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És a nossa Fé!

Minimal

Claro que tendemos a evocar a classe do artístico quando no futebol a destreza se compara à de um bailarino ou de um funâmbulo, quando a habilidade é complexa e tremendista. Mas num Mundial que nos tem oferecido uma compilação das melhores defesas ao alcance da elasticidade e dos reflexos humanos, graças ao supino e inspirado lote de guarda-redes que o acaso das gerações juntou, talvez o suprassumo, o verdadeiramente difícil, seja – tal como nas artes – o contrário do virtuosismo.

Um braço como uma viga, apenas um braço, erguido no instante preciso, medido ao centésimo de segundo, um braço a prolongar um corpo que toda uma vida ensinou a posicionar no ângulo certo, foi o suficiente para Manuel Neuer deflectir um torpedo de Benzema. Se fosse pintura seria um desenho de Agnes Martin, se fosse música seria uma peça de Philip Glass, mas foi apenas a melhor defesa deste Mundial – e não faltaria por onde escolher.

A ver o Mundial (21)

Este está a ser o campeonato do mundo dos guarda-redes. Ochoa, do México. Bravo, do Chile. Navas, da Costa Rica (virá mesmo para o Porto?). Buffon, de Itália. M'Bolhi, da Argélia. Neuer, da Alemanha. Até Júlio César, do Brasil (quando um guarda-redes brasileiro é considerado o melhor do jogo numa fase final de um Campeonato do Mundo isso não é nada lisonjeiro para o escrete canarinho).

Mas nenhum tão bom como Tim Howard, um herói de carne e osso no desafio que esta noite opôs a Bélgica aos Estados Unidos. Uma exibição histórica em que foi batido o recorde de defesas por parte de um guarda-redes em meio século de mundiais: aos 90 minutos regulamentares já tinham sido doze. Com as redes norte-americanas mantidas intactas.

No final, foram registadas dezasseis.

 

A Bélgica pressionou muito - no primeiro tempo sobretudo pelos pés da sua estrela, o extremo-esquerdo Hazard - mas esbarrou por sistema na barreira defensiva dos EUA, de que o guardião titular do Everton foi expoente máximo. Como se os 35 anos não pesassem já nas pernas de Howard. E pelos vistos não pesam mesmo.

Um exemplo de tenacidade e resistência que deve ser mencionado a todos quantos se apressaram a ridicularizar o empate conseguido pela selecção portuguesa perante esta equipa adversária, como se fosse o obstáculo mais fácil de superar. Não era, como bem confirmámos hoje frente à Bélgica, tantas vezes apontada como uma das favoritas à conquista do Campeonato do Mundo. Foram precisos noventa e tantos minutos para os belgas marcarem o primeiro golo, graças ao inegável cansaço físico dos norte-americanos.

Ao golo seguiu-se logo outro, mas os EUA ainda reduziram - tudo no prolongamento, um dos mais emocionantes de que há memória em torneios deste género, confirmando a excelência deste Mundial do Brasil.

 

Os belgas suaram imenso para levar os americanos de vencida. Foi justa, a recompensa da selecção mais jovem do Campeonato do Mundo que agora terá de bater-se nos quartos-de-final com a Argentina, também hoje com motivos para sorrir após uma vitória arrancada a ferros à Suíça, perto do fim do jogo, graças a um golo marcado por Di María. Messi desta vez ficou em branco. Com Cristiano Ronaldo já ausente, talvez tenha perdido alguma motivação para jogar.

 

Bélgica, 2 - EUA, 1

Argentina, 1 - Suíça, 0

 

Tim Howard, uma exibição para a história deste Mundial

Damas

Na Bola diz que faz hoje dez anos, noutros sítios que foi dia 10. Francamente não sei a data certa, lembro-me do minuto de silêncio em homenagem a Damas. Dos mais comoventes que vi em Alvalade. Dobramos aqui o cantinho a assinalar os dez anos e fica assim. 

Já muito se tem dito sobre ele e eu, que era criança quando jogou no Sporting, não poderia dizer melhor que quem, adulto, o viu no auge. Mas hoje lembrei-me de uma das memórias do tempo em que vi Damas (não) jogar. E percebe-se já o não. 

Cresci, claro, a saber que aquele era o guarda-redes do Sporting, vi-o várias vezes jogar, mas nessa altura, ou nesse jogo, não era Damas o titular. Rodolfo Rodriguez (por isso eu teria 12, 11 anos) devia estar a fazer uma exibição tão boa ou tão má, que me lembro da bancada central chamar naquele tom baixinho mas assertivo: "Da-mas Da-mas". Na altura aquilo pareceu-me um bocadinho malcriado, mas a verdade é que não me lembro de ver uma bancada pedir para entrar um guarda-redes. 

