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És a nossa Fé!

Os cábulas adoram copiar

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 Um efusivo cumprimento entre Eusébio e Salazar (1966)

 

Eusébio da Silva Ferreira jogou de verde e branco em Moçambique, na filial n.º 6 do Sporting Clube de Portugal. Vinha em Dezembro de 1960 para Alvalade quando foi "desviado" para a Luz, com o beneplácito do regime salazarista-benfiquista, o que originou um prolongado corte de relações entre os dois clubes, só terminado em Maio de 1974.

Esta é uma das piores facetas reveladas pelos dirigentes do Benfica ao longo dos tempos. Incapazes de formar talentos com a qualidade dos nossos, há vinte anos sem fornecerem um só titular à selecção nacional de futebol, cobiçam os jogadores leoninos e tudo fazem para os desviar de rumo. Como o caso Eusébio bem demonstrou. E como a "pesca à linha" do Djaló peruano, no último defeso, viria lamentavelmente a confirmar, aliás sem qualquer proveito para eles.

 

Além disto, não têm qualquer pudor em copiar-nos.

Eis alguns exemplos, que confirmam isto:

- O Sporting Clube de Portugal foi fundado a 1 de Julho de 1906. O Sport Lisboa e Benfica só foi fundado a 13 de Setembro de 1908.

- A Juventude Leonina, claque mais emblemática do Sporting, foi fundada em 1976. A primeira claque encarnada, os Diabos Vermelhos, só apareceu em 1982.

- O Sporting tem futsal desde 1985. O Benfica só tem futsal desde 2001.

- A Academia Sporting foi fundada a 21 de Junho de 2002. A Academia do Benfica só foi fundada a 22 de Setembro de 2006.

- O Núcleo Sportinguista da Assembleia da República existe desde Maio de 2015. O equivalente a este núcleo no Benfica apenas surgiu em Abril de 2016.

 

É uma atitude própria dos cábulas, que adoram copiar.

Grandeza

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 Eusébio orgulhosamente vestido de verde e branco, na temporada 1958/59

 

A grandeza do nosso Sporting mede-se de várias formas, como ontem especifiquei aqui.

Os exemplos que indiquei estão longe de ser exaustivos. Porque esta grandeza mede-se também pelo facto de o único jogador do Sport Lisboa e Benfica que alguma vez alcançou reputação mundial traduzida em galardões, o saudoso Eusébio, ter sido formado não na cantera encarnada mas no Sporting de Lourenço Marques. Então filial n.º 6 do Sporting Clube de Portugal.

Comparar Ronaldo a Eusébio

                    

 

Não é nada fácil compararmos jogadores de épocas diferentes. Porque as mudanças registadas em cada década no futebol - do plano da organização táctica das equipas à preparação física, passando pelo acompanhamento clínico - é totalmente diferente. Mesmo assim, continuamos a assistir às incessantes comparações entre Eusébio e Cristiano Ronaldo com vista à designação do melhor futebolista português de todos os tempos. Com muitas opiniões favoráveis ao antigo goleador do Benfica, infelizmente já falecido. Sobretudo pela sua brilhante prestação no Campeonato do Mundo de 1966, em que Portugal surpreendeu tudo e todos com a conquista do terceiro lugar.

Não consigo acompanhar estas teses.

Eusébio conseguiu uma única proeza a nível de selecção. Essa mesmo, em 1966. De resto, com ele no activo, a selecção nacional falhou o apuramento para os Mundiais de 1962, 1970 e 1974. E falhou as presenças em todas as fases finais de europeus (1964, 1968, 1972). 
Além disso Eusébio jogou na selecção praticamente com a equipa do Benfica: as rotinas estavam mais que firmadas, os automatismos estavam mais que estabelecidos. Nada a ver com os tempos actuais, em que a selecção é uma manta de retalhos, com jogadores das mais diversas proveniências, alguns dos quais nem chegaram a jogar em Portugal.
Cristiano Ronaldo participou em três Mundiais - chegando num deles, em 2006, às meias-finais, tal como Eusébio, mas com mais equipas em competição na fase final. E actuou em três Europeus: num deles (2004) fomos à final, noutro (2006) atingimos as meias-finais.
Não há comparação possível. Com Eusébio, a regra era falharmos o apuramento. Com Ronaldo, a regra é conseguirmos o apuramento. 
Em 2014 queixámo-nos - e com razão - de termos caído na fase de grupos (após termos perdido contra a Alemanha, com apenas dez jogadores). Aos Mundiais de 1930, 1934, 1938, 1950, 1954, 1958, 1962, 1970, 1974, 1978, 1982, 1990, 1994 e 1998 nem lá chegámos. Antes de Cristiano Ronaldo.
Depois de Ronaldo, não falhámos um.

