Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

És a nossa Fé!

Viva Dunga

 

O Brasil de Scolari caiu nas meias-finais do Campeonato do Mundo de 2014.

Sai Scolari, treinador campeão em 2002, e entra Dunga, ex-seleccionador. Sob o seu comando, o Brasil caiu nos quartos-de-final do Campeonato do Mundo de 2010.

Quem dizia "abaixo Scolari" diz agora "viva Dunga".

Não podia haver indício mais auspicioso para a "renovação" da selecção brasileira...

Tudo como dantes

Depois de um sofrível apuramento para o Mundial, de uma convocatória onde a amiguismocracia prevaleceu sobre a meritocracia, e de uma fase de grupos sofrível, concluída com a eliminação da prova, Paulo Bento continua à frente da Selecção Nacional de futebol.

Depois dos 10-1 do Mundial, de praticar um futebol muito longe do melhor que se pratica na Europa e ao arrepio da opinião brasileira especializada, o Brasil vai agora ser treinado por Dunga, o seleccionador do Mundial de 2010, onde a canarinha foi eliminada nos quartos-de-final de uma prova em que primou por um futebol...mal jogado.

Portugal e Brasil têm os resultados internacionais que merecem, é o que apetece dizer.

A ver o Mundial (30)

Escutei já hoje o que se disse ontem à noite nas televisões portuguesas sobre o Brasil-Holanda. Num dos canais - por sinal aquele que, de longe, pior trata o futebol - todo o espaço de comentário foi utilizado para pendurar Luiz Felipe Scolari no pelourinho. Um dos intervenientes chegou ao ponto de dizer que a conquista da Taça das Confederações em 2013, já com Scolari ao leme do escrete, foi péssima para o Brasil pois travou a indispensável renovação dos canarinhos, blablablablá patati patatá.

Ainda esperei que, numa lógica simétrica, todos quantos degolaram, vergastaram e lapidaram Scolari - tornando o treinador já não só o responsável máximo mas o responsável único dos desaires de uma equipa - saíssem em elogio e louvor do seleccionador holandês, Louis van Gaal. Nada disso: nem uma palavra sobre o tema. Os treinadores, na óptica do painel deste canal, só merecem menção pela negativa, nunca pela positiva.

 

Toda a linha de raciocínio deste programa de rescaldo e análise do encontro de ontem para a obtenção do terceiro lugar no pódio do Mundial decorreu em obediência à lógica do demérito brasileiro, sem invocação expressa (e mais que justificada) do mérito holandês.

Como se fosse por acaso que a Holanda se despediu do Mundial sem uma derrota.

Como se fosse por acaso que os holandeses tivessem renovado em grande parte a sua selecção, eliminada no Euro-2012 ainda na fase de grupos.

Como se fosse por acaso que Robben se sagrou o maior valor individual deste torneio, correndo em cada jogo como se fosse o último (e no Brasil-Holanda sofreu uma grande penalidade cometida por Fernandinho à qual o árbitro fez vista grossa, talvez para poupar a turma anfitriã a uma segunda goleada consecutiva).

 

Os erros grosseiros cometidos pelos brasileiros em campo foram igualmente escamoteados por estes comentadores.

Nem uma palavra sobre a falta cometida por Thiago Silva sobre Robben logo aos dois minutos (e que o árbitro, amiguinho, sancionou apenas com cartão amarelo quando devia ter exibido o vermelho).

Nem uma palavra sobre o absurdo alívio de David Luiz aos 17' que funcionou como assistência ao segundo golo holandês.

Nem uma palavra sobre as exibições apagadíssimas de Jo e Willian, os "reforços" que os críticos de Scolari mais vinham reclamando para o onze titular.

 

Toda a análise foi feita à luz da putativa obrigação do Brasil em sagrar-se vencedor.

Como se houvesse triunfadores antecipados em futebol.

Como se a Holanda não existisse.

O escrete comandado por Scolari sai do Mundial no quarto lugar. Como saiu em 1974, no Campeonato do Mundo que se seguiu à brilhante conquista do troféu Jules Rimet no México, ainda com vários jogadores titulares da conquista desse tricampeonato. E em melhor posição do que conseguiu a tão elogiada selecção de 1982, eliminada antes das meias-finais mesmo com o brilhantismo de Sócrates, Falcão e Zito.

