámos 1-0 com um golo do nigeriano Emmanuel Amunike (melhor jogador africano de 1994), atleta que teve uma passagem curta por Alvalade e uma carreira repleta de lesões.

 

Recordo-me bem que o Sporting, naquela altura, contava com uma grande equipa: Carlos Xavier, Oceano, Krassimir Balakov, Luís Figo, Peixe, Emmanuel Amunike, Iordanov, Sá Pinto. O jogo foi um massacre que não resultou numa goleada das antigas porque na equipa adversária jogava um dos melhores guarda-redes que vi até hoje, o belga Michel Preud'homme que fez uma exibição notável.

 

Desde esse jogo assisti a muitos derbys em Alvalade, uns com melhores recordações outros com péssimas memórias mas a verdade é que nunca esquecerei o primeiro!

Homo lagartus (Lineu)

 

 

Tendo eu, por motivos que não vêm ao caso, feito e concluído os meus estudos universitários em Coimbra, não posso deixar de sentir orgulho com a classificação de património mundial agora atribuída pela Unesco à sua universidade. Um orgulho pessoal que não tenho a veleidade de querer ver imposto a nenhum português nem, sequer, a nenhum conimbricense. Como escrevi já a outro propósito, fico tomado de paranóia litigante quando vejo alguém a sentir-se no direito de nos constranger à aceitação indiscriminada de parolices pseudo-patrióticas do género temos que ser todos pela selecção, que é a equipa de todos nós, temos que ser pelas equipas portuguesas no confronto com estrangeiros, temos todos que gostar muito do Saramago e que exultar com o êxito internacional do fado e outras inanidades que tais.

 

Fico, de qualquer maneira, desculpem-me que o repita, muito orgulhoso,acompanhado certamente por muitos e muitos portugueses, conimbricenses ou não, actuais ou ex-alunos ou, possivelmente, nem uma coisa nem outra, perante um reconhecimento com o peso do que acaba de ser conferido à Universidade de Coimbra. Vivi nesta cidade cinco anos inesquecíveis, que deixaram uma marca indelével na minha personalidade, no meu carácter, nas minhas perspectivas culturais e na minha visão do mundo, foi lá que conheci a minha mulher, também estudante, foi lá que casei, na capela da universidade, a Capela de S. Miguel, foi lá que fiz alguns dos amigos para a vida, foi lá que dei muitos dos passos que, mais para o bem do que para o mal, tenho o atrevimento de o presumir, me tornaram no homem que hoje sou. Razões que me parecem mais do que suficientes para dar testemunho público do meu enorme contentamento com a classificação da Unesco.

 

Perguntarão, muito provavelmente, alguns leitores, o que tem isto que ver com o Sporting, ainda se fosse, vá lá, um blogue dedicado à Académica? Bom, forçado que sou a procurar um nexo com o clube, a encontrar uma justificação para a inclusão deste texto num blogue determinado pela fervorosa fé clubística verde e branca, sempre posso dizer que esses cinco anos em Coimbra foram pródigos em oportunidades, que não malbaratei, para exercer um entusiasmado apostolado sportinguista. Ainda hoje encontro pessoas que, ao verem-me, se recordam de mim, desses tempos gloriosos, mais como sportinguista do que qualquer outra coisa. O meu quarto, na residência universitária onde permaneci durante tão significativo período da minha vida, ostentou em cima da porta, quase desde a minha chegada, o gracejo rebuscado e pintado a verde Homo lagartus (Lineu). Bem sei que seria melhor uma referência taxonómica ao estatuto leonino, mas, enfim, tudo aquilo era uma brincadeira e sempre considerei, bem-humorado, a classificação como um motivo de prazer clubístico e não como uma desconsideração biológica. Esta pintura, ao que me contaram, perdurou muito tempo na parede do edifício, só tendo desaparecido com a demolição da ala em que se situavam os quartos dos estudantes universitários.

 

A minha permanência em Coimbra e o, digamos assim, ligeiro desregramento financeiro em que, às vezes, era fácil cair, especialmente quando se estava afastado da família, levaram a que, em algumas ocasiões, só recorrendo à  boleia, de polegar firmemente espetado, tivesse podido estar presente no Estádio de Alvalade, para um ou outro jogo mais apetecível. Lembro-me, em particular, de um jogo com o Sutherland, em que o Sporting, depois de perder por 2-1 em Inglaterra, ganhou em Lisboa por 2-0, com golos de, se não estou em erro, Marinho e Yazalde. Eu e um amigo de Aveiro, estudante de engenharia, levantámo-nos cedo e, empunhando um cartaz em que anunciávamos o nosso propósito, tomámos  a EN1, onde rapidamente, depois de cinco minutos, se tanto, apanhámos boleia de outro distinto sportinguista, até então absolutamente desconhecido, que vinha para Lisboa com o mesmo fim. A noite é que foi pior, acabámos a dormir, primeiro, em Santa Apolónia e, depois, no aeroporto, já que, por motivos alheios ao tema desta prosa, não me convinha que os meus pais viessem a tomar conhecimento da deslocação.