 

Texto reeditado

Quem não se sente...

Durante anos, comemos e calámos. Esse tempo acabou.

 

Vejo por aí algumas santas almas muito abespinhadas pelo facto de a direcção leonina ter decidido interromper o relacionamento institucional com o Benfica. Estranhamente para mim, algumas dessas almas são do Sporting. É o caso do advogado Carlos Barbosa da Cruz, que ontem se indignava na sua habitual coluna do Record contra o "isolacionismo sistemático prosseguido pela a[c]tual gestão do Sporting", que no seu entender não contribui para a "defesa adequada dos interesses do clube". Pressupondo-se, pela mesma lógica, que os interesses leoninos ficariam mais bem preservados com permuta de galhardetes e croquetes com o clube dirigido por Luís Filipe Vieira.

Barbosa da Cruz parece desconhecer um velho adágio popular muito português: quem não se sente não é filho de boa gente. Nos últimos dias o Sporting foi repetida e continuamente desconsiderado pelo velho rival, de forma inaceitável.

Repito alguns factos: uma faixa exibida durante todo o jogo de futsal Benfica-Sporting em louvor ao assassínio do sportinguista Rui Mendes, vitimado por um very light em 1996; engenhos incendiários atirados pela claque encarnada para a nossa bancada superior norte no final do Sporting-Benfica, domingo à noite; ausência dos indispensáveis pedidos de desculpas por parte da direcção benfiquista; provocação suplementar do director de comunicação dos encarnados, chamando "folclore" aos legítimos protestos do Sporting.

 

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 Bruno de Carvalho nas cerimónias fúnebres de Eusébio (Janeiro de 2014)

 

Durante anos, comemos e calámos. Esse tempo acabou, por mais que isso indigne um assumido benfiquista como o director-adjunto d' A Bola, José Manuel Delgado, que hoje - em sintonia com Barbosa da Cruz - escreve no seu jornal que "a decisão do Sporting de cortar relações com o Benfica não faz sentido".

Quanto mais alguns dizem e escrevem que isto não faz sentido, mais eu penso que faz. Por isso apoio esta decisão de Bruno de Carvalho. Tal como há um ano o aplaudi aqui quando encabeçou a delegação do Sporting que compareceu às cerimónias fúnebres de Eusébio da Silva Ferreira, que foi não só um símbolo do Benfica mas uma grande figura do futebol português. Confesso não me recordar o que na altura José Manuel Delgado e Carlos Barbosa da Cruz escreveram sobre o assunto.

 

Eusébio, jogador júnior de verde e branco em Lourenço Marques (Junho de 1958)

 

E a propósito de Eusébio: talvez muitos sportinguistas ignorem que por causa dele o Sporting - então presidido por Guilherme Brás Medeiros - cortou relações com o Benfica em 1960, situação que permaneceu inalterável até 1974, quando João Rocha entendeu restabelecê-las na sequência da Revolução dos Cravos.

O motivo para aquele corte? O Benfica desrespeitou um acordo de cavalheiros existente à época entre os dois clubes que obrigava cada um a não contratar jogadores às filiais do outro. Um pacto que os da Luz mandaram às malvas quando desviaram Eusébio do Sporting de Lourenço Marques para o Benfica, comprovando-se assim que nenhum acordo de cavalheiros é possível quando o cavalheirismo prima pela ausência.

Perdemos Eusébio, que nos teria dado muito jeito vestido de verde e branco, tal como antes dera ao Sporting de Lourenço Marques, onde o futuro King se sagrou campeão moçambicano com as nossas cores.

Mas não perdemos a dignidade. E recordo o adágio: quem não se sente...

 

Qual o balanço desportivo, em termos futebolisticos, desses 14 anos em que permanecemos de relações cortadas? Uma Taça das Taças (1964), quatro campeonatos nacionais (1962, 1966, 1970, 1974) e quatro taças de Portugal (1963, 1971, 1973, 1974).

