17 Fev 15

 

«Já não tinha nem mais goleiro...»


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20 Jul 14
198 textos depois
Pedro Correia

E pronto. Tal como já tinha acontecido com o Campeonato da Europa de 2012, mas desta vez com muito mais quantidade e diversidade de autores, concluímos a nossa "operação Mundial", num total de 198 textos alusivos ao maior certame desportivo do planeta. Sem deixarmos nenhum tema relevante por assinalar ou debater. E com as mais variadas perspectivas, o que continua a fazer de És a nossa Fé um dos títulos mais multifacetados e plurais da blogosfera leonina.

Vamos continuar. Sem perdermos estas características, salientadas por leitores do Sporting e até de clubes rivais que também nos visitam em grande número.


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17 Jul 14

Como já seria de esperar, a má prestação da selecção nacional no Campeonato do Mundo fez-nos cair na tabela classificativa da FIFA. Portugal, que antes do Mundial estava na quarta posição, cai sete lugares, sendo agora o 11º.

Uma queda semelhante à de Espanha, que recua do primeiro para o oitavo posto. Outra queda já aguardada é a da Itália, que cai do 9º para o 14º lugar. A Inglaterra desaparece também da lista das dez mais. E o Brasil abandona o pódio, sendo agora o sétimo nesta tabela.

A subir estão, naturalmente, a Alemanha - que acaba de sagrar-se campeã mundial e passa a liderar esta lista, o que não sucedia há 20 anos. A Argentina é agora a segunda (era quinta), a Holanda chega ao pódio (subindo 12 posições) e a França ascende de um modesto 17º lugar ao décimo da lista.


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«Um jogador sozinho não chega para tapar os buracos que vimos na nossa selecção. A França sem o seu melhor jogador conseguiu ir mais longe e demonstrou que nesse país existem pessoas que percebem de futebol, pois com uma equipa renovada foi para mim das melhores.»

Fernando Albuquerque, neste texto do Bernardo Pires de Lima


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16 Jul 14

Caíram vários mitos neste Campeonato do Mundo disputado no Brasil, com 2,67 golos por jogo (melhor média desde a edição de 1994). Desde logo, o da superioridade técnica do futebol que se pratica no continente americano: o melhor do futebol-espectáculo pratica-se hoje na Europa, onde aliás actua a esmagadora maioria dos craques latino-americanos, incluindo Messi e Neymar.

Caiu também o mito do factor-continente na definição da equipa vencedora. É certo que uma selecção oriunda das Américas (a brasileira) já havia vencido um Mundial realizado em solo europeu (Suécia, 1958). Mas o inverso jamais tinha ocorrido. Aconteceu agora, com a primeira conquista do troféu máximo do futebol à escala planetária por um onze europeu no outro lado do Atlântico.

Esta foi, aliás, a terceira vitória seguida de uma selecção europeia - a alemã, depois dos triunfos da Itália no Mundial de 2006 e da Espanha no Mundial de 2010. Desfazendo assim outro mito: o da indispensável alternância de continentes após um máximo de dois troféus consecutivos. O último extra-europeu já tem 12 anos: foi o do Brasil liderado por Scolari em 2002.

Houve partidas emocionantes, golos para todos os gostos (e alguns belíssimos, que vão perdurar-nos na memória) e o predomínio da organização colectiva sobre o rasgo individual, correspondendo ao mais genuíno espírito do futebol, como ficou bem patente na superioridade da Alemanha. Tal como já tinha acontecido com Espanha no Mundial da África do Sul. Num caso e noutro, não por acaso, esta superioridade deveu-se em boa parte ao facto de haver um clube na espinha dorsal da selecção - Barcelona em 2010, Bayern de Munique agora. Também em ambos os casos a estrutura-base das equipas assenta num trabalho iniciado nos escalões jovens: tanto na Espanha campeã há quatro anos como na Alemanha actual os jogadores começaram a actuar juntos nos sub-17 e nos sub-19.

Uma lição que devíamos aprender por cá se quisermos atingir voos mais altos sem nos enredarmos nas inúteis lamúrias do costume.

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Quadro de honra - Alemanha, justa e digna vencedora. A combativa Holanda, que merecia ter comparecido na final.

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Quadro negro - A detentora do título, a já envelhecida Espanha, afastada na fase de grupos após goleada inicial contra a Holanda (1-5). Inglaterra e Itália, ex-campeãs mundiais, igualmente eliminadas antes dos oitavos-de-final apesar de terem selecções cheias de vedetas. Rússia, país organizador do próximo Mundial: ninguém deu por ela.

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Surpresas - A talentosa selecção da Costa Rica, que atingiu os quartos-de-final e acabou afastada pela Holanda, após um Mundial sem derrotas, na sequência dos sempre aleatórios pontapés de grandes penalidades. A esforçada Argélia, melhor selecção africana no torneio, capaz de pôr em sentido a Alemanha num jogo que chegou ao prolongamento e terminou com uma tangencial vitória germânica.

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Decepções - O Brasil de Scolari, que levou sete da Alemanha e três da Holanda, foi a defesa mais batida, quedando-se no quarto lugar neste segundo Mundial que jogou em casa - humilhação superior à do Campeonato do Mundo de 1950 em que, também como anfitrião, perdeu a final frente ao Uruguai. A selecção portuguesa, comandada por Paulo Bento, incapaz de ultrapassar a fase de grupos com o seu cortejo de jogadores lesionados. Cristiano Ronaldo, que saiu do Brasil com uma copiosa derrota frente aos alemães (0-4) e apenas um golo marcado. Iniesta, campeão mundial na África do Sul que perdeu a chama nos estádios brasileiros.

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Os melhores -  Robben, o extremo mais veloz do primeiro ao último minuto do primeiro ao último jogo. James Rodríguez, melhor marcador do torneio com golos que deslumbraram adeptos de todos os continentes. Thomas Müller, com cinco golos e três assistências: tinha sido o goleador do Mundial de 2010, foi o segundo nesta edição. Mascherano, um médio defensivo do outro mundo. O sportinguista Slimani, com dois golos marcados pela Argélia - melhor jogador africano neste Campeonato do Mundo. Neuer, melhor guardião naquele que chegou a ser considerado o "Mundial dos guarda-redes" devido à quantidade e qualidade das exibições de figuras como Ochoa (México), Keylor Navas (Costa Rica), Tim Howard (EUA) e Claudio Bravo.

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Os piores - Luis Suárez, aclamado como herói no Uruguai por mais um lamentável exemplo de conduta antidesportiva (mordeu o ombro de um defesa italiano, Chiellini). As desastrosas exibições de David Luiz - que o Paris Saint-Germain contratou ao Chelsea por 50 milhões de euros - nos desafios do Brasil contra a Alemanha e a Holanda. O italiano Balotelli, que voltou a passar ao lado de uma grande competição. O medíocre Fred, ponta-de-lança sem golos, na memória de todos apenas por ter forjado um penálti para o Brasil contra a Croácia. Casillas, ex-campeão do mundo: desta vez, com ele na baliza, até pareceu que Espanha jogava sem guarda-redes.

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Para lembrar - Klose, melhor goleador do Mundial de 2006, voltou a marcar estabelecendo novo recorde individual em campeonatos do mundo de futebol: um total de 16 golos em quatro edições - ultrapassando assim o anterior titular, o brasileiro Ronaldo. Mario Götze saltando do banco num torneio em que parecia ser condenado a suplente para se tornar um herói do Campeonato do Mundo ao apontar o golo da vitória alemã na final contra a Argentina no segundo tempo do prolongamento. A despedida em lágrimas de David Villa, logo após um golo de fazer levantar o estádio, contra a Austrália. O seu último golo pela selecção espanhola.

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Para esquecer - A ridícula ameaça de greve dos jogadores do Gana, nas vésperas do jogo contra Portugal, e a entrega de dinheiro vivo que os fez mudar de ideias.


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15 Jul 14

Para mim foram estes dois. Marcados por Van Persie e James Rodríguez. Houve outros. Mas estes são os que guardarei com maior nitidez na memória. Qual é a vossa opinião?


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A maior anedota
Pedro Correia

Verifico agora que, no onze ideal do Campeonato do Mundo elaborado por uns supostos "técnicos" da FIFA, figura aquele que foi um dos mais desastrados defesas centrais do certame, responsável directo por vários golos sofridos pela selecção brasileira: David Luiz.

