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És a nossa Fé!

A Sporting TV e a autorização da ERC

Segundo leio no Record, o Sporting emitiu um comunicado a explicar as razões por que, ao contrário do anunciado, o arranque da Sporting TV não se efectuará, afinal, no dia 1 de Julho. De acordo com esta informação, o início das emissões está sujeito a autorização da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), que não terá ainda sido concedida. Deixando de lado a imprecisão do comunicado - fala-se indistintamente de licenciamento e autorização quando a actividade de televisão, neste caso, uma vez que não se trata da utilização do espectro hertziano terrestre, não está sujeita a licenciamento mas, tão só, a autorização - a situação é exactamente aquela sobre que escrevi em Março de 2013. Ou seja, não certamente por culpa da ERC, que se limita a exercer as suas atribuições em conformidade com o ordenamento jurídico aplicável, os sportinguistas, ou o clube, sem que se saiba exactamente porquê, vão ter, em obediência a valores e interesses desconhecidos, as suas liberdades de imprensa e de expressão condicionadas pela necessidade de autorização, a conceder pelo Estado, para a actividade do seu canal de televisão por cabo (transcrevo o meu post, a que acima aludi). Como então disse, A RTP, a SIC e a TVI, bem como outras da mesma natureza que possam, nos termos da lei, vir a ser constituídas, utilizam um bem do domínio público, o espaço radioeléctrico, um recurso escasso (embora a evolução tecnológica, com a Televisão Digital Terrestre, permita um muito maior aproveitamento do espaço disponível) que o Estado deve, portanto, gerir, disciplinar e fazer partilhar em obediência aos valores e interesses consagrados na nossa ordem jurídica. É bom de ver que, considerando tais circunstâncias, a lei não pode deixar de fixar  um conjunto de regras que determinem, até certo ponto, os princípios por que deve orientar-se o funcionamento e a programação destes canais, bem como o regime da atribuição das respectivas  frequências. Nada, pois, mais natural do que as licenças serem atribuídas no âmbito de um concurso regido por normas e procedimentos razoavelmente complexos. Mas, os canais por cabo? O que é que o Estado tem a ver com a decisão de seja quem for que  queira dedicar-se a esta actividade? Se alguém ou alguma sociedade ou associação (por exemplo, o Sporting) dispuser dos meios necessários e negociar a distribuição do canal com algum operador  licenciado para o efeito (a Zon, A Meo, a Vodafone,etc.), onde é que existe algum interesse que possa justificar a necessidade de o gozo de uma liberdade fundamental estar dependente de autorização prévia do Estado? 

 

Não vou agora repetir a totalidade do texto citado, que é um pouco extenso e poderá ser lido por algum possível interessado, mas, mais preocupado como cidadão do que como sportinguista, reafirmo a minha conclusão de então: ... tendo em conta o valor decisivo da liberdade de imprensa e da liberdade de expressão no nosso modelo de sociedade e nas nossas aspirações colectivas, esta, do ponto de vista das escolhas políticas, está longe de me parecer a melhor solução legal.

 

P.S. Já depois de publicado este texto, ocorre-me a resposta que, na sequência do post cuja ligação incluí acima, dei a questões que me foram colocadas pelo co-autor do És a Nossa Fé Filipe Moura. Admitindo que esta resposta possa ter algum interesse, renovado pelo iminente início de actividade da Sporting TV, publico-a novamente:

 

a)Quando se fala em liberdade de imprensa inclui-se todos os meios de comunicação social. Aquilo a que chama liberdade de emissão de televisão é, pois, uma manifestação da liberdade de imprensa, tal como a que se revela através da rádio, dos jornais, de outras publicações, da internet, etc.

