21 Jul 17

Fiquei deliciado ao ler o texto inicial de Pedro Azevedo onde fala do seu ídolo, essa glória do Sporting que foi Yazalde. Não tenho memória de o ver jogar, as minhas memórias são posteriores, pelo que me socorro de outros olhos para imaginar o que teria sido:

 

« O cheiro, a adivinhação e o timing são o jogador. Yazalde estava de costas - e voltava-se para fazer o golo: o golo já ia quase feito na maneira de rodar o corpo, o pé e a bola tinham encontro marcado -, o futebol tem essa triunfante fatalidade.»

 

In: MACHADO, Dinis - A liberdade do drible : crónicas de futebol. 1ª ed. Lisboa : Quetzal, 2015. p. 32

(texto original no jornal A Bola Magazine de 16 de Outubro de 1993)


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Num outro espaço onde o Pedro Correia escreve, publicou um texto onde fala sobre as declarações «arraçadas» de xenófobas de um candidato autárquico.

Nos comentários a esse breve texto, alguém lhe pergunta: «se o Sr. Ventura fosse do seu Sporting, mereceria a mesma crítica?»

A propósito desta confusão, entre política e desporto, é bom ter presente os ensinamentos de José de Alvalade:

 

«Caridade, sim! Política, não!

 

Os tempos andavam conturbados. Sabia-se que, no Sporting, havia uma facção monárquica assumida. José de Alvalade tratou, de entrada, de separar a política e o desporto.

 

Evangelismo ou caridade, sim. Política ou politiquice, não. Era preciso separar o trigo do joio. E evitar envolvimentos, numa época em que o Rei D. Carlos tinha já a cabeça a prémio, a Carbonária misturava o ódio à Monarquia com a luta de classes, todos os dias eram dia de espera de uma revolução que, enfim, restaurasse a República. Por isso, estrategicamente, apesar de alguns dos seus fundadores serem monárquicos de estirpe e assumirem-no, os fundadores do Sporting colocaram, nos seus estatutos, em jeito de ponto de honra preceituavam “as casas e terrenos do clube nunca, sob qualquer pretexto, poderão ser cedidos para comícios políticos ou de outras reuniões que não sejam a apresentação dos exercícios a que o clube se destina”. E mais se determinava que nas “salas e dependências do clube ou em qualquer parte onde os sócios como tais se apresentem, é dos mesmos rigoroso dever o respeito pelas instituições vigentes, sendo-lhes expressamente proibido quaisquer discussões ou manifestações acerca de política militante”.»

 

In: Glória e vida de três grandes. A Bola, 1995, pp. 10-11


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20 Jul 17

«Aspirou a ser toureira, mas viria a consagrar-se no atletismo do Sporting Club de Portugal porque o Benfica lhe trocara o sexo, inscrevendo-a como Lídio...»

 

«Nasceu a 15 de Agosto de 1942, numa bucólica terreola das cercanias de Torres Vedras, chamada Dois Pontos. Aos dois anos ficou órfã de pai. Aos sete tinha fama de menina esgrouviada, sonhando ser... toureira. Manuel dos Santos era o seu ídolo e nas suas brincadeiras imaginava-se a matar touros. Menina e moça veio para Lisboa, para viver em casa da tia Belmira. Entrou para uma escola de música, para aprender a tocar acordeão. Passava as aulas que adorava a correr e saltar. O professor decidiu inscreve-la no Benfica(…). Até que um dia lhe surgiu pelo correio um cartão solicitando que se deslocasse ao Campo Grande para testes de atletismo. Eufórica, foi. Chegou e sentiu que causara espanto, sem sequer se perceber que fora convocada como... Lídio Faria. Disseram-lhe que, assim, não podia ser, que o Benfica não tinha atletismo feminino. Acabou por experimentar o Sporting. Tinha 17 anos. Entre 1959 e 1970, ano da sua despedida (com uma festa à futebolista, façanha de que nenhuma outra atleta se poderá ufanar), ganhou 30 títulos de campeã nacional em oito especialidades (100 metros, 200 metros, 400 metros, 80 metros barreiras, lançamentos do peso, lançamento do disco, 4x100 metros e pentatlo), sendo recordista nacional e ibérica em todas essas provas. Em 1964, durante um Portugal-Espanha, numa só tarde venceu cinco dessas provas e estabeleceu outros tantos «records» ibéricos. Um ano depois ganharia a prova do lançamento do peso nos Jogos Mundiais da Primavera, disputados no Rio de Janeiro.