 

Falar assim de futebol, sem critério nem memória, é demasiado fácil. Os cafés portugueses estão cheios de comentadores deste género: qualquer mediano olheiro televisivo pode recrutá-los lá.

A ver o Mundial (29)

Confirma-se: este será para os brasileiros um Campeonato do Mundo ainda mais traumático do que o de 1950, quando o escrete foi vice-campeão perdendo na final com o Uruguai. Um desfecho muito mais aceitável, apesar de tudo, do que esta hecatombe à beira do fim do segundo Mundial em que os brasileiros participaram na qualidade de anfitriões. Derrotados frente à poderosa Alemanha na terça-feira, novamente derrotados esta noite perante uma Holanda que foi superior do primeiro ao último minuto do desafio. Segundo desaire consecutivo do Brasil: dez golos sofridos, apenas um marcado.

Os comentadores da RTP procuraram desde o início desvalorizar esta partida transmitida em directo pelo canal público, o que não faz o menor sentido. Ainda hoje todos celebramos o lugar de Portugal no pódio naquele saudoso Mundial de 1966. Além disso, estes desafios costumam ser mais emocionantes e ter mais golos do que muitas finais. Foi assim há quatro anos, por exemplo.

Perder, nem a feijões. E para o Brasil este desafio era mais importante do que a simples disputa do terceiro lugar no Campeonato do Mundo: era também a derradeira oportunidade de levantar a cabeça. A honra da selecção comandada por Scolari estava em jogo.

 

O seleccionador brasileiro fez seis mudanças no onze titular. Regressou o capitão Thiago Silva, que estivera afastado do encontro anterior por acumulação de cartões. Maxwell, Maicon, Ramires, Willian e Jo entraram de início. No banco sentaram-se Dante, Marcelo, Fernandinho, Bernard, Hulk e Fred. Neymar, lesionado, continuou de fora.

Não valeu de nada alterar a frente atacante, como reclamavam algumas das vozes mais críticas de Scolari: mesmo recauchutada, a linha ofensiva foi de uma inacreditável inoperância enquanto a defesa voltava a passar por inúmeros calafrios. O primeiro, logo aos dois minutos, resultou no primeiro golo holandês quando Thiago Silva derrubou Robben num momento em que o rapidíssimo número 11 só tinha Júlio César pela frente. Ficou a ideia de que o lance ocorreu ainda fora da área, mas o capitão brasileiro devia ter sido expulso. O árbitro argelino limitou-se a mostrar-lhe o cartão amarelo.

Van Persie converteu a grande penalidade. E aos 17' a Holanda marcava o segundo, apontado por Blind após jogada que teve início nos pés de Robben (que esteve nos três golos da sua equipa e voltou a ser o melhor em campo, confirmando-se como uma das grandes figuras deste Mundial).

Por momentos, instalou-se no estádio de Brasília o espectro de uma nova goleada. Até porque o segundo golo resultou de mais um clamoroso erro defensivo cometido por David Luiz, reeditando a lamentável exibição frente à Alemanha.

 

 Robben, uma das grandes figuras deste Mundial

 

Ficou evidente que a derrota anterior não resultou de um infortúnio de ocasião. Pelo contrário, deriva de graves problemas estruturais desta selecção brasileira, que voltou a exibir-se de forma desorganizada, assentando o seu jogo em inócuos pontapés para a frente e abrindo imenso espaço entre as linhas, logo aproveitado pela Holanda para exibir a sua enorme superioridade táctica.

Cada vez que os holandeses atacavam faziam-no de forma eficaz e organizada. O Brasil, pelo contrário, era um caos em campo com vários dos seus jogadores nucleares - novamente com destaque para David Luiz - a jogar fora das posições que lhes estavam confiadas. Um caos apenas contrariado pelo esforçado desempenho de Óscar, única cabeça lúcida no meio daquela anarquia. Merecia - ele sim - ao menos repetir o golo de honra que registou frente aos alemães. Mas convém assinalar: o primeiro remate com algum perigo para a baliza holandesa, apontado por Ramires, ocorreu quando já havia decorrido uma hora de jogo.

