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És a nossa Fé!

O mesmo peso

Vejo hoje na edição de record que a federação assume os custos da lesão de Nelson Semedo, o jovem defesa direito do Benfica, que se lesionou ao serviço da selecção nacional, no último jogo.

 

Vamos lá a ver se o(a) volume(medida) é igual.

 

Sim, falo de William Carvalho e de Rui Patrício, este lesionado no mesmo jogo que o benfiquista e o primeiro durante o europeu de sub-21, condicionando o início de época do Sporting, com implicação até no acesso falhado à fase de grupos da LC.

 

Será que também desta vez a coisa é entregue ao ministério público?

Mas alguém duvidava que assim fosse?

"O plenário do Conselho de Arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol está contra o sorteio dos árbitros e a favor da nomeação directa."

 

Aqui pra nós, que ninguém nos ouve, não seria muito mais inteligente estar de acordo?

Afinal, ao tomar uma posição destas, os senhores do apito estão a admitir sem sombra de dúvida, que apenas um pequeno número deles está em condições de "meter o apito na boca".

 

Vamos ver no que isto dá.

Dois pesos, duas medidas

Reparem neste calendário da única competição da temporada oficial que o Sporting tem aspirações imediatas a conquistar. Jogámos já a primeira mão no Funchal (2-2), na ressaca imediata da derrota no Dragão (0-3). Esse jogo frente ao Nacional disputou-se a 5 de Março, escassos quatro dias após o clássico disputado na Invicta.

A outra equipa bem colocada a Liga 2014/15 que ambiciona disputar a Taça de Portugal com o Sporting foi poupada à meia-final neste mês de Março. Em que, por coincidência, defrontou também o Porto - além de jogar hoje contra o Benfica na Luz para o campeonato.

Apetece perguntar por que motivo o Braga só disputará a primeira mão da sua meia-final da Taça, contra o Rio Ave, em 7 de Abril quando já tiver um calendário menos apertado na Liga.

Apetece perguntar também por que motivo o Sporting joga a segunda mão a 8 de Abril enquanto os bracarenses esperarão tranquilamente até 29 de Abril para disputarem a sua.

MIstérios que certamente a Federação Portuguesa de Futebol, entidade organizadora da prova, não deixará de esclarecer. 

A podridão

Bem haja Manuel Cajuda, por não ter papas na língua e explicar como se manobram os bastidores na FPF .

Um vice-presidente perguntou-me se eu conhecia alguém importante no Espírito Santo, depois perguntou-me se eu era amigo de um determinado empresário e se tinha alguma coisa com uma marca de equipamentos. Disseram-me que em princípio não seria o seleccionador nacional"

 

O medíocre dirigismo nacional

Fernando Gomes assume "preocupação em relação aos nossos clubes, que dependem dos fundos de investimento para manterem a sua capacidade competitiva".

Num momento em que a selecção nacional vive um dos piores momentos dos últimos 20 anos em termos de qualidade de jogadores, o dirigente máximo do futebol português faz uma declaração destas, não percebendo que esta decisão é a maior janela de oportunidade para o relançamento do jogador nacional e a porta para concretizar algumas das medidas estruturais necessárias e sobre as quais ele próprio tentou dissertar na altura do falhanço do mundial 2014.

Enquanto a mediocridade, e neste caso também a clubite, dirigirem o futebol nacional, dificilmente voltaremos a patamares de competição elevados.

O novo seleccionador nacional

Nada me move contra o Engenheiro Fernando Santos. E gostei do tempo que ele passou no Sporting. Só que não me parece ser a pessoa certa para aquele lugar.

 

Com a entrada do ex-seleccionador da Grécia vai ser mais do mesmo, isto é, não vamos observar enormes modificações no que respeita a jogadores selecionáveis. Torna-se deveras difícil a alguém alterar o actual “status quo” da FPF.

 

Como já referi em anteriores textos, este organismo vive demasiado refém de gente a quem não interessa o futebol como desporto apenas como (bom) negócio.

 

Depois… depois há os clubes, as competições, os dirigentes, que podem não só limitar fisicamente os jogadores mas inibi-los psicologicamente de fazerem as exibições de que são capazes.