(...) Receberia o Prémio Stromp para melhor atleta sportinguista de todos os tempos.»

 

In: Glória e vida de três grandes. A Bola, 1995, p. 198

 

Ler mais sobre Lídia Faria no texto que João Paulo Palha lhe dedicou na rúbrica «Elas na história do Sporting»


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Ontem transcrevi um texto sobre Cosme Damião como atleta do Sporting. Este texto gerou algumas “borbulhas” para alguém que o vê como imagem imaculada de um outro clube qualquer. Resta-me somente dizer: paciência.

Segundo a lógica daqueles que padecem desta variante de urticária, o facto de Cosme Damião vestir a camisola do Sporting era sinónimo de representar Portugal.

Pois nós. sportinguistas, sabemos isso. Para os mais desatentos relembro que este clube se designa Sporting Clube de Portugal e não representa um qualquer bairro de uma qualquer cidade deste país. Repito: Sporting Clube de Portugal.

Sobre este clube, o nosso clube, hoje transcrevo um texto de uma das suas referências maiores: Francisco Stromp.

 

«Ao fim da tarde [Francisco Stromp] aparecia no Café Martinho, umas vezes à paisana outras vezes fardado. Como “capitão” de equipa, era responsável pelo envio de muitas dezenas de postais convocando os jogadores para os jogos e para os treinos. Muitas vezes a mesa do Café Martinho se transformou em secretária do Sporting...

Enquanto à volta brilhavam os escritores e políticos do tempo (Machado Santos, Rocha Martins, Brito Camacho, Fialho de Almeida, Gualdino Gomes e D. João da Câmara) no Café Martinho, Francisco Stromp apenas se preocupava com o expediente do futebol “leonino”. Como diziam os colegas: “Nem namoro em política - a sua amante é o Sporting”»...

 

In: Glória e vida de três grandes. A Bola, 1995, p. 29


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19 Jul 17

«(...) E, abruptamente, os benfiquistas decidiram, a 16 de Setembro de 1914, suspender Artur José Pereira por seis meses (...). O Sporting recebeu-o no Lumiar. E, mais do que o gesto, ofereceu-lhe como retribuição certa 36$00 por mês, tornando-o assim no primeiro jogador não amador do futebol português - e com direito a outros privilégios, como por exemplo o de ser o preferido no uso de banho quente, luxo que só o Sporting tinha em Lisboa.

O episódio encarniçaria ânimos entre benfiquistas e sportinguistas, podendo dizer-se que dele nasceria mais fremente a rivalidade que pelo tempo fora (...)...

(...) Artur José Pereira, que Cândido de Oliveira, em 1945, considerou o melhor jogador português de todos os tempos (...)»

 

In: Glória e vida de três grandes. A Bola, 1995, p. 20

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Cosme Damião
AntónioF

«Cosme é convidado (juntamente com outros jogadores do Benfica) pelo Sporting para se deslocar a Huelva para um jogo contra esta equipa. (…) Por isso, [o Sporting] reforçou-se com alguns dos melhores futebolistas da capital. João Bentes, capitão do clube de Alvalade, convidou cinco jogadores das fileiras de outros clubes, incluindo Cosme Damião, jogador que se tinha vindo a destacar no panorama lisboeta, não só como futebolista, mas como desportista, capitão e organizador. (…). Foram convocados para essa aventura espanhola: Augusto Freitas; Henrique da Costa e Francisco Bellas; Cosme Damião (jogou a médio-direito), António do Couto e António B. da Costa; João Bentes (cap.), Luiz Vieira, Francisco Stromp, António Rosa Rodrigues e António Stromp.

O grupo português saiu do Barreiro no dia 25 de Agosto (sexta-feira), às 18:30, e chegou a Huelva, após uma longa viagem, no dia 26 (sábado), às 20:30. Equipados com o equipamento verde e branco leonino, o grupo (...) entra em campo no domingo, às 17 horas, vencendo com facilidade o conjunto espanhol por 4-0. A imprensa elogia a linha média dizendo que estes "ajudaram muito bem os forwards". E foi assim que Cosme Damião, provavelmente o maior símbolo do Benfica dos primeiros 50 anos da colectividade, vestiu a camisola do Sporting. Envergou-a com todo o respeito e dignidade, servindo o desporto e o país. Servindo, claro está, também o Sporting. Com integridade

 

Resta-nos a nós, sportinguistas, somente dizer: Obrigado!

