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És a nossa Fé!

Do futebol e das lentes

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Há uma frase célebre de um fotojornalista, Rich Murphy, que diz o seguinte " if your lens doesn't need cleaning at the end of a shoot, you didn't get close enough". É assim no jornalismo, é assim na vida.

 

A imagem que partilho foi tirada, ontem, em Kiti, um bairro de Nakuru. É a bola de futebol artesanal que um grupo de adolescentes refugiados usa para desamarrar os nós da alegria.

 

O futebol aqui é uma espécie de ponte entre o cais da memória ( a do país, o Sudão do Sul, aonde não se pode voltar e que agoniza devastado pelos predadores humanos ) e o porto da esperança. E aqui há um português que é deus. Não preciso de lhe dizer o nome. Vocês sabem quem é.

 

PS - Se alguém conseguir entrar em contacto com o nosso clube para oferecer umas bolas a estes miúdos eu responsabilizo-me pela entrega.

Sonho de uma noite de Verão

Amigos, a vitória sobre a França fez nascer um penacho em cada cabeça e esporas em cada calcanhar. O português anda por aí com ares de combatente da Guerra Peninsular. O vento da história sopra-nos na cara. Somos uma nação de 10 milhões de almas erectas como lanças. Mas venhamos e convenhamos: o triunfo sobre os gauleses merece toda essa euforia.

Aliás, este campeonato europeu dá um argumento para um belíssimo filme onde o futebol é um frívolo pretexto. A modéstia do resultado na final não obscurece uma multiplicidade de coisas: determinação, resistência, perversidade, paixão e drama, muito drama. Hello Hollywood, anyone out there?

Daqui a uns anos a pergunta clássica será “onde estavas a 10 de Julho de 2016?”. Sendo uma mulher de fé – anos de sportinguista cinzelaram-na tornando-a inabalável – decidi ver a final acompanhada. Ou melhor, muito bem acompanhada por cerca de dez mil pessoas no Parque de Santa Catarina no Funchal. Arrepiante. Queria assistir à consagração de Ronaldo no Stade de France na ilha que o viu nascer. Dores partilhadas doem menos e alegrias valem mais.

Armada com a camisola da selecção, cachecol, bandeira, canto a plenos pulmões aos heróis do mar e do estádio “que hão-de levar-te à vitória”. Ao meu lado a minha filha adolescente limpa discretamente uma lágrima. O começo de qualquer partida de futebol é uma janela aberta para o infinito. E a essência do futebol, o que o torna fascinante, é a possibilidade. Aos oito minutos o capitão português cai, derrubado pela perfídia de Payet e no estádio ecoam assobios dos adeptos franceses. Muitíssimas vezes Ronaldo é estátua e, muitíssimas vezes, é vaia. O destino dos divinos.

Atrás de mim um pré-adolescente diz, com o delicioso sotaque madeirense, “se ganharmos este jogo faço uma tatuagem do Ronaldo. Estou disposto a tudo”. Ronaldo volta ao campo. E os franceses repetem os assobios infames. Talvez devessem aprender alguma coisa com os fans irlandeses ou islandeses. Ronaldo sai de campo banhado em lágrimas. Aplausos em pé no Funchal, o Stade de France levanta-se como mar encrespado.

“Vamos embora, não aguento mais”, suplica-me a minha filha. “Não”, respondi,” nunca se abandona uma batalha a meio. Podemos perdê-la, porém nunca por falta de comparência”. Olha-me como se lhe dissesse que ia saltar de wingsuit do Cabo Girão, mas está habituada à loucura da mãe.

No campo as caravelas portuguesas enfrentam mar adverso. Rui Patrício de “grandíssima estatura” na defesa inspira aos franceses mais temor que o gigante Adamastor, guardião do Cabo da Boa Esperança. A equipa, movida a raiva, tece o mais que humano feito e aos cento e dez minutos um filho da Guiné, meu país natal e meu chão, remata arrastando consigo uma nação espalhada pelos cinco continentes. Éder marcou contra os franceses num verdadeiro milagre do futebol. Vejam vocês a ironia da vida e do futebol, talvez o mais contestado jogador do onze transforma-se num triunfador.

