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És a nossa Fé!

E então?

Sim, marcámos o golo da vitória aos 90’+8 (ou nove)! E Então?

A equipa do Tondela, terra de gente honrada, teve, pelo antijogo que praticou, o desfecho que mereceu.

Foi bonito. Muito bonito!!!

Quando o seu treinador diz, segundo o que ouvi o José Nunes na Linha Avançada (creio que podemos ouvir a Antena 3, ou não?), «Tondela é uma equipa ‘hardcore’», ontem representou (peço desculpa pela comparação) o papel da Cicciolina.

 

Olhando para nós.

Que jogo triste!!!

Coitado do Beto...

 

... saiu do Sporting, onde era suplente do Rui Patrício, para poder jogar e assim lutar por um lugar na selecção para o próximo 'Mundial’.

Adivinho uma grande pressão por parte dos clubes e seus ‘avençados’, para que os outros guarda-redes escolhidos para essa prova sejam o Varela, do Benfica, e o José Sá, do Porto.

Vejo o primeiro golo que o Porto ontem sofreu e …

Parece que terá azar, o Beto, daí o meu lamento:

Coitado do Beto!

Um abraço, poderia ser ao sportinguista, mas prefiro que seja antes ao jogador com valor.

 

Memórias de Peyroteo (6)

(cont.)

 

« LISBOA À VISTA

26 de Junho de 1937

 

No alvorecer de dia 26 de Junho de 1937, o paquete “Niassa” entrava na barra de Lisboa.

Beijando, suavemente, as águas do Tejo, os pulmões de aço da nossa casa flutuante resfolegavam, agora, compassadamente.

Em roda viva, os passageiros corriam de um lado para o outro, procurando o melhor local para assestarem os binóculos. Trocavam-se abraços; havia lágrimas de contentamento, enfim, reinava a confusão.

Todos procuravam descobrir, no cais, seus parentes e amigos…

A um canto do convés, não sabendo se com vontade de rir ou de chorar, uma “criança grande” admirava, em silêncio, a majestade e imponência de Lisboa, ainda adormecida.

Passaram os minutos. O navio atracou e, dessa hora em diante, a criança grande que eu era - com 19 anos - começou a viver a vida que o leitor conhecerá, se não lhe faltar a paciência para ler, até ao fim, as páginas do meu livro, ou melhor, a história da vida daquele que foi, durante uma dúzia de anos, o avançado-centro da primeira equipa de futebol do Sporting Clube de Portugal e, também, da Selecção Nacional Portuguesa (1937-1949).

 

CHEGUEI, VI E…

Cumpridas as formalidades legais, autorizada a saída dos passageiros do “Niassa” e visitas a bordo, logo fui abraçado por meus irmãos, parentes e amigos.

Nesse momento não foi difícil descobrir, entre a multidão - pelo arcaboiço e pela cor - um grande amigo e, por vezes temível adversário (ténis de mesa): o Aníbal Paciência. Fazia-se acompanhar pelos senhores Francisco Franco e Filipe Conrado, ambos da Direcção do Sporting, aos quais, desde logo, o Aníbal me apresentou.

Após uma breve troca de palavras, fui convidado a visitar a Sede do Clube, na Praça dos Restauradores, o que aceitei, verdadeiramente emocionado. Cumprindo a promessa feita aos dirigentes do Sporting de Luanda dava, agora, os primeiros passos numa vida que nem sempre foi um mar de rosas, acredite-se!

Às 10 horas da manhã, desembarcávamos. Meus irmãos tinham os seus afazeres e. por isso, seguiram a sua vida. O Ricardo, funcionário do Banco Nacional Ultramarino, levou-me até à Rua Augusta e mandou que o esperasse à saída, ao meio dia. Para ali fiquei a ver o movimento e, como não podia deixar de ser, estando tão perto, fui ver… o cavalo de D. José!

Para quem, como eu, não estava habituado à vida da Capital, duas horas a passear na Rua Augusta e na Praça do Comércio, passam rapidamente.

Assim foi: soou o meio dia no velho relógio da Rua Augusta e meu irmão apareceu. Depois, veio o Américo, acompanhado do nosso bom amigo Dr. Carlos Viegas, ao tempo professor de matemática no Liceu de Passos Manuel - se não estou em erro.

O Dr. Viegas ofereceu-me um opíparo almoço no Negresco e, ao fim da tarde, embarcámos no comboio para Sintra, onde íamos residir temporariamente.

Não me lembro do dia exacto em que entrei, pela primeira vez, na Sede do Sporting. Recordo-me, porém, que se festejavam os Santos Populares e havia baile.

Fui recebido por alguns directores, entre os quais os senhores Dr. Oliveira Duarte - ao tempo Presidente da Direcção - Filipe Conrado, Francisco Franco e Queiroga Tavares.

Feitas as apresentações e trocados cumprimentos, conversámos alguns minutos acerca do desporto angolano e, por fim, combinou-se que em dia próximo iria ao parque de jogos, no Campo Grande, fazer uma ligeira sessão de treino, após o que se trataria da assinatura da ficha, inspecção médica e, naturalmente, do contrato.

Compreendi, desde logo, que três poderosos factores concorriam para se não dar ao “meu caso” um carácter de urgência:

1.° - Porque o Sporting só necessitava do meu provável concurso na época próxima;

2.°- Porque de Luanda não viera, ainda, documento desobrigando-me dos compromissos desportivos ali assumidos;

3.° - Porque seria imprudente fixar condições, verbas e prazos num contrato, sem saberem, previamente, se o novo pseudo-jogador de futebol possuía as qualidades enaltecidas e apregoados em telegrama de Luanda.

Aceito por bem que à Direcção do Sporting assistia o direito de cautela e reserva. Mas não compreendia que espécie de documento era indispensável vir de Luanda, uma vez que ali envergara a camisola do Sporting e me propunha fazer o mesmo em Lisboa: Não era o Sporting Clube de Luanda filial do Sporting Clube de Portugal?

Delicadamente, não fiz qualquer alusão ao facto.

Despedimo-nos e Queiroga Tavares - bom amigo e a quem devo muitas finezas - quis ter a gentileza de servir de cicerone na minha primeira visita ao “Solar dos Leões”, na Praça dos Restauradores.

Muita luz, muita alegria e muita música. Ressoavam gargalhadas femininas. Respirava-se uma atmosfera pesada, que me impressionou desagradavelmente.

Queiroga Tavares, sempre amável, procurou lançar-me no meio das “feras” mas não pensou, decerto, que se os africanos não temem, na selva, as leoas, muito menos se atrapalham vendo-as rodopiar ao som de valsas de Strauss e tangos de Canaro, nos salões do Palácio Foz!…

Como bom desportista, sempre evitei permanecer em salões onde há perfumes ricos, raparigas interessantes, fumo de tabaco e sons!… Não querendo, também, abusar da amabilidade e paciência de Queiroga Tavares, saí e fiquei aguardando a convocação para o treino aprazado.

Entretanto, ia disputar-se mais um sensacional Sporting-Benfíca, no Campo Grande, e a direcção ofereceu-me um lugar no seu camarote.

Acredite-se que senti calafrios ao ver entrar em campo os jogadores. Do lado do Sporting vinham Azevedo, Mourão, João Cruz, Soeiro, Pireza, o saudoso Heitor Pereira, Rui Araújo… e pelo Benfica alinhavam Espírito Santo, Albino, Vaiadas, Xavier… etc.

Enquanto assistia ao prélio, a consciência dizia-me:

- “Vê bem o jogo e os jogadores. Repara no que eles fazem e avalia se os podes igualar. Se não tens confiança em ti próprio, se não acreditas nas tuas possibilidades ou, se te falta a coragem para lutar, então desiste agora, antes de fazeres figuras tristes…”

Este exame de consciência era interrompido, de quando em vez, pelos directores do Sporting, interrogando:

- “Então que tal acha os rapazes? Pensa que…

- “Talvez; não sei ainda… Já vê: eles estão habituados…

- “Que me diz do Soeiro?…

- “Sem dúvida, um bom jogador, mas o Pireza é extraordinário!…

- “Mas não é a avançado-centro que você quer jogar?…

Percebi que se procurava conhecer a minha opinião acerca do Soeiro, uma vez que até os directores do Sporting estavam convencidos que pretendia “tomar” o eixo do ataque na equipa dos “leões”.

Desconheciam, totalmente, quais eram as minhas intenções e pensamentos naquela altura e, muito menos, qual o lugar que, na verdade, desejava ocupar.

O intervalo foi aproveitado para continuarem o interrogatório, procurando adivinhar, pelas respostas, se me sentia capaz de fazer parte da equipa.

Às perguntas respondi invariavelmente:

- “Não sei, amigos; nada posso dizer. Agora todos são melhores do que eu. Depois se verá…

O Sporting acabou em vencedor e, à saída, os poucos adeptos que me conheciam, quiseram, também, ouvir-me, mas nada adiantei.

Limitei-me a dizer:

- “Todos quantos vi jogar, sabem muito mais de futebol do que eu. Mas como todos somos feitos de carne e osso, espero conseguir fazer alguma coisa parecida com o que vi..

Horas depois, longe da multidão que tanto me impressionou, já calmo, analisando pormenores do desafio e avaliando a incontestável categoria dos “leões” e “águias” que durante 90 minutos haviam procurado, com denodo, conseguir mais um triunfo para o seu clube, senti-me deveras impressionado.

Contar apenas com a robustez física e desejo de acertar, não chega para ser bom jogador de futebol. E indispensável ter intuição, possuir tendência especial, numa palavra, é preciso ter nascido para o futebol. Vontade sem jeito, nada feito!

O Pedro Pireza afirmava:

- “… o futebol não se aprende; nasce com as pessoas”.

Dou-lhe razão e vejamos porquê.

Tal como um gato brinca com um novelo de lã, o Pireza parecia ter o condão de atrair a bola de futebol; tanto a afastava de si, como a “chamava”, fazendo-a “morrer” a seus pés. Mas, decerto, nunca atingiria a craveira de Benjamino Gigli, por muito boa vontade que tivesse em ser cantor.

Outro exemplo:

Tenho uma guitarra, uma viola e um bandolim. Agora já não tanto mas em tempos, logo que chegava a casa, pegava num dos instrumentos e… fazia barulho, horas seguidas. Tinha a mania de vir a ser um “ás” a tocar instrumentos de corda. Um tango, dedilhado por mim na guitarra ou na viola, mais parecia uma marcha fúnebre do que música para dançar. No bandolim “arranhava” melhor mas nunca toquei mais do que a “Maria Cachucha” e “ó Rosa, arredonda a saía”!

Tem razão o Pireza; não nasci para ofuscar “Armandinho”, Martinho da Assunção, e outros grandes violistas e guitarristas que me delicio a ouvir sempre que posso. De resto, também eles não foram “talhados” para jogar como um Pireza, um Mourão ou um Espírito Santo.

Nas cabines dos campos de futebol muitas vezes ouvia dizer:

- “Cada um é para o que nasce, e o resto… é paisagem…”

 

A PONTA DO VÉU…

O tempo passava sem que fosse marcado o dia do primeiro treino.

Entretanto, meu irmão Ricardo, pediu-me para atender um cavalheiro que viera do Norte e desejava falar-me acerca de futebol.

Supondo tratar-se de um jornalista procurei esquivar-me à entrevista mas, sem saber como, o cavalheiro - aliás muito amável e correcto - encontrou-me na Estação do Rossio, quando esperava a saída do comboio para Sintra.

Sem rodeios, com a característica sinceridade e franqueza dos portuenses, ofereceu-me um emprego no Porto, ordenado por jogar no Futebol Clube do Porto e um prémio de alguns milhares de escudos pela assinatura do contrato.

Não fixei o nome deste senhor, nem sei se agia com autorização do clube para onde queria levar-me, mas o certo é que ainda hoje acredito na boa intenção e honestidade da sua proposta.

Respondi-lhe, lealmente, que não podia aceitar o convite porque já me obrigara a jogar pelo Sporting, estando tudo definitivamente combinado. Isto não correspondia à realidade da situação, mas julguei preferível não alimentar esperanças ao amável nortenho, embora soubesse que perdia uma óptima ocasião para me fazer valer…

Na noite imediata fui à Sede do Sporting e perguntei ao amigo Queiroga Tavares em que pé estavam as coisas.

Travou-se, entre nós, um diálogo mais ou menos nestes termos:

- “Estamos de mãos atadas; não podemos fazer o contrato porque de Luanda ainda não nos mandaram a carta de desobrigação.

- “Se eles sabiam que era indispensável, porque motivo não ma entregaram?

- “É natural que não tivessem tido tempo. Virá, decerto, no próximo navio…

- “Não! Aí há qualquer coisa pouco clara e que me desagrada. Peço-lhe que seja franco…

Vendo-me aborrecido e pouco disposto a continuar naquela situação, Queiroga Tavares foi ao gabinete da Direcção, voltando uns segundos depois para dizer:

- “Já se pediu ao Sporting de Luanda, creio que por telegrama, para nos enviar a carta…

- “Não compreendo a razão por que a carta vem para o Sporting e não para mim. E por que não teria sido eu o portador desse documento?

- “Bem vê: o Peyroteo conhece toda a gente em Luanda mas desconhece o meio desportivo metropolitano. Podia ser “torpedeado” e levado para outro clube!…

Claro que isto deu barulho. Irritei-me e não me contive:

- “Nunca pensei que o Sporting de Luanda duvidasse de mim e aceitasse a recomendação da Sede para vos remeter - e não a mim - a carta de desobrigação! Que pensam que eu sou? Que confiança mereço a uns e outros? A minha palavra é só uma! Prometi e cumprirei! Quando quiserem assinarei o contrato, sem me importar com as condições. Como sempre, confio na dignidade dos homens que dirigem um clube com as responsabilidades e tradições do Sporting”.

O amigo Queiroga, seriamente. embaraçado, procurou tranquilizar-me. Compreendi que não seria ele, “exclusivamente”, o responsável pelo que se fizera, mas a verdade é que o meu estado de espírito os levou a pensar a sério no caso e, tanto assim que, nessa mesma noite, ficou assente a realização do primeiro treino.

Não tenho a certeza se, naquele momento, a carta de desobrigação já estaria em poder do Sporting mas, com carta ou sem ela, tudo deixava compreender não desejarem fazer um contrato sem me verem treinar…

Não posso jurar que a sequência dos factos tenha sido exactamente esta, mas na sua essência - e é o que interessa - a verdade não foi desvirtuada. De resto, não prevendo o futuro, nada me aconselhava a escrever um diário que, diga-se de passagem, agora seria muito útil. Mesmo assim, a: memória não é das mais fracas e, recorrendo a ela, consegui… levantar a ponta do véu!

 

O PRIMEIRO TREINO

JOSEPH SZABO - húngaro de nascimento e português por naturalização - não carece de apresentação e o seu nome, citado a propósito de futebol, dispensa toda a classe de adjectivos.

Foi ele, com o seu trabalho e competência, quem ofereceu à Selecção Portuguesa de futebol um avançado-centro que a serviu (bem ou mal) durante mais de uma década. Foi ele, também, o principal obreiro do período áureo que o Sporting Clube de Portugal conheceu durante muitas épocas de futebol. Os dedos das mãos não chegam para contar as vitórias que, à custa do seu esforço, dedicação e muito saber, o Sporting averbou durante o tempo em que o português José Sezabo foi treinador das suas equipas de futebol.