 

In: SERRADO, Ricardo - Cosme Damião : o homem que sonhou o Benfica. 1ª ed. Lisboa : Zebra, 2010. p. 79

(nota: o sublinhado é meu)


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18 Jul 17

Porque ontem foi a apresentação oficial da Briosa, outra paixão, falo-vos do seu emblema.

 

«No losango quadrado do emblema da Académica, ergue-se, destacadamente, a Torre da Universidade, que se tornou o símbolo da Universidade de Coimbra.

Este emblema tem uma história, como conta Fernando Ferreira Pimentel, que o desenhou.

 

“Essas três letras e silhueta negras da Torre da Universidade, encaixilhadas num losango, esse conjunto tão singelo que nas lapelas, em bandeiras, alfinetes, automóveis, almofadas, azulejos e mil objectos variados se mostram por esse mundo além, representa a nossa Associação Académica, esse distintivo tão conhecido tem, afinal, uma história bem simples...

Até ao ano de 1926, o emblema que representava a Associação Académica nas festas ou cometimentos desportivos era uma capa de estudante erguida num pau ou num mastro de bandeira. Recordo-me, contudo, de ter existido, por essa época, um emblema de forma rectangular, encimado pela legenda “MENS SANA” e tendo como desenho um conjunto de figuras geométricas pretas e brancas, sem sentido, que alguns estudantes usavam na lapela, mas cujo significado, em relação à Associação Académica, nenhuma afinidade representava.

Na época de 1926/1927 - contou o Dr. Armando Sampaio - a ida do emblema começou a despontar e, num célebre desafio com o Sporting (...) o grupo da Briosa apresentou-se com emblemas na camisola “bordados por delicadas mãos de senhora”, emblemas esses em que figuravam apenas as letras AAC, mais ou menos, com a disposição e configuração aqui reproduzidas.

Como, porém, o resultado da pugna nos foi manifestamente desfavorável (só perdemos por 9 a 1) as culpas não caíram sobre o Armando Sampaio, o guarda-redes, mas sim sobre os estreados emblemas que, no regresso amaldiçoados, foram arrancados e votados ao ostracismo. (...)

Por essa altura eu desenhava, ou antes, rabiscava alguns bonecos e Armando Sampaio, conhecedor da minha mania do lápis, lembrou-se da minha pessoa para desenhar um emblema para a Associação Académica.

Animado pelo furor académico que sempre entusiasmava a rapaziada do meu tempo pus mão à obra e, com aquela inspiração que pelo menos uma vez na vida nos bate à porta e nos transforma em “génios”..., o distintivo surgiu num ápice. (...)

Depois, dando azar ou sorte, o emblema criou raízes, oficializou-se e ficou, com muita alegria minha (...)”»

 In: A Académica. 1ª ed : Lisboa, Edições Asa, 1995, p. 25

(excepto imagens)


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17 Jul 17

João de Vila Franca marcou o primeiro golo do Sporting.

 

«Nos finais de 1906, a população atlética do Sporting ampliar-se-ia (...). Era, enfim, a oportunidade de o Sporting, cuja primeira notícia surgiria na imprensa, muito discretamente, apenas a 23 de Dezembro de 1906, regularizar as suas actividades desportivas, resumidas a treinos durante o período de construção e organização das suas instalações. O pontapé de saída em Fevereiro de 1907. No dia 3. Num torneio de futebol (...) organizado pelo CIF, disputado no Campo de Alcântara, propriedade do clube que os Pinto Basto tinham fundado, na senda do Clube Lisbonense. Como primeiro adversário, o Cruz Negra, fundado em 1905, com campo atlético na Luz e dispondo, então, de um grupo de jogadores de certo modo tido como dos melhores de Portugal. (...)

O encontro entre o Sporting e o Cruz Negra, que “teve a presenciá-lo numerosa e ruidosa assistência, entre a qual se viam bastantes senhoras”, foi arbitrado por Pinto Basto (o introdutor do futebol em Portugal). O Sporting perdeu por 1-5. O primeiro golo “leonino” foi marcado por João de Vila Franca. Que era também um óptimo jogador de ténis.

