Completa-se hoje um ano desde as últimas eleições no Sporting Clube de Portugal, eleições essas que consagraram Frederico Varandas como Presidente do Clube.
Um ano cheio de altos e baixos. Conquistaram-se importantes títulos mas também se falharam outros. Entre as grandes conquistas estão a Liga dos Campeões de Futsal, a Taça dos Clubes Campeões Europeus de Hóquei Patins e, claro, as Taças da Liga e de Portugal em Futebol. No lado dos títulos perdidos, os que mais me custaram foram o título nacional Futsal e a SuperTaça em futebol, onde caímos com estrondo.
As modalidades tiveram um ano agridoce. Conquistaram-se muitos títulos mas falharam os respetivos campeonatos nacionais. O orçamento para este ano foi batizado por alguns como "o do desinvestimento" mas parece-me mais que se procura contratar qualidade de forma a fazer mais com menos. Thierry Anti como treinador do Andebol é um bom exemplo disso. E a época começou da melhor maneira. O Futsal esmagou o Benfica na SuperTaça com uns expressivos 6-2 e o Andebol começou a época com uma vitória na Luz por 28-30.
No futebol, pegou na equipa de futebol liderada, até então, por um Sousa Cintra que prometeu um prémio monetário (superior ao da Taça da Liga) caso a equipa estivesse em primeiro à quarta jornada (!). Ter José Peseiro no banco não deixava ninguém descansado e trocou-se por um relativamente desconhecido Marcel Keizer. A aposta não correu como se esperava a 100% mas ainda foram conquistados dois títulos.
A política desportiva para a equipa de futebol também mudou drasticamente. Os jogadores com os salários mais elevados foram "dispensados". Entre vendas e cedências, acabou por se perder algum talento mas também nos vimos livres de muito "entulho". As contratações de jogadores, com a exceção de Borja, passou a ser de jovens com potencial para brilhar mas sem ainda serem certezas absolutas. É o caso de Rosier, Doumbia, Plata, Camacho, etc.
No último dia de mercado, esta política sofreu um pequeno revés com a chegada de três emprestados (Jesé, Fernando e Bolasie) e com a troca de Marcel Keizer por Leonel Pontes. Há uma nuvem de dúvidas sobre o impacto que terá na equipa mas, como tudo no futebol, será dissipada quando a bola começar a entrar na baliza. Leonel Pontes tem que ter a paciência dos adeptos para mostrar aquilo que sabe fazer.
Por falar em bola na baliza. Acho que não vale a pena teorizar muito sobre o que une o Clube. O que une o Clube são e serão sempre os títulos. Os Sportinguistas têm um conjunto de características que os ajudam a rever-se no Clube mas, neste momento, há muita dispersão. Neste último ano tornou-se óbvio que existem vários tipos de adeptos. Existem os que ainda vivem no luto da anterior direção e que se comportam como uma espécie de FARC, sempre prontos a metralhar quem não gostam (mesmo com mentiras). Existem os que estão sempre prestes a salvar o Clube do que quer que seja pois são eles os detentores do mágico elixir que tudo cura. E existem os adeptos normais que entendem que estamos perante uma presidência normal, com altos e baixos e que será avaliada normalmente nas próximas AGs e Eleições. Até lá, que a bola bata sempre na parte de dentro da rede e consigamos o maior número de títulos possível.
A Academia está a ser melhorada a olhos vistos e o projeto de formação ganhou novos contornos. A formação não pode ser vista como a salvação do Sporting, tem que ser vista como uma fonte de recursos onde o Clube se reforça mas nunca a única. Ainda assim é importante ter qualidade em quantidade e comprometidos com o Clube. É claro que quando se fala na formação vêm mil piadas sobre colchões mas não posso fazer nada para mudar a opinião de quem se comporta como um chimpanzé a atirar fezes a quem passa no zoo.
A nível de comunicação, parece que abandonámos de vez o belicismo e começámos à procura de outra linha. Acho que estamos piores nas redes sociais mas melhores na maneira como lidamos com os players da comunicação social. Há uma linha ténue que separa as notícias da propaganda mas é sempre (SEMPRE!) melhor ter pessoas a nosso favor do que contra.
Já a oposição nunca desapareceu. Os eternos "esqueletos" Ricciardi e Dias Ferreira têm sido o rosto mais visível de uma certa oposição. Os tais que acham ter o tal elixir. Também se joga uma campanha suja nas redes sociais onde se tenta ofender o mais possível. Campanha essa levada a cabo por muitos daqueles que criticavam, e bem!, as campanhas sujas contra o anterior Presidente. A democracia não pode ser só boa quando ganha quem nós queremos. É saudável haver oposição mas que seja feita às claras e com medidas para ajudar o Clube em vez de uma política de terra queimada.
No fundo, apesar de tudo, foi um ano normal na vida do Sporting. Conquistaram-se títulos, perderam-se outros. Bem sei que alguém dirá "temos a responsabilidade de ganhar tudo" e é verdade. Mas não se conseguiu. O que se conseguiu foi trabalhar para que a cada ano se tenham mais condições para que "se ganhe tudo".
