16 Jun 14
A ver o Mundial (4)
Pedro Correia

Os limites óbvios da excelência individual num desporto colectivo ficaram esta noite bem patentes ao minuto 65 do Argentina-Bósnia-Hergezovina. Um jogo em que a teia colectiva - de ambos os lados - prevaleceu sobre o génio individual, excepto no lance que originou o golo da vitória tangencial dos argentinos, protagonizado pelo suspeito do costume: Lionel Messi. Conduzindo a bola para onde quis, em fracções quase milimétricas de terreno, por uma vez o astro do Barcelona conseguiu libertar-se da marcação cerrada e rematar com o seu magnífico pé esquerdo para o buraco da agulha.

 

Houve duas partidas numa só. Na primeira parte, em que abdicou dos laterais para formar um tridente defensivo como parece estar a tornar-se moda neste Mundial, o seleccionador argentino sofreu diversos calafrios ao reparar nos bósnios demasiadas vezes em zonas de perigo. Nunca me lembro de ter visto o nosso Marcos Rojo tão adiantado: jogou como médio ala, funcionando por vezes quase como um extremo.

O alarme soou cedo, mas as alterações tácticas só surgiram no segundo tempo, já com o quarteto defensivo recomposto, o que aliviou a pressão bósnia, e o ataque refrescado (uma selecção que se dá ao luxo de ter Higuaín 45 minutos no banco e nem pôs Enzo Pérez a fazer exercícios de aquecimento tem tudo para ser temível).

 

As mudanças operadas pelo seleccionador Alejandro Sabella produziram efeito: a Argentina, mais precatada e calculista, tomou as rédeas da partida e não voltou a largá-las, mesmo após ter sofrido o golo bósnio. Um golo caricato, que Romero revisitará a partir de agora nos seus piores pesadelos cada vez que recordar a bola a passar-lhe debaixo das pernas e a dirigir-se tranquilamente para a linha de golo sob o olhar impotente do infeliz guardião.

Rojo foi uma das figuras da partida, com as virtudes e defeitos que bem lhe conhecemos. Partiu dele o remate que originou o primeiro golo argentino, após tabela num defesa bósnio, Kolasinac, iam decorridos apenas três minutos. E foi também ele o único argentino contemplado com um cartão amarelo - castigo que o levou a ser menos impetuoso. É ainda muito jovem, tem tempo de sobra para adequar os nervos ao talento e tornar-se um futebolista de primeiríssimo plano. Jogue em que posição jogar.

 

Tendo como palco o espectacular Maracanã reconstruído para o Campeonato do Mundo, este desafio deixou igualmente bem evidentes os condicionalismos climáticos do torneio: mesmo realizado já ao cair da noite (a partir das 23 horas em Portugal), o jogo deixou de disputar-se com a intensidade física anterior quando faltavam ainda vinte minutos para chegar ao fim.

Demasiado calor, demasiada humidade, demasiada tensão. Questiono-me como ocorrerá o embate desta tarde, em Salvador, entre portugueses e alemães a partir das 13 horas locais...

 

Argentina, 2 - Bósnia-Herzegovina, 1

 

Messi na jogada do golo contra a Bósnia-Herzegovina


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4 comentários:
De SLB-33 a 16 de Junho de 2014 às 14:02
Boa Tarde,
Concordo inteiramente com o seu texto e principalmente com o último parágrafo. Incrivel como se marca um jogo par a as 13h. Isto não é promover o futebol...


De Pedro Correia a 16 de Junho de 2014 às 14:13
Pois. Que qualidade de futebol é possível com jogos disputados a temperaturas sufocantes, com enorme humidade e precisamente à hora do maior calor?


De SLB-33 a 16 de Junho de 2014 às 22:16
Mas o pior de tudo é a logística da FPF e ainda não vi ninguém a criticar (jornalistas e comentadores) O problema reside no facto de o clima de campinas (cidade do interior de são Paulo) nada tem a ver com o clima de Manaus (Estado Amazonas) ou de Salvador (Bahia). Já Barsília (distrito Federal) tem um clima parecido com CAmpinas. A Seleção Alemã montou a sua base na Bahia pois realiza os seus 3 jogos no Nordeste, e chegou ao Brasil dia 8, o Gana montou a sua base em Maceió (Alagoas) e faz 2 jogos no Nordeste, somente chegaram dia 11 mas o clima do nordeste é muito semelhante ao do Gana por isso a adaptação será rápida. já os EUA cometeram o mesmo erro que nós e escolheram a cidade de São Paulo. isto vale o que vale mas penso que em alta competição os pequenos pormenores contam muito. A minha esposa é brasileira e quando disse a ela que que Portugal ia ficar em campinas ela viu no mapa que campinas ficava em São Paulo, depois viu onde seriam os jogos de Portugal e disse logo que era um erro de Portugal pois o clima é diferente de São paulo para o norte e nordeste do Brasil.


De Pedro Correia a 17 de Junho de 2014 às 00:01
Tem toda a razão, SLB. O seu comentário é muito pertinente. Sou até capaz de o destacar aqui no blogue.


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