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És a nossa Fé!

Um punhado de Lucílios e as dúvidas do porteiro

File:After Cornelis Massijs 001.jpg

 

 

Não estando eu especialmente interessado no campeonato do mundo, que, para mim, nisto do futebol o que me interessa, em concordância cada vez menos rara com Daniel Oliveira, são as competições de clubes e especialmente o Sporting, tenho visto os jogos, ou partes dos jogos, com um estado de espírito descontraído, que me permite apreciar com uma leveza pouco comum o extenso rol de incidências, muitas e muitas delas mais do que risíveis, que normalmente rodeiam este tipo de acontecimentos. Hoje e ontem, ao ouvir, embora fazendo os possíveis e impossíveis para escapar à moléstia, os milhares de comentários, reportagens, apreciações técnicas e demais inanidades que os chamados órgãos de comunicação social, principalmente os desportivos, exibem com orgulho, fixei-me, não sei porquê, nos adjectivos com que a generalidade dos seus jornalistas e as infindáveis hordas de comentadores decidiram surpreender-nos para caracterizar decisões contrárias às que qualquer Capela tomaria sem erros, incertezas ou vacilações.

 

Depois das barbaridades perpetradas no Brasil-Croácia e no México-Camarões, em que, atendendo ao que já foi escrito neste blogue pelo Pedro Correia e pelo Edmundo Gonçalves, não vou insistir, os ditos jornalistas vêem o árbitro inventar, com um ar todo convicto, um penalty a favor de Espanha, esquecer, simpaticamente, uma agressão de Diego Costa a um adversáro, criando, no entanto, alguma aura de mistério em torno do lance, ao verberar com ar de mestre-escola o jogador brasileiro, não se sabe bem porquê - se tivesse visto alguma coisa, tinha que o expulsar - validar um golo holandês resultante de uma intervenção gritantemente faltosa de Van Persie (o seu primeiro golo é fabuloso, vai ficar na história dos mundiais), não assinalar ao mesmo Van Persie, por erro do fiscal de linha, um fora-de jogo que ia dando mais um golo à Holanda e, ainda, pelo menos, não marcar um penalty por falta sobre Fernando Torres. Este último, concedo, não é tão claro, mas, na repetição, pareceu-me de facto falta, sendo injusto, contudo, neste caso criticar o árbitro. Menciono-o apenas porque me pareceu um erro, perdoável, mas mais um erro.

 

Ao verem, então, o árbitro cometer todos estes desmandos, o melhor que jornalistas e comentadores televisivos conseguem tirar da sua bagagem vocabular, à semelhança do que, aliás, normalmente acontece relativamente a qualquer decisão com influência no resultado de qualquer jogo de qualquer competição, são três adjectivos: duvidoso, polémico e discutível. Extraordinário, se tivermos presente que, na maioria das vezes, refiro-me a este campeonato do mundo, o desacerto das decisões em questão não tem sido objecto de qualquer querela, reinando, tranquilamente, a paz dos anjos em redor da avaliação de desempenho deste punhado de Lucílios. Hoje, no Espanha-Holanda, os jornalistas de serviço só se convenceram de que o penalty favorável aos nossos vizinhos fora um produto, pouco propício a dúvidas ou discussões encaloradas, da imaginação febril do homem do apito, quando alguém os fez ver que a Marca manifestava desassombradamente esse parecer. Procedendo de forma que eu só muito raramente tenho visto algum jornal ou estação de televisão portugueses  adoptar em circunstâncias idênticas.

 

Quando  deparo com esta temerosa prudência, lembro-me muitas vezes de uma história, cuja veracidade não posso garantir, que me foi contada há uns anos e que também já vi relatada num jornal de referência. Uma noite, conhecida personagem da vida social lisboeta apresentou-se, pretendendo entrar, à porta de muito célebre e bem frequentado estabelecimento nocturno da capital, na companhia de uma mulher cujo modo de vida, pouco convencional para os hábitos daquele meio, era por demais evidente. O porteiro, nada prático no tratamento de complicações deste género, esforçou-se por levar a bom termo a sua espinhosa missão, tentando, quanto lhe permitia a  lábia, explicar àquele excêntrico cliente habitual as regras, de irrepreensível selo moral, impostas pela gerência da veneranda instituição. Essa, proclamou finalmente o zeloso guardião da portaria em defesa da sua obrigação profissional de vedar a entrada à dita senhora, é uma mulher duvidosa! Duvidosa?! Esta mulher é uma p**a, bramou a ilustre personagem, duvidosas são as que estão lá dentro!

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