 

Poderia contar muitas histórias desses tempos, histórias sobre o Sporting e a sua rivalidade com o Benfica e o Porto, histórias sobre a Académica e a sua extraordinária relação com os estudantes e com a cidade, referir-me às amizades com colegas adeptos destes clubes, às eternas discussões, às piadas e aos gozos infindáveis dirigidos, como é de bom tom, aos perdedores em cada momento. Poderia fazê-lo, é certo, mas penso já ter atingido o objectivo que, como avisei, me propus desde o começo:criar uma ligação com a Universidade de Coimbra, por forma a poder, ufano, dar conta, no És a Nossa Fé, da minha satisfação por mais uma marca de alguma importância na vida desta minha escola.

Naquela noite...

 

Era uma quarta-feira, tal e qual como hoje. O apito inicial soou à hora a que publico este post. O meu pai alimentava esperanças de que, passados dez anos, o seu clube repetisse a proeza: ganhar a Taça das Taças. Mas a primeira mão das meias-finais, em Alvalade, não correra bem: empate 1-1 com o Magdeburgo, da República Democrática Alemã, um dos regimes de proa da Europa de Leste.

 

O Sporting partiu desfalcado para o encontro, não contava com dois dos seus melhores jogadores, Dinis e Yazalde, ambos lesionados. Mal sabia a equipa que partia do Portugal da ditadura para regressar ao Portugal dos cravos. E não deixa de ser interessante que fosse derrotada, nessa noite de todas as noites, por um clube de um país comunista, uma ideologia que tanto agitaria o Portugal saído da revolução. Também o imperialismo soviético esteve perto de derrotar a nossa jovem e ainda frágil democracia.

 

 

Os minutos finais do encontro deram cabo dos nervos. Ao fim de 75 minutos, perdíamos por 2-0. Já nos conformávamos com a derrota, quando Marinho, a 12 minutos do fim, reduziu a desvantagem para 2-1. Renasciam as esperanças. Marcando mais um golo, o Sporting passaria à final!

Sofríamos em frente da televisão, quando Tomé, entrado perto do fim do encontro, falhou um golo que parecia certo. Ao apito final, instalou-se o desespero.

 

 

Eu tinha oito anos. E não sabia o que mais me oprimia: se a minha própria desilusão, se a do meu pai. Fomo-nos deitar com um imenso nó na garganta, sem sonhar que acordaríamos num outro país.

À equipa do Sporting, acompanhada pelo saudoso João Rocha, estava reservada uma autêntica odisseia. Deixaram a malfadada Magdeburgo de autocarro, logo aguentando os incómodos ligados à passagem da fronteira entre as duas Alemanhas. Controlos obsoletos, de quem insistia na cortina de ferro, esse muro invisível, concretizado fisicamente em Berlim. Mal sabia o plantel do clube que, no seu país, se tentavam destruir outro tipo de muros.

 

Chegados a Frankfurt, atingiu-os a perplexidade: o aeroporto de Lisboa estava cercado e fechado ao tráfego! Acabaram por arranjar um voo para Madrid, de onde partiram, de autocarro, em direção à fronteira do Caia. Mas esta revelou ser mais uma barreira intransponível, o MFA fechara todas as fronteiras. Tiveram de pernoitar em Badajoz, alguns, no autocarro, por não terem encontrado lugares nos hotéis.

 

Só a 26 de Abril a situação se desbloquearia.

E nós?

Em nós, renascera a esperança, no deslumbre da liberdade.

 

 


 

Nota: O bilhete representado está ou esteve à venda neste site. Embora não o consiga visualizar, foi para lá que o link da imagem me enviou.

Campeonatos de matraquilhos*

Recentemente, num almoço de domingo na nossa casa de família, demos por nós a evocar memórias antigas de sportinguistas. Mais interessante do que a tertúlia em si – que irei retomar num próximo artigo – foi a (re)descoberta da mesa de matraquilhos da minha infância. Tapada, ignorada e esquecida durante anos foi, naquela tarde, a felicidade das gerações mais novas da família (e, confesso-vos, das restantes).

A ideia de um campeonato de matraquilhos, a efectivar-se logo de seguida, foi imediata. Durante algumas horas, voltámos todos a ser crianças e a disputar, de forma aguerrida, as bolas em “campo”. Mas giro, giro foi ver os meus sobrinhos e os meus filhos em disputa acesa sobre quem é que iria jogar pelo Sporting. Porque, como todos sabem, qualquer mesa de matraquilhos que se preze (excepção talvez às que sejam vendidas no norte de Portugal) têm os eternos rivais a jogar entre si.