 

Só em Maio, igualmente a 3, se disputou o jogo da segunda “mão”. E os sportinguistas, com uma equipa renovada - (...) oito dissidentes do Sport Lisboa, que tinham ajudado a fundar em 1904 e que abandonaram (antes de o clube se fundir com o Benfica, (...)) fascinados por poderem, enfim, contar com instalações dignas de verdadeiros futebolistas - ganharam. Para espanto de todos. E, num jornal da época, pôde ler-se: “O jogo desenvolveu-se com ofensivas alternadas. Por intermédio de uma passagem oportuna de Frederico Ferreira ao avançado Félix da Costa, este obteve um ponto, largamente aplaudido pela falange ‘leonina’. Ao cabo de uma exibição meritória, o Sporting acabou por vencer por 3-1. (...) Por parte do Sporting, salientaram-se Fritz [que apesar do nome poder não sugeri-lo era português de gema, chamava-se Júlio Nóbrega Lima, mas que, pelo cabelo exageradamente louro, tipo teutónico, era conhecido por essa alcunha], a defesa, Vila Franca e Shirley, nos avançados, e Borges de Castro, no eixo da linha de médios, onde se mostrou trabalhador e destemido, com um final de jogo prejudicado pelo grande número de ferimentos nos joelho.”»

In: Glória e vida de três grandes. s.l., A Bola, 1995, p. 13


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14 Jul 17

 «Abdelhak Nouri, jogador de 20 anos do Ajax que sofreu uma paragem cardíaca no fim de semana passado num jogo particular com o Werder Bremen, "tem danos cerebrais graves e permanentes", anunciou ontem o clube de Amesterdão através de uma nota oficial nas redes sociais.»

In: DN


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13 Jul 17

Ontem, o leitor Orlando Marinho num comentário a um texto meu, a propósito dos números imortais que envergaram a camisola, neste caso a número 1, do Sporting, escreveu:

«Provavelmente é a posição onde tivemos e continuamos a ter o privilégio de ver mais grandes jogadores e, dentro desses temos vários jogadores "Made in Sporting C.P.". Gostaria de acrescentar ao grupo alguns que, embora não tenham jogado no nosso clube, contribuíram para enriquecer o nosso futebol, tais como: Michel Preud'homme, Vítor Baía, Bento e Józef Młynarczyk»

Relembro uma crónica de Dinis Machado.

 

«Guarda-redes - o lugar e o risco

 

Apetece-me escrever acerca dos acerca dos guarda-redes. Nunca tive o prazer do lugar nas minhas andanças futebolísticas. Andei sempre na linha avançada, um bocado maniento do golo. E do drible. Quando, nos «treinos», fazia uma perninha na baliza, acabava-me com pouco jeito. Não tinha bem tempo de saída, nem a adivinhação ou a atenção concentrada que é um autêntico sexto sentido. E tinha (no fundo, era isso) o enorme gozo de jogar com os pés.

Nada disto impedia, antes pelo contrário, que sempre admirasse muito os guarda-redes, a sua particular vocação e a beleza e a emoção que davam ao jogo. E a valentia que mostravam. Por não me ver a atirar-me aos pés de um gal- farro com botas cheias de traves e ceguinho por fazer golo é que eu admirava os guarda-redes. Santa pachorra, a de levar, às vezes, pontapés na cabeça.

Estou a tentar explicar-me no jogo de há muitos anos. E diz-se, falando disto: o futebol perdeu alguma da sua inocência. E certo. Como em todas as actividades humanas da entrega pelo prazer no seu sinal de partida, na sua relação lúdica e pouco calculada com o objecto de satisfação, na sua naturalidade ainda não infiltrada de premeditações, o futebol nostálgico (passe o termo) lembra o amor à camisola e a vontade de fazer o jogo pelo jogo. Sabemos que se trata de uma ideia com alguns fundamentos, mas também aparece aqui o eco da distância que limpa um pouco os horizontes que ficaram para trás. E que já existiam tácticas (embrionárias, embora), mesmo no futebol escolar. Mas convenhamos: o futebol ainda não tinha entrado no laboratório, na grande congeminação. E não mexia com milhões de outras coisas. Era um pouco (como dizer?) «heroico».

Heroico. O jogador heroico (com aspas, é bom sublinhar), na sua noção simplista, existiu mesmo? Acho que sim, em certos aspectos. E ainda existe, também em certos aspectos. Por exemplo, os grandes habilidosos sujeitos a marcações impiedosas (hoje, até mais do que ontem). Mas também ressaltam diferenças. E volto aos guarda-redes.

