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És a nossa Fé!

Bartali e o Paraíso

 

Inspirado por mais algumas discussões sobre a legitimidade de sepultar no Panteão Nacional este ou aquele cidadão, fui, à semelhança do que tem acontecido com tantos e tantos militantes de tais escolhas, seus opositores ou simplesmente curiosos, consultar a lei que disciplina a matéria. Dispõe o artº 2º da Lei nº28/2000, de 29 de Novembro, que

 

       1 — As honras do Panteão destinam-se a homenagear e a perpetuar a memória dos cidadãos portugueses que se distinguiram por serviços prestados ao País, no exercício de altos cargos públicos, altos serviços militares, na expansão da cultura portuguesa, na criação literária, científica e artística ou na defesa dos valores da civilização, em prol da dignificação da pessoa humana e da causa da liberdade.
          2 — As honras do Panteão podem consistir:
              a) Na deposição no Panteão Nacional dos restos mortais dos cidadãos distinguidos;
              b) Na afixação no Panteão Nacional da lápide alusiva à sua vida e à sua obra.

 

Quem quiser realmente ler o que a lei determina e não se dispuser a ser enganado pela confusão induzida por mais um exemplo de pontuação desleixada, verificará facilmente que os restos mortais de um desportista profissional só poderão ser depostos no Panteão se, não tendo ele exercido altos cargos públicos, não tendo prestado altos serviços militares, não se tendo distinguido na expansão da cultura portuguesa ou na criação literária, científica ou artística, se, não se tendo notabilizado em nenhum destes domínios, tiver marcado a defesa dos valores da civilização, em prol da dignificação da pessoa humana e da causa da liberdade. Como é claro, nada disto tem remotamente que ver com a importância popular de quem lá repousar, com a sua resistência na memória colectiva ou com a projecção de Portugal no mundo. Estes factores assumirão, quando muito, alguma relevância se a personalidade de que falarmos puder ser incluída numa das categorias previstas na lei. 

 

Tal regime fez-me procurar desportistas susceptíveis de preencherem os critérios enunciados e, naturalmente para mim - peço desculpa pela insistência num nome provavelmente desconhecido da maioria dos leitores - o pensamento dirigiu-se, de imediato, para Gino Bartali, não que este grande campeão pudesse figurar no Panteão, já que, entre outros motivos menos óbvios, não era cidadão português, mas porque me veio à memória o que sobre ele, para além do que já sabia e me fora transmitido pelo meu pai, seu grande admirador, li no Malomil, num post a que já me referi em texto anterior

 

Bartali morreu em 2000, com 86 anos. Mas deixava também uma história só muito tarde revelada. Durante a guerra, sem Giro para correr, treinava-se na estrada, passando com facilidade as patrulhas alemãs. Mas o treino era muitas vezes ficção. Fazia parte de uma organização de apoio aos judeus. Transportava, escondidos na bicicleta, documentos para fazer passaportes falsos. Terá contribuído para salvar 800 judeus. Tem um lugar na Álea dos Justos, em Jerusalém.

       Jorge Almeida Fernandes
 
Gino Bartali ganhou por várias vezes o Giro e o Tour, entre muitos outros troféus, e a sua rivalidade com o também extraordinário Fausto Coppi tornou-se lendária. Mas não foram os pedais, foi o modo como, chegada uma hora decisiva, escolheu usá-los, foi o seu contributo para a defesa dos valores da civilização, em prol da dignificação da pessoa humana e da causa da liberdade, que lhe permitiram uma ascensão muito mais gloriosa do que as das duríssimas montanhas da sua velha Itália. 

Subir o Olimpo

 

A história não diz directamente respeito ao Sporting. Mas regista momentos tão grandiosos e comportamentos tão sublimes na história do desporto e dos seus praticantes, no caso de ciclismo, que me parece plenamente adequada a este espaço. Acaba por, de alguma forma, dizer respeito ao Sporting - ao Sporting e a qualquer clube desportivo, grande ou pequeno.

 

Quando penso nas origens infantis e juvenis do meu sportinguismo e do meu gosto por variadíssimas actividades desportivas, lembro-me bem das muitas vezes que o meu pai me animou com as suas opiniões e as suas memórias em redor das corridas de bicicletas, realizadas tanto em Portugal como noutros países. Entre estas últimas, recordo sempre as referências entusiasmadas a Gino Bartali e Fausto Coppi, que, para ele, eram os maiores ciclistas de sempre, e à enorme rivalidade entre os dois que, como se pode ler neste post, acabou por assumir dimensões, de humanidade, valentia e compromisso moral, que os elevaram muito para além do estatuto de meros deuses do desporto.

 

Sobre Agostinho e sobre a importância que, como sportinguista, ele tem para mim já escrevi várias vezes. Aproveito a ligação ao post em causa, publicado num dos melhores blogues portugueses que conheço, para homenagear duas extraordinárias figuras de homens e de atletas, de quem só ouvi falar muito depois dos seus feitos, mas que, com certeza, tiveram, por interposto pai e grande admirador, alguma influência no meu gosto pelo ciclismo, no respeito pelo peso simbólico de Trindade, no afecto por, repito-me, Agostinho, por Marco Chagas e por tantos outros que, tal é a extensão da lista, não posso agora mencionar e na paixão que estes ajudaram a despertar por um Sporting demasiado grande para se confinar a apenas um clube de futebol.