O escrete sai de cena sem honra nem glória: foi a selecção que sofreu mais golos. E nem sequer teve a dignidade de saber perder: toda a equipa recolheu ao balneário, recusando participar na entrega do prémio aos holandeses pelo terceiro lugar. Um gesto muito feio.

 

A Holanda - que já havia eliminado o Brasil na meia-final do Campeonato do Mundo de 2010 - sai de cabeça erguida deste Mundial, sem ter sofrido qualquer derrota. Balanço muito positivo: cinco vitórias e dois empates (tendo sido afastada pela Argentina por grandes penalidades), na sequência do brilhante apuramento, em que conseguiu nove triunfos em dez jogos, marcando 34 golos. Robben sai do Brasil como uma das figuras do torneio. E desta vez nem precisou do contributo de Sneijder, que assistiu à partida no banco por se ter lesionado enquanto fazia exercícios de aquecimento, momentos antes de entrar em campo.

Fez hoje um mês que o Mundial começou. E vai terminar amanhã, com a final entre Alemanha e Argentina. Por mim, só lamento que a Holanda não esteja lá. Merecia, sem qualquer dúvida.

 

Brasil, 0 - Holanda, 3

A terrível verdade

Diz hoje o Guardian: "One of the striking things about this World Cup is the extent to which Brazil have gone from being everyone’s second favourite team to hardly anyone’s". É, eles são capazes do melhor e do pior, "porque é [deles] querer, poder só isto: o inteiro mar, ou a orla vã desfeita - o tudo ou o seu nada". Às vezes são brilhantes, e às vezes dá-lhes a "tremideira"; está-lhes na massa do sangue. 

A ver o Mundial (27)

A selecção brasileira que compareceu neste Mundial não chegou a funcionar como uma verdadeira equipa. Com jogadores como Marcelo, suplente de Fábio Coentrão no Real Madrid, David Luiz, que parece jogar quase sempre fora da sua posição natural, e Fred, a ineficácia personalizada no campo ofensivo.

Como era de esperar, as principais críticas centram-se no seleccionador Luiz Felipe Scolari. O empresário de Neymar, segundo declarações transcritas pelo jornal O Globo, recorre mesmo ao insulto para o contestar, chamando-lhe "velho arrogante e asqueroso".
E no entanto - não esqueçamos - esta foi a mesma selecção que já sob o comando de Scolari, após o despedimento de Mano Menezes, venceu no ano passado a Taça das Confederações batendo na final a Espanha, então orgulhosa campeã mundial em título e bicampeã europeia, com fama e proveito no desporto-rei.
O facto é que os dois únicos jogadores que hoje fazem realmente a diferença na selecção brasileira - Thiago Silva e Neymar - estiveram ausentes da meia-final contra a Alemanha. Não há coincidências.

 

As análises que tenho ouvido e lido dão no entanto demasiada ênfase aos erros do Brasil sem atribuírem o devido destaque ao mérito alemão. Já havia sucedido o mesmo, aliás, após o jogo Alemanha-Portugal.
Convém sublinhar uma evidência, como realcei aqui, logo após a histórica meia-final de ontem: a selecção alemã beneficia, e de que maneira, das rotinas e dos automatismos propiciados pelo facto de grande parte dos seus elementos actuar diariamente em conjunto, formando a espinha dorsal do poderoso Bayern de Munique.
Também aqui não há coincidências. A selecção portuguesa de 1966, que ficou em terceiro lugar no Campeonato do Mundo, tinha por base a equipa do Benfica. A selecção comandada por Scolari que foi à final do Euro-2004 tinha por base a equipa do FC Porto. Nada a ver com a manta de retalhos do nosso onze-base deste Mundial, por exemplo. E a avaliar pelo que já se percebe da pré-época, com a aposta deliberada em jogadores estrangeiros por parte dos principais clubes portugueses, esta tendência só irá acentuar-se.

Temos de mentalizar-nos para isso desde já.

Crónica de uma derrota anunciada

A coisa vinha a chamar a atenção desde o primeiro jogo. É certo que o resultado (3 - 1) com a Croácia é dilatado, mas houve por ali muita condescendência e apoio do senhor do apito (coisa que aliás se verificou até ao jogo de ontem, onde com um árbitro menos simpático pelo menos três amarelos e um vermelho teriam saído do bolso), e o resultado não traduz o que se passou em campo; no segundo, com o México, mais uma vez uma pobreza franciscana e uma passagem sem mérito algum; no terceiro jogo da fase de grupos, lá ganharam por 4-1 aos Camarões, mas a coisa esteve bastante tremida.