b)A tecnologia de cabo também não permite a criação de um espaço de comunicação infinito, mas não é essa a questão a que me refiro. O que eu digo é que o espaço radioeléctrico é um bem do domínio público, um bem, portanto, cuja utilização implica algum controlo do Estado, a começar pela definição de regras respeitantes à sua partilha. Há múltiplos interesses que devem ser articulados, pelo que, até porque a constituição o exige, o Estado não pode deixar de determinar o número e as condições em que devem ser licenciados os canais que usem o espectro radioeléctrico. Parece-me, pois, evidente, que neste caso o Estado tem toda a obrigação e legitimidade, desde logo jurídica, para condicionar o uso deste meio para o exercício da liberdade de imprensa.
Mas isto é argumentação que só colhe relativamente às emissões no espaço radioeléctrico. Os operadores de televisão por cabo não utilizam o domínio público, isso acontecerá com os operadores de distribuição, o que constitui um problema completamente diferente e não tem aqui qualquer cabimento. Para o efeito em causa, não há qualquer diferença entre um jornal e um canal por cabo. O que é que pode legitimar a necessidade de autorização prévia do Estado para uma transmissão por cabo, não o sendo exigido para o lançamento de um jornal? Nada, há só um pequeno pormenor-repito o que disse no post: quando a Constituição foi aprovada não ocorreu ao legislador, como era normal, esta possibilidade, só pensou em jornais e outras publicações e na televisão e rádio no espaço radioeléctrico. Já desafiei várias pessoas a apresentá-los, mas nenhuma conseguiu ainda fornecer-me um argumento razoável a favor da solução legal. Os mais francos foram os que invocaram a necessidade de algum controlo pelo Estado. E mesmo esses esquecendo que o único controlo legítimo é o que é efectuado pela regulação, seja qual for o modelo para o efeito escolhido. A esta, de facto, nenhum canal poderá escapar, seja qual for o espaço ocupado, público ou não.
c) Quanto à terceira questão que refere, aquela em que faz a comparação com comboios e autocarros, não tenho a certeza de ter percebido a sua intenção, mas, se era a de estabelecer a diferença entre os diferentes meios de comunicação social com base na dimensão das estruturas a que recorrem, estou em desacordo consigo. A tecnologia utilizada não tem qualquer relevo para este efeito. O que interessa, face à magnitude dos valores de que falamos, é saber se há algum interesse que justifique a autorização prévia do Estado para o exercício da liberdade de imprensa quando a comunicação não utiliza o espaço público.
Eu não encontro nenhum. Continuo por isso a pensar que a necessidade de autorização, fixada pela lei, para as emissões da Sporting TV é um abuso.

Selecção Nacional – Que Futuro?

Falar sobre a má prestação da selecção portuguesa neste Mundial vai ser o tema principal nos cafés, transportes ou emprego, ocupando muitos dias, quiçá semanas. Virão outrossim a terreiro todo o tipo de comentadores (eu incluído!) munidos de certezas e nenhumas dúvidas (eu não incluído!) sobre o (mau) percurso dos nossos “Conquistadores” em terras brasileiras.

Normalmente gosto de pensar que há sempre uma razão para aquilo que nos acontece. Talvez seja a minha opção religiosa que me leva a pensar assim. Ou talvez não!

Observando bem as exibições da selecção portuguesa neste Mundial, direi que não jogámos de forma muito diferente daquela que foi a campanha de apuramento para o Brasil. Exibições paupérrimas deixaram os portugueses à beira de um ataque de nervos. E não fosse Cristiano Ronaldo estar num dia perfeito e hoje não estaria também aqui a esmiuçar este passado recente, dos nossos jogadores.

Lembro-me como era a nossa selecção vai para 30/40 anos. Cada jogo que fazíamos com equipas supostamente mais fortes era uma final. E quando ganhávamos era uma verdadeira festa. Depois vieram os mundiais de sub-20 e sub-21 de Riad e Lisboa respectivamente, onde Portugal foi em ambas justo vencedor. A partir desta altura pensou-se que tudo estaria mudado no nosso futebol. A “geração de oiro” habituou (mal) os portugueses a ganharem jogos, todavia sem que essas vitórias se traduzissem em qualquer título sénior. Basta recordarmos o Euro2004…

Mas foi esta espécie de soberba que atirou Portugal para o rol das equipas que-nem-necessitam-jogar-para-ganhar. Este terá sido o primeiro grande erro dos jogadores, treinadores e acima de todos eles os dirigentes federativos. Assim que a tal geração de Figo, Rui Costa e João Pinto deixou de jogar, a qualidade da nossa selecção caiu vertiginosamente até assentar agora num nível quase sofrível, do qual vai ter alguma dificuldade em sair. E nem mesmo Ronaldo conseguirá inverter esta queda a que a nossa selecção está condenada.

