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És a nossa Fé!

198 textos depois

E pronto. Tal como já tinha acontecido com o Campeonato da Europa de 2012, mas desta vez com muito mais quantidade e diversidade de autores, concluímos a nossa "operação Mundial", num total de 198 textos alusivos ao maior certame desportivo do planeta. Sem deixarmos nenhum tema relevante por assinalar ou debater. E com as mais variadas perspectivas, o que continua a fazer de És a nossa Fé um dos títulos mais multifacetados e plurais da blogosfera leonina.

Vamos continuar. Sem perdermos estas características, salientadas por leitores do Sporting e até de clubes rivais que também nos visitam em grande número.

Portugal cai sete lugares

Como já seria de esperar, a má prestação da selecção nacional no Campeonato do Mundo fez-nos cair na tabela classificativa da FIFA. Portugal, que antes do Mundial estava na quarta posição, cai sete lugares, sendo agora o 11º.

Uma queda semelhante à de Espanha, que recua do primeiro para o oitavo posto. Outra queda já aguardada é a da Itália, que cai do 9º para o 14º lugar. A Inglaterra desaparece também da lista das dez mais. E o Brasil abandona o pódio, sendo agora o sétimo nesta tabela.

A subir estão, naturalmente, a Alemanha - que acaba de sagrar-se campeã mundial e passa a liderar esta lista, o que não sucedia há 20 anos. A Argentina é agora a segunda (era quinta), a Holanda chega ao pódio (subindo 12 posições) e a França ascende de um modesto 17º lugar ao décimo da lista.

A ver o Mundial (33)

Caíram vários mitos neste Campeonato do Mundo disputado no Brasil, com 2,67 golos por jogo (melhor média desde a edição de 1994). Desde logo, o da superioridade técnica do futebol que se pratica no continente americano: o melhor do futebol-espectáculo pratica-se hoje na Europa, onde aliás actua a esmagadora maioria dos craques latino-americanos, incluindo Messi e Neymar.

Caiu também o mito do factor-continente na definição da equipa vencedora. É certo que uma selecção oriunda das Américas (a brasileira) já havia vencido um Mundial realizado em solo europeu (Suécia, 1958). Mas o inverso jamais tinha ocorrido. Aconteceu agora, com a primeira conquista do troféu máximo do futebol à escala planetária por um onze europeu no outro lado do Atlântico.

Esta foi, aliás, a terceira vitória seguida de uma selecção europeia - a alemã, depois dos triunfos da Itália no Mundial de 2006 e da Espanha no Mundial de 2010. Desfazendo assim outro mito: o da indispensável alternância de continentes após um máximo de dois troféus consecutivos. O último extra-europeu já tem 12 anos: foi o do Brasil liderado por Scolari em 2002.

Houve partidas emocionantes, golos para todos os gostos (e alguns belíssimos, que vão perdurar-nos na memória) e o predomínio da organização colectiva sobre o rasgo individual, correspondendo ao mais genuíno espírito do futebol, como ficou bem patente na superioridade da Alemanha. Tal como já tinha acontecido com Espanha no Mundial da África do Sul. Num caso e noutro, não por acaso, esta superioridade deveu-se em boa parte ao facto de haver um clube na espinha dorsal da selecção - Barcelona em 2010, Bayern de Munique agora. Também em ambos os casos a estrutura-base das equipas assenta num trabalho iniciado nos escalões jovens: tanto na Espanha campeã há quatro anos como na Alemanha actual os jogadores começaram a actuar juntos nos sub-17 e nos sub-19.

Uma lição que devíamos aprender por cá se quisermos atingir voos mais altos sem nos enredarmos nas inúteis lamúrias do costume.

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Quadro de honra - Alemanha, justa e digna vencedora. A combativa Holanda, que merecia ter comparecido na final.

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Quadro negro - A detentora do título, a já envelhecida Espanha, afastada na fase de grupos após goleada inicial contra a Holanda (1-5). Inglaterra e Itália, ex-campeãs mundiais, igualmente eliminadas antes dos oitavos-de-final apesar de terem selecções cheias de vedetas. Rússia, país organizador do próximo Mundial: ninguém deu por ela.