Um calimero chamado "limpinho"

O programa, de que tenho sido um espectador muito irregular, é exibido na SIC Notícias e chama-se O Dia Seguinte. Dizem-me que é o "programa desportivo de maior audiência" na televisão portuguesa. Comecei a vê-lo na segunda à noite, julgando que faria jus ao título pondo em destaque dois jovens campeões portugueses: Rui Costa, recém-sagrado campeão mundial de ciclismo, proeza inédita do desporto nacional, e João Sousa, primeiro tenista luso a vencer um torneio ATP, em Kuala Lumpur.

Pensei que por uma vez a palavra "desporto" deixasse ali de ser um eufemismo como sinónimo exclusivo de futebol.

 

Nada disso: mais do mesmo, apenas mais do mesmo.

O programa - como de costume - foi dominado pelo representante do Benfica, que num tom ainda mais exaltado do que o habitual, se assumiu como o calimero de serviço, queixando-se de que o seu clube anda a ser espoliado pela arbitragem.

Por sinal o mesmo clube que na época passada foi beneficiado pela mais escandalosa arbitragem da temporada, logo rotulada de limpinha por aqueles que agora rasgam as vestes perante supostos erros dos donos do apito.

 

Assisti, quase sempre com o som desligado, a parte do referido programa. Ainda na esperança de que pusessem em foco as proezas de João Sousa e Rui Costa (o ciclista, não o outro). Mas em vão. Nem haveria tempo para o efeito, pois um só lance do Benfica-Belenenses mereceu meia hora de lamúria e gritaria, como ia constatando nas esporádicas ocasiões em que repunha o som.

Quando aquilo ia a meio, desisti de vez. Prometendo a mim próprio que tão cedo não voltam a apanhar-me como espectador. Quando quiser ver o Calimero, prefiro o original. O dos desenhos animados.

A verdade no Ciclismo

Ainda me lembro bem de Joaquim Agostinho. É dele a primeira recordação que tenho do tour de France. Joaquim Agostinho já nos quarenta e a terminar em décimo ou décimo primeiro. Já nessa altura havia doping no ciclismo. O próprio Joaquim Agostinho foi apanhado nas suas malhas. Penso ser dele uma frase, cito de cor, em que afirmava que faziam voltas com três semanas, etapas de mais de duzentos quilómetros, algumas delas com mais de cinco subidas de 1ª categoria e depois queriam que fossem feitas apenas com massa e esparguete. Para mim o ciclismo começou a desmoronar num passado mais recente, com o caso Festina. Richard Virenque, um daqueles trepadores, a chorar numa conferência de imprensa onde caiu por terra toda a tramóia da equipa Festina. Todos dopados. Mais tarde veio o domínio espanhol e com ele a operação Puerto. Neste caso assistimos à protecção por parte dos responsáveis espanhóis dos seus ciclistas acusados de doping. Aí já o ciclismo profissional era sinónimo de falcatrua desportiva. Com mais esta notícia é declarada a morte do ciclismo profissional tal como ele hoje existe. De enaltecer a forma como a agência anti-doping norte-america (USADA) procedeu, levando uma investigação que tinha tudo para fracassar, até ao fim, denunciando a fraude que foram as vitórias de Armstrong. A UCI foi aqui completamente ultrapassada.

A única forma de fazer justiça desportiva no mundo do ciclismo é agarrar nas classificações dos últimos 10/15 anos do Tour de France e literalmente virá-la ao contrário. E aí talvez, reforço o talvez, haja alguma justiça desportiva neste desporto tão belo.

 

Pedalar, mas pouco

Sou do tempo em que a Volta a Portugal em bicicleta podia, com toda a justiça, intitular-se assim. Porque ia do Minho ao Algarve. Nada a ver com a prova que hoje começou e vai percorrer nos próximos dias algumas estradas portuguesas: só por ironia alguém pode confundir o mapa de Portugal com 11 distritos do continente. Nem poderá reclamar-se herdeira da antiga Volta uma prova que exclui os distritos de Beja, Bragança, Évora, Faro, Portalegre, Santarém e Setúbal. Mais de um terço do território nacional (e já nem falo das ilhas) fica à margem deste circuito velocipédico, que ignora o Ribatejo, o Alentejo e o Algarve.

Sim, o Algarve de tantas tradições do ciclismo nacional não chegará a ver esta Volta onde se pedala, mas pouco.

 

Lembro-me, quando era miúdo, das emoções que rodeavam a Volta a Portugal verdadeira, aquela que trazia para a berma das estradas largos milhares de pessoas em cada Verão. Era o tempo em que os principais clubes portugueses apostavam no ciclismo como uma das modalidades mais emblemáticas, um tempo em que a paixão desportiva não se circunscrevia aos estádios de futebol. Um tempo em que o FC Porto tinha na sua equipa Joaquim Andrade e Joaquim Leite, o pelotão benfiquista integrava Fernando Mendes e Venceslau Fernandes e o Sporting se orgulhava justamente do desempenho de Joaquim Agostinho, Leonel Miranda e Firmino Bernardino.

Nada a ver com o tempo actual. Nem com esta Volta tão tacanha e tão curtinha.

{ Blogue fundado em 2012. }

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