No Parque de Santa Catarina e em qualquer pedaço de terra onde bata um coração português grita-se num uníssono canto de esperança goloooooooooooooooooo. A Matilde filma, coloca fotografias no Instagram, atualiza o status no Facebook, recebe os parabéns das amigas alemãs, polacas, russas e não se volta a sentar. Nem ela, nem ninguém naquele Parque. Os minutos passam dolorosamente. Está quase, está quase, está quase. Prrrrrrrrrrrriiiiiiiiiiiiiiiii.

Campeões, campeões, campeões nós somos campeões. Quero lá saber de técnica, de futebol bonito. A vitória foi perfeita e irretocável. O futebol português conquistou em Paris o maior feito da sua história. Éder, o patinho feio, foi o herói de uma equipa guerreira que derrotou a anfitriã e favorita França no prolongamento. Cristiano Ronaldo, o capitão-treinador-motivador - adepto sofredor, ergueu o troféu por nós. Concretizou um sonho mais que merecido e fez-nos aportar no porto de todas as esperanças.

Esperei 44 anos pelo sonho desta noite de Verão. E por aquele momento de poder demonstrar à minha filha que por mais táctico, ensaiado, treinado que esteja o futebol ele é como a vida, nunca está livre do imponderável, nem da poesia. A seguir fomos buzinar para a Avenida do Mar que a “gente trabalha o ano inteiro por um momento de sonho”.

 

PS - Obrigada ao Nelson Rodrigues, o melhor cronista de futebol de todos os tempos e que me ensinou a amar este desporto.

Dilemas

Uma amiga comprou um bilhete para a final do Europeu de 2016. Nem queria acreditar na sua sorte. Esqueceu-se porém de um pequeno detalhe. Tem casamento marcado para 10 de Julho e pediu ajuda aos amigos. Alguém por aí quer casar?

Pode acontecer

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Já se disseram e escreveram mais "bobagens" sobre futebol, em geral e o Sporting em particular, do que sobre qualquer outro assunto. Talvez com três excepções: a vida para além da morte, sushi e o orgasmo feminino. Adiante.

Falar de futebol é cair no delicioso campo da metáfora porque é quase impossível usar com a precisão certa as palavras para descrever a poesia de um golo de Slimani, ou das vitórias sobre o clube do lado errado da segunda circular. É difícil ser muito honesto, isso pressupunha um desprendimento que ninguém tem, embora alguns tinham que o têm, ou de uma forma desconcertante e original.

Devia haver para o uso da língua quando se fala de futebol um sorbet de limão, como há nas refeições requintadas para apagar o gosto do prato anterior e preparar a língua para a delícia seguinte no cardápio. Aliás, a paixão está para o futebol como fígado para a comida francesa.

Não é um desporto para pessoas ascéticas com pouca paciência para especiarias, texturas, temperos e outras tentações e prazeres do supérfluo. O futebol é como a maçã, o fruto proibido que estimula a transgressão, o pecado e a inteligência.

Eu no meu caso pessoal posso afirmar não que estimula a inteligência e já vos digo porquê, mas induz à desobediência. Estou convicta que o campeonato, por um desses felizes acasos da fortuna, ainda pode ser nosso e essa minha "loucura" levou-me a duas promessas. Se o Sporting vencesse o Porto nas Antas saltaria de pára-quedas - subi para avioneta quando o jogo estava dois a um para nós e pus os pés na terra já com três a um - e pintar o cabelo de verde se formos campeões. Todos temos uma missão a cumprir neste mundo (sorriso).

 

PS - Aconteça o que acontecer, de poucas épocas me lembro onde me tenha divertido mais com os meus amigos benfiquistas. Porque futebol também é respeito. Obrigada, Sporting, pelos momentos em que me fizeste sorrir.

Sporting-Benfica (desculpa pai)

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Em casa dos meus pais o confronto dos clubes lisboetas era um momento solene. Como os crentes se vestem para missa, assim mãe e pai se preparavam para aqueles noventa minutos que teimavam em não caber em nenhum relógio. De semblantes sérios, cada um com o seu rádio, e em divisões diferentes, pois partilhavam a vida mas não a mesma equipa. Se o clube do outro ganhava ficavam horas, por vezes dias sem se falar, nunca atravessando o limite do regressável. Em certos dias de futebol tinham zangas que eram falsos tremores de terra, não a mando de caprichos magmáticos, mas desse capricho maior que é um Sporting-Benfica. Depois reconstruíam-se, inabaláveis, até ao próximo jogo.