Em Setembro inicia-se nova campanha. Desta vez é o apuramento para o Europeu de 2016 em França. O grupo de Portugal até nem é muito mau, todavia tendo em consideração o que se passou recentemente no apuramento para o Mundial, tudo pode acontecer.

Por isso, e à distância de alguns meses, urge redefinir vontades, desejos e apostas. Há essencialmente que renovar. Não só os jogadores obviamente mas prioritariamente as mentalidades de todos quantos trabalham no mundo do futebol. A começar pelo dirigismo desportivo que como é notório raia a mediocridade.

Sem esta profunda alteração de visão estratégica e não só, as futuras selecções portuguesas arriscam-se a uma longuíssima travessia do deserto. Gostaria que não!

 

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Manuel José precisa de óculos

 

De vez em quando ouço alguns sportinguistas dizer que Manuel José é que seria a pessoa indicada para conduzir os destinos da selecção nacional de futebol. Pensei hoje nessas opiniões ao ler no Record uma catilinária deste treinador contra o nosso William Carvalho. Sim, contra o William - que ele aponta como um dos piores elementos do Portugal-Gana de ontem. A par de Éder, vejam lá.

Diz ele, textualmente: «Não gostei da exibição de William Carvalho. Falhou muitos passes e esteve apático, sem correr riscos. Também Éder me desiludiu. Tem muitas dificuldades técnicas e, no que diz respeito ao domínio de bola, esteve péssimo.»

 

Ao equiparar William a Éder, Manuel José dá a entender que mal reparou no desafio. Não pode ter visto o mesmo jogo que eu vi. Não pode ter visto o mesmo jogo que viu António Oliveira, que também nesta edição do Record, umas tantas páginas adiante, escreve o seguinte: «William Carvalho trouxe segurança à equipa e mostrou que a sua capacidade de recuperação de bolas fez imensa falta nos jogos com Alemanha e EUA. Era a melhor solução para a posição de trinco.»

Oliveira viu o mesmo jogo que eu vi. Tal como viu Vítor Pinto, ainda no Record, que avalia os jogadores um a um. Sobre William, escreveu isto: «Chegou a parecer ter pouca confiança por insistir no jogo posicional, onde foi importante como guarda-costas dos centrais nas segundas bolas. Todavia, também foi uma solução fiável como ponto de apoio para o início de construção e cumpriu.»

E para não me ficar só pelo Record, transcrevo igualmente a apreciação que José Manuel Freitas faz de William na edição de hoje do jornal A Bola: «Face ao conservadorismo de Paulo Bento não esperávamos ver o sportinguista na posição 6. Fez bem o técnico em confiar-lhe o lugar, pois a sua serenidade, não a sua velocidade e é aí que deve apostar, trouxe a calma que o sector necessitava. O futuro da selecção nesta posição está garantido! Vamos vê-lo titular no Euro-2012.»

 

Todos viram o que Manuel José não viu. Conclusão: o ex-treinador do Al-Ahly precisa urgentemente de óculos com graduação muito forte. Apetece-me perguntar: é mesmo este homem que alguns sportinguistas gostariam de ver como seleccionador nacional?

Elas na história do Sporting (5): Conceição Alves

 

Conceição Alves, mais um nome gigante na história do Sporting e do atletismo português. Tal como as atletas a que foram dedicados os números anteriores desta série, Conceição Alves foi uma desportista que representou o Sporting a um nível elevadíssimo, muito difícil de atingir por qualquer atleta de qualquer modalidade, como facilmente concluiremos se prestarmos uma pequena atenção aos extraordinários resultados que obteve no decurso da sua carreira, tanto a nível individual como integrada em equipas do clube.

