18 Jun 14
A ver o Mundial (7)
Pedro Correia

A imagem de Xavi Hernández, sentado no banco de suplentes durante todo o jogo, era bem sintomática do fim de ciclo a que acabámos de assistir em directo: o melhor intérprete do tiki-taka espanhol assistia, impotente, ao naufrágio da equipa campeã mundial e bicampeã europeia. Uma equipa de que ele foi um dos intérpretes de excelência mas que a partir de hoje pertence ao passado.

A intrépida Roja que maravilhou o mundo com o seu futebol de alta voltagem e qualidade indiscutível não chegou sequer a comparecer no Mundial do Brasil. Após a copiosa derrota frente aos holandeses (1-5), os homens comandados por Vicente del Bosque voltaram a baquear (0-2), desta vez frente ao Chile. O seleccionador não teve coragem de operar a mudança radical que se impunha: o próprio Casillas, reduzido a uma caricatura de si próprio, manteve o lugar cativo na baliza espanhola.

Fica a lição para Paulo Bento: Portugal só superará o próximo obstáculo, contra os Estados Unidos, se o nosso onze titular foi substancialmente diferente daquele que sofreu quatro golos sem resposta frente à selecção alemã.

 

No jogo de hoje, disputado no mítico Maracanã, o Chile foi sempre uma equipa mais compacta e bem organizada, capaz de travar a fúria espanhola, que aliás mal compareceu em campo. Os dois golos da vitória chilena surgiram cedo, ainda na primeira parte. Mas nem assim Del Bosque foi capaz de apostar decisivamente no ataque, limitando-se a trocar jogadores para as mesmas posições à medida que o cansaço físico ia tornando cada vez mais ineficaz o processo ofensivo da selecção que ainda conserva o título de campeã do mundo.

Também neste aspecto o Chile-Espanha deve servir de lição para Paulo Bento: não basta mudar jogadores - é preciso alterar o sistema táctico. Porque Portugal não precisa apenas de vencer no próximo domingo. Precisamos de marcar vários golos, que nos poderão ser preciosos como critério de desempate.

 

Do inapelável naufrágio da equipa espanhola, que jogou sempre desligada e com um incompreensível desenho táctico, praticamente só se salvou o melhor dos seus artistas: o incomparável Iniesta. Teimando em remar contra a maré do princípio ao fim, o médio do Barcelona procurou incutir inspiração e ânimo aos seus colegas. Foi dele até, aos 84', o remate mais perigoso à baliza do excelente guardião chileno, Bravo.

Mas esteve sempre desacompanhado: ninguém lhe seguiu as pisadas. No final do encontro, consumado o prematuro afastamento da selecção espanhola deste Campeonato do Mundo, Iniesta abandonou o campo de lágrimas nos olhos. Como Eusébio após a meia-final perdida contra a Inglaterra no Mundial de 1966.

Os gigantes são assim: caem de pé. Destroçados mas não vencidos, como o pescador Santiago d' O Velho e o Mar, de Hemingway. Merecem a nossa admiração também por isso.

 

Chile, 2 - Espanha, 0

 

Iniesta: fim de ciclo


comentar
4 comentários:
De SLB-33 a 19 de Junho de 2014 às 01:08
Caro Pedro Correia,
"Fica a lição para Paulo
Bento: Portugal só superará o próximo obstáculo, contra os Estados Unidos, se o nosso onze titular foi substancialmente diferente daquele que sofreu quatro golos sem resposta frente à selecção alemã." Eu não escreveria melhor.


De Pedro Correia a 19 de Junho de 2014 às 01:21
Registo com agrado esta sintonia, meu caro.


De Jaques a 19 de Junho de 2014 às 04:07
O facto de (quase) só fazer passes para o lado, de passar épocas inteiras a dormir e em sub-rendimento, de ter a potência de tiro de um Moutinho, de ter uma média de golos pior que o Rui Costa, e de ter marcado um golo de caca (na pequena área) a 3 minutos do final do prolongamento do Mundial de 2010 (depois de uma falta não assinalada sobre o holandês Elia), não significa que não estejamos perante o melhor médio ofensivo da história do futebol mundial, muito melhor que o Ozil (este sim, “sempre muito irregular”), o Zidade, o Zico, o Zito, o Zagalo e o Zizinho juntos. É incompreensível como é que nunca ganhou pelo menos três Bolas de Ouro no mesmo ano. O futebol moderno é muito injusto...


De Pedro Correia a 19 de Junho de 2014 às 09:18
Não lhe compete marcar golos mas abrir linhas de passe e fazer assistências para outros marcarem. Os médios, defensivos e ofensivos, são injustamente tratados nestas classificações para eleger os melhores do mundo. Por isso tais classificações valem o que valem: são sempre arbitrárias.


Comentar post

Autores
Pesquisar
 
Posts recentes

A minha costela Jota Jota

Pontos nos is.

A Europa e o Vida

Esperança

Irritação

P.O. a D.D. - A sério?

Manto de silêncio

Ódio puro e duro

Os nossos comentadores me...

Como utilizar um miúdo 15...

Arquivo

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Tags

sporting

memória

comentários

selecção

bruno de carvalho

leoas

vitórias

prognósticos

há um ano

jorge jesus

campeonato

balanço

slb

arbitragem

benfica

mundial 2014

jogadores

rescaldo

taça de portugal

liga europa

godinho lopes

eleições

euro 2016

árbitros

ler os outros

futebol

golos

clássicos

comentadores

nós

marco silva

crise

scp

cristiano ronaldo

análise

chavões

formação

humor

liga dos campeões

slimani

todas as tags

Mais comentados
158 comentários
155 comentários
152 comentários
136 comentários
132 comentários
132 comentários
114 comentários
Ligações
Créditos
Layout: SAPO/Pedro Neves
Fotografias de cabeçalho: Flickr/blvesboy e Flickr/André
blogs SAPO
subscrever feeds