Escreveu o Mia Couto que "não é o voarmos sobre os lugares que marca a memória. É o quanto esses lugares continuarão voando dentro de nós". Debruço-me muitas e muitas vezes sobre o quintal da minha infância, que não é um lugar, mas uma moldura para vida, e sorrio ao lembrar essa paixão que os separava como margens de um rio e os costurava.

Herdei dos pais o fascínio pelo futebol e, tal como não se consegue amar dois homens incondicionalmente ao mesmo tempo, sem trair um deles, ou os dois, não se consegue amar dois clubes. O meu coração escolheu o Sporting (desculpa pai).

Com a mãe sportinguista de sempre aprendi que poesia do futebol não está no golo. O encanto é que uma partida é sempre mais o resultado. São as emoções, o atropelo no peito, os suspiros, os silêncios, os olhares, tudo o que escapa aos comentadores.

Com o pai benfiquista aprendi que entre a vitória real e a moral há margem para todos os argumentos. Que importa o não-ter-sido? ( bem por acaso neste domingo até importa, desculpa pai).

Sporting já chegou à Bolívia

Passei por aqui de fugida para vos deixar uma imagem que colhi em Cochabamba, Bolívia. Achei delicioso este "corazón de León" cuja pintura é dominada por aquela cor que não é verde. A felicidade tem uma escova de dentes em muitos lugares. Bom fim de semana.

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Como eu perdi a selfie da minha vida*

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De vez em quando as pessoas devem fazer uma recapitulação crítica da sua vida e confrontar-se com as suas vergonhas. A primeira condição para isso é claro ter um passado e a segunda, bem mais bicuda, é ter tempo para isso. Enquanto espero por uns emails da América do Sul, que devem vir a bordo de uma nau da época do Império, inventario momentos embaraçosos. Partilho um deles. O episódio (que me deixa com as bochechas mais rubras do que o equipamento de you know who) conta-se de uma assentada. Para vos contextualizar: esta vossa amiga é muito, mas muito distraída (então se estiver a conduzir e tiver ao lado alguém para conversar, há o perigo de ir parar a Chaves quando o destino era Guimarães). Pois bem. Numa deslocação de trabalho, em Maputo, em Março de 2013, fiquei hospedada no Pestana Rovuma, em frente à Catedral. No hotel cruzei-me algumas vezes com um cavalheiro delicado que me saudou, “bom dia”, “boa tarde” e até me abriu a porta do elevador, cumprimentos que eu retribui com igual gentileza. Tendo a cabeça ocupada com questões de trabalho recalquei os avisos luminosos que se acendiam no cérebro. “Estás parva, é só alguém muito parecido”. Uns dias mais tarde quando me encontrei com um amigo português, fervoroso sportinguista, e este me contou o que se havia passado no jantar dos sportinguistas de Maputo apercebi-me da dimensão do disparate. O cavalheiro em questão era o Bruno de Carvalho, que mais tarde seria eleito presidente do meu clube. Ohmmmmmmmm.

 

* o único horror comparável (vá lá pior) do que perder uma selfie com o Bruno de Carvalho é perder uma com o Clooney.

Dilemas de uma sportinguista

Uma Mami esteve a ver o jogo do Sporting, sozinha como se quer nestas coisas que aceleram o coração e transformam, durante noventa minutos, uma pessoa sensata e tranquila num Gru (do fabuloso Despicable me). De vez em quando (leia-se quando jogam os leões) é preciso abandonar a razão e entregar-se à emoção.

As teenagers que me habitam a casa (e me conhecem os humores) dividiram-se entre uma conversa (de horas) ao telefone com o namorado e uma ocupação mais ou menos selvagem da minha cama.

Muitas Mamis têm a ambição mais ou menos disfarçada que os filhos sigam uma profissão que lhes agrade – política não, política não, please – mas nem sempre a verbalizam. Porém, quando se trata de futebol o desejo não é nada secreto: o que eu queria mesmo era que as teenagers – que vestem a minha roupa, calçam os meus sapatos e usam meu perfume – vestissem a camisola do Sporting. Tento explicar-lhe que o Sporting transporta a sina de ser um verbo conjugado no futuro. Há algo mais sedutor do que a possibilidade?

Apesar do meu vasto repertório de doutrinação nada feito, as duas (note to self: será que isto é motivo suficiente para as deserdar ?) apoiam equipas alemãs, por isso cartão vermelho e expulsão da sala quando joga a minha paixão.