 

Será com tudo isto que Fernando Santos terá de lidar. E das duas uma: ou impõe a sua vontade criando por isso enormes inimizades, com consequências ainda imprevisíveis ou acata o que lhe forem propondo, originando que Portugal comece já a pensar na fase de apuramento para o próximo Mundial.

 

Prefiro estar muito enganado. E se assim for regressarei aqui para assumir o meu erro! Até lá deixem-me ser céptico, descrente e desconfiado... pelo menos até ao próximo jogo da selecção!

 

 

Também aqui

Apostar nos jovens é missão dos clubes

Selecção portuguesa de sub-17 festejando o título de campeã da Europa (2003)

 

Instalou-se a ideia - errada - de que não existem jovens valores no futebol português. Há até um segmento da opinião desportiva, que tem por expoente máximo uma figura com presença perpétua nos ecrãs de televisão, a repetir vezes sem conta este estribilho. A mesma figura, com ecos imediatos nos fóruns de opinião, sublinha até à náusea que os segmentos jovens têm vindo a ser descurados ao nível das selecções. Para dar a entender que "antigamente é que era bom".

São ideias que colam com facilidade às teses dominante nas conversas de barbeiro e de café. O problema é que não colam com a realidade. Um país que descura a formação e os valores jovens no seu futebol não consegue - como Portugal conseguiu em 2011 - ser vice-campeão mundial de sub-20 (com derrota na final, 2-3, frente ao poderoso Brasil). Nem consegue - como Portugal conseguiu este ano - ser vice-campeão europeu de sub-19 (com derrota na final, 0-1, frente à poderosa Alemanha). Como já tinha sido campeão europeu de sub-17 em 2003 (com vitória na final, 2-1, frente à poderosa Espanha). Numa selecção onde jogavam Miguel Veloso, Paulo Machado e João Moutinho.

Fique portanto bem claro: a renovação de valores tem vindo a processar-se com regularidade no futebol português, incluindo nos segmentos mais jovens. Os clubes - pequenos, médios e grandes - vão cumprindo a sua missão fundamental no capítulo da formação. Falta apenas - e este é um papel insubstituível também dos clubes, não dos responsáveis federativos - potenciar os jovens valores nas equipas. Como aconteceu com o Sporting em relação a Cédric, titular da selecção que se sagrou vice-campeã mundial na Colômbia, há três anos, e titular desde o ano passado no principal onze leonino.

Se houver uma política deliberada de aproveitamento de jovens talentos nos principais clubes portugueses, à semelhança do que o Sporting já faz, isso terá reflexos a curto prazo na nossa selecção A. Como aconteceu nas décadas de 80 e 90 com Fernando Chalana, Paulo Futre, Vítor Baía, João Vieira Pinto, Luís Figo, Rui Costa, Fernando Couto, Paulo Sousa e tantos outros que viriam a brilhar em relvados internacionais: todos jogaram nos escalões principais das equipas que os formaram.

É nesta direcção que o dedo deve ser apontado. E não dizer ou escrever vacuidades do género: "A Federação Portuguesa de Futebol deve substituir-se aos clubes no acompanhamento dos jovens talentos desde as camadas juvenis até aos 24 anos." A menos que se fale apenas para não ficar calado.

A puta da gramática

 

O presidente da Federação Portuguesa de Futebol quis resolver o fracasso do Mundial despedindo o médico (por sorte, o mordomo não estava em casa nesse dia: toda a gente sabe que a culpa é sempre do mordomo) e assumindo uma espécie de culpa filosófica colectiva falando em não fomos competentes. Importa-se de repetir? Não foram competentes ou foram incompetentes? Assim de repente, fiquei confuso. Eu explico a minha baralhação. O comandante do Costa Concórdia não foi competente por ter afundado o navio ou foi simplesmente incompetente por se ter desviado da rota? O maquinista que provocou o descarrilamento do comboio de alta velocidade na Galiza não foi competente por circular em manifesto excesso de velocidade ou foi simplesmente incompetente? Não vale a pena perder muito tempo com estes esquemas gramaticais: foram incompetentes e serão estúpidos se quiserem corrigir um erro com outro erro. Os líderes sabem-no ser quando ganham mas acima de tudo quando perdem. Uma espécie de honra romana. Isso seria pedir muito, eu sei: não peças a um soldado que pense como um general.

