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És a nossa Fé!

Mais um derby

Tenho muitos amigos que exibem uma especial repugnância pelo benfica, levando-os mesmo a declararem-se anti-benfiquistas. Não consigo entender essa atitude. Ora, sendo este benfica, inegavelmente, o clube de futebol com mais acólitos, na realidade só me é dado contactá-lo ao vivo quando vem a Alvalade jogar com o Sporting. No resto tenho-o na conta de uma curiosidade intrigante, com os seus rituais bigodes hirsutos e os seus garrafões, e o seu ethos ancien régime, tão bem descrito por um famoso prosélito da seita: "o  benfica é um clube fino e popular ao mesmo tempo." Hoje, que Portugal integra o grupo de sociedades maioritariamente formadas pela classe média, já ninguém usa o termo "fino" para designar a caduca nobreza, nem se revê nesta divisão entre fidalgos e populaça - a não ser um benfiquista. Mas nada disto tem grande importância, a não ser para eles, pelo que não é de molde a suscitar aversão. É deixá-los lá com as suas teimas e manias, se isso lhes dá conforto.

É verdade que muitos adeptos dessa agremiação desenvolveram um sectarismo que os torna incómodos em qualquer círculo civilizado. Por motivos difíceis de discernir fora da psiquiatria e da sociologia, mas bastamente explicados por estas ciências, os sequazes do clube da luz têm um pendor incontinente para o complexo de superioridade e para a mistificação, duas patologias neuróticas que ao fim do dia merecem mais compreensão do que contestação. Eles inventaram uma data de nascimento para o seu clube de modo a parecerem mais antigos, como se a idade fosse um posto ou trouxesse respeitabilidade; eles foram o melhor e mais acalentado espelho do Portugal colonial salazarista, embora imaginem ter pertencido a uma qualquer oposição à ditadura (mesmo quando tiveram um Marquês feudal como presidente ou quando bateram inapelavelmente uma Académica de luto contestatário numa final da Taça, ou quando as polícias foram complacentes, senão benignas, com uma invasão de campo num jogo contra o Belenenses, que houvera cometido a ousadia de estar a ganhar na luz); eles converteram o seu clube numa espécie de símbolo patriótico ou mesmo existencial, o que não passa de um singelo mecanismo de compensação e transferência ao alcance dos pobres de espírito, que encontraram no fulgor das camisolas vermelhas um escape para as suas tristezas cotidianas.

Visto por outro prisma, o "benfiquismo", chamemos-lhe assim, é não mais do que uma declinação da piedade religiosa. Ora se temos o dever cívico da tolerância de culto, então o dito "benfiquismo" não será mais perturbante do que o fervor dos primitivos cristãos, ou dos xiitas ou dos pentencostais texanos. Nada disto nos deve suscitar asco ou inquietação, desde que o ritual decorra livremente lá entre eles e não perturbe o nosso sossego.

O benfica é um fenómeno, se quisermos ser husserlianos, ou uma catástrofe, no sentido que lhe dá René Thom. Uma pessoa sensata não tem como justificar estados de alma em relação a tais qualidades meramente estruturais. 

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