Palmarés 2018/19
Futsal Masculino - Liga dos Campeões, Supertaça, Taça de Portugal
Futsal (sub20) - Campeonato Nacional
Hóquei em Patins - Liga Europeia
Andebol (juniores) - Campeonato Nacional
Voleibol (feminino) - 1º Lugar (II divisão)
Atletismo (masculino) - Campeonato Nacional de Estrada, Campeonato Nacional de Corta-Mato
Atletismo (feminino) - Campeonato Nacional de Estrada, Taça dos Clubes Campeões Europeus de Corta-Mato, Campeonato Nacional de Corta-Mato, Campeonato Nacional de Pista Coberta, Taça dos Clubes Campeões de Pista Coberta, Campeonato Nacional ao Ar Livre
Judo (masculino) - Liga dos Campeões, Campeonato Nacional
Ténis de Mesa - Tetra Campeões, Taça de Portugal, Supertaça
Râguebi - Taça Ibérica
Râguebi (feminino) - Campeonato Nacional, Taça Ibérica, Taça de Portugal, Supertaça
Natação - Octacampeões Nacionais
Ginástica (trampolins masculinos) - Campeões nacionais por equipas
Goalball - Campeões europeus (masculino e feminino), Campeonato Nacional, Taça de Portugal, Supertaça
Futebol - Taça de Portugal, Taça da Liga
Futebol (sub15) - Campeonato Nacional
Futebol (sub14) - 1º lugar na Divisão de Honra AF Lisboa
Futebol (sub14 B) - 1º lugar na Divisão de Honra AF Lisboa
Palmarés 2019/2020 (até ao momento)
Futsal - Supertaça
Judo - Jorge Fonseca campeão do Mundo (< 100kg), Daria Bilodid campeã do mundo (< 48kg)
Como não me canso de repetir, por muito importante que seja o ecletismo no Sporting, o futebol é a mola real do clube e nenhum presidente sobrevive a uma época catastrófica na modalidade. E como o Sporting começou muito mal a temporada, veio agora o seu presidente prestar contas na forma de entrevista sobre o desempenho da sua administração e opções tomadas neste seu primeiro ano de presidência.
De tudo o que disse, se calhar o mais importante foi reconhecer que existe um fosso relativamente aos dois rivais. Parece realmente que o Sporting está condenado ao fosso, temos o fosso do estádio, temos o fosso com os rivais, e não se ouviram fórmulas ou soluções para ultrapassar rapidamente qualquer deles. O que ouvimos é que existe uma estratégia e um esforço no sentido de o reduzir, apostando em competências e valores, no relançamento da formação e no posicionamento no mercado para alcançar mais valias significativas. E que não está a ser fácil reduzir esse fosso, antes ocorre um trabalho de sapa com progressões e recuos, e muitos inimigos interessados em o dificultar.
O apertar do cinto ocorrido neste mercado (com 30 jogadores cortados da folha de salários) é essencial para encontrar uma base sustentável, mas não permite competir com os rivais para os lugares da Champions e pode até colocar dificuldades no confronto com Braga e Guimarães para o acesso directo à Liga Europa.
Concordo com Varandas que (ao contrário do que aconteceu com Peseiro) Keizer terminou no momento certo, depois duma derrota em casa que tornou evidentes as fragilidades da equipa e depois do fecho do mercado que lhe roubou dois titulares dessa mesma equipa. Não tinha condições para continuar. Mas não concordo mesmo nada com ele quando diz que "Este grupo é mais competitivo, tem mais soluções e tem mais qualidade do que o plantel do ano passado.".
O que me parece é que Leonel Pontes vai herdar um grupo desorientado e desequilibrado, já bem diferente do ainda há pouco apresentado aos sócios, com jogadores estrangeiros para integrar em plena época, com vários jogadores com antecedentes clínicos que podem dar problemas em qualquer momento, sem o goleador das últimas épocas e que agora poderia voltar a ser o abono de família, com equívocos tácticos de Keizer para reverter, e em que o espírito forte que demonstrou no Jamor se perdeu algures na pré-época como confessou o seu capitão. Um grupo com seis extremos e sem um trinco, um grupo com um único ponta de lança mas com avançados que poucos golos marcam. Só se as soluções forem do tipo jogar com um guarda-redes, quatro defesas e seis extremos. Parece-me é que estamos cada vez mais no modelo de solução única, a solução Bruno Fernandes.
Importa portanto ultrapassar bem depressa esta fase de emagrecimento e encontrar fórmulas para estreitar significativamente o tal fosso, voltar a investir mas com critério, contratar novos Bas Dosts, Bruno Fernandes, Acuñas, Mathieus ou Coates para juntar aos existentes e misturar com os melhores jovens que temos no plantel e nos sub-23, e voltar a dispor dum treinador competente, carismático e ganhador, à imagem dos grandes Malcolm Allison, Bobby Robson ou Laszlo Boloni.