Seria desmedida injustiça se neste livro faltasse mais amplo espaço para falar de “Mister” Sezabo.

Por agora direi apenas que foi com este grande mestre de futebol - e mau propagandista da língua portuguesa - que em Lisboa dei os primeiros pontapés na bola.

O meu treino de experiência realizou-se à tarde no antigo campo do Sporting e que hoje pertence, ainda, ao Benfica.

No parque de jogos conhecido por “Campo Grande”, estava “Mister” Sezabo, o falecido Augusto - encarregado das cabines - e eu.

O Augusto entregou-me o equipamento e quando já estava pronto para entrar no campo, apareceu “Mister” Sezabo:

- “Sinhor, vamos fazer “treining” pêquinína; dois voltas a corer, dois voltas a passe e vir centro dê terêno”.

Assim fiz. O vento soprava rijo.

Quando menos esperava, o treinador atira-me a bola e diz:

- “Parar a bola, sinhor!” Parei-a o melhor que sabia. Depois…

- “Sinhor, sinhor, como chamar-se sinhor?”

- “Peyroteo”

- “Peyroteo mais quê, sinhor?”

- “Fernando Peyroteo”

- “Disculpar. Eu chamar sinhor Fernando; ser mais fácil”.

Concordei e o treino continuou.

Passes de cabeça e com o interior do pé esquerdo, depois com o direito. Creio que chutei em todos estilos, à inglesa, à chinesa e isto com a bola vinda de todas as direcções, rapidamente, Durante mau hora fui obrigado a mostrar quanto valia e quanto sabia dos pormenores da técnica futebolística.

Depois, não achando suficiente a estafa que já me tinha pregado, “Mister” Sezabo armou em guarda-redes e, colocado entre os postes da baliza, atirava a bola e mandava que chutasse ao golo. Eu procurava fazer o “tiro ao boneco”, ou seja, apontava para o meio da baliza porque, se o pontapé saísse torto, havia muito espaço até aos postes… Assim, a bola não ia para fora.

Mas o treinador, conhecendo as manhas e talvez até porque, noutros tempos, teria feito o mesmo, gritou:

- “Sinhor Fémando: assim ser canja! Querer furar bariga dê guarda-redes? Atirar para junto dê postes! Ir ver que dificuldade ter guarda-redes. Experimentar se fazia favor!”

Procurei cumprir as suas instruções mas em cada dez remates, seis iam para fora! Sabem o que o treinador fez para eu ter mais cuidado? Simplesmente isto: todas as vezes que o remate saia torto, obrigava-me a ir buscar a bola, a correr!…

Duas horas depois “largou-me” e disse:

- “Sr. Férndo ter jeiteira mas precisar trabaiar muito. Bom pontapé, bom côrida. Precisar muito “treining” dê técnica de “foot-ball”.

- “Aqui estarei quando quiser e quantas vezes entender necessárias.

- “Africanos ter garganta ou cumprir palavra?”

- “Cumprir palavra”, senhor Sezabo!!!

- “Muito bem. Se sr. cumprir palavra, ir ver, mais tarde tocar a música, afinado. Dizer para si, Férnando: ter cuidado malandragem dê outros. Falar-se pouco e trabaiar-se muito. Ir ver qui bem ficar-se, Férnando…”

E assim acabou o treino, ou melhor, a experiência…

Sei que nesse mesmo dia “Mister” Sezabo informou a Direcção do Sporting de que eu interessava ao Clube e sei, também - lem- bro-me perfeitamente - que depois do treino até me faltou a coragem de ir para Sintra. Fui para casa de minha irmã, na Avenida 5 de Outubro, jantei, deitei-me e só me levantei no outro dia às 12 horas.

Que dores sentia nas pernas e em todo o corpo 1… Estava positivamente arrazado!

Depois do almoço recostei-me num divã, a ler. Tal era o cansaço que adormeci mas, pouco depois, chegavam a nossa casa os senhores Francisco Franco e Filipe Conrado, da Direcção do Sporting.

Vinham pedir-me para comparecer, nessa mesma noite, na Associação de Futebol…

Nessa altura já sabiam duas coisas importantes:

1.º - Que já me haviam oferecido condições para jogar pelo Futebol Clube do Porto;

2.ºQue “Mister Sezabo dissera: - “temos homem!”

Coube-me a vez de lhes fazer sentir que não tinha pressa nenhuma mas, de qualquer modo, estaria na Associação à hora indicada.

Quando ali cheguei tive o prazer de encontrar o meu prezado amigo e senhor Paulo Vieira. Poucos minutos depois, foi-me presente, para assinar, o contrato que me obrigava a jogar pelo Sporting Clube de Portugal.

Sem o ler, sem fazer perguntas - tal como prometera a Queiroga Tavares – assinei o documento.

Elaborado como estava, o contrato só dava garantias a uma das partes – ao Sporting! – embora, na aparência me fossem conferidos direitos. Conhecia já os termos do documento.

Era um “contrato leonino” como escreveu, algures o grande romancista Eça de Queiroz!

Por ficar “preso” para a época de 1936/1937, 1938/38 e 1938/39, recebi de prémio a quantia de… quinhentos escudos, verba que indico por extenso para não se supor que houve erro de imprensa…

Fixou-se um ordenado mensal de 700$00 mas, segundo creio, o contrato incluía uma clausula que permitia ao Sporting baixar aquela verba no caso de eu me empregar.

Esta faceta não interessa grandemente porque o senhor Francisco franco administrava um fundo especial denominado, se não estou em erro, “caixa dos leões” (cotização dos carolas) e dela saiam quantias destinadas a reforçar os ordenados de alguns jogadores, não sendo, portanto o Sporting a pagar ordenados diferentes a este ou àquele… Aos que mereciam, o senhor Francisco Franco, dava, por fora, 200$00 ou 300$00 mensais. Felizmente, nunca me faltou com o subsídio extraordinário…»

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 58-69

 

(Repito: peço desculpa pela extensão destes textos, assim como para a eventualidade da existência de alguma gralha. Se existir, culpa minha na revisão da digitalização e/ou digitação.)

Memórias de Peyroteo (5)

(cont.)

 

« Terminado o ano lectivo, voltei para casa de minha saudosa Mãe.

Ali estive algum tempo até que, sem saber como nem porquê, voltei a Sá da Bandeira mas, desta vez, para a companhia de meu irmão Jorge, Inspector dos Caminhos de Ferro.

Por sina), foi esta a última visita que fiz à minha linda e saudosa cidade de Sá da Bandeira.

Meu irmão Álvaro fora, novamente, transferido, desta vez para a Agência do Banco de Angola em Nova Lisboa.

Sabendo disto, o amigo Acácio, que ia, na sua camioneta, levar carga a Nova Lisboa, convidou-me a acompanhá-lo.

Com aquele espírito de aventura aliado ao gosto de viajar, que sempre tive, aproveitei, com alvoroço, a oportunidade que se me deparava. E lá fui dar um abraço ao “Alvarinho” (o “barbaças” já conhecido do leitor).

De Sá da Bandeira a Nova Lisboa são, talvez, 400 quilómetros através do mato. Esta distância, percorrida em automóvel ligeiro, é agradável, rápida, não chegando a maçar. Mas a viagem feita em camionetas de carga, rodando vagarosa e pesadamente, torna-se monótona e estafante, tanto mais que, geralmente, se faz de noite, pela fresca.

Vencemos o sono com a esperança sempre enervante, perigosa mas agradável, de encontrarmos, pelo caminho, alguma fera ou simples animal corpulento, selvagem, sim, mas assustadiço e quase inofensivo.

Na realidade, andar centenas de quilómetros, à noite, em estradas serpenteando por entre mato cerrado, é de respeito e faz medo; sim, medo!…

Quando tínhamos andado uns cem quilómetros, os potentes faróis da camioneta incidiram sobre uma linda e corpulenta onça.

A meio da estrada, estático e imponente, o animai, olhava-nos bem de frente.

O Acácio segurou melhor o volante e disse-me:

- “Fecha os vidros da cabine que vou tentar atropelar o bicho”…

Carregou no acelerador e a pesada camioneta avançou para a fera que, talvez encadeada pela luz brilhante dos faróis, continuava imóvel. Em breves segundos tivemos a nítida impressão de que o rodado atingira a onça, esmagando-a, tanto mais que sentimos um ligeiro solavanco.

Andámos mais uns trinta metros para reduzir a velocidade e parámos o tempo indispensável para o carro fazer marcha atrás.

Vidros fechados, eu de pistola em punho, recuámos até um pouco mais além do sítio onde calculávamos ter atropelado a fera. Assestámos os faróis para o local e… não a vimos!

Ficámos convencidos de que a onça foi duramente atingida mas, assim mesmo, dotada de resistência inacreditável, teve ainda forças para dar um pulo e esconder-se no mato, ali próximo.

Ferida mas ainda com energia para atacar, esperava, traiçoeiramente, que saíssemos da camioneta…

Habituado a estas peripécias e, portanto, cauteloso e prudente, o amigo Acácio, preferiu seguir viagem sem mais delongas.

Porém, o leitor - homem destemido, capaz de enfrentar uma onça no maravilhoso Parque das laranjeiras - perguntará com altivez:

- “… Se estavam armados porque não dispararam, em vez de procurarem atropelar a fera?”

Eu respondo:

De dia, é extremamente perigoso falhar um tiro a uma onça; de noite, então, constitui temeridade.

No nosso caso, sairmos da camioneta representava o suicídio.

A onça, ferida de morte, encoberta com os arbustos, esperava o momento da vingança. Quantas mortes têm provocado em circunstâncias idênticas…

O caçador atira e, vendo a onça caída por terra, avança despreocupado. Nisto, a fera levanta-se e… era uma vez um caçador imprevidente…

É por isso que, em plena selva, muitas vezes deparamos com uma cruz sobre um monte de pedras - sinal indicativo de que ali perdeu a vida um homem que se embrenhou no mato, sem saber ao que ia…

A mania de ser valente tem custado a vida a muitos que, sabendo, embora, manejar uma espingarda, desconhecem a selva e o comportamento das feras, sobretudo, quando feridas.

Para a viagem a que me refiro, saímos de Sá da Bandeira ao fim da tarde e chegámos a Nova Lisboa no dia seguinte perto da hora do almoço.

No caminho, altas horas da noite, parámos para “ouvir” o silêncio da selva.

O estalar de folhas secas sob as patas de animais selvagens; o piar das corujas e o rugido, longínquo, do “Kurica” (leão, na língua indígena) obriga-nos a reconhecer a pequenês do homem perante a Natureza.

O leão estava bastante longe mas, mesmo assim, resolvemos seguir… É que este bicho, quando quer, caminha depressa e uma sua possível visita não nos agradaria muito… Toca a andar, enquanto é tempo…

Para mim, salvo o devido respeito pelos zoólogos, o leão não é, na realidade, o “Rei da Selva”.

Pelo que me foi dado conhecer da fauna angolana e pelo contacto pessoal que tive com Teodósio Cabral e Dr. Abel Pratas - o primeiro como caçador profissional de elefantes e o segundo na sua qualidade de médico veterinário, Director da Estação Zootécnica da Humpata e, também, óptimo atirador e caçador de feras - tudo me leva a não dar ao leão a glória da supremacia na selva. O elefante ocupa, sem dúvida, o primeiro lugar!

Para não me afastar dos motivos que me levam a escrever este livro, aconselho os leitores que porventura se interessem por estas coisas do mato, a lerem os quatro volumes intitulados “Da Vida e da Morte dos Bichos”, da autoria de Teodósio Cabral, Abel Pratas e Henrique Galvão.

São quatro livros de extraordinário interesse, obra séria que todos os estudiosos deviam conhecer.

Será bem empregado o dinheiro gasto e melhor aproveitado o tempo que dedicarem à sua leitura.

Não se trata de uma obra de ficção mas sim de um trabalho sério e verdadeiro.

Os autores dispensam adjectivos que os enalteçam e a obra não carece do meu pobre elogio.

 

Ao ver-me em Nova Lisboa, o Álvaro não se mostrou surpreendido.

Se, no rosto e um tanto fisicamente, somos parecidíssimos, também há, entre nós, uns pontos de contacto quanto ao génio, espírito de aventura e decisão.

Devo-lhe tanto que não sei se lhe dedico mais amizade do que respeito!

Feliz e contente, com a alegria estampada no rosto, abraçou-me e fomos almoçar.

Eu já conhecia Nova Lisboa, pois ali havia ido, em ano anterior, integrado numa companhia de artistas-amadores de Teatro que fez subir à cena a revista “Vidairada”, escrita e ensaiada por meu irmão Álvaro.

Com esta revista fizemos espectáculos em Sá da Bandeira (estreia), Moçâmedes e, a seguir, em Nova Lisboa. Foi um êxito!

Álém de três ou quatro “números” acompanhei à viola - com o Branco Lima à guitarra - uma garota de 10 ou 12 anos, cantando o fado. E que bem que ela cantava! Se a nossa grande artista Amália Rodrigues tivesse aparecido antes, dir-se-ia que a miúda procurava imitá-la.

E esta? O “arraza montanhas” do futebol, também foi “artista” do teatro e violista!

No dia imediato, já em Nova Lisboa se sabia da minha chegada e logo se organizou um desafio de futebol, contando-se comigo para fazer parte de uma das equipas.

No domingo, vinte e dois rapazes estavam no campo para… jogar à bola com o Fernando Peyroteo.

Por sorte, estive em tarde feliz!

Em abono da verdade diga-se que havia ali tão bons ou melhores jogadores do que eu mas, de qualquer modo, os dirigentes do Sporting local tentaram convencer-me a ficar em Nova Lisboa.

Depois, apelaram para a influência de meu irmão Álvaro e, dois ou três dias mais tarde, ofereceram-me um emprego na Secretaria da Administração Política e Civil.

Quando tudo estava preparado para tomar posse do lugar, meu irmão recebe uma carta do nosso amigo Norberto Santos, informando ter arranjado, em Luanda, uma boa colocação para mim.

Foi uma bomba! Os sportinguistas ficaram desolados e furiosos; jogaram todos os trunfos ao seu alcance para ganhar a partida.

Mas a resolução final pertencia à nossa boa Mãe.

Posta ao corrente das ofertas, escreveu-nos dizendo que julgava melhor aceitar a proposta do Norberto.

Luanda, sendo a Capital de Angola, oferecia maiores possibilidades de arranjar outro emprego, no caso do primeiro não agradai ou não servir para futuro. Além disso, estava já ali meu irmão Júlio (dois anos mais velho) ao qual me podia juntar…

Sendo esta a opinião, sempre acertada, da nossa Mãe, nada mais havia a fazer. Aceitei o oferecimento do Norberto, preparei as malas e o comboio levou-me até ao Lobito, onde tive a satisfação de abraçar o Albano de Abreu.

O navio “Lourenço Marques” transportou-me a Luanda. Não pensava em que jamais voltaria ao Lobito, a Nova Lisboa, Sá da Bandeira e a Moçâmedes.

Já lá vão 19 anos e confesso que tenho muitas saudades da terra angolana!..

 

No dia da chegada a Luanda houve uma corrida de “dongos” - embarcações feitas de troncos de árvores - cujos remadores eram negros.

O “Lourenço Marques” fundeou por volta das 11 horas da manhã.

No cais estava meu irmão Júlio e, com ele, o Norberto Santos, Romeu Galeano, Guilherme Carvalho (director do Sporting) Vitória Pereira, José Fernandes, Mário Dias e Telmo Vaz Pereira- o melhor avançado-centro angolano de todos tempos.