Antigamente, defender a baliza requeria uma certa dose de coragem suicidária. Assumia-se o risco do lugar da maneira quase inconsciente. Os guarda-redes, para além dos atributos específicos de atenção e elasticidade, punham muitas vezes nas mãos do acaso a sua integridade física. Explicando-me melhor e como já disse um pouco atrás: atiravam-se aos pés. Evidenciavam uma certa bravata relacionada com as características especiais da posição.

Este «atiravam-se aos pés» (frase do vulgo), quando os avançados surgiam isolados, no momento do remate, foi responsável por muitos pontapés na cabeça. Havia, naturalmente, a irresponsabilidade do acto «heroico». O futebol deve ser um lugar de combatividade, mas não de perigo. Ai entrava a inocência de evitar o golo a todo o custo - e a obrigação de exibir essa inocência.

Hoje, os guarda-redes (até por razões naturais do progresso do jogo e das suas exigências científicas) são mais precavidos e calculistas. O termo é: profissionais, mesmo amadores. É certo que ainda encontramos razoáveis cultores desse excesso de temeridade. Ainda há guarda-redes que se «atiram aos pés». Mas as técnicas de defender a baliza sofisticaram-se: há uma utilização do corpo mais eficaz e menos perigosa, defendem-se mais remates com os pés, fecha-se melhor o ângulo, faz-se a mancha. A ligadura na cabeça ou, mesmo, o hospital ficam mais longe. Ainda bem.

A viagem do guarda-redes através dos tempos é, como tudo na vida, um caminho de aprendizagem. Enfim: aprende-se com os outros, escolhe-se pelo lado melhor. Se nos lembrarmos de que o futebol (ou o seu esboço) começou em antiguidades muito remotas, com guerreiros vencedores a utilizarem, como bolas, as cabeças dos adversários (a natureza humana é capaz, às vezes, de barbaridades quase inimagináveis), já não é mau chegarmos às portas do novo século com regras de prudência e de civismo. E há que melhorar, há sempre. Realmente, os pontapés na cabeça não fazem falta nenhuma no futebol. Para dar pontapés está lá a bola.»

 

In: MACHADO, Dinis - A liberdade do drible : crónicas de futebol. 1ª ed. Lisboa : Quetzal, 2015. p. 53-55

(texto original no jornal A Bola de 7 de Maio de 1994)


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12 Jul 17

O Pedro recordou que a camisola 7, após a saída de Figo, não tem trazido muita sorte a quem a vestiu. A razão disso sucessivamente acontecer, penso eu, é por ser uma camisola reservada, para quem seja oriundo, unicamente, da formação.

Quando isso acontecer temos craque!

Relembro que a camisola leonina do Cristiano Ronaldo teve o número 28.

Creio que o Figo terá sido o último número 7 do Sporting antes da personalização dos números na camisolas, quando os jogadores entravam em campo de 1 a 11.

 

Porém, para mim, existem dois números que serão eternos:

9 – do Manuel Fernandes;

11 – do Jordão;

e mais recentemente

8 - Pedro Barbosa.

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11 Jul 17

«A entrevista do juvenil contentamento

 

Era uma loja de artigos desportivos na Rua Nova do Almada. Eu e mais dois confrades da equipa de futebol do liceu entrámos (estou a ver-nos) bem tímidos, o gesto mal aplicado, a palavra incerta, em missão de formidável responsabilidade: entrevistar o dono da loja, figura relevante da constelação futebolística nacional, para o nosso jornal desportivo, escrito à máquina, com seis cópias tiradas a papel químico, que depois eram vendidas ao mais alto preço possível, quase em atmosfera de pequeno leilão, a fim de obtermos finanças para amortecer as despesas do aluguer dos campos e dos equipamentos para os jogos que fazíamos aos sábados e aos domingos. A entrevista saiu, creio, no número três, o último, tinha-nos falido a paciência e o tempo, e que também incluía noticiário sobre o nosso liceal clube e «comentário técnico» ao último desafio que tínhamos efec- tuado no nosso completamente amador, nada oficial e quase ilusório campeonato de futebol. Estou a lembrar-me. E parece poeira.

O entrevistado, bastante avançado no tempo como na equipa em que jogava, tratou-nos com uma deferência e uma atenção de primeira qualidade. Quebrou gelo, naturalizou o acontecimento, facilitou a tarefa, iludiu a admiração que manifestávamos, retirou o sobressalto à carga mítica da ocasião - e acabou por perguntar mais do que respondeu; perguntou da escola, dos sonhos e das vontades, de tudo e de nada. Eufóricos, dado que o impossível estava a acontecer, registámos os passos da conversa. O jornal onde tudo ficou escrito perdeu-se no lugar dos esquecimentos e das mudanças dos esquecimentos. Se algum de nós, fora eu, ainda tem um exemplar, e está a ler, passe-o ao herdeiro mais próximo: é património caloroso.