Uma autêntica anedota que cobre ainda mais de ridículo o organismo máximo do futebol à escala mundial. Ainda por cima neste onze não figura aquele que para a FIFA - e só para ela - foi o melhor jogador do Mundial: o apático e apagado Lionel Messi, vulgarizado nas decisivas partidas contra a Holanda e a Alemanha.

Para tornar tudo ainda mais risível, o próprio Blatter vem agora manifestar estranheza pelo troféu concedido ao argentino pela própria instituição a que preside. Uma genuína palhaçada. Compreendo muito bem a reacção de Thomas Müller quando lhe pediram um comentário a esta ridícula "Bola de Ouro" (reproduzo aqui na versão espanhola): «No me importa esa mierda. Somos campeones del Mundo, usted puede meterse el Balón de Oro en el culo."


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14 Jul 14

O Mundial que ontem terminou com a vitória justa e esperada da Alemanha ficou marcado por alguns estranhos apontamentos:

  • O primeiro começou com a própria organização. Segundo se soube, a horas de se iniciar o evento ainda decorriam obras em diversos estádios;
  • Depois vieram os jogos e as más arbitragens que curiosamente foram melhorando com o decorrer do torneio;
  • Algumas más prestações de selecções de quem se esperava muito futebol. Falo especificamente da Espanha, Inglaterra, Itália e obviamente do Brasil (Portugal não incluído????);
  • A escolha do melhor jogador do Mundial. E aqui faço uma ressalva para dizer que considero o suíço Joseph Blatter como o dirigente desportivo que mais tem prejudicado o futebol. Uma lástima;
  • Finalmente um reparo para alguns (maus) comentadores desportivos. O futebol é um desporto, não uma ciência exacta. E há quem ainda não tenha percebido isso!

Em nota de rodapé direi que ontem gostei do Enzo Perez (muuuuuuuito melhor que Messi) e nem tanto do Rojo. Mas isto sou eu a pensar, que não percebo nada de futebol.

 

Até daqui a quatro anos.


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Saídas inglórias
Antonio Figueira

A selecção saiu na fase de grupos, o Pedro Proença nos oitavos: ambos inglórios. À selecção sugiro uma renovação profunda, a PP uma viagem a Mexico City, onde será certamente recebido com muito carinho e amizade. Eu acho a Holanda uma selecção mais interessante, e mais capaz de "coisas bonitas" (Artur Jorge dixit) do que a do México: mas o que eu acho (ou qualquer outro ache) sobre o assunto, vale zero: porque o futebol não é um jogo a pontos mas sim a golos, e, pelas leis do Association, qualquer equipa de m. tem o direito de ganhar a outra melhor se souber defender um resultado - e o árbitro (arbitrariamente) não a desapossar desse direito no último minuto de jogo, com um penálti igualmente de m. Por isso, Pedro, fizeram bem em mandar-te para casa, porque o beautiful game não é um jogo para habilidosos como tu (embora muitas vezes pareça).


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Cada qual escolherá o seu.

Para mim, foi este o onze ideal do Campeonato do Mundo de 2014:

 

Guarda-redes

Neuer (Alemanha)

 

Defesas

Lahm (Alemanha)

Vlaar (Holanda)

Hummels (Alemanha)

Blind (Holanda)

 

Médios

Mascherano (Argentina)

Schweinsteiger (Alemanha)

Kroos (Alemanha)

 

Avançados

James Rodríguez (Colômbia)

Robben (Holanda)

Thomas Müller (Alemanha)

 

Nenhum brasileiro, claro. Messi também não, como é evidente.


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Lendo os outros
Pedro Correia

Alexandre Borges: «Messi não foi o melhor jogador em quase nenhum dos jogos que disputou, mas foi o melhor jogador do Mundial. Messi passou ao lado de grande parte dos jogos, mas, caramba!, viram com que classe passou ao lado? Messi fez coisas extraordinárias. Andou, respirou e até se deu ao trabalho de, no fim de 120 minutos, subir a escadaria para ir receber o prémio. Pela cara, não percebeu bem o que estava a acontecer. Nós também não. Mas, por uma vez, tive vontade de ver Suárez morder alguém. Não a Messi, que não deve saber a nada. Mas a quem lhe deu o prémio.»

 

Francisco Seixas da Costa: «Saber perder é uma arte. (...) Ontem, Lionel Messi, com uma iniludível "cara de frete", não soube comportar-se à altura de um capitão da equipa que titulava, numa demonstração de falta de sangue frio, perante a adversidade desportiva que tinha obrigação de saber enfrentar. Não se lhe pediam sorrisos, pedia-se urbanidade e educação, perante os que o saudavam com admiração. Messi comportou-se como um miúdo mimado, a quem tiraram o brinquedo que achava ser seu.»

 

Maria Ribeiro: «Ganhou a melhor selecção, que apresentava o plantel mais equilibrado e com mais soluções. Ganhou o melhor modelo de jogo, a melhor táctica. Ganhou a máquina alemã, com uma veia goleadora quase assustadora. Hoje ganhou o futebol. E o Messi ganhou o prémio de jogador do torneio. Perdeu o futebol de James, Robben ou Müller.»

 

Mr. Brown: «A política da FIFA entrou em acção: Messi melhor jogador do Mundial quando só na sua equipa, para não ir mais longe, Mascherano esteve muitos furos acima, é delirante. Mas aconteceu e compreende-se: esta FIFA de Blatter idolatra Messi da mesma forma que desprezava Maradona. Ele não tem culpa, mas isso é uma das coisas que por vezes leva-me a irritar com o anão argentino: nem precisa tocar na bola e já é o melhor do mundo.»

 


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Como o Edmundo já salientou aqui, foi caricato o troféu entregue pela FIFA a Lionel Messi, como melhor jogador de campo do Mundial de 2014. Logo ele, que na final contra a Alemanha se revelou um dos mais apagados intervenientes.

Em termos individuais, não tenho a menor dúvida: Robben foi o melhor jogador deste Campeonato do Mundo (acabou por ficar em terceiro na escolha da FIFA, após Messi e Müller). Mas na própria Argentina não era nada difícil encontrar quem mais merecesse ser distinguido do que o capitão da equipa. O excelente médio defensivo Javier Mascherano, por exemplo.

Decisões destas só desvalorizam futuros prémios e desacreditam ainda mais o organismo presidido pelo senhor Blatter. Por uma vez Maradona acertou em cheio ao protestar: "Querem que Messi ganhe algo que não ganhou."

No decisivo confronto contra a selecção germânica, Messi voltou a vomitar. Como se já previsse que lhe dariam o mais imerecido troféu da sua carreira. Apetece seguir-lhe o exemplo.


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E no fim, ganhou a Alemanha
Edmundo Gonçalves

O jogo já foi bem analisado por Pedro Correia ali em baixo, daí não haver necessidade de vos chatear com mais prosa sobre o tema.

O que quero enfatizar é que o ceptro ficou bem entregue!

A Alemanha, apesar do percalço com o "ingénuo" Gana e até de um jogo menos conseguido com a super Argélia, demonstrou ser, a par da Holanda, uma equipa na verdadeira acepção da palavra. As suas vedetas, suplentes incluídos, souberam fazer da sua genialidade um colectivo.

E depois, há os pormenores: Higuaín, na cara de Neuer, fez o disparate da sua carreira e o Super-Mário, num gesto técnico irrepreensível, marcou um golaço!

Neste jogo em particular a Argentina até nem esteve mal. Deixem-me ser um pouco exagerado, e dizer que me parece que jogou com dez. Alguém deu por Messi, o coroado melhor do torneio, durante o jogo? Eu vi duas arrancadas sem consequência de maior para a defesa germânica, dois livres directos por cima da baliza, bem por cima, três tentativas de passe bem interceptados pela defesa alemã e uma dúzia de perdas de bola. Estivesse lá Di María e provavelmente outro galo cantaria...

 

E já agora, a talhe de foice, os "portugueses" estiveram bastante bem (Garay ainda conta e no golo alemão é batido, mas tem a "desculpa" de estar a lutar aos 116 minutos com dois homens bem mais frescos), com destaque para o nosso Rojo, que fez três assistências, duas delas meio golo. Ouvi dizer que andamos à procura dum defesa esquerdo... porquê?


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Lionel Messi foi eleito como o melhor jogador do FIFA2014.

Parece que o facto de lá ter estado (ontem não se deu por ele) foi suficiente.

Robben, o tipo que melhor se apresentou no Brasil, ficou com o terceiro lugar no pódio, coisa estranha.

(será que houve aqui mãozinha de Blatter, assim a modos que um prémio de consolação?)