A contenda lá se resolveu, com as equipas formadas pelos mais pequenos a jogarem à vez pelo nosso Clube. E, claro está, o Sporting ganhou porque quem estava a jogar pelo slb deixava, misteriosamente, os golos entrarem quando havia a ameaça do benfica ganhar o jogo... Quando o campeonato acabou, fiquei para trás a observar aquele que foi um dos brinquedos mais emblemáticos da minha infância. O tempo tinha passado por esse enorme tabuleiro, mas ainda havia algo que me transportava para o passado: a mesa tinha as marcas de cigarros do meu pai, um dos avançados estava pintado de negro com um enorme J, de Jordão, na camisola, ladeado, obviamente, por um MF (não é Mota Ferreira, mas o incontornável Manuel Fernandes). Os bonecos do slb estavam maltratados como o meu irmão e eu os tínhamos deixado há 30 anos e, no relvado, junto à baliza do nosso adversário, tinha escrito “goloooo”, como se, por escrevermos a palavra mágica, tívessemos por garantida uma vitória do nosso Sporting.

Dei por mim a sonhar acordado e, por breves momentos, regressei a recordações que me são queridas. Com a vantagem de, agora, a juntar às minhas memórias passadas, outras, de um passado mais recente, em que os nossos descendentes mostram que quem sai aos seus não degenera.

 

*Artigo desta semana no jornal do Sporting

A Visita do Videira

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Quando eu tinha quinze anos, a minha família, por razões  da vida profissional do meu pai, foi viver para Luanda. Para os meus três irmãos e para mim, foi uma época extraordinária. Oriundos de Lisboa, a experiência de um modelo de organização social que, em muitos aspectos, nos pareceu excitantemente novo teve um impacto inapagável nas nossas vidas. Em virtude de ter escolhido um curso universitário que então não existia na Universidade de Luanda, eu acabei por lá ficar apenas, se exceptuarmos alguns períodos de férias, pouco mais de dois anos, os do 6º e 7º anos do ensino secundário, equivalentes, hoje, na medida em que eram os últimos, aos 11º e 12º. Tal não impediu, no entanto,  que a cidade me tivesse marcado para sempre. Quando digo a cidade, devo referir-me, sobretudo, embora sem esquecer muitos outros aspectos marcantes da vida naquela comunidade, ao extraordinário liceu que tive a sorte e a honra de frequentar, o Liceu Nacional Salvador Correia. 

 

Era uma escola magnífica. Os meus irmãos e eu, habituados que estávamos a um excelente e exigentíssimo liceu, embora muito elitista, o Pedro Nunes, em Lisboa, adaptámo-nos, de modo fulminante, a um padrão de funcionamento e a valores muito diferentes daqueles que constituiam, no âmbito do ensino, os nossos principais pontos de referência. Muito mais liberdade, muito mais abertura de espírito, o exercício de uma autoridade  muito menos constrangedora e um clima de incomparavelmente mais compreensão e tolerância nas relações entre professores, pessoal administrativo e alunos  fizeram com que rapidamente nos  tivéssemos sentido em casa, como se aquela tivesse sido, desde sempre, a nossa escola, como se a ela estivéssemos unidos por alguma ligação desconhecida. E vivíamos mesmo o  liceu, este não era apenas um edifício onde fôssemos ter as nossas aulas ou cumprir, enfastiados, enfadonhas tarefas rotineiras. Para mim e para muitos amigos e colegas,  aquela soberba casa amarela era, de facto, uma segunda casa. Quantas vezes, mesmo em férias ou, por qualquer motivo, não tendo aulas, nos encontrávamos lá com os amigos e colegas, para conversar, para puro e simples convívio ou  para praticar desporto, no meu caso, normalmente, futebol ou basquetebol, dos desportos mais praticados, naquele tempo,  pela juventude luandense. O Salvador Correia era fantástico, era o centro da vida de muitos de nós, veja-se, nos  dias de hoje, o movimento de autêntica irmandade que foi criado por muitos dos antigos alunos em volta das recordações do seu velho liceu. Tenho sempre uma enorme satisfação em dizê-lo, as minhas amigas e amigos mais antigos, quase irmãs e irmãos, se isso é possível, datam dos nossos quinze anos, dos tempos gloriosos do 6º e 7º no Salvador Correia.