 

Patrício, Marcelo e os guarda-redes em geral

Patrício cometeu uma falta infantil, facto. Estava suspenso por um jogo e agora já está cumprido e aparentemente pode jogar. Já tem sido comentado, e eu concordo plenamente que deveria jogar na mesma Marcelo, à cautela. Concordo mais ainda que moralmente (ou desportivamente, vá) é no mínimo desconfortável a equipa B servir para limpar estes cartões. Mas há mais que me preocupa, e é sobretudo o alívio geral que vejo por se saber que afinal Patrício poderá jogar amanhã. Assusta-me um pouco que se sustenha a respiração ao saber que Rui Patrício pode não jogar. Dir-me-ão que Marcelo não está em forma, e eu concordarei. Mas não está porque não joga, e este é o ciclo vicioso em que vivem os guarda-redes - não joga, não tem ritmo, não tem ritmo porque não joga. Lembro-me de gostar de Marcelo no Marítimo, no Sporting jogou poucas vezes, sofreu alguns golos, e está parado há mais de um ano. É costume jogar na taça ou equivalente, e Marcelo teve o azar de estar na época em que em Setembro já estava tudo perdido. Foi comprado, assinou por 5 anos e está parado. Eu sei, eu sei que é assim mesmo, mas sempre discordei desta titularidade incondicional dos guarda-redes, um dia é preciso entrar outro e fica tudo ó tio, ó tio que tem de jogar o suplente - que deveria ser sempre tão bom e ter tanta prática quanto possível como o primeiro. Ou seja, não me faz sentido que por mérito se vá buscar um jogador e ele fique no banco uma época inteira, no lugar de guarda-redes isso é ainda mais critico em relação ao ritmo. Já está, será sempre assim, eu sei. Foi assim com Tiago nos últimos anos, era assim com Sérgio Louro já. Mas não concordo com isso, e devia haver maior rotatividade. Fala-se em saída de Rui Patrício e parece que o mundo vai ruir. Tenho pena, claro, terei sempre, mas prefiro pensar que o lugar fica assegurado com uma compra que se fez precisamente para essa eventualidade. Amanhã, jogue quem jogar faça o seu melhor e tenha uma boa defesa à frente, que também faz falta (mantenho que essa quase ausência nas últimas épocas foi um bom treino para Patrício).

Uns têm, outros nem por isso

 

O guarda-redes tem uma missão particularmente inconciliável no futebol. Um momento é herói, passados meros segundos é vilão. A exigência física e psicológica que enquadra a sua actividade é incomparável à de qualquer outro jogador. Sob constante pressão, todos os seus movimentos são examinados minuciosamente e um qualquer desacerto pode ser fatal, tanto para si como para a sua equipa.

Comecei a minha modesta carreira futebolística precisamente como guarda-redes. Com um 1,88 m de altura, ágil e bom atleta, tudo indicava que possuia os indispensáveis dotes para esse fim. Só anos mais tarde, já como dirigente, é que me foi possível identificar a falibilidade que sempre me iludiu enquanto jovem. Tive ocasião de trabalhar com um sábio treinador que me elucidou: «um guarda-redes que não tenha «pancada» - o seu termo para uma personalidade excêntrica e temerária - nunca dará um bom guarda-redes». Deduzi eu, então, que quanto maior a «pancada», melhor o guarda-redes, mas, aparentemente, até nisso há limites.

Uma retrospectiva do futebol nacional rapidamente confirma a exactidão deste discernimento; só no Sporting tivemos diversos casos exemplares que me vêm prontamente à ideia: o histórico Carlos Gomes e o saudoso Vítor Damas, ambos com vincada excentricidade, Ricardo - quem mais se ofereceria para marcar aquele célebre penálti no Euro 2004 ? - e aquele que mais me marcou pela sua espectacular extroversão, já para não mencionar o seu enorme talento, o lendário Peter Schmeichel. Sempre que o seu nome vem à conversa, a primeira imagem que me surge é a de Rui Jorge, entre outros, a escudar-se da sua fúria, por qualquer erro cometido ou golo sofrido. Não há muito tempo tive ocasião de trocar impressões com o actual seleccionador nacional do sub-21, sobre o gigante nórdico. Com um grande sorriso, disse-me ele: «grande profissional, excelente colega no balneário, humilde e brincalhão, mas quando entrava em campo transformava-se, era um intenso competidor que não admitia falhanços».

O nosso Rui Patrício também chama a si uma boa dose de «pancada» que ainda não terá atingido total maturidade. O seu semblante nos momentos cruciais, a sua ainda por aperfeiçoar arte de repreender os colegas, a sua temeridade e, sobretudo, o seu «sacríficio» em passar a bola à mão, quando o seu primeiro instinto, hoje e sempre, é de a pontapear para os céus ou, em última instância, para a bancada central.

O guarda-redes de futebol é uma espécie de jóia na coroa real, alvo da cobiça de todos os inimigos e defendida até à morte pela guarda da corte. Para quem desejar passar pela experiência, é aconselhável determinar primeiro o respectivo grau de «pancada»; uns têm, outros nem por isso.

{ Blog fundado em 2012. }

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