Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

És a nossa Fé!

Benfica TV

O negócio da Benfica TV, ao adquirir o exclusivo da transmissão televisiva dos jogos do Benfica no campeonato da 1ª Liga, permanece envolto, sem que pareça existir, da parte de quem quer que seja, a mais pequena intenção de o dissipar, num conjunto muito vasto de dúvidas, perplexidades e confusões, que, de vários pontos de vista, do ético ao jurídico, do económico ao desportivo, só ganharia em ser devidamente esclarecido. A maior parte, se não mesmo a totalidade, das questões que  passo a enunciar foi já aflorada nalguns comentários mais ou menos exaustivos publicados na imprensa, generalista e desportiva, mas penso que só temos a ganhar se forem feitas mais algumas reflexões em redor deste assunto:

 

1. Grande parte das opiniões que tenho lido e ouvido congratula-se, pelo menos, com o que considera ser o fim de um monopólio. Não obstante a minha convicção de que em quase todos os sectores da nossa vida em comum, a que a televisão não escapa, a sociedade, os cidadãos e os diversos agentes económicos só retiram vantagens de um ambiente competitivo, pergunto-me se, realmente, na presente situação, estamos perante o tipo de concorrência que todos, ou quase todos, desejamos. Devo dizer que, do ponto de vista técnico-jurídico, esta matéria me é totalmente estranha e me parece envolta numa complexidade que não me considero, assim de repente, capaz de desenredar. Reconhecendo, portanto, já que ninguém parece ter levantado a questão, que o regime jurídico que disciplina a matéria não tem, desde há longos anos e quanto ao que aqui me traz, sido vítima de evidentes atropelos, não deixo, enquanto cidadão, de pensar sobre o  conceito de concorrência que subjaz a todo este negócio e a esta partilha de audiências. Não sendo eu especialista nesta matéria, repito, tão complexa, do ponto de vista técnico-jurídico, que apenas me permito exprimir-me com fundamento em reflexões pessoais destituídas de qualquer pretensão científica, parece-me que, doravante, a situação não divergirá muito daquela que tínhamos até agora. Ou seja, em termos práticos, a SportTV vai continuar a ter o monopólio da transmissão do campeonato da 1ª Liga, com excepção da dos jogos do Benfica em casa, da de mais uma série de campeonatos de vários  países, da NBA, da Nascar, da NFL e por aí fora e a Benfica TV vai ter, pelo menos, o monopólio da transmissão dos jogos do Benfica em casa e dos do campeonato da 1ª Liga inglesa. O que é que, de facto, muda para o consumidor? Se há mudança é para pior e, ironicamente, ainda mais, como é óbvio, para os adeptos benfiquistas. Mas não só. Imagine-se uma família em que haja benfiquistas e sportinguistas ou benfiquistas e portistas ou qualquer outra combinação em que estejam presentes apaniguados dos nossos vizinhos e rivais. O problema só se resolverá, assim haja capacidade financeira para tanto, com a subscrição de dois canais desportivos. 

 

A questão, do ponto de vista dos cidadãos consumidores, só encontraria solução se o regime jurídico aplicável, em matéria de concorrência, impedisse que qualquer serviço de programas pudesse adquirir o exclusivo da transmissão dos campeonatos e desportos que fornece ao público. Imagine o leitor que, ainda por cima, a ZON negociava a distribuição em exclusivo da SportTV e que a MEO fazia o mesmo relativamente à Benfica TV. Em que ficávamos? Para ter acesso à programação da SportTV e da Benfica TV, o público interessado, no essencial os benfiquistas, teria necessidade, também, de contratar os serviços de dois operadores de distribuição? É possível, é essa a minha opinião, que uma concorrência como a acima delineada, ou seja com a possibilidade de negociação da transmissão dos jogos por todos os canais interessados, sem admissibilidade de  contratação de exclusivos, se tivesse viabilidade jurídica, o que, aparentemente, não acontece, acabasse por ferir  gravemente liberdades económicas muito mais relevantes do que o interesse do público - trata-se de mero interesse do público e não de interesse público -  em assistir a todo e qualquer jogo de futebol, por importante que este seja. O que, em todo o caso, não percebo é a satisfação de tantos com o fim de um monopólio, quando a alternativa não traz vantagens a nenhum consumidor do produto televisivo. Pode trazer vantagens para o Benfica, isso é óbvio e legítimo. Mas, para os consumidores do futebol televisionado? Como? Só se puséssemos a hipótese inverosímil de a dimensão do número de assinantes da BenficaTV ser de tal monta que fizesse baixar o preço da SportTV até um nível que colocasse as duas subscrições, em conjunto, no valor actualmente cobrado por esta última. Alguém acredita nisto?

 

2. Outra questão importantíssima prende-se, como tem sido amiúde apontado em variadíssimos comentários, com a fidedignidade a atribuir à escolha das imagens e à sua montagem. Para além de todas as especulações que possamos fazer, e é lícito que as façamos, sobre a capacidade das televisões para influenciarem o curso dos campeonatos, as condições psicológicas das equipas, as opções dos treinadores e muito mais que queiramos imaginar, estará sempre presente a possibilidade de a Benfica TV ter de testemunhar sobre actos que, directa ou indirectamente, digam respeito aos interesses do clube. Estou obviamente a referir-me àquelas situações em que as imagens servem de prova para determinados efeitos, disciplinares, por exemplo. Sem querer pôr em causa a honradez dos jornalistas e demais profissionais chamados a exercer funções neste canal, a verdade é que muito dificilmente estaremos dispostos a aceitar, em circunstâncias idênticas, o testemunho de partes interessadas. Algum leitor tomará como bom o testemunho, sem possibilidades de contraditório, como é o caso das transmissões de que falamos, do outro envolvido num acidente de viação, mesmo que este lhe mereça toda a consideração pessoal? Não quero com isto dizer que as imagens da SportTV ou de qualquer outro canal devam ser, sem mais, encaradas como uma escritura. Mas, em todo o caso, são muito mais passíveis de escrutínio e qualquer manipulação será incomparavelmente mais difícil do que num qualquer canal dominado, ainda que inconscientemente, pela fé clubística.

