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És a nossa Fé!

e pluribus unum

 

 

Um clube desportivo não é um país. Neste coexistem interesses diversos, divergentes e contrastantes - apesar das cançonetas patrióticas que nos vão impingindo a dizer que somos um só. Por isso de quando em vez, de muitos em muitos séculos, há guerras civis. E sempre nos confrontamos, conflituamos, quantas vezes nos manipulamos, nos exploramos, nos preferimos, nos traímos. Não somos um. Não velejamos todos para o mesmo porto - nem quando os espanhóis entram portas dentro (para contratar o Pauleta), como bem sabemos. É assim. Cá. E em todos os países. Somos todos compatriotas. Mas temos (alguns) objectivos diversos, os quais às vezes nos apartam. Mesmo.

 

Num clube desportivo não há qualquer razão para isso. Os interesses são mesmo unos: e pluribus unum (isto faz-me lembrar qualquer coisa, não me lembro bem de onde).

 

O que quer um sportinguista? Aumentar o museu do clube. Mais nada. Podemos divergir no modo como pensamos fazê-lo (exigir mais taças de andebol júnior, ambicionar campeonatos de hóquei em campo feminino, trocar isso por uma taça ibérica de futebol sénior, requerer o sevens de râguebi mundial, há imensos itens para sonhar). Podemos até divergir no modo como pensamos divulgar esse amado museu (mostrá-lo ao presidente do Braga, não mostrá-lo ao presidente do Braga). Mas o objectivo é o mesmo.

 

A crise presente, que tem no futebol sénior apenas o seu lado mais tonitruante, é assustadora. E o que assusta menos ainda é o futebol sénior, diga-se. É o estado económico do clube, um futuro agónico no horizonte. É normal que isto nos torne iracundos. E que nos entre-acusemos das maleitas, de hoje e de ontem, e que, nisso, nos zanguemos. A situação é tão grave que a busca do "inimigo interno" explode. Pois as nossas almas doridas já não saram com as invectivas a Pinto da Costa e sua corte ou aos índios de Carnide. Pois estas já nem como placebos funcionam.

 

Não tenho simpatia - e já aqui o escrevi - por esta direcção, ou pelo que dela resta. Nem pelo bloco sociológico que ela representa, e que tem gerido o  Sporting nas últimas duas décadas. Ainda que convenha discernir que nem tudo foi mau nesse período, o descalabro económico-financeiro é notório. Também não acredito que o actual presidente, eleito por uma pequena margem, apoiado por uma minoria sociológica, e já desprovido dos "trunfos" eleitorais que lhe terão permitido vencer as eleições, possa ter sucesso. Está francamente fragilizado. Uma boa campanha do futebol sénior, de ora em diante, poderá permitir-lhe cumprir o resto do mandato, tipo cuidados paliativos. Mas não creio que possa continuar, para um novo mandato. Se isso acontecer será porque mergulhámos numa inesperada senda de sucessos futebolísticos. Será fantástico. Mas não é crível. Neste contexto penso que é preciso pensar em eleições, rapidamente. 

 

Mas estas não podem surgir como resultado de acusações, mas sim como corolário de uma reflexão sobre o entroncamento em que o clube se encontra. Não um beco sem saída, mas uma problemática encruzilhada. Eleições que também não poderão ser o trampolim de acusações, ou destas antecâmara. É um clube desportivo. Torcemos todos para o mesmo lado. Ou seja, há toda a razão para o debate mas nenhuma para o contraste. E é já tempo de sarar.

 

Este nosso projecto Godinho Lopes não está a funcionar, apesar do extremo sportinguismo do seu líder e da sua devoção ao clube. Precisamos de um novo projecto. Se calhar outro projecto Godinho Lopes, se calhar não. Que seja congregador. E não será a equipa de futebol sénior que congregará, num qualquer futuro, os sportinguistas. É a atitude destes, agora, que deve ser congregadora. Insisto na tal frase, que li algures, e pluribus unum.

 

Uma nova direcção (insisto, se calhar de Godinho Lopes, se calhar não) é urgente. Mas a sua eleição deverá correr em processo congregador. E não poderá assentar em promessas eleitorais (repito, isto não é um país ...). Ou seja, quem se propuser às eleições, quem "se chegar à frente", em louvável coragem, quem tiver meios e talentos para enfrentar a crise, e nos apoiar neste nosso transe, tem que partilhar os pressupostos e os supostos que tem para gerir o clube. Não agitando treinadores de futebol, conhecidos ou não, nem hipotéticos investidores bengalis ou texanos, ou cartões de visita de empresários de futebol. Tem que dizer ao que vem e como vem. Alguns dirão que "o segredo é a alma do negócio". Estão certos. Mas gerir um clube não é um negócio, desses. É um projecto, explicável.

 

Pois para homens providenciais, espertos das negociatas, artistas das entrelinhas da bola, já não há tempo nem espaço. Nem património. 

 

Nas crises brota, quase sempre, o pior. O populismo, a artimanha, a demagogia. Às vezes germina o melhor. Se formos juntos.

 

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