Tantos, tantos amigos que não é possível citar todos.

Após a costumada troca de abraços, aliás afectuosos e sinceros, fomos almoçar ao Hotel Luanda.

Reinava a boa disposição, a conversa era animada e os projectos sem conta de futuros cometimentos, no respeitante a futebol!…

O Sporting de Luanda usurpava os “direitos” do Benfica metropolitano, julgando-se…”o melhor do Mundo”!…

Tudo era risonho.

 

Sim; tudo era risonho, simples e fácil para os amigos, mas no que me di2ia respeito, a vida mudara completamente.

Entregue a mim próprio, tinha de pensar a sério no futuro. Jamais acreditei que o futebol, só por si, constituísse meio de vida para quem pense na velhice. Por isso tratei de começar a trabalhar.

Esperava-me o lugar de escriturário na Repartição de Contabilidade da Fazenda Pública, onde estive até ao dia do meu embarque para Lisboa, servindo sob as ordens de um bom Chefe de Secção e amigo, o senhor Carlos Morais Sarmento Amorim Cordeiro.

Ao leitor não interessa, certamente, saber quantos desafios de futebol joguei em Luanda, se ganhámos ou perdemos os encontros em que tomei parte e se, na realidade, com a minha ajuda, o Sporting Club de Luanda passou a ser “o melhor do Mundo”.

O público adepto do futebol justifica as derrotas do seu clube favorito com esta frase: … a bola é redonda!… e alguns jornalistas por sua vez utilizam outra, porventura de maior efeito - “a gloriosa incerteza do desporto

Em Luanda, a bola era redonda e sempre se manteve a gloriosa incerteza do desporto, a justificar a razão por que o futebol é sempre igual mas sempre emotivo, levando atrás de si a infância, a juventude e até a velhice.

Sem que a minha equipa pudesse fugir ao capricho da sorte do jogo e a todas as circunstâncias fortuitas que ditam os resultados, fiz muitos jogos e o Sporting Club de Luanda, mesmo com o melhor esforço do seu nóvel elemento, continuou a ser igual a si próprio, ganhando e perdendo campeonatos.

Uma vez na Capital da Província, voltei a praticar outras modalidades desportivas, especialmente o ténis e o “ping-pong”.

Sempre que era possível, ia aos “courts” do Banco de Angola e entretinha-me a jogar com outros amigos. Isto aconteceu poucas vezes, é certo, porque das 9 às 12 e das 14,30 às 17,30 estava na Repartição a trabalhar.

Não dispunha de muito tempo para me dedicar ao ténis mas, com boa vontade, fiz alguma coisa de jeito, embora não tivesse passado de um péssimo ténista. De resto, não jogava para regalo da assistência (?) e nunca pretendi entrar em competições. Era o “vício” dos desportos e nada mais.

Em “ping-pong” sim, fui mais além.

Eu conto: - em Luanda fazia muito calor e, por isso, os desportos a praticar dentro de casa não me atraíam, com excepção do ténis de mesa. Ainda hoje, sempre que posso e o jogo é susceptível de interessar, não deixo de assistir.

Por vezes, ia à Sede do Sporting, pegava na raqueta mas nunca fazia mais de três ou quatro jogos porque a transpiração me afligia sobremaneira.

Como é natural, havia verdadeiros furiosos pela modalidade e mais furiosos ficavam pelo facto de não conseguirem bater-me.

Não me considerava bom jogador e, como já disse, só acidentalmente pegava na raqueta, ao passo que os meus adversários passavam horas a treinar. Invariavelmente, eu ganhava os jogos, facto que os atormentava.

Um dia os furiosos lembraram-se de organizar um torneio inter-sóciós.

Os marotos prepararam-se com treinos diários e só na véspera ou ante-véspera do início da prova me convidaram a tomar parte nela.

De princípio, não aceitei o convite, pensado no sacrifício de ter de suportar duas ou três horas de calor.

Os camaradas insistiram, não me restando, por fim, outra solução que não fosse a de anuir. Fi-lo, porém, com uma condição: não mais de duas partidas em cada noite.

Para isso, dividiram-se os jogadores em dois grupos e os campeões de cada grupo defrontar-se-iam numa final.

Após três noites de sacrifício, vencendo todos os adversários ao segundo jogo, salvo erro, chegámos ao grande dia da final.

Na outra série ficou em primeiro lugar o Aníbal Paciência.

Lembram-se dele, certamente.

Saibam agora que jogou comigo no Sporting de Luanda, foi meu colega de trabalho e, mais tarde, meu camarada na equipa do Sporting Clube de Portugal. Hoje, somos bons amigos.

Pois foi o amigo Paciência quem se encontrou comigo na final do torneio de “ping-pong”.

Curioso é notar que o Aníbal se incluía no número dos furiosos que treinavam quase todos os dias e nunca jogava comigo, nem sequer a brincar. Este facto redobrava o interesse pela final do torneio.

Jogámos e o amigo Paciência teve que ter paciência; foi derrotado.

O Aníbal era, na verdade, melhor jogador mas convenceu-se de que eu era “galinha” e ele - comilão como sempre foi - contava “papar-me de churrasco” …

Enganou-se. O excesso de confiança foi-lhe fatal. Perdeu - t bem! - um torneio que só ele merecia ganhar.

Palmas, abraços e foi-me entregue a medalha de Campeão d- “ping-pong” do Sporting Clube de Luanda.

No fim de tudo, o Paciência, não se dando por convencido propôs-me jogar mais uma partida de desforra. - “Livra, que está muito calor. Amanhã na Repartição combinaremos isso; hoje… ou amanhã!”

Despedi-me, saí e fui à Ilha gozar o fresco da noite.

Mais tarde, voltámos a jogar e lembro-me perfeitamente de que só no terceiro encontro conseguiu vencer-me.

Enfim, perdi, ganhei, mas ficou a grande amizade que sempre existiu entre mim e o Aníbal-comilão.

Chamo-lhe assim porque - depois do Faquinhas - não conheci homem capaz de comer tanto! Na verdade, era preciso paciência para ver o Paciência comer.

Ao almoço, por exemplo, tragava dois pratos de sopa bem cheios! - uma cabeça de pescada à João do Grão, um bife de 750 gramas e respectivas batatas fritas, cinco ou seis pãezinhos, duas laranjas e, para finalizar, meia dúzia de bananas!

Isto, claro, em 1938/39 porque hoje, com a carestia da vida, faltava-me a coragem para o convidar, outra vez, para almoçar em minha casa… Nem ele, talvez, come agora tanto. Está mais velho e…”Deus dá o frio conforme a roupa”!…

Não é verdade, meu velho e bom amigo Aníbal Paciência?

Bons tempos!

 

O «DEUS ÁRVORE»

O Clube de Futebol “Marítimo» do Funchal (Madeira), foi em digressão a Angola e logo após o seu regresso tive o prazer de receber, enviado por pessoa amiga, um jornal do Funchal no qual se publicava uma crónica onde se relatava o que havia sido a viagem daquele grande Clube por terras africanas.

Impressionou-me agradavelmente a maneira amável como os madeirenses se referiam às gentes da minha querida Angola e à forma hospitaleira e amiga como todos os africanos ali receberam os componentes da caravana funchalense. Gente humilde e despretenciosa, encontrou em Angola povo igualmente humilde e despretencioso, que os recebeu com abraços de verdadeiros desportistas, cumprimento a que os madeirenses corresponderam, também, com a sinceridade dos seus abraços e manifestações de carinho e muito apreço.

Modesto e educado deve ser todo o bom desportista. O jogador de futebol de boa classe, o campeão de atletismo, enfim, o atleta que atingiu em qualquer modalidade os pináculos da fama e da glória desportiva, não deve, nunca, supor-se superior aos seus semelhantes, unicamente porque é… campeão. Se assim proceder será triplamente campeão: no desporto, na idiotice e na pobreza de espírito.

Ora, entre os muitos atletas (não os funchalenses, entenda-se desde já), que têm visitado as encantadoras terras de Angola e Moçambique, alguns deles - poucos, é certo - deram, infelizmente, sobejas provas da sua má formação desportiva. A fama e a glória que alcançaram no desporto perturbou-os ao ponto de se suporem algo superiores àqueles humildes mas verdadeiros desportistas africanos que os abraçavam, vitoriavam e recebiam com a hospitalidade e amizade sinceras que é apanágio das gentes africanas.

 

“ - Abraças-me, gritas pelo meu nome porque eu te sou superior, porque valho mais do que tu, porque sou um campeão. Por isso devo tratar-te como mereces, cá do alto da minha cátedra de atleta valoroso. Arreda que quero passar sem ser incomodado…-”

 

“ - Não, camarada, tu estás enganado. Não somos quem julgas, Modestos desportistas, é certo, apaixonados do desporto, mas sumamente mais educados e, afinal, até mais desportistas do que tu! Entendes? Recebemos-te bem, com abraços; vitoriamos-te mas não te somos inferiores. Não vejas na forma carinhosa como te recebemos qualquer sintoma de subserviência. Nada disso! Gostamos muito de te ver, de te acarinhar; admiramos-te pelas tuas proezas no desporto, mas não nos julgues uns pobrezinhos de espírito. Estás enganado, percebeste? Esta é gente bem formada e educada. Vai-te embora, desaparece da nossa vista e se alguma vez mais por cá vieres, modifica-te antes de pisares terra africana. Não sejas idiota! Sê modesto, correcto, educado e compreensivo. Se assim acontecer, então, beneficiarás da nossa hospitalidade, terás os abraços, os carinhos desta gente que sabe e gosta de receber bem. Pelo contrário, se mantiveres a mesma forma de proceder e pensar sobre a tua superioridade no teu débil entender, está claro -, então ignorar-te-emos, andarás de terra, em terra votado ao desprezo que merece a tua ignorância dos mais elementares deveres da boa educação e desportivismo”-.

Assim são e assim pensam todos os bons desportistas africanos. Sei que assim é porque nasci lá, em Angola, e conheço bem a mentalidade da gentes das terras de além Atlântico. E se não fora eu a dizê-lo, os exemplos de modéstia e compreensão e de correcção desportiva, estão bem à vista; palpam-se através do comportamento daqueles muitos rapazes africanos que pisam - e pisaram - campos de desporto na grande Metrópole.

Pois bem, amigos. Tudo isto veio a propósito duma crónica publicada no jornal do Funchal a que já me referi e na qual, entre muitas outras coisas interessantes, se dizia “ter eu nascido debaixo de uma árvore!!!”, ali muito perto da linda Vila de Humpata. Assim mesmo: que tive por tecto, no dia 10 de Março de 1918, a folhagem encantadora de uma árvore de grande porte! O que se afirmava nesse Jornal era o produto de uma informação colhida, creio, mesmo na Humpata, por alguns dos componentes da embaixada madeirense!

A notícia foi para mim uma autêntica revelação, que me fez rir a bom rir. Nascer debaixo de uma frondosa árvore não deixava de ter a sua graça, não acham? Por que embaraços teria passado minha querida e saudosa Mãe!!! Estaria habituada ao “acto” por ter já trazido a este Mundo de Deus uma razoável quantidade de raparigas e rapazes, pois eu fui o undécimo na escala dos nascimentos, mas assim, tendo como leito o chão duro duma estrada e por tecto a ramagem de uma árvore, não haja dúvida de que o caso deveria ter preocupado minha adorada Mãe! É caso para perguntar: e quem teria sido a parteira que lhe deu assistência?… Ah, já sei. Talvez um lindo exemplar de “leão”… E daí, até, a minha tendência para os…”lagartos” …

A primeira atitude que tomei logo após a leitura do jornal que publicou a célebre notícia, foi a de escrever ao amigo que teve a gentileza de mo enviar, dizendo-lhe que o facto de se afirmar lá pelo Sul de Angola que eu nascera em sítio tão impróprio e incómodo para minha Mãe, em nada me desgostou e que nem sequer poderia desmentir a afirmação Por mim, estava absolutamente convencido de que tinha vindo a este Mundo dentro de casa, num quarto modesto, é certo, tendo por tecto muito boa telha, que não deixava passar a chuva diluviana que, de vez em quando, caía na risonha Vila de Humpata. Sempre ouvi dizer aos meus que nasci na casa da Escola daquela Vila. E, agora, uma coisa destas, hein!!! Quem me havia de dizer!!! O mais engraçado de tudo é que, já com 12 ou 13 anos, visitei a Humpata e meu irmão Jorge - segundo na escala dos Peyroteos -, me levou a ver a casa e o quarto onde nasci. Estaria ele a enganar-me para não me desgostar, o que supunha suceder se me informasse do sítio onde agora se diz ter eu nascido? Não, não podia ser! Nesse tempo ninguém se atreveria a levantar semelhante boato; agora é que qualquer alma penada se lembrou de fazer “blague” com uma brincadeira sem pés nem cabeça.

Mas se eu achei graça ao disparate, meus irmãos mais velhos é que não gostaram nada da “blague”., E tanto assim é que, um deles, o Ricardo, que nunca estivera em África - foi dos que nasceu em Lisboa-, resolveu ir a Angola conhecer a numerosíssima família que ali vive. E rio seu regresso - que se verificou há bem pouco tempo -, trouxe-me uma fotografia tirada por meu irmão Jorge, na qual se vê a janela do quarto onde este vosso amigo nasceu. Daqui se pode concluir que, afinal de contas, tudo o que se afirmou sobre o meu nascimento não passa de um incompreensível boato. E é pena, pois eu achava um piadão ao facto de ter nascido “debaixo de uma árvore”, em pleno mato, ali à fresquinha, com o Sol tropical por testemunha e um “KURICA” (leão) a assistir! Rias não; meus irmãos mais velhos não querem assim, pelo que nada mais há a fazer do que acreditar na verdade das coisas. Paciência. Ficará para a outra vez…

O certo é que os pretos lá do sítio me consideram e tratam por o “Deus Arvore”…

 

A CAMINHO DE LISBOA

Em Abril de 1936, recebi, em Luanda, uma carta de minha Mãe na qual me informava de que os médicos impunham a sua vinda a Lisboa, para se tratar.

Como funcionária do Estado - professora oficial em Moçâmedes - tinha direito a gozar licença graciosa na metrópole.

Porque o seu estado de saúde não permitia que viajasse sozinha, convidava-me a vir com ela.

Embora a possibilidade de conhecer Lisboa me desse grande satisfação, contrariava-me o facto de ser forçado a abandonar o emprego. Por outro lado, não podia nem devia negar-me.

Quando, em Luanda, se soube da minha projectada viagem, agitou-se o meio desportivo. A novidade era comentada em toda a Cidade, Assediavam-me com perguntas, davam-me conselhos e faziam-me recomendações. Até o meu Chefe de Repartição, senhor Vasconcelos, me recomendou não deixasse de ir ao “Terreiro do Paço” cumprimentar o cavalo de D. José e ver bem qual era a “pata direita”.

Com o ar mais grave e sisudo que lhe conheci, dizia ser praxe a cumprir pelos africanos, na sua primeira visita a Lisboa!…

Claro que a gracinha não pegou porque eu sabia bem que a pata que está direita é a esquerda. Ou não fossem meus pais naturais da Metrópole, para nos falarem, com saudade, destes trocadilhos.

Por feliz coincidência, o senhor Vasconcelos foi meu companheiro de viagem, embarcando comigo, em Luanda, nos primeiros dias de Junho de 1937. A bordo, muito rimos a propósito da sua recomendação!

