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És a nossa Fé!

Memórias de Peyroteo (5)

(cont.)

 

« Terminado o ano lectivo, voltei para casa de minha saudosa Mãe.

Ali estive algum tempo até que, sem saber como nem porquê, voltei a Sá da Bandeira mas, desta vez, para a companhia de meu irmão Jorge, Inspector dos Caminhos de Ferro.

Por sina), foi esta a última visita que fiz à minha linda e saudosa cidade de Sá da Bandeira.

Meu irmão Álvaro fora, novamente, transferido, desta vez para a Agência do Banco de Angola em Nova Lisboa.

Sabendo disto, o amigo Acácio, que ia, na sua camioneta, levar carga a Nova Lisboa, convidou-me a acompanhá-lo.

Com aquele espírito de aventura aliado ao gosto de viajar, que sempre tive, aproveitei, com alvoroço, a oportunidade que se me deparava. E lá fui dar um abraço ao “Alvarinho” (o “barbaças” já conhecido do leitor).

De Sá da Bandeira a Nova Lisboa são, talvez, 400 quilómetros através do mato. Esta distância, percorrida em automóvel ligeiro, é agradável, rápida, não chegando a maçar. Mas a viagem feita em camionetas de carga, rodando vagarosa e pesadamente, torna-se monótona e estafante, tanto mais que, geralmente, se faz de noite, pela fresca.

Vencemos o sono com a esperança sempre enervante, perigosa mas agradável, de encontrarmos, pelo caminho, alguma fera ou simples animal corpulento, selvagem, sim, mas assustadiço e quase inofensivo.

Na realidade, andar centenas de quilómetros, à noite, em estradas serpenteando por entre mato cerrado, é de respeito e faz medo; sim, medo!…

Quando tínhamos andado uns cem quilómetros, os potentes faróis da camioneta incidiram sobre uma linda e corpulenta onça.

A meio da estrada, estático e imponente, o animai, olhava-nos bem de frente.

O Acácio segurou melhor o volante e disse-me:

- “Fecha os vidros da cabine que vou tentar atropelar o bicho”…

Carregou no acelerador e a pesada camioneta avançou para a fera que, talvez encadeada pela luz brilhante dos faróis, continuava imóvel. Em breves segundos tivemos a nítida impressão de que o rodado atingira a onça, esmagando-a, tanto mais que sentimos um ligeiro solavanco.

Andámos mais uns trinta metros para reduzir a velocidade e parámos o tempo indispensável para o carro fazer marcha atrás.

Vidros fechados, eu de pistola em punho, recuámos até um pouco mais além do sítio onde calculávamos ter atropelado a fera. Assestámos os faróis para o local e… não a vimos!

Ficámos convencidos de que a onça foi duramente atingida mas, assim mesmo, dotada de resistência inacreditável, teve ainda forças para dar um pulo e esconder-se no mato, ali próximo.

Ferida mas ainda com energia para atacar, esperava, traiçoeiramente, que saíssemos da camioneta…

Habituado a estas peripécias e, portanto, cauteloso e prudente, o amigo Acácio, preferiu seguir viagem sem mais delongas.

Porém, o leitor - homem destemido, capaz de enfrentar uma onça no maravilhoso Parque das laranjeiras - perguntará com altivez:

- “… Se estavam armados porque não dispararam, em vez de procurarem atropelar a fera?”

Eu respondo:

De dia, é extremamente perigoso falhar um tiro a uma onça; de noite, então, constitui temeridade.

No nosso caso, sairmos da camioneta representava o suicídio.

A onça, ferida de morte, encoberta com os arbustos, esperava o momento da vingança. Quantas mortes têm provocado em circunstâncias idênticas…

O caçador atira e, vendo a onça caída por terra, avança despreocupado. Nisto, a fera levanta-se e… era uma vez um caçador imprevidente…

É por isso que, em plena selva, muitas vezes deparamos com uma cruz sobre um monte de pedras - sinal indicativo de que ali perdeu a vida um homem que se embrenhou no mato, sem saber ao que ia…

A mania de ser valente tem custado a vida a muitos que, sabendo, embora, manejar uma espingarda, desconhecem a selva e o comportamento das feras, sobretudo, quando feridas.