Se a vitória tem pouca graça na literatura e no cinema, sendo a derrota mais fértil, fotogénica e rica em interpretações, já no futebol valem outros cânones. Após o jogo subi para o quarto feliz como alguém que acaba de receber o iPhone 6 (para os que não gostam da Apple leia-se feliz como alguém a quem colocaram sobre a mesa um petit gateau com framboesas, ou feliz com alguém que teve bom sexo), afasto o lençol para me deitar e noto que a cama encolheu. Literalmente. Além da teen mais nova, que dorme a sono solto, encontro uma tartaruga, um coelho, um mignon e um urso. Na mesa de cabeceira uma nota: “não vais expulsar os meus bonecos da cama, pois não, Mami querida? Eles são do Sporting”.
Razão tinha o Nelson Rodrigues quando dizia que mesmo “a mais sórdida pelada é de uma complexidade shakesperiana”.

 

 Publicado também aqui.

Post (pessoal) em tempo real

Quem me conhece sabe que se existe uma coisa que me faz ganhar o dia é, além de um bom livro, uma boa partida de futebol. Estava eu sozinha, posta em sossego no sofá, não sem antes ter feito um inventário das possibilidades de o Sporting vencer o Schalke 04 na Alemanha, quando o pai das filhas me diz com toda a tranquilidade: “vamos conversar”? Ai os dilemas que o ser humano enfrenta. Eu que até sou uma pessoa serena, provida de paciência e sensibilidade começo a escutá-lo, dividindo a atenção entre o jogo e a troca de palavras, bem isto até o Nani marcar o primeiro golo. Depois, uma mulher é um ser complicado e contraditório, o pai das minhas filhas que me perdoe a mácula no currículo: mas que homem é que quer “conversar” durante um jogo de futebol e em particular do Sporting? É ter o mesmo sentido de oportunidade do que contar uma (má) anedota num funeral. Pior que isso só a minha irmã que me envia a seguinte mensagem:”mas quem é que está a jogar?” Há alturas, leia-se quando o jogo está 3 a 3 e o árbitro marca nos descontos um pênalti inexistente contra o Sporting, em que uma mulher não quer conversar. E não é por se achar o último biscoito do pacote como dizem os brasileiros, mas por recear empregar um vocabulário menos adequado (que faria corar de vergonha os marinheiros do porto de Lisboa). É evidente que o meu caso é para um psiquiatra.

 

PS- O Sporting foi enorme neste jogo e pôr um russo arbitrar este jogo é como colocar uma raposa a guardar galinhas.

Diário da Copa - O dia em que Marcelo foi herói

 

Ele chama-se Marcelo. Não quer dizer onde vive. É fácil adivinhar que a sua realidade não é a porta da frente, que nasceu do lado errado da cidade. De um dos demasiados lados errados de São Paulo.

 

É um mulatinho de calções curtos, pernas finas, cabelo crespo, olhos como a noite, brilhantes. Dá vontade de lhe perguntar o que esconde a atrás desses olhos. Tem 12 anos, diz, tamanho de nove, no máximo. Desde manhã cedo que peregrina pela Vila Madalena, bairro boémio de São Paulo que se tornou no epicentro dos festejos da Copa, com uma caixinha de cartão. Dentro da caixinha pacotes de balas (rebuçados) coloridas. Cada pacote um real. Marcelo, como a maioria dos meninos vendedores, não está lá sozinho, há toda uma rede por detrás. Mas disso também nao quer falar. Em São Paulo há mais de cem mil crianças e adolescentes, numa estimativa por baixo, que trabalham vendendo doces, panos de louça, engraxando sapatos, mendigando, fazendo malabarismos nos semáforos. A versão moderna da muralha medieval? Em São Paulo, como em Lisboa, é a janela do carro.

 

Marcelo, o menino desajeitado, entrou no José Menino Botequim, um bar na Mourato Coelho. Uma pequena subversão. A porta da frente é uma fronteira invisível. Entre os que podem pagar cem reais de entrada – com direito a cinco chopes ou duas caipirinhas – pelo privilégio de ver o Brasil jogar contra o Chile num écran plano, num ambiente “seleccionado”, vendo a rua a uma distância segura, e a rua. A rua, neste sábado, é compacta, tecida por homens e mulheres vestidos de verde e amarelo com as cabeças cobertas pelas mais inventivas variações de chapéus. O Inverno fez uma pausa. O calor é tão pesado que quase se toca com os dedos. Chove cerveja. Vuvuzelas, tambores, apitos.Uma explosão de som. Alegria seminal. Infernal.

