07 Jul 16
Não há volta a dar
Pedro Boucherie Mendes

Na vida tendemos a reparar no exótico e desprezar os certinhos. Na bola, que é muito vida, é igual. Nem William, nem Adrien, nem João Mário e muito menos Patrício são exóticos, pintosos, tatuagens, cabelo ao vento, golas levantadas, meia em baixo, ligaduras coloridas nos pulsos. São jogadores de equipa, futebolistas profissionais, que, percebe-se, levam a sério o jogo, o que o treinador lhes diz. Jesus dirá umas coisas e agora, no momento, Fernando Santos dirá outras. E eles obedecem, porque aprenderam a obedecer porque é assim que se deve fazer quando está em causa um valor maior, que é o da equipa.
A estratégia – de sucesso – de Santos passa por minimizar brilho (porque brilho é muitas vezes risco) e privilegiar eficácia, seja contenção, seja no ocupar do espaço, seja no soltar a bola para o lado, seja no fechar a ala, seja na anulação das forças contrárias.
Lê-se nas notas que os desportivos dão nos dias seguintes aos jogos que há muito de adepto em quem escreve. Doze ou quinze lances discretos e eficazes perdem sempre na comparação para uma corrida desenfreada e inconsequente, de cabelo ao vento. Defesas seguras nos momentos chave, sem gritos e insultos a seguir para os colegas, são defesas óbvias, desvalorizáveis. Jogadores que erram mas que não se deixam afectar e continuam no jogo sem voltar a errar, são jogadores que erraram e pronto. Jogadores que começam a defender na grande área do adversário, impedindo-os de construir, são jogadores que tiveram uma actuação “regular”. Jogadores mágicos (como João Mário) não fazerem um único truque e assim obedecerem às instruções e deixando palco para outros, são exibições “discretas”.
Um dos méritos de Fernando Santos tem sido o anular quase por completo do exótico no jogo da nossa selecção. Mérito porque levou a equipa à final e nos recorda que na vida para ganhar é preciso primeiro não perder. E sim, até a mim me irrita, que também gosto de futebol exótico. O nosso é um futebol entre o cauteloso, o burocrático e o expectante. Por isso, os jogadores que citei, e outros obviamente, merecem mais aplauso por saberem e quererem anular alguma da sua natureza em prol do colectivo.
O adepto é adepto e pronto e até pode achar que Xis não jogou nada e que o Y é que é bom. Mas quem é profissional na observação da bola deveria, quanto a mim, explicar melhor aos seus leitores os méritos desta dinâmica em que o individual, o contrato de milhões, a manchete, a glória da espuma dos dias é secundarizada em nome do emblema que defendem. Foi isso, esse método e disciplina, que nos levou à final.
Somos todos Portugal, mas há uns, no campo, que o percebem melhor que os outros. Haverá volta a dar?


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8 comentários:
De Pedro Correia a 7 de Julho de 2016 às 13:12
Excelente análise, Pedro. Acerta na 'mouche'.


De miguel c. a 7 de Julho de 2016 às 14:03
No dia em que chegar a um Torneio destes um treinador que diga que lá vai para jogar bom futebol e o fizer mesmo, não lhe faltarão adeptos. E dos agradecidos! Não falo, evidentemente, dos profissionais da palheta e de jornalecos. Esses vão só dizer que o tal treinador é parvo, ou perto disso. A não ser q o tal treinador ganhe ...


De Carlos Silva a 7 de Julho de 2016 às 14:28
Muitos dos nossos jornaleiros desportivos, nomeadamente do berlinde, estão convictos que a mentira repetidamente escrita ou falada, se torna em verdade.
Contudo, deviam refletir na frase de Lincoln "Pode-se enganar a todos por algum tempo. Pode-se enganar a alguns por todo o tempo, mas não se pode enganar a todos todo o tempo". Hoje apetece-me cantar-lhes... mudem de rumo, mudem de rumo, já lá vem outro carreiro.


De Tadeu a 7 de Julho de 2016 às 16:26
O JM quando chega a casa também mete a peruca para sair à noite.Trabalho é trabalho e conhaque é outra coisa.
Ontem o jovem que vai sofrer na pele toda esta palhaçada.... não jogou absolutamente nada! Eu com 23 anos também corria muito!

SL


De Infiltrado a 7 de Julho de 2016 às 18:20
'Somos todos Portugal', mas denota precisamente que você não o é. Faz precisamente o mesmo que os jornalecos e pasquins, e eleva apenas os da sua cor, que não precisam disso. Se lesse mais isentos e profissionais, veria que os enganos e destaques que têm sido dados, não têm feito distinção da cor. Por último, todos os que entraram em campo, tal como disse, demonstraram que estão coesos e em linha com o mérito que aponta ao treinador (e que concordo em absoluto). Discordo em absoluto que haja uns a perceber melhor que outros, pois não há um único português que se possa dizer que não deu tudo, não confunda com má forma física/falta de talento. Não há volta a dar mesmo.


De Pedro Boucherie Mendes a 7 de Julho de 2016 às 18:28
Os jogadores, todos, percebem melhor que a (a maioria) dos jornalistas. Não fiz distinção entre jogadores. Não é culpa do Renato Sanches que o achem man of the match.

Se lesse com mais atenção perceberia que o que eu quis sublinhar é precisamente esse factor: jornalistas portam.se como adeptos e preferem o exótico, penalizando assim quem não é exótico. Ora isso é comportamento de adepto, mais apaixonado e tal. A responsabilidade de quem escreve ou comenta é outra.
SL


De Infiltrado a 7 de Julho de 2016 às 18:45
Eu li com muita atenção. Falou de observadores da bola (conotando-os de adeptos, que concordo) e depois diz que 'há uns, no campo, que o percebem melhor que outros.' No campo só actuam jogadores. Muito mais quando os observadores denotam tão rasca qualidade, mais se afastam a eles próprios de todo e qualquer 'campo'.

P.S. Sem comentários para a referência a Renato, já da praxe, ainda mais evocando uma votação online que vale pouco mais que zero. Há quem não consiga ser português, nem em tempo de Europeu, é pena.

O meu desejo é o de ganhar este torneio, só e apenas, numa oportunidade única de reafirmação da nossa nação, num mundo do futebol cada vez mais global.

Cumprimentos.


De Pedro Boucherie Mendes a 7 de Julho de 2016 às 19:12
Esta conversa de que não se pode dizer nada do Renato que não seja dizer que ele é o maior irrita-me e francamente desgosta-me.
Creio que o caro comentador, como outros, está a ver coisas onde elas não existem. Renato faz o seu jogo, dá o que tem e o que não tem, e ainda bem. Tem sido essencial à nossa selecção.
SL


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