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És a nossa Fé!

Entendimentos Fuscos(1) - A História da Carochinha

Nos últimos já largos tempos, a imprensa desportiva portuguesa tem-se distinguido por uma entusiasmada devoção à história. Deve ser raro o dia em que um ou outro órgão de informação não nos dá conta, numa linguagem e num estilo grandiloquentes, de que tal ou tal jogador, desta ou daquela modalidade, mas, principalmente, de futebol, está prestes a fazer ou acaba de fazer ou refazer a história. Não a história do futebol ou de outro desporto, não a história do campeonato ou de um qualquer clube. A imprensa desportiva não faz por menos, e faz muito bem, estuda, indaga, pesquisa, investiga e conclui, sempre  muito a propósito, que alguém ou algo acaba de entrar para a história. Assim mesmo, para a história.


O Record de 3 de Março - recorro a um título já tão antigo, neste contexto, porque o acho irresistível - para se precaver, imagino eu, contra a possibilidade de não darmos o devido peso a um  facto histórico tão extravagante, informava-nos, logo na 1ª página, de forma minuciosa, embora um pouco confusa, de que o êxito do Real Madrid frente ao Barcelona fora, não resisto a citar, a 2ª vitória frente a culés em 5 dias pela 1ª vez em 113 anos. Bem explorado, este tipo de informação podia ser um maná para as primeiras páginas, já que as suas desmultiplicações são praticamente infinitas. Por hipótese: a vitória do Belenenses frente ao Guimarães foi a 3ª em 25 dias pela 2ª vez em 84 anos. Ou a vitória do Beira-Mar frente ao Leixões foi a 2ª em 18 dias pela 4ª vez em 71 anos. E por aí fora.

 

Insistindo nos exemplos, também a Bola de 1 de Maio, mais do que justificadamente enlevada, nos chamava a atenção para um jogador português, de seu nome Bernardo Vasconcelos, que, em Chipre, exibindo com distinção, ao serviço do seu clube, o Alki Larnaca, "a marca de matador na zona decisiva" (não, não estou a inventar, é o que vem escrito no jornal, é só consultá-lo), se encontrava prestes a, penduremo-nos mais uma vez no periódico e nos seus conceitos cuidadosamente burilados, refazer a história. Ainda hoje, digo-o em meu desabono, não sei o que aconteceu ao Bernardo Vasconcelos. Fiquei, de qualquer modo, plenamente persuadido de que, se marcasse um golo ao Ethnikos Achnas, o atleta veria o seu nome escrito com letras de ouro na história, na de Portugal e na do futebol. 

 

No dia 7 de Maio, o Record chamava à primeira página uma fantástica proeza do treinador do Olhanense, colocando Bruno Saraiva na história com base no facto de que a Última estreia a ganhar foi há 52 anos. Só tomamos plena consciência da extraordinária dimensão do feito se, consultando deslumbrados a página 18, para a qual teremos sido astuciosamente seduzidos pelo isco constante da capa,  verificarmos que, de facto, é preciso recuar ao Verão de 1961 para encontrar um fenómeno semelhante. Foi então, ficamos a saber, compreensivelmente pasmados, que Francisco André, natural de Faro, que encerrara a sua carreira de jogador, em Olhão, na época anterior(passara por Belenenses e Académica, entre outros) celebrou a estreia como treinador dos rubronegros com um triunfo por 1-0 diante do Sporting da Covilhã, golo de Armando.

 

Isto é uma ínfima amostra da excelente informação que, neste âmbito, nos é generosa e abundantemente proporcionada. Os exemplos de clubes, jogadores e treinadores que, na opinião erudita destes jornais, fazem e refazem a história multiplicam-se como coelhos, folgo em realçá-lo, quase diariamente. Nunca serão, portanto, de mais os  agradecimentos à imprensa desportiva pela sua democrática vénia à cultura e pela  dedicada atenção aos valores mais profundos e acontecimentos mais marcantes da nossa memória colectiva. Façamos, então, os possíveis por não rebentar de riso e exijamos-lhe que não esmoreça e continue, a bem da cultura e da civilização, toda esta incansável luta para nos habilitar com o sábio conhecimento da história pátria. Pela sua abnegação e pelo seu esforço desinteressado, um sincero e comovido bem haja.

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