Estando resolvido, em definitivo, acompanhar minha Mãe, o plano estabelecido era oferecer os meus fracos préstimos à “briosa”, continuar os estudos e formar-me em medicina veterinária.

Entretanto, a Direcção do Sporting Clube de Luanda, por intermédio dos seus representantes e delegados, procurou convencer-me a ficar em Lisboa e jogar no Sporting.

Trindade Fernandes, meu particular amigo e distinto jornalista, teve acção preponderante na mudança da minha resolução. Aceitando os seus conselhos, alterei os planos.

Se fiz bem ou mal, o leitor ajuizará, quando voltar a última página deste livro.

Nas vésperas do embarque, o Sporting ofereceu-me um beberete na sede. Cumprimentos, discursos repassados de amor “leonino” e, por fim, o pedido formal e directo: que à chegada a Lisboa e antes de tomar qualquer compromisso desportivo, visitasse a casa-mãe, ou seja, a sede do Sporting.

Abro aqui um parêntesis para deixar bem explícito que prometi e cumpri. Mais adiante se verá a razão desta referência especial à promessa que fiz em Luanda.

Por agora, retomemos o fio da meada, para a história não perder o sabor.

No dia do meu embarque, Fernando Sá - ao tempo director do Sporting de Luanda - entregou-me 1.500 angolares, para despesas de viagem, importância esta que, segundo creio, foi restituída, mais tarde, pela Sede.

A bordo do “Niassa” começaram as andanças. O barbeiro do navio era benfiquista ferrenho e fez tudo quanto podia para me fazer vestir uma camisola “encarnada”; em contrapartida o amigo Fonseca - trompetista da orquestra -. era “leão” dos quatro costados.

Ali, em pleno Atlântico, travou-se, por minha causa, a primeira luta entre “águias” e “leões”!…

Amigo de ambos, ouvia-os, sorrindo, e aguardava a chegada a Lisboa…»

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 45-57

Esclarecimento

Subscrevendo todos os textos aqui publicados, permitam-me um esclarecimento, para os desmemoriados, sobre o significado da palavra «Império» no universo sportinguista.

«Império» refere-se unicamente à Taça que o Sporting ganhou ao Benfica na inauguração do Estádio Nacional, marcando Peyroteo o primeiro golo neste estádio.

 

 

Taça da Liga: três palavras

Passada que foi a conquista da Taça da Liga três palavras convém reter:

 

- Lastimável

Lastimável a narração dos jogos feita pela RTP.

Nem os jornalistas, nem tão pouco os comentadores de serviço, conseguiram descortinar numa primeira análise aquilo que em casa todos vimos: o golo em fora-de-jogo do Porto e o penalty do jogador do Setúbal.

(Não falo sobre o penalty, claro, que foi cometido pelo Danilo, no jogo contra o Porto, pois não vi esse momento do jogo)

 

- Vergonha

Vergonha a actuação dos árbitros. Felizmente existiu vídeo-árbitro, caso contrário em momento algum teríamos vencido este troféu.

Lucílio Baptista esteve sempre presente.

 

- Coragem

Coragem dos jogadores William Carvalho e Coates e do treinador na marcação das grandes penalidades contra o V. Setúbal.

Memórias de Peyroteo (4)

(cont.)

 

«Gorada a primeira oportunidade, fiquei em Moçâmedes defendendo as cores do Atlético e fazendo parte da Selecção, sempre que esta disputou jogos.

Meu irmão Álvaro, funcionário do Banco de Angola em Moçâmedes e actual gerente do mesmo Banco, na Gabela, fora transferido para Sá da Bandeira.

Ali fundou, com o auxílio de outros carolas, o “Desportivo da Huila”.

Porque eu, em Moçâmedes, frequentava a Escola Primária Superior e em Sá da Bandeira havia um Liceu, o Álvaro convidou-me a mudar para aquela linda Cidade do planalto, que dista cerca de duas centenas de quilómetros de Moçâmedes.

Demorou tempo até que aceitasse o convite e me instalasse em sua casa.

Entretanto, aproveitando as férias escolares, de três em três meses, ia até Sá da Bandeira e, como não podia deixar de ser, dava uns pontapés na bola, equipando-me com a camisola do clube que meu irmão fundara. Ele comparecia aos treinos e, equipando-se também, ainda fazia ver aos novos como se jogava a defesa central. Acentue-se que, nos seus tempos, o “Alvarinho” teria, sem dúvida, o seu lugar na nossa Selecção Nacional.

Aliás, o mesmo teria acontecido, com toda a naturalidade, a meus irmãos mais velhos - José, Jorge, Mário, Américo e Júlio. Qualquer deles teria feito tanto ou mais do que eu se, na devida altura, tivesse vindo para a Metrópole.

Mas nesse tempo não se pensava - ou não se acreditava - que Angola e Moçambique eram óptimo “viveiro” de esplêndidos desportistas, em especial no respeitante a futebol, ténis e natação…

Removidas as dificuldades, abalei para Sá da Bandeira, matriculando-me no Liceu Diogo Cão.

O que foi e é Angola, a sua história, as suas possibilidades económicas, o nível de vida, educação e cultura das suas gentes, tudo ou quase tudo é, ainda, infelizmente, desconhecido de uma parte do povo metropolitano.

Só por si, o facto de se ter nascido em Angola, liga-nos à fatalidade de descendência negra e, consequentemente, dotados de inferior mentalidade, sem princípios de cultura e educação e, porventura, marcados com o estigma do canibalismo primitivo… No entanto, quantos grandes médicos, verdadeiras sumidades nos sectores da medicina humana ou veterinária, quantos competentíssimos engenheiros, arquitectos e licenciados nas mais variadas faculdades, quer em Portugal, quer no estrangeiro, são angolanos?

Sou natural de Angola, filho de pais europeus mas ainda que assim não fosse, jamais negaria a paternidade e o torrão africano que foi meu berço. E se algo de fama e de glória conquistei no campo desportivo, em prestígio e honra da bandeira de Portugal, aos meus conterrâneos e patrícios as ofereço, arrogando-me o direito e o dever de os representar.

Quanto aos ignorantes, a quem tudo serve para amesquinhar e ferir, daqui os convido a passarem os olhos sobre as páginas da história da nossa grande Província de Angola e, sobretudo, a visitá-la, na certeza antecipada de que muito terão de aprender com os angolanos!

Aberto este parêntesis, voltemos à história da minha vida desportiva.

O Liceu Diogo Cão tinha uma equipa de futebol: “O Académico”.

Fiz parte da turma dos estudantes e o mais curioso é que, quando vim para a Metrópole, pensei em ir para Coimbra… continuar os estudos e formar-me em medicina veterinária. Claro que, sendo assim, a minha ideia era a do “jogar na Académica de Coimbra.

Não sabiam? Pois esta é a verdade. Direi mesmo que, poucos dias antes de embarcar, em Luanda, os planos eram esses!…

Mais adiante veremos o que motivou a alteração dos meus intentos.

Por natural imperativo, a equipa do liceu era formada por estudantes, rapaziada nova, com sangue na guelra. Quantas vezes a comparo em vontade, em orgulho, em espírito de equipa, em sacrifício, em camaradagem, enfim, com o “elan” da velha e sempre moça e irreverente mas simpática “briosa”!

Também a mocidade escolar do Liceu Diogo Cão, voluntariosa e arrebatada, não admitia, sem luta ardente e vigorosa, que alguma equipa lhe batesse o pé.

Vem a propósito contar um episódio ocorrido durante um jogo disputado entre o “Académico” e uma equipa da qual faziam parte veteranos, alguns dos quais já haviam abandonado a prática do futebol. Servirá para demonstrar o verdadeiro espírito desportivo, a compreensão nítida do respeito que, nas pugnas, em qualquer emergência, sempre nos deve merecer o adversário, seja ele qual for.

Eu alinhava a avançado-centro da equipa dos estudantes e, meu irmão Álvaro ocupou o lugar de defesa central do grupo contrário.

Por capricho, promessa amorosa (?) ou simples brincadeira, o Álvaro deixara crescer a barba, usando uma fortíssima pêra, que lhe dava um ar de austeridade capaz de nos amedrontar e convencer que, ele só, chegava para meia dúzia de rapazolas como eu!

Pelos lugares que ocupávamos nas equipas, o “barbaças” era a minha sombra negra.

Em determinado lance, meu irmão tentou cabecear a bola que vinha muito baixa, ao mesmo tempo que eu lhe metia o pé! Deu-se o inevitável: a bola tomou rumo diferente e o meu pé atingiu, em cheio, a cara do “barbaças”. Olhei para ele, vi o sangue a escorrer do nariz e… esperei uma grande bofetada…

O árbitro interrompeu o desafio.

A sangrar, de mãos na cara, o Álvaro ouviu as embaraçadas e confundidas desculpas que lhe apresentei e disse:

- “Vamos ao jogo e nada de conversas. Aqui sou o defesa central do meu grupo e não o teu irmão mais velho. Mesmo que tivesses culpa, isto não passava de um incidente do jogo. Vá! toca a andar para o teu lugar”!

Bom desportista e bom irmão!

No fim do jogo fomos juntos para casa. Nem uma palavra de recriminação ou advertência. E só o facto de chegar a casa com o “barbaças”, me livrou de um tremendo puxão de orelhas, a receber de minha cunhada “ Mariazinha”, por eu ter amachucado o nariz do seu querido maridinho!

Recordando este incidente, que julguei digno de registo, não só pelo exemplo de desportivismo que nos dá, como ainda pela nobreza de carácter que encerra, seria monótono e sem interesse enumerar quantos jogos fiz pelo Académico ou dizer se fui bom estudante.

Foram muitos os desafios e aprendi, no Liceu, o que aprende, normalmente, um estudante mais ou menos aplicado.

 

Prepara-se a realização do encontro entre as selecções das duas cidades.

Fernando Peyroteo seria seleccionado pela Huila, uma vez que, no jogo anterior havia defendido a cidade de Moçâmedes?

Um jornalista de nome Oliveira, se não me engano, ventilou o caso no “Notícias da Huila” e, veladamente, chamava a atenção do seleccionador, mostrando-lhe os perigos que corria chamando-me a fazer parte da equipa.

Isso de nada valeu. Fui escolhido e joguei. Qual o comportamento? Direi apenas o que de memória ficou desse jogo e me parece deveras interessante citar.

O resultado foi, creio eu, de 7 a 2 a favor de Moçâmedes.

Comecei o desafio jogando a interior direito e acabei-o, em glória, no lugar de defesa central, por lesão do titular, que abandonara o terreno. Fiz o que vulgarmente se chama um jogo em cheio! Tudo me saiu bem. Dir-se-ia que o meu lugar sempre fora aquele!

No final do prélio, a crítica foi unânime em afirmar que a selec- ção da Huila perdera só por 7-2 devido ao meu esforço, à minha vontade, ao meu denodado espírito de luta e sacrifício.

E o jornalista Sr. Oliveira, reconhecendo, porventura, a veleidade das suas premissas, escreveu mais ou menos isto:

- “Peyroteo foi o melhor dos 22 jogadores em campo, chegou e sobrou para anular a eficiência dos avançados contrários. É certo que eles marcaram 7 golos, mas se Peyroteo não tem vindo para a defesa, a derrota seria muito mais volumosa”.

É possível que o jornalista rectificasse a sua opinião ao assistir à fase que descrevo tão fielmente quanto o permite a memória, decorrida há mais de uma dúzia de anos.

Foi assim: o árbitro assinalou uma “grande penalidade” contra Moçâmedes. Todos se esquivaram a, marcá-la e por fim, o capitão da equipa ordenou que fosse eu…

Fez-se silêncio em redor do campo. Emoção; espectativa! O árbitro apita, o “tiro” parte e… golo da Huila!

Palmas, gritos, o delírio já muito nosso conhecido. Se até ali havia quem admitisse que eu era da “quinta coluna”, enganou-se e rectifícou a opinião.

Terminado o jogo, fui ter com meu irmão Júlio - extremo esquerdo da Selecção de Moçâmedes - e, acompanhados por outros seus companheiros de equipa, seguimos, de autocarro, até ao Hotel onde se hospedara a turma representativa do Sul.

Joguei, pois, contra Moçâmedes, com o mesmo interesse, a mesma vontade, o mesmo fervor que empregara quando defendi as suas cores.

Para mim, isto significa, simplesmente, respeito pela camisola que se veste, dignidade e brio pessoal.

Outro factor concorreu e teve preponderante influência no meu comportamento; é que a 10 de Março de 1918, na pequenina Vila de Humpata, distrito da Huila, distando vinte e poucos quilómetros de Sá da Bandeira, nascera o “presumível quinta coluna”…

Fui para Moçâmedes com ano e meio de idade, ali me criei e me fíz desportista. Mas isto não quer dizer que se três selecções se formassem e me fosse dado escolher, a preferência não recaísse na minha terra natal.

Contudo, se por motivos de filiação das equipas ou quaisquer outros, fosse obrigado a jogar contra a Humpata, empregar-me-ia com o mesmo ardor e apego à luta, a mesma vontade e o mesmo sentimento de respeito pela camisola que envergasse. Acima de tudo estaria o dever de corresponder, honesta e lealmente, à distinção recebida.

O desporto tem de ser uma escola de virtudes e não um meio bom para atingir um fim óptimo.

Assim o entendi sempre e deste modo ainda penso hoje.

 

A minha actividade desportiva estava limitada quase exclusivamente ao futebol. De vez em quando ia até ao barracão-ginásio do Liceu, onde havia um grupo de três espaldares, um plinto e poucos maís aparelhos destinados à ginástica.

Para não esquecer o que aprendera com o professor Angelo de Mendonça, fazia alguns exercícios.

Um dia, porém, o meu ilustre amigo, Tenente Osório - hoje Major em serviço em Évora - entendeu, e muito bem, que os alunos do Liceu podiam e deviam fazer, em desporto, mais do que futebol. Assim, formou uma equipa de esgrima de baioneta!

Com desvelado carinho, incontestável competência e muito trabalho, conseguiu preparar um grupo de jovens. Dava gosto ver a rapaziada evolucionando. Por isso mesmo, não só naquela modalidade como, também, no tocante a outros exercícios militares, não havia segredos para nós.

Mais tarde, quando cumpri o serviço militar em Cascais, de muito me serviu o que aprendi, em garoto, com aquele bom amigo e distinto oficial do nosso exército. O facto de saber muitas coisas, valeu para a concessão de umas dispensas extraordinárias, enquanto os outros camaradas ficavam no quartel, aprendendo o manejo de armas…

Diz o Povo - e tem razão: “O saber não ocupa lugar!..

 

Ir de Sá da Bandeira ao Lobito não é, positivamente, o mesmo que viajar entre Lisboa e Porto.

São nada menos do que uns mil quilómetros bem contados, fazendo-se a caminhada sob um sol abrasador e com alguns troços de estrada pouco recomendáveis para passeios.

Mesmo assim, para jogar futebol, Fiz esse trajecto duas vezes utilizando uma camioneta de carga!

O itinerário foi: Sá da Bandeira - Nova Lisboa - Benguela e, daqui, 20 minutos de comboio até ao Lobito.

Hoje Angola está ligada, em todas as direcções, por carreiras de avião, o que demonstra o formidável incremento dos transportes aéreos naquela Província do Ultramar.