Ainda a renovação...de contrato

No dia 9 de Abril escrevi, neste espaço, sobre a renovação de Paulo Bento. Pode ler-se aqui.

 

Em 2012, num outro espaço, já tinha escrito sobre o mesmo. Pode ler-se aqui.

 

Hoje, a minha pergunta é a mesma de 2012. Se Paulo Bento receber uma indemnização por despedimento (não me passa pela cabeça outro cenário que não a sua saída) os dirigentes da FPF serão responsabilizados por mais um erro básico de gestão?

O desrespeito evidente

A minha alusão num outro escrito a «trunfos ao dispor do Benfica no Conselho de Justiça da Federação Portuguesa de Futebol» não foi sem fundamento, considerando a «poeira jurídica» que este órgão proferiu ao dar provimento ao recurso do clube da Luz sobre o regulamento que visava proíbir os empréstimos dentro do mesmo nível de competição e, sobretudo, pelo recém-incrédulo testemunho articulado perante audiência nacional por um dirigente desse clube. O inevitável e irreverente Rui Gomes da Silva, vice-presidente da Benfica SAD e comentador no programa televisivo «Dia Seguinte», demonstrou a total inexistência de pudor e integridade pela sua admissão que enquanto membro do referido Conselho de Justiça - facto que eu desconhecia e que me deixou boquiaberto - não desempenhou o cargo com imparcialidade - usou o termo «independência» - nunca escondeu o seu benfiquismo e que decidia em função disso. Após reflexão, face à blasonadora  espectacularidade da sua declaração, fiquei na dúvida quanto ao pior dos dois males; se as suas acções enquanto advogava num corpo judicial ou o incrível desplante da sua confissão de culpabilidade em deliberadamente trair tudo quanto jurou ser mais sagrado. Paixões clubísticas à parte, perante esta deplorável cena, entre outras notórias ocorrências, gostaria que me fosse explicado como é possível não questionar a veracidade da gestão e supervisão do futebol português. Ver e ouvir para acreditar... 

 

O que nos espera

A gestão dos episódios Luisão e Jorge Jesus, nas instâncias disciplinares da FPF, não augura nada de bom para o nosso clube, esta temporada. O que se passa no futebol português é uma luta feroz entre vermelhos e azuis para dominar os mecanismos de decisão disciplinar e judicial do futebol português, como etapa de domínio cada vez mais acentuado - ao jeito do que aconteceu nos piores momentos do 'sistema' dos anos 80 e 90. A célebre 'franqueza' de LFVieira (de que mais valia ter um director da Liga vermelho do que uma boa equipa) fez o seu caminho, ao longo dos últimos anos. Nada é verdadeiro, no discurso dos homens de Carnide, quando falam de moral e de ética. Nem no dos outros.

 

Daí a guerra total entre FCP e SLB, que já acentuou a situação de inferioridade do FCP nos media, cada vez mais temerosos do clube de Carnide. E daí o recurso sistemático do clube do 'papa' aos comunicados de imprensa, para ultrapassar esse temor de jornais e jornalistas, os quais os utilizam como forma de tocar temas que, num normal clima de ausência de pressão, seriam investigados e tratados jornalisticamente com normalidade. A liberdade de imprensa, nomeadamente da imprensa desportiva, está largamente condicionada. Internamente, pelo poderoso 'lobby' vermelho das redações e dos comentaristas e, externamente, pelas formas de pressão altamente condicionadoras e amedrontadoras de jornais e jornalistas. Junte-se estas duas parcelas, e compreenderemos o que se está a passar e passou nas últimas semanas.

 

No caso do nosso clube, será necessária uma hábil e inteligente ação 'diplomática' para navegar nestas águas agitadas do novo 'sistema' em construção. E será necessária também uma defesa forte dos interesses do nosso clube, por parte de todos os sportinguistas, a todos os níveis e a começar nos foruns de debate televisivo e nas intervenções públicas de cada um. Não nos iludamos, o esforço da propaganda 'inimiga' para nos desacreditar e dividir - nomeadamente previlegiando as notícias de desestabilização e favoráveis ao desânimo - vai aparecer em momentos chave. Olho e pensamento vivos!