 

Na mesa em frente à minha alguém vê o menino e prepara-se para o denunciar. “Trabalho infantil é crime”. “Deixa o menino ficar. Senta aqui”, diz um homem noutra mesa. São as pequenas delicadezas que dão sentido à vida. “Você quer alguma coisa?”. “Ver o jogo”, diz Marcelo. Tão pouco, tudo. Os anseios do  daquele menino eram iguais aos de todos no bar e o seu coração batia com o mesmo descompasso.

O Brasil empata com Chile. “Como vai ficar o jogo, Marcelo?”. “O Brasil vai ganhar. Vai ganhar sim”. Sopra com força na corneta amarela. Em torno todos riem com o menino. “Sou brasileiro com muito orgulho”, canta com uma voz que o corpo franzino não fazia supor. O bar chique enternece-se com o menino do morro. “Você vai dar-nos sorte?”. Enquanto se acredita no improvável há sempre uma oportunidade. “Dou sim”.

 

O Brasil vai a penaltis. De Roraima ao Rio Grande do Sul há uma nação suspensa das luvas de um goleiro com nome de imperador. “Assim ninguém vai poder dizer que o Brasil comprou a Copa, pô”. Deu Brasil e o menino chora. O bar abraça-se numa loucura. Um e outro e outro pegam no menino ao colo, atiram-no ao ar. “Você foi a nossa mascote. Nos deu sorte”. O bar compra a caixinha completa de balas ao Marcelo-mascote-herói e ainda paga o dobro. O Marcelo sorri, sorri sem reservas. Cumpriu um sonho “ver o jogo como os ricos da Vila (Madalena)” e hoje a mãe “não vai bater, nem chingar”.

O futebol inventou um jeito de igualar todos, pelo menos  por um dia.

 

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O dia em que Portugal "caiu fora"

Acabo de chegar da Casa de Portugal em São Paulo. Fui assistir sozinha ao jogo entre Portugal e o Gana.

Gosto de exercitar a dúvida - será que é mesmo assim? será que tudo está perdido? - e sou por natureza uma optimista. Acredito que há sempre um novo dia, vinte quatro horas em que nos podemos reinventar. E por isso quis acreditar num milagre. O taxista bem disposto lá foi dizendo "Portugal vai marcar, nê? Tem que" e me dá tchau com um sorriso do tamanhão do Brasil.

 

Embrulhada na bandeira, rodeada por "patricios", fiz promessas cabeludas - se a selecção se qualificasse beijaria todos os Manueis, os protagonistas das piadas sobre portugueses Brasil, que conheço - , coloquei um chapéu ridículo com um galo de Barcelos na cabeça - se todas as cartas de amor são ridículas o que dizer dos fanáticos (as) pelo futebol -  e desejei muito a vitória.

Desejar, verbo intransitivo, é a insatisfação que nos faz mover, estar a caminho. Mesmo sabendo que o Happy End pode não se concretizar resta a hipótese. Ainda que os momentos de felicidade escorram por entre os dedos como areia, sejam auto-golos, ou aqueles que o Ronaldo não celebrou (infelizmente porque aqueles abdominais deixam saudades). Aprendi com o meu pai, que chorava a cada golo, que os sonhos não devem ser desperdiçados.

 

Tantos se esquecem de viver o quotidiano, as pequenas alegrias, em troca dessa quimera chamada perfeição. Se a vida fosse um "comercial", um desses geniais da Skol, o "craque", transportando  a esperança de tantos na ponta dos pés, teria marcado, um e outro e outro golo fantásticos, levando ao êxtase as arquibancadas. Porém na vida, aquela a sério, não a do photoshop, há mais príncipes encantados a transformarem-se em sapos do que sapos a transformarem-se em príncipes encantados. Ou dito de outra forma, os dias são imperfeitos, como as famílias, os filhos - surpreendo-me sempre com o que sinto quando me despeço da minhas filhas e sobre como é possível gostar tanto, tanto - ou um grande amor. É essa imperfeição, são esses cantos que às vezes ferem que nos recordam que estamos vivos e nos fazem mover. Desejar, verbo intransitivo. Escolher como olhamos para a vida é um acto de liberdade.