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Surpresas - A talentosa selecção da Costa Rica, que atingiu os quartos-de-final e acabou afastada pela Holanda, após um Mundial sem derrotas, na sequência dos sempre aleatórios pontapés de grandes penalidades. A esforçada Argélia, melhor selecção africana no torneio, capaz de pôr em sentido a Alemanha num jogo que chegou ao prolongamento e terminou com uma tangencial vitória germânica.

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Decepções - O Brasil de Scolari, que levou sete da Alemanha e três da Holanda, foi a defesa mais batida, quedando-se no quarto lugar neste segundo Mundial que jogou em casa - humilhação superior à do Campeonato do Mundo de 1950 em que, também como anfitrião, perdeu a final frente ao Uruguai. A selecção portuguesa, comandada por Paulo Bento, incapaz de ultrapassar a fase de grupos com o seu cortejo de jogadores lesionados. Cristiano Ronaldo, que saiu do Brasil com uma copiosa derrota frente aos alemães (0-4) e apenas um golo marcado. Iniesta, campeão mundial na África do Sul que perdeu a chama nos estádios brasileiros.

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Os melhores -  Robben, o extremo mais veloz do primeiro ao último minuto do primeiro ao último jogo. James Rodríguez, melhor marcador do torneio com golos que deslumbraram adeptos de todos os continentes. Thomas Müller, com cinco golos e três assistências: tinha sido o goleador do Mundial de 2010, foi o segundo nesta edição. Mascherano, um médio defensivo do outro mundo. O sportinguista Slimani, com dois golos marcados pela Argélia - melhor jogador africano neste Campeonato do Mundo. Neuer, melhor guardião naquele que chegou a ser considerado o "Mundial dos guarda-redes" devido à quantidade e qualidade das exibições de figuras como Ochoa (México), Keylor Navas (Costa Rica), Tim Howard (EUA) e Claudio Bravo.

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Os piores - Luis Suárez, aclamado como herói no Uruguai por mais um lamentável exemplo de conduta antidesportiva (mordeu o ombro de um defesa italiano, Chiellini). As desastrosas exibições de David Luiz - que o Paris Saint-Germain contratou ao Chelsea por 50 milhões de euros - nos desafios do Brasil contra a Alemanha e a Holanda. O italiano Balotelli, que voltou a passar ao lado de uma grande competição. O medíocre Fred, ponta-de-lança sem golos, na memória de todos apenas por ter forjado um penálti para o Brasil contra a Croácia. Casillas, ex-campeão do mundo: desta vez, com ele na baliza, até pareceu que Espanha jogava sem guarda-redes.

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Para lembrar - Klose, melhor goleador do Mundial de 2006, voltou a marcar estabelecendo novo recorde individual em campeonatos do mundo de futebol: um total de 16 golos em quatro edições - ultrapassando assim o anterior titular, o brasileiro Ronaldo. Mario Götze saltando do banco num torneio em que parecia ser condenado a suplente para se tornar um herói do Campeonato do Mundo ao apontar o golo da vitória alemã na final contra a Argentina no segundo tempo do prolongamento. A despedida em lágrimas de David Villa, logo após um golo de fazer levantar o estádio, contra a Austrália. O seu último golo pela selecção espanhola.

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Para esquecer - A ridícula ameaça de greve dos jogadores do Gana, nas vésperas do jogo contra Portugal, e a entrega de dinheiro vivo que os fez mudar de ideias.

A maior anedota

Verifico agora que, no onze ideal do Campeonato do Mundo elaborado por uns supostos "técnicos" da FIFA, figura aquele que foi um dos mais desastrados defesas centrais do certame, responsável directo por vários golos sofridos pela selecção brasileira: David Luiz.

Uma autêntica anedota que cobre ainda mais de ridículo o organismo máximo do futebol à escala mundial. Ainda por cima neste onze não figura aquele que para a FIFA - e só para ela - foi o melhor jogador do Mundial: o apático e apagado Lionel Messi, vulgarizado nas decisivas partidas contra a Holanda e a Alemanha.

