19 Jun 14
A ver o Mundial (9)
Pedro Correia

Não sei qual é a vossa opinião, mas para mim este Campeonato do Mundo está a ser um dos melhores. Já vi jogos excelentes, muito emotivos e bem disputados. Jogos em que os ataques se sobrepuseram às defesas, em que a ousadia suplantou o calculismo táctico, em que algumas das equipas menos cotadas surpreenderam os habituais coleccionadores de vitórias.

Inglaterra-Itália, Chile-Espanha, Brasil-México e Espanha-Holanda foram alguns desses jogos que perdurarão na memória de milhões de aficionados desta modalidade no mundo inteiro.

Hoje vi mais um para juntar aos restantes: o Inglaterra-Uruguai, disputado no estádio do Corinthians.

Parecia um daqueles desafios de outros tempos, antes de o desporto-rei ser capturado pelos catedráticos da táctica, mestres no "processo defensivo" (como agora se diz), cultores do futebol aferrolhado.

Felizmente quase ninguém tem jogado para o zero no Brasil (o Irão de Carlos Queiroz e a Grécia de Fernando Santos são as excepções mais notórias).

 

Foi um jogo aberto, dinâmico, veloz e virado para o golo.

Um jogo em que as dinâmicas colectivas sobressaíram, mas algumas individualidades fizeram a diferença.

Pelo Uruguai, Luis Suárez (regressado após lesão e já considerado um dos melhores jogadores deste Mundial), Cavani (autor de uma monumental assistência para golo) e Alvaro Pereira, que embora lesionado na cabeça - num choque ocasional com Sterling em que chegou a perder os sentidos - fez questão de permanecer em campo, dando assim uma enorme lição de tenacidade e resistência. De profissionalismo, em suma.

Pela Inglaterra, o jovem Sterling - que prometeu mais do que concretizou nesta sua estreia num Mundial, o guarda-redes Joe Hart (autor de uma defesa quase impossível) e sobretudo Wayne Rooney, o mais inconformado dos ingleses: marcou um golo - o seu primeiro num Campeonato do Mundo - e quase marcou outro, quando a bola embateu na barra.

A emoção durou até ao fim. Também como sucedia quase sempre nos velhos tempos. E até por isso é com mágoa antecipada que nos despedimos da Inglaterra, quase sem hipóteses de seguir em frente após duas derrotas tangenciais consecutivas. Mas ninguém pode acusar os ingleses de não se terem batido com garra, brio e valentia. Perderam, mas nunca viraram a cara à luta. Exemplares também por isso.

 

Inglaterra, 1 - Uruguai, 2

 

Luis Suárez: dois grandes golos


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4 comentários:
De Luciano Amaral a 20 de Junho de 2014 às 01:08
Muito bom o Mundial. Começou mal, com as duas óbvias roubalheiras a favorecer o Brasil, mas tem continuado muito bem. Esperemos que o caseirismo não regresse quando a coisa apertar.


De Pedro Correia a 20 de Junho de 2014 às 19:13
Hoje voltou a haver outro penálti escandalosamente não marcado, contra os italianos, no jogo Costa Rica-Itália. Felizmente o Mundial está a ser bom, mesmo com estes árbitros a fazerem tudo para estragá-lo.


De João André a 20 de Junho de 2014 às 21:18
O mundial está a ser excelente, muito por força da evolução táctica dos últimos anos, que demonstraram que é possível ser bem sucedido com futebol reactivo mas dinâmico. Por outro lado, o sucesso das evoluções tácticas baseadas na pressão alta intensa e que ajudaram a fazer cair o mito do Barcelona e da Espanha, demonstraram que a solução contra as tácitas baseadas na possessão não é a defesa muito profunda, mas a pressão. Por fim, ajuda que o nível dos defesas, especialmente dos centrais, esteja no nível mais baixo das últimas décadas, pelo que a solução é tentar marcar mais que o adversário, em vez de sofrer menos.

Em relação a Álvaro Pereira, é verdade que foi impressionante, mas para mim foi também irresponsável. Estudos médicos indicam que se um jogador perder os sentidos em jogo por causa de uma pancada na cabeça, não só deve ser imediatamente substituído como deverá ser deixado em repouso absoluto uma semana. No curto prazo as consequências são pequenas, mas no longo prazo podem ser muito graves (acrescido risco de tumores, demência, Alzheimer, etc).

Rooney, para não variar, desiludiu-me. Tem sempre muita vontade e muita energia, mas pouca noção de táctica. Não é que não saiba o que fazer, mas a sua análise de cada situação não é a melhor. Além disso, a pressão a que está submetido na selecção inglesa, fá-lo tentar resolver tudo sozinho, o que estraga o seu desempenho. Se os ingleses não pararem de esperar pelo Sebastian deles (que há-de surgir numa noite de nevoeiro em Anfield ou Old Trafford, suponho), continuarão a estragar os jogadores de classe mundial que vão produzindo (ir seguindo Sterling e Barkley, muito interessantes).


De Pedro Correia a 20 de Junho de 2014 às 23:26
1. De acordo. Escrevo sobre isso mais acima: este Mundial está a mostrar um futebol mais veloz, pressionante, inconformado. Lembro-me de outros (o de 1990, por exemplo) em que vários dos chamados jogos cruciais foram um tremendo bocejo. As inovações de ordem táctica têm muito a ver com a qualidade do espectáculo a que vamos assistindo nos estádios do Brasil.

2. Sim, tens razão. A equipa técnica e a equipa médica deviam ter sido peremptórias na ordem para o ex-jogador do FCP abandonar o terreno de jogo. Coloquei-me apenas na óptica do jogador: a recusa dele em sair só revela a tenacidade e o espírito de combate próprios dos verdadeiros profissionais do futebol que não estão sempre a arranjar desculpas (o árbitro, o clima, as chuteiras, o empurrão do adversário, a pseudo-lesão) para se esquivarem às suas responsabilidades. Outros, por muito menos, não se importariam nada de abandonar o jogo.

3. Rooney tem os seus defeitos, mas a verdade é que quando foi preciso marcar lá estava ele. Conseguiu-o, fazendo aliás o seu primeiro golo numa fase final de um Mundial. Algo que a estrela britânica do momento, Sterling, ainda não conseguiu.


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