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És a nossa Fé!

Uns têm, outros nem por isso

 

O guarda-redes tem uma missão particularmente inconciliável no futebol. Um momento é herói, passados meros segundos é vilão. A exigência física e psicológica que enquadra a sua actividade é incomparável à de qualquer outro jogador. Sob constante pressão, todos os seus movimentos são examinados minuciosamente e um qualquer desacerto pode ser fatal, tanto para si como para a sua equipa.

Comecei a minha modesta carreira futebolística precisamente como guarda-redes. Com um 1,88 m de altura, ágil e bom atleta, tudo indicava que possuia os indispensáveis dotes para esse fim. Só anos mais tarde, já como dirigente, é que me foi possível identificar a falibilidade que sempre me iludiu enquanto jovem. Tive ocasião de trabalhar com um sábio treinador que me elucidou: «um guarda-redes que não tenha «pancada» - o seu termo para uma personalidade excêntrica e temerária - nunca dará um bom guarda-redes». Deduzi eu, então, que quanto maior a «pancada», melhor o guarda-redes, mas, aparentemente, até nisso há limites.

Uma retrospectiva do futebol nacional rapidamente confirma a exactidão deste discernimento; só no Sporting tivemos diversos casos exemplares que me vêm prontamente à ideia: o histórico Carlos Gomes e o saudoso Vítor Damas, ambos com vincada excentricidade, Ricardo - quem mais se ofereceria para marcar aquele célebre penálti no Euro 2004 ? - e aquele que mais me marcou pela sua espectacular extroversão, já para não mencionar o seu enorme talento, o lendário Peter Schmeichel. Sempre que o seu nome vem à conversa, a primeira imagem que me surge é a de Rui Jorge, entre outros, a escudar-se da sua fúria, por qualquer erro cometido ou golo sofrido. Não há muito tempo tive ocasião de trocar impressões com o actual seleccionador nacional do sub-21, sobre o gigante nórdico. Com um grande sorriso, disse-me ele: «grande profissional, excelente colega no balneário, humilde e brincalhão, mas quando entrava em campo transformava-se, era um intenso competidor que não admitia falhanços».

O nosso Rui Patrício também chama a si uma boa dose de «pancada» que ainda não terá atingido total maturidade. O seu semblante nos momentos cruciais, a sua ainda por aperfeiçoar arte de repreender os colegas, a sua temeridade e, sobretudo, o seu «sacríficio» em passar a bola à mão, quando o seu primeiro instinto, hoje e sempre, é de a pontapear para os céus ou, em última instância, para a bancada central.

O guarda-redes de futebol é uma espécie de jóia na coroa real, alvo da cobiça de todos os inimigos e defendida até à morte pela guarda da corte. Para quem desejar passar pela experiência, é aconselhável determinar primeiro o respectivo grau de «pancada»; uns têm, outros nem por isso.

2 comentários

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    Rui Gomes 27.05.2012

    Caro Pedro Oliveira,

    Fico grato pela gentileza das suas palavras. Vou tentar continuar a ser merecedor do seu apreço e dos leitores em geral. Diversos pontos que abordou;
    Fui sempre um grande admirador do Rui Jorge, já tive o prazer de privar com ele algumas vezes e até tenho uma fotografia nossa, juntos, no meu escritório. Em conversa casual e em alguns escritos que já plubiquei, considero-o o maior erro da carreira desportiva de Pinto da Costa, para benefício do Sporting. Devo esclarecer, antes de mais, que a referida «pancada» é de certo modo um elogio. Muito simplesmente, descreve aqueles que não medem as consequências às suas próprias pessoas em prol da equipa. Eu, a exemplo, como guarda-redes, tinha tudo menos a temeridade de me sacrificar a todo o custo e essa característica distingue os bons dos inferiores, que eu fui, nessa posição. Gosto imenso do Rui Patrício. Tenho criticado o Alex Ferguson por ter optado pelo De Gea, quando eu sinto que o Rui é superior. Ele tem evoluído em anos recentes e, na minha modesta opinião, estará a 80% do curso para se tornar num jogador excepcional. Comentei o seu gosto em pontapear a bola com humor, mas não deixa de se aproximar da verdade. Ele teria beneficiado imenso se tivesse tido a felicidade estar no Sporting ao mesmo tempo que o Peter Schmeichel que, indiscutivelmente, foi um dos melhores de todos os tempos e, especificamente ao que concerne por a bola em jogo, quer com as mãos, quer com os pés, o melhor de todos. O Rui Jorge, nas nossas conversas, e até o Beto, referia muito essa precisão dele.Curiosamente, um guarda-redes menos temerário (o golo do Luisão naquele famoso jogo que nos tirou o título), mas igualmente excelente a por a bola em jogo, foi o Ricardo. Penso que é um dos aspectos do Rui que mais sobressai em necessidade de melhoramento. Se o Sporting andasse na montra da Champions, estou convencido que ele já teria saído. Quanto ao Cristiano, admiro-o imenso enquanto jogador mas concordo consigo em que a braçadeira de capitão não lhe compete, entre outros motivos, para não criar acrescida pressão. É um jogador de molde moderno, com valores em linha dos tempos de hoje. Concordo também consigo quanto ao Marcelo, que evidencia uma boa «pancada» e que me deixa a ideia que se o Rui saisse, ficaríamos bem servidos. Do que vi do Vítor Golas, também gostei. Penso que salvo a surgir algum movimento com o Rui, ele irá mais um ano para a equipa B. Ser o terceiro da equipa principal não lhe proporcionará a muito preciosa rodagem e, com ela, a experência em jogo. Veremos o que a SAD tem em mente. Apesar da minha distância da pátria, desde criança, sempre me manti muito próximo de Portugal, nomeadamente através do futebol. Já levei diversas equipas minhas a Alvalade e aos principais palcos do futebol português. Isso proporcionou-me um vasto leque de conhecimentos, que ainda hoje prezo, e acesso moderado ao foro interno do futebol português. Hoje estou afastado, mas os contactos mantêm-se. Muito por isso colaboro com este blogue e escrevo no jornal do Sporting, entre outras actividades. Como ponto final deste já excessivamente longo escrito, penso que o Adrien será uma mais-valia, se ficar no Sporting e tiver a oportunidade jogar. Ainda tenho algumas dúvidas. A lateral direito, sinto confiança que entre o Arias, ainda em progresso, e o Cédric, estaremos razoavelmente bem servidos. Precisamos, indiscutivelmente, de um central «patrão», tipo André Cruz, mas onde é que ele está e a que preço.

    As minhas mais cordeais saudações.
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