Alguém perguntou certa vez, a um preto gentio, o que pensava ele acerca do avião. A resposta é muito curiosa:

- “O avião é uma coisa que anda devagar mas chega depressa!”

Mas porque no meu tempo, em Angola, não era, como agora, fácil e simples voar, fui de camioneta de carga!

O meu grande amigo Albano de Abreu, actual despachante oficial na Alfândega do Lobito, convidou-me a ir jogar, reforçando a equipa do Sporting Clube do Lobito nos jogos que realizaria para disputa de uma taça denominada “Mácára”.

Mesmo considerando que me encontrava a mil quilómetros de distância e lutando com falta de transportes, aceitei o convite.

Tive conhecimento da próxima saída de um caminhão de carga com destino a Benguela; procurei o motorista-proprietário do veiculo e, a troco de uma lata com 20 litros de gasolina, tudo se resolveu.

Partimos de madrugada. Na cabine, à frente, eu e ele; atrás, sobre a carga, dois serviçais pretos.

A viagem foi esplêndida.

No Lobito, festiva recepção, divertidíssimos “simpósios”. Do vermouth - aperitivo - ao caril de galinha e aos picantíssimos churrascos, nada faltava.

Como preparação atlética para jogos de responsabilidade, temos de convir que não se poderia arranjar melhor!…

O Albano de Abreu procurava evitar os excessos mas os seus amigos julgavam cumprir um dever de cortesia, rodeando-me de gentilezas culminadas com opíparos almoços e jantares.

E foi observando tais regras de alimentação que, dois ou três dias após a minha chegada ao Lobito, vesti a camisola do Sporting e “reforcei” a sua equipa de futebol.

Abstraindo o resultado final, interessa fixar que a minha actuação foi de molde a ficar desde logo convidado a jogar no segundo desafio para disputa da “Taça Mácára”!

Como estas viagens só podiam ser feitas aproveitando as férias de período no Liceu, voltei para Sá da Bandeira e, na data oportuna, tornei ao Lobito para disputar o segundo encontro.

Quer dizer; duas vezes mil quilómetros (ida e regresso totalizaram quatro mil quilómetros) vencidos em caminhão de carga, sem o mínimo conforto, para jogar futebol e sem a menor recompensa financeira!

Puro amadorismo e grande amor ao futebol! Nada mais!

Entretanto, integrado na equipa do Liceu, fui a Moçàmedes jogar alguns desafios.

A digressão do Académico não foi feliz pois creio termos perdido todos os jogos realizados.

Sem dúvida, jogava-se melhor futebol em Moçàmedes do que em Sá da Bandeira. A prová-lo estão os resultados obtidos não só pelas equipas de clube como pelas selecções locais. Em desporto, o Litoral manteve sempre marcada ascendência sobre o Planalto.»

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 38-45

Os melhores golos do Sporting (65)

 

 

Golo de MANUEL NEGRETE

Rio Ave – Sporting, 2-2

31 de Agosto de 1986

 

Foram muitos os golos bonitos que com a camisola deste nosso grandioso clube foram marcados, alguns aqui descritos. Destaco o de Manuel Negrete, jogador mexicano que no Mundial ’86 – de tão infelizes memórias para o futebol português – marcou o golo mais bonito desse torneio, apesar de outro - «a mão de Deus» -, ter ficado para a história.

Fica a descrição deste golo pelo Rui Miguel Tovar:

«Quando Maradona ultrapassa Hoddle, Reid, Samson, Butcher, Fenwick e Shilton para fazer o 2-0 à Inglaterra, o golo de Negrete é relegado para segundo plano no Mundial-86. Aquele sensacional pontapé de moinho à Bulgária é o clique para João Rocha, presidente do Sporting, contratá-lo ao Pumas. Em Portugal, o mexicano até começa bem mas perde o gás, à medida que os relvados se tornam cada vez mais fustigados pelas chuvas.

Em apenas meio ano (depois Negrete assina pelo Sporting... Gijón), o mexicano dá nas vistas como autor do melhor golo da segunda jornada (2-2 vs Rio Ave, em Vila do Conde), quando passa a bola por cima de Santana e ainda de um outro vila-condense (Carlos Manuel), antes de rematar por entre as pernas de Figueiredo. Dessa vez, Maradona não se intromete (...).»

 

Como não consegui encontrar nenhum vídeo deste golo, em alternativa relembro, se me permitem, "o golo" que Maradona não conseguiu marcar ao Sporting.

 

 

Memórias de Peyroteo (3)

(cont.)

 

«BOX

A “Nobre Arte”, quer como desporto, quer como meio de ganhar a vida, não criara ainda raízes em Angola, principalmente no Sul da nossa Província Ultramarina.

Porém, de um instante para outro, apareceram em Moçâmedes vários “boxeurs” profissionais, facto que agitou o meio desportivo local.

Joaquim Pereira Goes, Adolfo Lebre e um rapaz de cor, cujo nome não recordo agora, formavam o trio mais em evidência.

Pereira Goes chamou o Professor Angelo de Mendonça para seu orientador técnico. Logo, onde estava Angelo de Mendonça, estava eu, que o seguia como a sua sombra. Assistia aos treinos e, de vez em quando, calçava as luvas e aplicava alguns murros no saco de areia.

No fim do treino gostava imenso de beber o que tomava Pereira Goes: uma mistura de água com um pouco de vinagre e açúcar. Não garanto, mas creio que era isto.

O pupilo de Ângelo de Mendonça era um especialista nos saltos à corda.

Sempre atento, seguia com vivo interesse todos os movimentos dos braços e pernas e, assim que o pugilista deixava a corda para treinar com o saco de areia ou esgrimir com a sombra, eu pegava nela e tentava imitá-lo. Tantas vezes o fiz que algo consegui. A prová-lo está o facto de os programas das primeiras sessões de box abrirem com: “Fernando Peyroteo em exibição de saltos à corda”.

Mestre Ângelo delirava com o aprumo do “seu” miúdo e quero crer que tinha razão para isso.

Daqui lhe pergunto: não será assim, querido Mestre?

O hábito de aparecer em público antecedendo os combates e a convivência com os profissionais, criou em mim o gosto e o desejo de lutar também.

Treinei, aprendi e consegui subir ao “ring” para fazer exibições da “Nobre Arte” com outro rapaz da minha idade. Dois assaltos apenas, durante os quais trocávamos umas dúzias de socos e fazíamos o possível por demonstrar ao público como se “esquiva”, como se faz “jogo de pernas” e… como se fica com um olho “à Belenenses”!

Os árbitros não nos deixavam aquecer e os resultados foram sempre “match”-nulo, por ordem de Ângelo de Mendonça, que detestava meninos vaidosos.

Subi ao “ring” várias vezes para fazer exibições de saltos à corda. O meu nome figurava nos cartazes de sessões de pugilismo entre profissionais mas, felizmente, nunca fiz mais do que exibições.

Vem a propósito contar um incidente com muita graça, ocorrido num combate entre o Pereira Goes e um rapagão africano, de nome Faquinhas.

Pereira Goes era um pugilista profissional, profundo conhecedor dos segredos do “ring”, de soco potente e esquiva rápida, a um tempo estilista e rude, novo e valente. Devia pesar cerca de 78 quilogramas.

O Faquinhas, marítimo de profissão, era um homem de envergadura invulgar. Com 1,90 de altura, pesava uns 100 quilogramas, sendo possuidor de força extraordinária.

Para se avaliar bem, bastará dizer que, com a maior facilidade, pegava num barril com 100 litros de vinho e colocava-o em cima do balcão da mercearia. Empurrava para o mar, sozinho, uma canoa com os apetrechos da pesca.

Mas, coitado, tinha tanto de força como de bondade. Era um simples, um bonacheirão.

Dizia ele gostar de mim por eu ser malandro…

Quando, a bordo do seu barco, cozinhava daquelas apetitosas caldeiradas, que só os marítimos sabem fazer, convidava sempre o “ Fernandito”.

Nesses almoços, enquanto eu comia uns quinhentos gramas do apetitoso petisco, o Faquinhas tragava uns cinco quilos, ajudados por dois ou três pães grandes, regando tudo com os seus dois litros de vinho.

A pinceladas largas aqui temos o retrato do Faquinhas. Só faltou dizer que sofria de gaguês.

Pereira Goes vencera todos os seus adversários, pondo “K. O.” a maior parte deles. Era um ídolo!

Um dia, lança um repto. Desafiava qualquer homem a bater-se com ele.

…Há para aí algum valente?…

Alguém convenceu o amigo Faquinhas a aceitar. Ele jamais calçara umas luvas de box mas, em questão de força, não restavam dúvidas a ninguém que o Pereira Goes ficaria a dormir, no tapete, ao receber um murro do moçamedense. Mas, uma coisa é ter força e outra é saber box!…

Rapidamente se esgotou a lotação da sala.

Começa o combate.

Pereira Goes, saltitando, aplicava uma série de socos e consome, no mesmo ritmo, o tempo dos dois primeiros assaltos. Faquinhas, movendo-se pesadamente, oscilando o braço direito e com o esquerdo traçado sobre o peito, parecia não sentir o efeito dos ataques do adversário.

Ao terceiro assalto já o amigo Faquinhas procurava a posição de bater mas, felizmente para Goes, os socos perdiam-se no ar. Se assim não fosse, logo ao primeiro murro que apanhasse, ó Pereira Goes teria muito que contar, talvez no… caixão!

No 4.º ou 5.° assalto, o profissional Goes acertou um directo daqueles que até conseguem abalar um Faquinhas… Nem queiram saber o que se passou depois!

O Faquinhas avança como um toiro; coloca o adversário no canto e procurou aplicar-lhe um murro com toda a intenção de o matar! Mas Pereira Goes, sereno e ágil, conseguiu esquivar-se e apareceu, saltitando, no meio do “ring”.

Faquinhas, ainda mais gago pelo estado de irritação em que se encontrava, volta-se para o público e grita; “-Como é que… que… que… vocês querem que eu bá…ta ne… nes…te gajo, se ele anda sempre a fugir?”

Claro que o público se manifestou ruidosamente, como é hábito nas sessões de box, mas o Faquinhas, completamente desvairado, deitou os dentes ao cordão de uma das luvas, rebentou-o, puxa por ela, descalça a outra e, com as lágrimas nos olhos, tremendo de raiva, gritou ainda maís gago:

“Se hou…ver aí al…al., ,guém que se quei..-quei… queira ba… bater comigo mas à por… por… portuguesa que venha!…”

Ninguém se resolveu a subir ao “ring” porque nenhum espectador estava disposto a assinar a sua condenação à morte!

 

De propósito não me referi ao “ping-pong” - modalidade em que fui campeão - porque isso aconteceu quando já me encontrava em Luanda, pouco tempo antes de vir para a capital do Império. Mais adiante contarei o que se passou.

Entretanto, continuemos a conversar sobre o futebol, esse mágico desporto que, como nenhum outro, tem o condão de atrair a si a infância, a adolescência e até a velhice.

Vejamos se há exagero:

Se atirarmos uma bola para os pés de uma criança de três ou quatro anos, ela tenta, imediatamente, tocar-lhe com o pézinho. Mas se lhe dermos um raqueta, não sabe o que fazer dela.

A criança tem medo do mar, receia o cavalo e não gosta de apanhar murros no nariz, ainda que se lhe jure tratar-se de…”Nobre Arte”.

Visitemos os bairros excêntricos e mais populosos das grandes cidades e em cada rua veremos grupos de crianças e adolescentes a jogar à bola. À entrada dos estádios ou simples campos de futebol onde se disputa um jogo com entrada pagas, logo nos aparecem rapazolas dos 10 aos 15 anos, com a mágoa estampada no rosto, por não poderem comprar o bilhete, a puxarem-nos pelo casaco e a dizerem: “Deixe-me entrar consigo.

Depois, lá dentro, na bancada ou no peão, quantos avozinhos seguem o jogo com o mais vivo interesse, levantando-se com agilidade invulgar, braços erguidos, aplaudindo um golo do seu clube favorito!

Se o futebol é assim, não admira que, gostando e praticando outras modalidades, eu viesse a optar pelo chamado desporto-rei.

Caso curioso: para a ginástica, para o ténis, o hipismo e até para a natação, nós dispúnhamos de instalações razoáveis (ginásio, cabines, picadeiro, barracas, etc.) e, além de tudo isto, havia competentes professores, mestres e orientadores técnicos. Para o futebol, existiam apenas os rectângulos do jogo e as balizas 1 Os jogadores equipavam-se em suas casas, onde, igualmente, tomavam os seus banhos após os jogos. Só muito mais tarde isto passou a ser feito nas sedes dos clubes, donde saíamos e para onde voltávamos de automóvel, por vezes de bicicleta e, também, a pé…

Uma ou duas vezes por semana, depois da hora de trabalho ou, no meu caso especial, acabadas as aulas na “Escola Primária Superior Barão de Moçâmedes”, fazíamos treinos de conjunto. Consistiam eles na formação de duas equipas, geralmente a “primeira categoria” contra a “reserva”, jogando-se mais ou menos o tempo regulamentar. Mas os treinos que realizávamos com maior frequência consistiam no pontapé ao golo com uns tantos a chutar e um só a defender… O capitão da primeira categoria era o treinador… Bem vistas as coisas, os treinos serviam apenas para manter a resistência física necessária aos 60 minutos de uma partida e não perdermos o “contacto” com o esférico.

De resto, não se estabeleciam planos tácticos de ataque e defesa; quanto à técnicaquem sabe, sabe!

Aos domingos lá estávamos plenos de energia, vontade e amor à camisola que vestíamos. Não ganhávamos dinheiro por jogar futebol, antes pelo contrário, pagávamos cotas e comparticipávamos em subscrições, sempre que o nosso clube necessitava de auxílio.

Chorávamos quando perdíamos um jogo que, normalmente, devíamos ganhar! Há quem chame a isto “carolice”; para mim significa puro amadorismo.

Valha a verdade que entre dirigentes e dirigidos reinava a camaradagem, a lealdade, a franqueza e o respeito mútuo. Isto, repare-se, na ponta Sul da nossa Província de Angola, no ano da graça de 1932.

Na Metrópole, em 1937, as coisas apresentavam aspectos bem diferentes, como teremos ocasião de apreciar.

Porém, não se julgue que pela carência de treinadores de reputação mundial, massagistas de valor incontestável e de óptimas cabines junto dos recintos de jogos, o futebol praticado em Moçâmedes era de inferior qualidade e sem merecimento. A provar o contrário das falsas ilações que se poderiam tirar das circunstâncias apontadas, citarei um caso passado comigo e que bem atesta a valia de alguns elementos componentes das turmas moçamedenses.

Era domingo. Um navio entrara em Moçâmedes, com destino à Costa Oriental Portuguesa.

Alguns passageiros visitaram a cidade e - sempre a magia do futebol! - aproveitando o tempo, assistiram a um jogo do campeonato local.

Terminado o encontro e quando me dispunha a seguir para casa, a fim de tomar banho, apareceu, para falar-me, um cavalheiro vestindo com esmerada elegância, “fluente na palavra e no gesto”, agradável e simpático. Assistira ao jogo e gostara da minha actuação na equipa do Atlético.

Sem mais preâmbulos ofereceu-me boa colocação em Lourenço Marques, ordenado suplementar e “alguma coisa” pela assinatura de um contrato para jogar, se bem me recordo, pelo Sporting daquela Cidade. Diga-se de passagem que na África Oriental Portuguesa o futebol contava já com elementos de real valor e, nos parques de jogos, quase nada faltava do que fosse indispensável à sua expansão e desenvolvimento.