 

E o que é isto tudo tem a ver com a Copa? Tudo. Porque "futebol se joga na alma./ A bola é a mesma: forma sacra/para craques e pernas-de-pau. /Mesma a volúpia de chutar /na delirante copa-mundo/ ou no árido espaço do morro".

 

O futebol é assim. Cheio de desimportâncias. 

 

Enfim, reconciliei-me com o Ronaldo. Lembro-me que o Baggio, o melhor do mundo em 1993, falhou o penalti decisivo contra o Brasil, Ronaldinho, o melhor do mundo 2005, não fez um único golo na Alemanha em 2006, Messi, o melhor do mundo(gassppp como me custa escrever isto) passou o Mundial da África do Sul sem marcar e viu a Argentina ser afastada pela Alemanha por 4 a 0. Para o Ronaldo "aquele abraço" e agora só tenho de resolver um dilema, uma vez que vou estar até à final no Brasil: apoiar esse amável Brasil (que amo tanto), apoiar a rainha má Alemanha (a minha pátria afectiva) ou torcer por um underdog ou uma underbitch (a Grécia não, a Grécia não).

 

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Divagações várias que passam por Ronaldo*

 

Desconfiar do óbvio e recusar a banalidade foi talvez a mais importante lição que o jornalismo me ensinou. Treinou-me também no exercício contínuo de resistência e apreciar como uma pedra rara a generosidade.

Por ser jornalista tive, tenho, o privilégio de conhecer diferentes geografias e ouvir a narrativa de muitas vidas sofridas, alquebradas, submissas, remediadas, abastadas, desfeitas, refeitas.

 

Pode parecer cínico porém aprendi a conceder que o sofrimento faz parte da condição humana. Que algumas vidas são um desejo que nunca se concretizará. Que outras nunca encontram o cadeado invisível que as amarra. Nunca consegui deixar de me comover, de sentir a garganta a contrair-se num nó apertado e de chorar de impotência.

Aprendi a admirar os que não procuram álibi, os que navegam na contramão e os que têm a capacidade de superar o sofrimento, a dor, de a sublimar em criação ou em dádiva.

Tantas e tantas vezes me atravessa a mente a imagem daquela mãe, num país africano, que me ofereceu um filho. Há generosidade maior que uma mãe prescindir de um pedaço de si para se agarrar à bóia dos desesperados que é a promessa de uma vida melhor para o filho?

 

Falando de desespero. A Folha de São Paulo publicou um trabalho da repórter e escritora brasileira Eliane Brum sobre os meninos sem tempo. Um menino com nome de poeta dizia “não conto [o tempo]. Eu não conto a alegria e não conto a tristeza. Tenho o tempo que estou na vida”. Vinicius, o menino da Favela do Bom Jardim, em Fortaleza, vive com dois irmãos e nenhum adulto. Os pais perderam-se. Crack. Cachaça. Vinicius da favela enfeitada com bandeirinhas verde e amarelas, como tantas outras por esse Brasil-continente fora, aos 15 anos não desaprendeu de chorar. Trabalha de dia, cuida da irmã de nove anos, e de noite vai para a escola de bicicleta. Driblando os traficantes. “Quando eu jogo futebol esqueço tudo”. Esse é o poder do futebol – o genuíno, não o da FIFA e dos seus milhões – e a sua generosidade. A de transformar a vida implacável de um menino num momento fugaz de alegria.

 

PS- Sabem porque admiro o Cristiano Ronaldo? Não é por ser apenas o Apolo musculado de abdominais perfeitos ou pela sua forma poética de jogar. Mas porque vejo no fundo dos olhos do futebolista o menino pobre, que saiu da Madeira aos dez anos, perseguindo um sonho e cumprindo um talento, com muito trabalho e muitas lágrimas. Esse menino no fundo dos olhos de Ronaldo é muito mais fascinante e complexo que o herói, é o Ronaldo-menino que inspira milhões de outros meninos por esse mundo fora. Fá-los sonhar, parar o tempo e ser felizes, ainda que por pouco tempo. Contam-se pelos dedos de uma mão os que têm este poder.

 

*Texto que publiquei no meu blog pessoal e que replico aqui, peço desculpa, porque já não suporto as críticas ao CR7. O D. Sebastião ficou entre as brumas.