Dou ainda, de lembrança vaga, esboço do diálogo final.

O entrevistado:

- Já têm tudo o que querem saber? Depois, tragam- -me um exemplar.

Nós (quase em uníssono):

- Trazemos. Pode ficar descansado.

O entrevistado:

- Fazem uma entrevista em cada número?

Nós:

- Queremos fazer.

O entrevistado:

- Dou-lhes um conselho. Mudem de clube. Entrevistem, depois, alguém do Benfica, do Belenenses...

Nós:

- E isso que vamos fazer.

Despedimo-nos com aperto de mão. Crescemos um palmo e subimos a Rua Nova do Almada. Com uma mina de ouro no sentimento: levávamos, no papel, as palavras limpas e a simplicidade humana do comandante legítimo dos quatro violinos que jogavam à sua direita e à sua esquerda.

O senhor Fernando Peyroteo. (Chegado aqui, sei que os mais velhos que me lêem já tinham adivinhado, porque já sabiam.)

Fecho da efeméride: um dos nossos estafetas deixou, em tempo, um exemplar na loja.

Existirá ainda?»

 

In: MACHADO, Dinis - A liberdade do drible : crónicas de futebol. 1ª ed. Lisboa : Quetzal, 2015. p. 65-67

(texto original no jornal A Bola de 28 de Março de 1995)


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07 Jul 17

 

... seria uma óptima aquisição na época 2017/2018.


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Ter mais um jogador...

 

«À medida que o futebol vai sendo cada vez mais organizado e científico, é interessante verificar que permanece a herança da voz do peão para explicar, ou tentar explicar, o que se passa no terreno de jogo. Esse entendimento epidérmico com os elementos do espectáculo, a sua visão não encartada, continua a transmitir com agudeza os vários aspectos que se ligam à movimentação e às consequências de uma partida de futebol.

Movimentações e consequências: «Parece que têm mais jogadores.» Esta observação, por parte do espectador (e é frase que me lembro de miúdo) reflecte, bem à evidência, a superioridade de manobra de uma equipa sobre outra. Uma equipa em estado de superioridade global baseia a sua operacionalidade na força, na destreza, no melhor controlo de bola e na sua recuperação, na certeza do passe, na rapidez de execução, no facto de melhor fechar a sua baliza e procurar melhor a baliza adversaria. Daí, «parece que têm mais jogadores». Também outra frase, que tem que ver com esta, acaba por ser um raciocínio semelhante com palavras diferentes: «Sobra-lhes sempre um jogador.» Ouvi isto muitas vezes - esta tentativa de fixar, numa ideia, numa comparação simples, a diferença que se estabelecia entre os dois conjuntos. Com o aparecimento das tácticas, o WM, o libero (cá está o mais um forjado na estratégia), o 4-2-4 ou o futebol total, o objectivo é ocupar o terreno, controlar as zonas nevrálgicas e as mais influentes para o desfecho de uma partida. O raciocínio é este, embora um pouco simplista (na minha explicação, é óbvio): uma equipa que pretende dominar o adversário e os acontecimentos tentará ocupar todo o espaço do cenário, ter a bola, determinar o ritmo, criar condições para envolver o contrário, fazê-lo sair de jogo, remetê-lo ao seu meio-campo, meter a técnica em todo esse espaço criado, forjar oportunidades de golo, fazer golos. Assim, «têm mais jogadores», ou «sobra-lhes um». Essa peça sempre solta, que é uma espécie de excedente de capacidade para materializar, com o corpo de trabalho investido num labor perante o qual o adversário (e isto também é voz do peão) «chega sempre atrasado!!!».

Para compor o ramalhete, na explanação não especializada que estou a fazer (o escriba também é voz do peão) existem, ainda, os jogadores que introduzem a diferença e que emitem os sinais de qualidade e de improviso, que são suplementos activos no trabalho na evolução do jogo: os grandes controladores do meio-campo, os defesas quase inultrapassáveis, os guarda-redes que adiam resultados ou os dianteiros que ganham desafios. Aqui, a teoria de ter mais um já pode oscilar: depende da inspiração de alguns jogadores que podem alterar o curso normal de um desafio, por muito preparado que esteja antes de se fazer.