Para a viagem a que me refiro, saímos de Sá da Bandeira ao fim da tarde e chegámos a Nova Lisboa no dia seguinte perto da hora do almoço.

No caminho, altas horas da noite, parámos para “ouvir” o silêncio da selva.

O estalar de folhas secas sob as patas de animais selvagens; o piar das corujas e o rugido, longínquo, do “Kurica” (leão, na língua indígena) obriga-nos a reconhecer a pequenês do homem perante a Natureza.

O leão estava bastante longe mas, mesmo assim, resolvemos seguir… É que este bicho, quando quer, caminha depressa e uma sua possível visita não nos agradaria muito… Toca a andar, enquanto é tempo…

Para mim, salvo o devido respeito pelos zoólogos, o leão não é, na realidade, o “Rei da Selva”.

Pelo que me foi dado conhecer da fauna angolana e pelo contacto pessoal que tive com Teodósio Cabral e Dr. Abel Pratas - o primeiro como caçador profissional de elefantes e o segundo na sua qualidade de médico veterinário, Director da Estação Zootécnica da Humpata e, também, óptimo atirador e caçador de feras - tudo me leva a não dar ao leão a glória da supremacia na selva. O elefante ocupa, sem dúvida, o primeiro lugar!

Para não me afastar dos motivos que me levam a escrever este livro, aconselho os leitores que porventura se interessem por estas coisas do mato, a lerem os quatro volumes intitulados “Da Vida e da Morte dos Bichos”, da autoria de Teodósio Cabral, Abel Pratas e Henrique Galvão.

São quatro livros de extraordinário interesse, obra séria que todos os estudiosos deviam conhecer.

Será bem empregado o dinheiro gasto e melhor aproveitado o tempo que dedicarem à sua leitura.

Não se trata de uma obra de ficção mas sim de um trabalho sério e verdadeiro.

Os autores dispensam adjectivos que os enalteçam e a obra não carece do meu pobre elogio.

 

Ao ver-me em Nova Lisboa, o Álvaro não se mostrou surpreendido.

Se, no rosto e um tanto fisicamente, somos parecidíssimos, também há, entre nós, uns pontos de contacto quanto ao génio, espírito de aventura e decisão.

Devo-lhe tanto que não sei se lhe dedico mais amizade do que respeito!

Feliz e contente, com a alegria estampada no rosto, abraçou-me e fomos almoçar.

Eu já conhecia Nova Lisboa, pois ali havia ido, em ano anterior, integrado numa companhia de artistas-amadores de Teatro que fez subir à cena a revista “Vidairada”, escrita e ensaiada por meu irmão Álvaro.

Com esta revista fizemos espectáculos em Sá da Bandeira (estreia), Moçâmedes e, a seguir, em Nova Lisboa. Foi um êxito!

Álém de três ou quatro “números” acompanhei à viola - com o Branco Lima à guitarra - uma garota de 10 ou 12 anos, cantando o fado. E que bem que ela cantava! Se a nossa grande artista Amália Rodrigues tivesse aparecido antes, dir-se-ia que a miúda procurava imitá-la.

E esta? O “arraza montanhas” do futebol, também foi “artista” do teatro e violista!

No dia imediato, já em Nova Lisboa se sabia da minha chegada e logo se organizou um desafio de futebol, contando-se comigo para fazer parte de uma das equipas.

No domingo, vinte e dois rapazes estavam no campo para… jogar à bola com o Fernando Peyroteo.

Por sorte, estive em tarde feliz!

Em abono da verdade diga-se que havia ali tão bons ou melhores jogadores do que eu mas, de qualquer modo, os dirigentes do Sporting local tentaram convencer-me a ficar em Nova Lisboa.