Para tornar tudo ainda mais risível, o próprio Blatter vem agora manifestar estranheza pelo troféu concedido ao argentino pela própria instituição a que preside. Uma genuína palhaçada. Compreendo muito bem a reacção de Thomas Müller quando lhe pediram um comentário a esta ridícula "Bola de Ouro" (reproduzo aqui na versão espanhola): «No me importa esa mierda. Somos campeones del Mundo, usted puede meterse el Balón de Oro en el culo."

Ideias minhas… sobre o Mundial

O Mundial que ontem terminou com a vitória justa e esperada da Alemanha ficou marcado por alguns estranhos apontamentos:

  • O primeiro começou com a própria organização. Segundo se soube, a horas de se iniciar o evento ainda decorriam obras em diversos estádios;
  • Depois vieram os jogos e as más arbitragens que curiosamente foram melhorando com o decorrer do torneio;
  • Algumas más prestações de selecções de quem se esperava muito futebol. Falo especificamente da Espanha, Inglaterra, Itália e obviamente do Brasil (Portugal não incluído????);
  • A escolha do melhor jogador do Mundial. E aqui faço uma ressalva para dizer que considero o suíço Joseph Blatter como o dirigente desportivo que mais tem prejudicado o futebol. Uma lástima;
  • Finalmente um reparo para alguns (maus) comentadores desportivos. O futebol é um desporto, não uma ciência exacta. E há quem ainda não tenha percebido isso!

Em nota de rodapé direi que ontem gostei do Enzo Perez (muuuuuuuito melhor que Messi) e nem tanto do Rojo. Mas isto sou eu a pensar, que não percebo nada de futebol.

 

Até daqui a quatro anos.

Saídas inglórias

A selecção saiu na fase de grupos, o Pedro Proença nos oitavos: ambos inglórios. À selecção sugiro uma renovação profunda, a PP uma viagem a Mexico City, onde será certamente recebido com muito carinho e amizade. Eu acho a Holanda uma selecção mais interessante, e mais capaz de "coisas bonitas" (Artur Jorge dixit) do que a do México: mas o que eu acho (ou qualquer outro ache) sobre o assunto, vale zero: porque o futebol não é um jogo a pontos mas sim a golos, e, pelas leis do Association, qualquer equipa de m. tem o direito de ganhar a outra melhor se souber defender um resultado - e o árbitro (arbitrariamente) não a desapossar desse direito no último minuto de jogo, com um penálti igualmente de m. Por isso, Pedro, fizeram bem em mandar-te para casa, porque o beautiful game não é um jogo para habilidosos como tu (embora muitas vezes pareça).

O meu onze do Mundial

 

Cada qual escolherá o seu.

Para mim, foi este o onze ideal do Campeonato do Mundo de 2014:

 

Guarda-redes

Neuer (Alemanha)

 

Defesas

Lahm (Alemanha)

Vlaar (Holanda)

Hummels (Alemanha)

Blind (Holanda)

 

Médios

Mascherano (Argentina)

Schweinsteiger (Alemanha)

Kroos (Alemanha)

 

Avançados

James Rodríguez (Colômbia)

Robben (Holanda)

Thomas Müller (Alemanha)

 

Nenhum brasileiro, claro. Messi também não, como é evidente.

Lendo os outros

Alexandre Borges: «Messi não foi o melhor jogador em quase nenhum dos jogos que disputou, mas foi o melhor jogador do Mundial. Messi passou ao lado de grande parte dos jogos, mas, caramba!, viram com que classe passou ao lado? Messi fez coisas extraordinárias. Andou, respirou e até se deu ao trabalho de, no fim de 120 minutos, subir a escadaria para ir receber o prémio. Pela cara, não percebeu bem o que estava a acontecer. Nós também não. Mas, por uma vez, tive vontade de ver Suárez morder alguém. Não a Messi, que não deve saber a nada. Mas a quem lhe deu o prémio.»

 

Francisco Seixas da Costa: «Saber perder é uma arte. (...) Ontem, Lionel Messi, com uma iniludível "cara de frete", não soube comportar-se à altura de um capitão da equipa que titulava, numa demonstração de falta de sangue frio, perante a adversidade desportiva que tinha obrigação de saber enfrentar. Não se lhe pediam sorrisos, pedia-se urbanidade e educação, perante os que o saudavam com admiração. Messi comportou-se como um miúdo mimado, a quem tiraram o brinquedo que achava ser seu.»