 

O desporto desempenhava um papel importantíssimo na juventude de Luanda, muito mais do que aquilo a que eu estava habituado em Lisboa. Não era, pois, de admirar que as paixões clubistas aí se manifestassem com, pelo menos, tanta intensidade como na então metrópole. O Sporting, o Benfica, o Porto, o Belenenses, o Braga e mais uns tantos tinham em Luanda e noutras cidades de Angola as suas filiais, acompanhadas pelos respectivos prosélitos como se das casas-mãe se tratasse. Eu já quase não fazia a distinção e lembro-me bem de seguir a equipa de hóquei em patins do Sporting de Luanda, naquele tempo uma das melhores, com o mesmo fervor com que mais tarde acompanhei, já em Lisboa, o Sporting de Ramalhete, Rendeiro, Sobrinho, Chana e Livramento. Neste domínio, o liceu era, também, palco de muito grandes e amigáveis discussões. Recordo-me, em especial, dos debates arrebatados, às segundas-feiras, com um adepto benfiquista e um portista, sobre todas as incidências, reais ou ingenuamente imaginadas, da jornada de Domingo do campeonato nacional de futebol. Os meus opositores, nessa discussões semanais bem humoradas, cujas fontes de informação se limitavam, na falta de televisão, à incipiência dos jornais e relatos radiofónicos, eram o professor Ramalho, de ginástica, entusiasta do Porto, que aceitava, com boa disposição e prazenteira benevolência, colaborar naquele ritual juvenil, e um colega de quem só me lembro chamar-se Velhinho,  representante do Benfica na tertúlia. Essas discussões, inflamadas mas polidas, eram abundantemente  fundamentadas com  informação detalhada e, a nosso ver, rigorosíssima, recolhida com toda a seriedade naqueles órgãos de comunicação social - eu não lia a  Bola, eu estudava-a, com mais afinco, de certeza, do que a maior parte das disciplinas curriculares - e tinham sempre lugar, durante o maior intervalo da manhã, debaixo do majestoso pórtico do liceu, perante uma assistência de, pelo menos, uns vinte e tal ou trinta colegas, ou, às vezes, mesmo mais, que se divertiam  com tudo aquilo tanto como os próprios participantes residentes nesse  Dia Seguinte avant la lettre.

 

Na cantina do liceu pontificava um contínuo, o Videira, de seu verdadeiro nome João Augusto, personagem extremamente popular, que suportava com estoicismo e paciência, muita mas, reconheçamo-lo, não infinita, as arremetidas constantes de massas desordenadas de alunos sequiosos e esfomeados, ansiosos pela sua vez de chegar, nem sempre pelo preço estabelecido, diga-se de passagem, às proverbiais coca-colas e bolas de Berlim. Era um homem muito modesto, simples, jovial e que mantinha com todos os mininos uma excelente relação, qualidades que lhe valeram transformar-se num símbolo do Salvador Correia. Este estatuto, com o decorrer dos anos e com o crescimento de naturais sentimentos de nostalgia por parte de muitos dos antigos alunos, veio a sedimentar-se, a ponto de, hoje, o Videira me parecer constituir, junto de alguns círculos, uma figura quase venerada.

 

Perto de meia-dúzia de anos atrás, recebi um telefonema inesperado de um colega desses tempos, o João Moedas, que eu não via e com quem já não falava há cerca de três décadas, a perguntar-me, lembrando-se de algumas  ligações, minhas e da minha família, ao Sporting, se não seria possível interceder junto de alguém que, no clube, pudesse organizar, em benefício do Videira, uma visita ao estádio. É verdade, o Videira nunca tinha vindo a Portugal, nunca tinha saído de Angola, mas, nesse ano, a comissão responsável pela organização do encontro anual de antigos alunos do liceu tinha decidido promover a sua presença neste evento. E, auscultado o bom do Videira sobre os locais do nosso país que ele gostaria especialmente de  conhecer, qual foi a resposta? Adivinharam, pelo menos quanto a um deles, o Estádio José de Alvalade. Os outros foram Fátima e Guimarães, o berço da nacionalidade, nas suas palavras vibrantes, durante o almoço depois realizado e em que  ocupou o lugar de honra.

 