 

Ora nos oitavos levaram um banho de bola do Chile! O "nosso" Pinilla ia resolvendo a coisa mesmo no finalzinho, com uma bola ao poste e tinham ficado por ali as aspirações do Brasil; mas quis o destino que, nos penaltis, Júlio César fosse determinante; e passaram...

Nos quartos, apanhou uma Colômbia bem armada, mas algo ingénua e mais uma vez, com uma ajudinha, num jogo quezilento que levou ao afastamento de Neymar, lá venceram por 2-1, no seu melhor jogo, mas sem convencer, mais uma vez.

 

Questionado no final do jogo das meias, na CI, se algo deveria mudar no futebol brasileiro, Scolari disse com ênfase que não! Scolari já nos habituou ao seu temperamento teimoso, mas depois da desgraça como treinador de clubes, na Europa e no Brasil, e ainda na canarinha, não me parece que tenha alguma capacidade para continuar.

 

Repare-se que este "ocaso" do futebol brasileiro não é de agora. Já o ano passado o vencedor da Libertadores, o Corinthians, salvo erro, perdeu com o Raja Casablanca (3-1) na Taça do Mundo de Clubes; e, pior ainda, o Santos levou "chapa" 8 sem resposta do Barça, no jogo de apresentação em Camp Nou e a coisa ficou por aí porque, como ontem a Alemanha, o Barça "tirou o pé"...

 

Tenho que fazer por aqui um inevitável termo de comparação entre Portugal e o Brasil; ou melhor, entre P. Bento e Scolari: ambos teimam em seleccionar um grupo de (seus) amigos, em detrimento de seleccionar os melhores no momento. Os resultados de ambos estão à vista.

Há no entanto, numa selecção e noutra, alguns valores. E porque não rendem esses valores nestas selecções, se são titulares de grandes clubes europeus? Pois penso que a resposta não será difícil: tanto Scolari como Bento não acrescentaram nada às suas equipas! Antes pelo contrário. Não fora Neymar e o Brasil nem aos quartos chegava e Portugal ainda teve um arremedo de discussão da passagem da fase de grupos, porque Ronaldo, no jogo com os EUA, finalmente jogou...

Serve isto para dizer que tanto Brasil, como Portugal, que teimaram em prosseguir com a política anterior, têm forçosamente que mudar, que renovar os seus jogadores e mais que tudo, mudar métodos. De jogo, de treino, de actuação, de escolha de jogadores, de mentalidade e isto inevitavelmente só poderá ser feito com outros responsáveis, a começar pelos seleccionadores e, no caso português, até da equipa federativa!

 

Para terminar, o jogo de ontem demonstrou-nos duas evidências: o Brasil descaracterizou-se, deixou de ser a equipa de posse, passe certeiro curto e eficaz, de troca de bola e que "levava porrada de criar bicho" e passou a ser uma equipa mais quezilenta, ela própria muito faltosa e praticando um futebol directo, de passe longo, à procura da referência Neymar, à volta de quem foi construida e armada a equipa; e a Alemanha deixou de ser a equipa que deixava jogar, que via os adversários acumular posse de bola e que "só lá ia" pela certa, normalmente em contra-ataque venenoso e ganhava os jogos de forma algo cínica, até, o que levou ao são onze contra onze e no fim ganha a Alemanha, e passou a ser uma equipa de posse, de cobertura total do terreno de jogo, de excelente troca de bola e de ataque continuado, com qualidade de passe e pressão constante. Haverá por aqui alguma influência de Guardiola, já que a espinha dorsal é Bayern?

 

E logo continuo a torcer pela Holanda... a ver vamos.

Mundial Bizarro

Logo com a eliminação da ainda detentora do título, a Espanha, se desconfiou que este Mundial reservaria muitas surpresas. Também a Itália não sobreviveu à fase de grupos, idem para Portugal e a Inglaterra.