 

Maria Ribeiro: «Ganhou a melhor selecção, que apresentava o plantel mais equilibrado e com mais soluções. Ganhou o melhor modelo de jogo, a melhor táctica. Ganhou a máquina alemã, com uma veia goleadora quase assustadora. Hoje ganhou o futebol. E o Messi ganhou o prémio de jogador do torneio. Perdeu o futebol de James, Robben ou Müller.»

 

Mr. Brown: «A política da FIFA entrou em acção: Messi melhor jogador do Mundial quando só na sua equipa, para não ir mais longe, Mascherano esteve muitos furos acima, é delirante. Mas aconteceu e compreende-se: esta FIFA de Blatter idolatra Messi da mesma forma que desprezava Maradona. Ele não tem culpa, mas isso é uma das coisas que por vezes leva-me a irritar com o anão argentino: nem precisa tocar na bola e já é o melhor do mundo.»

 

Dá vontade de vomitar

Como o Edmundo já salientou aqui, foi caricato o troféu entregue pela FIFA a Lionel Messi, como melhor jogador de campo do Mundial de 2014. Logo ele, que na final contra a Alemanha se revelou um dos mais apagados intervenientes.

Em termos individuais, não tenho a menor dúvida: Robben foi o melhor jogador deste Campeonato do Mundo (acabou por ficar em terceiro na escolha da FIFA, após Messi e Müller). Mas na própria Argentina não era nada difícil encontrar quem mais merecesse ser distinguido do que o capitão da equipa. O excelente médio defensivo Javier Mascherano, por exemplo.

Decisões destas só desvalorizam futuros prémios e desacreditam ainda mais o organismo presidido pelo senhor Blatter. Por uma vez Maradona acertou em cheio ao protestar: "Querem que Messi ganhe algo que não ganhou."

No decisivo confronto contra a selecção germânica, Messi voltou a vomitar. Como se já previsse que lhe dariam o mais imerecido troféu da sua carreira. Apetece seguir-lhe o exemplo.

E no fim, ganhou a Alemanha

O jogo já foi bem analisado por Pedro Correia ali em baixo, daí não haver necessidade de vos chatear com mais prosa sobre o tema.

O que quero enfatizar é que o ceptro ficou bem entregue!

A Alemanha, apesar do percalço com o "ingénuo" Gana e até de um jogo menos conseguido com a super Argélia, demonstrou ser, a par da Holanda, uma equipa na verdadeira acepção da palavra. As suas vedetas, suplentes incluídos, souberam fazer da sua genialidade um colectivo.

E depois, há os pormenores: Higuaín, na cara de Neuer, fez o disparate da sua carreira e o Super-Mário, num gesto técnico irrepreensível, marcou um golaço!

Neste jogo em particular a Argentina até nem esteve mal. Deixem-me ser um pouco exagerado, e dizer que me parece que jogou com dez. Alguém deu por Messi, o coroado melhor do torneio, durante o jogo? Eu vi duas arrancadas sem consequência de maior para a defesa germânica, dois livres directos por cima da baliza, bem por cima, três tentativas de passe bem interceptados pela defesa alemã e uma dúzia de perdas de bola. Estivesse lá Di María e provavelmente outro galo cantaria...

 

E já agora, a talhe de foice, os "portugueses" estiveram bastante bem (Garay ainda conta e no golo alemão é batido, mas tem a "desculpa" de estar a lutar aos 116 minutos com dois homens bem mais frescos), com destaque para o nosso Rojo, que fez três assistências, duas delas meio golo. Ouvi dizer que andamos à procura dum defesa esquerdo... porquê?

A ver o Mundial (31)

Foi a vitória da equipa que melhor soube interpretar em campo a versão de um coral primorosamente afinado, para pedir emprestada a feliz imagem ao jornalista Orfeo Suárez, um dos melhores cronistas contemporâneos de futebol, na antevisão que ontem fez da final da Copa no jornal El Mundo.