Depois, apelaram para a influência de meu irmão Álvaro e, dois ou três dias mais tarde, ofereceram-me um emprego na Secretaria da Administração Política e Civil.

Quando tudo estava preparado para tomar posse do lugar, meu irmão recebe uma carta do nosso amigo Norberto Santos, informando ter arranjado, em Luanda, uma boa colocação para mim.

Foi uma bomba! Os sportinguistas ficaram desolados e furiosos; jogaram todos os trunfos ao seu alcance para ganhar a partida.

Mas a resolução final pertencia à nossa boa Mãe.

Posta ao corrente das ofertas, escreveu-nos dizendo que julgava melhor aceitar a proposta do Norberto.

Luanda, sendo a Capital de Angola, oferecia maiores possibilidades de arranjar outro emprego, no caso do primeiro não agradai ou não servir para futuro. Além disso, estava já ali meu irmão Júlio (dois anos mais velho) ao qual me podia juntar…

Sendo esta a opinião, sempre acertada, da nossa Mãe, nada mais havia a fazer. Aceitei o oferecimento do Norberto, preparei as malas e o comboio levou-me até ao Lobito, onde tive a satisfação de abraçar o Albano de Abreu.

O navio “Lourenço Marques” transportou-me a Luanda. Não pensava em que jamais voltaria ao Lobito, a Nova Lisboa, Sá da Bandeira e a Moçâmedes.

Já lá vão 19 anos e confesso que tenho muitas saudades da terra angolana!..

 

No dia da chegada a Luanda houve uma corrida de “dongos” - embarcações feitas de troncos de árvores - cujos remadores eram negros.

O “Lourenço Marques” fundeou por volta das 11 horas da manhã.

No cais estava meu irmão Júlio e, com ele, o Norberto Santos, Romeu Galeano, Guilherme Carvalho (director do Sporting) Vitória Pereira, José Fernandes, Mário Dias e Telmo Vaz Pereira- o melhor avançado-centro angolano de todos tempos.

Tantos, tantos amigos que não é possível citar todos.

Após a costumada troca de abraços, aliás afectuosos e sinceros, fomos almoçar ao Hotel Luanda.

Reinava a boa disposição, a conversa era animada e os projectos sem conta de futuros cometimentos, no respeitante a futebol!…

O Sporting de Luanda usurpava os “direitos” do Benfica metropolitano, julgando-se…”o melhor do Mundo”!…

Tudo era risonho.

 

Sim; tudo era risonho, simples e fácil para os amigos, mas no que me di2ia respeito, a vida mudara completamente.

Entregue a mim próprio, tinha de pensar a sério no futuro. Jamais acreditei que o futebol, só por si, constituísse meio de vida para quem pense na velhice. Por isso tratei de começar a trabalhar.

Esperava-me o lugar de escriturário na Repartição de Contabilidade da Fazenda Pública, onde estive até ao dia do meu embarque para Lisboa, servindo sob as ordens de um bom Chefe de Secção e amigo, o senhor Carlos Morais Sarmento Amorim Cordeiro.

Ao leitor não interessa, certamente, saber quantos desafios de futebol joguei em Luanda, se ganhámos ou perdemos os encontros em que tomei parte e se, na realidade, com a minha ajuda, o Sporting Club de Luanda passou a ser “o melhor do Mundo”.

O público adepto do futebol justifica as derrotas do seu clube favorito com esta frase: … a bola é redonda!… e alguns jornalistas por sua vez utilizam outra, porventura de maior efeito - “a gloriosa incerteza do desporto

Em Luanda, a bola era redonda e sempre se manteve a gloriosa incerteza do desporto, a justificar a razão por que o futebol é sempre igual mas sempre emotivo, levando atrás de si a infância, a juventude e até a velhice.

Sem que a minha equipa pudesse fugir ao capricho da sorte do jogo e a todas as circunstâncias fortuitas que ditam os resultados, fiz muitos jogos e o Sporting Club de Luanda, mesmo com o melhor esforço do seu nóvel elemento, continuou a ser igual a si próprio, ganhando e perdendo campeonatos.