Conjunto e acção individual: desta simbiose, ou da sua oposição, constrói-se o rumo de um desafio de futebol. Felizmente para o jogo, para a surpresa do seu percurso e do seu desfecho, sobrar sempre um jogador na melhor equipa não lhe dá qualquer garantia absoluta de vitória. O futebol tem uma grande vocação dos movimentos imprevisíveis, dos lances incomuns e da escolha do acaso que o retiram, inexoravelmente, do universo da lógica.»

 

In: MACHADO, Dinis - A liberdade do drible : crónicas de futebol. 1ª ed. Lisboa : Quetzal, 2015. p. 49-51

(texto original no jornal A Bola de 6 de Fevereiro de 1996)


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06 Jul 17

Em tempos, num outro espaço do Pedro, coloquei este delicioso texto do Fernando Assis Pacheco.

 

"De como no Loreto o Peyroteo fez trinta por uma linha e o jogo acabou (pasmai, ó miúdos de hoje!) empatado cinco a cinco

 

O Peyroteo (os outros que me desculpem) era aquela máquina nos tempos em que o craque passeava a sua também excelente maneira de bola jogar pelos quintais conimbricenses, não de todos, é claro mas ainda assim os bastantes para que a memória se não haja apagado por inteiro. Evidentemente que um Peyroteo deixa sempre mais memória, por ter sido do Sporting e da selecção, e o craque apenas de Os Melhores da Rua Guerra Junqueiro e Arredores F.C., agremiação que da modéstia administrativa não chegou a passar (e promocional também: nunca se nos ofereceu nenhum construtor civil para presidente). Ora bem, fala-se, pois, de dois craques: o já conhecido do leitor e o maior, maiorzíssimo que o Eusébio, este aparecido providencialmente na era do marketing. Eis a comparação segue história.

A minha dessa altura amada idolatrada salvé Académica andava salvé erro ou omissão paralela bastante enrascada por causa de uns pontos que não vinham em domingos certos. Pois quem havia de calhar entrementes no campo do Loreto, propriedade do falecido Lusitânia? O Peyroteo. Idolatrada ia jogar ao Loreto pela simples razão de que se haviam registado uns azares que nem o demo explica (cf. Jornais da época). E com isto o ansiado prélio (cf. cronistas de agora) realizava-se de manhã, e por sinal manhã de sol, com um ventinho leve a dar nas bandeirolas de canto. Apropinquei-me na bancada central, levado pelo já referido e infatigável e jamais igualado tio Artur: no bolso direito da camurcine um papo-seco barrado a gostosa manteiga.

«Ganhámos ó quê?», quis o craque saber.

«Ó quê», regougou Artur, o tio."

Pois toma, foi mesmo ó quê. A Académica a marcar golos, o Peyroteo a empatar de cada vez que o seu (de verde escuro) guarda-meta Azevedo chupava mais um. Assim: avança a Académica, enleia o adverso, troca a chincha de um para outro jogador, aproxima-se da baliza, pode marcar, pooode marcar maaarqué golo! E logo a seguir: avança o Peyroteo, faz uma finta, aplica uma gambeta, dribla um, dribla dois, volta atrás e dribla-os novamente, arranca, marca, não marca, ainda não marcou, agòraèqué ó minha mãe e bumba, foi. Ajudem-me quantos se lembram – FORAM CINCO A CINCO, NÃO FORAM? Pasmai, ó miúdos de hoje, e repasmai, e contrapasmai se quiserdes, que aquilo parecia um pasma de guarda a galinheiro. Do lado de cá onze em preto viúvo, do lado de lá o Peyroteo e, a ajudar o Peyroteo, dez manos jeitosos mas nem por isso (os manos que me desculpem – isto na memória embrulha-se a cada passo e acontece sermos menos verdadeiros).

O tio Artur estava passo. Olhava-me, eu olhava-o, e agora era ainda o intervalo, aí com alguns três a três.

«Deixam-no sozinho», fez o tio.

«A mim», admirei-me. «Atão o meu pai só me deixa sair consigo!»

«Gaita», fez o tio diferentemente. «Não és tu, é o Peyroteo.»

São vidas, pensei.

Vidas de craque. Pois na segunda parte a máquina carburou ainda melhor, aplicou desconhecidas novas gambetas na malta, fingiu que corria, driblava, não driblava, e sempre bumba, bumba, bumba prà baliza da Académica, cujo n.º 1 (neste século recuado não havia números) se punha a rezar a um deus desconhecido, como o protagonista do John Steinbeck. Cinco a cinco! Há lá resultados destes no futebolinha coisa pouca de 1972?