A Alemanha mereceu, sob vários prismas, a conquista deste seu quarto Campeonato do Mundo (após as vitórias em 1954, 1974 e 1990). Teve a melhor organização, o melhor guarda-redes (Neuer), um lateral adaptado que suplantou toda a concorrência (Lahm), um meio-campo de sonho (com Khadira, Schweinsteiger, Kroos e Özil), um avançado à moda antiga que põe em sentido qualquer reduto defensivo adversário (Müller) e ainda o melhor marcador de sempre nas fases finais de campeonatos do mundo (Klose, com 16 golos).

Um colectivo em futebol de alta competição é isto: funciona com a perfeita articulação entre as suas peças.

 

Götze: entrar e marcar 

 

Mais: a Alemanha confirmou ontem ter um banco de suplentes de luxo. Schürrle e Götze entraram - o primeiro aos 31', por lesão de Kramer, e o segundo à beira do prolongamento, rendendo Klose - para desatarem o aparente nó cego em que se transformara o empate a zero e cumpriram da melhor maneira a missão. Foi dos pés deles que saiu o belíssimo lance do golo alemão que sepultou o sonho de Messi de imitar Maradona com a conquista do troféu de campeão mundial.

Iam decorridos 112’, faltavam apenas oito minutos para uma eventual ronda de grandes penalidades que nenhuma selecção pretendia. Os argentinos para não abusarem da sorte: já se haviam apurado frente à Holanda, na meia-final, com este processo. Os alemães - que pouco antes tinham visto uma bola embater no poste após cabeçada de Höwedes - para evitarem ser vítimas de uma injustiça histórica: foram, de longe, a melhor selecção do Campeonato do Mundo. Com seis vitórias e só um empate nesta fase final, 18 golos marcados (sete dos quais ao Brasil e quatro a Portugal) e apenas quatro sofridos.

 

 

A história deste jogo que de algum modo reeditou a vitória espanhola no Mundial de 2010 (1-0 na final contra a Holanda, no prolongamento, com golo de Iniesta aos 117’) poderia, no entanto, ter conhecido um desfecho bem diferente. Bastaria Higuaín, isolado logo aos 20’ perante Neuer devido a um passe à retaguarda mal medido de Kroos (talvez o único erro do excelente médio alemão cometido neste mês de competição em relvados brasileiros), não fez o que lhe competia. Tinha todo o tempo do mundo para atirar a bola à velocidade pretendida e para o melhor ângulo da baliza germânica.

Nada disso aconteceu: o remate saiu-lhe frouxo e sem pontaria. Naquele instante Neuer sagrava-se como novíssimo gigante do histórico Maracanã, palco da final. Higuaín ficava reduzido ao estatuto de pigmeu.

Mas tudo poderia ter saído ao contrário, com o argentino a elevar-se à condição de herói do Mundial-2014. O sortilégio do futebol passa por estes instantes em que se decide o destino de um jogador - a humilhação perpétua ou a glória eterna.

 

Alemanha, 1 – Argentina, 0

A ver o Mundial (30)

Escutei já hoje o que se disse ontem à noite nas televisões portuguesas sobre o Brasil-Holanda. Num dos canais - por sinal aquele que, de longe, pior trata o futebol - todo o espaço de comentário foi utilizado para pendurar Luiz Felipe Scolari no pelourinho. Um dos intervenientes chegou ao ponto de dizer que a conquista da Taça das Confederações em 2013, já com Scolari ao leme do escrete, foi péssima para o Brasil pois travou a indispensável renovação dos canarinhos, blablablablá patati patatá.

Ainda esperei que, numa lógica simétrica, todos quantos degolaram, vergastaram e lapidaram Scolari - tornando o treinador já não só o responsável máximo mas o responsável único dos desaires de uma equipa - saíssem em elogio e louvor do seleccionador holandês, Louis van Gaal. Nada disso: nem uma palavra sobre o tema. Os treinadores, na óptica do painel deste canal, só merecem menção pela negativa, nunca pela positiva.