Depois, houve aquelas equipas que, pela sua coragem e o seu futebol descomplexado, mereciam ir mais longe, como o Chile, eliminado pelo Brasil à custa dos famigerados penáltis, e a Argélia, que, pasme-se, obrigou a Alemanha a entrar no prolongamento, perdendo por apenas 2:1.

A marcha triunfal da Alemanha tem-se dado sem buzinadelas nem caravanas de automóveis, em Stade, a cidade onde vivo. Jogos como a meia-final de ontem iniciam-se às 22:00, hora proibitiva, num país onde as pessoas se levantam entre as 05:30 e as 06:00 da manhã, para estarem nos empregos entre as sete e as sete e meia. Os únicos festejos de que me apercebi foram os dos quartos-de-final, jogados numa sexta-feira (dia 4), às 18:00 horas.

 

Que dizer depois deste 7:1 ao Brasil? Que se prevê novo descalabro para o próximo adversário da Alemanha? A Argentina tem-se ficado pelo 1:0, tanto contra a Suíça (após prolongamento), como contra a Bélgica, países que não são potências em termos futebolísticos. E também a Holanda, depois de um início promissor, só logrou passar à meia-final depois de vencer a Costa Rica a penáltis.

 

Enfim, resta-me um consolo: só levámos quatro da Alemanha! E só fomos eliminados por termos sofrido mais golos do que os EUA. Merecíamos ir à final, não?

A ver o Mundial (26)

Nunca nenhum de nós tinha alguma vez visto um jogo assim. Muito provavelmente, nenhum de nós voltará a ver um jogo como esta meia-final. O Alemanha-Brasil disputado esta noite no estádio do Mineirão, em Belo Horizonte, mergulha o país anfitrião do Campeonato do Mundo em estado de choque. Comparada com o que hoje sucedeu, a derrota frente ao Uruguai na final do Mundial de 1950 facilmente será esquecida a partir de agora. Mas daqui a meio século, daqui a um século, este desafio ainda será lembrado. Como símbolo de humilhação do Brasil à escala planetária.

Foi a maior goleada deste Mundial. A maior goleada do Brasil registada numa meia-final de um Campeonato do Mundo. E o resultado mais desnivelado sofrido pelos brasileiros em quase cem anos. Números impressionantes que perseguirão como um estigma o seleccionador Luiz Felipe Scolari e os jogadores que acabam de sucumbir frente aos germânicos, infinitamente superiores na arte, na técnica, na táctica e na estratégia desta modalidade desportiva que apaixona o mundo e a que damos o nome de futebol.

Este foi o pior Brasil de sempre.

 

Como sucedeu tal descalabro? A que se deve o naufrágio brasileiro?

Desde logo, como já sublinhei, à inapelável superioridade da Alemanha. Muito bem organizados, os comandados por Joachim Löw, que vinham acumulando resultados positivos (quatro vitórias, uma das quais contra Portugal, e apenas um empate, com dez golos marcados e só três sofridos), apresentaram-se no Brasil com uma verdadeira máquina de jogar futebol, aproveitando o essencial do trabalho desenvolvido pelos profissionais do Bayern de Munique: Manuel Neuer, Boateng, Lahm, Schweinsteiger, Toni Kroos e Thomas Müller. Com Khedira, Özil e Schurrle também em excelente plano. No domingo, marcarão presença na oitava final da Alemanha em campeonatos do mundo.

E merecem.

 

 Foto David Gray/Reuters

 

Começou por ser um jogo histórico aos 23', quando Miroslav Klose marcou o 2-0. Batia-se mais um recorde num Campeonato do Mundo - o de Ronaldo, que conseguira 15 golos em fases finais do Mundial. Klose superou-o, apontando o golo nº 16 em 23 desafios disputados em cinco fases finais, desde o campeonato de 1998.

Nos cinco minutos seguintes, houve mais três golos alemães. À meia hora, perdendo por 5-0, era já evidente que o Brasil seria afastado do Mundial com uma derrota de dimensão inédita. Devido à incomparável superioridade do adversário, é certo, mas também a colossais erros próprios. Porque repetiu contra a Alemanha a estratégia inicial de pressão alta desenvolvida contra a Colômbia mas já sem o efeito surpresa. Porque se mostrou disposto a arrumar o jogo nos primeiros minutos sem medir as consequências dessa aposta temerária que desguarnecia o centro do terreno, estimulando o contra-ataque germânico. Porque permitiu defesas em funções de médios ou até como inesperados candidatos a avançados, como Marcelo e David Luiz, continuamente fora de posição, incapazes de recuperar o processo defensivo quando o Brasil perdia a bola. Foram-se abrindo autênticas auto-estradas no meio-campo brasileiro que a Alemanha, única equipa de cabeça fria, aproveitou da melhor maneira nas costas da defesa adversária.