O convite agradou-me mas nada podia resolver. Teria, de antes de mais nada, falar com minha Mãe, que não consentiu que aceitasse a proposta.

Saí de minha casa e já na rua, o homem quis convencer-me a ir para bordo do navio e… fugir!

Interessado como estava na “passeata” voltei a casa e contei tudo à Mãe.

Ela, coitada, vendo-me tão influído e até disposto a cometer a imprudência de tentar o embarque Clandestino, na companhia de um desconhecido, mandou chamar meu irmão Mário e contou-lhe o que se passava.

Eu, que, num compartimento contíguo, ouvira a conversa e ponderando o que poderia acontecer, corri a prevenir o “meu amigo” o qual, sem perda de tempo, se escapou para bordo.

Claro que o Mário não o encontrou…

Ao cair da noite, triste e pesaroso, vi o navio, todo iluminado, desaparecer no horizonte estrelado…

Era mais uma ilusão desfeita…

Para consolação, restava-me a certeza de que um desconhecido, vendo-me jogar uma só vez, pretendera levar-me para o Sporting de Lourenço Marques!

Dias depois, contei o caso ao meu grande amigo e Professor Ângelo de Mendonça.

Sempre bom conselheiro, ponderado e sincero, colocou a mão sobre o meu ombro e disse paternalmente:

- “És bom jogador de futebol e bom rapaz mas ainda muito novo para saberes governar-te sozinho. A vida é cheia de surpresas e quem sabe o que te aconteceria se fosses entregue a um estranho. Tua Mãe, como sempre, teve razão. Toma cuidado, Fernando. Evita aventuras que podem perder-te!…”»

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 33-38

Memórias de Peyroteo (2)

«Como já disse, a minha actividade desportiva não se resumia a jogar futebol. Os campeonatos eram muito curtos e, daí, a necessidade de praticar outras modalidades.

 

BASQUETEBOL

Por ser uma modalidade ainda mal conhecida, pouco se jogava basquetebol em Moçâmedes.

O meu clube, o Atlético, formara duas equipas e eu fazia parte de uma delas, por sinal a mais fraca.

Interessado, como estava, na modalidade e, sobretudo, porque os treinos eram orientados por Mestre Ângelo - sempre ele! - dediquei-me ao estudo das Regras e, em pouco tempo, conheci-as perfeitamente, de modo que o facto constituía vantagem sobre companheiros e adversários.

Conhecer e saber interpretar as leis do jogo que praticamos, permite-nos resolver, momentaneamente, qualquer problema que surja e tirar partido das situações difíceis.

Convém acentuar que o desporto em nada prejudicava as minhas horas de estudo. Por isso, lia e compreendia as regras das modalidades a que me dedicava.

Em. Sá da Bandeira havia, também, várias equipas de basquetebol, de modo que, certo dia, aprazou-se um encontro inter-cidades.

Como termo do comparação, direi que a rivalidade desportiva entre Moçâmedes e Sá da Bandeira, é idêntica à de Lisboa-Porto.

A escolha do árbitro para dirigir o encontro recaiu sobre mim. Tinha 14 anos e confesso que a resolução me desagradou e amedrontou!

Não aceitei o encargo sem autorização de minha Mãe que, por sua vez, consultou meus irmãos mais velhos. O caso não era para brincadeiras porque uma má arbitragem poderia valer-me… alguns dias de cama!!!

Meus irmãos concordaram. Deram-me conselhos e a garantia da sua presença ao jogo…

Senti alívio! Fora do rectângulo, para me defender, estariam três homens de maior envergadura da que tenho hoje…

Não havia dúvidas que estaria bem amparado, mas também sabia que nada me livrava de alguns tabefes, em casa, se fizesse asneira.

E foi assim, pensando no que me poderia acontecer, que reuni os capitães das duas equipas para a escolha do campo.

Principiou o jogo; mais apitadela, menos apitadela e os ânimos começaram a excitar-se. Moçâmedes ganhava. O Abel Vaz Pereira, - um autêntico matulão! - marcava pontos e o Marinho de Sousa discutia (?) a sua validade.

Castigo! Três lançamentos livres, três cestos e assim por diante.

A certa altura houve sarilho e ameaças de bofetadas! Eu estava, na verdade, assustado como um passarinho, com tais promessas, mas fiz “ouvidos de mercador”, mostrando sempre a maior indiferença e calma em face dos prometimentos.

Mas o “grande” Abel ouviu e disse-me pouco depois:

- “Se houver barulho, vem para junto de mim, que ninguém te fará mal”!

Foi o suficiente porque o homem das ameaças ouviu e quedou-se silencioso!

Terminado o jogo fui felicitado por jogadores e público. A arbitragem, se não foi isenta de erros, teve o mérito de ser imparcial.

Meus irmãos estavam radiantes por dois motivos: primeiro, porque o “miúdo” cumprira; segundo, porque não foram obrigados a fazer uso do físico… E que físico, Santo Deus!!!

Mal sabiam todos que, se não fora o Abel Vaz Pereira, eu teria largado o apito e desatado a fugir!…

Pobre Abel, que já não pertences a este Mundo! Paz à tua alma!

Quem havia de supor que fui praticante e árbitro de basquetebol!?…

 

NATAÇÃO

A linda e magnífica baía de Moçâmedes presta-se admiravelmente para a prática dos desportos náuticos.

Contudo, no meu tempo e a despeito das excepcionais possibilidades que a baía oferece, o desporto da vela limitava-se a espaçadas passeatas em canoas. Estes barcos, construídos para a pesca no alto-mar, serviam, também, para recreio domingueiro dos seus proprietários e amigos.

Não me recordo de ter visto ali qualquer barco de construção apropriada a este desporto, mas sei que, actualmente, ele é uma realidade em Moçâmedes.

As águas tranquilas e límpidas do Atlântico proporcionavam à juventude riquíssimos banhos. Passávamos horas dentro da água. Em dias de menos obrigações ou deveres de estudo, íamos para a praia às 8 horas da manhã para só de lá sairmos às 12 horas. Com seis anos de idade já eu sabia nadar. Aprendi rapidamente e foi assim:

Uma dezena de rapazes tomava banho. Eu olhava-os embevecido mas triste por ficar brincando com a espuma branca das ondas, sem poder acompanhá-los.

De súbito, senti-me agarrado!

Jaime Sampaio Nunes, grande nadador, despiu-me e, pegando em mim, completamente nu, atirou-me ao mar, como se fora um objecto inútil.

É fácil calcular o susto que apanhei! Isto passou-se na ponte-cais, que fica a uns três metros acima do nível das águas.

Ainda eu ia no ar quando Jaime Sampaio, no seu estilo impecável, mergulhou a meu lado.

Vendo-me em aflições, ajudou-me a chegar à praia. Depois, durante cerca meia hora, ensinou-me o que devia fazer para nadar. E pronto! Largou-me.

Perdido o medo mas ainda receoso, continuei na água, esbracejei, movi as pernas como ele ensinara e comecei a flutuar.

Decorridas, talvez, duas horas, já nadava uns metros e dois ou três dias depois, entrei a fazer habilidades, lançando-me de três ou quatro metros de altura.

Não há exagero. Ângelo Mendonça pode comprovar o que afirmo.

De resto, em Moçâmedes, ainda hoje, é raro encontrar um garoto de 6 ou 7 anos que não saiba nadar, embora sem estilo…

Não terão aprendido como eu mas, daquele ou de outro modo, o certo é que todos nadam mais ou menos bem.

Um dia organizaram-se provas de Natação. Entre outras, a de 100 metros livres.

Dos concorrentes recordo Marinho de Sousa - amigo que muito estimo e admiro - actual Inspector do Porto de Luanda, a quem já me referi no capítulo de basquetebol, e o Aníbal Russo, cujo paradeiro ignoro.

A partida foi feita de bordo de um barco estacionado perto da ponte-cais e a chegada era na jangada que se encontrava em frente da praia de banhos.

Aníbal Russo era um nadador vigoroso, de braçada firme, possante.

Marinho de Sousa, um magnífico estilista, nadava “crawl” com razoável velocidade. Quanto a mim, não sei em que “estilo” nadava. O que sei é que cheguei à jangada em primeiro lugar, bastante distanciado dos dois mais próximos concorrentes!

Não cabia em mim de contente, mas o Aníbal Russo e Marinho de Sousa não gostaram da proeza. Em especial, o Marinho de Sousa, que não gostava de perder, mesmo que fosse a feijões!…

Não restam dúvidas de que qualquer deles nadava melhor do que eu. Mas era mais jovem e supria as faltas de técnica com a força de braços e pernas… Contava apenas 14 anos!…

Fui, portanto, Campeão de Moçâmedes em natação: 100 metros livres.

 

REMO

Por carência de barcos apropriados, a organização de competições náuticas, com regularidade, era praticamente impossível.

Mas tal como várias vezes aconteceu no respeitante a provas de natação, também se realizavam, de quando em vez, regatas em barcos a remos.

Eu fazia parte de uma das equipas do Atlético mas só uma vez remei em competição formal.

O barco não obedecia a quaisquer características técnicas especiais mas, pela sua configuração esguia e sendo leve, deslizava bem sobre a água.

A minha boa estrela mais uma vez me acompanhou.

Alcançámos o primeiro lugar da classificação geral, cujo prémio foi um espelho. Objecto de pouco valor, que se poderia comprar com uma centena de angolares, teve, para nós e especialmente para mim, valor incalculável, porque representava… mais uma vitória no desporto!

…Também remei, meus amigos!

De tudo um pouco, para… não morrer ignorante!

 

EQUITAÇÃO

O Atlético mantinha em actividade uma Escola de Equitação dirigida por um sargento do exército, de apelido Portilheiro.

Se não estou em erro, o Sr. Doutor Torres Garcia (bom amigo, falecido há anos em Coimbra), era o Presidente da Direcção do clube e, também, Director de uma importante Companhia possuidora de bons cavalos, os quais eram utilizados na nossa Escola.

Duas vezes por semana lá estava eu e outros rapazes, devida- mente equipados, para a prendermos a “Arte de bem cavalgar toda a cela”.

Aprendi a montar mas nunca entrei em competições. Em hipismo não passei das aulas de aprendizagem e alguns passeios.

De sorte que, neste capítulo, recordarei apenas alguns sustos que apanhei.

Os professores de equitação gostam de fazer, uma vez por outra, partidinhas aos seus alunos: mestre Portilheiro não fugia à regra… O picadeiro era um recinto de chão duro, rodeado de paredes ; um quintal adaptado para o efeito e a que, pomposamente, chamávamos picadeiro. Certo dia montava eu uma égua amarelo-branca. O professor, ao meio do recinto, levantou o chicote, ouviu-se o estalido e o animal começou a andar…

Primeiro a passo, depois a trote e, por fim, a galope. Nisto, a ponta do chicote começou a estalar em frente do focinho da égua a fim de a fazer dar uma volta rápida sobre as patas trazeiras e caminhar em sentido contrário.

O pior foi que o animal se assustou - e eu também - e a coisa esteve séria!

Não havia forma de a fazer parar: saltava, empinava-se como costumam fazer os potros nos “rodeos” e nós estamos habituados a ver nos filmes de aventuras. O mal estava no facto de o cavaleiro não ser, nem por sombras, um daqueles rapazes das pampas… Resultado: tanta força fiz para me segurar que se partiu a correia do estribo e fui de encontro à parede. Estendi o braço para evitar uma tremenda cabeçada na parede, mas sofri um profundo golpe na mão direita e fui parar ao chão! Enfim, do mal o menos. No entanto, dez minutos depois do incidente, com a mão desinfectada e ligada, já eu montava um cavalo e a lição continuava.

Mestre Portilheiro fez a partidinha mas estou convencido de que, se advinhasse o resultado, não a teria feito. Também apanhou um bom susto e suou para fazer parar o animal.

Ficámos pagos!…

Tempo depois, já eu montava razoavelmente, ou, pelo menos, estava convencido disso, pedi ao Sr. Dr. Torres Garcia para me emprestar um cavalo.

Muito novo, um tanto vaidoso, queria botar figura passeando, ao domingo, pelas ruas da cidade. Porém, antes de mim, já o Mário Miranda fizera igual pedido.

Na cavalariça estava a égua protagonista da cena do picadeiro, e um cavalo, ainda novo, pouco montado. Um lindo exemplar mas ainda bravo como um toiro. O Mário escolheu a égua, por ser animal dócil, dando boa montada… quando não assustada, é claro! Não restava outra solução. Tinha de levar o tal cavalo género toiro. Mal parecia chegar ali, equipado, todo flamante e voltar para casa, por ter medo do cavalo. Que pensaria o preto que tratava dos animais?

E assim foi; cavalo na rua e… fomos passear.

Trote suave e cuidadoso, falinhas meigas, festas no pescoço e o cavalo, garboso, obedecia ao mais leve toque de rédeas. A minha exibição foi perfeita até aparecer o Mário Miranda, cavaleiro experiente, que logo pensou em fazer uma partida.

Colocou-se a meu lado e seguimos a caminho da Torre do Tombo, no alto da Cidade.

Chegados a uma recta que tem cerca de dois quilómetros de comprimento, reparei que o Mário, adiantando, fazia passar a égua pela frente do meu cavalo. Inocente, não fazia a mínima ideia da finalidade a atingir… No entanto, comecei a notar que o cavalo se mostrava inquieto e menos dócil… As festinhas e palmadas já não resultavam;- o animal, excitado e nervoso, relinchava levantando o focinho. De súbito, o Mário adianta a égua, coloca-a bem à frente do cavalo e rompe em forçado galope! Não queiram saber! O “Toirão” dá uma sacudidela na cabeça, toma o freio nos dentes e vai, em correria louca, atrás da égua. Puxei as rédeas, dei-lhe folga e, rapidamente, tornei a puxá-las com força, mas. nada consegui! O animal parecia doido!

Chamei, gritei, fiz gestos… O Mário olhava para trás e ria-se. Ria-se do que, para mim, não tinha graça nenhuma…

Quase no fim da recta, foi reduzindo a marcha até que o alcancei. Assim que parámos, o cavalo empinou-se e o Mário Miranda teria ficado com as costelas amolgadas se não tivesse feito a égua avançar rapidamente… Estão a ver a coisa, não é verdade?… Por pouco que o feitiço não se voltou contra o feiticeiro!

No regresso trocámos as montadas: vim eu na égua e ele no cavalo que, sem eu dar por isso, saíra da cavalariça sem bridão.

O Mário nunca deixou que lhe passasse à frente. Bem me esforcei por isso mas ele, bom cavaleiro, conhecia as manhas e as tendências… dos jovens cavalos…

Aconteceu-me o que sempre acontece aos ingénuos pretenciosos: julgava-me um bom cavaleiro e, afinal, desconhecia os truques…

 

TÉNIS

Antes de ocorrido o incidente que me levou ao Atlético, jogava ténis no “court” do Sporting, aproveitando o tempo em que o rectângulo estava livre de tenistas consagrados. Isto só se verificava ou muito cedo - mal despontava a manhã - ou à hora do almoço: Tinha de comer à pressa para aproveitar a oportunidade.

Esta hora é, de todo, condenável para a prática de qualquer desporto, sobretudo sob um sol escaldante como o africano.