 

Toda a linha de raciocínio deste programa de rescaldo e análise do encontro de ontem para a obtenção do terceiro lugar no pódio do Mundial decorreu em obediência à lógica do demérito brasileiro, sem invocação expressa (e mais que justificada) do mérito holandês.

Como se fosse por acaso que a Holanda se despediu do Mundial sem uma derrota.

Como se fosse por acaso que os holandeses tivessem renovado em grande parte a sua selecção, eliminada no Euro-2012 ainda na fase de grupos.

Como se fosse por acaso que Robben se sagrou o maior valor individual deste torneio, correndo em cada jogo como se fosse o último (e no Brasil-Holanda sofreu uma grande penalidade cometida por Fernandinho à qual o árbitro fez vista grossa, talvez para poupar a turma anfitriã a uma segunda goleada consecutiva).

 

Os erros grosseiros cometidos pelos brasileiros em campo foram igualmente escamoteados por estes comentadores.

Nem uma palavra sobre a falta cometida por Thiago Silva sobre Robben logo aos dois minutos (e que o árbitro, amiguinho, sancionou apenas com cartão amarelo quando devia ter exibido o vermelho).

Nem uma palavra sobre o absurdo alívio de David Luiz aos 17' que funcionou como assistência ao segundo golo holandês.

Nem uma palavra sobre as exibições apagadíssimas de Jo e Willian, os "reforços" que os críticos de Scolari mais vinham reclamando para o onze titular.

 

Toda a análise foi feita à luz da putativa obrigação do Brasil em sagrar-se vencedor.

Como se houvesse triunfadores antecipados em futebol.

Como se a Holanda não existisse.

O escrete comandado por Scolari sai do Mundial no quarto lugar. Como saiu em 1974, no Campeonato do Mundo que se seguiu à brilhante conquista do troféu Jules Rimet no México, ainda com vários jogadores titulares da conquista desse tricampeonato. E em melhor posição do que conseguiu a tão elogiada selecção de 1982, eliminada antes das meias-finais mesmo com o brilhantismo de Sócrates, Falcão e Zito.

 

Falar assim de futebol, sem critério nem memória, é demasiado fácil. Os cafés portugueses estão cheios de comentadores deste género: qualquer mediano olheiro televisivo pode recrutá-los lá.

A ver o Mundial (29)

Confirma-se: este será para os brasileiros um Campeonato do Mundo ainda mais traumático do que o de 1950, quando o escrete foi vice-campeão perdendo na final com o Uruguai. Um desfecho muito mais aceitável, apesar de tudo, do que esta hecatombe à beira do fim do segundo Mundial em que os brasileiros participaram na qualidade de anfitriões. Derrotados frente à poderosa Alemanha na terça-feira, novamente derrotados esta noite perante uma Holanda que foi superior do primeiro ao último minuto do desafio. Segundo desaire consecutivo do Brasil: dez golos sofridos, apenas um marcado.

Os comentadores da RTP procuraram desde o início desvalorizar esta partida transmitida em directo pelo canal público, o que não faz o menor sentido. Ainda hoje todos celebramos o lugar de Portugal no pódio naquele saudoso Mundial de 1966. Além disso, estes desafios costumam ser mais emocionantes e ter mais golos do que muitas finais. Foi assim há quatro anos, por exemplo.

Perder, nem a feijões. E para o Brasil este desafio era mais importante do que a simples disputa do terceiro lugar no Campeonato do Mundo: era também a derradeira oportunidade de levantar a cabeça. A honra da selecção comandada por Scolari estava em jogo.

 

O seleccionador brasileiro fez seis mudanças no onze titular. Regressou o capitão Thiago Silva, que estivera afastado do encontro anterior por acumulação de cartões. Maxwell, Maicon, Ramires, Willian e Jo entraram de início. No banco sentaram-se Dante, Marcelo, Fernandinho, Bernard, Hulk e Fred. Neymar, lesionado, continuou de fora.