Prefácio para a Copa

Como o personagem do poema de T. S. Eliot que media sua vida em colheres de café, os brasileiros podem medir a sua vida em Copas do Mundo. Meio a sério, meio a brincar dizem que o futebol foi inventado pelos brasileiros na Pré-História quando um pré-brasileiro fez um passe com o crânio de um inimigo. Bem, foram eles que inventaram a “pelada de rua” em que qualquer coisa vagamente esférica faz as vezes de bola, as balizas se erguem com os que estiver à mão, latas, tijolos ou até os irmãos mais novos, mesmo sob o voto de protesto dos mesmos, e a diversão dura até “mamãe” chamar, os vizinhos chamarem a polícia ou anoitecer.

Se é difícil encontrar um norte-americano que não tenha uma obsessão pelo seu psicanalista - se a Bovary ou a Karenina fossem americanas, antes do adultério passariam pelo divã ou do divã para a cama – é ainda mais complicado encontrar um brasileiro que não seja fascinado pelo futebol. Dessa paixão nasceram livros inesquecíveis. Um deles é “À sombra das chuteiras imortais”, de Nelson Rodrigues, uma colectânea de crónicas sobre futebol.  O facto de algumas crónicas terem sido escritas na época do “brasileiro vira-lata” - o adepto de futebol destroçado pela derrota contra o Uruguai no Maracanã na “Copa” de 1950 – não lhe retira nem actualidade, nem beleza. O tempo é uma convenção que não existe para as mulheres apetecíveis [e os seus congéneres do sexo oposto], nem para as crónicas de Nelson Rodrigues.

Nele o que se passa em campo é apenas um pretexto para espreitar pela fechadura, como um menino, e pelo buraco contemplar os anjos e os demónios da sua devoção e com eles tudo o que de mais humano existe: o medo, a solidão, o heroísmo, a grandeza, a obsessão, o amor e o sexo [sabem qual é a diferença entre sexo e futebol? Quase nenhuma, com duas excepções, no futebol não se pode usar as mãos e o sexo, felizmente, não é organizado pela FIFA. O resto é tudo igual, ide ler o Veríssimo].

No Maracanã, um paraíso com escadas demais, mas um paraíso, Nelson Rodrigues, que era míope, tinha sempre alguém ao lado para soprar os lances que a vista não alcançava. E isso não o impediu de (d)escrever relatos de jogos magníficos.

“Vamos enfrentar a Espanha. Diante de nós abre-se todo um horizonte de chifres, ensanguentado de chifres. Vejam vocês o que é a chance histórica. A distensão de Pelé foi para Amarildo como a Revolução Francesa para Napoleão. E eu imagino como andará o craque alvinegro no Chile. Antes da distensão de Pelé, que fazia ele? Como o pescador de O velho e o mar, sonhava com leões. Mas o adversário é a Espanha. E, então, Amarildo sonha com chifres e sangue. Ele próprio, como no soneto célebre, é um negro touro “saudoso de feridas”.

Quer melhor prefácio do que “À sombra das chuteiras imortais”, e o que se pode ler nas entrelinhas desse jogo mágico, para a Copa? Vá por mim, não há. 

 

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Porque futebol é quando um homem (ou uma mulher) quer

 

Futebol se joga no estádio?
Futebol se joga na praia,
futebol se joga na rua,
futebol se joga na alma.

A bola é a mesma: forma sacra
para craques e pernas-de-pau.
Mesma a volúpia de chutar
na delirante copa-mundo
ou no árido espaço do morro.

São vôos de estátuas súbitas,
desenhos feéricos, bailados
de pés e troncos entrançados.
Instantes lúdicos: flutua
o jogador, gravado no ar
- afinal, o corpo triunfante
da triste lei da gravidade.

 

Carlos Drummond de Andrade

 

PS- A fotografia tirei-a no Rio Juruá, Brasil, em Agosto de 2012

 

A todos um excelente (e vitorioso) fim de semana

Ohmmmm

 

Face aos resultados do Sporting (ou melhor, à sua ausência) o Leão rescindiu o contrato com o Sporting."Era o herói conhecido/ De um romance concebido/ E nunca realizado..."

 

Restam-nos os inofensivos, como a equipa, bonecos de peluche ou então um gatinho.

Acordem-me quando acabar a época sff. Ohmmm

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  91. D