19 Mai 14

Lidia Faria.jpg

 

As muitas referências individuais a grandes figuras do desporto que ao longo da vida deste blogue foram sendo efectuadas pelos seus autores, eu incluído, nunca ou raramente contemplaram mulheres, tendo, no entanto, sido muitas as que, principalmente como atletas, mas também como dirigentes, técnicas, funcionárias ou simples simpatizantes, marcaram a história do Sporting e contribuiram, de forma mais eloquente ou mais modesta, mas sempre com devoção e generosidade, para a construção de um clube com a grandeza daquele a que nos orgulhamos de pertencer.

 

Como já disse várias vezes em textos publicados neste nosso espaço e como faço questão de afirmar em todas as ocasiões em que discuto o clube, fui educado como sportinguista e não como adepto da sua equipa de futebol. O Sporting, para mim, é, na verdade, muito mais do que um mero clube de futebol. O facto de ter crescido num ambiente familiar e social cujo modelo para o Sporting nunca deixou de ser o de um clube em que o ecletismo deve ser uma nota predominante levou a que outras actividades desportivas fossem vividas com um apego e uma emoção que hoje muitos considerarão quase anacrónicos, levou a que as suas vitórias e derrotas fossem celebradas ou lamentadas com um fervor, júbilo ou comiseração que, nos nossos dias, parecem estar reservados ao poder do futebol. Desde muito novo que muitos dos nomes para mim mais importantes do Sporting não são futebolistas, atrevendo-me eu até a dizer que estes estão em clara minoria no meu particular panteão clubístico. A começar, peço desculpa pela repetição, por Joaquim Agostinho, seguramente a minha maior referência em toda a história do clube. Muitos outros grandes nomes de muitas modalidades poderia mencionar nesta ocasião, como já fiz por diversas vezes, mas deixo essa tarefa, a que, por força da maneira como vivo e encaro o clube, me sinto obrigado, para outro momento.

 

O que hoje me move é a intenção de começar uma série de textos com que me proponho lembrar algumas grandes mulheres da vida do nosso clube, algumas mulheres que, às vezes, parece estarem a ser esquecidas e que, contudo, desempenharam um papel talvez decisivo  na consolidação e propagação do sportinguismo e contribuíram de forma extraordinária para que muitos e muitos portugueses transmitissem aos seus filhos estes sentimentos e esta cultura desportiva, esta vaidade de ter participado na construção e crescimento de um clube com milhões de adeptos a partir, já lá vão mais de cem anos, da iniciativa de um pequeno núcleo de fundadores.

 

A maior parte destas atletas foi, por motivos óbvios, relacionados com problemas culturais no debate dos quais não é agora o momento de entrar, praticante de desportos marcadamente individuais, sobretudo o atletismo, tendo sido muito poucas, tanto quanto me consigo lembrar, as que se destacaram em desportos colectivos. Vou, dividindo-os por diferentes posts, mencionar apenas alguns nomes especialmente relevantes, aqueles que considero imprescindíveis, estando a pequena lista que apresentarei limitada pela minha memória, pelo que algumas omissões, embora involuntárias,  obrigam, desde já, a que muito humildemente me penitencie.

O primeiro grande nome feminino de que imediatamente me lembro e que continua a constituir para mim, falemos de mulheres ou de homens, um dos maiores da história do Sporting, é o da excepcional Lídia Faria. Veio muito nova de Torres Vedras para Lisboa e a totalidade da sua carreira no atletismo, que poucos mais campeonatos, troféus e recordes poderia contar, foi prosseguida no Sporting, onde permaneceu durante 12 anos, de 1959 a 1970. No decurso destas temporadas, que sucederam a uma longa era de domínio do Belenenses no atletismo feminino, o Sporting foi sempre campeão nacional e regional e Lídia Faria foi, portanto, sempre campeã também em todo esse período, tendo o seu desempenho, em conjunto com o de outras atletas de que falarei posteriormente, sido crucial na conquista de tantos títulos. O currículo de Lídia Faria é demasiado vasto para ser totalmente incluído num texto deste tipo, mas os aspectos essenciais podem ser consultados aqui. De entre os muitos motivos para nossa imensa admiração, quase diria assombro, na carreira desta grande atleta - contrariando ideias feitas, os seus melhores desempenhos tinham lugar, não obstante uma figura muito elegante, nos lançamentos - destaco o facto de, além dos títulos colectivos já mencionados, ter sido campeã nacional individual por 25 vezes em 7 especialidades diferentes, algo que hoje seria impossível mas que, mesmo naquele tempo, só estava ao alcance de praticantes de eleição, e o seu comportamento num Portugal - Espanha, em 1964, no qual Lídia Faria bateu 4 recordes ibéricos, de 80 metros barreiras, 4x100m, lançamento do disco e lançamento do peso, tendo ganho, ainda, a prova de 100 metros. Ao pensar que teve 17 recordes nacionais e ibéricos nas  disciplinas de disco, peso, 100m, 80m barreiras, 4x100m, 200m, 400m e pentatlo, fico quase sem fôlego e sinto-me desobrigado de uma busca mais aprofundada. É, de facto, impossível fazer agora uma descrição pormenorizada da sua carreira fenomenal, pelo que aconselho os interessados a recorrerem, mais uma vez, a registos oficiais, sites ou blogues que se debrucem sobre o assunto. Lá, com Lídia Faria, os mais velhos poderão rememorar tempos de autêntica grandeza e os mais novos poderão inspirar-se num nome gigante da história do Sporting. Todos nós, além disso, poderemos recordar ou começar a aprender o significado do ecletismo.