Não valeu de nada alterar a frente atacante, como reclamavam algumas das vozes mais críticas de Scolari: mesmo recauchutada, a linha ofensiva foi de uma inacreditável inoperância enquanto a defesa voltava a passar por inúmeros calafrios. O primeiro, logo aos dois minutos, resultou no primeiro golo holandês quando Thiago Silva derrubou Robben num momento em que o rapidíssimo número 11 só tinha Júlio César pela frente. Ficou a ideia de que o lance ocorreu ainda fora da área, mas o capitão brasileiro devia ter sido expulso. O árbitro argelino limitou-se a mostrar-lhe o cartão amarelo.

Van Persie converteu a grande penalidade. E aos 17' a Holanda marcava o segundo, apontado por Blind após jogada que teve início nos pés de Robben (que esteve nos três golos da sua equipa e voltou a ser o melhor em campo, confirmando-se como uma das grandes figuras deste Mundial).

Por momentos, instalou-se no estádio de Brasília o espectro de uma nova goleada. Até porque o segundo golo resultou de mais um clamoroso erro defensivo cometido por David Luiz, reeditando a lamentável exibição frente à Alemanha.

 

 Robben, uma das grandes figuras deste Mundial

 

Ficou evidente que a derrota anterior não resultou de um infortúnio de ocasião. Pelo contrário, deriva de graves problemas estruturais desta selecção brasileira, que voltou a exibir-se de forma desorganizada, assentando o seu jogo em inócuos pontapés para a frente e abrindo imenso espaço entre as linhas, logo aproveitado pela Holanda para exibir a sua enorme superioridade táctica.

Cada vez que os holandeses atacavam faziam-no de forma eficaz e organizada. O Brasil, pelo contrário, era um caos em campo com vários dos seus jogadores nucleares - novamente com destaque para David Luiz - a jogar fora das posições que lhes estavam confiadas. Um caos apenas contrariado pelo esforçado desempenho de Óscar, única cabeça lúcida no meio daquela anarquia. Merecia - ele sim - ao menos repetir o golo de honra que registou frente aos alemães. Mas convém assinalar: o primeiro remate com algum perigo para a baliza holandesa, apontado por Ramires, ocorreu quando já havia decorrido uma hora de jogo.

O escrete sai de cena sem honra nem glória: foi a selecção que sofreu mais golos. E nem sequer teve a dignidade de saber perder: toda a equipa recolheu ao balneário, recusando participar na entrega do prémio aos holandeses pelo terceiro lugar. Um gesto muito feio.

 

A Holanda - que já havia eliminado o Brasil na meia-final do Campeonato do Mundo de 2010 - sai de cabeça erguida deste Mundial, sem ter sofrido qualquer derrota. Balanço muito positivo: cinco vitórias e dois empates (tendo sido afastada pela Argentina por grandes penalidades), na sequência do brilhante apuramento, em que conseguiu nove triunfos em dez jogos, marcando 34 golos. Robben sai do Brasil como uma das figuras do torneio. E desta vez nem precisou do contributo de Sneijder, que assistiu à partida no banco por se ter lesionado enquanto fazia exercícios de aquecimento, momentos antes de entrar em campo.

Fez hoje um mês que o Mundial começou. E vai terminar amanhã, com a final entre Alemanha e Argentina. Por mim, só lamento que a Holanda não esteja lá. Merecia, sem qualquer dúvida.

 

