09 Ago 17

«4 de Setembro de 1955.

 

Lisboa acordava debaixo de um concerto de nuvens cerradas que anunciavam cedo o fim do Verão. Um tempo desmotivador mas que não impedia a romaria de mais de 30 mil pessoas até ao Estádio Nacional, no coração do parque do Jamor. Era um dia especial, ainda que dificilmente o público pudesse imaginar o quão importante seria aquele momento para a história do futebol. Sem o saberem, nessa tarde de domingo, os adeptos tornaram-se testemunhas do acto em que a Europa consumou de forma definitiva a sua união. No terreno de jogo muito antes do que nos gabinetes ministeriais. O futebol encontrou uma forma de fintar as tensões políticas da Guerra Fria e ao mesmo tempo sarar as diferenças entre os vencedores da dura guerra mundial que tinha arrastado o mundo para o seu mais terrível pesadelo. Se dois anos depois, em Roma, seis nações da Europa Ocidental dariam selo oficial à Comunidade Europeia, nessa tarde de Setembro a Europa viveu o arranque do seu jogo sem fronteiras.

 

O duelo entre o Sporting Clube de Portugal e o Partizan de Belgrado significou o início das competições europeias de clubes organizadas pela UEFA. Era o ponto final de uma história de torneios meramente regionais e o primeiro passo para uma progressiva união do continente à volta do esférico. Estavam reunidas as condições perfeitas para o futebol ser a rampa de lançamento do que viria a ser conhecido depois como o processo de integração europeia.

 

 

A competição chamava-se oficialmente Taça dos Clubes Campeões Europeus mas nem o Sporting nem o Partizan tinham sido campeões das suas respectivas ligas. Representavam o que de melhor se tinha visto nos campos de jogo do Velho Continente nos anos anteriores e por isso foram escolhidos pela UEFA para participar na prova, jogando a sua partida inaugural. Nessa tarde não desiludiram. Os “Leões”, com três elementos do quinteto conhecido como “Cinco Violinos” ainda na equipa (Albano, Vasques e Travassos), começaram a vencer, com um golo madrugador de João Martins. O mesmo jogador iria apontar o último tento do encontro. Para trás tinha ficado um duelo intenso, com os jugoslavos a igualarem antes do intervalo para depois colocarem-se por duas vezes na frente do marcador, Com dez jogadores em campo, o Sporting aguentou a pressão do rival, liderado pelo notável dianteiro internacional jugoslavo Bora Milutinovic, e empatou a dez minutos do fim (3-3).»

  

In: PEREIRA, Miguel Lourenço [et al.] - Noites europeias: uma história das competições europeias de clubes - 1897-2013. Guimarães : Amor à Camisola, 2013. pp. 76/77

 

 

 

Informação complementar sobre João Martins, o autor do primeiro golo das competições europeias, neste artigo do «Observador».

 

(*) Com este título, Porque hoje é Quarta-feira, irei dar a conhecer excertos de textos, artigos de jornais ou a minha leitura de jogos europeus do Sporting.


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12 comentários:
De Carlão a 9 de Agosto de 2017 às 10:49
Em 1954/55, o SLBenfica conquistou o seu 8° título de Campeão Nacional, e é curioso que não foi indicado para representar Portugal na Taça dos Clubes Campeões Europeus da época seguinte (1955/56). Naquela altura os clubes eram sugeridos pelas entidades nacionais responsáveis e o SL Benfica, mesmo sendo campeão, não foi o escolhido pelo regime para disputar a prova europeia.

O clube que em 1954/55 terminou em terceiro lugar, atrás de Belenenses e SLBenfica, foi o clube escolhido pelo regime para disputar a Taça dos Clubes Campeões Europeus de 1955/56, falo do Sporting Clube de Portugal.

Felizmente dali a 6 anos, já com as regras de admissão a essa prova alteradas, o SLBenfica pode representar condignamente o nosso país com duas vitórias consecutivas na maior prova de clubes a nível europeu.

