Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

És a nossa Fé!

Sem comentários

Ao ver e ouvir, na televisão, os muitos programas sobre futebol e os comentários que acompanham a enxurrada diluviana de jogos que inunda os nossos aparelhos – qualquer dia estão a dar-nos, em directo, os campeonatos distritais do Sudão – pergunto-me frequentemente se, de facto, o futebol é um jogo tão simples, tão simples, que não exige, para ser compreendido, qualquer tipo de conhecimento especializado ou se, não sendo, a esse respeito, diferente da maioria dos outros desportos televisionados, não terão todos os canais tido o azar dos Távoras na selecção de grande parte dos jornalistas e comentadores que põem no ar.

Vejamos, por exemplo e para efeito comparativo, o basquetebol. A Sporttv conta, para a transmissão, entre outros, dos jogos da NBA, com, suponho estar a atribuir-lhes o estatuto adequado, um comentador e um jornalista, Carlos Barroca e Luís Avelãs, respectivamente. Estes produzem um excelente trabalho, que acredito  responsável, em larga medida, pela popularidade que o jogo atingiu em Portugal, mesmo entre os que nunca tinham pensado em vir algum dia a  entusiasmar-se com ele. Não estou em condições de avaliar com precisão o nível de conhecimento destes dois profissionais (Carlos Barroca é, também, segundo penso, treinador, não sei se, neste momento, no activo), mas parece-me óbvio que falam do que conhecem em profundidade. Têm, além do mais, uma enorme capacidade pedagógica, exprimem-se com entusiasmo e numa linguagem acessível, possuem muita informação e criaram uma corrente com os espectadores que contribuiu, por exemplo, para que, em poucos anos, as transmissões da NBA passassem, a horas muitíssimo tardias e pouco apropriadas a um visionamento regular, de semanais a diárias. A extraordinária qualidade da realização das transmissões contribuiu, em primeiro lugar, para isso, mas é justo que atribuamos a estes dois elementos uma significativa quota-parte do êxito. Mas, o basquetebol não é caso único. Quem, como eu, se interessar pelo desporto em geral, encontrará facilmente, nas transmissões e programas sobre outras modalidades, jornalistas e comentadores capazes de contribuírem decisivamente para o tornar adepto de desportos e competições de que quase nunca ouvira falar. É o caso, falo por mim, do Futebol Americano e da NASCAR, que até há pouco tempo permaneciam, no meu espírito, como vagas referências de uma América quase folclórica, mas cujos jogos e corridas, se tornaram, devido, em parte, ao acompanhamento efectuado pelos seus comentadores, em acontecimentos de culto, passe o exagero. E o mesmo se poderá dizer de muitos outros desportos. O atletismo, o andebol, o voleibol, o ténis, até o snooker e mais alguns que não me estão a ocorrer contam com comentadores, uns, obviamente, mais do que outros, capazes de nos fazerem compreender as regras, exigências técnicas, variantes tácticas e um vasto conjunto de aspectos  necessários para percebermos e gostarmos do que se está a passar. Lembro-me bem de, há já muitos anos, ter ficado a gostar de hipismo, levado, fundamentalmente, pela palavra conhecedora e, tanto quanto me lembro, capaz de entusiasmar qualquer não iniciado, do então comentador da RTP Jorge Mathias. Mais tarde, comecei a achar que o hipismo é, basicamente, um desporto para o cavalo, mas isso não invalida o interesse que o comentador tinha sido capaz de despertar.