Uma vez na Capital da Província, voltei a praticar outras modalidades desportivas, especialmente o ténis e o “ping-pong”.

Sempre que era possível, ia aos “courts” do Banco de Angola e entretinha-me a jogar com outros amigos. Isto aconteceu poucas vezes, é certo, porque das 9 às 12 e das 14,30 às 17,30 estava na Repartição a trabalhar.

Não dispunha de muito tempo para me dedicar ao ténis mas, com boa vontade, fiz alguma coisa de jeito, embora não tivesse passado de um péssimo ténista. De resto, não jogava para regalo da assistência (?) e nunca pretendi entrar em competições. Era o “vício” dos desportos e nada mais.

Em “ping-pong” sim, fui mais além.

Eu conto: - em Luanda fazia muito calor e, por isso, os desportos a praticar dentro de casa não me atraíam, com excepção do ténis de mesa. Ainda hoje, sempre que posso e o jogo é susceptível de interessar, não deixo de assistir.

Por vezes, ia à Sede do Sporting, pegava na raqueta mas nunca fazia mais de três ou quatro jogos porque a transpiração me afligia sobremaneira.

Como é natural, havia verdadeiros furiosos pela modalidade e mais furiosos ficavam pelo facto de não conseguirem bater-me.

Não me considerava bom jogador e, como já disse, só acidentalmente pegava na raqueta, ao passo que os meus adversários passavam horas a treinar. Invariavelmente, eu ganhava os jogos, facto que os atormentava.

Um dia os furiosos lembraram-se de organizar um torneio inter-sóciós.

Os marotos prepararam-se com treinos diários e só na véspera ou ante-véspera do início da prova me convidaram a tomar parte nela.

De princípio, não aceitei o convite, pensado no sacrifício de ter de suportar duas ou três horas de calor.

Os camaradas insistiram, não me restando, por fim, outra solução que não fosse a de anuir. Fi-lo, porém, com uma condição: não mais de duas partidas em cada noite.

Para isso, dividiram-se os jogadores em dois grupos e os campeões de cada grupo defrontar-se-iam numa final.

Após três noites de sacrifício, vencendo todos os adversários ao segundo jogo, salvo erro, chegámos ao grande dia da final.

Na outra série ficou em primeiro lugar o Aníbal Paciência.

Lembram-se dele, certamente.

Saibam agora que jogou comigo no Sporting de Luanda, foi meu colega de trabalho e, mais tarde, meu camarada na equipa do Sporting Clube de Portugal. Hoje, somos bons amigos.

Pois foi o amigo Paciência quem se encontrou comigo na final do torneio de “ping-pong”.

Curioso é notar que o Aníbal se incluía no número dos furiosos que treinavam quase todos os dias e nunca jogava comigo, nem sequer a brincar. Este facto redobrava o interesse pela final do torneio.

Jogámos e o amigo Paciência teve que ter paciência; foi derrotado.

O Aníbal era, na verdade, melhor jogador mas convenceu-se de que eu era “galinha” e ele - comilão como sempre foi - contava “papar-me de churrasco” …

Enganou-se. O excesso de confiança foi-lhe fatal. Perdeu - t bem! - um torneio que só ele merecia ganhar.

Palmas, abraços e foi-me entregue a medalha de Campeão d- “ping-pong” do Sporting Clube de Luanda.

No fim de tudo, o Paciência, não se dando por convencido propôs-me jogar mais uma partida de desforra. - “Livra, que está muito calor. Amanhã na Repartição combinaremos isso; hoje… ou amanhã!”

Despedi-me, saí e fui à Ilha gozar o fresco da noite.

Mais tarde, voltámos a jogar e lembro-me perfeitamente de que só no terceiro encontro conseguiu vencer-me.

Enfim, perdi, ganhei, mas ficou a grande amizade que sempre existiu entre mim e o Aníbal-comilão.