Prontifiquei-me imediatamente a procurar  satisfazer o desejo do Videira e, uma vez que um dos meus irmãos pertencia na altura aos órgãos sociais do clube, foi fácil estabelecer os contactos necessários para a organização da visita. No dia aprazado, lá apareceu ele, acompanhado pelo colega de que falei e por um outro antigo aluno do liceu, conhecido como Maravilhas. Foi muito bem recebido, além do meu irmão e de mim próprio, por Margarida Caldeira da Silva, que, à época, era responsável pela área das relações públicas e lhe ofereceu, em nome do Sporting, uma série de presentes, entre eles a camisola verde e branca, que, pouco depois, vestiu e exibiu orgulhosamente até ao momento da despedida. Andou pelos balneários, onde fez questão de ser fotografado em frente ao cacifo do Pedro Barbosa, pelo relvado, quis ser também fotografado ao pé de uma das balizas, foi ao camarote da direcção, a mais alguns sítios de que já não me lembro e, sempre emocionado, acabou, a convite do meu irmão, por almoçar connosco e com os antigos alunos que o acompanhavam no restaurante panorâmico do estádio. Foi um momento enternecedor e divertidíssimo. Afável e loquaz, generoso e fraterno nas suas memórias e nos seus juízos sobre Portugal e os portugueses, sempre com a camisola às riscas verdes e brancas vestida, contou, numa linguagem sugestiva e rica, insuspeitada num homem tão modesto e simples, histórias do liceu e de Luanda de que ou já não nos lembrávamos ou, na maior parte, nem sequer conhecíamos. O Sporting e a sua história estiveram sempre presentes e, à medida que íamos conversando sobre o clube, exaltando as suas glórias, o Videira olhava em volta, abanava a cabeça como se não acreditasse na experiência  que estava a viver e dizia profundamente comovido: Isto é o céu, isto é o céu!

 

E ele era sincero, via-se bem o que  estava a sentir. Independentemente dos sentimentos de afecto decorrentes da ligação ao Liceu Salvador Correia, também eu senti orgulho, enquanto sportinguista, por ver a emoção de um homem de perto de 70 anos que, nunca tendo vindo antes a Portugal, vivia tão intensamente o clube. Desportivamente falando, tal como para tantos de nós, esta, embora vivida de tão longe, também era e é a sua fé.

 

O Videira acabou por ir a Fátima e, na altura, não foi possível, não sei porquê, levá-lo a Guimarães. Mas esta não foi a sua última presença em Portugal. Três ou quatro anos depois, por ocasião do lançamento de um livro dedicado à história do Liceu Nacional  Salvador Correia, de título Viva a Malta do Liceu, o Videira foi, mais uma vez, convidado a deslocar-se ao nosso país e pôde, finalmente, visitar a cidade que tanto ambicionara conhecer.

De pequenino se torceu o pepino...

 

Paço de Arcos, 1982…

 

O rapaz que inundava os joelhos com cicatrizes desgovernadas, possivelmente devido a várias quedas duma bicicleta pequena, era afinal benfiquista. A ele, que nunca tinha visto qualquer jogo desse clube na televisão, foi difícil nascer numa família sportinguista e ser conotado como benfiquista. Essa contradição tem algo de malicioso. Mas para o rapaz o Futebol ainda passava ao lado, a única vez que o futebol preenchia a sua mente era quando colocava a foto do jogador da bola numa carica duma garrafa Coca-Cola já sem vida. Tudo o que não fosse “jogos sem fronteiras” não fazia sentido para o menino de Paço de Arcos: excelentes aquelas noites de segunda-feira quando o clube de vermelho não jogava, era um silêncio puro que reinava naquela sala, fantasmas vermelhos já não nos podiam tirar o gozo de ouvir um Eládio Clímaco.
O Rapaz adorava aquelas segunda-feiras, o 4º andar da Rua de Porto Alegre cheirava a contenção desportiva naquela altura.
 
Pobre rapaz influenciável. Para ele o desporto fazia-se com uns famosos canudos de plástico que faziam as delícias da pequenada, ou duma bola que já não era de trapos, mas também era jogada numa pelada, mas a paixão por qualquer clube era algo inimaginável naquela altura, se havia paixão por algo ou alguém era pela sua doce e querida avó Rosa. Mas naquela casa com vista para a linha do Estoril não reinava a democracia e o rapaz teve mesmo de se tornar benfiquista. O pão estava sobre a mesa e a esse é difícil dizer “NÃO”. Foi-lhe comprado um chapéu com uma imagem do famoso jogador cabeludo benfiquista, o rapaz olhou para essa prenda de Natal com um olhar de indiferença, mas foi logo chamado à atenção para o facto de naquele clube a história se fazer ainda a preto e branco, fruto das famosas vitórias ditatoriais do Professor Salazar. Se existe algo que associo frequentemente ao Benfica é António de Oliveira Salazar…
Bruscamente houve uma mudança de ares. Fruto de romances e histórias de amor pouco previstas, o rapaz voltou a acompanhar a mãe nesta jornada chamada vida. Margem sul era o seu destino, ninho de industriais viciados em jogo. Aos poucos foi-se sentindo de novo em casa, e tornou-se apaixonando pelo lado oposto do “ser vaidoso e pouco humilde”, enfim o rapaz tinha voltado quase a renascer ou seja tinha-se tornado adepto do Sporting, o Tal de Portugal. Tinha voltado quase das trevas, ser daquele clube por intoxicação motivava quase um exorcismo puro. Foi bom ter voltado à vida, pensou o rapaz…
 