 

 

Conceição Alves, com a sua irmã gémea Manuela, também nossa grande atleta, para quem está reservado um próximo número destas evocações, veio para Portugal, oriunda de Moçambique, onde se distinguia com as cores do Desportivo de Lourenço Marques, e ingressou no Sporting em 1974, ano em que logo começou a dar nas vistas no salto em altura, disciplina em que viria a fazer-se notar, para a época e tendo em conta as limitações do atletismo português, num plano quase estratosférico. Naquele tempo, em que a especialização começava, no atletismo, a dar, entre nós, os primeiros passos, Conceição Alves conseguiu, ao longo de muitos anos de carreira, resultados excepcionais numa notável variedade de disciplinas. Muito sinteticamente, deixando, como tenho feito, a quem quiser uma relação mais pormenorizada, a indicação deste sítio, a que agradeço os elementos a seguir referidos, podemos destacar:

 

- foi campeã de Portugal dos 100 metros barreiras em quatro ocasiões, batendo várias vezes o respectivo record nacional;

- foi três vezes campeã de Portugal de salto em altura;

- bateu 12 vezes o record nacional da disciplina, fazendo progredir a respectiva marca de 1,61 m até 1,77 m, tendo esta última permanecido inultrapassada durante 9 anos;

- foi campeã de Portugal de salto em comprimento em duas temporadas, tendo também obtido três vezes o respectivo máximo nacional;

- foi, uma vez, campeã nacional do lançamento do peso;

- tendo-se dedicado, atendendo ao seu ecletismo, às provas combinadas, Conceição Alves foi, ainda, campeã nacional e recordista nacional do pentatlo e, depois, do heptatlo

e

- em pista coberta, obteve muitos títulos e máximos nacionais nos 60 metros barreiras, salto em altura e salto em comprimento.

Isto é apenas o essencial, o mínimo que podemos salientar na sua carreira, nem sequer refiro os contributos que teve para os muitos títulos colectivos do Sporting. Acrescentando uma especialidade às que acima menciono, poderíamos, por exemplo, dar o merecido relevo à sua participação em duas equipas do clube que venceram campeonatos de Portugal da estafeta de 4x100 metros. E poderíamos, também, destacar as muitas competições em que participou em representação do país.

 

Estes resultados e uma carreira devotada ao clube parecem-me mais do que suficientes para que incluamos Conceição Alves entre as grandes figuras da história do Sporting. Podemos ter a esperança de que este nome enorme não seja facilmente esquecido, tanto mais quanto tivermos em conta que lhe foram atribuídos um Prémio Stromp, em 1979, e, mais recentemente, em 2012, um prémio Rugidos de Leão. Mas é bom que, de vez em quando, relembremos a figura inesquecível de Conceição Alves entre as de grandes atletas do clube, praticantes de muitas modalidades, a que devemos a grandeza do Sporting Clube de Portugal.

 

Pelo seu contributo para a história de um Sporting com a dimensão que os seus fundadores sonharam e com a grandeza que nós, sportinguistas, queremos que se mantenha, uma calorosa saudação, de sincero reconhecimento, a Conceição Alves.

O dia em que Portugal "caiu fora"

Acabo de chegar da Casa de Portugal em São Paulo. Fui assistir sozinha ao jogo entre Portugal e o Gana.

Gosto de exercitar a dúvida - será que é mesmo assim? será que tudo está perdido? - e sou por natureza uma optimista. Acredito que há sempre um novo dia, vinte quatro horas em que nos podemos reinventar. E por isso quis acreditar num milagre. O taxista bem disposto lá foi dizendo "Portugal vai marcar, nê? Tem que" e me dá tchau com um sorriso do tamanhão do Brasil.

 

Embrulhada na bandeira, rodeada por "patricios", fiz promessas cabeludas - se a selecção se qualificasse beijaria todos os Manueis, os protagonistas das piadas sobre portugueses Brasil, que conheço - , coloquei um chapéu ridículo com um galo de Barcelos na cabeça - se todas as cartas de amor são ridículas o que dizer dos fanáticos (as) pelo futebol -  e desejei muito a vitória.