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Foi a vitória da equipa que melhor soube interpretar em campo a versão de um coral primorosamente afinado, para pedir emprestada a feliz imagem ao jornalista Orfeo Suárez, um dos melhores cronistas contemporâneos de futebol, na antevisão que ontem fez da final da Copa no jornal El Mundo.

A Alemanha mereceu, sob vários prismas, a conquista deste seu quarto Campeonato do Mundo (após as vitórias em 1954, 1974 e 1990). Teve a melhor organização, o melhor guarda-redes (Neuer), um lateral adaptado que suplantou toda a concorrência (Lahm), um meio-campo de sonho (com Khadira, Schweinsteiger, Kroos e Özil), um avançado à moda antiga que põe em sentido qualquer reduto defensivo adversário (Müller) e ainda o melhor marcador de sempre nas fases finais de campeonatos do mundo (Klose, com 16 golos).

Um colectivo em futebol de alta competição é isto: funciona com a perfeita articulação entre as suas peças.

 

Götze: entrar e marcar 

 

Mais: a Alemanha confirmou ontem ter um banco de suplentes de luxo. Schürrle e Götze entraram - o primeiro aos 31', por lesão de Kramer, e o segundo à beira do prolongamento, rendendo Klose - para desatarem o aparente nó cego em que se transformara o empate a zero e cumpriram da melhor maneira a missão. Foi dos pés deles que saiu o belíssimo lance do golo alemão que sepultou o sonho de Messi de imitar Maradona com a conquista do troféu de campeão mundial.

Iam decorridos 112’, faltavam apenas oito minutos para uma eventual ronda de grandes penalidades que nenhuma selecção pretendia. Os argentinos para não abusarem da sorte: já se haviam apurado frente à Holanda, na meia-final, com este processo. Os alemães - que pouco antes tinham visto uma bola embater no poste após cabeçada de Höwedes - para evitarem ser vítimas de uma injustiça histórica: foram, de longe, a melhor selecção do Campeonato do Mundo. Com seis vitórias e só um empate nesta fase final, 18 golos marcados (sete dos quais ao Brasil e quatro a Portugal) e apenas quatro sofridos.

 

 

A história deste jogo que de algum modo reeditou a vitória espanhola no Mundial de 2010 (1-0 na final contra a Holanda, no prolongamento, com golo de Iniesta aos 117’) poderia, no entanto, ter conhecido um desfecho bem diferente. Bastaria Higuaín, isolado logo aos 20’ perante Neuer devido a um passe à retaguarda mal medido de Kroos (talvez o único erro do excelente médio alemão cometido neste mês de competição em relvados brasileiros), não fez o que lhe competia. Tinha todo o tempo do mundo para atirar a bola à velocidade pretendida e para o melhor ângulo da baliza germânica.

Nada disso aconteceu: o remate saiu-lhe frouxo e sem pontaria. Naquele instante Neuer sagrava-se como novíssimo gigante do histórico Maracanã, palco da final. Higuaín ficava reduzido ao estatuto de pigmeu.

Mas tudo poderia ter saído ao contrário, com o argentino a elevar-se à condição de herói do Mundial-2014. O sortilégio do futebol passa por estes instantes em que se decide o destino de um jogador - a humilhação perpétua ou a glória eterna.

 

Alemanha, 1 – Argentina, 0


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13 Jul 14

Escutei já hoje o que se disse ontem à noite nas televisões portuguesas sobre o Brasil-Holanda. Num dos canais - por sinal aquele que, de longe, pior trata o futebol - todo o espaço de comentário foi utilizado para pendurar Luiz Felipe Scolari no pelourinho. Um dos intervenientes chegou ao ponto de dizer que a conquista da Taça das Confederações em 2013, já com Scolari ao leme do escrete, foi péssima para o Brasil pois travou a indispensável renovação dos canarinhos, blablablablá patati patatá.

Ainda esperei que, numa lógica simétrica, todos quantos degolaram, vergastaram e lapidaram Scolari - tornando o treinador já não só o responsável máximo mas o responsável único dos desaires de uma equipa - saíssem em elogio e louvor do seleccionador holandês, Louis van Gaal. Nada disso: nem uma palavra sobre o tema. Os treinadores, na óptica do painel deste canal, só merecem menção pela negativa, nunca pela positiva.

 

Toda a linha de raciocínio deste programa de rescaldo e análise do encontro de ontem para a obtenção do terceiro lugar no pódio do Mundial decorreu em obediência à lógica do demérito brasileiro, sem invocação expressa (e mais que justificada) do mérito holandês.

Como se fosse por acaso que a Holanda se despediu do Mundial sem uma derrota.

Como se fosse por acaso que os holandeses tivessem renovado em grande parte a sua selecção, eliminada no Euro-2012 ainda na fase de grupos.

Como se fosse por acaso que Robben se sagrou o maior valor individual deste torneio, correndo em cada jogo como se fosse o último (e no Brasil-Holanda sofreu uma grande penalidade cometida por Fernandinho à qual o árbitro fez vista grossa, talvez para poupar a turma anfitriã a uma segunda goleada consecutiva).

 

Os erros grosseiros cometidos pelos brasileiros em campo foram igualmente escamoteados por estes comentadores.

Nem uma palavra sobre a falta cometida por Thiago Silva sobre Robben logo aos dois minutos (e que o árbitro, amiguinho, sancionou apenas com cartão amarelo quando devia ter exibido o vermelho).

Nem uma palavra sobre o absurdo alívio de David Luiz aos 17' que funcionou como assistência ao segundo golo holandês.

Nem uma palavra sobre as exibições apagadíssimas de Jo e Willian, os "reforços" que os críticos de Scolari mais vinham reclamando para o onze titular.

 

Toda a análise foi feita à luz da putativa obrigação do Brasil em sagrar-se vencedor.

Como se houvesse triunfadores antecipados em futebol.

Como se a Holanda não existisse.

O escrete comandado por Scolari sai do Mundial no quarto lugar. Como saiu em 1974, no Campeonato do Mundo que se seguiu à brilhante conquista do troféu Jules Rimet no México, ainda com vários jogadores titulares da conquista desse tricampeonato. E em melhor posição do que conseguiu a tão elogiada selecção de 1982, eliminada antes das meias-finais mesmo com o brilhantismo de Sócrates, Falcão e Zito.

 

Falar assim de futebol, sem critério nem memória, é demasiado fácil. Os cafés portugueses estão cheios de comentadores deste género: qualquer mediano olheiro televisivo pode recrutá-los lá.


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12 Jul 14

Confirma-se: este será para os brasileiros um Campeonato do Mundo ainda mais traumático do que o de 1950, quando o escrete foi vice-campeão perdendo na final com o Uruguai. Um desfecho muito mais aceitável, apesar de tudo, do que esta hecatombe à beira do fim do segundo Mundial em que os brasileiros participaram na qualidade de anfitriões. Derrotados frente à poderosa Alemanha na terça-feira, novamente derrotados esta noite perante uma Holanda que foi superior do primeiro ao último minuto do desafio. Segundo desaire consecutivo do Brasil: dez golos sofridos, apenas um marcado.

Os comentadores da RTP procuraram desde o início desvalorizar esta partida transmitida em directo pelo canal público, o que não faz o menor sentido. Ainda hoje todos celebramos o lugar de Portugal no pódio naquele saudoso Mundial de 1966. Além disso, estes desafios costumam ser mais emocionantes e ter mais golos do que muitas finais. Foi assim há quatro anos, por exemplo.

Perder, nem a feijões. E para o Brasil este desafio era mais importante do que a simples disputa do terceiro lugar no Campeonato do Mundo: era também a derradeira oportunidade de levantar a cabeça. A honra da selecção comandada por Scolari estava em jogo.

 

O seleccionador brasileiro fez seis mudanças no onze titular. Regressou o capitão Thiago Silva, que estivera afastado do encontro anterior por acumulação de cartões. Maxwell, Maicon, Ramires, Willian e Jo entraram de início. No banco sentaram-se Dante, Marcelo, Fernandinho, Bernard, Hulk e Fred. Neymar, lesionado, continuou de fora.

Não valeu de nada alterar a frente atacante, como reclamavam algumas das vozes mais críticas de Scolari: mesmo recauchutada, a linha ofensiva foi de uma inacreditável inoperância enquanto a defesa voltava a passar por inúmeros calafrios. O primeiro, logo aos dois minutos, resultou no primeiro golo holandês quando Thiago Silva derrubou Robben num momento em que o rapidíssimo número 11 só tinha Júlio César pela frente. Ficou a ideia de que o lance ocorreu ainda fora da área, mas o capitão brasileiro devia ter sido expulso. O árbitro argelino limitou-se a mostrar-lhe o cartão amarelo.