 

 

O brilhantismo da sua carreira e o seu enorme sportinguismo  levaram a que Lídia Faria fosse distinguida com o Prémio Stromp, em 1964, e tivesse feito parte da Comissão de Honra do Centenário do clube. Antes, em 1970, Lídia Faria fora homenageada numa grande festa de despedida, em que, entre outros, esteve presente Joaquim Agostinho, vindo, para o efeito, propositadamente de França, onde também nos dava grandes alegrias. Esta festa permitiu, pois, que, ainda que por breves momentos, se juntassem duas das mais inesquecíveis figuras da história do nosso clube.

 

Em resposta a questão que lhe foi colocada pelo Jornal do Sporting na ocasião do convite para integrar a Comissão de Honra do Centenário, Lídia Faria declarou:

Acima de tudo, que a equipa de futebol possa ser campeã, porém, sinto uma grande mágoa por perceber que cada vez mais, o Sporting é um clube de futebol. As outras modalidades, que foram as responsáveis por tornar o Sporting num clube grande, quase não existem. Mudaram de estádio e dá-se muito ao futebol, em desfavor das outras modalidades. Não quero com isto dizer que não gosto de futebol, pois sou grande adepta, assisto sempre que posso aos jogos de futebol, modalidade que também gostava muito de praticar. Tinha jeito para defender, mas também para marcar golos...

Acrescentou depois, respondendo a outra pergunta:

«Em 1966, o professor Raimundo ia buscar-me a casa ,ás 6 da manhã, treinava em Alvalade, entrava ás 10 no meu emprego no “Diário Popular” e, ás 17h30, voltava para o estádio, chegando a casa sempre depois das 10 da noite. Tudo isto sem qualquer retribuição financeira, a não ser os transportes. Como era completamente amadora, necessitava de trabalhar para subsistir e, um dia, o Artur Agostinho, director do jornal “Record” – e a ele agradeço por isso, pois escrevia uma coluna no jornal- perguntou-me se gostava de ir trabalhar para o “Diário Popular”. Respondi afirmativamente, o Artur falou com o Brás Medeiros que, nessa mesma noite, me ligou a marcar uma reunião no seu gabinete junto á Porta 10 A. Perguntou-me “quando queres ir?” Disse-lhe “quando o doutor quiser”. Retorquiu: “Aparece então amanhã”. Tive a minha entrevista de emprego no Estádio José Alvalade.

 

 

Lídia Faria abandonou-nos com 65 anos, em 29 de Setembro de 2007, nova ainda, mas tendo vivido o tempo suficiente para deixar uma marca inapagável na história do Sporting. Gostou apaixonadamente do clube, como adepta e atleta, e deixou um legado que não será nada fácil igualar, a julgar pela maneira como nas declarações acima transcritas, em mais uma grande lição de amor ao Sporting e ao desporto, descreveu os sacrifícios que o atletismo impunha ao seu ritmo de vida, hoje quase inimaginável. Obrigado por tudo, Lídia Faria.


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7 comentários:
De Pedro Correia a 19 de Maio de 2014 às 21:10
Excelente ideia para uma série leonina aqui no blogue, João Paulo. E começa com chave de ouro. Venham mais!
Um abraço.


De João Paulo Palha a 19 de Maio de 2014 às 21:43
Obrigado Pedro, a minha ideia é que venham mais, muitas mais, se for possível. Nomes não faltam.
Um abraço


De Ricardo Roque a 20 de Maio de 2014 às 00:28
Excelente ideia. Parabéns. E há tantas razões para tantos textos como este!


De João Paulo Palha a 20 de Maio de 2014 às 19:44
Há, de facto, muitas razões. Espero lembrar-me delas.


De Cristina Torrão a 20 de Maio de 2014 às 11:20
Parabéns, João Paulo, aplaudo de pé! E lerei todos os textos desta série com grande interesse.


De João Paulo Palha a 20 de Maio de 2014 às 19:46
Obrigado Cristina, espero corresponder à expectativa.


De poetaromasi a 9 de Maio de 2015 às 23:21
O meu sentido pesar. desconhecia que a grande Lídia Faria tinha falecido. Recordo a minha participação na festa da despedida onde corri 400 metros.
Eterno abraço Rogério Martins Simões


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