Desejar, verbo intransitivo, é a insatisfação que nos faz mover, estar a caminho. Mesmo sabendo que o Happy End pode não se concretizar resta a hipótese. Ainda que os momentos de felicidade escorram por entre os dedos como areia, sejam auto-golos, ou aqueles que o Ronaldo não celebrou (infelizmente porque aqueles abdominais deixam saudades). Aprendi com o meu pai, que chorava a cada golo, que os sonhos não devem ser desperdiçados.

 

Tantos se esquecem de viver o quotidiano, as pequenas alegrias, em troca dessa quimera chamada perfeição. Se a vida fosse um "comercial", um desses geniais da Skol, o "craque", transportando  a esperança de tantos na ponta dos pés, teria marcado, um e outro e outro golo fantásticos, levando ao êxtase as arquibancadas. Porém na vida, aquela a sério, não a do photoshop, há mais príncipes encantados a transformarem-se em sapos do que sapos a transformarem-se em príncipes encantados. Ou dito de outra forma, os dias são imperfeitos, como as famílias, os filhos - surpreendo-me sempre com o que sinto quando me despeço da minhas filhas e sobre como é possível gostar tanto, tanto - ou um grande amor. É essa imperfeição, são esses cantos que às vezes ferem que nos recordam que estamos vivos e nos fazem mover. Desejar, verbo intransitivo. Escolher como olhamos para a vida é um acto de liberdade.

 

E o que é isto tudo tem a ver com a Copa? Tudo. Porque "futebol se joga na alma./ A bola é a mesma: forma sacra/para craques e pernas-de-pau. /Mesma a volúpia de chutar /na delirante copa-mundo/ ou no árido espaço do morro".

 

O futebol é assim. Cheio de desimportâncias. 

 

Enfim, reconciliei-me com o Ronaldo. Lembro-me que o Baggio, o melhor do mundo em 1993, falhou o penalti decisivo contra o Brasil, Ronaldinho, o melhor do mundo 2005, não fez um único golo na Alemanha em 2006, Messi, o melhor do mundo(gassppp como me custa escrever isto) passou o Mundial da África do Sul sem marcar e viu a Argentina ser afastada pela Alemanha por 4 a 0. Para o Ronaldo "aquele abraço" e agora só tenho de resolver um dilema, uma vez que vou estar até à final no Brasil: apoiar esse amável Brasil (que amo tanto), apoiar a rainha má Alemanha (a minha pátria afectiva) ou torcer por um underdog ou uma underbitch (a Grécia não, a Grécia não).

 

Publicado também aqui

 

 

 

A ver o Mundial (17)

É a história de sempre, que faz o sortilégio e o drama do futebol: por vezes a barra de uma baliza atravessa-se na trajectória da bola e é quanto basta para reescrever toda a história de um jogo.

A verdade é que iam decorridos os primeiros 20 minutos do Portugal-Gana, dominados por completo pela selecção nacional, com duas hipóteses flagrantes de golo para o onze comandado por Paulo Bento.

A primeira, logo aos 5', resultou de uma incursão de Cristiano Ronaldo pelo lado direito: o capitão português fez um remate forte e bem colocado, sem hipóteses de defesa para o guardião ganês. A barra encarregou-se de travar a bola.

A segunda, também por Cristiano Ronaldo, ocorreu aos 18' após um grande cruzamento de João Pereira. Um tiro à baliza a que o guarda-redes correspondeu com uma excelente defesa.

 

Tudo poderia ter sido bem diferente. Até porque no Alemanha-Estados Unidos, que decorria à mesma hora, a selecção alemã cumpria o seu papel de favorita derrotando os norte-americanos, embora pela margem mínima - com mais um golo de Müller.

Precisávamos de uma goleada no estádio Mané Garrincha, em Brasília: quatro a zero ou a cinco a um.

Só marcámos dois.

E deixámos até o Gana assumir o controlo da partida nos últimos 20 minutos da primeira parte. Isto apesar de termos ido para o intervalo a vencer 1-0, graças a um brinde de um defesa africano, que viu um mau alívio transformado em autogolo.

 

Na etapa complementar, quando se impunha que tomássemos em definitivo as rédeas da partida, cedemos demasiado terreno ao Gana e sofremos alguns calafrios - desde logo o golo do empate, conseguido por espaço em excesso na lateral direita e deficiente marcação na zona da nossa defesa central.