Fruto de influências desmedidas, cedo se percebeu que estaria ali um rapaz pronto a defender a sua dama a qualquer preço. Decorria o ano de 1984 quando chegou a primeira prenda ligada ao Sporting. Era uma bola e um lindo equipamento do Sporting, o rapaz moreno e de sorriso rasgado já podia contar aos seus amigos que o Sporting para ele era já o melhor de Portugal. Na escola vivia-se o gozo, o gozo e a ridicularização do Sporting, afinal estávamos no auge dos 18 anos sem glória, mas o rapaz não nunca desistiu do seu amor, um amor que mesmo não sendo à primeira vista se tornou um amor obsessivo e complexo, e sempre que podia defendia-o como duma batalha medieval se tratasse.
Naquela tarde de Primavera em 1989, o pequeno rapaz moreno sentiu o Sporting como nunca tinha sentido. Fernando Gomes, o bi-bota, partiu para a bola com pouca convicção e tinha desperdiçado a hipótese de passagem à fase seguinte da prova europeia, algo que o fez o menino feito rapaz chorar sem limite, aquela derrota marcou o início dum amor desmedido, e hoje em dia ainda é algo que é difícil de explicar. Não se chora por um penalty falhado, chora-se porque o nome do Sporting não tinha soado alto, chora-se porque existe algo dentro de nós que nos faz acreditar numa vitória, mas também se chora porque a nossa paixão não teve sucesso… ainda hoje esse menino não consegue explicar porque chorou dessa vez.
 
Nesse tempo ainda se chorava pelo Sporting, consumiam-se lágrimas de tristeza quando perdíamos, e ousávamos desafiar quem nos queria fazer mal. Naquele tempo ficávamos viciados no nosso clube, apertávamos com força o adepto do lado quando marcávamos um golo, virávamos a cara ao jogo quando nos sentíamos puramente gozados. Ouço agora dizer que nos vencerem pelo cansaço, e neles solto a minha raiva, choro porque o rapaz já se sente indiferente ao ver o seu Sporting, para o Rapaz já feito homem existem agora momentos mais importantes do que o Sporting marcar um golo, existe uma vida feita de loucuras exigentes a nível familiar, mas o Sporting estará sempre para lá duma paixão, essa paixão que ainda me consome, mas vai-se tornando cada vez mais pequena… ou cada vez menos importante. Ainda choro por dentro quando me querem afastar da minha paixão…
 
Sempre lutarei ao teu lado, Paixão duma vida...

Eu e o Sporting!

Era muito gaiato, quando fui à bola pela primeira vez. Honestamente não me lembro desse dia… Sei pelos próprios, o meu pai e um tio, que pegaram em mim e me “apresentaram” ao Sporting. E recordam que me portei ao nível de um leão…

 

Por aquilo que afirmam foi um Sporting-Setúbal. Mas nem sei (nem se lembram!) o resultado final do jogo.

 

Depois desse, assisti a muitos outros jogos: em Alvalade a maioria, no Barreiro, em Setúbal (parece quase fetiche!), Jamor e Restelo. Mais recentemente em Alverca e na Amadora.

 

Recordo mesmo um tempo em que começava o fim de semana a ver os juvenis ao sábado de manhã, os juniores à tarde e a equipa principal à noite. Chegava a casa de barriga cheia!

 

Não obstante estas presenças em campos de futebol, sofro com o Sporting seja em que modalidade for. Atletismo (talvez mais, assumo!), andebol, futsal, xadrez ou bilhar… tudo é o nosso clube. E ai como me dói quando perdemos!

 

Ser do Sporting não é ser do melhor clube do mundo, é acima de tudo uma filosofia que perdura para o resto da nossa vida. E saber sofrer é também uma virtude. Porque na hora de ganhar é a glória perfeita.

 

Já passei, obviamente, o testemunho aos meus filhos, que tal como eu sofrem a bom sofrer com o Sporting.

 

Será isto a tal mística, de que tanta gente fala?

Eu estive lá (2) - Sporting - Real Madrid

Esta partida foi mais uma daquelas em que o Sporting fez tudo para ganhar. Deste jogo destaco o grande golo de Oceano, que não foi claramente suficiente para eliminarmos um Real Madrid onde pontuavam, entre outros, Buyo e Laudrup. Ganhámos por 2-1 mas havíamos perdido na primeira mão por 1-0, se a memória não me falha.

 

Alguns erros do árbitro ajudaram também o Real a ultrapassar o nosso Sporting, mas foi um dos grandes jogos que vi em Alvalade.

 

O bilhete da minha entrada foi este:

 

 
Este o filme: 

 

Memórias de outros Euros*

Em 1984, Portugal participou, pela primeira vez, no Campeonato da Europa de Futebol que nesse ano se realizou em França. A qualificação esteve por um fio e tudo ficou decidido num jogo épico no estádio do outro clube da segunda circular contra a temível selecção da então União Soviética.