Nove títulos, portanto. Não me parece nada mal. Imaginem se conseguíssemos algo semelhante nos anos mais próximos.

Visto de Maputo

 

Tenho estado por estes dias em Maputo, Moçambique, onde o derby do próximo domingo já mexe. Não há conversa de salão, taberna ou balcão onde não se fale de dois temas em matéria de futebol: o jogo da Luz e o regresso de Nani. Sim, o regresso de Nani. Por aqui o luso-cabo-verdiano é considerado uma estrela maior e não se dão ouvidos aos comentadores de bancada que o arrasaram e nos apoucaram só porque o camisola 77 falhou um penalty no seu regresso a Alvalade. Aqui o Nani é craque, dão-lhe muito valor e miúdos e graúdos não falam de outra coisa quando o tema é o futebol português.

 

Ilustro esta pequena nota de Maputo com uma fotografia de 1960 do Sporting de Lourenço Marques, onde alinhava na altura um jovem chamado Eusébio. Lembrei-me disto porque ontem, ao regressar de Marracuene, onde participei numa feira de atividades económicas, deparei-me com uma conversa típica de portugueses fora de casa. Os meus companheiros de viagem estavam todos divertidos a tentar convencer o nosso motorista, de seu nome Eusébio, a mudar do "outro clube" para o Sporting, em troca de uma camisola oficial verde e branca. Tentado, o jovem acabou por ceder e parece que, mesmo sendo maior e vacinado, vai mudar de clube. Nem que seja por uns dias, enquanto a comitiva cá está. A "estória" vale o que vale e não é sequer motivo para falar muito mais do passado. Só serve para termos a noção de que aqui, como em todo o lado, somos tão grandes ou maiores do que o "outro clube". Não precisamos de conquistar os fracos de espírito, precisamos de vitórias e de ter sempre em mente este lema: "Esforço, Devoção e Glória, eis o Sporting Clube de Portugal".

Comparar Ronaldo a Eusébio

                   

 

Não é nada fácil compararmos jogadores de épocas diferentes. Porque as mudanças registadas em cada década no futebol - do plano da organização táctica das equipas à preparação física, passando pelo acompanhamento clínico - é totalmente diferente. Mesmo assim, continuamos a assistir às incessantes comparações entre Eusébio e Cristiano Ronaldo com vista à designação do melhor futebolista português de todos os tempos. Com muitas opiniões favoráveis ao antigo goleador do Benfica, infelizmente já falecido. Sobretudo pela sua brilhante prestação no Campeonato do Mundo de 1966, em que Portugal surpreendeu tudo e todos com a conquista do terceiro lugar.

Não consigo acompanhar estas teses.

Eusébio conseguiu uma única proeza a nível de selecção. Essa mesmo, em 1966. De resto, com ele no activo, a selecção nacional falhou o apuramento para os Mundiais de 1962, 1970 e 1974. E falhou as presenças em todas as fases finais de europeus (1964, 1968, 1972). 
Além disso Eusébio jogou na selecção praticamente com a equipa do Benfica: as rotinas estavam mais que firmadas, os automatismos estavam mais que estabelecidos. Nada a ver com os tempos actuais, em que a selecção é uma manta de retalhos, com jogadores das mais diversas proveniências, alguns dos quais nem chegaram a jogar em Portugal.
Cristiano Ronaldo participou em três Mundiais - chegando num deles, em 2006, às meias-finais, tal como Eusébio, mas com mais equipas em competição na fase final. E actuou em três Europeus: num deles (2004) fomos à final, noutro (2006) atingimos as meias-finais.
Não há comparação possível. Com Eusébio, a regra era falharmos o apuramento. Com Ronaldo, a regra é conseguirmos o apuramento.
Agora queixamo-nos - e com razão - de termos caído na fase de grupos (após termos perdido contra a Alemanha, com apenas dez jogadores). Aos Mundiais de 1930, 1934, 1938, 1950, 1954, 1958, 1962, 1970, 1974, 1978, 1982, 1990, 1994 e 1998 nem lá chegámos. Antes de Cristiano Ronaldo.
Depois de Ronaldo, não falhámos um.