 

A acrescer a isto e independentemente da confiança que tenhamos nas qualidades morais e deontológicas dos jornalistas e restantes trabalhadores envolvidos nas transmissões, não posso deixar de me inquietar, quanto aos primeiros, com uma marca extravagante do seu comportamento habitual, quando estão em causa equipas portuguesas ou a selecção nacional em confronto com equipas ou selecções estrangeiras: consideram-se desobrigados do mais elementar respeito pelos deveres fixados no Estatuto do Jornalista, abandonando desassombradamente quaisquer preocupações com o rigor, a isenção, a independência e outros valores fundamentais da actividade, que, todos em conjunto, fazem da sua profissão um pilar essencial e inescapável de qualquer sociedade moderna, livre e democrática. Ainda não há muito tempo, assisti à escabrosa transmissão, já não sei de que canal, de um dos jogos das meias-finais da Liga dos Campeões (Champions, para os poliglotas e novos-ricos), entre o Real Madrid e o Borussia Dortmund. A barbaridade, pela parcialidade e entusiasmo madridista, era tal que um ou o, já não sei, jornalista responsável pelos comentários se viu obrigado a esclarecer, consciente da falta de vergonha do seu desempenho, que essa atitude devia ser entendida como natural, atendendo à profusão de treinadores e futebolistas portugueses em jogo. Quer dizer, para este jornalista, o facto de se tratar de equipas portuguesas contra estrangeiras justificaria plenamente, por maioria de razão, o desprezo despreocupado e isento de remorsos pelos deveres a que acima fiz referência. Tendo em conta tal tipo de desprendimento deontológico, não nos será lícito recear a interpretação que os jornalistas, ainda que de boa-fé, venham a fazer dos seus deveres profissionais, face à relação contratual com a entidade empregadora, a BenficaTV?

 

3. Outro aspecto que não pode deixar de ser tido em conta é o da relação que vai estabelecer-se entre o Benfica e os clubes, se é que vai haver algum, mas isso é sempre possível, que venham a celebrar contratos para a transmissão dos jogos com a Benfica TV. A situação é tão gritante, quanto às suspeições que podem ser levantadas, mesmo que sem razão, que dispensa bem argumentação mais cuidada. Para avaliar o clima que é possível vir a estabelecer-se em determinadas circunstâncias, cuja previsão nem sequer exige grande esforço imaginativo, pense-se no cortejo de acusações, suspeitas, insinuações e mais armas da retórica guerreira do futebol português que aparecem, quase diariamente, como corolário de acontecimentos, palavras ou actos aparentemente muito mais benignos.

 

4. Por último, vou referir-me a um assunto que considero extremamente importante e que me parece justificar, na devida altura, um post autónomo. Falo da controvérsia em torno da negociação global ou individualizada dos contratos para a transmissão dos jogos do campeonato. Sei que se trata de questão muitíssimo polémica, que justifica uma discussão aprofundada, mas, aproveitando o pretexto destas reflexões sobre a Benfica TV, vou expondo, sem fundamentalismos, o meu entendimento quanto à matéria: atendendo  ao peso que a televisão assume na vida financeira dos clubes, o essencial das decisões não deve ser deixado à capacidade negocial de cada um, sob pena de se acentuar, cada vez mais, uma desigualdade impeditiva de uma verdadeira competição. Se queremos um campeonato fortalecido e a elevação do nível do futebol português, penso que a regulamentação de todos os seus aspectos  deve procurar um equilíbrio, desde logo financeiro, que, de resto, contribuirá, pelo menos, para dar muito mais significado e brilho às vitórias. Veja-se, por exemplo, o caso dos desportos mais notoriamente típicos dos Estados Unidos da América, em que as preocupações com esse equilíbrio são de tal monta, que, muitas vezes, estou a pensar na NBA, somos levados a suspeitar de que há equipas que, perdidas por cem, perdidas por mil,  preferem uma classificação tão má quanto possível, por forma a serem as maiores beneficiárias dos critérios de escolha de jogadores para os anos seguintes. Não partilho estes exageros, mas tenho a certeza de que, se fosse Mike Tyson, não ficaria contente por dar sovas sobre sovas em meninas de 45 Kgs. E, mesmo que ficasse, duvido que tirasse daí grandes dividendos e que merecesse o respeito de grandes massas de adeptos.

 

Que o Benfica não se preocupe com estas questões ou não dê conhecimento público das suas inquietações, parece razoável. Defende os seus interesses e, como é de desejar, não somos obrigados a pensar todos da mesma maneira. Mas, o resto? Com uma ou outra excepção, não têm sido ouvidas grandes posições sobre esta matéria. Porquê?

Comentar:

CorretorMais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

{ Blog fundado em 2012. }

Siga o blog por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Pesquisar

 

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2017
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2016
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2015
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2014
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2013
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2012
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2011
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D