Factos, são factos!...


De AntónioF a 9 de Agosto de 2017 às 11:19
Meu caro,
o Sporting não foi escolhido pelo regime.
Leu o texto de forma desatenta. Provavelmente quando andava na escola primária a sua professora puxar-lhe-ia muitas vezes as orelhas por isso. Aqui não o fazemos, apenas o convido a ler este texto, do Miguel Lourenço Pereira ou do João Nuno Coelho - os autores do livro-, novamente.
Se o fizer poderá encontrar:

«A competição chamava-se oficialmente Taça dos Clubes Campeões Europeus mas nem o Sporting nem o Partizan tinham sido campeões das suas respectivas ligas. Representavam o que de melhor se tinha visto nos campos de jogo do Velho Continente nos anos anteriores e por isso foram escolhidos pela UEFA para participar na prova, jogando a sua partida inaugural.»

Quanto ao representar condignamente o nosso país… creio que todos os clubes deste país o fizeram e nós estamos contentes do primeiro golo europeu ser nosso... do Sporting.
Quanto à representação caricata, essa fica convosco… Por terem esquecido qual o tamanho dos pés dos vossos jogadores ou terem um roupeiro desatento (dizem que foram as meias) ou outra razão qualquer, as botas estarem sempre a sair dos pés jogadores na final que jogaram (digo jogaram e não perderam) com PSV.
Isso sim foi algo nunca visto numa final europeia. Hilariante!


De Carlão a 9 de Agosto de 2017 às 11:48
1. Esta edição da competição foi organizada pelo jornal L'Équipe e não pela UEFA. A UEFA não estava autorizada pela FIFA a envolver-se em competições europeias de clubes e consequentemente não teve qualquer papel na organização da prova. (E bastaria este simples facto para perceber bem o rigor do texto que destacou no post!)

2. Uma competição para Campeões nacionais, como se deduz do nome, ser disputada por equipas que não ganharam os respectivos campeonatos diz bem da forma aberrante como esta competição começou.

3. Sendo verdade que as equipas foram convidadas pelo jornal L'Équipe, não é menos verdade que esses convites foram feitos após auscultar as autoridades desportivas nacionais, que neste caso indicaram o Sporting, terceiro classificado, e não o Benfica que tinha sido o campeão nacional.

4. Este é um dos episódios que evidencia claramente a falsidade da narrativa dragarta, de que o Benfica era o clube de regime.


De AntónioF a 9 de Agosto de 2017 às 12:16
Meu caro,
se lhe persistem algumas dúvidas quanto à organização desta prova não vou ser eu a fazer esse esclarecimento. Contudo, remeto-o para o site oficial da UEFA:

http://pt.uefa.com/uefachampionsleague/news/newsid=2274292.html


De Carlão a 9 de Agosto de 2017 às 13:53
A principal competição europeia de clubes foi lançada um mês após o primeiro congresso da UEFA, que teve lugar em Wien na Austria, a 2 de Março de 1955. Contudo, a então denominada Taça dos Clubes Campeões Europeus não surgiu de uma iniciativa da UEFA, que estava mais preocupada em criar uma competição europeia para seleções.

A Taça dos Clubes Campeões Europeus foi uma idéia do então diretor L'Équipe, Gabriel Hanot, lançada em Dezembro de 1954. A partir daí o jornal francês passou a desenhar uma competição continental destinada aos clubes, que seria disputada nas noites de quarta-feira.

A competição idealizada pelo L'Equipe, iniciada em setembro de 1955, não obrigava a que os participantes fossem campeões nacionais, funcionava sim por convites aos clubes, tanto que das 16 equipes participantes na primeira edição, apenas 7 eram campeões nacionais. Note-se que não houve nenhum representante inglês.

Os representantes dos 16 clubes que confirmaram presença no torneio foram convidados para uma reunião que teve lugar nos dias 2 e 3 de Abril de 1955 e as regras do L'Equipe foram aprovadas por unanimidade.