Uma pátria de poetas (a minha pátria é a língua portuguesa)

Muito se tem falado e escrito sobre o momento Bocage de Bruno de Carvalho (BC), contudo, ao esmiuçarmos a questão, constatamos que já outros, antes dele, elaboraram acerca do futebol e poesia.

Manuel Alegre, sobre Eusébio:

Buscava o golo mais que golo: só palavra.

Abstracção. Ponto no espaço. Teorema.

Despido do supérfluo rematava

e então não era golo: era poema

Lá está, Cristiano Ronaldo (põe-te bom, pá) e Pauleta podem ser os maiores marcadores de golos da selecção mas Eusébio continuará a ser o maior marcador de poemas.

Já falei no momento Bocage de BC mas ainda não falei no momento Gabriel, o Pensador, de Jorge Nuno Pinto da Costa, o silêncio, a ausência de comentário, Nádegas a declarar, portanto. 

Enfim, melhor seria, pensarmos antes de falarmos, seguirmos o conselho de Romário a Pelé:

Calado é um poeta ou adaptando a frase a grande parte dos protagonistas do futebol indígena; calados seriam uns poetas

Opinião de um benfiquista

 

«Na exaltação exponenciada da genialidade de Eusébio (tratou-se, de facto, de um talento invulgar, quase único, no futebol de todos os tempos), foi apagado o que é inapagável em futebol: o contexto de equipa que tornou possível os sucessos de Eusébio e das suas equipas (Benfica e Selecção) que pouco variavam de composição. Mais, esse apagamento dos companheiros de Eusébio representa uma profunda injustiça de memória para com outros futebolistas excepcionais (José Augusto, Coluna, Santana, talvez outros mais) e que também foram determinantes para atingir as vitórias com Eusébio e garantiram sustentar essas mesmas vitórias.»

João Tunes, O efeito perverso no culto a Eusébio

Cristiano de Ouro - O Rei sucede ao Rei!

Se dúvidas houvesse aí está o prémio mais que merecido para Cristiano Ronaldo,

 

E até eu, que nunca fui grande apreciador dele, ergo a minha taça em sua honra.

 

Parabéns Cristiano!

 

Só que no dia 31 de Outubro do ano passado escrevia aqui um texto em que previa, desde logo, a conquista do troféu de melhor jogador do mundo pelo atleta madeirense.

 

Não, não me considero vidente, mas a postura profundamente patética a que Joseph Blatter se sujeitou publicamente só estragou aqueles que votariam em Lionel Messi transferindo para CR7 as suas escolhas, já que Frank Ribéry sempre me pareceu o elo mais fraco dos três, sem prejuízo dos troféus conquistados pelo Bayern de Munique.

 

Eis um Cristiano coroado uma vez mais Rei do Futebol, precisamente uma semana após o funeral do Rei Eusébio.

 

Também pode ler-se aqui

O que faltou na Luz

O Benfica ficou naturalmente feliz com a vitória sobre o FC Porto, por 2-0, que lhe valeu a liderança provisória do campeonato. E dedicou este triunfo a Eusébio. Mas a melhor homenagem ao falecido goleador que se distinguiu ao serviço do clube da Luz e da selecção nacional ficou por fazer.

Eusébio pertence a um tempo em que o SLB, por imposição dos seus estatutos, só alinhava com jogadores portugueses - e assim pôde tornar-se um viveiro de talentos nacionais.

Mas o Benfica entrou ontem em campo só com jogadores de origem estrangeira, invertendo a tradição que o 'Pantera Negra' tão bem soube honrar.  Redimiu-se desta falha apenas aos 86 minutos de jogo, quando Jorge Jesus fez entrar Ruben Amorim em campo. Era já demasiado tarde para dar à homenagem a Eusébio o verdadeiro alcance que merecia.

TVI24: isto é serviço público

 

 Eusébio travado em falta na jogada mais emocionante do Portugal-Coreia do Norte: ainda não hava cartões vermelhos

 

É o mais célebre jogo de sempre da selecção nacional de futebol -- aquele de que todos falavam mas poucos tinham visto. Até agora. Porque a TVI24, numa verdadeira missão de serviço público, lembrou-se em boa hora de o transmitir na íntegra a pretexto da morte de Eusébio, marcador de quatro dos cinco golos portugueses dessa partida.