Van Persie converteu a grande penalidade. E aos 17' a Holanda marcava o segundo, apontado por Blind após jogada que teve início nos pés de Robben (que esteve nos três golos da sua equipa e voltou a ser o melhor em campo, confirmando-se como uma das grandes figuras deste Mundial).

Por momentos, instalou-se no estádio de Brasília o espectro de uma nova goleada. Até porque o segundo golo resultou de mais um clamoroso erro defensivo cometido por David Luiz, reeditando a lamentável exibição frente à Alemanha.

 

 Robben, uma das grandes figuras deste Mundial

 

Ficou evidente que a derrota anterior não resultou de um infortúnio de ocasião. Pelo contrário, deriva de graves problemas estruturais desta selecção brasileira, que voltou a exibir-se de forma desorganizada, assentando o seu jogo em inócuos pontapés para a frente e abrindo imenso espaço entre as linhas, logo aproveitado pela Holanda para exibir a sua enorme superioridade táctica.

Cada vez que os holandeses atacavam faziam-no de forma eficaz e organizada. O Brasil, pelo contrário, era um caos em campo com vários dos seus jogadores nucleares - novamente com destaque para David Luiz - a jogar fora das posições que lhes estavam confiadas. Um caos apenas contrariado pelo esforçado desempenho de Óscar, única cabeça lúcida no meio daquela anarquia. Merecia - ele sim - ao menos repetir o golo de honra que registou frente aos alemães. Mas convém assinalar: o primeiro remate com algum perigo para a baliza holandesa, apontado por Ramires, ocorreu quando já havia decorrido uma hora de jogo.

O escrete sai de cena sem honra nem glória: foi a selecção que sofreu mais golos. E nem sequer teve a dignidade de saber perder: toda a equipa recolheu ao balneário, recusando participar na entrega do prémio aos holandeses pelo terceiro lugar. Um gesto muito feio.

 

A Holanda - que já havia eliminado o Brasil na meia-final do Campeonato do Mundo de 2010 - sai de cabeça erguida deste Mundial, sem ter sofrido qualquer derrota. Balanço muito positivo: cinco vitórias e dois empates (tendo sido afastada pela Argentina por grandes penalidades), na sequência do brilhante apuramento, em que conseguiu nove triunfos em dez jogos, marcando 34 golos. Robben sai do Brasil como uma das figuras do torneio. E desta vez nem precisou do contributo de Sneijder, que assistiu à partida no banco por se ter lesionado enquanto fazia exercícios de aquecimento, momentos antes de entrar em campo.

Fez hoje um mês que o Mundial começou. E vai terminar amanhã, com a final entre Alemanha e Argentina. Por mim, só lamento que a Holanda não esteja lá. Merecia, sem qualquer dúvida.

 

Brasil, 0 - Holanda, 3


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Aquela mórbida idolatria promovida à volta de Cristiano Ronaldo no mês que precedeu o Mundial de Futebol, que ironicamente coincidiu a campanha publicitária da sua parceria com a D. Inércia do Banco Espirito Santo, definitivamente não era um bom prenúncio. Para mais, além de ser um excepcionalmente dotado atleta que não se poupa ao empenho nos seus objectivos, acontece que o melhor futebolista do mundo tem o ego de um adolescente, e aquela inebriante mistificação tinha tudo para se tornar numa parábola sobre o triste fado dos portugueses. Pensar ser possível que um jogador sozinho mude o carisma de uma equipa de futebol mediana para vencedora, é por si uma ingenuidade infantil característica dos latinos em geral e dos portugueses em particular. Repare-se como é um exercício bem mais difícil fulanizar a selecção alemã através de uma só individualidade, tendo em consideração a alta preparação física, abundante qualidade técnica e inteligência táctica que fazem dela uma equipa absolutamente excepcional. Repara-se na ironia, ou enganador desliquilibrio, que reflectem os media ao personificarem o duelo da final de amanhã nas figuras de Müller e… Messi. (...)
Seja qual for o resultado do Mundial que termina amanhã no Brasil, podemos ter já a certeza de que os louros duma vitória jamais dependeriam de um Neymar, um Ronaldo, ou um Messi (qua amanhã vai estar devidamente vigiado), por mais que a natureza humana reclame por ídolos. Não tenho a mais pequena dúvida de como a influência de um só indivíduo, uno e irrepetível, pode sempre fazer muita diferença, para o bem e para o mal, numa comunidade e na História de um povo. Mas a esta certeza junto a de que, quando uma comunidade tem depositada sobre um só indivíduo excessivas expectativas, o mais das vezes isso significa a sua demissão do papel que cabe a cada um na transformação dessa realidade, e é o reflexo de uma profunda infantilidade civilizacional, que faz prever os mais desastrosos resultados.

 

Texto adaptado, aqui em versão completa.


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O Pormenor
Cristina Torrão

Deslocar-se ao balneário para felicitar os jogadores da seleção nacional, depois de uma vitória, é um gesto bonito da parte de um chefe de Estado. Quando o chefe de Estado é uma mulher, esse gesto adquire um charme especial, mesmo em se tratando de uma mulher sem poder de atração, como é o caso da chanceler Angela Merkel. Nesta fotografia, porém, ela apresenta-se com uma leveza e uma simpatia incomuns. Mas não é essa a razão principal para eu gostar da imagem. Também não é por causa do monte de homens bem-parecidos, de corpos musculados e toalha pelo pescoço. O melhor da fotografia, o pormenor que me encanta, é o continente africano tatuado no braço esquerdo de Boateng.

 

 

(Clicar aqui para ver melhor a tatuagem, na imagem aumentada).


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Não é nada fácil compararmos jogadores de épocas diferentes. Porque as mudanças registadas em cada década no futebol - do plano da organização táctica das equipas à preparação física, passando pelo acompanhamento clínico - é totalmente diferente. Mesmo assim, continuamos a assistir às incessantes comparações entre Eusébio e Cristiano Ronaldo com vista à designação do melhor futebolista português de todos os tempos. Com muitas opiniões favoráveis ao antigo goleador do Benfica, infelizmente já falecido. Sobretudo pela sua brilhante prestação no Campeonato do Mundo de 1966, em que Portugal surpreendeu tudo e todos com a conquista do terceiro lugar.

Não consigo acompanhar estas teses.

Eusébio conseguiu uma única proeza a nível de selecção. Essa mesmo, em 1966. De resto, com ele no activo, a selecção nacional falhou o apuramento para os Mundiais de 1962, 1970 e 1974. E falhou as presenças em todas as fases finais de europeus (1964, 1968, 1972). 
Além disso Eusébio jogou na selecção praticamente com a equipa do Benfica: as rotinas estavam mais que firmadas, os automatismos estavam mais que estabelecidos. Nada a ver com os tempos actuais, em que a selecção é uma manta de retalhos, com jogadores das mais diversas proveniências, alguns dos quais nem chegaram a jogar em Portugal.
Cristiano Ronaldo participou em três Mundiais - chegando num deles, em 2006, às meias-finais, tal como Eusébio, mas com mais equipas em competição na fase final. E actuou em três Europeus: num deles (2004) fomos à final, noutro (2006) atingimos as meias-finais.
Não há comparação possível. Com Eusébio, a regra era falharmos o apuramento. Com Ronaldo, a regra é conseguirmos o apuramento.
Agora queixamo-nos - e com razão - de termos caído na fase de grupos (após termos perdido contra a Alemanha, com apenas dez jogadores). Aos Mundiais de 1930, 1934, 1938, 1950, 1954, 1958, 1962, 1970, 1974, 1978, 1982, 1990, 1994 e 1998 nem lá chegámos. Antes de Cristiano Ronaldo.
Depois de Ronaldo, não falhámos um.


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11 Jul 14
A ordem das coisas
Bernardo Pires de Lima

Este mundial veio confirmar aquilo que eu já suspeitava há muito tempo: gosto muito mais do Sporting do que de futebol. 


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10 Jul 14
Uma questão de nervos?
Cristina Torrão

No futebol, quase nada é previsível, as surpresas são constantes, tornando, muitas vezes, o impossível possível. Mesmo assim, arrisco-me a prever uma seleção argentina barricada na sua defesa para a final deste Mundial. Será essa a estratégia, «não arriscar» a palavra de ordem, principalmente numa Argentina que ainda não mostrou futebol ofensivo. E principalmente depois da derrota histórica dos brasileiros. Como diz o Pedro Correia, ao referir-se ao jogo monótono entre a Argentina e a Holanda: tanto argentinos como holandeses ficaram a tal ponto apavorados com os erros tácticos cometidos pelos brasileiros na meia-final frente à Alemanha que procuraram evitá-los a todo o custo, não arriscando um milímetro em soluções de ataque.