O proverbial «um peso e duas medidas» mais o indecoro

No rescaldo da decisão do Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Futebol sobre Jorge Jesus, a indignação faz-se sentir pelo universo futebolístico português, salvo, como era de prever, no foro dos adeptos do clube do outro lado da segunda circular. Preservando a sua notória »isenção» jornalística, o jornal Correio da Manhã seleccionou este comentário como o mais popular: «Temos de louvar o CD pela paciência e trabalho difícil de julgar este caso e a punição de poder aplicá-la sem castigar nenhum jogo, Jorge Jesus e o Benfica. BOM TRABALHO A BEM DO DESPORTO». Dá para imaginar o clube da maior simpatia do autor. Curiosamente, um dos que se sente mais incomodado pela decisão e que votou pela absolvição de Jorge Jesus, é precisamente o ex-juiz conselheiro e actual presidente do Conselho de Disciplina da FPF, Herculano Lima, reconhecido adepto do FC Porto, ex-juiz do processo «Apito Dourado» e ex-presidente do Conselho de Justiça da FPF. Afirmou ele: «Jesus, que era um dos mais ofendidos, passou por artes mágicas a arguido. O acordão é ilegal. O árbitro tinha todas as condições para ver a falta e a obrigação funcional de o fazer. Não fez por motivações que só ele sabe».

Este surpreendente raciocínio, vindo de um juiz, é caso para fazer parar o País e ponderar uma nova República. Desde quando é que acções indevidas por parte dos intervenientes num jogo de futebol são julgadas pela exactidão das decisões da arbitragem? Por essa ordem de ideias, a mesma abordagem é aplicável ao lance, minutos antes do golo que provocou a ira de Jorge Jesus, em que Cardozo comete falta flagrante para grande penalidade quando desvia o esférico, não com uma mas com as duas mãos, e que o árbitro não assinalou. Muito sinceramente, não sei qual é a agenda jurídica do juiz Herculano Lima, mas é mais do que óbvio que, neste caso, existe um qualquer outro menos transparente factor.

Não pretendo defender a decisão em campo neste lance, mas sim o princípio fundamental que governa as acções dos intervenientes no futebol, assim como as das autoridades que supervisam a modalidade. Jorge Jesus declarou, então, que o árbitro-auxiliar «não marcou porque não quis. Ele viu tudo e na consciência dele sabe perfeitamente que estavam fora de jogo». A realidade jurídica, é que as imagens do lance em questão permitem verificar que um erro foi cometido, mas não permitem chegar à conclusão de que o erro foi deliberado.

A decisão do Conselho de Disciplina da FPF assentou-se na premissa de que «as declarações de Jorge Jesus são objectivamente susceptíveis de atingir a honra e a reputação do árbitro assistente e de também por essa via constituirem uma violação de ética desportiva». Como era de prever, o treinador reagiu com a sua usual «humildade», declarando que não concorda com a decisão por ser «injusta». Questionado sobre o curioso timing da sanção, Jorge Jesus respondeu: «Um castigo é um castigo. Apesar de não impedir nenhum jogo, vai afectar os treinos da equipa». E o mundo vai acabar amanhã!!!

 

Alguém deveria chamar a atenção do técnico dos encarnados que Paulo Sérgio, enquanto liderava o Sporting, foi suspenso por dez dias, pela sua expulsão num encontro com o Olhanense por protestar uma decisão do árbitro, e que essa suspensão impediu-o de estar no banco precisamente no embate frente ao Benfica.

A decisão do Conselho de Disciplina então: «Lesão da honra e reputação dos órgãos da estrutura desportiva e dos seus membros». Ainda mais, em 2009, Paulo Bento, treinador do Sporting, foi punido com 20 dias de suspensão e 2750 euros de multa pelas declarações então proferidas contra o árbitro Duarte Gomes no jogo contra o FC Porto. Igualmente multados, com 2250 euros nessa ocasião, foram Dias Ferreira e Rogério Alves, ambos dirigentes do Clube. A premissa jurídica da sanção aplicada a Paulo Bento: «Lesão da honra e reputação dos órgãos da estrutura desportiva e dos seus membros», exactamente a mesma que levou à punição de Jorge Jesus e de Paulo Sérgio. Se isto não consta de «um peso e duas medidas» na muito apregoada, mas não existente, justiça desportiva portuguesa, terão que me explicar a contenda por outras palavras mais ao alcance das minhas faculdades intelectuais.

