Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

És a nossa Fé!

De pequenino se torceu o pepino...

 

Paço de Arcos, 1982…

 

O rapaz que inundava os joelhos com cicatrizes desgovernadas, possivelmente devido a várias quedas duma bicicleta pequena, era afinal benfiquista. A ele, que nunca tinha visto qualquer jogo desse clube na televisão, foi difícil nascer numa família sportinguista e ser conotado como benfiquista. Essa contradição tem algo de malicioso. Mas para o rapaz o Futebol ainda passava ao lado, a única vez que o futebol preenchia a sua mente era quando colocava a foto do jogador da bola numa carica duma garrafa Coca-Cola já sem vida. Tudo o que não fosse “jogos sem fronteiras” não fazia sentido para o menino de Paço de Arcos: excelentes aquelas noites de segunda-feira quando o clube de vermelho não jogava, era um silêncio puro que reinava naquela sala, fantasmas vermelhos já não nos podiam tirar o gozo de ouvir um Eládio Clímaco.
O Rapaz adorava aquelas segunda-feiras, o 4º andar da Rua de Porto Alegre cheirava a contenção desportiva naquela altura.
 
Pobre rapaz influenciável. Para ele o desporto fazia-se com uns famosos canudos de plástico que faziam as delícias da pequenada, ou duma bola que já não era de trapos, mas também era jogada numa pelada, mas a paixão por qualquer clube era algo inimaginável naquela altura, se havia paixão por algo ou alguém era pela sua doce e querida avó Rosa. Mas naquela casa com vista para a linha do Estoril não reinava a democracia e o rapaz teve mesmo de se tornar benfiquista. O pão estava sobre a mesa e a esse é difícil dizer “NÃO”. Foi-lhe comprado um chapéu com uma imagem do famoso jogador cabeludo benfiquista, o rapaz olhou para essa prenda de Natal com um olhar de indiferença, mas foi logo chamado à atenção para o facto de naquele clube a história se fazer ainda a preto e branco, fruto das famosas vitórias ditatoriais do Professor Salazar. Se existe algo que associo frequentemente ao Benfica é António de Oliveira Salazar…
Bruscamente houve uma mudança de ares. Fruto de romances e histórias de amor pouco previstas, o rapaz voltou a acompanhar a mãe nesta jornada chamada vida. Margem sul era o seu destino, ninho de industriais viciados em jogo. Aos poucos foi-se sentindo de novo em casa, e tornou-se apaixonando pelo lado oposto do “ser vaidoso e pouco humilde”, enfim o rapaz tinha voltado quase a renascer ou seja tinha-se tornado adepto do Sporting, o Tal de Portugal. Tinha voltado quase das trevas, ser daquele clube por intoxicação motivava quase um exorcismo puro. Foi bom ter voltado à vida, pensou o rapaz…
 
Fruto de influências desmedidas, cedo se percebeu que estaria ali um rapaz pronto a defender a sua dama a qualquer preço. Decorria o ano de 1984 quando chegou a primeira prenda ligada ao Sporting. Era uma bola e um lindo equipamento do Sporting, o rapaz moreno e de sorriso rasgado já podia contar aos seus amigos que o Sporting para ele era já o melhor de Portugal. Na escola vivia-se o gozo, o gozo e a ridicularização do Sporting, afinal estávamos no auge dos 18 anos sem glória, mas o rapaz não nunca desistiu do seu amor, um amor que mesmo não sendo à primeira vista se tornou um amor obsessivo e complexo, e sempre que podia defendia-o como duma batalha medieval se tratasse.
Naquela tarde de Primavera em 1989, o pequeno rapaz moreno sentiu o Sporting como nunca tinha sentido. Fernando Gomes, o bi-bota, partiu para a bola com pouca convicção e tinha desperdiçado a hipótese de passagem à fase seguinte da prova europeia, algo que o fez o menino feito rapaz chorar sem limite, aquela derrota marcou o início dum amor desmedido, e hoje em dia ainda é algo que é difícil de explicar. Não se chora por um penalty falhado, chora-se porque o nome do Sporting não tinha soado alto, chora-se porque existe algo dentro de nós que nos faz acreditar numa vitória, mas também se chora porque a nossa paixão não teve sucesso… ainda hoje esse menino não consegue explicar porque chorou dessa vez.
 
Nesse tempo ainda se chorava pelo Sporting, consumiam-se lágrimas de tristeza quando perdíamos, e ousávamos desafiar quem nos queria fazer mal. Naquele tempo ficávamos viciados no nosso clube, apertávamos com força o adepto do lado quando marcávamos um golo, virávamos a cara ao jogo quando nos sentíamos puramente gozados. Ouço agora dizer que nos vencerem pelo cansaço, e neles solto a minha raiva, choro porque o rapaz já se sente indiferente ao ver o seu Sporting, para o Rapaz já feito homem existem agora momentos mais importantes do que o Sporting marcar um golo, existe uma vida feita de loucuras exigentes a nível familiar, mas o Sporting estará sempre para lá duma paixão, essa paixão que ainda me consome, mas vai-se tornando cada vez mais pequena… ou cada vez menos importante. Ainda choro por dentro quando me querem afastar da minha paixão…
 
Sempre lutarei ao teu lado, Paixão duma vida...

1 comentário

Comentar post

{ Blog fundado em 2012. }

Siga o blog por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Pesquisar

 

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2017
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2016
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2015
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2014
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2013
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2012
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2011
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D