Mas, volto à primeira pergunta, o que se passa com o futebol? Por que razão os diferentes serviços de programas não acham necessário, ao contrário do que se passa com os outros desportos, prover-se de jornalistas e comentadores que, nas transmissões dos jogos e na longa série de programas sobre futebol (por acaso, mais sobre arbitragem) aparentem, pelo menos, saber alguma coisa do assunto; que conheçam, as regras do jogo; que falem, não peço um discurso erudito,  ao menos, um português escorreito; que sejam capazes de discorrer sobre o jogo sem ser por lugares comuns e ideias feitas, que sejam, enfim, capazes de interessar ou entusiasmar os espectadores e não de os indignar ou deixar com a sensação de que não estão todos a ver o mesmo jogo? Nalguns casos, reconheço que, felizmente, muito poucos, em boa verdade, talvez, até só um, também não estaria deslocada a preocupação com os excessos de boçalidade, mas parece que a truculência – ou pura e simples má educação, já que, para se ser truculento, também é necessário um mínimo de domínio de alguns recursos retóricos, o que como é evidente,  exige um módico de preparação intelectual- rende as audiências suficientes para afastar possíveis arremedos de vergonha. Parece até que é o contrário que acontece. Veja-se, por exemplo, o afastamento de Júlio Machado Vaz de um dos tais programas, o qual, pelo menos para mim, talvez insuficientemente informado, permanece sem explicação e faz lançar a suspeita de que o  comportamento cavalheiresco deste efémero convidado era, para alguns, absolutamente intolerável. Não quero, apesar destas considerações, ser injusto e sou de opinião de que há um ou outro comentador que vale a pena ouvir. Entre os antigos jogadores, por exemplo, parece-me que Pedro Henriques e Diamantino Miranda - este já não o ouço há muito tempo - sempre se mostraram sabedores, ponderados e com bom-senso. Há  nos comentários do primeiro um aspecto que parece altamente criticável e sobre o qual tenciono escrever alguma coisa, mas isso é algo que, embora importante, não diminui uma apreciação globalmente muito positiva.  

O maior problema de tudo o que fica dito é que se vai artificialmente construindo, em múltiplos aspectos, uma imagem do futebol que acaba por afectar, esperemos que não em definitivo, a própria essência do futebol, o comportamento dos árbitros, as decisões dos órgãos disciplinares, a actuação dos órgãos sociais dos clubes, o desempenho dos jogadores e, em última análise, as  posições no campeonato e nas outras provas. Por exemplo, há, certamente, alguma conexão entre a actuação dos árbitros nas situações de bola na mão (tema a merecer, por si só, um post autónomo e a que me queria referir acima, a propósito de uma discordância com Pedro Henriques) e a inconcebível interpretação que televisões e jornais fazem da regra respectiva. É um deleite ouvi-los a teorizar, com ridícula pompa, que  devem imaginar académica, sobre a posição natural dos braços, a relação da sanção a aplicar com a previsível sequência da jogada interrompida e mais uma série absurda de pormenores que, ainda que totalmente irrelevante para o fim em vista, não deixa de dar uma ideia  errada da regra em vigor. Com, obviamente, a lista de barbaridades que se vai vendo por aí e com as consequências que, no que respeita à arbitragem destes lances, resulta para clubes e jogadores.

Como eu compreendo Artur Jorge quando diz que, para ver futebol na televisão, desliga o som e põe música. Gostava de ter à minha disposição tecnologia que me permitisse optar por uma recepção sem comentários e com som ambiente, que este, sim, faz muita falta, é parte  quase imprescindível do espectáculo. Quando vou ao estádio, não preciso de ninguém ao meu lado a soprar-me inanidades ao ouvido, por que há-de isso ser necessário se quiser ver um jogo na televisão?


P.S. Agradeço ao Pedro Correia o simpático convite que me dirigiu para colaborar com o És a Nossa Fé. Estou, como sempre, disponível para, na medida das minhas modestas possibilidades, ajudar o nosso clube e este blogue é, como o tem profusamente demonstrado, um excelente meio de promoção e defesa dos propósitos que nos unem. Esta estreia é, talvez, demasiado longa, mas espero, em futuros escritos, refrear os meus ímpetos, evitando maçar os leitores que se atreverem a seguir-me.

1 comentário

Comentar post

{ Blog fundado em 2012. }

Siga o blog por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Pesquisar

 

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2017
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2016
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2015
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2014
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2013
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2012
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2011
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D