Chamo-lhe assim porque - depois do Faquinhas - não conheci homem capaz de comer tanto! Na verdade, era preciso paciência para ver o Paciência comer.

Ao almoço, por exemplo, tragava dois pratos de sopa bem cheios! - uma cabeça de pescada à João do Grão, um bife de 750 gramas e respectivas batatas fritas, cinco ou seis pãezinhos, duas laranjas e, para finalizar, meia dúzia de bananas!

Isto, claro, em 1938/39 porque hoje, com a carestia da vida, faltava-me a coragem para o convidar, outra vez, para almoçar em minha casa… Nem ele, talvez, come agora tanto. Está mais velho e…”Deus dá o frio conforme a roupa”!…

Não é verdade, meu velho e bom amigo Aníbal Paciência?

Bons tempos!

 

O «DEUS ÁRVORE»

O Clube de Futebol “Marítimo» do Funchal (Madeira), foi em digressão a Angola e logo após o seu regresso tive o prazer de receber, enviado por pessoa amiga, um jornal do Funchal no qual se publicava uma crónica onde se relatava o que havia sido a viagem daquele grande Clube por terras africanas.

Impressionou-me agradavelmente a maneira amável como os madeirenses se referiam às gentes da minha querida Angola e à forma hospitaleira e amiga como todos os africanos ali receberam os componentes da caravana funchalense. Gente humilde e despretenciosa, encontrou em Angola povo igualmente humilde e despretencioso, que os recebeu com abraços de verdadeiros desportistas, cumprimento a que os madeirenses corresponderam, também, com a sinceridade dos seus abraços e manifestações de carinho e muito apreço.

Modesto e educado deve ser todo o bom desportista. O jogador de futebol de boa classe, o campeão de atletismo, enfim, o atleta que atingiu em qualquer modalidade os pináculos da fama e da glória desportiva, não deve, nunca, supor-se superior aos seus semelhantes, unicamente porque é… campeão. Se assim proceder será triplamente campeão: no desporto, na idiotice e na pobreza de espírito.

Ora, entre os muitos atletas (não os funchalenses, entenda-se desde já), que têm visitado as encantadoras terras de Angola e Moçambique, alguns deles - poucos, é certo - deram, infelizmente, sobejas provas da sua má formação desportiva. A fama e a glória que alcançaram no desporto perturbou-os ao ponto de se suporem algo superiores àqueles humildes mas verdadeiros desportistas africanos que os abraçavam, vitoriavam e recebiam com a hospitalidade e amizade sinceras que é apanágio das gentes africanas.

 

“ - Abraças-me, gritas pelo meu nome porque eu te sou superior, porque valho mais do que tu, porque sou um campeão. Por isso devo tratar-te como mereces, cá do alto da minha cátedra de atleta valoroso. Arreda que quero passar sem ser incomodado…-”

 

“ - Não, camarada, tu estás enganado. Não somos quem julgas, Modestos desportistas, é certo, apaixonados do desporto, mas sumamente mais educados e, afinal, até mais desportistas do que tu! Entendes? Recebemos-te bem, com abraços; vitoriamos-te mas não te somos inferiores. Não vejas na forma carinhosa como te recebemos qualquer sintoma de subserviência. Nada disso! Gostamos muito de te ver, de te acarinhar; admiramos-te pelas tuas proezas no desporto, mas não nos julgues uns pobrezinhos de espírito. Estás enganado, percebeste? Esta é gente bem formada e educada. Vai-te embora, desaparece da nossa vista e se alguma vez mais por cá vieres, modifica-te antes de pisares terra africana. Não sejas idiota! Sê modesto, correcto, educado e compreensivo. Se assim acontecer, então, beneficiarás da nossa hospitalidade, terás os abraços, os carinhos desta gente que sabe e gosta de receber bem. Pelo contrário, se mantiveres a mesma forma de proceder e pensar sobre a tua superioridade no teu débil entender, está claro -, então ignorar-te-emos, andarás de terra, em terra votado ao desprezo que merece a tua ignorância dos mais elementares deveres da boa educação e desportivismo”-.