Ainda uma outra breve observação

No jogo realizado no passado dia 18 de agosto entre o Newcastle e o Tottenham, o treinador dos «magpies» foi expulso por ter empurrado o árbitro-auxiliar. No termo do encontro o técnico reconheceu publicamente o seu erro, pediu desculpa ao elemento da arbitragem e auto-multou-se. Pelo incidente, o órgão disciplinar da Federação Inglesa de Futebol pronunciou-se no dia 3 de Setembro, anunciando a sua decisão de punir Alan Pardew com uma multa de 31,772 euros e dois jogos de suspensão, efectivo imediatamente. O treinador declarou que aceitava a decisão e que não a contestaria.

 

Este caso vem à ideia pelas «semelhanças» ao de Luisão, que ocorreu no jogo do Benfica com o Fortuna Dusseldorf no dia 11 de agosto. Apesar do anunciado pedido para uma resolução «urgente», já passaram cerca de 25 dias e ainda se aguarda o veredicto do Conselho de Disciplina da FPF. Dá para pensar que o órgão federativo optou por deixar passar algum tempo para permitir o «arrefecimento» da contenda na praça pública e que  estará a estudar cuidadosamente  o calendário de jogos do Benfica para então aplicar a expectável sanção à maior conveniência possível. A não ser que vá esperar pelo fim da época, o que já não seria a primeira vez.

 

Adenda: Parece que veio mesmo a propósito. O Conselho de Disciplina da FPF anunciou hoje que Jorge Jesus foi suspenso por 15 dias e multado 1500 euros por «afirmações proferidas» após o final do Benfica 2 FC Porto 3, do dia 2 de Março de 2012. O técnico foi notificado hoje e comecerá amanhã a cumprir o castigo, isto durante o período de paragem do campeonato. Para completar o cenário, sabe-se também que o presidente do órgão federativo, Herculano Lima, votou pela absolvição de Jorge Jesus. Pior do que não existir probidade nem pudor é a despreocupação com que todo o mundo veja que de facto não existem. Por este insólito modo de processamento, é de prever que o hipotético castigo a Luisão só será proferido quando ele puser termo à sua carreira de futebolista.

Luisão, a FPF e a FIFA

Revendo muito do que se passou durante as minhas férias - forçosamente curtas por ter um «amistoso» agendado com um cirurgião na próxima sexta-feira - não resisti à tentação de abordar o já notório caso Luisão. Ao ler as inúmeras manchetes noticiosas, verifiquei prontamente que os suspeitos usuais da comunicação social recorreram à velha e matreira estratégia: «uma mentira contada mil vezes torna-se verdade», na sua transparente intenção de influenciar a opinião pública, e a de outros, focalizando o alegado exagero da reacção do árbitro e minimizando a causa à raiz de tudo, que foi precisamente a acção do jogador. Não pretendo ajuizar a gravidade do incidente nem a eventual culpabilidade, ou inocência, do capitão «encarnado» - deixo essa contenda a quem de direito - todavia, será útil separar os factos da ficção.

É perfeitamente plausível que a discussão fulcral do caso se assente na definição conceitual do termo «agressão», já que a consequência da acção apenas serve para apreciar a gravidade da mesma e não para a anular. Mesmo sem recorrer a «nuances» de Direito, torna-se importante sublinhar que em matéria desta natureza o organismo soberano do futebol fundamenta-se no mais elementar conceito jurídico: «Agressão é um acto através do qual uma pessoa acomete, toca ou empurra outra pessoa, ou por qualquer outro meio exerce força de qualquer tipo sobre outra pessoa, directa ou indirectamente, sem o consentimento da outra pessoa e com o intento de a fisicamente injuriar, indiferente se causa ou não injúria, dor ou dano». Nos instrumentos que ordenam o poder e a competência dos orgãos judiciais da FIFA e até nas próprias «Leis do Jogo», diversos sinónimos do termo são evocados: «confrontação física através de cotovelada, soco, empurrão, pontapé, etc., conduta violenta, injúria física e ameaça à integridade física».