Aconteceu na quarta-feira e apesar das imagens serem a preto e branco -- o Portugal-Coreia do Norte realizou-se a 23 de Julho de 1966 -- a emissão resultou num enorme sucesso: o canal de notícias da TVI no cabo obteve o maior número de sempre de espectadores, com 4,8% de audiência média e uma quota de audiência de 9,8%. Quase meio milhão de pessoas acompanhou o desafio no serão de anteontem.

 

Eu fui uma dessas pessoas. E tenho de felicitar a TVI24 pela proeza. Desde logo porque não se limitou a transmitir o mítico jogo dos quartos de final do Campeonato do Mundo de 1966, considerado o melhor desse certame. Teve também a excelente ideia de reunir em estúdio três jogadores dessa selecção, dois dos quais participaram no jogo: o benfiquista José Augusto e os sportinguistas Hilário e José Carlos. Com Fernando Correia -- que já relatava jogos de futebol há 48 anos -- encarregado de recriar um pouco do ambiente daquela época, em que os portugueses acompanhavam os jogos de futebol sobretudo através de relatos radiofónicos pois eram raras as partidas transmitidas pela televisão.

 

Hilário e José Augusto nunca tinham visto na íntegra as imagens daquele desafio em que foram dois dos mais destacados participantes. E portanto os seus comentários ao longo do jogo tornaram-se noutro espectáculo dentro do espectáculo da emissão, muito bem conduzida pelo jornalista Joaquim Sousa Martins.

 

A visão integral do jogo permitiu desfazer alguns mitos, que passarei a enumerar:

- Naquele desafio, por bandas de Portugal, jogaram "Eusébio mais dez". Não é verdade: Eusébio foi excelente, mas vários outros jogadores destacaram-se. Desde logo Simões, incansável no corredor esquerdo. E José Augusto. E Jaime Graça. Sem esquecer Hilário: nenhum dos três golos norte-coreanos ocorreu no lado esquerdo da nossa defesa, onde ele era um baluarte;

- Aquela selecção quase só tinha jogadores do Benfica. Falso. Do Benfica, neste jogo, eram cinco: Eusébio, Coluna, José Augusto, Torres e Simões. Havia três do Sporting (João Morais, Hilário e Alexandre Baptista), dois do Belenenses (José Pereira e Vicente Lucas) e um do Vitória de Setúbal (Jaime Graça);

- Os coreanos dominaram, pelo menos na primeira parte. As imagens não mostram nada disso. Excepto no quarto de hora inicial, quando a pressão ofensiva da equipa adversária foi mais notória, Portugal dominou sempre a partida. Sem nunca se desviar da rota do golo.

- Naquele tempo jogava-se um futebol muito mais lento. Pelo contrário, este jogo desenrolou-se a uma velocidade estonteante, do primeiro ao último minuto. Sem tempos mortos, mesmo quando havia interrupções por faltas. Sem manobras ardilosas dos jogadores para retardarem o tempo de jogo. E numa espécie de antecipação do "futebol total", com frequentes incursões dos avançados em manobras defensivas. Futebol-espectáculo por excelência.

 

Os 11 que jogaram contra a Coreia do Norte em 1966: Alexandre Baptista, Jaime Graça, Hilário, Vicente, Morais, José Pereira (em cima), José Augusto, Torres, Eusébio, Coluna e Simões (em baixo)

 

Por uma questão de idade, nunca tinha visto este jogo. Mesmo muitos portugueses que já eram adolescentes ou adultos naquela época não chegaram a assistir ao Portugal-Coreia do Norte porque os televisores não tinham nessa época a difusão que hoje têm.

Está de parabéns a TVI por ter concretizado esta missão de serviço público. Que devia envergonhar a RTP, detentora de um canal Memória que é capaz de passar na íntegra o jogo Cascalheira de Cima-Alguidares de Baixo de há vinte e três anos mas nunca voltou a difundir o Portugal-Coreia do Norte, cujas imagens certamente a televisão do Estado possui em arquivo.

Fica agora um pedido extra aos responsáveis da TVI24: e que tal difundirem agora o Portugal-Brasil, também do Mundial de 1966? Será novo sucesso garantido, tenho a certeza.

