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És a nossa Fé!

Yazalde… por quem o viu jogar

Fiquei deliciado ao ler o texto inicial de Pedro Azevedo onde fala do seu ídolo, essa glória do Sporting que foi Yazalde. Não tenho memória de o ver jogar, as minhas memórias são posteriores, pelo que me socorro de outros olhos para imaginar o que teria sido:

 

« O cheiro, a adivinhação e o timing são o jogador. Yazalde estava de costas - e voltava-se para fazer o golo: o golo já ia quase feito na maneira de rodar o corpo, o pé e a bola tinham encontro marcado -, o futebol tem essa triunfante fatalidade.»

 

In: MACHADO, Dinis - A liberdade do drible : crónicas de futebol. 1ª ed. Lisboa : Quetzal, 2015. p. 32

(texto original no jornal A Bola Magazine de 16 de Outubro de 1993)

Recordar - Hector YAZALDE

Tendo recebido um amável convite do Pedro Correia, que muito me honrou, início hoje a minha participação no ÉS A NOSSA FÉ. Desde há alguns meses a esta parte, tenho vindo a acompanhar o blog, o qual me captou a atenção pelo alto nível de Autores e pela urbanidade com que se discute o futebol, seja ele jogado nas quatro-linhas (o que mais me agrada), seja nos bastidores. Espero não deslustrar. Posto isto, aqui vai a minha declaração de interesses: sou do Sporting desde pequenino, os meus pais e irmão são do Sporting, os meus sogros, sportinguistas são, e a minha mulher e filhos, também. Não ocupando nenhum cargo público e não tendo responsabilidades em órgãos federativos ou da Liga, serei obviamente parcial.

Outra coisa é a questão da independência. Neste campo, garanto aos leitores que serei independente e não alinhado com qualquer ideia que não emane do meu próprio pensamento, o que não me impede de reconhecer que apoio, anonimamente, Bruno de Carvalho, desde a primeira hora e que lhe vejo óptimas qualidades - voltar a dar energia ao clube, será uma delas - e, também, alguns defeitos. Mas, nunca escreverei por agenda pessoal, pois nunca tive nenhum objectivo de me candidatar a qualquer Órgão Social do clube e apenas pretendo que o Sporting compreenda e vença os desafios ao seu futuro.

 

Estive a pensar e compartimentarei os meus comentários futuros em cinco rubricas:

- Recordar: espaço onde evocarei e homenagearei algumas das Glórias que tornaram o Sporting grande;

- Hoje giro eu: rubrica onde porei à consideração do leitor o que fariam se fossem o "manager";

- Tudo ao molho e FÉ em Deus: análise bem-humorada (vocês dirão) ao nosso onze, pós-jogo;

- Sustentabilidade: rubrica onde darei novidades sobre as contas do clube e comparativos com os outros;

- Ética: espaço que procurará interpretar os sinais que vão chegando e propor caminhos alternativos para o futuro.

 

Como o que nos move a todos é o futebol jogado, escolhi para inauguração a rubrica Recordar. Hoje, homenagearei Hector Yazalde, o grande Chirola, o meu primeiro ídolo, à memória de quem, primeiramente, dedico este pequena estória que escrevi, dedicatória extensível a todos os sócios, adeptos e simpatizantes do Sporting e a todos os amantes de futebol que nos visitam diariamente, na expectativa de que os mais velhos se possam rever neste texto e que os mais jovens possam conhecer quem foi este argentino de altíssimo nível futebolístico e humano. Um Senhor!

Aqui vai e desculpem qualquer coisinha: "Um anjo com cara de índio".

"O menino permanecia imóvel, como que hipnotizado, diante do imponente Blaupunkt com gravador de bobines, gira-discos e, mais importante, radio de válvulas onde se podia ouvir a BBC. Nesse dia, 31 de Março de 1974, à rádio não estava sintonizado na popular estação britânica, mas sim na Emissora Nacional. A dupla Fernando e Romeu Correia relatava um Sporting-Benfica, o último derby antes da Revolução de Abril, e a vibração da sua narrativa exercia um magnetismo ímpar no menino.

Eram 15h08 e Portugal inteiro parou: os locutores tentavam descrever, ainda incredulos, o que haviam presenciado. Hector Yazalde, o anjo com cara de índio, desafiara o impossível, qual cavaleiro alado mergulhara em voo rasante entre os pés do Monstro Humberto e do intratável Barros e, a vinte centímetros do solo, cabeceara (!) a bola na direcção da baliza. Golo!

O jogo continuaria, mas já não seria o mesmo. Naquele momento, ao minuto 8, os espectadores no Estádio sentiram-se recompensados por anos de "idas à bola". Yazalde ainda voltaria a marcar e o Benfica até acabaria por ganhar, mas o Jogo, esse, terminara há muito.

A última aparição pública de Marcelo Caetano (Abril estava mesmo ali), a ovação tremenda e, ver-se-ia, tão enganadora, foi simplesmente olvidada, menosprezada. O momento era de Yazalde, o corajoso e temerario Chirola, o Homem que nunca esquecera as suas origens humildes e que sempre que saía de um treino, presenteava todos os jovens desfavorecidos que o abordavam com tudo o que tinha nos bolsos, entretanto previamente provisionados, o colega que, uns meses depois, quando lhe atribuíram um Toyota, como prémio pela Bota de Ouro europeia, decidiu vender o automóvel e distribuir o dinheiro que daî resultou, equitativamente, por todos os colegas de equipa.

Nesse dia, todos queriam ser Yazalde, até os políticos e os capitães queriam ser Yazalde e Yazalde deixou de ser humano para se tornar um mito em Alvalade, génio impulsionado pela sua musa, a bela Carmén, a quem um dia Beckenbauer, no Lido de Paris após a cerimónia de entrega do Bota de Ouro, disse ser a mais bela de todas as mulheres de jogadores de futebol.