Preferia que Leonel Pontes ficasse onde está, a fazer um óptimo trabalho nos sub-23, e viesse um treinador português experiente, de transição, tipo Jesualdo Ferreira. Mas se o treinador é Leonel Pontes, o importante é mesmo confiar nele e em Bruno Fernandes para aguentarem o barco no futuro próximo.
Mesmo acreditando que nós sportinguistas temos bastante de Gauleses, de em muita coisa sermos uma aldeia que resiste às muitas e variadas ameaças que atentam contra a nossa existência de grande clube; o título deste postal nada tem a ver com boleia que apanho da mensagem deixada nas redes sociais por Eduarda Proença de Carvalho. Não me interessa falar de poções mágicas, mas de outras ficções, sim, porque muito mais reais que o líquido de Asterix e companhia.
Posto isto, a baixo explico o flix que acrescento ao Sporting.
A par da Formação, Sportingflix afigura-se-me como emergente negócio do Clube. Pena que não dê retorno financeiro para os cofres de Alvalade, e só entretenimento para os nossos rivais e drama de baba e ranho para nós. Mas se os produtos saídos do Sportingflix dessem dinheiro, se fossem transacionáveis como o passe de um dos craques de Alcochete tenho a certeza que a Netflix já teria ligado ao Jorge Mendes para cá vir recrutar novos argumentistas.
A coisa é mesmo um maná. Produzido sem esforço, no sentido em que o produto surge com a naturalidade do talento, a inspiração para a feitura de histórias suculentas parece inesgotável. Um alucinante ritmo de criação de tramas e dramas que nem por isso deixa de ser acompanhado, ou não fosse sempre voluntariosa e abnegada a entrega de muitos na estrutura directiva, de uma imediata propensão para a realização das “cóboiadas”, dos filmes de terror, das comédias. Um apelativo cartaz que, damos por nós, e num repente está em exibição em todas as salas do país para consumo do grande público. E os sportinguistas estarrecidos, chegado o momento dos créditos, lá vemos o nome do nosso clube a surgir como detentor do argumento, da interpretação, da realização e produção de novo e péssimo filme.
Nos últimos meses, incluindo a pré-temporada, claro, ou não tivesse sido esta uma espécie de curta, o anúncio claro do que se poderia esperar da longa metragem; nestes últimos meses a Direcção do Sporting destruiu toda a margem de manobra que tinha, a esperança que se lhe tinha depositado. Fez asneiras atrás de asneiras, da preparação da época, às saídas e entradas de jogadores, à ausência de explicações, à forma como desconsiderou Bas Dost, destratando-o, mesmo, e, além disso, como não colmatou a saída do nosso melhor ponta-de-lança dos últimos e largos anos.
Disse a dado momento o presidente que não deveríamos estar preocupados, que ele não o estava. Soberba! Desrespeito. Má liderança, é o que lhe digo.
Passado este tempo, desde que a soberba foi daquela forma verbalizada, só com o intuito de arvorar o chefe à altura de quem vê mais longe que os debaixo, passado este tempo, repito, percebemos que tínhamos e temos razões para estarmos preocupados.
O clube estará pela hora da morte financeiramente. Tudo é incomportável. É preciso vender. Vender. Vender. Se não estivéssemos preocupados seríamos inconscientes.
Espero, desejo mesmo que se realize o sucesso de Leonel Pontes no comando da nossa equipa, isso é o que mais quero que aconteça. A vida tantas vezes se nos impõe e esta entrada estava fora do guião previamente escrito. Poderá, reforço, ser a nossa sorte. Pontes é conhecedor do Sporting, da formação de Alcochete, é praticante de futebol de ataque e com recurso de jovens talentos, tudo isto somado bem pode ser a realidade a impor-se à soberba de quem chamou para si o futebol, que se apresentou aos sócios como o candidato presidente/treinador, lembram-se?
A Frederico Varandas e restante Conselho Directivo peço-lhes que se deixem de filmes de má qualidade e de exibi-los nas salas de todo o país. Essas fitas que só vendem pipocas nos outros estádios que não no nosso.
Talvez assim, porque ainda é tempo, no final da época, em vez de um filme de autor incompreensível e hermético, tenhamos um Happy End.
Seguramente descontente com os "reforços" entretanto desembarcados em Alvalade, Marcel Keizer - o primeiro treinador da era Varandas - sai pelo seu pé. Revelando alguma dignidade e um módico de lucidez: não esperou pelos lenços brancos.
Conta-quilómetros novamente a zero no Sporting, que persiste em ser notícia por maus motivos. Começa a ser lema e sina.
Venha o próximo. Os motores ainda estão a aquecer e a viagem promete ser longa.
P. S. - Leonel Pontes deve ser o quarto treinador da era Varandas, iniciada há menos de um ano. Após Peseiro, Fernandes e Keizer.
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