 

Também aqui

Sócrates, Eusébio e o F.C.Porto

E vocês perguntam-me: o que está ali em cima a fazer o F.C. Porto? Então o Eusébio não jogava no Benfica? E o José Sócrates não contou a história dos golos do Eusébio num jogo da seleção contra a Coreia do Norte? E este não é um blogue sportinguista? É verdade. Mas a história do José Sócrates do dia 23 de julho de 1966 tem tantos pontos de contacto com a minha do dia 27 de maio de 1987, que não resisto a compará-las.

 

Ora vejam:

- Sócrates ia para a escola primária – não admira, tinha nove anos de idade.

- Eu vinha da faculdade – enfim, tinha vinte e um anos.

- Sócrates ouviu o relato do jogo, na Covilhã.

- Eu fui vendo imagens do jogo, pois havia televisores ligados em todas as montras de estabelecimentos de eletrodomésticos, à volta dos quais se juntavam pequenas multidões. Ah, já me esquecia, estamos na cidade do Porto.

- Em 1966, Portugal deu a volta a um resultado desfavorável de 3:0.

- Em 1987, o F. C. Porto deu a volta a um desfavorável 1:0 contra o Bayern de Munique.

 

Resta dizer que, no regresso a casa, depois daquele dia de aulas, apercebi-me de que o F. C. Porto perdia por 1:0. Quando cheguei a casa, o jogo estava a acabar. Depois de despir o casaco, sentei-me na sala, em frente à televisão ligada e… o F.C. Porto marcou dois golos de rajada! Seguiram-se telefonemas, amigos a dizer-me que, naquela noite, ninguém dormia, que toda a gente ia festejar. E eu, apesar de ser sportinguista dos quatro costados, fui mesmo festejar aquela vitória portuguesa na final da Taça dos Campeões. Querem melhor fair-play?

 

Dizem que a história do Sócrates é mentira, porque se passou num sábado à tarde. Mas um ex-colega já veio dizer que ele falou a verdade e só a verdade.

 

Eu não tenho ninguém que venha em meu favor. Mas garanto-vos que a minha história é verdadeira, embora já não me lembre em que dia da semana foi. Jogos desses, porém, costumavam ser à quarta-feira. E é bom que este tenha sido, pois, na faculdade, nunca tive aulas ao sábado.

 

Também aqui

Na morte de Eusébio

 

Respeito sinceramente a dor e o luto benfiquistas na hora da morte de Eusébio. Mais: Eusébio foi além disso sem dúvida um símbolo nacional, pelo que fez pela seleção. Conforme bem disse o vice-primeiro ministro, Eusébio foi "um dos dois grandes ídolos populares portugueses do séc. XX". Por isso compreendo perfeitamente a comoção nacional, as horas de diretos que lhe são dedicadas, e concordo com o luto nacional. Impressionam-me as manifestações populares em Portugal e no estrangeiro, no Estádio da Luz, em Old Trafford ou no Santiago Bernabeu, as reações de jogadores e treinadores por todo o mundo.
Sei que, no seu tempo, o Eusébio foi uma unanimidade nacional. Mas eu não sou desse tempo - nunca o vi jogar. Nunca senti as alegrias que sei que ele deu aos meus pais e avós (todos sportinguistas) a jogar pela seleção nacional (e que a mim me deram o Chalana e o Rui Costa). Sei que ele foi mais do que isso, mas o Eusébio que eu conheci e de que me vou recordar sempre foi um fenómeno clubístico. Mais do que do Benfica, um clube que eu respeito, o Eusébio foi do clube de pessoas que não gostam do meu clube. Pior: que não o respeitam. Foi nessa categoria que eu o conheci e a que ele, por sua livre vontade, pertenceu. Ora alguém que pertença a essa categoria pode merecer muito respeito (por outras razões), mas nunca poderá ser uma unanimidade nacional. Neste aspeto Eusébio parece-me comparável a José Saramago. Em ambos os casos há que distinguir o "gostar-se" de cada um deles do serem ou não bons. Eu compreendo que haja pessoas que não gostem do José Saramago, mas acho um erro grave que, por isso, essas pessoas digam que o único Nobel da Literatura português, reconhecido mundialmente, não era um grande escritor. Eu não vou cair nesse erro com o Eusébio: mais do que, indiscutivelmente, o melhor jogador português da sua geração, foi um grande jogador que faz parte da História do futebol. Sim: qualquer História do futebol estará incompleta se não referir o Eusébio, que eu evidentemente reconheço como um grande jogador. Agora, desculpem lá mas eu não gostava dele.

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