Na final, o pavor dos sul-americanos será ainda maior. E também me parece que se poderá prever que a Alemanha atacará desde o primeiro minuto. Os germânicos estão cheios de confiança e tentarão concretizar a exigência bem conhecida de Joachim Löw para todos os jogos da sua seleção: o primeiro golo tem de acontecer na primeira meia hora de jogo, de preferência, nos primeiros vinte minutos!

Esta prerrogativa tem, porém, um ponto fraco. E é esse que os argentinos deviam explorar (na verdade, a sua única hipótese de virarem o jogo a seu favor): não conseguindo cumprir a imposição de Löw, os jogadores alemães ficam nervosos, mais suscetíveis de cometerem erros, por vezes mesmo desorientados.

As goleadas alemãs começaram sempre cedo. No jogo contra Portugal, o primeiro golo aconteceu ao minuto 12 e contra o Brasil, o mesmo Thomas Müller marcou aos 11’. Comparemos com o que aconteceu nos jogos em que a Alemanha fraquejou: frente ao Gana, um empate a duas bolas, o primeiro golo veio só na segunda parte (aos 51’); o mesmo aconteceu com os EUA, surgindo o único golo da partida aos 55’; com a Argélia, jogo equilibrado que os germânicos venceram por 2:1, os golos surgiram apenas no prolongamento. A exceção verificou-se frente à seleção francesa, em que os alemães marcaram no minuto 13, mas não foram além do 1:0.

Barricando-se na sua defesa e aguentando os críticos primeiros 15 minutos e, depois, a primeira meia hora, os argentinos têm boas hipóteses de enervarem os alemães. Quando notassem, porém, os primeiros sinais de desgaste, teriam de pôr em prática um futebol ofensivo, procurando o golo, não apostando no prolongamento ou, ainda pior, nos penáltis. Porque, para o fim, verificando que o adversário está no limite das suas forças, os germânicos ganham novo alento.


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Enzo Pérez teria lugar nesta equipa com (jogando no meio ao lado de Mascherano) ou sem Di María (jogando como ontem).

 

E a Argentina é muito melhor com ele em campo. Ontem, foi-o e na final também será, independentemente do que venha a acontecer.

 

O sonho continua.


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El capitán
Francisco Melo

Não havendo mais Portugal no Mundial, não poderia desejar melhor final. Alemanha e Argentina são duas selecções de que sempre gostei, e fico contente pela possibilidade de qualquer uma delas poder voltar a levantar mais um "caneco" de uma colecção que já mora nos respectivos museus.

No entanto, confesso que no próximo domingo irei torcer mais um pouco pela Argentina. Por um lado, pelo especial gozo que é ver os argentinos conquistarem a "Copa" em pleno solo brasileiro. Por outro lado, porque reside no 11 da selecção das pampas um jogador titular do Sporting, e entre a gabarolice de ter 7 jogadores no Mundial e a gabarolice de ter um jogador campeão do mundo, prefiro a segunda.

Marcos Rojo. El capitano.

Quando no último Benfica x Sporting, para a taça de Portugal, as equipas se preparavam para começar o prolongamento, os jogadores, treinadores e dirigentes do Sporting fizeram uma roda à volta, bem abraçados uns aos outros, para um último grito de "força". Nesse momento, o nosso presidente via-se aflito para conseguir arranjar espaço para si dentro daquela roda. Apesar das tentativas, parecia que ninguém reparava nele, tal era a atenção com que escutavam alguém que falava com voz de comando. Seria Leonardo Jardim, o mister, a dar uma última táctica? Não. Seria Rui Patricío, o capitão da equipa, a incentivar os colegas? Também não. A pessoa sobre a qual todos os olhares e ouvidos se dirigiam era, nem mais, nem menos, do que Marcos Rojo. Com uma afirmação própria dos líderes de equipa, Rojo falava e esbracejava com “ganas”, com todos à sua volta a escutarem atentamente e a assimilarem o que ia dizendo.

Essa imagem de Rojo impressionou-me. São de momentos assim que se galvanizam equipas. E se me recordar da forma entusiasta com que Rojo festeja os golos que marca pelo Sporting (quem é que não se lembra da felicidade com que Rojo festejou o primeiro golo que marcou pelo Sporting?), a par da forma dura, compenetrada e decisiva como aborda os lances, eis que estão reunidos os condimentos para que Rojo se torne num verdadeiro capitão de equipa ou, como também se diz em futebolês, num “patrão”.

Depois de os sportinguistas não terem inicialmente (2012/2013) dado muito por Rojo, para mais tarde virem a engolir as suas próprias palavras, eis que também agora muitos argentinos se redimem publicamente do modo depreciativo como falavam do seu lateral-esquerdo. A vida tem destas ironias, e é sempre interessante quando um jogador tem uma transfiguração destas, quer no seu próprio futebol, quer junto dos adeptos.

Marcos Rojo ainda não é um central do naipe de um Hummels ou de um Thiago Silva. No entanto, se há algo que o torna num indiscutível para Sabella, como o era antes para Leonardo Jardim, é o prazer com que veste a camisola e se bate por ela até ao último suor. É essa marca de guerreiro que faz hoje de Rojo um jogador importante para o colectivo, e com que tantos adeptos se identifiquem com ele.

Está a ser um ano em cheio para Marcos Rojo, e a sua carreira promete. Infelizmente, as notícias que saiem diariamente nos jornais apontam para que Rojo vá prosseguir a sua carreira por outras paragens. Mas, se por alguma eventualidade, Marcos Rojo acabar por permanecer em Alvalade, fica a sugestão: subida ao grupo de capitães. O patrão da defesa a mostrar como é que se faz. 


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O outro Brasil
Luciano Amaral

A Holanda ganhou nos últimos 40 anos a justificada fama de produzir um tipo de futebol que se conta entre os melhores do mundo. A fama refere-se, no entanto, a um jogo feito de habilidade, passe, posse, ratice... Não por acaso, já alguém a designou como "o Brasil da Europa". Este ano, porém, pela mão de um dos seus melhores treinadores, decidiu aparecer com uma coisa que parecia saída dos anos 90: trocas de bola entre os defesas, à espera de avanços da outra equipa que dessem para fazer uns contra-ataques. A Espanha foi a única a cair na ratoeira. Ninguém mais o fez. Resultado: ver a Holanda neste Mundial foi uma chatice pegada, culminando no Lexotan em forma de jogo de futebol (alô Luís Freitas Lobo) que foi a meia-final de ontem. Os holandeses, tal como os brasileiros, também são uns traumatizados: três finais, três campeonatos perdidos, dois dos quais quando jogavam o melhor futebol do Mundial. Deve-lhes ter passado pela cabeça, como aos brasileiros, que era assim que ganhavam, renegando o que sempre fizeram. Não ganharam. É bem feito.


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«Dá-me vontade de dar o segundo lugar ao Brasil e despromover estas duas equipas [Argentina e Holanda] para baixo da Colômbia e Chile. Nem os jogos da Grécia foram tão chatos.»

João André, neste meu texto


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Prometia ser um confronto entre Messi e Robben, uma espécie de tira-teimas para avaliar quem esteve melhor no Campeonato do Mundo - se o holandês com três golos, uma assistência e um recorde pessoal de jogador mais veloz (com o registo de 31,6km/hora), se o argentino com quatro golos e duas assistências.

Não foi nada disso, afinal. Acabámos de ver no Arena Corinthians, em São Paulo, um dos desafios mais monótonos e entediantes do Campeonato do Mundo. Quase a fazer lembrar aquela final aferrolhada e medrosa entre alemães e argentinos do Mundial de 1990 em que ambos abdicaram por completo de qualquer vestígio do futebol de ataque - a pior de que há memória entre os adeptos do desporto-rei.

Basta dizer que ao longo de toda a partida desta noite, incluindo a meia hora de prolongamento regulamentar após o empate a zero aos 90 minutos, houve apenas cinco remates à baliza contrária feitos pela Argentina e só três concretizados pela Holanda. E nenhum deles, em boa verdade, levando verdadeiramente um indiscutível sinal de perigo.

