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És a nossa Fé!

Homo lagartus (Lineu)

 

 

Tendo eu, por motivos que não vêm ao caso, feito e concluído os meus estudos universitários em Coimbra, não posso deixar de sentir orgulho com a classificação de património mundial agora atribuída pela Unesco à sua universidade. Um orgulho pessoal que não tenho a veleidade de querer ver imposto a nenhum português nem, sequer, a nenhum conimbricense. Como escrevi já a outro propósito, fico tomado de paranóia litigante quando vejo alguém a sentir-se no direito de nos constranger à aceitação indiscriminada de parolices pseudo-patrióticas do género temos que ser todos pela selecção, que é a equipa de todos nós, temos que ser pelas equipas portuguesas no confronto com estrangeiros, temos todos que gostar muito do Saramago e que exultar com o êxito internacional do fado e outras inanidades que tais.

 

Fico, de qualquer maneira, desculpem-me que o repita, muito orgulhoso,acompanhado certamente por muitos e muitos portugueses, conimbricenses ou não, actuais ou ex-alunos ou, possivelmente, nem uma coisa nem outra, perante um reconhecimento com o peso do que acaba de ser conferido à Universidade de Coimbra. Vivi nesta cidade cinco anos inesquecíveis, que deixaram uma marca indelével na minha personalidade, no meu carácter, nas minhas perspectivas culturais e na minha visão do mundo, foi lá que conheci a minha mulher, também estudante, foi lá que casei, na capela da universidade, a Capela de S. Miguel, foi lá que fiz alguns dos amigos para a vida, foi lá que dei muitos dos passos que, mais para o bem do que para o mal, tenho o atrevimento de o presumir, me tornaram no homem que hoje sou. Razões que me parecem mais do que suficientes para dar testemunho público do meu enorme contentamento com a classificação da Unesco.

 

Perguntarão, muito provavelmente, alguns leitores, o que tem isto que ver com o Sporting, ainda se fosse, vá lá, um blogue dedicado à Académica? Bom, forçado que sou a procurar um nexo com o clube, a encontrar uma justificação para a inclusão deste texto num blogue determinado pela fervorosa fé clubística verde e branca, sempre posso dizer que esses cinco anos em Coimbra foram pródigos em oportunidades, que não malbaratei, para exercer um entusiasmado apostolado sportinguista. Ainda hoje encontro pessoas que, ao verem-me, se recordam de mim, desses tempos gloriosos, mais como sportinguista do que qualquer outra coisa. O meu quarto, na residência universitária onde permaneci durante tão significativo período da minha vida, ostentou em cima da porta, quase desde a minha chegada, o gracejo rebuscado e pintado a verde Homo lagartus (Lineu). Bem sei que seria melhor uma referência taxonómica ao estatuto leonino, mas, enfim, tudo aquilo era uma brincadeira e sempre considerei, bem-humorado, a classificação como um motivo de prazer clubístico e não como uma desconsideração biológica. Esta pintura, ao que me contaram, perdurou muito tempo na parede do edifício, só tendo desaparecido com a demolição da ala em que se situavam os quartos dos estudantes universitários.

 

A minha permanência em Coimbra e o, digamos assim, ligeiro desregramento financeiro em que, às vezes, era fácil cair, especialmente quando se estava afastado da família, levaram a que, em algumas ocasiões, só recorrendo à  boleia, de polegar firmemente espetado, tivesse podido estar presente no Estádio de Alvalade, para um ou outro jogo mais apetecível. Lembro-me, em particular, de um jogo com o Sutherland, em que o Sporting, depois de perder por 2-1 em Inglaterra, ganhou em Lisboa por 2-0, com golos de, se não estou em erro, Marinho e Yazalde. Eu e um amigo de Aveiro, estudante de engenharia, levantámo-nos cedo e, empunhando um cartaz em que anunciávamos o nosso propósito, tomámos  a EN1, onde rapidamente, depois de cinco minutos, se tanto, apanhámos boleia de outro distinto sportinguista, até então absolutamente desconhecido, que vinha para Lisboa com o mesmo fim. A noite é que foi pior, acabámos a dormir, primeiro, em Santa Apolónia e, depois, no aeroporto, já que, por motivos alheios ao tema desta prosa, não me convinha que os meus pais viessem a tomar conhecimento da deslocação.

 

Poderia contar muitas histórias desses tempos, histórias sobre o Sporting e a sua rivalidade com o Benfica e o Porto, histórias sobre a Académica e a sua extraordinária relação com os estudantes e com a cidade, referir-me às amizades com colegas adeptos destes clubes, às eternas discussões, às piadas e aos gozos infindáveis dirigidos, como é de bom tom, aos perdedores em cada momento. Poderia fazê-lo, é certo, mas penso já ter atingido o objectivo que, como avisei, me propus desde o começo:criar uma ligação com a Universidade de Coimbra, por forma a poder, ufano, dar conta, no És a Nossa Fé, da minha satisfação por mais uma marca de alguma importância na vida desta minha escola.

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