Assim são e assim pensam todos os bons desportistas africanos. Sei que assim é porque nasci lá, em Angola, e conheço bem a mentalidade da gentes das terras de além Atlântico. E se não fora eu a dizê-lo, os exemplos de modéstia e compreensão e de correcção desportiva, estão bem à vista; palpam-se através do comportamento daqueles muitos rapazes africanos que pisam - e pisaram - campos de desporto na grande Metrópole.

Pois bem, amigos. Tudo isto veio a propósito duma crónica publicada no jornal do Funchal a que já me referi e na qual, entre muitas outras coisas interessantes, se dizia “ter eu nascido debaixo de uma árvore!!!”, ali muito perto da linda Vila de Humpata. Assim mesmo: que tive por tecto, no dia 10 de Março de 1918, a folhagem encantadora de uma árvore de grande porte! O que se afirmava nesse Jornal era o produto de uma informação colhida, creio, mesmo na Humpata, por alguns dos componentes da embaixada madeirense!

A notícia foi para mim uma autêntica revelação, que me fez rir a bom rir. Nascer debaixo de uma frondosa árvore não deixava de ter a sua graça, não acham? Por que embaraços teria passado minha querida e saudosa Mãe!!! Estaria habituada ao “acto” por ter já trazido a este Mundo de Deus uma razoável quantidade de raparigas e rapazes, pois eu fui o undécimo na escala dos nascimentos, mas assim, tendo como leito o chão duro duma estrada e por tecto a ramagem de uma árvore, não haja dúvida de que o caso deveria ter preocupado minha adorada Mãe! É caso para perguntar: e quem teria sido a parteira que lhe deu assistência?… Ah, já sei. Talvez um lindo exemplar de “leão”… E daí, até, a minha tendência para os…”lagartos” …

A primeira atitude que tomei logo após a leitura do jornal que publicou a célebre notícia, foi a de escrever ao amigo que teve a gentileza de mo enviar, dizendo-lhe que o facto de se afirmar lá pelo Sul de Angola que eu nascera em sítio tão impróprio e incómodo para minha Mãe, em nada me desgostou e que nem sequer poderia desmentir a afirmação Por mim, estava absolutamente convencido de que tinha vindo a este Mundo dentro de casa, num quarto modesto, é certo, tendo por tecto muito boa telha, que não deixava passar a chuva diluviana que, de vez em quando, caía na risonha Vila de Humpata. Sempre ouvi dizer aos meus que nasci na casa da Escola daquela Vila. E, agora, uma coisa destas, hein!!! Quem me havia de dizer!!! O mais engraçado de tudo é que, já com 12 ou 13 anos, visitei a Humpata e meu irmão Jorge - segundo na escala dos Peyroteos -, me levou a ver a casa e o quarto onde nasci. Estaria ele a enganar-me para não me desgostar, o que supunha suceder se me informasse do sítio onde agora se diz ter eu nascido? Não, não podia ser! Nesse tempo ninguém se atreveria a levantar semelhante boato; agora é que qualquer alma penada se lembrou de fazer “blague” com uma brincadeira sem pés nem cabeça.

Mas se eu achei graça ao disparate, meus irmãos mais velhos é que não gostaram nada da “blague”., E tanto assim é que, um deles, o Ricardo, que nunca estivera em África - foi dos que nasceu em Lisboa-, resolveu ir a Angola conhecer a numerosíssima família que ali vive. E rio seu regresso - que se verificou há bem pouco tempo -, trouxe-me uma fotografia tirada por meu irmão Jorge, na qual se vê a janela do quarto onde este vosso amigo nasceu. Daqui se pode concluir que, afinal de contas, tudo o que se afirmou sobre o meu nascimento não passa de um incompreensível boato. E é pena, pois eu achava um piadão ao facto de ter nascido “debaixo de uma árvore”, em pleno mato, ali à fresquinha, com o Sol tropical por testemunha e um “KURICA” (leão) a assistir! Rias não; meus irmãos mais velhos não querem assim, pelo que nada mais há a fazer do que acreditar na verdade das coisas. Paciência. Ficará para a outra vez…

O certo é que os pretos lá do sítio me consideram e tratam por o “Deus Arvore”…

 

A CAMINHO DE LISBOA

Em Abril de 1936, recebi, em Luanda, uma carta de minha Mãe na qual me informava de que os médicos impunham a sua vinda a Lisboa, para se tratar.

