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És a nossa Fé!

Virar de página no 'Record'

Leio jornais desde criança. Em casa dos meus pais entravam pelo menos dois periódicos, dia após dia: de manhã o Diário de Notícias, à tarde o Diário Popular. Mais o Jornal do Fundão, uma vez por semana. E revistas - a Flama, o Século Ilustrado, às vezes a Vida Mundial.

Numa casa onde sempre se leu muito, havia espaço para tudo - livros e jornais. Onde não faltavam também os diários temáticos, com destaque para A Bola e o Mundo Desportivo. Ainda me recordo com orgulho dos recortes de textos do meu pai, como colaborador esporádico d' A Bola, então um dos monumentos da imprensa portuguesa.

Mantive-me como leitor d' A Bola durante a década de 80 e continuei a acompanhar o jornal até ao início da década seguinte, quando se assistiu à rotação geracional da direcção e da redacção, acompanhada da progressiva "benfiquização" da sua linha editorial.

 

Um dia, já não me lembro bem quando, cansei-me de vez. Foi um processo gradual, de crescente divórcio com aquele conteúdo que fui sentindo como permanente agressão a quem, como eu, não comungava da fé benfiquista.

O jornal perdeu um leitor assíduo, fiquei um par de anos sem acompanhar regularmente a imprensa desportiva. Até que, em meados de noventa, retomei o hábito, desta vez passando a ler com frequência o Record, que atravessava a sua melhor fase com um conjunto de jornalistas que pensavam bem, escreviam melhor, percebiam de futebol e abordavam o fenómeno desportivo sem prejuízo das convicções clubísticas de cada um.

Eram outros tempos, ainda longe da crise actual. Com grandes tiragens, presença contínua de enviados especiais nos mais diversos palcos desportivos e uma vontade indómita de conquistar leitores para destronar a monolítica liderança d' A Bola, que já então vivia sobretudo da inércia da fama, sem se adaptar aos novos desafios provocados pela radical alteração de hábitos de consumo.

Fui leitor regular do jornal durante seis ou sete anos - até essa equipa directiva se dissolver por circunstâncias várias e emergir uma outra que nunca me pareceu ter a mesma vitalidade. Mesmo assim, e na comparação com a concorrência, não tive dúvidas: o Record tornara-se o melhor título da imprensa desportiva portuguesa. E foi com essa certeza que voltei a comprar diariamente este periódico, nos últimos 18 meses.

 

Vem tudo isto a propósito do novo ciclo do jornal, hoje inaugurado, com João Querido Manha como director. Não me esqueço de que ele integrava a direcção que nos anos 90 me conquistou como leitor do Record - desde logo por não temer enfrentar aquele que era então, como ainda é hoje, o "papa" do futebol português.

Como leitor atento e regular, espero não ver doravante neste diário uma deriva benfiquista que desvirtue as solenes promessas hoje consagradas no novo estatuto editorial do jornal, que promete "abordar os acontecimentos exclusivamente pelo seu valor jornalístico", regendo-se por "critérios jornalísticos de rigor e isenção", e fazendo "uma distinção entre as notícias, a análise e a opinião".

É, portanto, uma saudação que aqui deixo ao novo director do Record. Com votos de bom trabalho e muito sucesso. E a certeza de uma exigente expectativa da parte de todos nós.

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