Só havia dois campos de ténis em Moçâmedes: o do Sporting, destinado aos seus sócios, adultos, que pagavam cotas. O outro, pertencia à companhia inglesa exploradora do Cabo Submarino, sendo utilizado pelos seus empregados e por uns quantos amigos destes. Os miúdos não tinham ali entrada mas eu, que era bom rapaz, estimado por todos (passe o auto-elogio!) ainda lá joguei algumas vezes. De modo que, no campo do Sporting, ou entre as 12 e as 14 horas, ou nada.

O meu parceiro favorito era o Rogério Trindade. Os seus irmãos mais velhos - Artur e Raul - eram grandes jogadores. O Artur chegou a ser campeão de Angola, salvo erro, e creia-se que havia, por lá, tenistas de muito valor, aos quais os próprios ingleses rendiam homenagens.

Com um mano Campeão de Angola, ao Rogério não faltavam raquetas e bolas. Está bem de ver que eu beneficiava da fartura!

Considerando a nossa idade, não se pode dizer que jogávamos ténis, no verdadeiro sentido do termo.

De raqueta na mão, passávamos a bola um para o outro, teimando em não a deixar bater na rede.

O Rogério era muito mais habilidoso do que eu, podendo afirmar tratar-se de um verdadeiro prodígio. E tanto assim que, alguns anos depois, embora muito novo ainda, foi, como seu irmão Artur, campeão de Angola.

Dois anos fomos companheiros inseparáveis no ténis.

Entretanto, deu-se a minha “fuga” para o Atlético e o ténis acabou-se - não logo a seguir porque talvez se acreditasse no meu regresso ao Sporting. Mas assim que comecei a representar o Atlético em várias modalidades, as coisas tomaram aspecto diferente.

Repare-se neste facto curioso, que ilustra bem até que ponto os homens se esquecem, por vezes, do respeito que devem a si próprios, assumindo atitudes que nada os elevam, antes os diminuem até perante as crianças. Mas diga-se de passagem: “lá como cá, tais fadas há”. Eu o provarei nas páginas deste livro.

Agora contarei o episódio do ténis, em Moçâmedes.

Certo dia, eu e o Rogério, decidimos faltar às aulas, para dedicarmos ao ténis a parte da tarde.

Por volta das 14 horas lá estavamos a fazer passar a bola por cima da rede e… a marcar pontos. Decidia-se uma questão de supremacia mas a partida não chegou ao fim.

Emelino Abano, director do Sporting, capitão da 1.* equipa de futebol dos “leões”, apareceu de surpresa e fez acabar o jogo! Como ele soube da nossa combinação, constitui, ainda hoje, mistério para mim. O certo é que apareceu montado numa bicicleta, chamou o contínuo e mandou retirar a rede do campo. Depois deu, ao preto, ordens terminantes para nunca mais consentir que eu ali jogasse ténis. Que fosse jogar para o campo do Atlético!

Ora, Emelino Abano, sabia tão bem como eu que o meu clube não tinha recinto apropriado.

O Rogério, sportinguista, continuou a servir-se do “court” mas eu, coitado, sem parceiro, sem raqueta e sem bolas, só de longe em longe pegava numa raqueta para “brincar” no rectângulo do Cabo Submarino.

Volvidos muitos anos, ou melhor, ainda há bem pouco tempo, aqui em Lisboa, conversando com o Emelino Bonito Abano, recordámos o incidente e ele disse-me:

“Tu gostavas de jogar o ténis e uma vez que só sendo sportinguista poderias utilizar o nosso campo, pensei que seria a maneira de voltares ao Sporting…”.

Nada ganhou com isso o camarada “carequinha”! Abandonei o ténis quase para sempre e continuei a pertencer ao Atlético Club de Moçâmedes!

Sempre ouvi dizer que não é com fel que apanhamos moscas.

Mas, a terminar este episódio, repito:

“Lá, como cá, tais fadas há”.

Adiante veremos.»

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 25-32

Quente & frio (parte 2)

 

Subscrevendo a totalidade da análise que o Pedro fez sobre o jogo de ontem, permitam-me que faça um acrescento ao item do «Não gostei nada» que consta no seu texto: a adulteração que o equipamento Stromp foi alvo com a utilização de calções de cor verde.

Sobre o equipamento Stromp lê-se no site oficial do Sporting: «Este equipamento leonino era constituído por camisola bipartida verde e branca, hoje comercialmente conhecida por equipamento ‘Stromp’ em homenagem a um dos seus principais fundadores, Francisco Stromp, e calção branco, passando os calções, em 1915, a ser pretos. As camisolas verdes e brancas bipartidas eram muito vistosas, sendo em rigor, o mais bonito equipamento que se exibia em Portugal.»

Memórias de Peyroteo (1)

«Assim se faz desporto em África e assim são os filhos da minha querida Angola…

 

            Vai decorrido mais de meio século.

            A bordo de um velho navio que largara de Lisboa para vencer o Atlântico com rumo à misteriosa África de há cinquenta anos, seguiu um casal de portugueses metropolitanos, acompanhado de dois filhos pequeninos.

            O chefe da família, natural de Torres Novas, ia tomar posse de um lugar superior no estudo e traçado dos caminhos de ferro que hoje ligam a cidade de Moçâmedes ao planalto da Huila.

            Sua esposa, natural de Lisboa, pensava em servir-se do seu curso de professora para leccionar e, trabalhando, auxiliar seu marido.

            Seus nomes: José de Vasconcelos Peyroteo e Maria da Conceição de Seixas Peyroteo.

            Dezoito anos depois, o casal contava doze filhos - nove rapazes e três raparigas - sendo três naturais da metrópole e nove de Angola.

            O autor destas memórias é o décimo primeiro. Nasceu na vila de Humpata, distrito de Huila, a 10 de Março de 1918.

            O caminho de ferro atingira a Umbia, no sopé da Serra da Chéla.

            Vencida esta, o comboio chegaria ao Lubango - hoje Sá da Bandeira - terminando a primeira fase dos trabalhos.

            Envelhecido e cansado, vítima do trabalho e do clima, meu Pai teve de regressar a Moçâmedes, onde uma violenta crise cardíaca o vitimou.

            Com doze filhos, o mais velho de 18 anos e a mais nova com sete meses, minha Mãe, teve, então, de fazer uso, por necessidade, do seu curso. Até então leccionara pelo gosto e prazer que sentia no ensino e convívio com as crianças, sem que os proventos que auferia fossem indispensáveis à economia do lar.

            Agora, quando apenas os dois filhos mais velhos estavam empregados e mal ganhavam para si, a falta de meu Pai assumia aspectos de tragédia em nossa casa.

            Dotada de coragem invulgar, de uma força de vontade indomável, consciente do seu dever, minha Mãe decidiu-se a lutar.

            Lutou e venceu!

            Conseguida a nomeação para professora oficial em Moçâmedes, começou a trabalhar como funcionária do Estado.

            Nas horas vagas e à noite, dava lições particulares.

            Não encontrarei palavras para descrever o que foi a sua vida de trabalho, de sacrifício e até de heroísmo, para criar e manter, decente e honestamente, todos os filhos.

            Que o leitor, Chefe de Família, se detenha um pouco e avalie por si próprio.

            Quando meu Pai faleceu, contava eu pouco mais de dois anos. Quis Deus dar-me por Mãe não apenas uma mulher, mas uma heroína e uma Santa.

            À sua memória dedico as páginas deste livro.

 

            Meu Pai casou duas vezes e do seu primeiro matrimónio com Leonor Micaela de Bívar Moreira de Brito Peyroteo - de quem enviuvou - nasceram três filhos: Maria Amélia, Henrique e Berta de Bívar Vasconcelos Peyroteo.

            Do segundo matrimónio, com Maria da Conceição de Seixas Peyroteo, nasceram, como já referi, doze filhos.

 

            OS PRIMEIROS PASSOS DE UMA LONGA CAMINHADA.

            Seria fastidioso descrever minuciosamente como iniciei a minha vida de futebolista, em Moçâmedes.

            Tal como a maioria dos mais famosos jogadores portugueses de todos os tempos, comecei por dar pontapés em bolas de trapos, depois nas de borracha, e, por fim, em bolas com o peso e dimensões regulamentares para a prática do “foot-ball association”.

            Lembro-me de que o primeiro grupo de que fiz parte só conseguiu comprar uma dessas bolas, destinada exclusivamente aos jogos de competição, mercê de subscrição aberta entre os próprios jogadores - rapazes cujas idades oscilavam entre os 8 e 9 anos.

            A formação das equipas constituía sério problema porquê nem sempre compareciam 22 jogadores. Daí a necessidade de escolher entre os “ases” presentes.

            Dois dos mais categorizados saíam do grupo, afastavam-se alguns metros e caminhavam na mesma direcção, colocando um pé em frente do outro, até se encontrarem. Aquele cujo pé, no momento do encontro, sobrepuzesse o do antagonista, ficava com o direito de iniciar a escolha, que se fazia alternadamente.

            E travava-se o diálogo:

            - O “Zé” é meu…

            - O Fernando é meu…

            - O António é meu…

            e assim se constituíam os dois grupos.

[p. 18]

            Moçâmedes é uma cidade do litoral de Angola, a última da ponta Sul, e a que um poeta chamou a “Sintra de África”.

            Só havia um campo destinado à prática do futebol, reservado aos adultos. De sorte que nós, os miúdos, disputávamos os jogos num parque conhecido pela “Avenida dos Eucaliptos”.

            Contra a inegável vantagem de jogarmos sob a sombra acolhedora dos gigantescos eucaliptos, que nos resguardavam dos efeitos perniciosos do sol tropical, lutávamos com a dificuldade de ter de conduzir a bola por entre as árvores e a necessidade de fugirmos ao adversário que surgia por detrás delas.

            As balizas eram constituídas por dois troncos das árvores que, embora plantadas mais ou menos simetricamente, não estavam, -de um lado e do outro, às mesmas distâncias. Mas isso não nos preocupava porque, decorrido metade do tempo, mudávamos de posições, ficando, desse modo, estabelecida a igualdade.

            Ora, em frente do saudoso “Campo dos Eucaliptos”, existia a Farmácia Correia Mendes, pertencente a um simpático velhinho que sempre me estimou e eu jamais deixei de respeitar.

            Recordo o bom velhinho, não só porque escrevia com uma letra muito miudinha, muito certinha e bonita - que não me cansava de admirar - mas porque era dentro da sua farmácia que estava o relógio que indicava o momento de “mudar de campo”. Isto porque a segunda parte do jogo durava, invariavelmente, enquanto se visse a bola.

            O cronometrista das partidas era um garoto, mais ou menos da minha idade, que me lembro chamar-se Bacalhau. Por ser enteado do simpático farmacêutico Correia Mendes, era o único a quem não faltava a coragem para, de vez em quando, ir ver as horas, entrando e saindo da farmácia em correria louca. Outro que fosse e o nosso Correia Mendes logo se enfurecia.

            E assim principiei a jogar futebol. Tudo se passou como é natural acontecer entre crianças.

            Não fui menino prodígio.

            Só aos 12 anos comecei a mostrar verdadeiras qualidades para a prática do futebol.

            Convêm acentuar que, já nesse tempo, na pequena e linda cidade de Moçâmedes, situada, embora, no extremo Sul de Angola, a mocidade praticava desporto, fazendo alguma coisa mais do que dar pontapés nas bolas.

            Fazíamos ginástica sueca; praticávamos a natação, o remo, o ténis, a equitação e atletismo, este em menor escala por carência de mestres possuidores dos indispensáveis conhecimentos para bem ensinar.

            Na cidade havia, nesse tempo, quatro clubes desportivos; o Sporting, o Royal, o Ginásio e o Atlético. Tal como quase no Mundo inteiro, o futebol é o desporto que mais adeptos conquista. Nunca faltaram jovens com vontade e jeito, nem jamais se disputou um prélio sem entusiásticos e numerosos espectadores.

            Seis dos meus irmãos mais velhos foram muito bons praticantes da modalidade e creio que quatro deles jogaram, ao mesmo tempo, na primeira categoria do Sporting Clube de Moçâmedes que, ao tempo, já possuía uma equipa composta de elementos . cuja classe ainda hoje teria aceitação nos quadros de futebol dos principais clubes metropolitanos.

            Entretanto, com os meus 8 ou 9 anos, continuava a jogar renhidos desafios que, de quando em vez, eram patrocinados e orientados pelos clubes grandes que levavam o seu interesse e carinho pela petizada, ao ponto de nomearem um árbitro “oficial” para dirigir esses jogos.

            Mas nos dias em que disputavam jogos oficiais, meus irmãos encarregavam-me de levar gasosas e limonadas, que bebiam nos intervalos e no fim dos encontros.

            E, se meus irmãos defendiam as cores do Sporting, eu era, também, sportinguista…

            Por motivos que não posso recordar nem interessam agora, dois dos meus irmãos tiveram uma desavença com os dirigentes do Sporting e isso deu lugar a que resolvessem mudar de clube, indo para o Royal.

            Eu, que nada tinha que ver com o caso, continuei a frequentar a sede do meu Sporting, todas as tardes, ao regressar da escola.

            Um dia estava entretido a ver jogar o bilhar quando surge o “Director de Semana”, Pedro Parente, mas que todos conhecíamos pela alcunha de “Piló”, e mandou-me sair, dizendo:

            - Vai-te embora daqui. Vai para onde foram teus irmãos!

            Tive ganas de lhe aplicar duas caneladas, mas eu era miúdo, ele um homem e, para mais, Director do Sporting!

            De nada me valeu barafustar. Fui posto na rua!

            Lembro-me perfeitamente que, já no passeio, lhe disse:

            -”O senhor, hoje, manda-me embora mas lá virá o tempo em que me pedirá para voltar. Chegará o momento de lhe dizer que nunca mais volto ao Sporting. Sou garoto, mas serei homem…

            Não acabei a frase porque as lágrimas corriam pela cara…

            Pedro Parente achou graça, riu abertamente e julgou que o azedume dá criança passaria em breve.

            Lá fui, passeio fora, choroso, humilde e triste, jurando a mim próprio que teria de me fazer um homem.

            Os meses passaram e, certa tarde, quando passeava no jardim público, alguém chamou por mim.

            Olhei e reconheci o senhor Ângelo de Mendonça, que me disse:

            - Senta-te aqui a meu lado e dize-me se queres fazer ginástica comigo.

            - Pois claro, senhor Ângelo; gostava tanto de aprender…

            - Ainda bem. Aparece amanhã, às 7 da manhã no Atlético; lá conversaremos. Agora, vai passear…

            Eu era um rapazola fisicamente bem constituído, forte, sadio e desempenado.

            Mas o leitor perguntará: - “quem é Ângelo de Mendonça”?

            Antes de mais posso garantir, sem receio de desmentido, que a mocidade do meu tempo, em Moçâmedes, muito lhe ficou devendo e não o esquecerá. No meu caso pessoal, as páginas que se seguem darão ao leitor uma pálida ideia do que, ainda hoje, representa para mim, em gratidão e respeito, o nome desse grande ginasta e meu primeiro Mestre.

            Ângelo Furtado de Mendonça, foi um dos nossos maiores ginastas-voadores, sendo, igualmente, estrela de primeira grandeza nos trabalhos em paralelas, barra fixa, argolas, etc.

            Aluno, mestre e, mais tarde, dirigente do Ginásio Clube Português, ainda há bem pouco tempo foi alvo de significativa homenagem, levada a efeito no Pavilhão dos Desportos em Lisboa.