Foi só aí que soou o alarme do tudo ou nada, tipicamente à portuguesa.

Paulo Bento - que enfim se convenceu a trocar Raul Meireles e Miguel Veloso por Rúben Amorim e William Carvalho no meio-campo - tardou demasiado em substituir o ineficiente Éder pelo acutilante Vieirinha, que ajudou a pôr os ganeses em sentido. Antes entrara Varela, que devia ter sido titular: nem sempre meia hora basta para o habitual talismã da selecção marcar o golo da praxe.

Desta vez não bastou.

 

Faltavam dez minutos quando Cristiano Ronaldo marcou finalmente o seu primeiro (e último) golo do Mundial, após excelente cruzamento de Nani. O número 7 teve a lucidez de não festejar: os minutos escoavam-se, havia mais que fazer. Tanto mais que tínhamos outro jogador lesionado, a somar-se a tantos outros: desta vez foi Beto, que teve de ser substituído na baliza in extremis pelo veterano Eduardo.

Se tivéssemos chegado aos oitavos, contaríamos com apenas um guarda-redes dos três que viajaram para o Brasil: este é, no entanto, um problema que Paulo Bento já não terá. Os "Conquistadores" regressam a casa com uma vitória tangencial, um empate esforçado e uma derrota copiosa. Quem os baptizou desta maneira revela fracos dotes proféticos: desta vez nada se conquistou.

 

Portugal, 2 - Gana, 1

 

.................................................

 

Os jogadores portugueses, um a um:

 

Beto - Seguro e concentrado, com bons reflexos e um par de defesas a merecer aplauso. Transmitiu confiança à equipa. Sem culpa no golo ganês. Lesionou-se e teve de dar lugar a Eduardo a poucos minutos do fim. Saiu lavado em lágrimas - símbolo da desilusão de todos os portugueses.

 

João Pereira - Voltou a ser irregular. Fez menos incursões pela sua ala do que Portugal precisava. Aos 18' protagonizou no entanto um dos melhores lances do encontro com um cruzamento perfeito para Cristiano Ronaldo: ia sendo golo. Depois foi-se apagando. Acabou por sair 61' por troca com Varela, passando Ruben Amorim a jogar na sua posição.

 

Pepe - Regressou ao onze titular após um jogo de castigo (contra os EUA). Esteve globalmente bem, antecipando-se quase sempre aos avançados ganeses. Mas teve uma falha de cobertura no lance em que os africanos empataram.

 

Bruno Alves - A melhor partida do defesa central neste Campeonato do Mundo, embora tenha revelado alguma descoordenação com Miguel Veloso na ala esquerda, que voltou a ser o nosso ponto mais fraco.

 

Miguel Veloso - Está sem ritmo competitivo, como ficou evidente no Mundial. Paulo Bento, no entanto, teimou em apostar nele - desta vez como lateral esquerdo titular. A posição não é estranha ao médio formado no Sporting mas exige-lhe uma mobilidade que de momento não tem. De qualquer modo, o lance do nosso primeiro golo nasce de um cruzamento da sua autoria. Deu também o habitual contributo nos lances de bola parada ofensivos, embora sem grande resultado.

 

William Carvalho - Demorou mas conseguiu: ao terceiro jogo do Mundial, o seleccionador finalmente colocou-o a titular. A presença do médio defensivo do Sporting foi um dos factores que levaram a que este desafio fosse, de longe, o melhor dos três que disputámos no Brasil. De uma das muitas recuperações de bola que concretizou no seu sector começou a jogada que terminaria no golo da vitória portuguesa.

 

Rúben Amorim - Começou discreto, revelando alguns problemas de articulação com Miguel Veloso por aparente falta de treino da solução táctica que o fez actuar na posição habitualmente destinada a Raul Meireles. Mas não comprometeu. E melhorou o rendimento na última meia hora, quando Paulo Bento o fez jogar a lateral direito após a saída de João Pereira.