 

Quando os (des)comandados de Scolari caíram em si estavam já mergulhados num pesadelo: a defesa ruiu por completo, começando pelo impotente Dante, com a mobilidade de uma estátua, e por um desvairado David Luiz, sempre ausente em parte incerta. A frágil organização de jogo eclipsou-se por completo. Jogadores como Fred e Hulk pareciam implorar para saírem dali. O descalabro psicológico contribuiu para afundar ainda mais o escrete, com prestações medíocres de quase todos. Na segunda parte Paulinho e Bernard ainda tentaram remar contra a maré, mas não era possível.

Sofreram sete golos. Podiam ter levado mais dois: Thomas Müller só não marcou aos 60' devido a uma magistral defesa de Júlio César e Özil, isolado aos 89', enviou a bola a um metro do poste.

Desporto colectivo, o futebol vive muito de valores individuais. Que por vezes podem fazer toda a diferença. Esta selecção de remendos, sem Neymar (ausente por lesão) nem Thiago Silva (ausente por castigo), parecia um Brasil de outro campeonato. E foi mesmo.

 

Nunca mais esqueceremos esta hecatombe: ficará para sempre gravada na memória de todos nós, do lado de lá e do lado de cá do Atlântico.

 

Alemanha, 7 - Brasil, 1

Que ganhe… o futebol!

Aproximam-se as meias-finais de um Mundial de futebol que colocou quatro das melhores equipas nesta fase (quase) final. Alemanha, Argentina, Brasil e Holanda vão digladiar-se entre hoje e amanhã para discutirem os dois lugares no Maracana. Um par de jogos que se prevêem muito emotivos e de resultado claramente incerto.

Neste Mundial não tive preferência por qualquer selecção (nem a portuguesa!!!) e nem agora penso nisso. Quem ganhar que o faça apenas com mérito e sem casos.

Curiosamente estas meias-finais resultaram em embates entre selecções europeias contra sul-americanas. Dois estilos de futebol assaz diferente, mas deveras atractivo.

O Brasil apresenta-se hoje sem Neymar nem Thiago Silva, mas nem mesmo estas condicionantes serão suficientes para retirar à equipa da casa algum favoritismo. Só que a Alemanha parece ser uma selecção imune aos estad(i)os de espírito. O treinador alemão conhece bem os seus recursos e sabe com o que pode contar. Disciplinada e assertiva, a selecção germânica tem jogadores com qualidade suficiente para num segundo resolverem qualquer partida.

Amanhã teremos então na outra meia-final duas equipas com percursos bem semelhantes, pois ambas ganharam todos os jogos dos seus respectivos grupos. No entanto a Holanda pareceu bem melhor tanto a nível futebolístico como a nível físico. A Argentina, por sua vez, tarda em convencer os adeptos do futebol da sua qualidade e não fosse Lionel Messi, provavelmente a equipa das Pampas já estaria de férias. E das duas uma: ou a Holanda ressente-se da última jornada com prolongamento e penalidades e a Argentina tem hipótese (mesmo sem Di Maria) de seguir em frente ou muito provavelmente os alvi-celestes vão discutir o terceiro e quarto lugares.

Seja como for perspectivam-se dois jogos de alta qualidade e com emoção a rodos.

Para mim só espero e desejo que o maior vencedor seja o apenas e só… o futebol!

 

 

Também aqui

Brazil I used to know

O Brasil adquiriu o estatuto de selecção do mundo nos anos 60: toda a gente queria que o Brasil ganhasse porque toda a gente adorava ver o Brasil jogar. Diz quem viu (não é, infeliz ou felizmente, o meu caso) em 1958 e 1962 que nunca se tinha visto nada assim: as imagens da selecção de 1970, apesar de nem sempre serem de boa qualidade, deixam perceber o que se terá passado nos doze anos anteriores.