 

Supremacia das defesas sobre os ataques neste Argentina-Holanda em que o jogador mais em foco acabou por ser Mascherano, defesa sul-americano? Sim. Mas mais que isso: foi um autêntico anti-clímax após o desafio de ontem, constituindo de algum modo a sua antítese. Por outras palavras: tanto argentinos como holandeses ficaram a tal ponto apavorados com os erros tácticos cometidos pelos brasileiros na meia-final frente à Alemanha que procuraram evitá-los a todo o custo, não arriscando um milímetro em soluções de ataque. A partida decorreu quase todo o tempo empastelada no meio-campo, com pequenas oscilações territoriais que em nada afectaram o cômputo geral. E se não fossem os penáltis finais aposto que ainda estariam naquele bocejante jogo do empurra no miolo do terreno, como se nenhuma das duas selecções quisesse verdadeiramente ganhar.

 

Recorreu-se portanto às grandes penalidades. E também aqui o seleccionador holandês, Van Gaal, se deixou de ousadias: enquanto no desafio anterior, frente à Costa Rica, fez avançar o terceiro guarda-redes do banco só para defender os penáltis (meta coroada de êxito, pois Krul travou dois, tornando-se uma das figuras do jogo), desta vez manteve em campo o titular, Cillessen, talvez para não ofender as bempensâncias do comentário ludopédico, que se haviam escandalizado com a fuga à pauta no embate do passado domingo.

Fez mal: os argentinos agradeceram. E lá irão eles à final do Campeonato do Mundo, frente aos alemães, depois de terem feito muito pouco para tanto destaque. Desta vez nem Messi, jogando em posições muito recuadas, deu um ar da sua graça.

Ocorrerá no próximo domingo a desforra argentina para vingar a derrota na final de 1990? Sinceramente, não creio. Há uma distância enorme entre esta mediana Argentina e a fulgurante Alemanha que acaba de golear o Brasil por números inéditos.

O melhor do jogo acabou por ser a evocação inicial da memória de Alfredo di Stéfano, um dos maiores génios de sempre dos relvados, falecido no fim de semana aos 88 anos. Lá no assento etéreo onde subiu, como versejou o nosso Camões, o grande campeão ficou certamente satisfeito com este resultado: há um quarto de século que a sua Argentina natal não chegava tão longe.

Como homenagem fúnebre não esteve mal.

 

Argentina, 0 - Holanda, 0 (4-2 nas grandes penalidades)


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09 Jul 14

Finalmente parece que a Holanda e a Argentina acabaram com o aquecimento.


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A terrível verdade
Antonio Figueira

Diz hoje o Guardian: "One of the striking things about this World Cup is the extent to which Brazil have gone from being everyone’s second favourite team to hardly anyone’s". É, eles são capazes do melhor e do pior, "porque é [deles] querer, poder só isto: o inteiro mar, ou a orla vã desfeita - o tudo ou o seu nada". Às vezes são brilhantes, e às vezes dá-lhes a "tremideira"; está-lhes na massa do sangue. 


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Os castelos da Baviera
José Navarro de Andrade

A melhor equipa deste mundial é incontestavelmente o Bayern de Munique. Nas meias-finais alinharam jogadores do Bayern pela Alemanha (Neuer, Boateng, Lahm, Shweinsteiger, Kroos, Müller e Klose, que já não é mas é como se fosse, e no banco ficou Götze), pelo Brasil (Dante desceu aos Infernos - trocadilho óbvio - porque habituado a vê-los de costas, apanhou com eles de frente) e pela Holanda (o escanfandrista Robben). Mas o Bayern ainda deu para fornecer as principais estrelas da França (Ribery, apesar de ausente), Suiça (Shaqiri), EUA (Julian Green), Croácia (Mandzukic).

Pode-se assim inferir que vencerá aquela equipa que apresentar o número suficiente de jogadores do Bayern para aplicar em campo o seu famoso modelo de jogo, mesmo que por cortesia com os anfitriões, se disfarce com a camisola do Flamengo. Ora esse modelo, já adivinharam os especialistas (um especialista em futebol é alguém que tem oportunidade de se enganar mais vezes que um amador) é, digamos assim, o tüken-täken. Para os leigos seja explicado que se trata de um tiki-taka com mais centímetros de altura e nutrido por uma dieta de salsichas e cerveja em vez de tapas.

Quanto à única equipa das meias-finais que não tem jogadores do Bayern, essa tal de Argentina, a questão estará em saber se Mascherano e Messi já se esqueceram do modo como jogavam há dois anos. Mas o Sabella já provou ser um grande macaco e tem-se recusado a treinar ou a dar a táctica à Argentina, para não estragar nada – talvez resulte.

Desconfio que o Bayern era capaz mesmo de ganhar à Alemanha.


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A selecção brasileira que compareceu neste Mundial não chegou a funcionar como uma verdadeira equipa. Com jogadores como Marcelo, suplente de Fábio Coentrão no Real Madrid, David Luiz, que parece jogar quase sempre fora da sua posição natural, e Fred, a ineficácia personalizada no campo ofensivo.

Como era de esperar, as principais críticas centram-se no seleccionador Luiz Felipe Scolari. O empresário de Neymar, segundo declarações transcritas pelo jornal O Globo, recorre mesmo ao insulto para o contestar, chamando-lhe "velho arrogante e asqueroso".
E no entanto - não esqueçamos - esta foi a mesma selecção que já sob o comando de Scolari, após o despedimento de Mano Menezes, venceu no ano passado a Taça das Confederações batendo na final a Espanha, então orgulhosa campeã mundial em título e bicampeã europeia, com fama e proveito no desporto-rei.
O facto é que os dois únicos jogadores que hoje fazem realmente a diferença na selecção brasileira - Thiago Silva e Neymar - estiveram ausentes da meia-final contra a Alemanha. Não há coincidências.

 

As análises que tenho ouvido e lido dão no entanto demasiada ênfase aos erros do Brasil sem atribuírem o devido destaque ao mérito alemão. Já havia sucedido o mesmo, aliás, após o jogo Alemanha-Portugal.
Convém sublinhar uma evidência, como realcei aqui, logo após a histórica meia-final de ontem: a selecção alemã beneficia, e de que maneira, das rotinas e dos automatismos propiciados pelo facto de grande parte dos seus elementos actuar diariamente em conjunto, formando a espinha dorsal do poderoso Bayern de Munique.
Também aqui não há coincidências. A selecção portuguesa de 1966, que ficou em terceiro lugar no Campeonato do Mundo, tinha por base a equipa do Benfica. A selecção comandada por Scolari que foi à final do Euro-2004 tinha por base a equipa do FC Porto. Nada a ver com a manta de retalhos do nosso onze-base deste Mundial, por exemplo. E a avaliar pelo que já se percebe da pré-época, com a aposta deliberada em jogadores estrangeiros por parte dos principais clubes portugueses, esta tendência só irá acentuar-se.

Temos de mentalizar-nos para isso desde já.


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Mal sabia eu, meia hora antes do jogo de ontem, a humilhação que se preparava. Terá sido este o trauma necessário para que o Brasil regresse sem complexos à boa bola?


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A coisa vinha a chamar a atenção desde o primeiro jogo. É certo que o resultado (3 - 1) com a Croácia é dilatado, mas houve por ali muita condescendência e apoio do senhor do apito (coisa que aliás se verificou até ao jogo de ontem, onde com um árbitro menos simpático pelo menos três amarelos e um vermelho teriam saído do bolso), e o resultado não traduz o que se passou em campo; no segundo, com o México, mais uma vez uma pobreza franciscana e uma passagem sem mérito algum; no terceiro jogo da fase de grupos, lá ganharam por 4-1 aos Camarões, mas a coisa esteve bastante tremida.

 

Ora nos oitavos levaram um banho de bola do Chile! O "nosso" Pinilla ia resolvendo a coisa mesmo no finalzinho, com uma bola ao poste e tinham ficado por ali as aspirações do Brasil; mas quis o destino que, nos penaltis, Júlio César fosse determinante; e passaram...

Nos quartos, apanhou uma Colômbia bem armada, mas algo ingénua e mais uma vez, com uma ajudinha, num jogo quezilento que levou ao afastamento de Neymar, lá venceram por 2-1, no seu melhor jogo, mas sem convencer, mais uma vez.

 

Questionado no final do jogo das meias, na CI, se algo deveria mudar no futebol brasileiro, Scolari disse com ênfase que não! Scolari já nos habituou ao seu temperamento teimoso, mas depois da desgraça como treinador de clubes, na Europa e no Brasil, e ainda na canarinha, não me parece que tenha alguma capacidade para continuar.