Tenho poucas memórias do jogo propriamente dito, mas retive algumas que partilho agora aqui convosco. O que mais me impressionou na altura não foi o jogo em si, mas um grupo na assistência, portugueses, que decidiu ir ao estádio com bandeiras vermelhas com a foice e o martelo de um partido de esquerda para apoiar a selecção soviética. Gritavam, berravam, gesticulavam as bandeiras e assobiavam cada vez que algum jogador português pegava na bola.

Penso que, na altura, o que os salvou de uma boa surra foi o facto dos adeptos da selecção das quinas estarem mais preocupados com o jogo do que, propriamente, com a assistência. Ou então a circunstância de pensar que essa gente era das terras das estepes e não de um lugar recôndido de Portugal. Seja como for, eram os excessos pós-revolucionários da altura, em que o internacionalismo ideológico se sobrepunha ao patriotismo identitário. Hoje, isto seria impensável, muito à conta deste nacionalismo futeboleiro e sazonal que se vive no País de dois em dois anos.

 

De volta a 1984, para dizer-vos que a primeira parte esteve bastante equilibrada, com Portugal a suster com alguma dificuldade as velhas glórias soviéticas. O assunto ficou arrumado, obviamente, com um jogador do Sporting. O inefável Jordão, aos 42 minutos, marcou um penalty que arrumou de vez as esperanças soviéticas e colocou Portugal na fase final de competições internacionais de futebol,  18 anos depois do histórico mundial de 1966 onde os Magriços igualmente se notabilizaram.

Saímos do estádio felizes e contentes com os préstimos da nossa Selecção e com a vitória dada a Portugal e aos Portugueses graças a um golo de um jogador do Sporting. Como a vida tem destas ironias, na confusão da saída, reparámos no grupo das bandeirinhas vermelhas. Tristes e cabisbaixos, com as bandeiras enroladas.

 

*Artigo publicado na edição desta semana do jornal do Sporting

Há 56 anos era assim…

Fui sócio do Sporting uma infinidade de anos. Naquele tempo em que os sócios podiam ver os jogos sem pagar a não ser aqueles famosos “dias do clube” com o Belenenses ou o clube de Carnide, em que pagávamos uma quota extra.

Durante todo esse tempo tive um cartão e que não servia de crédito a não ser ao próprio Sporting. Porém jamais observei em algum deles aquilo que vi (e vejo!) no antigo cartão de sócio do meu pai.

Estávamos em 1956.

Na frente a sua figura jovem de militar aprumado. Por detrás, a filosofia…

Para recordar ou relembrar?

 

 

O homem mais solitário do mundo

O futebol permite imortalizar imagens que nos acompanham vida fora. Imagens de implacáveis derrotas e vitórias redentoras que nada têm a ver com a abstracta "justiça dos resultados" tantas vezes invocada em vão pelos comentadores da modalidade. Porque o que se joga num relvado, sobretudo numa competição com a amplitude de um campeonato do mundo, transcende largamente um resultado desportivo, tornando-se uma espécie de alegoria do destino humano. São momentos de glória e desespero que perpetuam famas, boas e más. Momentos como aqueles segundos finais desse fantástico jogo que foi o Gana-Uruguai, ontem disputado em Joanesburgo.

Os ganeses desejavam ser a primeira selecção africana a atingir as meias-finais de um Mundial. Os uruguaios, arredados desde 1970 de uma meia-final, ambicionavam resgatar o brilhante passado futebolístico do seu país, campeão mundial em 1930 e 1950. Motivações diferentes, mas suficientemente mobilizadoras para empolgar os atletas. Naqueles instantes, cada um deles transportava os sonhos de milhões.

Foi aí que tudo aconteceu. A pressão atacante ganesa rompeu a exausta defesa uruguaia: com o guarda-redes Muslera batido, Luis Suárez - a estrela da equipa - impediu duas vezes consecutivas a bola de entrar na baliza. Mas à segunda actuou à margem das leis futebolísticas.

 

Como se pode falar em "injustiça" no futebol? Neste jogo disputado com os pés, Maradona tornou-se um deus do Olimpo ao marcar com a mão contra a Inglaterra em 1986. Thierry Henry conduziu fraudulentamente a França ao Mundial da África do Sul ao meter também a mão à bola. E foi igualmente com as mãos que Suárez alterou o curso da história, impedindo o Gana - o primeiro país da África negra a tornar-se independente no ciclo pós-colonial - de chegar ao pódio mundial do futebol.