 

Nos anos 70, os europeus aprenderam a lidar com os brasileiros, sobretudo graças ao "futebol total" holandês (vale a pena ver aqui o bailinho de habilidade holandês ao Brasil de 1974, que antecipava já os de agora, com um misto de futebol e râguebi: https://www.youtube.com/watch?v=ZTs2iwMqVMg). Nos anos 80, os brasileiros reapareceram com um futebol lindo (que eu tive o privilégio de ver), que se imaginava ir escavacar tudo como antes o de Garrincha, Pelé, Jairzinho, Tostão, Rivelino, etc. E no entanto, nunca conseguiram chegar sequer a uma meia-final (tanto em 1982 como em 1986). Foi um trauma de que nunca mais se libertaram. Desde então, o futebol brasileiro é invariavelmente horrível, com gradações: desde o muito horrível (1994) até ao moderadamente horrível (2002). Mas sempre bastante eficiente.

 

O Brasil tem toda a legitimidade para jogar feio, porco e mau. Quem somos nós para pedir que façam outra coisa, se esta até tem resultado? O que já não percebo é a sistemática bajulação do futebol do Brasil por tudo o que é fã incauto e jornalista. Não percebo o desejo parolo de que o Brasil ganhe. Isto é muito simples, meus amigos: o Brasil já não joga "bonito" vai quase para 30 anos. Já está na altura de perder o tal estatuto de selecção do mundo que toda a gente adora. Agora é simplesmente a selecção do Brasil, que joga feio, ganha e acabou.

 

O choradinho por estes dias é o Neymar. Foi uma falta incrível do jogador da Colômbia. Mas o Brasil fez a cama em que se deitou: antes de chegar essa falta, o meio-campo e a defesa do Brasil andaram a distribuir porrada por tudo o que era jogador da Colômbia (o mesmo já tinha acontecido, aliás, com o Chile, mas o Chile joga doutra maneira) com a geral complacência do árbitro. Se o árbitro os tivesse parado mais cedo, não só o jogo seria bem diferente como talvez ainda tivessem o Neymar.

 

Enfim, foi um desabafo enquanto faço horas para começar o Brasil-Alemanha. Não consigo torcer pelo Brasil, não consigo torcer pela Alemanha. Preferia que o outro jogo fosse a final.

A ver o Mundial (23)

No jogo dos quartos-de-final desta noite, disputado em Fortaleza entre duas equipas sul-americanas, houve emoção e sofrimento mútuo do princípio ao fim - exactamente ao contrário do que sucedera na insípida partida da tarde entre duas selecções europeias.

O Brasil foi superior à Colômbia e mereceu a vitória, que ainda assim foi muito suada e com resultado incerto até ao apito definitivo do árbitro. Com Maicon no lugar de Dani Alves, Scolari ordenou aos seus jogadores para iniciarem o desafio a grande velocidade e manterem pressão alta. Missão cumprida. E até facilitada, quando Thiago Silva apontou o primeiro golo, num lance de bola parada, logo aos 12'. A Colômbia - jogando em casa alheia e em estreia absoluta nuns quartos-de-final de um Campeonato do Mundo - demorou demasiado a equilibrar o jogo, sem explorar a sua principal arma: a rapidez nos flancos. O corredor direito quase não foi utilizado durante o primeiro tempo e jogadores de inegável qualidade, como Cuadrado, estiveram abaixo do nível habitual.

O Brasil, pelo contrário, fez o seu melhor jogo neste Mundial, funcionando como um verdadeiro colectivo. Isto apesar de Neymar ter estado menos acutilante, Fred continuar tão ineficaz como sempre e os golos terem sido marcados por dois defesas (o segundo, um livre marcado pelo pontapé-canhão de David Luiz aos 68', viria a ser o lance decisivo).

James Rodríguez abandona o torneio apontando mais um golo, de penálti. E vão seis, o que faz dele o melhor marcador até ao momento. Tem motivos para sair satisfeito apesar de a Colômbia ficar pelo caminho: revelou-se um dos astros indiscutíveis do Mundial.