 

Repare-se que este "ocaso" do futebol brasileiro não é de agora. Já o ano passado o vencedor da Libertadores, o Corinthians, salvo erro, perdeu com o Raja Casablanca (3-1) na Taça do Mundo de Clubes; e, pior ainda, o Santos levou "chapa" 8 sem resposta do Barça, no jogo de apresentação em Camp Nou e a coisa ficou por aí porque, como ontem a Alemanha, o Barça "tirou o pé"...

 

Tenho que fazer por aqui um inevitável termo de comparação entre Portugal e o Brasil; ou melhor, entre P. Bento e Scolari: ambos teimam em seleccionar um grupo de (seus) amigos, em detrimento de seleccionar os melhores no momento. Os resultados de ambos estão à vista.

Há no entanto, numa selecção e noutra, alguns valores. E porque não rendem esses valores nestas selecções, se são titulares de grandes clubes europeus? Pois penso que a resposta não será difícil: tanto Scolari como Bento não acrescentaram nada às suas equipas! Antes pelo contrário. Não fora Neymar e o Brasil nem aos quartos chegava e Portugal ainda teve um arremedo de discussão da passagem da fase de grupos, porque Ronaldo, no jogo com os EUA, finalmente jogou...

Serve isto para dizer que tanto Brasil, como Portugal, que teimaram em prosseguir com a política anterior, têm forçosamente que mudar, que renovar os seus jogadores e mais que tudo, mudar métodos. De jogo, de treino, de actuação, de escolha de jogadores, de mentalidade e isto inevitavelmente só poderá ser feito com outros responsáveis, a começar pelos seleccionadores e, no caso português, até da equipa federativa!

 

Para terminar, o jogo de ontem demonstrou-nos duas evidências: o Brasil descaracterizou-se, deixou de ser a equipa de posse, passe certeiro curto e eficaz, de troca de bola e que "levava porrada de criar bicho" e passou a ser uma equipa mais quezilenta, ela própria muito faltosa e praticando um futebol directo, de passe longo, à procura da referência Neymar, à volta de quem foi construida e armada a equipa; e a Alemanha deixou de ser a equipa que deixava jogar, que via os adversários acumular posse de bola e que "só lá ia" pela certa, normalmente em contra-ataque venenoso e ganhava os jogos de forma algo cínica, até, o que levou ao são onze contra onze e no fim ganha a Alemanha, e passou a ser uma equipa de posse, de cobertura total do terreno de jogo, de excelente troca de bola e de ataque continuado, com qualidade de passe e pressão constante. Haverá por aqui alguma influência de Guardiola, já que a espinha dorsal é Bayern?

 

E logo continuo a torcer pela Holanda... a ver vamos.


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Mundial Bizarro
Cristina Torrão

Logo com a eliminação da ainda detentora do título, a Espanha, se desconfiou que este Mundial reservaria muitas surpresas. Também a Itália não sobreviveu à fase de grupos, idem para Portugal e a Inglaterra.

Depois, houve aquelas equipas que, pela sua coragem e o seu futebol descomplexado, mereciam ir mais longe, como o Chile, eliminado pelo Brasil à custa dos famigerados penáltis, e a Argélia, que, pasme-se, obrigou a Alemanha a entrar no prolongamento, perdendo por apenas 2:1.

A marcha triunfal da Alemanha tem-se dado sem buzinadelas nem caravanas de automóveis, em Stade, a cidade onde vivo. Jogos como a meia-final de ontem iniciam-se às 22:00, hora proibitiva, num país onde as pessoas se levantam entre as 05:30 e as 06:00 da manhã, para estarem nos empregos entre as sete e as sete e meia. Os únicos festejos de que me apercebi foram os dos quartos-de-final, jogados numa sexta-feira (dia 4), às 18:00 horas.

 

Que dizer depois deste 7:1 ao Brasil? Que se prevê novo descalabro para o próximo adversário da Alemanha? A Argentina tem-se ficado pelo 1:0, tanto contra a Suíça (após prolongamento), como contra a Bélgica, países que não são potências em termos futebolísticos. E também a Holanda, depois de um início promissor, só logrou passar à meia-final depois de vencer a Costa Rica a penáltis.

 

Enfim, resta-me um consolo: só levámos quatro da Alemanha! E só fomos eliminados por termos sofrido mais golos do que os EUA. Merecíamos ir à final, não?


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08 Jul 14

Nunca nenhum de nós tinha alguma vez visto um jogo assim. Muito provavelmente, nenhum de nós voltará a ver um jogo como esta meia-final. O Alemanha-Brasil disputado esta noite no estádio do Mineirão, em Belo Horizonte, mergulha o país anfitrião do Campeonato do Mundo em estado de choque. Comparada com o que hoje sucedeu, a derrota frente ao Uruguai na final do Mundial de 1950 facilmente será esquecida a partir de agora. Mas daqui a meio século, daqui a um século, este desafio ainda será lembrado. Como símbolo de humilhação do Brasil à escala planetária.

Foi a maior goleada deste Mundial. A maior goleada do Brasil registada numa meia-final de um Campeonato do Mundo. E o resultado mais desnivelado sofrido pelos brasileiros em quase cem anos. Números impressionantes que perseguirão como um estigma o seleccionador Luiz Felipe Scolari e os jogadores que acabam de sucumbir frente aos germânicos, infinitamente superiores na arte, na técnica, na táctica e na estratégia desta modalidade desportiva que apaixona o mundo e a que damos o nome de futebol.

Este foi o pior Brasil de sempre.

 

Como sucedeu tal descalabro? A que se deve o naufrágio brasileiro?

Desde logo, como já sublinhei, à inapelável superioridade da Alemanha. Muito bem organizados, os comandados por Joachim Löw, que vinham acumulando resultados positivos (quatro vitórias, uma das quais contra Portugal, e apenas um empate, com dez golos marcados e só três sofridos), apresentaram-se no Brasil com uma verdadeira máquina de jogar futebol, aproveitando o essencial do trabalho desenvolvido pelos profissionais do Bayern de Munique: Manuel Neuer, Boateng, Lahm, Schweinsteiger, Toni Kroos e Thomas Müller. Com Khedira, Özil e Schurrle também em excelente plano. No domingo, marcarão presença na oitava final da Alemanha em campeonatos do mundo.

E merecem.

 

 Foto David Gray/Reuters

 

Começou por ser um jogo histórico aos 23', quando Miroslav Klose marcou o 2-0. Batia-se mais um recorde num Campeonato do Mundo - o de Ronaldo, que conseguira 15 golos em fases finais do Mundial. Klose superou-o, apontando o golo nº 16 em 23 desafios disputados em cinco fases finais, desde o campeonato de 1998.

Nos cinco minutos seguintes, houve mais três golos alemães. À meia hora, perdendo por 5-0, era já evidente que o Brasil seria afastado do Mundial com uma derrota de dimensão inédita. Devido à incomparável superioridade do adversário, é certo, mas também a colossais erros próprios. Porque repetiu contra a Alemanha a estratégia inicial de pressão alta desenvolvida contra a Colômbia mas já sem o efeito surpresa. Porque se mostrou disposto a arrumar o jogo nos primeiros minutos sem medir as consequências dessa aposta temerária que desguarnecia o centro do terreno, estimulando o contra-ataque germânico. Porque permitiu defesas em funções de médios ou até como inesperados candidatos a avançados, como Marcelo e David Luiz, continuamente fora de posição, incapazes de recuperar o processo defensivo quando o Brasil perdia a bola. Foram-se abrindo autênticas auto-estradas no meio-campo brasileiro que a Alemanha, única equipa de cabeça fria, aproveitou da melhor maneira nas costas da defesa adversária.

 

Quando os (des)comandados de Scolari caíram em si estavam já mergulhados num pesadelo: a defesa ruiu por completo, começando pelo impotente Dante, com a mobilidade de uma estátua, e por um desvairado David Luiz, sempre ausente em parte incerta. A frágil organização de jogo eclipsou-se por completo. Jogadores como Fred e Hulk pareciam implorar para saírem dali. O descalabro psicológico contribuiu para afundar ainda mais o escrete, com prestações medíocres de quase todos. Na segunda parte Paulinho e Bernard ainda tentaram remar contra a maré, mas não era possível.

Sofreram sete golos. Podiam ter levado mais dois: Thomas Müller só não marcou aos 60' devido a uma magistral defesa de Júlio César e Özil, isolado aos 89', enviou a bola a um metro do poste.

Desporto colectivo, o futebol vive muito de valores individuais. Que por vezes podem fazer toda a diferença. Esta selecção de remendos, sem Neymar (ausente por lesão) nem Thiago Silva (ausente por castigo), parecia um Brasil de outro campeonato. E foi mesmo.