E, o menino? O menino imaginava aquele momento do golo, a ousadia do dianteiro, o espanto dos defesas, o desespero do guarda-redes José Henrique, o Zé Gato, que nesse transe perdera a última das suas sete vidas, sendo substituído ao intervalo por Manuel Galrinho Bento (esse mesmo). E o menino sonhava com isto tudo, estado que se prolongou por todo o Domingo.

No dia seguinte, vestiu a mítica camisola verde-e-branca, com o número 9 cosido nas costas (comprada na Casa Senna), bola na mão, e abalou a caminho da escola, confiante de que a partir daí, nada na sua vida seria impossível de alcançar. Aprendera com o melhor..."

Os melhores golos do Sporting (15)

 

Golo de YAZALDE

Sporting-Benfica

31 de Março de 1974, Estádio José Alvalade

 

O golo de que vos venho falar foi marcado em Março de 1974 por Hector Yazalde (Buenos Aires, 29 de Maio de 1946 - Buenos Aires, 18 de Junho de 1997), o primeiro de um desafio que o Sporting viria a perder em Alvalade por 5 – 3 naquele que foi o derby mais antigo de que tenho memória de presenciar ao vivo, para mais acontecido numa gloriosa época em que o Sporting se sagraria campeão nacional. Escolho este porque é da autoria de uma das maiores glórias leoninas de sempre que convém relevar mais e mais vezes contra o esquecimento, mas também pela forma acrobática como foi marcado - ainda hoje o tenho gravado na minha retina. Acontece que o presenciei de uma perspectiva privilegiada sobre a grande área Benfica na primeira parte. Nesse Domingo eu acompanhava o meu Tio Manel excepcionalmente em “Dia de Clube” – ocasião em que todo o público, sócios ou simples adeptos, tinham que adquirir ingresso pago, numa época louca em que no Estádio José de Alvalade cabia sempre mais um espectador. O ambiente resultava electrizante, como que explosivo.
Dizem que golos acrobáticos como este só podem acontecer quando facilitados pela defesa adversária, mas o que é facto é que, sem a facilidade dos dias de hoje de rever uma jogada de vários ângulos repetidamente durante a semana seguinte, eu nunca mais me esqueci daquele cabeceamento em voo planante para projectar a bola para o fundo da baliza de José Henriques - sem dúvida um golo de rara beleza que levantou todo o Estádio em imensa alegria (no vídeo ao minuto 1,24). O jogo, esse, que o Sporting viria a perder, foi para mim uma lição cabal da mística que possui um embate entre os dois vizinhos da 2ª Circular.
Quanto ao saudoso Yazalde que foi meu herói de menino, nessa época viria a conquistar a Bota de Ouro com 46 golos marcados, facto que ainda hoje constitui uma das maiores marcas desse prestigiado troféu europeu.

 

Nota: publica-se este artigo no dia do aniversário natalicio do meu saudoso pai, o primeiro responsável pelo meu sportinguismo. Em sua memória deixo esta nota de homenagem.

Yazalde Sporting - Armazém Leonino - Sporting 197

 

Os nossos ídolos (8): Yazalde

 

3.500 contos em moeda antiga. Corria o ano de 1971 e, para o jovem Hector Casimiro Yazalde, então com 25 anos, a soma oferecida pelo Sporting era uma pequena fortuna.
Oriundo de uma família pobre de Buenos Aires, obrigado a sustentar pais e irmãos trocando o sonho de estudar medicina pela dura realidade de trabalhos como picador de gelo, vendedor de jornais ou de bananas, o dinheiro permitiu a “Chirola” – como era chamado – cumprir a missão sagrada de todo o bom filho nas mesmas circunstâncias e oferecer uma vivenda aos pais numa zona nobre da capital argentina, enquanto rumava a Alvalade.
Dizem as crónicas que o período de adaptação não foi fácil nesse primeiro ano, mas na história e na memória de todos os sportinguistas ficou registado aquele jogo em que ganhámos a Taça de Portugal na época de 1972/73 e durante o qual marcou um dos três golos sofridos pelo Vitória de Setúbal num 3-2 vivido ao minuto. E, principalmente, o seu trabalho nas épocas seguintes quando conquistou primeiro uma Bota de Ouro, com 46 esféricos entrados nas redes adversárias e, logo de seguida em 1974/1975, uma Bota de Prata.
Após a conquista da Bota de Ouro, o argentino mostrou mais uma vez o seu bom coração e provou que valores como a gentlemanship e o desportivismo não são pertença de nenhuma classe social. O Toyota que recebeu como prémio, vendeu-o ele para repartir o dinheiro com os restantes camaradas da equipa porque – e bem – considerava que todos eram parte contributiva dos resultados que alcançara.
Era assim Yazalde e por isso o recordo aqui: Atleta de excepção e Leão do coração, algo que não escolhe fronteiras nem origens. Que se revela dentro e fora dos relvados. Que distingue aqueles que são verdadeiramente grandes de todos os outros. Algo que pertence apenas aos verdadeiros campeões.

As mulheres dos jogadores

 

Num repasto recente veio à conversa o assunto, esse das mulheres dos jogadores, agora já quase estrelas. Claro que não pude deixar de me lembrar da mais bela delas todas, a Carmizé mulher do Hector Casimiro Yazalde, esse que a gente da rádio (transístores) gritava a cada um dos muitos golos Jázaldé! Carmizé fez carreira cinematográfica (ver a ligação), era lindíssima e quarenta anos depois ainda tem um blog que lhe é dedicado.

 

O Yazalde, o maior, é uma saudade. Enorme.

{ Blog fundado em 2012. }

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