O Brasil joga terça-feira a primeira meia-final, em Belo Horizonte, contra a Alemanha. Sem Thiago Silva, por acumulação de cartões, e talvez sem Neymar, que hoje saiu lesionado. Mesmo perante o seu público, sob a liderança carismática de Scolari e os ventos dominantes soprando a seu favor terá de mostrar mais do que revelou até agora para conseguir conquistar o hexa. Os milagres já não são o que eram - nem sequer no futebol.

 

Brasil, 2 - Colômbia, 1

Diário da Copa - O dia em que Marcelo foi herói

 

Ele chama-se Marcelo. Não quer dizer onde vive. É fácil adivinhar que a sua realidade não é a porta da frente, que nasceu do lado errado da cidade. De um dos demasiados lados errados de São Paulo.

 

É um mulatinho de calções curtos, pernas finas, cabelo crespo, olhos como a noite, brilhantes. Dá vontade de lhe perguntar o que esconde a atrás desses olhos. Tem 12 anos, diz, tamanho de nove, no máximo. Desde manhã cedo que peregrina pela Vila Madalena, bairro boémio de São Paulo que se tornou no epicentro dos festejos da Copa, com uma caixinha de cartão. Dentro da caixinha pacotes de balas (rebuçados) coloridas. Cada pacote um real. Marcelo, como a maioria dos meninos vendedores, não está lá sozinho, há toda uma rede por detrás. Mas disso também nao quer falar. Em São Paulo há mais de cem mil crianças e adolescentes, numa estimativa por baixo, que trabalham vendendo doces, panos de louça, engraxando sapatos, mendigando, fazendo malabarismos nos semáforos. A versão moderna da muralha medieval? Em São Paulo, como em Lisboa, é a janela do carro.

 

Marcelo, o menino desajeitado, entrou no José Menino Botequim, um bar na Mourato Coelho. Uma pequena subversão. A porta da frente é uma fronteira invisível. Entre os que podem pagar cem reais de entrada – com direito a cinco chopes ou duas caipirinhas – pelo privilégio de ver o Brasil jogar contra o Chile num écran plano, num ambiente “seleccionado”, vendo a rua a uma distância segura, e a rua. A rua, neste sábado, é compacta, tecida por homens e mulheres vestidos de verde e amarelo com as cabeças cobertas pelas mais inventivas variações de chapéus. O Inverno fez uma pausa. O calor é tão pesado que quase se toca com os dedos. Chove cerveja. Vuvuzelas, tambores, apitos.Uma explosão de som. Alegria seminal. Infernal.

 

Na mesa em frente à minha alguém vê o menino e prepara-se para o denunciar. “Trabalho infantil é crime”. “Deixa o menino ficar. Senta aqui”, diz um homem noutra mesa. São as pequenas delicadezas que dão sentido à vida. “Você quer alguma coisa?”. “Ver o jogo”, diz Marcelo. Tão pouco, tudo. Os anseios do  daquele menino eram iguais aos de todos no bar e o seu coração batia com o mesmo descompasso.

O Brasil empata com Chile. “Como vai ficar o jogo, Marcelo?”. “O Brasil vai ganhar. Vai ganhar sim”. Sopra com força na corneta amarela. Em torno todos riem com o menino. “Sou brasileiro com muito orgulho”, canta com uma voz que o corpo franzino não fazia supor. O bar chique enternece-se com o menino do morro. “Você vai dar-nos sorte?”. Enquanto se acredita no improvável há sempre uma oportunidade. “Dou sim”.

 

O Brasil vai a penaltis. De Roraima ao Rio Grande do Sul há uma nação suspensa das luvas de um goleiro com nome de imperador. “Assim ninguém vai poder dizer que o Brasil comprou a Copa, pô”. Deu Brasil e o menino chora. O bar abraça-se numa loucura. Um e outro e outro pegam no menino ao colo, atiram-no ao ar. “Você foi a nossa mascote. Nos deu sorte”. O bar compra a caixinha completa de balas ao Marcelo-mascote-herói e ainda paga o dobro. O Marcelo sorri, sorri sem reservas. Cumpriu um sonho “ver o jogo como os ricos da Vila (Madalena)” e hoje a mãe “não vai bater, nem chingar”.

O futebol inventou um jeito de igualar todos, pelo menos  por um dia.

 

Publicado também aqui

{ Blog fundado em 2012. }

Siga o blog por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Pesquisar

 

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D