 

João Moutinho - Um dos desempenhos que fizeram a diferença - para bastante melhor. Se Portugal tivesse jogado nas duas partidas anteriores com o Moutinho que esta tarde actuou em Brasília, certamente teríamos carimbado a nossa passagem aos oitavos-de-final. Hoje o médio do Mónaco voltou a ser influente e combativo, criando linhas de passe em mobilidade contínua. E teve um excelente apontamento técnico no lance que precedeu o primeiro golo. Soube a pouco, esta boa exibição quase ao cair do pano.

 

Nani - É daqueles jogadores que, mesmo com exibições medianas (como foi o caso), conseguem estabelecer sempre a diferença. Fez uma assistência impecável para o golo de Ronaldo e já no período complementar da segunda parte voltou a servi-lo da melhor maneira, com o capitão a desperdiçar o brinde.

 

Cristiano Ronaldo - A meio da semana fez declarações públicas dando já por terminada a participação portuguesa no Mundial quando ainda tínhamos este jogo por disputar. Falou cedo de mais, tal como antes tinha falado no tempo errado ao profetizar que este seria "o ano de Portugal". Nunca esteve - nem de perto - ao seu melhor nível no Brasil. O que ficou bem evidente neste jogo: marcou um golo (o 50º ao serviço da selecção), que nem festejou, mas podia ter marcado dois ou três. Pouca coisa lhe saiu bem. Às vezes o melhor é não falar tanto.

 

Éder - Já lá vão dez jogos na selecção e nem um golo para amostra - o que, convenhamos, é algo estranho para um avançado. Paulo Bento insistiu em tê-lo como titular. Mas a aposta saiu-lhe furada, uma vez mais. O bracarense foi o elo mais fraco do onze português: quase nada lhe saiu bem. Substituído aos 66' por Vieirinha. Já saiu tarde.

 

Varela - Entrou aos 61'. Três minutos depois estava já a fazer um cruzamento muito bom, servindo Ronaldo na área. Trouxe mais dinamismo e ousadia ao ataque português. Ficou a sensação de que devia ter entrado muito mais cedo num jogo em que precisávamos não só de ganhar mas de marcar vários golos.

 

Vieirinha - Porque permaneceu tanto tempo no banco? Entrou aos 66', para o lugar de Éder, e deu mais profundidade do ataque português, embora nem sempre da forma mais esclarecida.

 

Eduardo - O nosso guarda-redes titular do Mundial de 2010 jogou hoje alguns minutos, rendendo Beto, lesionado à beira do fim. Não chegou a fazer qualquer defesa.

 

Cristiano Ronaldo: adeus, Mundial

Há sempre outra maneira de ver as coisas

Eu quero lá saber que a Costa Rica tenha passado a fase de grupos e Portugal não: a Costa Rica não conta, apurou-se neste Campeonato e volta a apurar-se daqui a cem anos, não faz parte da aristocracia do futebol, como faz Portugal, e por direito divino. É contra outros aristocratas que tais que nós nos batemos e foram eles que mais uma vez vencemos. A horrível Espanha, que ousou ganhar-nos há quatro anos, na África do Sul, e até andar para aí a dizer que era campeã da Europa, e do mundo, etc., caiu de borco, a madraça, a asna, a grotesca palhaça, logo ao fim do segundo jogo. A pérfida Inglaterra, que nos persegue desde o tempo do Jacky Charlton, e que em 66 se interpôs entre nós e as nossas aspirações naturais ao domínio do mundo (futebolístico; uma espécie de mapa-cor-de-rosa, se virmos bem), tombou ao fim de dois jogos e meio – isto é, ao fim do segundo ainda não estava eliminada, mas antes do terceiro já estava, graças à vitória da Costa Rica sobre a Itália no entrementes. Agora nós – e é isto que lhes dói – precisámos de três-jogos-três para irmos à nossa vida. Bem-hajam pois "Os Conquistadores" e viva a nossa Federação, a cerveja Sagres e os supermercados Continente! Bom, e agora que a nossa pequena competição particular contra o inimigo convencional e a mais velha aliada terminou, e logo da melhor maneira, vamos ver o Mundial a sério, que já é tempo. Venham os oitavos!