Voltei a para casa contente: contente por ter visto o Peyroteo, aquela super-máquina de jogar a bola. E triste: triste por chegar ao quintal do Luís Marques, agarrar na mini-borracha, ensaiar uma volta das dele (Peyroteo) e não ser capaz. Ombro aqui, joelho acolá. Sempre o mafadado muro a barrar-me o entreinamento…

Ó miúdos, era só um. Era só um e chamava-se Peyroteo. Fernando. Ao menos isso: Fernando como o craque.

De onde esta anotação no caderninho - «sensacionais, ele e eu». Já se mentia em 40 e tal.”

 

In: PACHECO, Fernando Assis, - Memórias de um craque. Lisboa : Assírio e Alvim, 2005. Págs. 30 a 32


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Recebi um amável convite do Pedro para participar neste espaço. Confesso que fiquei relutante, pois falar em público - assim vejo estes espaços - nunca foi o meu forte. A formalidade do tal acto inibe-me, imagino-me como no poema “Na praça pública” de José Régio:

 

“Subi ao púlpito negro

Por minhas mãos levantado;

Levantado

Por minhas mãos esgarçadas...

E, da tribuna mais alta,

Arrepelando os cabelos,

Gritei à malta:

 

- «Camaradas...!

 

«Eh, camaradas...! ouvi,

«Que vou dizer-vos quem sois,

«Pois vou dizer-vos quem sou.»”

 

(Adivinhando o que vem no final)

 

“Então,

Parei, sentindo risadas

Entre aqueles que me ouviam.

 

E as suas caras diziam:

- «Que charlatão!»”

(in: Poemas de Deus e do Diabo. 2002. pp. 61, 65)

 

Correndo esse risco, aceitei.

Sendo este um espaço de sportinguistas, claro que se fala deste clube com dedicação, com devoção, da glória e... naturalmente, porque somos um clube de homens (politicamente, nos dias que correm, convém acrescentar) e mulheres, fala-se também dos defeitos.

Mas agora não!

 

Sendo este o meu texto inicial, falo-vos, em homenagem ao maior sportinguista que eu jamais conheci - o meu pai, da primeira vez que vi o Sporting jogar.

Tinha eu sete anitos, foi o jogo de final de época e de consagração do Sporting como campeão nacional na época de 1979-1980.

Nesse dia, finais de Maio ou início de Junho, recordo a minha mãe acordar-me às 5 e pouco da manhã e perguntar-me, como sempre, preocupada: - Tó, tu não queres ir, pois não?

- Claro que vou. Respondi.

Era a única criança dessa viagem, os outros eram, para além do meu pai, os seus sócios e o contabilista. A viagem de Coimbra a Lisboa foi feita na carrinha que a pequena empresa tinha: uma Mini de cor branca.

Desse dia, para além do jogo, recordo o almoço que um dos sócios do meu pai quis que fosse em Cacilhas, uma caldeirada para eles e para mim, não me lembro, talvez algo mais do apetite de uma criança de sete anos. Para azar desse sócio do meu pai no prato da sua caldeirada tinha (desculpem) alguns cabelos. É claro que isso originou uma outra... caldeirada, como não podia deixar de ser.

O jogo.

O jogo foi visto no peão Estádio de Alvalade, espaço que antecedeu a Bancada Nova. Confesso que não tenho memória do resultado, o google diz que foi 3-0. Recordo-me sim da invasão de campo que houve no final, de ver muitos jogadores com os seus equipamentos assaltados: o Eurico... e de o meu pai me dizer que eu tinha pisado o relvado do Estádio de Alvalade: a única vez que o fiz.

Dessa equipa recordo o Manuel Fernandes, o eterno Manuel Fernandes, o meu ídolo de criança, de sempre...; o Jordão, sim o magnifico Jordão; o Manoel, pela estranheza do nome; o Ademar; o Vaz; o Meneses; o Inácio; o Lito, não o Litos, esse aparecerá mais tarde, fui vê-lo ainda júnior jogar, juntamente com o Futre na Figueira da Foz.

 

Depois, claro, na medida das possibilidades, houve mais jogos...

Bons tempos, tempos de meninice, em que muitas vezes, como diz a canção, andava de camisola verde.

 

 

Obrigado Pedro!


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