Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

És a nossa Fé!

A engrenagem*

Já vos aqui falei de Jean-Paul Sartre. Uma das minhas obras de eleição é “A Engrenagem”, um livro/peça de teatro que nos conta a história das últimas horas do ditador Jean Aguerra, cercado no seu palácio presidencial por revoltosos irados que estão a tentar tomar o poder.

O enredo anda à volta de um país pobre que tem petróleo, mas este é explorado por uma companhia estrangeira, numa concessão dada pelo tirano anterior, que foi deposto por causa disso mesmo.

Jean Aguerra tinha tomado o poder com a promessa de nacionalizar o petróleo. Nunca o fez. No tribunal popular, onde ocorre um julgamento fantoche, os diálogos entre os revoltosos e o ditador são uma peça de literatura pela rudeza das palavras, a podridão do poder e as aspirações de quem o quer tomar. Entre os que estão prestes a vencer a contenda estão dois ex-amigos de Aguerra: François e Suzanne.

A vida de Aguerra, pessoal e política, é escrutinada ao pormenor. Agiu mal quando tomou o poder, agiu mal quando o conservou, agiu contra o povo e contra quem em si confiava. Entregou-se ao whisky e bebia sem parar.

O rol de acusações sucede-se, com a acção a desenrolar-se entre o presente (o tribunal) e o passado, para se provar a culpa do ditador. Já não se julga apenas o líder, aquele que foi o desejado, mas o homem e as suas acções. E, no meio da turba irada, para contentar as hostes, vale tudo.

Jean Aguerra conta também o relato de uma reunião havida, nos primeiros momentos da revolução entre si e o embaixador do país que explorava as reservas de petróleo. Diz o diplomata, no relato do ditador:

“O governo do meu país encarregou-me de vos dizer que não tem a intenção de intervir nos nossos assuntos internos. Por consequência, Excelência, reconhece a vossa autoridade. Há apenas um ponto sobre o qual não transigiremos, porque toca nos interesses dos nossos súbitos. Deve ficar assente que mantereis o status no que se refere às concessões petrolíferas”(...) e “qualquer atentado contra a propriedade dos nossos nacionais seria considerado pelo meu Governo como um casus belli. Para apoiar eventualmente o seu pedido, o meu Governo concentrou trinta e cinco divisões ao longo das nossas fronteiras”.

O julgamento prossegue, e Aguerra limita-se a ouvir. Das poucas palvras que se lhe retiram destacam-se estas: “Pobres idiotas! Vocês acreditam numa mudança de política, mas não vão ter senão uma mudança de pessoas”. E, apontando para o que lhe sucederá, diz: “Farás a minha política!” Fá-la-ás porque não há duas a fazer. Imaginas que vou justificá-la? Hás-de ser tu que a justificarás, daqui a três, daqui a seis meses”.

Como estava previsto, Aguerra é julgado e condenado à morte. Depois da morte de Aguerra, Sartre, a finalizar o livro, coloca a acção deste no gabinete do ditador deposto, onde se encontra agora François. Que se prepara para receber, à semelhança do seu antecessor, o mesmo embaixador do país estrangeiro que explora o petróleo nacional.

“O embaixador está diante de François. Fala polidamente, mas mal velando a ameaça contida nas suas palavras. François escuta-o com um ar feroz.

- O nosso Governo não pretende senão ter relações de amizade com o vosso – diz o embaixador.

– Estou, no entanto, encarregado de vos prevenir de que, se nacionalizarem os petróleos e desapossarem os nossos nacionais, consideramos isso como um casus belli.

- O vosso Governo não tem de intervir nos nossos assuntos internos – diz François.

- Como quiser, Excelência. Lembro que o vosso país é pequeno e que o nosso é muito grande.

Um silêncio.

O embaixador insiste polidamente: - O meu Governo aguarda uma resposta precisa.

- Não tocaremos no petróleo – diz François.

O embaixador inclina-se com um sorriso irónico.

- Não esperávamos menos da vossa ponderação, Excelência. Depois retira-se.

Da porta, o criado grave volta-se para François:

- A delegação dos operários do petróleo está à espera de Vossa Excelência.

- Espera – diz François.

– Dá-me um copo de whisky. O criado serve-o sem dizer palavra. François bebe e pousa o copo. Depois faz sinal ao criado e diz, com um ar sombrio:

- Manda-os entrar.”

 

*Artigo desta semana do Jornal do Sporting

Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

{ Blog fundado em 2012. }

Siga o blog por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Pesquisar

 

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D