Acho que é isto a que se chama Terceiro Mundo

Jose Mujica, presidente do Uruguai, saiu em defesa de Luis Suárez, dizendo que o avançado também sofre muito nos jogos e "não se queixa". Para o presidente do Uruguai, Suárez não entrou na convocatória para para ser "filósofo, mecânico ou para ter boas maneiras". Mujica reforçou que Suárez "é um bom jogador" e alegou que não o viu morder ninguém.

Resta saber se a FIFA, no seu afã de promover as equipas americanas neste campeonato (o que, de resto, se viu no jogo com a Itália, com a incrível expulsão de Marchisio e a manutenção em jogo de Suárez), acrescenta mais uma camada de terceiro-mundismo à história não punindo severamente Suárez.

A ver o Mundial (16)

1. Prioridade máxima hoje para Portugal no decisivo jogo contra o Gana: ter a melhor frente atacante possível com estes jogadores que foram convocados para o Campeonato do Mundo. Cristiano Ronaldo deve jogar no eixo do ataque, fixando os frágeis centrais ganeses, com Nani e Varela a extremos. Todos têm provas dadas nestas posições. Não é o momento para experimentalismos com avançados como Éder, que promete muito mas ainda não marcou nenhum golo pela selecção. E muito menos é o momento para apostar em jogadores sem rotinas e notórios problemas de ordem física, como foi o caso de Postiga - o mais clamoroso erro de casting da partida anterior.

 

2. Aproveitar Cristiano Ronaldo nesse lugar potencia a dinâmica posicional do jogador, que tem tendência natural de flectir da ala para o centro. Imaginar que ele seria um extremo puro, encarregado também de missões defensivas, como sucedeu nas partidas anteriores, é ignorar as suas características e a própria condição física de Ronaldo - muito longe dos 100% apregoados antes do início da participação portuguesa no Mundial. Contra os EUA foi sempre preciso haver um médio a fazer dobra à ala, em missões defensivas, descurando o processo ofensivo, e nem assim as coisas funcionaram. Pareceu sempre que jogávamos com menos um elemento no meio-campo.

 

3. Outra prioridadade máxima: reforçar a nossa lateral esquerda. No jogo contra os EUA todos os ataques adversários ocorreram por este flanco. Com o mais que previsível regresso de Pepe ao eixo da defesa (embora eu preferisse Neto porque para mim Pepe não voltaria a jogar neste Mundial depois do que aconteceu no jogo com a Alemanha), a lateral deve ser confiada a Ricardo Costa, um dos raros portugueses que cumpriram a missão que lhe foi destinada contra os EUA, tendo aliás já jogado nesta posição. É um reforço de segurança, solidez e maturidade do nosso reduto defensivo.

 

4. William Carvalho, que tão boas provas deu na segunda parte do jogo anterior, é presença obrigatória como médio defensivo. Recupera bolas, participa na primeira fase do processo ofensivo, funciona como um baluarte à frente da defesa sem nunca perder a posição. Só a proverbial casmurrice de Paulo Bento foi adiando a sua presença em campo como titular, o que só agora deve suceder dada a manifesta incapacidade do trio Veloso-Meireles-Moutinho, o nosso elo mais fraco nos dois jogos anteriores.

 

5. Portugal - não esqueçamos - está classificado na quarta posição do ranking da FIFA. Já atingimos as meias-finais de dois Campeonatos do Mundo e no último Europeu fomos semifinalistas, tendo sido derrotados pelos campeões do Mundo na marcação de pontapés de grande penalidade. Esta é a realidade, que convém lembrar aos mais desmemorizados, que ao primeiro desaire - à boa maneira portuguesa - logo se apressam a apedrejar quem já foi capaz de revelar mérito noutras circunstâncias. Precisamos de derrotar por três golos de diferença a selecção do Gana - classificada muito abaixo de nós no mesmo ranking, exactamente na posição 37.

Não é preciso milagre algum para conseguirmos uma vitória expressiva: basta entrarmos em campo com os melhores jogadores, adaptando-os à táctica mais adequada.

Só isso. E esperar o resultado do encontro Alemanha-EUA, que se disputa à mesma hora. Aí - e só aí - é que já não depende só de nós.

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