Dado o desenrolar dos acontecimentos, a UEFA sentiu necessidade de não se deixar ultrapassar juntando-se aos organizadores da prova o Jornal L'Équipe. Na primeira edição os regulamentos originais, elaborados por Jacques Ferran, receberam luz verde com pequeno número de alterações. A UEFA convidou as federações a levarem os respectivos campeões nacionais, mas deu prioridade aos clubes que já tinham sido convidados pelo L’Equipe, sendo depois fundado um comité organizador da UEFA para suceder ao comité organizador original.

A partir da segunda edição, já com organização total da UEFA, acabou-se o regabofe dos convites... Passou a ir a competição quem tivesse demonstrado desportivamente que o merecia.


De JHC a 9 de Agosto de 2017 às 12:31
O que vai na Vossa cabeça é a mesma matéria de que são feitos os Guerras, Venturas, Gomes da Silva, Vieiras e por aí em diante...
Não há como rebater esta cartilha sem nos sujarmos...


De JHC a 9 de Agosto de 2017 às 12:27
É o que nós sportinguistas estamos sempre a dizer e vocês não percebem: somar trófeus não faz a grandeza de um clube. Para mais quando são conquistados com batota. Podem amontá-los todos, juntar ao "trófeu Proença", e cobrí-los com o "manto do colinho" e dos amigos queridos.
Em 1954/55, para o 1º jogo da Taça dos Clubes Campeões Europeus foi convidado o clube que mais vezes tinha sido Campeão Português de Futebol até a data(13 títulos) um verdadeiro Campeão, o Sporting Clube de Portugal, o melhor clube em Portugal e não do Porto ou de Lisboa.
Ainda hoje o Sporting Clube de Portugal é o clube português com mais títulos Nacionais e Europeus, e com mais atletas medalhados em Jogos Olímpicos e em Mundiais.
Assim, e merecidamente, O Sporting Clube de Portugal e João Martins, gravaram os seus nomes na História do Futebol Europeu com o 1º golo apontado numa competição europeia.
Factos, são factos!...


De Leão de Queluz a 9 de Agosto de 2017 às 14:22
O outro dizia :"é a economia estúpido!", neste caso é a História, Sporting campeão em 1947,1948,1949,1951,1952,1953,1954. Nesses anos o regime estava-se nas tintas para o futebol, o mesmo não aconteceu a partir dos finais da década de 50 quando começam a surgir nas "colónias" os movimentos de libertação.
É um facto histórico o apoio ao Benfica, "o clube do povo".


De JHC a 9 de Agosto de 2017 às 15:42
Sporting Clube de Portugal
Campeão de Portugal: 22/23, 33/34, 35/36, 37/38
Campeão Nacional: 40/41, 43/44, 46/47-47/48-48/49 (1º Tricampeão Nacional), 50/51-51/52-52/53-53/54 (1º Tetracampeão Nacional).
Com este palmarés quem deveria ser convidado? Um dos bicampeões?


De AntónioF a 9 de Agosto de 2017 às 15:55
João Martins, o marcador do 1º golo europeu, foi heptacampeão com o Sporting:
1948, 1949, 1951, 1952, 1953, 1954 e 1958 (seis vezes antes deste jogo).


De Leão de Queluz a 9 de Agosto de 2017 às 17:25
Muito bem
Também dado histórico, Peyroteu retirou-se em 1949 com 31 anos, isto custou ao Sporting o campeonato de 1949/50.
O Sporting esteve à beira de ganhar oito campeonatos seguidos.
Não reza a história que alguém do Sporting tenha dito :"Querem-nos tirar o penta!"


De JHc a 9 de Agosto de 2017 às 18:16
Outros tempos em que os jogos eram ganhos dentro das quatro linhas.
Hoje, fala quem sabe como fazê-lo, é possível tirar campeonatos escolhendo os "padres" e com a influência dos "meninos queridos".


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