Tudo mudou naquele fragmento final do jogo. O árbitro português, Olegário Benquerença, assinalou o inevitável penálti. E todo o peso do mundo caiu de imediato sobre os ombros do ganês Asamoah Gyan, encarregado de o marcar. O destino decide-se numa fracção de segundos, em poucos centímetros de terreno. Como às vezes numa guerra mundial. Como às vezes no mais banal acto do nosso quotidiano. Se marcasse, Gyan veria o seu nome inscrito para sempre na galeria dos heróis; se falhasse, tornar-se-ia símbolo de fracasso a perdurar por gerações. Que o diga o guarda-redes Moacir Barbosa Nascimento, o guarda-redes que deixou entrar o fatal golo uruguaio na final do Maracanã, em 1950, ditando o traumático adeus do Brasil ao título na sua própria casa.

 

Gyan tomou balanço, partiu para a bola - e rematou à barra.

Nada mais havia a fazer.

Seguiu-se a roleta das grandes penalidades que sempre ocorre quando o desafio termina empatado, como este terminou (1-1). Mas era óbvia a vantagem do Uruguai: o falhanço anterior arrasara psicologicamente os jogadores do Gana, enquanto os sul-americanos se sentiam ungidos pela graça de Deus.

Levaram a melhor, claro.

No futebol, a fraude pode compensar: ganhou quem merecia perder. Mas o estranho sortilégio deste jogo passa também por isto.

O rosto de Gyan, devassado pelos grandes planos televisivos, era uma máscara de dor: uma etapa crucial da vida dele fechou-se para sempre quando aquela bola bateu na barra. Naquele momento, não havia ser humano tão fotografado no planeta. Naquele momento, não havia ser humano tão solitário no mundo.

 

Texto publicado faz hoje dois anos aqui, durante o Mundial na África do Sul

Politicamente incorrecto*

Hoje em dia as idas aos estádios são politicamente correctas. Independentemente de algumas turbas de adeptos que, às vezes, não se controlam e dão mau nome ao desporto e a equipa que apoiam, o facto é que o futebol tornou-se, na verdadeira acepção da palavra, um desporto de massas e, mais importante que isso, de famílias.

Actualmente, é comum verem-se famílias inteiras, com filhos pequenos e mulheres,  na festa do futebol. Mas nem sempre foi assim. Nas minhas memórias de infância retenho que o deporto-rei e as idas ao estádio eram uma coisa de gajo onde, tipo clube do Bolinha, “menina não entra”. Nessa altura, ninguém se preocupava com a ASAE e fazia parte da tradição ir às roulotes para comer uma sandes de coirato ou de presunto e beber umas minis antes do jogo.

Comecei a ir ao estádio, ao velhinho Alvalade, muito cedo e sempre em família. Na altura, ainda não tinha, obviamente, idade para beber álcool e comer a sandes da roulote, mas fui acompanhando essa tradição até à altura, em que, por volta dos meus 16 anos, entrei na idade adulta. Confesso que a primeira vez foi horroroso. A cerveja soube-me mal e o coirato era duro, duro... Mas, como fazia parte  da tradição, lá aguentei estoicamente.

No estádio, ainda não havia os “stewards” e a segurança era feita por agentes da autoridade tipicamente anos 70/80: barriga proeminente, bigode farto, homens que gostavam de ir ao estádio pelas comezainas e pela bola. O povo era sereno, já dizia um político da época, e ir ao futebol era um programa de homens, para homens. Por isso, era normal entrarem garrafas de 1920 (lê-se mil nove e vinte pf...), aguardente Barrocão e, nos mais sofisticados, whisky martelado made in Odivelas.

Tínhamos sempre uma sorte bestial (ironia, claro) e apanhávamos estas personagens que, entre o final da primeira parte e o início da segunda já insultavam estoicamente a mãe do árbitro, gritavam Sporting com uma voz muito arrastada e ficavam cheio de calores, mesmo que estivéssemos em pleno Janeiro. Foi no Estádio que aprendi as minhas primeiras asneiras e onde perguntei ao meu pai o que queria mesmo dizer a palavra começada por “p”...

Um dia, um destes grupos que bebia mil nove e vinte pela tampa da garrafa, que era passada de mão em mão, virou-se para trás e ofereceu-nos um trago. Entre as desculpas das crianças e o não bebo álcool, o meu pai lá se safou ao suplício desta partilha pouco higiénica.

No resto, os jogos passavam-se dentro da normalidade possível. Havia uns que ganhávamos, outros que não. Mas todas estas experiências, boas ou nem tão boas quanto isso, serviram para que, cada vez que ia ao Estádio, me sentisse em família. Mesmo quando tínhamos à nossa frente aqueles “familiares” de que temos vergonha. No final do jogo, vencedores ou derrotados, sóbrios ou ébrios, éramos todos Sporting.

 

*Artigo publicado hoje no jornal do Sporting

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