Brasil, 0 - Holanda, 3

Portugal no Mundial do Brasil, uma parábola

Aquela mórbida idolatria promovida à volta de Cristiano Ronaldo no mês que precedeu o Mundial de Futebol, que ironicamente coincidiu a campanha publicitária da sua parceria com a D. Inércia do Banco Espirito Santo, definitivamente não era um bom prenúncio. Para mais, além de ser um excepcionalmente dotado atleta que não se poupa ao empenho nos seus objectivos, acontece que o melhor futebolista do mundo tem o ego de um adolescente, e aquela inebriante mistificação tinha tudo para se tornar numa parábola sobre o triste fado dos portugueses. Pensar ser possível que um jogador sozinho mude o carisma de uma equipa de futebol mediana para vencedora, é por si uma ingenuidade infantil característica dos latinos em geral e dos portugueses em particular. Repare-se como é um exercício bem mais difícil fulanizar a selecção alemã através de uma só individualidade, tendo em consideração a alta preparação física, abundante qualidade técnica e inteligência táctica que fazem dela uma equipa absolutamente excepcional. Repara-se na ironia, ou enganador desliquilibrio, que reflectem os media ao personificarem o duelo da final de amanhã nas figuras de Müller e… Messi. (...)
Seja qual for o resultado do Mundial que termina amanhã no Brasil, podemos ter já a certeza de que os louros duma vitória jamais dependeriam de um Neymar, um Ronaldo, ou um Messi (qua amanhã vai estar devidamente vigiado), por mais que a natureza humana reclame por ídolos. Não tenho a mais pequena dúvida de como a influência de um só indivíduo, uno e irrepetível, pode sempre fazer muita diferença, para o bem e para o mal, numa comunidade e na História de um povo. Mas a esta certeza junto a de que, quando uma comunidade tem depositada sobre um só indivíduo excessivas expectativas, o mais das vezes isso significa a sua demissão do papel que cabe a cada um na transformação dessa realidade, e é o reflexo de uma profunda infantilidade civilizacional, que faz prever os mais desastrosos resultados.

 

Texto adaptado, aqui em versão completa.

O Pormenor

Deslocar-se ao balneário para felicitar os jogadores da seleção nacional, depois de uma vitória, é um gesto bonito da parte de um chefe de Estado. Quando o chefe de Estado é uma mulher, esse gesto adquire um charme especial, mesmo em se tratando de uma mulher sem poder de atração, como é o caso da chanceler Angela Merkel. Nesta fotografia, porém, ela apresenta-se com uma leveza e uma simpatia incomuns. Mas não é essa a razão principal para eu gostar da imagem. Também não é por causa do monte de homens bem-parecidos, de corpos musculados e toalha pelo pescoço. O melhor da fotografia, o pormenor que me encanta, é o continente africano tatuado no braço esquerdo de Boateng.

 

 

(Clicar aqui para ver melhor a tatuagem, na imagem aumentada).

Comparar Ronaldo a Eusébio

                   

 

Não é nada fácil compararmos jogadores de épocas diferentes. Porque as mudanças registadas em cada década no futebol - do plano da organização táctica das equipas à preparação física, passando pelo acompanhamento clínico - é totalmente diferente. Mesmo assim, continuamos a assistir às incessantes comparações entre Eusébio e Cristiano Ronaldo com vista à designação do melhor futebolista português de todos os tempos. Com muitas opiniões favoráveis ao antigo goleador do Benfica, infelizmente já falecido. Sobretudo pela sua brilhante prestação no Campeonato do Mundo de 1966, em que Portugal surpreendeu tudo e todos com a conquista do terceiro lugar.

Não consigo acompanhar estas teses.

Eusébio conseguiu uma única proeza a nível de selecção. Essa mesmo, em 1966. De resto, com ele no activo, a selecção nacional falhou o apuramento para os Mundiais de 1962, 1970 e 1974. E falhou as presenças em todas as fases finais de europeus (1964, 1968, 1972). 
Além disso Eusébio jogou na selecção praticamente com a equipa do Benfica: as rotinas estavam mais que firmadas, os automatismos estavam mais que estabelecidos. Nada a ver com os tempos actuais, em que a selecção é uma manta de retalhos, com jogadores das mais diversas proveniências, alguns dos quais nem chegaram a jogar em Portugal.
Cristiano Ronaldo participou em três Mundiais - chegando num deles, em 2006, às meias-finais, tal como Eusébio, mas com mais equipas em competição na fase final. E actuou em três Europeus: num deles (2004) fomos à final, noutro (2006) atingimos as meias-finais.
Não há comparação possível. Com Eusébio, a regra era falharmos o apuramento. Com Ronaldo, a regra é conseguirmos o apuramento.
Agora queixamo-nos - e com razão - de termos caído na fase de grupos (após termos perdido contra a Alemanha, com apenas dez jogadores). Aos Mundiais de 1930, 1934, 1938, 1950, 1954, 1958, 1962, 1970, 1974, 1978, 1982, 1990, 1994 e 1998 nem lá chegámos. Antes de Cristiano Ronaldo.
Depois de Ronaldo, não falhámos um.

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