Quanto ao  Código Disciplinar da FIFA, que tanto tem sido propagado, à conveniência, os seguintes artigos são pertinentes ao caso em questão:

1.º O artigo 2 que estipula o escopo de aplicação do instrumento, especifica, entre outras coisas, que o Código é aplicável a qualquer jogo ou competição promovidos pela FIFA e, também, a qualquer situação em que a integridade física de um elemento da arbitragem é posta em causa;

2.º O  artigo 49, ponto 1 a), estipula o mínimo de seis meses de suspensão por agressão a um elemento da arbitragem;

3.º O artigo 70, ponto 1, estipula que jogos e competições não promovidos pela FIFA, são da responsabilidade directa das confederações, federações e outros organismos desportivos que os organizam, no que concerne a aplicação das sanções pelas inerentes transgressões, e que, se for solicitado, essas sanções poderão vir a ter efeito mundial. O ponto 2 estipula que os orgãos judiciais da FIFA reservam o direito de processar transgressões consideradas graves se as autoridades citadas não o fizerem ou se não o fizerem de acordo com os princípios fundamentais de Direito. O ponto 3 estipula que as mesmas autoridades assumem a obrigatoriedade de participar à FIFA qualquer transgressão grave dos seus objectivos estatutórios;

4.º O  artigo 71, ponto 1, estipula que em jogos amistosos entre clubes de diferentes federações, a obrigatoriedade de instaurar um processo disciplinar a um jogador recai sobre a federação à qual o jogador pertence, mas que em qualquer caso, o Conselho Disciplinar da FIFA poderá intervir «ex ofício» (por dever do cargo);

5.º O  artigo 136, ponto 1, estipula que se a transgressão é grave, a exemplo mas não limitado a casos de dopagam. viciação de resultados desportivos e conduta violenta contra elementos da arbitragem, as confederações, federações e outros organismos desportivos assumem a obrigatoriedade de solicitar à FIFA que a sanção seja extensível a efeito mundial. O ponto 4 estipula que se os orgãos judiciais da FIFA vierem a saber que as referidas autoridades não cumpriram com esta obrigatoriedade, estes próprios orgãos assumirão essa decisão.

Resumindo e concluindo, contrário a muito do que foi noticiado, com deliberada e excessiva liberdade de interpretação, o caso de Luisão encontra-se perante o Conselho de Disciplina da FPF simplesmente porque está assim previsto estatutoriamente e a FIFA reserva o direito, à sua discrição, de intervir mediante o seu parecer sobre a gravidade do caso, a decisão do conselho disciplinar federativo e, muito em especial, se entender que o processo não decorreu de acordo com os princípios fundamentais de Direito. Na realidade, raros são os casos que originam em competições não por si promovidas, em que a FIFA assume jurisdição directa logo à partida. O relatório do árbitro foi conduzido para a Federação Alemã que, por sua vez, participou a ocorrência tanto à FIFA como à FPF. Pelas conhecidas circunstâncias, é inimaginável que o juiz não tenha referenciado «agressão» no escrito, indiferente da linguagem de preferência. Conquanto seja plausível que a FIFA tenha enviado qualquer comunicado à FPF, nunca poderia ter avançado a ideia de que é um assunto de alçada interna absoluta, uma vez que o organismo mundial reserva o soberano «ex ofício» direito de intervenção, mesmo posteriormente, face a um qualquer eventual recurso da decisão tomada. Por outras palavras, seja qual for o veredicto  das autoridades desportivas portuguesas, o futuro do jogador estará sempre dependente do preeminente parecer da FIFA. É um caso de acompanhamento muito interessante, não pela expectativa de ver o jogador suspenso, mas pela «urgente» decisão exigida à FPF e, consequentemente, pela reacção da FIFA à mesma. Não acredito que os orgãos portugueses se atrevam a mais um episódio de «atirar poeira jurídica para os olhos», a exemplo do que ocorreu com o regulamento dos empréstimos, pelo olhar atento da autoridade superior. Dito isto, neste nosso mundo, muito do que pode acontecer, acontece mesmo, e, como bem sabemos, a FIFA é ocasionalmente movida por «ventos» imprevisíveis.

 

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