 

Nunca mais esqueceremos esta hecatombe: ficará para sempre gravada na memória de todos nós, do lado de lá e do lado de cá do Atlântico.

 

Alemanha, 7 - Brasil, 1


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Ao intervalo, Brasil 0 vs. Alemanha 5


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Aproximam-se as meias-finais de um Mundial de futebol que colocou quatro das melhores equipas nesta fase (quase) final. Alemanha, Argentina, Brasil e Holanda vão digladiar-se entre hoje e amanhã para discutirem os dois lugares no Maracana. Um par de jogos que se prevêem muito emotivos e de resultado claramente incerto.

Neste Mundial não tive preferência por qualquer selecção (nem a portuguesa!!!) e nem agora penso nisso. Quem ganhar que o faça apenas com mérito e sem casos.

Curiosamente estas meias-finais resultaram em embates entre selecções europeias contra sul-americanas. Dois estilos de futebol assaz diferente, mas deveras atractivo.

O Brasil apresenta-se hoje sem Neymar nem Thiago Silva, mas nem mesmo estas condicionantes serão suficientes para retirar à equipa da casa algum favoritismo. Só que a Alemanha parece ser uma selecção imune aos estad(i)os de espírito. O treinador alemão conhece bem os seus recursos e sabe com o que pode contar. Disciplinada e assertiva, a selecção germânica tem jogadores com qualidade suficiente para num segundo resolverem qualquer partida.

Amanhã teremos então na outra meia-final duas equipas com percursos bem semelhantes, pois ambas ganharam todos os jogos dos seus respectivos grupos. No entanto a Holanda pareceu bem melhor tanto a nível futebolístico como a nível físico. A Argentina, por sua vez, tarda em convencer os adeptos do futebol da sua qualidade e não fosse Lionel Messi, provavelmente a equipa das Pampas já estaria de férias. E das duas uma: ou a Holanda ressente-se da última jornada com prolongamento e penalidades e a Argentina tem hipótese (mesmo sem Di Maria) de seguir em frente ou muito provavelmente os alvi-celestes vão discutir o terceiro e quarto lugares.

Seja como for perspectivam-se dois jogos de alta qualidade e com emoção a rodos.

Para mim só espero e desejo que o maior vencedor seja o apenas e só… o futebol!

 

 

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Brazil I used to know
Luciano Amaral

O Brasil adquiriu o estatuto de selecção do mundo nos anos 60: toda a gente queria que o Brasil ganhasse porque toda a gente adorava ver o Brasil jogar. Diz quem viu (não é, infeliz ou felizmente, o meu caso) em 1958 e 1962 que nunca se tinha visto nada assim: as imagens da selecção de 1970, apesar de nem sempre serem de boa qualidade, deixam perceber o que se terá passado nos doze anos anteriores.

 

Nos anos 70, os europeus aprenderam a lidar com os brasileiros, sobretudo graças ao "futebol total" holandês (vale a pena ver aqui o bailinho de habilidade holandês ao Brasil de 1974, que antecipava já os de agora, com um misto de futebol e râguebi: https://www.youtube.com/watch?v=ZTs2iwMqVMg). Nos anos 80, os brasileiros reapareceram com um futebol lindo (que eu tive o privilégio de ver), que se imaginava ir escavacar tudo como antes o de Garrincha, Pelé, Jairzinho, Tostão, Rivelino, etc. E no entanto, nunca conseguiram chegar sequer a uma meia-final (tanto em 1982 como em 1986). Foi um trauma de que nunca mais se libertaram. Desde então, o futebol brasileiro é invariavelmente horrível, com gradações: desde o muito horrível (1994) até ao moderadamente horrível (2002). Mas sempre bastante eficiente.

 

O Brasil tem toda a legitimidade para jogar feio, porco e mau. Quem somos nós para pedir que façam outra coisa, se esta até tem resultado? O que já não percebo é a sistemática bajulação do futebol do Brasil por tudo o que é fã incauto e jornalista. Não percebo o desejo parolo de que o Brasil ganhe. Isto é muito simples, meus amigos: o Brasil já não joga "bonito" vai quase para 30 anos. Já está na altura de perder o tal estatuto de selecção do mundo que toda a gente adora. Agora é simplesmente a selecção do Brasil, que joga feio, ganha e acabou.

 

O choradinho por estes dias é o Neymar. Foi uma falta incrível do jogador da Colômbia. Mas o Brasil fez a cama em que se deitou: antes de chegar essa falta, o meio-campo e a defesa do Brasil andaram a distribuir porrada por tudo o que era jogador da Colômbia (o mesmo já tinha acontecido, aliás, com o Chile, mas o Chile joga doutra maneira) com a geral complacência do árbitro. Se o árbitro os tivesse parado mais cedo, não só o jogo seria bem diferente como talvez ainda tivessem o Neymar.

 

Enfim, foi um desabafo enquanto faço horas para começar o Brasil-Alemanha. Não consigo torcer pelo Brasil, não consigo torcer pela Alemanha. Preferia que o outro jogo fosse a final.


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06 Jul 14
Minimal
José Navarro de Andrade
Claro que tendemos a evocar a classe do artístico quando no futebol a destreza se compara à de um bailarino ou de um funâmbulo, quando a habilidade é complexa e tremendista. Mas num Mundial que nos tem oferecido uma compilação das melhores defesas ao alcance da elasticidade e dos reflexos humanos, graças ao supino e inspirado lote de guarda-redes que o acaso das gerações juntou, talvez o suprassumo, o verdadeiramente difícil, seja – tal como nas artes – o contrário do virtuosismo.

Um braço como uma viga, apenas um braço, erguido no instante preciso, medido ao centésimo de segundo, um braço a prolongar um corpo que toda uma vida ensinou a posicionar no ângulo certo, foi o suficiente para Manuel Neuer deflectir um torpedo de Benzema. Se fosse pintura seria um desenho de Agnes Martin, se fosse música seria uma peça de Philip Glass, mas foi apenas a melhor defesa deste Mundial – e não faltaria por onde escolher.


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Tudo está bem quando acaba bem.

A Holanda foi muito superior à Costa Rica no desafio dos quartos-de-final disputado em Salvador. Merecia passar à fase seguinte, o que aconteceu - embora só com recurso aos pontapés de grande penalidade pois o empate a zero persistiu após mais de 120 minutos de jogo.

A Costa Rica, que chegou a jogar em 5-4-1, estacionando um autocarro à frente da baliza brilhantemente defendida por Keylor Navas, também tem motivos para estar satisfeita: regressa a casa sabendo que chegou mais longe do que em qualquer outra fase final de um Campeonato do Mundo e revelou ao planeta futebol um punhado de jogadores de grande talento: Christian Bolaños, Bryan Ruiz, Gamboa, Celso Borges, Giancarlo González, Tejeda (que impediu um golo holandês desviando a bola na linha de baliza), Umaña (que ia marcando um golo já no prolongamento) e Júnior Díaz (que devia ter sido expulso por jogo violento), além do guardião Navas, que joga no modesto Levante e poderá ser um reforço do FCP.

O melhor deste desafio, que decorreu morno e entediante durante mais de uma hora, aconteceu quando se aproximava do fim: nessa altura os holandeses decidiram enfim aplicar a sua melhor arma, que é a velocidade. As corridas estonteantes de Robben pela ala direita iam partindo os rins à linha recuada costarriquenha (ou seja, à equipa quase inteira) e as bolas paradas que partiam dos pés de Sneijder levavam sempre o selo de perigo (duas delas foram travadas pelos postes).

Quando se percebeu que o apuramento só seria resolvido com a marcação de penáltis, o seleccionador holandês, Van Gaal, tomou uma decisão que fez os puristas da bola abrir a boca de espanto: mandou sair o guarda-redes titular, Cillessen, fazendo entrar o suplente Krul só para defender as penalidades. Um aposta de alto risco que se revelou certeira: Krul defendeu os remates de Bryan Ruiz e Umaña, o que bastou para qualificar a Holanda.

Na meia-final de quarta-feira os holandeses terão de defrontar uma selecção argentina que se desgastou muito menos na eliminatória que lhe coube. Em futebol de alta competição, sobretudo quando é disputado sob a temperatura a que tem decorrido este Mundial do Brasil, estes pormenores contam muito. Messi e companheiros têm motivos para sorrir.

 

Costa Rica, 0 - Holanda, 0 (3-4 nas grandes penalidades)


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