            Pois foi Ângelo de Mendonça, levando-me para o Atlético Clube de Moçâmedes, onde mantinha, graciosamente, várias classes de ginástica, que fez de mim um homem para o desporto. De mim e de muitos rapazes, entre os quais destaco .Fausto Corte Real e Jorge Radich.

            Estes dois pupilos de Mestre Ângelo, atingiram classe aparte, e, se tivessem vindo para a Metrópole, seriam, certamente, classificados entre os melhores daquele tempo.

            Mas é melhor contar como ele fez de mim um razoável ginasta, um campeão de natação (100 metros livres), um remador aceitável em. qualquer equipa desse tempo, um basquetista de apreciáveis recursos, um jogador de futebol com lugar na Selecção Nacional Portuguesa e, até, um razoável jogador de “sueca” e “solo”!

            Eu estava na flor da idade e Mestre Ângelo dizia que, enquanto estivesse entretido a jogar às cartas, como seu parceiro, ali sentado, não andaria lá por fora a fumar e a fazer “exercícios físicos” e “manuais” (sic) que só arruinavam a mocidade…

            Quanta razão tinha e como ainda hoje lhe agradeço, meu bom Mestre Ângelo de Mendonça!

            Muito custou a passar aquela noite. Quase não dormi. Às 7 horas da manhã, lá estava.

            Principiou a aula e, desde então, Ângelo de Mendonça dedicou-me sempre, mas sempre, cuidados especiais.

            Obedecia-lhe cegamente; recebia como ordens todas as suas indicações e conselhos.

            Disse-me certa vez: - “Se quiseres vir a ser um bom jogador de futebol, tens de começar pela preparação física. Não basta correr, saltar e dar pontapés na bola. É indispensável, primeiro, saber correr e saltar. Durante uns tempos nada mais farás do que ginástica. O resto, depois, não é difícil porque tu tens jeito!

            E assim aconteceu. Durante dois anos só fiz ginástica sueca e depois comecei a tomar contacto com os aparelhos.

            Mas, nessa altura, já era eu quem ficava à frente da minha classe de ginástica sueca. Para os outros verem, fazia eu, primeiro, os exercícios, conforme as vozes de comando de Mestre Ângelo. Depois, acompanhava a classe, em repetição.

            Muito me sacrifiquei e muito sofri, para conseguir passar dois longos anos sem jogar futebol a sério. Nadava e jogava basquetebol

            com frequência, mas não perdia as aulas de ginástica, três vezes por semana.

            Sempre quê dispunha de um bocadinho de tempo, assistia aos treinos de box, ministrados pelo boxeur profissional, Joaquim Pereira Gois, sob orientação de Mestre Ângelo.

            A verdade é que, após aqueles dois anos de intensiva preparação, sentia-me mais leve, mais ágil, para correr e saltar e, portanto, com capacidade física para tentar, com relativa possibilidade de êxito, 0 meu desporto favorito: o futebol.

            Autorizado pelo meu professor, comecei, então, a jogar futebol.

            O Atlético dispunha de poucos jogadores com valor e, por isso, apenas inscrevera uma equipa na categoria “reservas” do campeonato moçamedense e da qual fiz parte.

            Nesses anos realizou-se o encontro entre as selecçÕes de Moçâmedes e Sá da Bandeira. Era o “Portugal - Espanha” angolano.

            Aos 14 anos, jogando numa equipa que disputava o campeonato de “reservas” fui convocado para a selecção.

            Não cabia em mim de contente!

            E o miúdo - era assim que me tratava Ângelo de Mendonça - lá foi integrado na Selecção de Moçâmedes, com o lugar de interior direito.

            Joguei e não me saí mal. Ganhámos!

            No ano seguinte, o meu clube formou a sua equipa “Honra” e inscreveu-a. Era composta, com poucas alterações, pelos elementos do ano anterior. Chegámos ao fim do campeonato conquistando o título máximo!

            Mas voltemos, agora, um pouco atrás.

            O tempo decorrido fizera esquecer o azedume suscitado entre meus irmãos e o Sporting.

            Um deles, o Mário, que fora um dos melhores extremos direitos da Colónia, abandonara o futebol e aceitou, até, um cargo na direcção daquele clube.

            Coincidira isto com o meu aparecimento na equipa de “reservas” do Atlético e, também, na Selecção de Moçâmedes.

            Instado pelos seus colegas da direcção do Sporting, o Mário tentou levar-me para lá. Tantas vezes me falou que, um dia, respondi-lhe:

            - “És mais velho do que eu. Se é uma ordem, obedeço-te. Se é um pedido recuso-me”.

            Porque era um pedido, nada conseguiu.

            Chegou a vez de Pedro Parente me procurar.

            Argumentou que não fazia sentido jogar contra meu irmão Júlio e, como bom rapaz, devia esquecer o passado, etc.

            Deixei-o falar, antegozando o momento de lhe responder como devia. A certa altura interrompi o discurso para lhe dizer:

            - Já basta, senhor Pedro Parente! Não esqueci o que me fez. Nem as minhas lágrimas o comoveram. O miúdo de há anos continua a ser o mesmo e a ter palavra. Jurei e cumpro: não voltarei ao Sporting Club de Moçâmedes!

            Ainda hoje vibro ao recordar, sentindo íntima satisfação e orgulho pela maneira correcta mas altiva como recusei o convite e as mal disfarçadas desculpas de Pedro Parente.

            Na realidade, sempre me desagradou e foi penoso ser adversário de meu irmão Júlio, que era extremo-esquerdo de invulgares recursos.

            Descreverei uma jogada, para ilustrar a sua categoria de futebolista.

            Quando a Académica de Coimbra foi a Angola, era seu guarda-redes o grande Cipriano dos Santos, mais tarde Campeão do Mundo em hóquei em patins. Tão popular e simpático que o seu nome ainda hoje é recordado, especialmente quando se fala no hóquei.

            Num jogo disputado em Luanda, o Júlio fintou dois adversários em curtos metros de terreno, surgiu, isolado, em frente da baliza à guarda do Cipriano e o “tiro” partiu, batendo, irremediavelmente, aquele que, ao tempo, era um dos melhores guarda-redes das equipas metropolitanas.

            Terminado e encontro, Cipriano dos Santos declarou que considerava Júlio Peyroteo, tão bom ou melhor extremo-esquerdo que João Cruz.

            Não é isto verdade amigo Cipriano? Viste por onde entrou a bola? Recordemos, com saudade, os bons tempos da nossa vida desportiva…

            Aberto este parêntesis, voltemos à minha história.

            Continuei a fazer parte da primeira equipa do Atlético e da Selecção de Moçâmedes, sempre que esta realizou jogos.

            Na ginástica, Angelo de Mendonça dizia:

            - “Vês com que facilidade sobressais dos outros? Mais ágil, mais forte, com mais fôlego! Continua, Fernando; eu te garanto que o teu nome será falado!”

            Mestre Ângelo, com o seu saber, fez um atleta. O resto foi simples e fácil para mim.

            Se não fosse ele, o nome de Fernando Peyroteo seria ignorado no meio desportivo nacional e, portanto, nunca este livro seria escrito.»

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 15 - 25

Fósforos...

Leio esta notícia, onde o presidente do Marítimo afirma que «Bruno de Carvalho é um semelhante a um fósforo. Na sequência das palavras do presidente do Sporting sobre os ‘fiéis’ escudeiros de Luís Filipe Vieira, referindo-se ao dirigente insular bem como António Salvador e Rui Pedro Soares, Carlos Pereira respondeu com uma analogia.

“Conhecem a história do fósforo? A sua cabeça acende e apaga com uma grande rapidez e facilidade. São situações fugazes, pois ele quer permanentemente andar na praça pública. Falta-lhe maturidade, pois é impetuoso na defesa do Sporting e revolucionou o clube com a sua forma de gestão. Mas não deixa de ser como… o fósforo. Acende e apaga com muita facilidade”, em declarações presentes no jornal Record.»

 

De facto, dou razão a Carlos Pereira pela comparação - um fósforo -, porém o desenvolvimento que dela faz fica muito aquém do esperado. Socorro-me de Laura Esquível, no seu livro «Como água para chocolate» (*) onde esta escritora faz um correcto desenvolvimento da importância do fósforo relacionado com as emoções humanas . Escreve a autora:

 

«- Em 1669, Brandt, químico de Hamburgo, à procura da pedra filosofal descobriu o fósforo. Ele julgava que ao unir o extracto da urina com um metal conseguiria transformá-lo em ouro. O que obteve foi um corpo luminoso por si próprio, que ardia com uma vivacidade desconhecida até então. Durante muito tempo obteve-se o fósforo calcinando bastante o resíduo da evaporação da urina numa retorta de terra cujo gargalo se mergulhava em água. Hoje extrai-se dos ossos dos animais, que contêm ácido fosfórico e cal.

              O médico não descuidava a preparação dos fósforos pelo facto de falar. Dissociava sem qualquer problema a actividade mental da física, Podia até filosofar sobre aspectos muito profundos da vida sem que as suas mãos cometessem erros ou pausas. Portanto, continuou a manufacturar os fósforos enquanto conversava com Tita.

              - Depois de se obter a massa para os fósforos, o passo seguinte é preparar o cartão. Numa libra de água dissolve-se uma de nitro e junta-se-lhe um pouco de açafrão para dar cor e banha-se o cartão nesta solução. Ao secar corta-se em pequenas tiras e a estas coloca-se-lhes um pouco de massa nas pontas. Põem-se a secar enterradas em areia.

              Enquanto as tiras secavam, o médico mostrou uma experiência a Tita.

              - Embora o fósforo não faça combustão com o oxigénio à temperatura ambiente, é susceptível de arder com grande rapidez a uma temperatura elevada, olhe...

              O médico introduziu um pequeno pedaço de fósforo num tubo fechado num dos lados e cheio de mercúrio. Fez fundir o fósforo aproximando o tubo da chama de uma vela. Depois, através de uma pequena campânula de ensaios cheia de oxigénio fez passar muito lentamente o gás para a campânula. Assim que o oxigénio chegou à parte superior da campânula, onde se encontrava o fósforo fundido, deu-se uma combustão viva e instantânea, que os deslumbrou como se fosse um relâmpago.

              - Como vê, todos temos no nosso interior os elementos necessários para produzir fósforo. Mais ainda, deixe-me dizer-lhe uma coisa que não confiei ainda a ninguém. A minha avó tinha uma teoria muito interessante, dizia que embora todos nasçamos com uma caixa de fósforos no nosso interior, não os podemos acender sozinhos, precisamos, como na experiência, de oxigénio e da ajuda de uma vela. Só que neste caso o oxigénio tem de vir, por exemplo, do hálito da pessoa amada; a vela pode ser qualquer tipo de alimento, música, caricia, palavra ou som que faça disparar o detonador e assim acender um dos fósforos. Por momentos sentir-nos-emos deslumbrados por uma intensa emoção. Dar-se-á no nosso interior um agradável calor que irá desaparecendo pouco a pouco conforme passa o tempo, até vir uma nova explosão que o reavive. Cada pessoa tem de descobrir quais são os seus detonadores para poder viver, pois a combustão que se dá quando um deles se acende é que alimenta a alma de energia. Por outras palavras, esta combustão é o seu alimento. Se uma pessoa não descobre a tempo quais são os seus próprios detonadores, a caixa de fósforos fica húmida e já nunca poderemos acender um único fósforo.

              Se isso chegar a acontecer a alma foge do nosso corpo, caminha errante pelas trevas mais profundas procurando em vão encontrar alimento sozinha, não sabendo que só o corpo que deixou inerme, cheio de frio, é o único que poderia dar-lho.»

 

Lamenta-se pois que, utilizando o universo desta escritora, para Carlos Pereira o Marítimo não seja o "oxigénio" que necessita para acender os seus fósforos, assim como o Sporting o é para Bruno de Carvalho.

 

(*) ESQUIVEL, Laura, 1950 - Como água para chocolate. 6ª ed. Porto : Asa, 1995. pp. 108, 109

Memórias de Peyroteo

 

«Leitor amigo (*):

 

            Realizei o meu jogo de estreia a 12 de Setembro de 1937, no antigo Estádio das Salésias. Por adversaria tive a sempre gloriosa equipa do Sport Lisboa e Benfica.

            Não foi má estreia. Ganhamos por 5-3 e eu marquei - integrado no “team” do Sporting - dois golos!

            O último jogo oficial foi contra o Oriental, em 11 de Setembro de 1949, no Estádio Alvalade. Vitória por 8-0; marquei 3 golos.

            Depois, a 5 de Outubro desse mesmo ano (1949) despedi-me, voluntariamente, do futebol em competição e a sério. Portanto, desde que cheguei a Lisboa, joguei futebol doze anos menos um dia.

            O que foi a minha vida desportiva vai o leitor saber, se tiver paciência de ler as páginas que se seguem. Vou contá-la com toda a verdade e franqueza, mas sem pretender ferir ou molestar seja quem for. Por educação e temperamento não sou vingativo nem guardo rancores. Mas se ao escrever o meu livro de memórias escondesse ou deturpasse a verdade, contando aos leitores apenas o que me conviesse, deixaria de ser franco, leal, sincero, verdadeiro e até honesto para com a minha própria consciência. Da rectidão de carácter à maldade, vai um abismo!…

            O verdadeiro desportista é correcto, leal e franco, embora, por vezes, tenha de ser um tanto… duro - como é próprio do futebol… Negar essas qualidades ao escrever o meu livro de memórias, seria deitar por terra tudo quanto em doze anos me esforcei por demonstrar, dentro dos rectângulos de futebol e na minha vida particular.

            Mas repito: não há azedume nem maldade.

            Ficarei satisfeito se os novos tirarem alguma lição proveitosa da leitura das páginas deste livro, e, também, se elas contribuírem, de algum modo, para que os mais velhos ponderem nas resoluções a tomar, evitem erros, dominem paixões, os nervos e os excessos que, embora involuntários, prejudicam terceiros, sem dignificar quem os comete…

            Ao escrever o meu livro de memórias não me preocupei com “estilos”; não procurei palavras bonitas ou frases de efeito. Além de me faltar competência - e porque a finalidade é contar alguns episódios da minha vida desportiva - tudo veio ao correr da pena. Tudo simples - como quem conversa! E digo “alguns episódios” porque - Santo Deus! -onde chegaria eu se enveredasse pelo caminho de contar a par-e-passo o muito que vivi, o muito que se passou de bom e mau enquanto dei pontapés na bola! O leitor pode acreditar que tudo quanto fica por dizer, chegaria para outro livro…

            Que me desculpem os gramáticos, aos quais, evidentemente, não me atreverei a remeter um exemplar destinado a crítica… Então, sim, iria tudo por água abaixo…

            Seja, portanto, o que Deus quiser.

 

O AUTOR»

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito).

 

---

(*) No ano em que se assinala o centésimo aniversário (10 de Março) de nascimento desta figura maior do desporto mundial, vou (essa é a minha intenção) publicar neste espaço alguns episódios da vida de Fernando Peyroteo, retirados da sua autobiografia, publicada em 1957.

Recentemente, em 2013, houve uma reedição deste título, numa versão comentada da autoria de João Nuno Coelho e Francisco Pinheiro.

Peço antecipadamente desculpa por alguma gralha que eventualmente se possa encontrar, se acontecer deve-se a desatenção minha com a digitalização/digitação, assim como ao português dos anos ’50 em que foi escrito.

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