Como funcionária do Estado - professora oficial em Moçâmedes - tinha direito a gozar licença graciosa na metrópole.

Porque o seu estado de saúde não permitia que viajasse sozinha, convidava-me a vir com ela.

Embora a possibilidade de conhecer Lisboa me desse grande satisfação, contrariava-me o facto de ser forçado a abandonar o emprego. Por outro lado, não podia nem devia negar-me.

Quando, em Luanda, se soube da minha projectada viagem, agitou-se o meio desportivo. A novidade era comentada em toda a Cidade, Assediavam-me com perguntas, davam-me conselhos e faziam-me recomendações. Até o meu Chefe de Repartição, senhor Vasconcelos, me recomendou não deixasse de ir ao “Terreiro do Paço” cumprimentar o cavalo de D. José e ver bem qual era a “pata direita”.

Com o ar mais grave e sisudo que lhe conheci, dizia ser praxe a cumprir pelos africanos, na sua primeira visita a Lisboa!…

Claro que a gracinha não pegou porque eu sabia bem que a pata que está direita é a esquerda. Ou não fossem meus pais naturais da Metrópole, para nos falarem, com saudade, destes trocadilhos.

Por feliz coincidência, o senhor Vasconcelos foi meu companheiro de viagem, embarcando comigo, em Luanda, nos primeiros dias de Junho de 1937. A bordo, muito rimos a propósito da sua recomendação!

Estando resolvido, em definitivo, acompanhar minha Mãe, o plano estabelecido era oferecer os meus fracos préstimos à “briosa”, continuar os estudos e formar-me em medicina veterinária.

Entretanto, a Direcção do Sporting Clube de Luanda, por intermédio dos seus representantes e delegados, procurou convencer-me a ficar em Lisboa e jogar no Sporting.

Trindade Fernandes, meu particular amigo e distinto jornalista, teve acção preponderante na mudança da minha resolução. Aceitando os seus conselhos, alterei os planos.

Se fiz bem ou mal, o leitor ajuizará, quando voltar a última página deste livro.

Nas vésperas do embarque, o Sporting ofereceu-me um beberete na sede. Cumprimentos, discursos repassados de amor “leonino” e, por fim, o pedido formal e directo: que à chegada a Lisboa e antes de tomar qualquer compromisso desportivo, visitasse a casa-mãe, ou seja, a sede do Sporting.

Abro aqui um parêntesis para deixar bem explícito que prometi e cumpri. Mais adiante se verá a razão desta referência especial à promessa que fiz em Luanda.

Por agora, retomemos o fio da meada, para a história não perder o sabor.

No dia do meu embarque, Fernando Sá - ao tempo director do Sporting de Luanda - entregou-me 1.500 angolares, para despesas de viagem, importância esta que, segundo creio, foi restituída, mais tarde, pela Sede.

A bordo do “Niassa” começaram as andanças. O barbeiro do navio era benfiquista ferrenho e fez tudo quanto podia para me fazer vestir uma camisola “encarnada”; em contrapartida o amigo Fonseca - trompetista da orquestra -. era “leão” dos quatro costados.

Ali, em pleno Atlântico, travou-se, por minha causa, a primeira luta entre “águias” e “leões”!…

Amigo de ambos, ouvia-os, sorrindo, e aguardava a chegada a Lisboa…»

 

In: Peyroteo, Fernando - Memórias de Peyroteo. 5ª ed. Lisboa : [s.n.], 1957 ( Lisboa : - Tip. Freitas Brito). pp. 45-57

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